24/06/2016

O que eu amava - Siri Hustvedt


 O que eu amava é um livro peculiar e, sendo honesta, ainda nem sei como me sinto em relação a ele exatamente (sei que gostei, mas também sei que há ressalvas cuja extensão ainda desconheço). Por enquanto, tenho certeza apenas de que, sempre que eu pensar nele retrospectivamente, não serão suas personagens, ou sua trama, que me invadirão a mente, mas, sim, seus diversos temas instigantes, todos meticulosa e ardilosamente incrustados e interconectados pela Hustvedt em sua obra.

E por que será assim? Porque, com mínimas ressalvas, todas as personagens da narrativa são banais e, por isso mesmo, bem reais; afirmativa que pode ser fundamentada, inclusive, pelas frases finais do livro. O que eu amava trata de vidas completamente mundanas que acredito poder encontrar logo ali, na esquina da minha casa. Ou não, digo, ou quase; quero dizer, mais ou menos, entende? Perdão, perdão; a questão é que as vidas dessas personagens até aproximariam-se da minha com a exagerada familiaridade que insinuo, não fossem os seguintes pormenores: elas são acadêmicas e/ou artistas da classe média alta de Nova York nas décadas de ~70-80, que vivem envoltas, praticamente 24h dos seus dias, por arte (produzindo, analisando ou consumindo). Esse detalhe pode até parecer irrelevante, porém é justamente ele que concede à autora a oportunidade de inserir, em um texto que trata de vidas ordinárias, uma rica série de situações, diálogos e reflexões que abordarão uma temática bastante variada e intrigante.

Compartilho aqui uma reprodução do meu caderninho de leitura com o esquema das personagens do livro para ilustrar melhor isso:


Percebe os meios artísticos e acadêmicos por onde perambulamos nessas páginas? 

Ademais, retomando o que disse, a narrativa corresponde às memórias de Leo relacionadas a essas seis pessoas que fizeram parte de sua trajetória, de onde surgem, por conseguinte, as "trivialidades" da vida: planos, casamentos, divórcios, amizades, filhos, encontros, desencontros, frustrações, despedidas, alegrias, tristezas, decepções, velhice... 


"Os objetos se tornam musas da memória."

Para registro pessoal da leitura, escolho destacar dois temas que me parecem especialmente relevantes: arte e memória; afinal, é possível afirmar que o livro praticamente só existe por conta dessas duas entidades. Logo na primeira página, Leo explica que foi o encontro de antigas cartas trocadas entre Bill e Violet que o levou a escrever o livro que estamos prestes a ler. À medida que a leitura avança, esse início parece tornar-se cada vez mais engenhoso, pois percebe-se que ele condensa boa parte da aparente temática maior de O que eu amava: a obra que lemos - ela própria uma arte literária - é fruto do exercício da retomada de memórias do narrador, muitas das quais (vamos descobrindo gradativamente) existem associadas à arte; da qual destaca-se um quadro que Bill pintara retratando Violet - o elo inicial entre as personagens.

Para ilustrar prontamente a avalanche de reflexões e devaneios principais que foram-me instigados a partir dessa premissa, reproduzo outro resumo esquematizado do meu caderninho de leituras:


E alerto que nem tudo está aí. Algo interessante, apenas como exemplo, que acabou não entrando nessas páginas foi a discussão em torno da relação estabelecida entre publicidade/marketing e arte, não só em torno da obra em si, mas também da construção da identidade pública do artista. Arte é mero produto? O artista surge como produto acessório vinculado irremediavelmente à sua arte? Tentando destacar a relevância desse tema, digo que ele complicou ainda mais minhas percepções acerca da famosa controvérsia atual: quem é Elena Ferrante?

Ah, este aviso deveria estar no começo do post, mas ainda vale lembrar que minha proposta é a mesma do Chacrinha: "Eu estou aqui para confundir; eu não estou aqui para explicar."


 Explorando pessoalmente a relação "arte x memória", gostaria de registrar algumas passagens desse livro que, involuntariamente, promoveram o resgate de trechos de livros que já li. De antemão, destaco que esta listinha é minha, ou seja, isto foi, simplesmente, aquilo que a minha memória entregou prontamente, de modo que não exauri em absoluto as relações intertextuais da obra (ainda mais sendo alguém que não manja nada de arte).  E surgem perguntas excitantes: 
 - Por que exatamente estas passagens de leituras prévias ficaram gravadas comigo, a ponto do livro de Hustvedt ser capaz de retomá-las? E pior: essa pergunta surgiu ainda mais forte quando, ao procurar as citações nos livros para escrevê-las aqui, bati os olhos em outras passagens que também se relacionavam com O que eu amava, mas que minha memória claramente não tinha fixado. Suspeito de que a resposta esteja na tal "ligação" mencionada por Leo.
 -  Curiosidade: como seria a listinha de outros leitores? 

1. 
Há um trecho em que Leo arrepende-se de ter dito isto a Mark:
"- 'Aquele quadro era muito melhor do que você, Mark. Era mais verdadeiro, mais vivo e mais expressivo do que você já foi ou vai conseguir ser na vida.' (...)   "Eu tinha dito coisas horríveis a Mark ao falar sobre o quadro do pai dele. Não se pode comparar um objeto a uma pessoa."
Na mesma hora, eu lembrei do que diz Knausgård no seu livro A morte do pai (tradução Leonardo Pinto Silva - Companhia das Letras):
"A pergunta sobre a felicidade é banal, mas não a que se segue, a pergunta sobre o sentido. Meus olhos se enchem de lágrimas quando olho para uma bela pintura, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois os amo do fundo do coração, significa apenas que o que eles me trazem não é suficiente para dar sentido à vida. Ao menos não à minha."
A passagem do Knausgård eu até sei porque cravou na mente: impressionou-me muito, não por tê-lo achado um pai horrível, mas pela máxima honestidade desconcertante com a qual, bem no fundinho, eu suspeite de que tenha me identificado. 

Bem, temos então mais uma reflexão provocada pela Hustvedt + Knausgård: uma peça de arte pode ser melhor do que uma pessoa? Ela pode emocionar, sensibilizar mais do que uma pessoa? Essa comparação faz algum sentido?


2.
Leo falando sobre a relação de Bill com sua arte:
"Bill transformava o que escapava à sua compreensão em coisas reais que pudessem carregar o peso de suas necessidades, dúvidas e desejos."
Aqui, lembrei-me da Jhumpa Lahiri no seu livro "In Other Words", no qual ela afirma (tradução livre):
"Por que eu escrevo? Para investigar o mistério da existência. (...) Para aproximar-me de tudo que está fora de mim."
Lahiri expurga suas dúvidas com a escrita; Bill, com suas instalações artísticas. Daí, temos outra pergunta: o que move o artista? É sempre um mesmo fator para todos? O que os leva a produzir arte é o mesmo que nos faz - público - buscar a arte?


3.
Leo falando sobre as memórias que narrava:
"Toda história que contamos sobre nós mesmos só pode ser contada no pretérito. É um recuo no tempo do ponto de vista em que estamos agora, quando já não somos mais os atores da história, mas seus espectadores que resolveram falar."
De pronto me lembrei de Duras, em O amante, no qual o "eu pretérito" da autora exige tamanho recuo do "eu presente", que acaba havendo uma aparente cisão entre ambos, o que a obriga a momentos de narrativa na terceira pessoa, tempo presente; exatamente como o "espectador" citado por Leo.


4.
Sobre arte, Leo afirma o seguinte:
"Uso não tinha nada a ver com arte. A arte era, por natureza, inútil."
Quem apareceu pra mim? O James Wood, no seu Como funciona a ficção (tradução Denise Bottmann - Cosac Naify), no qual ele fala na cara do leitor: 
"Não lemos  a fim de tirar benefícios da literatura. Lemos literatura porque ela nos agrada, nos comove, é bonita, e assim por diante - porque é viva e nós estamos vivos."
E aí? Esse negócio de arte serve para alguma coisa, ou nem? De uma coisa, eu sei: ela me ajuda a preservar minha saúde mental. 


5.
Para quem leu The Goldfinch, da Donna Tartt, é quase inevitável relacionar a reação de Leo ao quadro de Chardin, à de Theo Decker ao quadro de Carel Fabritius. São ligações que parecem conotar aquele sentido especial e individualizado que as obras de arte ganham quando cruzam nossas vidas, tornando-se musas de memórias.


6. 
O título da obra aparece explicitamente no livro, na fala de Violet, sendo que a afirmativa da capa (* o título original em inglês surge mais claramente como uma afirmativa) transforma-se em pergunta nas páginas:
"Eu odeio o Mark. E eu o amava antigamente. (...) a pergunta que realmente me assusta é a seguinte: o que exatamente eu amava?"
Fazendo o caminho contrário, Leo não parece encontrar-se consumido pela mesma dúvida de Violet, o que poderia ter provocado essa transformação do questionamento em assertiva. 

Sabe quem veio à mente com o jogo desse título? Foi Pirandello, com Um, Nenhum e Cem mil; o qual me fez refletir que talvez essa pergunta da Violet seja inútil ou irrelevante, tendo em vista que nunca seríamos capazes de amar essa suposta versão "verdadeira" das pessoas, mas apenas a versão que construímos dela, o "um" dos "cem mil" (que acabaria sendo... "nenhum"?). Estou só confabulando; portanto não sei se isso faz sentido.

Então, confabulemos mais um pouquinho: obra de arte também seria uma, nenhuma e cem mil; confere?  Afinal, a "ligação" estabelecida com quem interage com ela não é sempre diferente?

***
E ainda relacionado ao tema, segue trecho de um artigo lido no site Quartz:
(* atualizando em 02/07/16)
"When volunteers read their favorite poems, areas of the brain associated with memory were stimulated more strongly than “reading areas,” indicating that reading poems you love is the kind of recollection that evokes strong emotions (...)"
***

É melhor eu parar por aqui, mas, que fique registrado, esse livro ainda rende muito mais. Apenas para citar outros temas abordados na obra: sociologia x psicologia x psicanálise, transtornos mentais, paternidade/maternidade, amizade, relacionamentos conjugais, morte, velhice, solidão...

Acredito que tenha ficado evidente, mas reforçarei: saí dessa leitura apenas com perguntas. Várias. E que bom. 

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