01/06/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #12


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08, DL#09, DL#10, DL#11.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 4 - Primeira Parte
Daí eu fiquei confabulando aqui: caso Tolstói lesse meu diário de leitura, ele provavelmente diria (em russo, claro)
"a senhorita claramente não provou o fruto da árvore do conhecimento." ( ¯\_(ツ)_/¯ )

 Essa parte começa com um panorama do que se passava com a nobreza refugiada em Petersburgo, poucos dias antes do recuo das tropas russas e da tomada de Moscou pelos franceses. Tolstói aparece super afiado, metralhando deliciosamente contra a demagogia e o comportamento patético dos, digamos assim, nobres militantes de salões de festas.

Nesse sentido, o autor expõe um ponto de vista instigante:
"Aqueles que tentavam compreender o curso geral dos acontecimentos e, com sacrifício e heroísmo, queriam participar deles, eram os membros mais inúteis da sociedade; viam tudo invertido, e tudo aquilo que faziam como algo útil se revelava um absurdo inútil. (...) Até aqueles que, pelo gosto de se mostrar inteligentes e de dar voz a seus sentimentos, debatiam a situação existente na Rússia, não podiam deixar de pôr em suas palavras a marca do fingimento ou da mentira, ou de uma condenação e de uma raiva inúteis contra pessoas acusadas de algo cuja culpa não podia ser atribuída a ninguém."
(* Fiquei bem tentada a correlacionar isso com certos comportamentos atuais nas mídias sociais, mas achei melhor não mexer nesse vespeiro. Deixo como fagulha para uma reflexão introspectiva.) 

O príncipe Vassíli e seu pimpolho Hippolyte (que andava sumido, aliás) foram as personagens mais agradavelmente ridicularizadas como ilustração prévia dessa ala dos russos inúteis, ambos dignos de um quadro do Monty Python. O Kuráguin pai dominava a infame, mas bem famosa ainda nos dias de hoje (vide políticos e declamadores de poesia), "arte da leitura", a qual consiste em "derramar as palavras em voz alta, melodiosa, entre uivos de desespero e murmúrios de ternura, de maneira totalmente independente do seu significado, de modo que, completamente ao acaso, uma palavra se erguia num uivo e outra virava um murmúrio." O Kuráguin filho, por sua vez, praticava a tática diplomática de retrucar algo de forma súbita e em voz alta, a fim de conferir uma falsa aparência de sagacidade a comentários sem sentido. Já outra prática social dos dois não era exatamente exclusiva, pois relaciona-se à usual conveniência da maleabilidade de opiniões a depender do andar da carruagem.

Ainda quanto a esse início, causa-me certa estranheza a maneira com que a postura do soberano russo Alexandre I é narrada diante do desenrolar dos fatos históricos. Não ficou totalmente claro pra mim o posicionamento de Tolstói, contudo eu particularmente acho muito estranho, e até inadmissível, que um líder coloque-se - e seja colocado pela nação - em uma posição isenta de qualquer responsabilidade sobre aqueles acontecimentos. Moscou é tomada pelo exército de Napoleão e a reação nos bailes é "ah, mas coitado do tsar..."?! Como assim? Vai tudo, mesmo, na conta apenas do comandante Kutúzov?

* Pausa para voltar aos Kuráguin: e a Hélène, que morreu do nada? Fiquei passada e sentindo-me meio culpada por ter chamado os dois irmãos - Hélène e Anatole - de cobras, já que agora ambos estão mortinhos da silva (ou não, pois aprendi que Tolstói curte uma trollada nos leitores). E uma pergunta: o trecho "(...) prescrevera a Hélène pequenas doses de um certo remédio para produzir um determinado efeito; (...)" refere-se a alguma medicação para provocar abortamento? Será? Fiquei com a dúvida.

 Falemos agora de Nikolai, outro grande paspalho da história, embora seja um tantinho mais singelo e palatável (no entanto menos engraçado) do que os Kuráguin - mas, ainda assim, um paspalho. Provas? Opa, tivemos mais algumas interessantes evidências nessa parte:
(1) "(...) Nikolai pensava em todas as jovens da sociedade como futuras esposas e, na imaginação, encaixava-as em todas as circunstâncias de uma vida conjugal: um roupão branco, a esposa junto ao samovar, uma carruagem de mulher, criancinhas, mamam e papa, a relação das crianças com ela etc. etc., (...)"     (rolling my eyes...)
(2) "(...) e Nikolai ficou andando de um lado para outro em seu quarto durante muito tempo, refletindo sobre sua vida, o que raramente acontecia com ele."  ("deixa a vida me levar" way of life.)
(3) "Nos homens, Rostóv não tolerava ver a expressão de uma vida espiritual superior (por esse motivo não gostava do príncipe Andrei), e desdenhosamente chamava isso de filosofia, devaneio, mas na princesa Mária, (...) ele sentia uma atração irresistível. (...) "Como ela reza!" (...) Por que eu não rezo por aquilo de que preciso?" (...) Do que preciso? De liberdade, de um rompimento com Sônia."      (certinho, bonitão. nunca reza, mas vai lá rezar para livrar-se da noiva inoportuna.)
E o pior - ou melhor? -  é que ele teve a graça alcançada, pois Sônia deixou o caminho livre para ele casar-se com Mária (a condessa Rostóv encheu tanto os pacová dela, que acabou conseguindo o que queria).

Sério, torço muito para que Sônia tenha um final extremamente feliz nessa história - vamos acompanhar. Através de Sônia, ainda, novamente Tolstói trouxe uma ideia que já tinha sido explorada com Natacha: mulheres apaixonadas manipulam suas memórias da maneira mais tola concebível,  a fim de atender aos seus supostos desejos imediatos. Não sei bem o que pensar sobre isso. Poderia ser uma narrativa que reforça, mediante um paralelo alegórico, a crítica que o autor vem estabelecendo ao trabalho dos historiadores no relato desta guerra?


↪ Falando em Mária: interessante que, agora que as amarras constritivas do pai foram rompidas, a personalidade mais charmosa e assertiva dela vai se delineando com mais liberdade. Gostei.


↪ Voltando aos Rostóv: e o Conde Iliá? Puxa, acho que a dona Morte já está de olho nele:
"O velho conde havia mudado extraordinariamente (...). Antes, era um velhinho animado, alegre, seguro de si; agora, parecia uma pessoa desnorteada de dar pena. (...) Depois da destruição de Moscou e de seu patrimônio, expulso à força de seu círculo rotineiro, ele parecia haver perdido a consciência de sua importância e vivia com a sensação de que não tinha mais um lugar na vida." (suponho que ele esteja simbolizando toda a nobreza russa naquele momento histórico.)

↪ (Eu:) - Pierre, posso dar-lhe um abraço? Meu amigo, eu sinto muito por você.

Temo mesmo que, ao final de Guerra e Paz, Pierre se despeça dos leitores em uma camisa de força, porque a narrativa não está aliviando a barra pra cima dele e segue pegando pesado. Como se não bastassem os horrores que ele testemunhara nos campos de batalha, ele agora presenciou a selvageria irracional e surreal  real de um fuzilamento conduzido por franceses contra um grupo de russos. Consternado, e com razão, Pierre passou a sentir que sua culpa não era a única causa do desmoronamento sem sentido do mundo. Dentro dele tinha sido aniquilada a fé no aprimoramento do mundo, na humanidade, na sua própria alma e em Deus. 

No meio desse pesadelo, uma nova e agradável personagem, porém, cruzou o caminho dele: Platon Karatáiev, a personificação de tudo o que é russo, bom e redondo; cristanês de 50 anos prisioneiro de guerra como Pierre. Espero que ele seja capaz de ajudá-lo.

E Platon manda uns adágios e provérbios ótimos que deixo registrados aqui:


↪ Minha teoria a respeito da marcante presença de cavalos na narrativa (DL#10) segue firme e forte, hein. Nessa parte, Nikolai cruza novamente o caminho de Mária graças à designação de comprar montarias para a divisão em Voróniej; enquanto Platon inclui os santos padroeiros dos cavalos - Flora e Lavra -  em suas orações. 


↪ Bom, e chegamos fatalmente ao momento que eu preferiria ignorar, mas... Sim, meu queridíssimo e muito amado príncipe Andrei Bolkónski morreu. Como mencionei no último DL, o estado dele não dava margens a muitas esperanças, porém sabe como é coração de leitora apaixonada: é trouxa.

Enfim, Andrei foi realmente um tremendo personagem; bem mais complexo do que eu fui capaz de desvendar. Quando julguei que o tinha compreendido completamente, chego a esses seus momentos finais (texto excelente do Tolstói, por sinal) e descubro que Andrei continua sendo um grande enigma que eu, infelizmente, não terei mais a chance de tentar solucionar.

"(Andrei:) O amor é Deus, e morrer significa que eu, 
uma partícula de amor, 
vou voltar para a fonte universal e eterna."

- Adeus, amado Andrei.

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