18/06/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #15


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08, DL#09, DL#10, DL#11, DL#12, DL#13, DL#14.
Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 4 - Quarta Parte

 Essa parte foi bem morninha, embalada pelo clima "depois da guerra, a paz". Foi o momento de:

1. Condecorar e exaltar os "heróis" da guerra. Ou quase.

Em princípio, definir quem seriam esses "heróis" parece tarefa fácil, mas o tom da narrativa de Guerra e Paz questiona essa suposta trivialidade e instiga-nos a reavaliar criticamente o grupo de pessoas a quem a historiografia concede o título de Grand. Tolstói conclui aqui, de forma explícita, a longa defesa de Kutúzov - desenvolvida ao longo de todo o livro - com a nítida intenção de reparar a grave injustiça que seu país (notadamente seus historiadores) teria cometido contra o comandante.

Kutúzov chegou a receber diretamente das mãos do soberano a medalha da Ordem de São Jorge de primeira classe, no entanto, como explica o narrador, foi apenas um esforço para manter aparências, tendo em vista que todos (até o soberano) culpavam o velhote de ter impedido que o país derrotasse completamente os franceses. Com uma amarga ironia, Tolstói diz que a Napoleão - "esse instrumento insignificante da história" que "nunca deu provas de dignidade humana" - a posteridade concedeu o título de Grand, enquanto Kutúzov - "exemplo extraordinário de abnegação", da essência russa e de subordinação de vontade pessoal à vontade da providência - foi tratado pela história como um velho fraco e lascivo, um cortesão farsante e astuto que temia o nome de Napoleão. Na visão de Tolstói, o destino de pessoas como Kutúzov não reserva-lhes o título de Grand, mas apenas o ódio e desprezo daqueles incapazes de reconhecer as raras pessoas agraciadas pelo entendimento das leis superiores. 

Ah, sim, "E ele morreu." 

2. Reconstruir "o lugar que antes era chamado de Moscou". 

Nesse processo, a narrativa descreve uma incongruência curiosa: assim como os franceses invasores, os russos que iniciaram o processo de reocupação da cidade também promoveram saqueamentos e pilhagens, porém, nesse segundo caso, foram exatamente esses saques os responsáveis pela reconstrução moscovita.
"O saque dos russos, com o qual teve início a reocupação da cidade pelos russos, quanto mais se prolongava, quanto mais pessoas dele participavam, mais depressa restabelecia a riqueza de Moscou e a vida normal da cidade."
3. Chorar e rezar pelos mortos.

Mária e Natacha ainda choravam pela morte de Andrei, quando os Rostóv receberam a triste notícia da morte de Pétia. O golpe, como esperado, foi especialmente duro para a condessa, a quem Natacha teve de ajudar com uma força que nem mesmo ela imaginava possuir.

4. Viver, pois a vida não parava. 


↪ Pierre, Pierre... (Suspeito de que a maioria das minhas elucubrações sobre o Pierre começaram com esse ar de divagação vazia e algo recriminatória. ¯\_(ツ)_/¯) 

Reconheço que talvez já seja tarde para isto, mas, mesmo assim, finalmente desisto de tentar prever qualquer futuro passo de Pierre. Veja bem, houve um DL em que compartilhei o temor de que ele pudesse terminar o livro completamente louco; sendo que, nessa parte, ele aparece todo felizão e bem resolvido graças à consciência alcançada durante o cativeiro de que era preciso viver, independente de quaisquer objetivos, simplesmente porque Deus vive em toda parte. Ele está tranquilão, mais resoluto e assertivo; nada o atinge e todas as pessoas parecem-lhe ótimas. Enfim, ele praticamente atingiu o nirvana. (se vai durar, aí eu já não sei.)

Olhando retrospectivamente, tenho quase certeza de que cada uma das partes desse livro apresentou-me a um Pierre diferente. Ele parece sujeitar-se a um ciclo de viradas de humor cujo ritmo é bastante rápido, que eu claramente não consigo acompanhar. Nessa parte mesmo: na página 2282 diz-se que "(...) raramente lhe vinham pensamentos sobre Natacha. Se vinha algum pensamento, era apenas como uma lembrança agradável de um passado distante";  enquanto a página 2286 afirma que "(...) já não podia haver dúvida: era Natacha, e ele a amava." Nope, eu não consigo acompanhar mesmo.

Mária e Natacha, inclusive, tiveram um surpreendente diálogo exatamente sobre a questão que citei em DL's anteriores: as semelhanças e diferenças entre Pierre e Andrei. As duas compartilham a mesma opinião de que ambos são maravilhosos, embora sejam completamente diferentes. Não sei, esse tema ainda continua confuso pra mim, porém ainda acho que há entre os dois mais semelhanças do que diferenças. A impressão que tenho é que os dois seguem caminhos diferentes apenas na maneira com que relacionam-se com o mundo exterior, pois as essências interiores parecem ser bem similares. 

E gostaria de deixar registrada uma importante e valiosa lição aprendida por Pierre aqui - anotar para tentar não esquecer jamais:
"(...) reconhecimento da possibilidade de cada pessoa pensar, sentir e ver as coisas à sua maneira; o reconhecimento da impossibilidade de dissuadir uma pessoa por meio de palavras. (...) A diferença e, às vezes, a completa contradição entre os pontos de vista das pessoas e a vida delas, e também entre as próprias pessoas, alegrava Pierre (...) a concordância fingida era o meio mais curto de esquivar-se de discussões, das quais nada poderia sair (...)"

 Houve um certo trecho que achei bastante, digamos assim, ~complicado~, no qual Tolstói estabelece uma distinção entre "mulheres inteligentes" e "mulheres verdadeiras". Em linhas gerais, tentando resumir, ele diz que a mulher de verdade (?!) escuta caladinha e até agradece toda forma de mansplaining, ao contrário da intelingentona (a falsa mulher?!) que, veja só, ousa um debate com o homem.
"(...) as mulheres inteligentes que, ao escutar, ou tentam memorizar o que lhes dizem a fim de enriquecer seu intelecto e, se houver oportunidade, recontar tudo de novo, ou tentam adaptar a seu próprio modo de ver aquilo que lhes dizem e exprimir bem depressa seus comentários inteligentes, (...) as mulheres verdadeiras, dotadas da capacidade de selecionar e de absorver tudo que há de melhor naquilo que um homem manifesta."
Podia ter passado sem essa, Tolstói. 


↪ Será que Tolstói tinha algum trauma específico relacionado a médicos? Ele já tinha mandado várias indiretas, mas agora foi ainda mais explícito:
"Apesar de os médicos o terem tratado, terem tirado seu sangue e lhe dado remédios para beber, mesmo assim Pierre recobrou a saúde."
"O médico que tratava de Pierre e o visitava todos os dias, apesar de, por sua condição de médico, se julgar no dever de ter o aspecto de um homem para quem cada minuto é precioso para  a humanidade sofredora, se demorava horas (...)"
Reconheço que a medicina daquela época não era lá grandes coisas, mas ainda assim é curioso.


 Finalizando, apenas um questionamento relacionado ao romancinho entre Natacha e Pierre: existe algo mais sem sentido, do que uma leitora tomar para si as "dores" de um personagem? Pergunto porque, assim como a princesa Mária ocasionalmente, eu estou sentindo-me ofendida pelo amor entre os dois, pensando no pobre Andrei. E o pior são as pertinentes aspas: que dores são essas, afinal, se Andrei já está morto?! Eu preciso de ajuda.

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