12/05/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #10


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08, DL#09.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 3 - Segunda Parte


↪ Essa parte foi bastante interessante e repleta de momentos excelentes, então será difícil concatenar adequadamente todas as ideias; mas vamos lá.


↪ Tolstói prossegue ratificando e aprofundando seu ponto de vista sobre o conflito com a França e suas teorias ensaísticas a respeito de guerras em geral. Para isso, ele vale-se da ótima narrativa do avanço das tropas francesas na Rússia e da sua respectiva obstrução conquistada vitoriosamente pelo exército russo nas batalhas de Chevardinó e Borodinó (C/B). Pois é, Napoleão sentiu finalmente o gosto amargo da derrota. A vitória russa nos confrontos de 1812 foi atribuída 1. à entrada das tropas de Napoleão nas profundezas da Rússia sem os preparativos necessários para o clima de inverno (desde sempre, pelo visto, o maior trunfo defensivo do país) e 2. à moral dos russos humilhantemente violentada pelos franceses durante os incêndios e saqueamentos das cidades invadidas.

Antes de iniciar a descrição propriamente dita desses eventos, porém, o narrador antecipa sua visão crítica a respeito da construção da narrativa histórica daqueles fatos; a qual recai sobre os historiadores que, analisando retrospectivamente os eventos, buscam exclusivamente os indícios capazes de comprovar uma hipótese única preestabelecida, optando por ignorar deliberadamente todos os demais. E essa metodologia seria ainda mais grave por adotar a premissa de que todas as ações e movimentos dos conflitos de 1812 teriam sido meticulosamente calculados e premeditados pelas grandes lideranças dos dois exércitos. Resta evidente, portanto, que uma historiografia dessa natureza afronta diretamente a já citada, e defendida pela narrativa de Guerra e Paz,  Lei da Coincidência das Causas (LCC) que, em última instância, associa a História à fatalidade e providência. 

Nosso narrador empenha-se em demonstrar que nem os russos haviam ardilosamente atraído os franceses para uma derrota no interior do país, nem os franceses previram as intempéries que enfrentariam com o deslocamento para Moscou. Tudo aconteceu por acaso. (Essa ideia de fatalidade é meio assustadora, não? Ou seria apaziguadora, já que tudo estaria fora de nosso controle? Questões...) Além disso, a premeditação defendida por parte dos historiadores também refuta a LCC ao atribuir a autoria dos desfechos da guerra apenas a uns gatos-pingados de medalhões do alto escalão, desconsiderando o papel crucial desempenhado pela coincidência de todos os arbítrios das pessoas que participaram dos acontecimentos.

Nesse sentido, a narrativa de Guerra e Paz relativiza o papel dos grandes comandantes no desenrolar de conflitos que, vale ressaltar, não admitem uma redutora comparação ao xadrez. Uma fala de Andrei surge para reforçar exatamente isso, na qual ele afirma que nas guerras,  ao contrário do que ocorre no jogo de tabuleiro, não há tempo para pensar antes de cada jogada e não se trabalha com regras claras predefinidas. Um comando 'X" de Napoleão, por exemplo, poderia perfeitamente implicar em um cumprimento "Y" por parte da tropa - "Para Napoleão, apenas pareceu que todo o combate se passou pela sua vontade.". Para o meu queridíssimo príncipe, o desfecho dos conflitos independe das ordens do estado-maior, mas, sim, de cada soldado que arrisca sua vida na linha de frente. Essa passagem foi muito legal, pois fez com que eu voltasse para analisar algo que escrevi na DL#03, especificamente isto: "demonstra como um bom comandante faz toda a diferença."  Como explicitamente apontou Tolstói, em C/B Napoleão era o mesmo ardiloso comandante que venceu Austerlitz (e até mais experiente) e as tropas também eram as mesmas, porém, ainda assim, o desfecho foi bem diferente. Então, fui forçada a rechaçar a minha própria assertiva: um bom comandante faz, afinal, tanta diferença em uma guerra? Até que ponto?

Tolstói pareceu usar também a personagem de Kutúzov* para simbolizar esse posicionamento. O velho comandante-geral tem sua experiência enaltecida pela posse da sólida consciência de que "tudo seria o que tinha de ser" e de que a vontade dele não era mais relevante do que a marcha inevitável dos acontecimentos, pois um único homem não é capaz de comandar centenas de milhares de pessoas que lutam contra a morte. O modus operandi de Kutúzov era o de apenas aceitar ou recusar o que lhe sugeriam, reservando ordens explícitas apenas quando eram-lhe exigidas. Os longos anos de guerra conferiram-lhe a certeza de que o destino dos conflitos repousa no espírito da tropa que ele apenas acompanha como coadjuvante.

* (Exato; o bode expiatório de Austerlitz retorna triunfalmente para comandar os russos sob a alcunha de "Excelentíssimo". O jogo sempre pode virar, não é mesmo?)

↪ Voltemos ao Andrei, pois o papel dele nessa parte foi fundamental. O jovem príncipe aparece simbolizando múltiplas facetas da narrativa:
1. ele, que já vinha com sua moral abalada pelo término do noivado com Natacha, surge como um dos muitos russos que foram vítimas diretas do avanço das tropas francesas na Rússia, tendo em vista que suas terras em Montes Calvos foram saqueadas e destruídas. No processo humilhante de fuga para Moscou, seu pai faleceu vítima de um aparente acidente vascular cerebral, enquanto sua irmã teve de encarar um vexatório embate com seus mujiques, antes de conseguir fugir com o sobrinho para Moscou;
2. ele é uma das personagens que põe em prática as ideias de Tolstói. Com o espírito inflamado pela violência de que sua família fora vítima, ele refuta as táticas meramente teóricas e os comandos falaciosos, em nome da luta obstinada na linha de frente, agora consciente de que isso era o que efetivamente importava;
3. também através de uma fala de Andrei, Tolstói desfere novamente (mais explicitamente) críticas incisivas aos militares:
"(...) os padrões de conduta da carreira militar são a ausência de liberdade, ou seja, a disciplina, a ociosidade, a ignorância, a crueldade, a  depravação e a bebedeira. E apesar disso é a carreira mais alta, a mais respeitada por todos. (...) Eles se reúnem para se matarem uns aos outros, ferem, aleijam dezenas de milhares de pessoas, e depois vão mandar rezar missas em ação de graças por terem matado tanta gente."
* Pausa confessional: que notável jornada meu querido Andrei está seguindo. É o momento de confessar que finalmente estou entendendo o conceito de "crush literário", pois encontro-me completamente apaixonada por ele.

↪ O estimado Pierre também surge de modo relevante aqui. A sensação que tive é que, de certo modo, ele parece representar o leitor no meio de toda a monstruosidade daquele conflito; pois, como nós, ele esforça-se para extrair algum sentido de algo que parecia ser completa e assustadoramente ilógico. Sem nenhuma experiência militar, Pierre decide meter-se corajosamente na linha de frente em busca de "realizar algo e de sacrificar-se por algo, com a consciência de que tudo aquilo que constrói a felicidade das pessoas (...) são tolices que dá gosto descartar, em comparação com outra coisa." Assim como ocorre com Andrei, a guerra  (além dos eventos de cunho pessoal já descritos, claro) provoca-lhe angustiantes questionamentos a respeito do sentido da vida e, especialmente, da morte. Pierre e Andrei parecem seguir jornadas de caminhos diferentes que, contudo, intersectam-se em vários momentos e que, suspeito, os levarão a um mesmo destino final. Será?

Obs.: e o Dólokhov se desculpando?! É aquela coisa: quão insignificante torna-se uma rixa diante da presença da Morte que dá baforadas no cangote? Perspectiva, correto?


↪ Pudemos ter acesso, afinal, à visão dos mujiques no conflito. Admito que, de início, não estava entendendo a reação deles em negarem-se a fugir, impedindo até a saída de Mária de Montes Calvos; no entanto logo fez-se a luz:
"- (...) ir atrás dela para os trabalhos forçados! Levar a casa à ruína e ainda ter de trabalhar para pagar as dívidas. Essa não! E ainda diz: eu vou dar  os cereais! - soaram vozes na multidão."
É como resume, mais adiante, Deníssov: "- Isto é uma guerra ao estilo dos citas. É tudo muito bonito, mas não para aqueles que têm de pagar o pato."


↪ A reação da "high society" moscovita, por sua vez, seria patética, se não fosse apenas ridícula. Os tontos foram tomadas por um artificial patriotismo que garantia até multas a quem falasse algo em francês.


↪ Agora voltando à Mária: ela é outra personagem que aparece discutindo uma outra faceta da morte, notadamente aquela que insere-se no contexto da relação entre pais e filhos. Gostei muito da honestidade e empatia, livre de julgamentos, com que o narrador tratou o embate interno que ela sofre diante da morte iminente do pai; ora desejando secretamente sua morte em nome da liberdade, ora culpando-se pelo sentimento vil e egoísta. Achei a contradição de sentimentos imensamente humana, e não a condeno em absoluto. Pelo menos o velho Bolkónski teve tempo de redimir-se, de certa maneira, com a filha: "Obrigado, filha... amiga... obrigado por tudo, tudo... desculpe..."

* Pausa para fofoca: e o Rostóv bancando o herói macho man com ela (imediatamente depois de fazer piadinhas com outras mulheres...), garantindo-lhe a fuga de Montes Calvos? Gente... E os dois parecem que já apaixonaram-se um pelo outro. Nunca imaginei que isso aconteceria; estou passada.

E como a personalidade de Rostóv é frívola, meu deus. Um paspalho, basicamente.


↪ Ainda não tinha aparecido oportunidade de comentar, mas uma coisa que venho notando é a curiosa presença que cavalos têm na obra. Pela maneira recorrente com que são mencionados, a íntima relação desse animal com os russos é enaltecida e, hipoteticamente, parece-me que o modo com que eles são descritos espelha a personalidade ou o estado de ânimo de seu respectivo dono.

Já apareceram vários exemplos anteriores no livro, e nesta parte tivemos:
1. Kutúzov, o experiente comandante-geral, "montava seu cavalinho valente";
2. Um carroceiro ajeitava "os arreios de seu cavalinho(...)";
3. Já a descrição grandiosa para Napoleão: "montado no seu cavalo baio marchador de crina e rabo curtos, (...)";
4. Pierre também monta, "depois de perguntar qual era o mais manso(...)", um "cavalinho sem fôlego";
5. Surgem descrições de cavalos feridos na batalha;
6. Rostóv, por exemplo, troca de cavalo vários vezes ao longo do livro, em uma espécie de upgrade equino que acompanha seu amadurecimento (~ou falta de~, convenhamos);
7. Para descrever a certeza falaciosa de Napoleão, Tolstói lança mão da comparação "ao papel triste" "do cavalo atrelado à roda de uma engrenagem que imagina que faz algo para si."

É muito interessante.

♥ Tolstói no seu cavalinho. 


↪ - Lavruchka, meu querido, você mandou bem:
"- É o seguinte: se houver uma batalha - disse ele, com ar pensativo -, e for logo, então pronto, acabou-se. Mas se passarem três dias a partir de hoje, então quer dizer que essa batalha vai demorar."


↪ De novo, mais uma impactante passagem para o leitor do século XXI, ainda mais por ter sido dita por um russo (Andrei novamente) :
"(...) esses senhores alemães não vão vencer a batalha amanhã, vão apenas atrapalhar, com todas as forças que tiverem, porque na sua cabeça alemã só existem raciocínios que não valem um ovo quebrado, e no coração eles não têm a única coisa que será necessária (...). Entregaram a Europa inteira para ele e depois vêm para cá nos dar lições..."
Outra: Napoleão, no séc. XIX, já tinha planos de formar a verdadeira União Europeia máxima, confere? A História é mesmo intrigante.
"A Europa, (...) haveria de ser verdadeiramente um só povo, e cada um, ao viajar por toda parte, estaria sempre em uma pátria comum. Todos os rios seriam navegáveis para todos, haveria a comunidade dos mares, (...)"

↪ Também me peguei confabulando: Tolstói parece encarar doenças de modo correlato, em certa extensão, às guerras. No episódio da Natacha, ele já tinha dado pistas disso e houve reforços aqui. Nas doenças, assim como os comandantes nas guerras, os médicos e remédios existiriam apenas para conceder a mera ilusão reconfortante de que nós possuímos algum controle sobre o fatalismo mortal.


↪ "Será que isto é a morte? (...) Não posso, não quero morrer, eu amo a vida (...) O que existirá lá e o que existia aqui? Por que é tão penoso para mim separar-me da vida? Havia nesta vida algo que não entendi e que não entendo."

Se Andrei morrer, eu nem sei, viu; eu nem sei...
E Tolstói ainda tem o desplante de metê-lo ao lado de Anatole (!!).
Pelo menos a vida desse daí também está por um triz; mas sabemos como vasos ruins comportam-se. 


↪ É isso mesmo, esta é mais uma grande personagem de Guerra e Paz:

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