25/05/2016

Giovanni's Room - James Baldwin

(info, sinopse, etc.)
Eu tive a pachorra de começar a leitura de Giovanni's Room ~meio que~ trabalhada no ânimo "ah, mas eu já sei o que vou encontrar aqui; quanta preguiiiça..." e (como acontece variavelmente comigo nessas situações) acabei me estrepando em proporções épicas. Sendo bastante honesta, eu achava que seria apenas mais um romance raso sobre um homossexual em conflito (interno e externo) com sua sexualidade, com direito a tropes e clichês recorrentes nesse tipo de narrativa. Agora, lendo o que acabei de escrever, meu constrangimento é enorme, pois o livro é muito mais do que apenas isso. Claro que esse relevante contexto se faz presente, mas não há clichês, nem respostas fáceis. Além do mais, uma outra questão é apresentada pelo autor, como ele mesmo afirma: (tradução livre) "não é tanto sobre homossexualidade, mas sobre o que acontece quando estamos com tanto medo, que não conseguimos amar ninguém." / "not so much about homosexuality, it is what happens if you are so afraid that you finally cannot love anybody."

De fato, medo é o que não falta na vida de David, nosso protagonista narrador. Comportando-se como uma espécie de tornado que destrói tudo e todos que cruzam seu caminho, ele desloca-se de um lugar para outro propelido pelo famigerado mote piegas "preciso encontrar meu verdadeiro eu". No entanto, como ele mesmo afirma, quem procura acha e, pior, muitas vezes acha aquilo que tinha sido deliberadamente perdido. A despeito dos destroços humanos que ele deixou no caminho dessa jornada, senti uma compaixão enorme por David (talvez por certa identificação) e entreguei-me à confabulação: se ele só vai parar de deslocar-se quando encontrar aquilo que ele não é, então ele nunca vai parar? Haverá mundo suficiente para David? Onde ele está agora? E até quanto chegará a quantidade de escombros humanos que ele deixará para trás? Que aflição dolorosa.

O Giovanni do título do livro foi uma das vítimas italianas destroçadas pela passagem parisiense desse tornado americano; na verdade, A grande vítima. Junto com David, fui completamente seduzida pelo papo charmoso e ingenuamente ardiloso do italiano e, suponho que também como David, senti-me intimidada pela facilidade com que ele era capaz de entregar-se ao amor e de acreditar que um quartinho em Paris seria capaz de garantir a felicidade de uma vida inteira. Será que pode realmente ser assim tão simples? Capaz.

E, se cabe mais um, por que não acrescentar o terceiro jogador? Entra em cena, então, Hella, a versão feminina de David (interrogo) que claramente não pediu para ser incluída no imbróglio, embora também não tenha feito nada de muito prático para evitar sua entrada ou garantir sua saída (a tempo).

De repente me veio um estalo: Júlio e Emília, o casal protagonista do livro Bonsai, do Alexandro Zambra, teriam feito bom proveito dessa história. Antes de transar, os dois tinham o hábito de ler livros juntos, e a leitura do Madame Bovary durante uma dessas "extravagâncias literárias" havia instigado a interessante brincadeira de classificar pessoas, e eles mesmos, como Emma ou Charles. Não me restam dúvidas de que o livro de Baldwin lhes renderia um jogo à altura daquele do Flaubert: na vida, você é David, Giovanni ou Hella? Hein?

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