25/05/2016

The Vegetarian - Han Kang

Tradução (Inglês): Deborah Smith
Como não é sempre que posso me deleitar com um autor conversando abertamente sobre a sua obra, não perderei a chance de utilizar duas boas entrevistas concedidas pela escritora coreana Han Kang que vi/ouvi, a fim de registrar a minha impactante experiência com a leitura deste livro.

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Quando questionada a respeito do que trata-se a obra (04:18), Han Kang explica que a protagonista de The Vegetarian é uma mulher - Yeong-hye - que encontra no vegetarianismo uma maneira de não infligir mal a nada, uma forma de expurgar de si a violência humana que (entre outras coisas) restaria representada em toda a complexa cadeia que sustenta o hábito de comer carne animal. A escritora diz que sempre esteve interessada em explorar em sua literatura o tema da violência humana e, nesse contexto, The Vegetarian discutiria se uma suposta inocência natural, despida de violência e culpa, seria atingível ao ser humano.

Ocorre que, durante o processo de expurgação da protagonista, surgem algumas ironias desconcertantes que parecem apenas complicar a originalmente complexa pergunta da autora. À medida que Yeong-hye aproxima-se da almejada - e bastante extrema - candura, ela também torna-se progressivamente fragilizada do ponto de vista físico e mental; bem como cada vez mais suscetível a todo tipo de agressão gratuita alheia - física, moral, sexual, social, médica... Ou seja, a rejeição da violência que ela põe em prática através de um vegetarianismo radical e (aparentemente) irracional (em um contexto ficcional, ressalva-se; no qual surge um momento em que não trata-se mais apenas de simples vegetarianismo) tornava-a ironicamente vulnerável à violência cometida por terceiros e, em última instância, por ela mesma.
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Ciente de que havia apenas três partes, a aproximação do final da obra foi deixando-me ligeiramente aflita, tendo em vista que três personagens diferentes já haviam compartilhado abertamente seus pontos de vista na narrativa, e nenhuma delas era Yeong-hye. Isso foi o bastante para que eu me concedesse o direito de bradar em clima de revolta: "como assim eu não vou poder ter acesso total ao que está se passando na cabeça da obscura Yeong-hye?" Bem, pois imaginem meu choque quando, ainda durante a leitura, percebi que, ao forçar minha presença indesejada em seus pensamentos, eu mesma também me juntava ao bando de agressores daquela personagem. Fiquei completamente estupefata. Foi interessante descobrir, no momento 06:42 do vídeo, que minha constatação embaraçosa aproximou-se da intenção deliberada de Han Kang em proteger sua querida personagem da minha própria violência.

A escritora também menciona um apego especial pela personagem In-hye, a irmã da vegetariana. De fato, a dinâmica que se estabelece entre as duas irmãs, em especial na última parte do livro, foi uma das coisas mais tocantes que já tive oportunidade de ler. Eu chorei, e não foi pouco, não. Quando todos abandonam e desistem de Yeong-hye, é In-hye quem permanece ao lado da irmã; ainda que ela própria desconhecesse o meio capaz de salvar Yeong-hye, principalmente porque ela também necessitava da mesma ajuda miraculosa e desconhecida. Dentre os vários trechos dessa relação que quebraram minhas pernas, há este: (*contexto: In-hye, não encontrando outra saída possível, levava a irmã para ser admitida em um hospital psiquiátrico.)
"(...) she (In-hye) set the hospital bag down and went over to the window, which had a heavy-looking set of bars running vertically across it. Just then, she was discomfited to find herself struck by a guilty conscience, which she'd so far managed to avoid. Suddenly it was there like a lump in her chest, weighing her down. Yeong-hye walked up soundlessly and stood beside her.

"Ah, you can see the trees from here too. (...) Sister...all the trees of the world are like brothers and sisters."
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Essa entrevista que Han Kang concede ao Guardian, por sua vez, deixa claro que os leitores parecem oferecer uma gama relativamente variada de interpretações distintas para o livro.

A citada possibilidade de haver na obra uma metáfora crítica à sociedade patriarcal e rígida da Coreia, por exemplo, praticamente não me passou pela cabeça durante a leitura, considerando-se que ignoro quase tudo sobre aquele país. É incontestável, contudo, que a pujante narrativa em primeira pessoa conduzida pelo peculiar marido da Yeong-hye no começo de The Vegetarian deixa mais do que evidente a impressão de que as mulheres coreanas seriam tratadas como meros objetos de negociação e aquisição entre pais e futuros maridos. O discurso utilizado pelo esposo de Yeong-hye em nada difere daquele de um consumidor frustrado com um produto que custou-lhe bastante caro e que, do nada, começou a dar defeito, sendo clara a responsabilidade dos fabricantes em dar um jeito naquele inadmissível prejuízo. Ah, e vale citar também a adorável certeza que ele tinha de que Yeong-hye havia tornado-se vegetariana apenas para afrontá-lo. Essa primeira parte do livro é realmente bastante forte e consegue fisgar o leitor logo na primeira frase:
"Before my wife turned vegetarian, I'd always thought of her as completely unremarkable in every way." 
Fiquei feliz, todavia, que a autora tenha refutado parcialmente esse papel de crítica social para seu livro e admitido preferir que seus leitores ofereçam interpretações mais universais, considerando-se que eu mesma tenho minha contribuição a fazer nesse sentido.

A temática da violência é algo completamente incontestável em The Vegetarian, contudo eu acho que acabei enxergando-a sob uma luz ligeiramente particular. Em minha visão, a obra tomaria o vegetarianismo como ponto de partida para discutir a razão pela qual as pessoas sentem-se tão intensamente ameaçadas por quem faz escolhas de vida que diferem das regras e convenções usuais /"normais" definidas pela maioria da sociedade; ainda que nenhum crime tipificado seja cometido contra outra pessoa. Para ilustrar o que tento dizer, compartilho uma anedota recente e pessoal: eu estava correndo às ~22h na calçada de um bairro tranquilo de classe média, quando dois rapazes passaram em um carro e decidiram reduzir a velocidade do veículo para aproximar-se de mim e gritar "ô sua idiota, isso é hora de correr?". Minha pergunta é esta: o fato de encontrar-me correndo em um horário que parece desafiar a suposta convenção do "horário normal para correr" representa uma violência assim tão grande que precisa ser retribuída na mesma moeda? Mas por quê? Essa "realidade normal" é assim tão preciosa a ponto de ser defendida violentamente a qualquer custo? Pois bem, voltemos então à premissa inicial do livro: e se um indivíduo decide simplesmente que não vai mais comer carne, por que isso é capaz de induzir tanto ódio nas outras pessoas?

Enfim, durante a leitura foi principalmente a isso que me apeguei e fui ficando cada vez mais atônita ao constatar que a autora estaria levando essa discussão até as últimas consequências, mediante oferta final desta intimidante pergunta:

"(In-hye:) I'm acting like this because I'm afraid you're going to die!"

Young-hye turned her head and (...) the question came.

"Why, is it such a bad thing to die?"

***

(* Update em 01/06/2016) E eis que esta notícia é divulgada na mídia: "Vegan Café Allegedly Attacked by Right-Wing Extremists With Sausage and Fish".)

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