28/06/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #16


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: 
DL#01DL#02DL#03DL#04DL#05DL#06DL#07DL#08DL#09DL#10DL#11DL#12, DL#13DL#14, DL#15.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Epílogo 

Acabou! Não, o tom desse "acabou" não é exatamente entusiasmado, mas carregado de melancolia, pois já sinto uma saudade enorme destas personagens (Andrei ♥ especialmente) e deste universo. Foram cinco meses muito felizes. Considerando-se quantas coisas horríveis e tristes foram narradas nestas páginas, isso pode ter soado estranho, contudo refiro-me, claro, à felicidade que só uma leitura prazerosa é capaz de proporcionar. De qualquer modo, também houve momentos de alegria nessa história, correto?

Calma; é preciso interromper as despedidas, pois ainda devo uma última postagem. Vamos lá. 

Primeira Parte

Portfolio Tom Gauld: x
 Aqui, damos adeus definitivamente às personagens - àquelas que sobreviveram, veja bem -, visto que a segunda metade do epílogo corresponde apenas a uma espécie de breve ensaio.

Em linhas gerais, essa primeira parte aborda principalmente um outro tema bastante caro a Tolstói: os meandros da vida conjugal, os quais são explorados através dos casais "Nikolai x Mária" (nunca imaginei que terminariam juntos) e "Pierre x Natacha" (para esses, Tolstói chegou a dar pistas de que rolaria). A visão do autor surge de modo bastante tradicional, fundamentada na premissa incontestável de que "o objetivo do casamento é a família, (...)". 

Os papéis do homem e da mulher na família retratada por Tolstói são relativamente antiquados e estáticos quando comparados aos padrões do século XXI. A mulher, depois de casada, parece reduzir-se exclusivamente ao binômio "esposa/mãe" e a ela compete o cuidado dos filhos e a satisfação do esposo (seus interesses equivaliam tão somente àqueles dos filhos e marido); a quem, por sua vez, restavam as tarefas do sustento familiar, trato dos negócios e decisões familiares críticas.

De qualquer maneira, vale destacar que todos assumiam os papéis familiares que lhes cabiam com grande satisfação, e a narrativa constrói a imagem encantadora (sem ironia) de uma singela cumplicidade e camaradagem existente entre marido e mulher. O autor deixa claro que momentos de hostilidade, brigas e ciúmes existem normalmente, contudo são exceções que em nada comparam-se à intimidade aconchegante compartilhada rotineiramente por um casal. Ou seja, despeço-me de Nikolai, Mária, Pierre e Natacha com a certeza de que estão muito felizes com as belas famílias que conseguiram construir. 

Ainda a respeito dessa dinâmica marital, foi bastante curioso observar como a postura dos dois irmãos Rostóv em relação aos seus respectivos cônjuges era similar, ainda que ocupassem papéis diferentes - apenas lembrando o óbvio: um era marido; a outra, esposa. Para ilustrar, alguns trechos:

Natacha em relação a Pierre
"A tudo o que dizia respeito aos assuntos intelectuais e abstratos do marido, ela atribuía uma enorme importância, mesmo sem compreendê-los, e sempre tinha medo de ser um empecilho para aquelas atividades do marido. (...) Será possível que esse homem tão importante e necessário para a sociedade seja ao mesmo tempo meu marido?"

Nikolai em relação à Mária
"(...) o fundamento principal de seu amor firme, terno e orgulhoso pela esposa sempre tivera como alicerce aquele sentimento de espanto diante da benevolência da esposa, diante daquele mundo moral elevado, quase inalcançável para Nikolai, no qual a esposa sempre vivia. Nikolai se orgulhava por ela ser tão inteligente e boa, reconhecia sua insignificância diante dela no mundo espiritual (...)"
Isso parece ser mais um reforço final de Tolstói a respeito da simplicidade e humildade dos Rostóv comparativamente às famílias de Pierre e Mária. Como irmãos que compartilhavam a mesma origem e criação, Natacha e Nikolai inevitavelmente pareciam nutrir uma admiração e veneração semelhantes por seus respectivos parceiros.


↪ ✞ Minha previsão em relação ao Conde Iliá concretizou-se, pois ele morre e deixa uma "pequena e adorável" dívida como herança que, devo admitir, Nikolai soube gerenciar muito bem.

-
Aliás, pausa para um papo rápido sobre Nikolai. Nunca supus que ele fosse dar-se tão bem no final da história. Ele não apenas escapou da morte certa (que sobrou para o pobre Pétia), tendo em vista seu espírito adolescente inconsequente, como construiu uma bela família e soube administrar negócios agrícolas como ninguém, demonstrando grande talento para lidar com os mujiques. Ele está montando até mesmo uma biblioteca em casa! Quem diria que aquele rapazote que suspirava e chorava diante da mera visão de Alexandre I chegaria tão longe? Eu não. - Parabéns, Nik.
-

No tratamento da velhice e viuvez da Condessa Rostóv, Tolstói demonstrou um olhar pragmático e tremendamente realista, quase cruel, que me pegou totalmente desprevenida. O tom da narrativa era que ela apenas "sobrevivia", ou seja, matava o tempo como podia, enquanto a morte não vinha. Quando o narrador disse "Aquilo que para pessoas em pleno vigor da vida representava um objetivo, para ela era obviamente um pretexto", fui tomada por um desalento descomunal, consumida pelo seguinte pensamento: hmm, e se você ainda nem é uma velha viúva, mas já sente a necessidade recorrente de pretextos? Rá! Melhor eu parar por aqui.

(obs.: e a condessa só tinha 60 anos, ok?)

Como consequência, essa mensagem parece intensificar ainda mais a importância que Tolstói confere à família, a qual representaria o objetivo maior da vida. Sendo assim, se a condessa Rostóv já havia concluído seu papel (nem tinha mais ~marido~, não é mesmo?), a "vida" dela restaria resumida à espera paciente da morte que, por alguma razão, teimava em atrasar-se. 
"(...) ela já havia cumprido seu papel na vida, ela já não estava presente de fato naquilo que dela se via, (...) memento mori (...)"
Podemos também tomar como exemplo desse raciocínio o próprio Pierre, cujas crises existenciais transformaram-se praticamente em uma irrelevância pueril pertencente ao passado, agora que ele tinha uma família com a qual deleitar-se; agora que "Sentia que sua forma de vida estava determinada de uma vez por todas, até a morte, (...)". Eu havia compartilhado a impressão de que cada parte desse livro tinha me apresentado a um Pierre diferente e sinto que, aqui, ele aproxima-se bastante do "Pierre" do início da obra - mais leve, determinado e feliz -; uma espécie de amadurecimento circular. A família parece ter justificado sua jornada.


↪ Recapitulemos, por favor, o que eu havia desejado para Sônia na DL#12"Sério, torço muito para que Sônia tenha um final extremamente feliz nessa história - vamos acompanhar". Não sei nem por onde começar, já que o efetivamente ocorrido passou longe do que vislumbrei para a personagem.

Em certa passagem, Natacha tenta convencer Mária de que Sônia era "uma rosa estéril, de quem tudo fora tirado, mas que não sentia isso como nós sentiríamos", contudo eu recuso-me veementemente a acreditar nessa distinção do sentimento. Que destino terrível, o da querida Sônia: sozinha no mundo, obrigada a compartilhar o mesmo teto com o ex-noivo (o homem que sempre amou) e respectiva esposa (que a detestava), vivendo para ajudar a criar os filhos daquele casal; aturando comiserativamente todo tipo de humilhação. Aplicando à Sônia a proposta inferida pelo texto de que o objetivo da vida seria a família, é quase lógico que ela termine sua jornada dedicando-se à família alheia, dado que a chance de ter uma própria fora-lhe tolhida.

Ah, e uma breve pausa para falar de Mária: ela é a prova de que o discurso moralista religioso, tão fácil na teoria, sucumbe com a mesma facilidade diante de pífias exigências práticas da realidade. 


↪ E, finalmente, aquele que leva o derradeiro destino brutal e imensamente triste: Nikólienka Bolkónski. Caramba, esse garoto arrasou com meu coração; não sobrou nadinha. A realidade dele, no ponto em que o deixamos, consistia em ser criado por uma tia que não conseguia amá-lo como a um filho (realidade desafiando o discurso religioso dela novamente) e um padrasto que o detestava, relegado frequentemente à companhia solitária do tutor.

Nesse momento, surge mais um elemento narrativo que enriquece ainda mais a ligação que eu já vinha discutindo entre Andrei Bolkónski e Pierre Bezúkhov, pois o garoto ama Pierre como se ele fosse seu próprio pai. Há, inclusive, uma passagem insana em que ele pergunta a Pierre:

  "- Tio Pierre... o senhor... não... Se o papai fosse vivo... ele concordaria com o senhor?" 

Ao Nikólienka, sou obrigada a dizer: meu jovem, isso é exatamente o que eu venho me perguntando durante boa parte dessa leitura!!

Sobre isso, é ainda mais significativo o sonho espantoso de Nikólienka que encerra essa primeira parte. * Pausa: há um trechinho nesse tomo em que Tolstói diz explicitamente o que ele pensa sobre sonhos: "(...) num sonho tudo é engenhoso, absurdo e contraditório, exceto o sentimento que guia o sonho, (...)". * O garoto sonha que enfrentava um exército ao lado de Pierre que, subitamente, é substituído pela figura clara de seu pai, Andrei Bolkónski, o qual  "fazia-lhe carinhos, o acariciava e aprovava" (esse "aprovava" me matou). As frases que encerram a primeira parte, portanto, são dele:
"E o tio Pierre! Ah, que homem incrível! 
E o pai? O pai! O pai! Sim, eu farei coisas que até ele iria admirar..."
Mor-ri; só os caquinhos aqui.

Por ora, escolho assumir que minhas confabulações estavam corretas: Pierre e Andrei são, em suas essências humanas, grandiosamente similares, separados apenas pela capacidade que demonstraram em fazer essa essência interagir com o mundo externo e a complexidade da vida. 


↪ Concluindo o ciclo de bobagens, gostaria de registrar uma outra confabulação particular. É comum, quando escuto leitores comentarem sobre esse livro, que ele não parece ter um protagonista, e fiquei refletindo que isso é perfeitamente compreensível, e até óbvio, considerando-se que Tolstói consome inúmeras páginas explicando que a História não é feita por heróis, comandantes ou pessoas isoladas com poderes, mas, sim, pela força do movimento conjunto dos povos. Desse modo, desenvolver a narrativa através de um protagonista representaria, parece-me, uma contradição clara. Guerra e Paz é a história de Andrei, Pierre, Natacha, Nikolai, Mária, Iliá, Pétia, Nikólienka, Kutúzov, Vassíli, Hélène, Anatole, Hippolyte, Sônia, Condessa Rostóv, Deníssov, Dólokhov, Karataiev, Vera, Berg, Boris, Lise, Mlle Bourienne, Ióssif Alekséievitch, Anna Pávlovna, Katiche, Anna Drubetskaia, Lavruchka, Julie, (...) Alexandre I, Napoleão Bonaparte (...)...


Segunda Parte
Via: Poorly Drawn Lines
Nope, não me atreverei a resumir as ideias de Tolstói de jeito nenhum. Bem ou mal, dá para dizer que ele "enterra o defunto", consolidando e concluindo o posicionamento construído ao longo de todo o livro.

Registro apenas que foi muito surpreendente constatar que, aqui, ele explicou melhor, e explicitamente, por que eu me senti desconfortável quando extrapolei os conceitos históricos dele para a minha própria vida, conforme compartilhei no DL#13. Simples: a teoria de Tolstói desafia a minha consciência de livre arbítrio, demonstrando que ela não sujeita-se à razão, tendo em vista que a liberdade completa é impossível. A liberdade está indissoluvelmente ligada à necessidade, mediante relação inversamente proporcional que jamais será 1:1, 1:0 ou 0:1. 
***


24/06/2016

O que eu amava - Siri Hustvedt


 O que eu amava é um livro peculiar e, sendo honesta, ainda nem sei como me sinto em relação a ele exatamente (sei que gostei, mas também sei que há ressalvas cuja extensão ainda desconheço). Por enquanto, tenho certeza apenas de que, sempre que eu pensar nele retrospectivamente, não serão suas personagens, ou sua trama, que me invadirão a mente, mas, sim, seus diversos temas instigantes, todos meticulosa e ardilosamente incrustados e interconectados pela Hustvedt em sua obra.

E por que será assim? Porque, com mínimas ressalvas, todas as personagens da narrativa são banais e, por isso mesmo, bem reais; afirmativa que pode ser fundamentada, inclusive, pelas frases finais do livro. O que eu amava trata de vidas completamente mundanas que acredito poder encontrar logo ali, na esquina da minha casa. Ou não, digo, ou quase; quero dizer, mais ou menos, entende? Perdão, perdão; a questão é que as vidas dessas personagens até aproximariam-se da minha com a exagerada familiaridade que insinuo, não fossem os seguintes pormenores: elas são acadêmicas e/ou artistas da classe média alta de Nova York nas décadas de ~70-80, que vivem envoltas, praticamente 24h dos seus dias, por arte (produzindo, analisando ou consumindo). Esse detalhe pode até parecer irrelevante, porém é justamente ele que concede à autora a oportunidade de inserir, em um texto que trata de vidas ordinárias, uma rica série de situações, diálogos e reflexões que abordarão uma temática bastante variada e intrigante.

Compartilho aqui uma reprodução do meu caderninho de leitura com o esquema das personagens do livro para ilustrar melhor isso:


Percebe os meios artísticos e acadêmicos por onde perambulamos nessas páginas? 

Ademais, retomando o que disse, a narrativa corresponde às memórias de Leo relacionadas a essas seis pessoas que fizeram parte de sua trajetória, de onde surgem, por conseguinte, as "trivialidades" da vida: planos, casamentos, divórcios, amizades, filhos, encontros, desencontros, frustrações, despedidas, alegrias, tristezas, decepções, velhice... 


"Os objetos se tornam musas da memória."

Para registro pessoal da leitura, escolho destacar dois temas que me parecem especialmente relevantes: arte e memória; afinal, é possível afirmar que o livro praticamente só existe por conta dessas duas entidades. Logo na primeira página, Leo explica que foi o encontro de antigas cartas trocadas entre Bill e Violet que o levou a escrever o livro que estamos prestes a ler. À medida que a leitura avança, esse início parece tornar-se cada vez mais engenhoso, pois percebe-se que ele condensa boa parte da aparente temática maior de O que eu amava: a obra que lemos - ela própria uma arte literária - é fruto do exercício da retomada de memórias do narrador, muitas das quais (vamos descobrindo gradativamente) existem associadas à arte; da qual destaca-se um quadro que Bill pintara retratando Violet - o elo inicial entre as personagens.

Para ilustrar prontamente a avalanche de reflexões e devaneios principais que foram-me instigados a partir dessa premissa, reproduzo outro resumo esquematizado do meu caderninho de leituras:


E alerto que nem tudo está aí. Algo interessante, apenas como exemplo, que acabou não entrando nessas páginas foi a discussão em torno da relação estabelecida entre publicidade/marketing e arte, não só em torno da obra em si, mas também da construção da identidade pública do artista. Arte é mero produto? O artista surge como produto acessório vinculado irremediavelmente à sua arte? Tentando destacar a relevância desse tema, digo que ele complicou ainda mais minhas percepções acerca da famosa controvérsia atual: quem é Elena Ferrante?

Ah, este aviso deveria estar no começo do post, mas ainda vale lembrar que minha proposta é a mesma do Chacrinha: "Eu estou aqui para confundir; eu não estou aqui para explicar."


 Explorando pessoalmente a relação "arte x memória", gostaria de registrar algumas passagens desse livro que, involuntariamente, promoveram o resgate de trechos de livros que já li. De antemão, destaco que esta listinha é minha, ou seja, isto foi, simplesmente, aquilo que a minha memória entregou prontamente, de modo que não exauri em absoluto as relações intertextuais da obra (ainda mais sendo alguém que não manja nada de arte).  E surgem perguntas excitantes: 
 - Por que exatamente estas passagens de leituras prévias ficaram gravadas comigo, a ponto do livro de Hustvedt ser capaz de retomá-las? E pior: essa pergunta surgiu ainda mais forte quando, ao procurar as citações nos livros para escrevê-las aqui, bati os olhos em outras passagens que também se relacionavam com O que eu amava, mas que minha memória claramente não tinha fixado. Suspeito de que a resposta esteja na tal "ligação" mencionada por Leo.
 -  Curiosidade: como seria a listinha de outros leitores? 

1. 
Há um trecho em que Leo arrepende-se de ter dito isto a Mark:
"- 'Aquele quadro era muito melhor do que você, Mark. Era mais verdadeiro, mais vivo e mais expressivo do que você já foi ou vai conseguir ser na vida.' (...)   "Eu tinha dito coisas horríveis a Mark ao falar sobre o quadro do pai dele. Não se pode comparar um objeto a uma pessoa."
Na mesma hora, eu lembrei do que diz Knausgård no seu livro A morte do pai (tradução Leonardo Pinto Silva - Companhia das Letras):
"A pergunta sobre a felicidade é banal, mas não a que se segue, a pergunta sobre o sentido. Meus olhos se enchem de lágrimas quando olho para uma bela pintura, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois os amo do fundo do coração, significa apenas que o que eles me trazem não é suficiente para dar sentido à vida. Ao menos não à minha."
A passagem do Knausgård eu até sei porque cravou na mente: impressionou-me muito, não por tê-lo achado um pai horrível, mas pela máxima honestidade desconcertante com a qual, bem no fundinho, eu suspeite de que tenha me identificado. 

Bem, temos então mais uma reflexão provocada pela Hustvedt + Knausgård: uma peça de arte pode ser melhor do que uma pessoa? Ela pode emocionar, sensibilizar mais do que uma pessoa? Essa comparação faz algum sentido?


2.
Leo falando sobre a relação de Bill com sua arte:
"Bill transformava o que escapava à sua compreensão em coisas reais que pudessem carregar o peso de suas necessidades, dúvidas e desejos."
Aqui, lembrei-me da Jhumpa Lahiri no seu livro "In Other Words", no qual ela afirma (tradução livre):
"Por que eu escrevo? Para investigar o mistério da existência. (...) Para aproximar-me de tudo que está fora de mim."
Lahiri expurga suas dúvidas com a escrita; Bill, com suas instalações artísticas. Daí, temos outra pergunta: o que move o artista? É sempre um mesmo fator para todos? O que os leva a produzir arte é o mesmo que nos faz - público - buscar a arte?


3.
Leo falando sobre as memórias que narrava:
"Toda história que contamos sobre nós mesmos só pode ser contada no pretérito. É um recuo no tempo do ponto de vista em que estamos agora, quando já não somos mais os atores da história, mas seus espectadores que resolveram falar."
De pronto me lembrei de Duras, em O amante, no qual o "eu pretérito" da autora exige tamanho recuo do "eu presente", que acaba havendo uma aparente cisão entre ambos, o que a obriga a momentos de narrativa na terceira pessoa, tempo presente; exatamente como o "espectador" citado por Leo.


4.
Sobre arte, Leo afirma o seguinte:
"Uso não tinha nada a ver com arte. A arte era, por natureza, inútil."
Quem apareceu pra mim? O James Wood, no seu Como funciona a ficção (tradução Denise Bottmann - Cosac Naify), no qual ele fala na cara do leitor: 
"Não lemos  a fim de tirar benefícios da literatura. Lemos literatura porque ela nos agrada, nos comove, é bonita, e assim por diante - porque é viva e nós estamos vivos."
E aí? Esse negócio de arte serve para alguma coisa, ou nem? De uma coisa, eu sei: ela me ajuda a preservar minha saúde mental. 


5.
Para quem leu The Goldfinch, da Donna Tartt, é quase inevitável relacionar a reação de Leo ao quadro de Chardin, à de Theo Decker ao quadro de Carel Fabritius. São ligações que parecem conotar aquele sentido especial e individualizado que as obras de arte ganham quando cruzam nossas vidas, tornando-se musas de memórias.


6. 
O título da obra aparece explicitamente no livro, na fala de Violet, sendo que a afirmativa da capa (* o título original em inglês surge mais claramente como uma afirmativa) transforma-se em pergunta nas páginas:
"Eu odeio o Mark. E eu o amava antigamente. (...) a pergunta que realmente me assusta é a seguinte: o que exatamente eu amava?"
Fazendo o caminho contrário, Leo não parece encontrar-se consumido pela mesma dúvida de Violet, o que poderia ter provocado essa transformação do questionamento em assertiva. 

Sabe quem veio à mente com o jogo desse título? Foi Pirandello, com Um, Nenhum e Cem mil; o qual me fez refletir que talvez essa pergunta da Violet seja inútil ou irrelevante, tendo em vista que nunca seríamos capazes de amar essa suposta versão "verdadeira" das pessoas, mas apenas a versão que construímos dela, o "um" dos "cem mil" (que acabaria sendo... "nenhum"?). Estou só confabulando; portanto não sei se isso faz sentido.

Então, confabulemos mais um pouquinho: obra de arte também seria uma, nenhuma e cem mil; confere?  Afinal, a "ligação" estabelecida com quem interage com ela não é sempre diferente?

***
E ainda relacionado ao tema, segue trecho de um artigo lido no site Quartz:
(* atualizando em 02/07/16)
"When volunteers read their favorite poems, areas of the brain associated with memory were stimulated more strongly than “reading areas,” indicating that reading poems you love is the kind of recollection that evokes strong emotions (...)"
***

É melhor eu parar por aqui, mas, que fique registrado, esse livro ainda rende muito mais. Apenas para citar outros temas abordados na obra: sociologia x psicologia x psicanálise, transtornos mentais, paternidade/maternidade, amizade, relacionamentos conjugais, morte, velhice, solidão...

Acredito que tenha ficado evidente, mas reforçarei: saí dessa leitura apenas com perguntas. Várias. E que bom. 

18/06/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #15


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08, DL#09, DL#10, DL#11, DL#12, DL#13, DL#14.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 4 - Quarta Parte

 Essa parte foi bem morninha, embalada pelo clima "depois da guerra, a paz". Foi o momento de:

1. Condecorar e exaltar os "heróis" da guerra. Ou quase.

Em princípio, definir quem seriam esses "heróis" parece tarefa fácil, mas o tom da narrativa de Guerra e Paz questiona essa suposta trivialidade e instiga-nos a reavaliar criticamente o grupo de pessoas a quem a historiografia concede o título de Grand. Tolstói conclui aqui, de forma explícita, a longa defesa de Kutúzov - desenvolvida ao longo de todo o livro - com a nítida intenção de reparar a grave injustiça que seu país (notadamente seus historiadores) teria cometido contra o comandante.

Kutúzov chegou a receber diretamente das mãos do soberano a medalha da Ordem de São Jorge de primeira classe, no entanto, como explica o narrador, foi apenas um esforço para manter aparências, tendo em vista que todos (até o soberano) culpavam o velhote de ter impedido que o país derrotasse completamente os franceses. Com uma amarga ironia, Tolstói diz que a Napoleão - "esse instrumento insignificante da história" que "nunca deu provas de dignidade humana" - a posteridade concedeu o título de Grand, enquanto Kutúzov - "exemplo extraordinário de abnegação", da essência russa e de subordinação de vontade pessoal à vontade da providência - foi tratado pela história como um velho fraco e lascivo, um cortesão farsante e astuto que temia o nome de Napoleão. Na visão de Tolstói, o destino de pessoas como Kutúzov não reserva-lhes o título de Grand, mas apenas o ódio e desprezo daqueles incapazes de reconhecer as raras pessoas agraciadas pelo entendimento das leis superiores. 

Ah, sim, "E ele morreu." 

2. Reconstruir "o lugar que antes era chamado de Moscou". 

Nesse processo, a narrativa descreve uma incongruência curiosa: assim como os franceses invasores, os russos que iniciaram o processo de reocupação da cidade também promoveram saqueamentos e pilhagens, porém, nesse segundo caso, foram exatamente esses saques os responsáveis pela reconstrução moscovita.
"O saque dos russos, com o qual teve início a reocupação da cidade pelos russos, quanto mais se prolongava, quanto mais pessoas dele participavam, mais depressa restabelecia a riqueza de Moscou e a vida normal da cidade."
3. Chorar e rezar pelos mortos.

Mária e Natacha ainda choravam pela morte de Andrei, quando os Rostóv receberam a triste notícia da morte de Pétia. O golpe, como esperado, foi especialmente duro para a condessa, a quem Natacha teve de ajudar com uma força que nem mesmo ela imaginava possuir.

4. Viver, pois a vida não parava. 


↪ Pierre, Pierre... (Suspeito de que a maioria das minhas elucubrações sobre o Pierre começaram com esse ar de divagação vazia e algo recriminatória. ¯\_(ツ)_/¯) 

Reconheço que talvez já seja tarde para isto, mas, mesmo assim, finalmente desisto de tentar prever qualquer futuro passo de Pierre. Veja bem, houve um DL em que compartilhei o temor de que ele pudesse terminar o livro completamente louco; sendo que, nessa parte, ele aparece todo felizão e bem resolvido graças à consciência alcançada durante o cativeiro de que era preciso viver, independente de quaisquer objetivos, simplesmente porque Deus vive em toda parte. Ele está tranquilão, mais resoluto e assertivo; nada o atinge e todas as pessoas parecem-lhe ótimas. Enfim, ele praticamente atingiu o nirvana. (se vai durar, aí eu já não sei.)

Olhando retrospectivamente, tenho quase certeza de que cada uma das partes desse livro apresentou-me a um Pierre diferente. Ele parece sujeitar-se a um ciclo de viradas de humor cujo ritmo é bastante rápido, que eu claramente não consigo acompanhar. Nessa parte mesmo: na página 2282 diz-se que "(...) raramente lhe vinham pensamentos sobre Natacha. Se vinha algum pensamento, era apenas como uma lembrança agradável de um passado distante";  enquanto a página 2286 afirma que "(...) já não podia haver dúvida: era Natacha, e ele a amava." Nope, eu não consigo acompanhar mesmo.

Mária e Natacha, inclusive, tiveram um surpreendente diálogo exatamente sobre a questão que citei em DL's anteriores: as semelhanças e diferenças entre Pierre e Andrei. As duas compartilham a mesma opinião de que ambos são maravilhosos, embora sejam completamente diferentes. Não sei, esse tema ainda continua confuso pra mim, porém ainda acho que há entre os dois mais semelhanças do que diferenças. A impressão que tenho é que os dois seguem caminhos diferentes apenas na maneira com que relacionam-se com o mundo exterior, pois as essências interiores parecem ser bem similares. 

E gostaria de deixar registrada uma importante e valiosa lição aprendida por Pierre aqui - anotar para tentar não esquecer jamais:
"(...) reconhecimento da possibilidade de cada pessoa pensar, sentir e ver as coisas à sua maneira; o reconhecimento da impossibilidade de dissuadir uma pessoa por meio de palavras. (...) A diferença e, às vezes, a completa contradição entre os pontos de vista das pessoas e a vida delas, e também entre as próprias pessoas, alegrava Pierre (...) a concordância fingida era o meio mais curto de esquivar-se de discussões, das quais nada poderia sair (...)"

 Houve um certo trecho que achei bastante, digamos assim, ~complicado~, no qual Tolstói estabelece uma distinção entre "mulheres inteligentes" e "mulheres verdadeiras". Em linhas gerais, tentando resumir, ele diz que a mulher de verdade (?!) escuta caladinha e até agradece toda forma de mansplaining, ao contrário da intelingentona (a falsa mulher?!) que, veja só, ousa um debate com o homem.
"(...) as mulheres inteligentes que, ao escutar, ou tentam memorizar o que lhes dizem a fim de enriquecer seu intelecto e, se houver oportunidade, recontar tudo de novo, ou tentam adaptar a seu próprio modo de ver aquilo que lhes dizem e exprimir bem depressa seus comentários inteligentes, (...) as mulheres verdadeiras, dotadas da capacidade de selecionar e de absorver tudo que há de melhor naquilo que um homem manifesta."
Podia ter passado sem essa, Tolstói. 


↪ Será que Tolstói tinha algum trauma específico relacionado a médicos? Ele já tinha mandado várias indiretas, mas agora foi ainda mais explícito:
"Apesar de os médicos o terem tratado, terem tirado seu sangue e lhe dado remédios para beber, mesmo assim Pierre recobrou a saúde."
"O médico que tratava de Pierre e o visitava todos os dias, apesar de, por sua condição de médico, se julgar no dever de ter o aspecto de um homem para quem cada minuto é precioso para  a humanidade sofredora, se demorava horas (...)"
Reconheço que a medicina daquela época não era lá grandes coisas, mas ainda assim é curioso.


 Finalizando, apenas um questionamento relacionado ao romancinho entre Natacha e Pierre: existe algo mais sem sentido, do que uma leitora tomar para si as "dores" de um personagem? Pergunto porque, assim como a princesa Mária ocasionalmente, eu estou sentindo-me ofendida pelo amor entre os dois, pensando no pobre Andrei. E o pior são as pertinentes aspas: que dores são essas, afinal, se Andrei já está morto?! Eu preciso de ajuda.

17/06/2016

Amuleto - Roberto Bolaño


- Pois então, Auxilio! É isso! Recuso-me a crer na queda ultimada. Com nosso amuleto, escolho crer que as crianças e os jovens latino-americanos ainda voarão alto; muito mais alto do que conseguimos ou sonhamos. 
***

Exato, eu admito que minha esperança ainda não foi completamente trucidada, mas, mesmo assim, é preciso encarar a atual realidade dos fatos, da qual tenho plena consciência: Auxilio Lacouture, a uruguaia de Montevidéu, a mãe da poesia mexicana, continua presa até hoje, desde 1968, no banheiro feminino do quarto andar da Faculdade de Filosofia e Letras da UNAM - Universidad Nacional Autónoma de México. Aposto, sim, que ela ainda pode ser encontrada aí,


lamentavelmente testemunhando a contínua queda de seus filhos no abismo.

Como muitas mães, contudo, Auxilio é forte e determinada. Ela é tão poderosa, que consegue "sair" desse banheiro, mediante rompimento das barreiras do tempo e do espaço, a fim de ajudar e, claro, admirar e encorajar o trabalho da sua prole, os jovens poetas mexicanos.

Preciso, do mesmo modo, reconhecer um outro talento de Auxilio. No início da leitura, ela fizera-me a promessa de que seria capaz de camuflar o horror da história que estava prestes a contar-me, e, de fato, ela conseguiu, pois o que mais percebi e senti durante a narrativa dela foi simplesmente poesia, uma poesia cativante e amorosa que emana de cada linha das páginas do livro. 

O crime atroz, porém, não pôde ser completamente ignorado e refere-se, em sentido estrito, ao massacre sangrento promovido pelo governo mexicano contra os jovens estudantes que protestavam no país em 1968. A experiência de leitura é, de certo modo, semelhante à relação que o poeta espanhol Pedro Garfias estabelecia com seu vaso: como leitora, eu consigo enxergar o vaso e fito-o experimentando uma vaga melancolia dolorosa; contudo, graças à Auxilio Lacouture, sou poupada do sofrimento de ter de enfiar a mão dentro daquela boca do inferno. Considero importante, porém, que o vaso permaneça constantemente diante dos nossos olhos, assim como mantinha Garfias, pois Auxilio Lacouture e os horrores cometidos no passado não podem ser esquecidos. Devemos isso a ela e a todos aqueles jovens assassinados em 68. 

E um importante devaneio durante a leitura: é peculiar o vínculo que o Brasil estabelece com o restante da América Latina (AL), não? Bolaño cita inúmeros artistas - poetas, romancistas, pintores - e não lembro de ter identificado nenhum brasileiro. Outras personagens e países latinos (e ditaduras daquela década) são explicitamente citados, mas também não encontrei nenhum sinal do Brasil. Senti o país um pouco desconectado da identidade latino-americana descrita nas páginas de Bolaño. Não trata-se de uma crítica ao autor, pois é um sentimento que recorrentemente me toma durante a leitura de outros escritores latino-americanos e na vida em geral. Falta-me capacidade para discorrer sobre hipóteses causais que possam explicar esse aparente distanciamento brasileiro, entretanto sinto-me confiante em compartilhar a impressão de que, no momento, a mãe da poesia do Brasil (quem será ela?) encontra-se igualmente enclausurada, passando fome e sede, em algum banheiro de faculdade do nosso país (hum, desde quando? também 1968, com o AI5? muito antes?). Os jovens brasileiros precisam, da mesma maneira, colaborar muito com o canto que libertará todas as mães latino-americanas da poesia e que, simultaneamente, conseguirá lançá-los para longe do abismo. 

(Daí, citando como mero exemplo, acompanhamos as reações e os eventos relacionados à extinção do Ministério da Cultura no governo federal e logo percebemos que o voo está bastante atrasado - mas não cancelado.
- Paciência, mães da poesia. Ainda vai demorar um bocadinho, mas, um dia, vocês sairão desses banheiros.)

12/06/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #14


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08, DL#09, DL#10, DL#11, DL#12, DL#13.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 4 - Terceira Parte

   Pétia Rostóv encerra, nessa parte, a sua brevíssima passagem por Guerra e Paz. 

Na noite anterior ao falecimento do adolescente, o qual ocorrera durante um combate travado contra um comboio de franceses, o CÉU, símbolo recorrente na obra e que já aparecera para Andrei e Pierre, invade os pensamentos do pobre Pétia conforme trechos destacados acima. Curiosa, pesquei uns livrinhos de símbolos de que disponho, para averiguar o que teriam a dizer, e eis meu interessante achado (em tradução livre do inglês):
"Os grandes temas da morte e da ressurreição, respectivamente relacionados com os ciclos de involução (materialização progressiva) e evolução (espiritualização ou retorno ao ponto de origem), deram origem a muitos mitos e lendas. A luta para aprender a lidar com a verdade e o centro espiritual aparece sob a forma de batalhas e testes de força; enquanto aqueles instintos que acorrentam o Homem e levam-no à ruína surgem na forma de monstros. De acordo com Diel, os símbolos mais tipicamente relacionados ao espírito e à intuição são o sol e o céu ensolarado; enquanto aqueles relacionados à imaginação e ao lado mais sombrio da inconsciência, são a lua e a noite."
- A Dictionary of Symbols, J.E. Cirlot.

É principalmente para Andrei e Pierre, de fato, que essa questão da intuição e da epifania espiritual surge durante os marcantes momentos em que os dois são tomados pela contemplação hipnótica do céu. 

Outro devaneio que me consumiu enquanto lia a narrativa dos momentos finais de Pétia relaciona-se à seguinte ligeira inversão de um manjado adágio popular:

Tal pai, tal filho → Tal irmão, tal irmão  &  Tal irmã, tal irmão.

A narrativa dos comportamentos e atitudes do jovem Pétia Rostóv durante a batalha de 1812 espelha enormemente aquela que desfrutamos no ciclo de confrontos de 1805 com Nikolai Rostóv. Assim como o irmão mais velho do primeiro ciclo, Pétia aparece aqui como uma figura ingenuamente encantada pelos meandros da guerra, um adolescente afoito e de atitudes intempestivas que facilmente denunciam sua inocente inexperiência e contradizem  sua "empolgação, por ser agora um adulto." Não resta dúvida de que Nikolai Rostóv escapou com pouca folga do mesmo fim trágico.

Na leitura dos trechos relacionados à tentativa de fuga de Natacha com Anatole, confesso, não ocorreu-me a possibilidade de relacionar a conduta impulsiva e imprudente dela ao mesmo comportamento de Nikolai durante a guerra, mas com Pétia tal estalo veio mais facilmente. A natureza que moveu os três irmãos, naquelas respectivas ocasiões, é praticamente a mesma; cabendo apenas a ressalva de que as circunstâncias distintas refletem os diferentes papéis e realidades reservados naquela época ao homem e à mulher: o adolescente faz besteiras homéricas em guerras; a adolescente, em enredos matrimoniais.

Para finalizar, cabe citar a "crueldade" cometida por Tolstói contra o leitor por conta da maneira com que narrara, ainda que brevemente, os inocentes e pueris pensamentos, movimentos e condutas de Pétia antes do fim. A compaixão tocante com que o rapaz trata o jovem prisioneiro francês (conseguia enxergar-se nele) e o delicado diálogo com seu cavalo - "- Pois é, Karabákh, amanhã vamos ter trabalho - disse Pétia, cheirando e beijando as narinas do cavalo." (olha os cavalinhos novamente!) -, por exemplo, contribuíram ainda mais para intensificar o impacto doloroso provocado pela morte tão trágica do rapaz. A guerra trucidou sem dó a inocência de Pétia.

 Pierre, felizmente, foi resgatado pelo grupo de guerrilheiros comandado por Deníssov e Dólokhov. Ele prossegue sua jornada espiritual, a qual vai sendo conquistada a duras provações e, já que comecei falando de símbolos, cabe registrar que a narrativa dele vale-se de um outro que também é recorrente e que surge nessa parte: SONHOS. Com alguma frequência, Pierre (assim como Andrei) imerge em revelações oníricas espirituais sobre a verdade da VIDA e da MORTE. O sonho parece ser um simbolo que reserva a possibilidade de correlações amplas (citando algumas que localizei:): premonição, profecia, meio de acesso ao inconsciente.

Uma questão vem me intrigando cada vez mais (e já a tinha citado em um DL prévio): impressiona muito a similaridade das jornadas de Pierre e Andrei, quase reflexos uma da outra. Por exemplo, a verdade a respeito da vida que surge em sonho para Pierre nessa parte tem praticamente o mesmo teor daquela que contemplara Andrei em seus últimos momentos. E, como eu já havia citado em DL prévio, Pierre começa a entender a felicidade de um modo apenas ligeiramente adaptado em relação àquele compartilhado por Andrei. Sendo assim, algumas coisas escapam, por ora, da minha plena compreensão:
1. qual o motivo da presença de duas personagens que compartilham tantas similaridades (ainda que permaneçam diferentes) na mesma história?,

2. há entre ambos alguma distinção que justifica a triste interrupção da jornada de Andrei? Pierre também morrerá na praia? E se ele não morrer, o que é que o torna especial em relação a Andrei e que garantirá sua salvação?
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*ADENDO EM 14/01/2017: 
Estou lendo atualmente os Diários da Susan Sontag (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo), e eis que ela aparece para me ajudar a melhor compreender essa relação Pierre x Andrei, entregando-me a resposta quanto ao que, afinal, diferencia essas duas personagens.

Transcrevo, a seguir, a breve análise dela do livro:
"20/10/56
...Guerra e paz, de Tolstói
tema básico: sobrevivência de um épico anti-heroico
Kutúzov, o anti-herói em escala nacional, triunfa sobre o herói, Napoleão
Pierre, o anti-herói em escala individual, prevalece sobre o herói, Andrei"
- Susan Sontag, Diários 1947-1963. 
Mas é claro! Muito obrigada, Sontag.









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  Platon Karatáiev teve uma passagem ainda mais breve na história do que Pétia e também já não pode ser encontrado nas páginas do livro. Nos seus dias finais, ele deixa duas reflexões instigantes a respeito da, adivinhem, MORTE!
"Se a gente fica choramingando na doença, Deus não dá a morte." 
+
(sobre a personagem de uma história que ele contava aos colegas prisioneiros:)                      "Mas Deus já tinha perdoado... Ele tinha morrido."
Bom, então a morte seria uma dádiva divina concedida apenas àqueles que estivessem preparados para recebê-la. Será?


 Essa parte concentrou-se enormemente na narrativa das movimentações das tropas russas e francesas nesses momentos finais que, realmente, são bastante peculiares no universo das guerras. Vou aproveitar para imitar o querido Tolstói que, reparei, gosta de desenvolver suas argumentações utilizando a técnica do "~ primeiramente..., segundamente..., terceiramente..., quartamente... ~".

1. Os russos ~meio que~ não deram trela para as regras tácitas (?) da esgrima (usando a comparação da narrativa) e acabaram se dando bem. "O incêndio das cidades e das aldeias, o recuo depois das batalhas, o golpe infligido em Borodinó e seguido por uma nova retirada, o abandono e o incêndio de Moscou, a prisão dos saqueadores, a captura dos transportes, a guerra de guerrilhas - tudo isso desviava das regras."

Bom, suponho que fica uma lição para a vida: não aceite incontestadamente regras, e tenha em mente que uma transgressãozinha pode alçá-lo a altos voos (só não esqueça do risco da queda).

2. Aliás, a referida guerra de guerrilhas, nas palavas de Tolstói, foi uma das mais proveitosas transgressões das regras da guerra. É principalmente através dela, a qual consiste na ação dispersa de pessoas contra os aglomerados inimigos em massa, que o autor tenta explicar como um exército de dezenas de milhares conseguiu derrotar outro de centenas de milhares. A fórmula mágica da justificativa é esta:

FORÇA DAS TROPAS = MASSA x ÂNIMO DA TROPA.

Na hora do "vamos ver" (na teoria de Tolstói), um bom comandante ou maiores armamentos não seriam capazes de inverter sozinhos uma vantagem numérica, o que só seria possível com esse elemento mágico que a narrativa chama de "ânimo".

Suspeito de que, em tempos atuais de armas nucleares, tecnológicas e biológicas (com menos embate de solo), essa teoria do autor possa ser facilmente desconstruída (ainda que parcialmente).

3. Depois da batalha de Borodinó, não houve mais nenhum grande confronto entre as partes e, mesmo assim, o exército napoleônico foi se desintegrando gradativa e progressivamente à medida que recuava e batia em retirada da Rússia, sem que houvesse a concentração de esforços por parte da Rússia (como dito, o encalço russo foi diluído através de grupos de guerrilha).

Tolstói critica ferrenhamente a narrativa que os historiadores da época elaboraram a respeito da campanha de fuga dos franceses. Ele mostra-se indignado com as manobras adotadas por eles para justificar essa retirada, as quais focaram no engrandecimento dos comandantes, no enaltecimento de um Napoleão que, na verdade, "escapulia às pressas para casa, (...) deixando para trás, para perecer, não só seus camaradas como também pessoas levadas até lá por ele mesmo."

4. Finalmente, Tolstói discorre sobre as indagações que parecem ter tomado conta do país na época: por que as tropas russas não persistiram energicamente na perseguição dos franceses, a fim de aniquilarem toda a tropa e capturarem todos os comandantes, inclusive Napoleão? Aparentemente, essa falta de persistência foi tomada como uma vitória da França e derrota da Rússia. E a culpa sobrou para quem? Segundo os historiadores, para Kutúzov e outras pessoas isoladas.

Aqui, o tom de revolta que transparece no texto é enorme; revelando um narrador possesso com a desfaçatez historiográfica em afirmar a existência de um objetivo impossível e que nunca existira.  O que se pretendia, segundo o narrador, era liberar o país da presença dos invasores. Sendo assim, por qual razão deveriam os russos arriscar as vidas de mais centenas de pessoas no percalço de um invasor que já estava retirando-se por vontade própria? O país já estava em frangalhos, muitas pessoas morreram; portanto por que, e de que maneira, deveriam investir esforços na complicação logística e diplomática relacionada ao aprisionamento de comandantes franceses e de Bonaparte?

Duas marcantes observações ficam evidentes no último capítulo dessa parte em relação à crítica aos historiadores da época: 1. a metodologia deles é amplamente questionada - adoção de textos e documentos exclusivos dos grandes comandantes e lideranças, com aplicação de raciocínios elásticos e manipuladores que favoreciam interesses imediatos; 2. com grande impacto, Tolstói sugere claramente que a historiografia era conduzida por pessoas que não faziam absolutamente nenhuma ideia concreta do que efetivamente significa estar em uma guerra.

***
Realmente curiosa para saber como os historiadores de hoje encaram Guerra e Paz. Fica mais um tema para pesquisa ao término da leitura.

Pessoalmente, o livro acaba reforçando a importância de uma leitura crítica também das narrativas históricas.

08/06/2016

O Livro de Monelle - Marcel Schwob

(info, sinopse, etc. )
( Edição Hedra traduzida por Claudia Borges de Faveri)
Esse autor francês cruzou meu caminho através desta listinha (sou a louca das listas) do site Literary Hub: 10 ótimos escritores que ninguém lê (Ten great writers nobody reads). Imaginem que a lista contém até o Guimarães Rosa, o que me permitiu supor que a curadoria deva ter sido mesmo cuidadosa. Dela, já risquei um nome - Jane Bowles - , e agora chegou a vez do Schwob. Sobre ele, o artigo diz o seguinte: (tradução livre)
Marcel Schwob (1867-1905)
Categoria: Um escritor cuja influência excede em larga escala seu público leitor. 
CategoriaUm escritor que morreu muito jovem.
É possível que Marcel Schwob seja o escritor mais influente do qual você nunca tenha ouvido falar. Embora criminosamente ignorado pelos países de língua inglesa, Schwob - uma espécie de Robert Louis Stevenson francês - exerceu influência sobre um grupo diversificado de sucessores famosos, incluindo Alfred Jarry, Jorge Luis Borges, Paul Valery, Roberto Bolaño e outros. Ele é o epítome do escritor que, embora ninguém suponha lê-lo, permanece vivo na obra de outros autores devido à sua profunda influência.

E como se isso aí já não fosse suficiente para despertar meu interesse, temos ainda o aval do Guillermo del Toro (segunda recomendação dele que aparece no blog):


***

Certo, pois a sequência por estas bandas foi 1. livrinho comprado, 2.leitura iniciada e... 3."- Ok, o que está acontecendo aqui??". De fato, o Guillermo tem razão ao dizer que a obra é "inclassificável". Sendo honesta, ainda estou na dúvida se eu deveria tê-la incluído na seção Lendo Contos do blog.

O livro foi publicado em 1894, é curtinho (85 páginas de texto em edição de bolso) e dividido em três partes que tento esquematizar da seguinte maneira:

O LIVRO DE MONELLE

1 - PALAVRAS DE MONELLE
Monelle apresenta-se brevemente de uma maneira bastante enigmática e pouco direta, brincando com o jogo de palavras "sou eu e não sou eu", "me encontrarás e me perderás", "me esquecerás e me reconhecerás" e, quando ela diz que falará das "pequenas prostitutas" para que seu interlocutor, e nosso narrador (não identificado - Schwob?), conheça o "início", já fica claro que ela é uma prostituta. Lendo sobre a vida do autor, descobre-se que a obra é amplamente inspirada na sua amante cortesã Louise, a suposta Monelle, portanto o livro poderia refletir o que aquele relacionamento amoroso intenso e trágico  teria representado na vida de Schwob.

Monelle é construída sob uma aura de sublimação misteriosa e divina, ou algo mística, característica que é estendida às prostitutas de modo geral:
"Vê, elas dão um grito de compaixão em sua direção, e acariciam sua mão com a mão descarnada. Elas só compreendem vocês se forem muito infelizes; elas choram com vocês e os consolam. (...) Nenhuma delas, vê, pode ficar com vocês. (...) Elas lhe ensinam a lição que têm para ensinar, e se vão. (...) São criaturas de carne. Elas saíram de um beco sombrio para dar um beijo de piedade soba  lâmpada acesa da grande rua. Nesse momento, elas eram divinas."
Já nessa primeira parte, é possível perceber que o autor explora bastante a intertextualidade em sua prosa. Assim como Borges, Schwob era poliglota, lia textos em inglês e alemão desde criança, foi diretor da biblioteca pública francesa Mazarine, trabalhou em jornais... (as semelhanças nas biografias dos dois parecem mesmo extraordinárias.) Há referências explícitas no discurso de Monelle a prostitutas famosas da literatura (Sônia de Crime e Castigo, Dostoiévski; Anne do Confissões de um Comedor de Ópio, Thomas de Quincey) e a própria forma com que o texto é desenvolvido nessa parte lembrou-me muito aquela de um evangelho bíblico.

Conforme sugerido pelo título, Monelle revela suas palavras, as quais aparecem como espécies de mandamentos filosóficos sobre temas diversos relacionados à vida (emulando Moisés, o interlocutor de Monelle a encontra em uma planície, e a ele caberia escrever as palavras dela), ou ainda uma versão do Minutos de Sabedoria:

1. da DESTRUIÇÃO: "Destrói, pois toda criação vem da destruição"

2. da FORMAÇÃO: "O próprio desejo do novo não é senão apetência da alma que deseja se formar."

3. dos DEUSES: "Que todo deus alce voo, tão logo criado. Que toda criação morra, tão logo criada. (...) que todo deus seja deus do momento."

4. dos MOMENTOS: "Ama o momento. Todo amor que dura é ódio."

5. da VIDA e da MORTE: "Não dividas a realidade entre a vida e a morte. Diz: agora eu vivo e morro."

6. das COISAS MORTAS: "Não carregues em ti cemitérios. Os mortos causam pestilência." (amei isso.)

7. de tuas AÇÕES: "Constrói nas diferenças, destrói nas similitudes. (...) Não temas te contradizer: não há contradição no momento."

8. de MINHAS PALAVRAS: "As palavras são palavras enquanto são faladas. Escuta minhas palavras faladas e não ajas segundo minhas palavras escritas."  (aí eu entrei no modo "Ué..., mas então...". complicado.)

Creio que a essência do texto recai especialmente na ideia do "momento", ou seja, na premissa de que não devemos nos apegar a nada que não seja o aqui e o agora, o que implicaria na impossibilidade da continuidade, da permanência de qualquer coisa, incluindo sentimentos, relacionamentos e nós mesmos. 

2 - AS IRMÃS DE MONELLE
A primeira parte encerra-se com o narrador afirmando que avista as irmãs de Monelle na planície, de modo que essa segunda parte nos apresenta a algumas dessas irmãs; para ser exata, onze:

A EGOÍSTA
A VOLUPTUOSA
A PERVERSA
A DESILUDIDA
A SELVAGEM
A FIEL
A PREDESTINADA
A SONHADORA
A AGRACIADA
A INSENSÍVEL
A SACRIFICADA

Essa parte é a que mais se assemelha a uma coletânea de contos, pois a cada irmã - muitas delas crianças - corresponde um brevíssimo conto que narra uma historinha usando forma e linguagem que muito assemelham-se a contos de fadas. Como nunca li esse gênero (minha edição dos Irmãos Grimm me encara da estante em veemente crítica), não poderia afirmar se todos os contos evocam um conto de fadas específico, mas alguns mais famosos até eu pude pescar: Cinderela, O Barba Azul.

Embora todas as irmãs pertençam e venham de realidades diferentes, é possível identificar um elo comum: elas são seres especiais demais para nosso mundo vil e ordinário; pertencendo, isto sim, ao mundo dos sonhos, do belo, do mágico e fantástico. Ou seja, mais um reforço à magnífica aura sobrenatural que Schwob reserva às prostitutas.

3 - MONELLE
O narrador do início relata brevemente a origem, vida, reino, morte e ressurreição de Monelle. Encontramos aqui uma prosa poética revestida de elementos fantásticos, o que concede ao texto um tom bastante onírico e surreal; repleto de belas imagens e símbolos recorrentes: espelhos (olha aí o Borges), cores (vermelho, preto, branco, verde), circularidade (Borges de novo), crianças, luz/sombra, ruínas.

***

Não demorou para que eu percebesse que não pretende-se - acho - que a leitura dessa obra seja encarada rigorosamente como um exaustivo processo decodificador de uma história e mensagem específicos (pelo menos não para uma leitora ordinária como eu), mas, sim, que seja uma jornada prazerosa proporcionada pelo que Schwob consegue fazer em termos de experimentação de forma, prosa poética, símbolos, imagens, sensações e sentimentos invocados. A leitura é praticamente uma incrível experiência lisérgica.

Gostei bastante e já estou providenciando outra obra que a Hedra publicou dele: A Cruzada das Crianças/Vidas Imaginárias, a qual serviu de inspiração para História Universal da Infâmia, do Borges.

***
"- Eis aqui - disse ela - e você verá o reino, mas não sei se você entrará. Pois sou difícil de compreender, salvo por aqueles que não compreendem; e sou difícil de entender, salvo por aqueles que não entendem mais; e sou difícil de reconhecer, salvo por aqueles que não têm lembrança. Na verdade, eis que você me tem, e não tem mais."

07/06/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #13


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08, DL#09, DL#10, DL#11, DL#12.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 4 - Segunda Parte


 Nessa parte só deu ele: Kutúzov!! Eu já o mencionei e até o defendi várias vezes ao longo das postagens desse diário de leitura, mas acho que ainda assim não havia dado o devido destaque que essa personagem histórica e literária merece. Suponho que Tolstói o admirava bastante, pois o Excelentíssimo surge em Guerra e Paz sob uma luz realmente generosa e enaltecedora. A impressão que fica é que a maneira sensata e experiente com que o comandante raciocina está em ampla harmonia com as ideias defendidas por Tolstói.


A guerra, agora, parece ter entrado numa dinâmica meio "gato e rato", com alternância de avanços e recuos de cada lado; ainda que a contragosto de Kutúzov, que defendia que bastaria esperar, e o inimigo francês colocaria, ele mesmo, a corda no próprio pescoço, e então seria apenas uma questão de chutar a cadeira (tendo em vista que as tropas francesas já estavam em frangalhos, "carregando consigo as condições da catástrofe inevitável"). A movimentação que foi decisiva para essa mudança de panorama - a vantagem de forças passando para o lado dos russos, apesar das novas hilárias trapalhadas (até mortais...) que cometeram - envolveu o deslocamento russo de Riazan para a estrada de Kaluga, rumo ao acampamento de Tarútino - a chamada Marcha de Flanco. Com ela, os russos ganham tempo e condições para se reorganizarem e abastecerem; enquanto os franceses decidem deixar Moscou e partir para cima (literalmente, pelo mapa, seria "para baixo") do inimigo, ainda que completamente fragilizados e desorganizados - a despeito dos esforços de Napoleão.

Mais uma vez Tolstói aparece pentelhando os historiadores e, confesso, este estalo só me ocorreu agora: é bem provável que ele tenha decidido escrever Guerra e Paz impelido pela pessoal necessidade premente de construir a narrativa desse conflito da maneira como ele efetivamente ocorrera, desatando os nós de todas as incongruências mais do que óbvias (na opinião dele, é claro). Fica a observação para uma pesquisa ao término da leitura.

Novamente (desculpe-me, T., mas acho que já deu), Tolstói reforça a Lei da Coincidência das Causas, ressalvando, em linhas bem gerais, que nenhuma daquelas movimentações militares foi deliberadamente premeditada visando a certeza de um resultado específico. Para ele, a Marcha de Flanco era apenas lógica (só faltou dizer que qualquer imbecil teria feito aquilo, rs), enquanto Napoleão, por sua vez, fez tudo o que podia para reorganizar suas tropas. Entretanto, é como disse Tolstói: ninguém ali estava efetivamente no comando, pois "uma incontável quantidade de forças livres influencia os rumos da batalha."

Surgiu aqui, também, mais uma passagem cuja premissa correlaciona-se proximamente ao subtexto que mencionei no DL anterior, o das mocinhas apaixonadas manipulando suas memórias:
"(...) ele (Kutúzov) sabia que peso dar a boatos, sabia como as pessoas que desejam algo são capazes de organizar as notícias de modo que pareçam confirmar o que desejam (...)"
Ou seja, a postura adotada pelos historiadores da época seria comparável a de moças enamoradas, desvirtuando suas memórias? Comparável às engrenagens de boatos?


↪ Voltando rapidinho ao Kutúzov:
Procurando por imagens dele (vergonhosamente, só o fiz agora), fiquei encantada com este quadro de Aleksey Kivshenko - a Conferência de Filí -, que traz a menininha que, na narrativa de Tolstói (tomo 3, terceira parte), acompanha a reunião do seu "vovô" Kutúzov:


↪ Quanto ao Pierre: saiu de Moscou com os demais prisioneiros, escoltado pelos franceses em retirada para a ofensiva. Senti que, nesse momento, ele está entrando numa vibe meio franciscana, atingindo uma tranquilidade de alma, uma elevação espiritual (acho) proporcionada pela difícil situação de privações na qual se encontrava. Finalmente Pierre compreende a crença defendida por Andrei de que a felicidade só existiria de forma negativa, ou seja, pela ausência de sofrimento, pela satisfação das necessidades e pela liberdade de uma forma de vida. Aliás, ele já até reconhece como fora tolo ao crer que a eliminação de Bonaparte estaria em suas mãos.

E o "céu" (símbolo recorrente na narrativa), aquele mesmo que inundara a alma de Andrei na batalha de Austerlitz, surge também para Pierre, com sua grandiosidade inebriante.
            "E tudo isso é meu, e tudo isso está em mim, e tudo isso sou eu!, pensou Pierre."

↪ Devaneando...
(Acho que já falei isto em outros DL's, mas como não lembro...:) A teoria defendida por Tolstói me causa um certo desconforto quando extrapolo-a para a vida de um modo geral. Creio que, em última instância, ela implica no reconhecimento das noções de destino, carma, providência. Não tenho uma opinião definitiva sobre esse controverso assunto, mas apenas a certeza - hoje - da sensação de certa angústia com a possibilidade de que o comando da minha vida não repouse unicamente em minhas mãos - a noção do controle ilusório. Ao mesmo tempo, será que isso não deveria me proporcionar uma certa tranquilidade, já que nada dependeria exclusivamente das minhas ações? Ambas possibilidades? Complicado. Como talvez dissesse Nikolai Rostóv: não sei de nada.

Enquanto entretinha-me nesses pensamentos "super corriqueiros", lembrei-me desta musiquinha que deixo como trilha sonora dessa parte de Guerra e Paz: