08/06/2016

O Livro de Monelle - Marcel Schwob

(info, sinopse, etc. )
( Edição Hedra traduzida por Claudia Borges de Faveri)
Esse autor francês cruzou meu caminho através desta listinha (sou a louca das listas) do site Literary Hub: 10 ótimos escritores que ninguém lê (Ten great writers nobody reads). Imaginem que a lista contém até o Guimarães Rosa, o que permitiu-me supor que a curadoria deva ter sido mesmo cuidadosa. Dela, já risquei um nome - Jane Bowles - , e agora chegou a vez do Schwob. Sobre ele, o artigo diz o seguinte: (tradução livre)
Marcel Schwob (1867-1905)
Categoria: Um escritor cuja influência excede em larga escala seu público leitor. 
CategoriaUm escritor que morreu muito jovem.
É possível que Marcel Schwob seja o escritor mais influente do qual você nunca tenha ouvido falar. Embora criminosamente ignorado pelos países de língua inglesa, Schwob - uma espécie de Robert Louis Stevenson francês - exerceu influência sobre um grupo diversificado de sucessores famosos, incluindo Alfred Jarry, Jorge Luis Borges, Paul Valery, Roberto Bolaño e outros. Ele é o epítome do escritor que, embora ninguém suponha lê-lo, permanece vivo na obra de outros autores devido à sua profunda influência.

E como se isso aí já não fosse suficiente para despertar meu interesse, temos ainda o aval do Guillermo del Toro (segunda recomendação dele que aparece no blog):


***

Certo, pois a sequência por estas bandas foi 1. livrinho comprado, 2.leitura iniciada e... 3."- Ok, o que está acontecendo aqui??". De fato, o Guillermo tem razão ao dizer que a obra é "inclassificável"; inclusive, para ser honesta, ainda estou na dúvida se eu deveria tê-la incluído na seção Lendo Contos do blog.

O livro foi publicado em 1894, é curtinho - 85 páginas de texto em uma edição de bolso -, e dividido em três partes que tento esquematizar da seguinte maneira:

O LIVRO DE MONELLE

1 - PALAVRAS DE MONELLE
Monelle apresenta-se brevemente de uma maneira bastante enigmática e pouco direta, brincando com o jogo de palavras "sou eu e não sou eu", "me encontrarás e me perderás", "me esquecerás e me reconhecerás" e, quando ela diz que falará das "pequenas prostitutas" para que seu interlocutor, e nosso narrador (não identificado - Schwob?), conheça o "início", já fica claro que ela é uma prostituta. Lendo sobre a vida do autor, descobre-se que a obra é amplamente inspirada na sua amante cortesã Louise, a suposta Monelle, portanto o livro poderia refletir o que aquele relacionamento amoroso intenso e trágico  teria representado na vida de Schwob.

Monelle é construída sob uma aura de sublimação misteriosa e divina, ou algo mística, característica que é estendida às prostitutas de modo geral:
"Vê, elas dão um grito de compaixão em sua direção, e acariciam sua mão com a mão descarnada. Elas só compreendem vocês se forem muito infelizes; elas choram com vocês e os consolam. (...) Nenhuma delas, vê, pode ficar com vocês. (...) Elas lhe ensinam a lição que têm para ensinar, e se vão. (...) São criaturas de carne. Elas saíram de um beco sombrio para dar um beijo de piedade soba  lâmpada acesa da grande rua. Nesse momento, elas eram divinas."
Já nessa primeira parte, é possível perceber que o autor explora bastante a intertextualidade em sua prosa. Assim como Borges, Schwob era poliglota, lia textos em inglês e alemão desde criança, foi diretor da biblioteca pública francesa Mazarine, trabalhou em jornais... (as semelhanças nas biografias dos dois parecem mesmo ser extraordinárias.) Há referências explícitas no discurso de Monelle a prostitutas famosas da literatura (Sônia de Crime e Castigo, Dostoiévski; Anne do Confissões de um Comedor de Ópio, Thomas de Quincey) e a própria forma com que o texto é desenvolvido nessa parte lembrou-me muito aquela de um evangelho bíblico.

Como sugere o título, Monelle revela aqui as suas palavras, as quais aparecem como espécies de mandamentos filosóficos sobre temas diversos relacionados à vida (quase como Moisés, o interlocutor de Monelle a encontra em uma planície e a ele caberia escrever as suas palavras), ou ainda uma versão do Minutos de Sabedoria:

1. da DESTRUIÇÃO: "Destrói, pois toda criação vem da destruição"

2. da FORMAÇÃO: "O próprio desejo do novo não é senão apetência da alma que deseja se formar."

3. dos DEUSES: "Que todo deus alce vôo, tão logo criado. Que toda criação morra, tão logo criada. (...) que todo deus seja deus do momento."

4. dos MOMENTOS: "Ama o momento. Todo amor que dura é ódio."

5. da VIDA e da MORTE: "Não dividas a realidade entre a vida e a morte. Diz: agora eu vivo e morro."

6. das COISAS MORTAS: "Não carregues em ti cemitérios. Os mortos causam pestilência." (amei isso.)

7. de tuas AÇÕES: "Constrói nas diferenças, destrói nas similitudes. (...) Não temas te contradizer: não há contradição no momento."

8. de MINHAS PALAVRAS: "As palavras são palavras enquanto são faladas. Escuta minhas palavras faladas e não ajas segundo minhas palavras escritas."  (aí eu entrei no modo "Ué..., mas então...". complicado.)

Creio que a essência do texto recai especialmente na ideia do "momento", ou seja, na premissa de que não devemos nos apegar a nada que não seja o aqui e o agora, o que implicaria na impossibilidade da continuidade, da permanência de qualquer coisa, incluindo sentimentos, relacionamentos e nós mesmos. (È heavy shit. estou apenas conjecturando, vejam bem. / Ah, e a relação de Schwob com Louise foi efêmera, não vingou; então essa lição de Monelle teria sido valiosa/assimilada. Confere?)

2 - AS IRMÃS DE MONELLE
A primeira parte encerra-se com o narrador afirmando que avista as irmãs de Monelle na planície, de modo que essa segunda parte nos apresenta algumas dessas irmãs, onze para ser exata:

A EGOÍSTA
A VOLUPTUOSA
A PERVERSA
A DESILUDIDA
A SELVAGEM
A FIEL
A PREDESTINADA
A SONHADORA
A AGRACIADA
A INSENSÍVEL
A SACRIFICADA

Essa parte é a que mais se assemelha a uma coletânea de contos, pois a cada irmã - muitas delas crianças - corresponde um brevíssimo conto que narra uma historinha envolvendo tais personagens, havendo aqui uma forma e linguagem que em muito assemelham-se a contos de fadas. Como nunca li esse gênero (minha edição dos Irmãos Grimm me encara da estante em veemente crítica), não poderia afirmar se todos os contos evocam um conto de fadas específico, mas alguns mais famosos até eu pude pescar: Cinderela, O Barba Azul.

Embora todas pertençam e venham de realidades diferentes, é possível identificar um elo comum entre as irmãs: elas são seres especiais demais para nosso mundo vil e ordinário; pertencendo, isto sim, ao mundo dos sonhos, do belo, do mágico e fantástico. Ou seja, mais um reforço à magnífica aura sobrenatural que Schwob reserva às prostitutas.

3 - MONELLE
O narrador do início relata brevemente a origem, vida, reino, morte e ressurreição de Monelle. Encontramos aqui uma prosa poética revestida de elementos fantásticos, o que concede ao texto um tom bastante onírico e surreal; repleto de belas imagens e símbolos recorrentes: espelhos (olha aí o Borges), cores (vermelho, preto, branco, verde), circularidade (Borges de novo), crianças, luz/sombra, ruínas.

***

Não demorou para que eu percebesse que não pretende-se - acho - que a leitura dessa obra seja encarada rigorosamente como um exaustivo processo decodificador de uma história e mensagem específicos (pelo menos não para uma leitora ordinária como eu), mas, sim, que seja uma jornada prazerosa proporcionada pelo que Schwob consegue fazer em termos de experimentação de forma, prosa poética, símbolos, imagens, sensações e sentimentos invocados. A leitura é praticamente uma incrível experiência lisérgica.

Gostei bastante e já estou providenciando outra obra que a Hedra publicou dele: A Cruzada das Crianças/Vidas Imaginárias, a qual serviu de inspiração para História Universal da Infâmia, do Borges.

***
"- Eis aqui - disse ela - e você verá o reino, mas não sei se você entrará. Pois sou difícil de compreender, salvo por aqueles que não compreendem; e sou difícil de entender, salvo por aqueles que não entendem mais; e sou difícil de reconhecer, salvo por aqueles que não têm lembrança. Na verdade, eis que você me tem, e não tem mais."

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