29/07/2016

[Série Napolitana] The Story of a New Name (L02) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein)       (* Post sobre o Livro 01: X)
➻ Ok, atualizando minha temperatura: 39°C!  ∑(゚ロ゚〃) 

➻ Seguinte, para traçar um panorama geral desse segundo livro, escolho compartilhar que, na minha cabeça, a imagem dominante durante a leitura foi de uma Ferrante (sem rosto, é verdade) digitando cada frase de The Story of a New Name (História do Novo Sobrenome) tremendamente puta da vida "com tudo isto que está aí"  sponsored by Patriarcado + ânimo enérgico para demonstrar que "é assim que se narra uma história, [insira aqui o palavrão de sua preferência]!" Especificamente quanto ao que ocorre nessa segunda fase (acompanhamos as protagonistas até os ~23 anos, alcançando o ano ~1967), também posso recorrer ao seguinte resuminho singelo que me invade a mente: a merda já bateu no ventilador e, pior (melhor, vai), creio que ainda resta uma montanha considerável para traçar a mesma trajetória. Aliás, meu saquinho de pipoca já está pronto para A CENA que prevejo acontecer (livro três? quatro?) entre Lenù e Lila, referente ao papo franco que terão para limpar essa merda esparramada, daquelas que dariam direito a legendas do tipo [xinga muito em italiano]. (seria massa; não me decepcione, Ferrante!)

De antemão, cabe afirmar que praticamente tudo que comentei em relação ao primeiro livro continua válido aqui, porém já é possível complicar algumas coisas. Listando, então, algumas impressões, devaneios e temáticas (o livro está repleto delas, permitindo uma diversidade grande de análises):

➻ Tendo em vista que repercute amplamente na análise de vários outros elementos da obra, opto por começar retomando uma questão que já abordei no primeiro post: o narrador  - para mim, a grande estrela dessa obra.
"Yes, it's Lila who makes writing difficult. (...) What I am now recounting I learned from various people at various times."
Se já no primeiro livro eu fiquei cismada com a narrativa ambivalente da Lenù, com o segundo essa sensação tornou-se ainda mais intensa, especialmente porque, agora, há momentos bem mais explícitos em que Lenù denuncia-se ou mesmo compartilha abertamente que ela está, de fato, tomando liberdades para preencher ocos narrativos - notadamente em relação à Lila, óbvio.
"(...) the story of the facts has to reckon filters, deferments, partial truths, half lies: from it comes an arduous measurement of time passed that is based completely on the unreliable measuring device of words."
Não é conveniente, por exemplo, que Lila tenha mantido um diário mágico com todas as informações do que se passara em sua vida e que, puxa vida, o tenha dado para Lenù? (*Ok, também sei que isso pode mesmo ter acontecido, o que me leva a suspeitar de um possível ato deliberado da Lila; a qual, conhecendo bem Lenù, sabia que a amiga leria o que escrevesse.) Não é extraordinária a existência de três pessoas capazes de fornecer um relatório completo do que se passara com Lila enquanto Lenù estivera ausente? Humm...

Como leitora, particularmente, acrescento que minhas atenções voltaram-se ainda mais para a narradora por conta da natureza dos novos fatos revelados quanto à história das duas amigas. Dado que não foram coisinhas de pouca importância que ocorreram entre elas - encarar A primeira grande paixão de adolescência "roubada" pela suposta melhor amiga?! encarar a melhor amiga seguindo O rumo de vida que você almejava para si?! -, tenho absoluta convicção de que tais ocorrências estão, de alguma forma (como exatamente? ainda não sei) afetando a narrativa. Ademais, com os novos subsídios que recebo, estou cada vez mais consciente da atordoante complexidade da relação estabelecida entre Lila e Lenù - insana interdependência de amor e ódio, alicerçada em uma competição hierárquica -, o que também impõe que eu questione tudo que me é narrado. 

Vale ressalvar, contudo, que minhas desconfianças não recaem apenas sobre o que é dito em relação à Lila, mas também sobre o que Lenù fala de si própria, claro. Um dos momentos mais marcantes para mim nesse segundo livro, por exemplo, é quando Lenù vai à festa na casa da professora Galiani. Nessa passagem, a reação das pessoas à presença da Lenù é descrita de modo que destoou completamente do que eu tinha antecipado, tendo em vista o retrato que Lenù havia construído para si até aquele ponto. Eu tomei um choque ao ler o entusiasmo elogioso e enaltecedor com que a professora e seus filhos recebem Lenù, achando mesmo que eles estavam falando de uma personagem alienígena da história. Será que a autoestima de Lenù é tão baixa a ponto de refestelar na maneira com que ela se desenha na narrativa?! Ou a ficção estaria na reação descrita das pessoas? Sigo sem resposta definitiva.

Assim, ao longo de quase toda a leitura, eu mantive um semblante que imitava aquele característico da Lila: "looking with a frown, a long horizontal crease across her brow." Admito que tenho medo de estar, ao fim da série, louca por conta dessa narradora nada confiável.

➻ Percebo que, aparentemente, Ferrante prosseguirá aumentando, a cada livro, a resolução do microscópio sob o qual ela submete as engrenagens que movem homens e mulheres da realidade pobre de Nápoles no fim do século XX. O curioso é que, veja só, tal realidade parece extrapolar tempo e nacionalidade, pois eu - brasileira do século XXI - só li verdades™ aplicáveis também à minha própria realidade. A noção de uma posse autointitulada do "objeto mulher" pelos homens, que eu havia mencionado no primeiro post, segue bastante reforçada mediante situações e diálogos estarrecedores, destacando-se as repetidas cenas de estupros e violência doméstica. 

Reiteradamente a autora alude à simplicidade e ao desvirtuamento do conceito que os homens e mulheres daquele meio aplicavam à masculinidade. Ali, o macho de verdade que se preza é aquele que demonstra interesse por toda e qualquer mulher (caso contrário = bicha); engravida a esposa logo na saída da igreja,  "dá jeito" na esposa "geniosa" (quem manda na casa é só ele, lógico), sabe que todas as mulheres cobiçam seu pênis de ouro (bancam as difíceis só para azucriná-lo), prova seu amor através da imediata ereção, etc. Foi surpreendente observar a autora explorando, através de Nino, aquela mesma ideia postulada por Tolstói em Guerra e Paz relacionada à distinção entre a "mulher verdadeira" e a "inteligente" (citei no Diário de Leitura #15): a "verdadeira" é só a que escuta encantada e caladinha toda a sapiência emanada da boca do seu magnânimo esposo. O Sr. Nino, ficou evidente, só quer saber das verdadeiras. 

Para ser considerada mulher respeitosa e "de bom nome (good name)", igualmente era preciso seguir determinadas regras que, em linhas gerais, resumem-se ao papel exclusivo de esposa do lar, obediente e subserviente a seu marido.

Gostei demais, também, da ausência de condescendência no tratamento das mulheres; de forma que a narrativa deixa claro, por diversas vezes, que elas próprias contribuíam para o fortalecimento de suas situações precárias. A facilidade com que as personagens femininas do livro denigrem-se mutuamente, convivendo em um clima de competição corrosiva (ou mesmo desesperada, dada a pobreza extrema), impressiona bastante; remetendo-me comparativamente a realities do tipo The Bachelor. Todas pareciam competir entre si pelo único prêmio que sobrava-lhes no meio de tanta desgraça: um marido abastado. Nesse contexto, se pensarmos no rumo que a vida da Lenù está tomando, a sorte dela parece ser realmente espantosa.

A narrativa permite, ainda, devanear a respeito das diferenças entre os processos experimentados por homens e mulheres quando apaixonam-se. No livro de Ferrante, percebe-se nas paixões dos homens uma aparente instantaneidade mágica movida por questões físicas, capaz de desaparecer tão rápido quanto surge; enquanto as mulheres atravessam uma jornada mais lenta fomentada pela admiração de uma personalidade encarada como superior, sendo uma paixão um pouco menos efêmera.

➻ Lamento entender pouquíssimo sobre a história da Itália, pois Ferrante também destaca bastante o clima sociopolítico que dominava aquele período. Pelo menos até aqui, as personagens assumem posicionamentos e discursos (a maioria de esquerda/comunista) que só têm servido como mero exibicionismo intelectual próprio, com utilidade prática nula. Se eu tivesse de lançar uma hipótese, eu ousaria propor que a autora escolhe uma posição cética ao revelar marcadamente o tom hipócrita e vazio predominante dos discursos políticos daquelas pessoas. Estou curtindo, hein; vamos acompanhar.

➻ Recentemente, vi no twitter comentários sobre um outro livro da Ferrante, o Dias de Abandono (ainda não li), relacionados à visão pouca romântica da autora sobre a maternidade e fiquei surpresa, pois já em The Story of  a New Name a autora começa a insinuar que tal ponto de vista será explorado. Expie este trecho:
"And on the street he (filho) got tired after ten steps, he said his knee hurt, he demanded to be picked up, and if she refused he fell on the ground screaming.
At first Lila resisted, then slowly she began to give in. Since at night he would quiet down only if she let him come into her bed, she let him sleep with her. When they went out to do the shopping she carried him, even though he was a well nourished, heavy child: on one side the bags, on the other him. She returned exhausted."
Esse não soa como um retrato muito romântico da maternidade, confere? A cria confunde-se com um parasita estranho e impiedoso que apenas suga, dando pouco - ou nada - em troca. 

Ainda sobre o tema, ocorreu-me a possibilidade de traçar um paralelo entre os comportamentos da Lila e da Helen, personagem do livro da Anne Brontë, em The Tenant of Wildfell Hall. Vítimas de violência doméstica perpetrada pelos maridos, ambas estavam convictas de que eram responsáveis por prover a melhor educação possível aos seus filhos, o que deveriam fazer a qualquer custo, tendo em vista que julgavam ser o meio que garantiria que eles escapariam da recapitulação dos comportamentos e destinos dos pais. Tendo isso em mente, e relembrando como o filho de Lila é descrito logo no começo do primeiro livro (adulto aos 40 anos, sendo um completo imprestável e pouco inteligente), antecipa-se o fracasso de Lila que, de certo modo (para mim, pelo menos), reitera o escrutínio a que Ferrante submete a experiência da maternidade - sendo explicitamente cruel: mulher passa anos em perrengue desgraçado como mãe, para ver o filho tornar-se um bosta. ¯\_(ツ)_/¯


➻ Continuando as comparações literárias, esta passagem sobre Lila
"(...) because for love she was on the point of carrying out an act inconceivable in the environment we had grown up - abandoning her husband, throwing away the comfort so recently acquired, running the risk of being murdered along with her lover and the child she carried in her womb-I considered her happy, with that tempestuous happiness of novels, films, and comic strips, the only kind that at that time truly interested me, that is to say not conjugal happiness but the happiness of passion, a furious confusion of evil and good that had befallen her and not me."
fez-me investir no seguinte devaneio: Lila poderia ser uma espécie de Emma Bovary aos olhos da vizinhança do bairro? Suponho que a extrapolação não seria tão exagerada, pois Lila não estava satisfeita com o que aquelas mulheres reconheciam como "A sorte grande". Um casamento com um marido que simplesmente garante o provimento da casa (único sonho possível para muitas) não bastava para Lila. Ela ansiava pela promessa dos altos voos que conseguia enxergar nos livros que lia. 


➻ Aliás, preciso tomar nota das inúmeras referências literárias que Ferrante inclui em seus livros. Por enquanto, já tivemos:

- Little women (Mulherzinhas) - Louisa May Alcott
- Peças do Samuel Beckett
- Guerra e Paz, Tolstói
- Ulisses, James Joyce
- houve mais algum que esqueço?

A autora bem que poderia pensar em escrever um livro de não-ficção sobre literatura, pois os diálogos relacionados ao tema que aparecem no livro - todos liderados pela Lila - são lidos com enorme prazer.
"The title is Ulysses. (...) it's about how prosaic life is today. (...) It says that our heads are full of nonsense. That we are flesh, blood, and bone. That one person has the same value as another. That we want only to eat, drink, fuck. (...)"
Não sei se exagero, mas acho até que ela parece incutir na narrativa uma defesa da importância e relevância da ficção literária em relação às obras de não-ficção, as quais são usualmente tomadas como mais sérias e detentoras de uma finalidade intelectual mais palpável. Isso me ocorreu especialmente por conta da caracterização de Nino, visto que ele nunca se interessava por obras de ficção e acaba surpreendido pela fascinante discussão que Lila levanta a partir da leitura das peças de Beckett.


➻ E o título do livro, não é mesmo? A leitura acabou revelando algumas imprevistas conexões além da discussão imediata mais fácil de antever → Lila (= mulheres), agora casada, metamorfoseia-se no exclusivo binômio esposa/mãe sob a alcunha do sobrenome do marido ("lógico"). Espantei-me com a passagem em que Lenù descreve seu pai incomodando-se ao ler o próprio sobrenome na capa do livro que ela publicava (em uma suposta ordem natural das coisas, deveria ser o sobrenome do marido de Lenù, pois a mulher pertence ao marido... ou não?). E pude notar que esse título parece relacionar-se ao mote que inicia o primeiro livro; mediante sugestão de que Lila passara por muitas metamorfoses, sempre apagando traços de sua forma anterior. Fiquei pensando que, de certo modo, isto era o que a maioria daquelas mulheres (e homens, talvez) do bairro desejavam: apagar o passado lazarento e começar do zero. Lila, pelo jeito, acumulará várias tentativas.
"It's not possible that I could remain forever a prisoner of this place and these people." (Lenù)
➻ Percebi aqui, igualmente, a suposta presença de ecos das passagens iniciais da infância entre as duas. Nino equivaleria à segunda boneca de Lenù que Lila joga na escuridão; enquanto o sucesso de Lila em nadar além da quebra de ondas repetiria sua coragem em encarar Don Achille.

< Pausa > Ah, sim, sobre o lance do Nino, tenho certeza absoluta de que Lila sabia que Lenù estava apaixonada por ele; tendo agido como vingança pela vergonha por que passara na festa e para provar para Lenù que ainda era capaz de superá-la em algo. O que não estava previsto nos planos dela era acabar vítima da própria - consciente ou inconsciente? - arapuca, apaixonando-se perdidamente por um paspalho que não vale absolutamente nada. 

Ainda nesse volume, inclusive, fomos agraciados com o que considero uma tremenda (e um tanto cruel) revanche da Lenù: visitar Lila no ambiente ensebado da fábrica de embutidos para dizer que estava publicando um livro (o Lemonade da Lenù). Achei uma cacetada triunfal, mas fiquei com um pouquinho de pena da Lila. (bem pouca, pois não gosto de Jolenes.)

 E esse engodo ainda pode complicar, pois o paspalhão é a estrela do gancho final do livro. 

➻ Vamos visitar Ischia?

(via)

21/07/2016

Lendo Contos (+ 01 Novela) | As Hortensias - Felisberto Hernández

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Ed. Grua - Tradução: Pablo Cardellino Soto e Walter Carlos Costa)
       

Minha curiosidade pelo escritor uruguaio Felisberto Hernández é bastante recente - ignorava, até mesmo, que um dia ele existira -, contudo o respectivo catalisador responsável escapa-me da memória (odeio quando isso acontece, mas suspeito de que tenha sido o twitter). De qualquer maneira, o que importa é que me interessei pelo autor e, durante a caçada de um livro dele para aquisição, esbarrei em contratempos desagradáveis:

1. A Cosac Naify (RIP) havia publicado uma coletânea de contos de Hernández - O cavalo perdido e outras histórias (coleção Prosa do Observatório) - que hoje detém status de relativa raridade nos sebos virtuais, sendo vendida por preços que variam entre R$100,00-150,00. Como eu desejava apenas "ver qual é do cara", essa opção restou, portanto, sumariamente descartada. (vacilei com a Cosac, agora só resta-me chorar.)

2. Partindo para ativos catálogos de venda em livrarias, encontrei somente esta pequena coletânea da Editora Grua, publicada em 2012, composta por uma novela e três contos em edição bilíngue. Aliás, mesmo em sebos não encontrei mais nada traduzido que pudesse comprar (além da mencionada edição "de ouro" da Cosac Naify). Assim, investi na aquisição de um exemplar de As Hortensias.

Por conta dessas intempéries, eu acabei resgatando a impressão particular que compartilhei no post sobre o livro do Bolaño: "Senti o país (Brasil) um pouco desconectado da identidade latino-americana descrita nas páginas de Bolaño." Em artigo da Folha, Manuel da Costa Pinto expôs, inclusive, observações curiosas a respeito dessa edição da Grua que acabaram intensificando ainda mais essa minha impressão. As Hortensias compõe a coleção Boca a Boca, a qual "tem por objetivo a publicação e difusão da Literatura Uruguaia no Brasil e da Literatura Brasileira no Uruguai, pela edição de títulos e autores representativos de suas culturas e letras", contando com apoio do Ministério da Cultura do Brasil/Fundação Biblioteca Nacional; e Manuel destaca o dissonante perfil das obras selecionadas para publicação no Uruguai e no Brasil (grifos meus):
O projeto prevê a publicação, no Uruguai, de brasileiros como Beatriz Bracher, Raimundo Carrero e Rodrigo Lacerda. No Brasil, sairão volumes bilíngues de Marosa di Giorgio, Felipe Polleri e Fernando Cabrera, entre outros.
O fato de a série de "Literatura Uruguaia" da coleção começar por um clássico como Hernández -quando sua contrapartida, "Literatura Brasileña Contemporánea", focaliza a prosa atual- indica o descompasso na recepção recíproca das literaturas dos dois países.
Carlos Eduardo de Magalhães (editor da Grua) explica que a Biblioteca Nacional do Uruguai, apoiadora do projeto, considera os clássicos brasileiros já conhecidos dos leitores uruguaios (que contam com traduções dos diferentes países de expressão espanhola).
Mas a chegada tardia de Hernández por aqui -que começou em 2006, com "O Cavalo Perdido e Outras Histórias" (Cosac Naify)- permite uma leitura de "As Hortensias" menos marcada pela herança literária.
 
...

As Hortensias, novela que inicia a obra, narra a história de Horacio, um sujeito que, ao contrário do Mr. Grey, realmente tem o direito de afirmar "meus gostos são muito peculiares, você não entenderia". Horacio coleciona bonecas um pouco mais altas que as mulheres normais com as quais uma equipe contratada monta cenas em vitrines de vidro mantidas na casa dele. Depois do jantar, o senhor de gostos peculiares deleita-se com a contemplação das instalações artísticas, embalado pela trilha sonora de um pianista (o próprio Hernández era pianista), enquanto, simultaneamente, tenta desvendar a história, a narrativa da respectiva boneca personagem. Ocupando um lugar especial na coleção do excêntrico (o adjetivo é por minha conta, assumo), encontramos Hortensia, a boneca "cópia" de sua esposa Maria quem, por sua vez, adorava usá-la para surpreender o marido com ~brincadeiras~ - a boneca chegava a dormir com os dois na cama (não acredita? pois leia o livro). Daí, cenas vão, cenas vêm; brincadeira com Hortensia vai, brincadeira com Hortensia vem... o cara apaixona-se pela boneca... Acho... Parece. Ah, sim, e "Hortensias" seria, então, o nome de uma linha especial de bonecas que Horacio encomenda para comercialização e que, se entendi direito (Hernández é muito elegante ao optar pela sutileza), diferenciam-se das demais por conta da presença de um orifício entre as pernas. Nem venha me perguntar o que ele e demais consumidores faziam com esse adicional de fábrica.
"O senhor é feio? Não se preocupe. O senhor é tímidoNão se preocupe. Numa Hortensia o senhor terá um amor silencioso, sem brigas, sem orçamentos apertados, sem mulheres chatas."
Bom, minha estupefação com a bizarrice da história aumentava progressivamente com o avançar da leitura, até que fui acometida por uma sequência de estalos que demonstraram que aquilo tudo não era assim tão singular:

Estalo 1: ah é, e aquele filme lá, do Ryan Gosling - Lars and the Real Girl?



Ademais, fui esclarecida a respeito de outras variantes cinematográficas: 
Her Objects of Affection: Movie Men Infatuated with Mannequins, Dolls and Droids.

Estalo 2: eita, é verdade; o Arreola também tem um conto que corresponde exatamente a um panfleto publicitário para bonequinhas Hortensias, digo, Plastisex!
"Onde quer que a presença da mulher seja difícil, onerosa ou prejudicial, quer seja na alcova de solteiro, ou no campo de concentração, o emprego de Plastisex© é sumamente recomendável. (...) Nós lhe propomos a mulher com quem tem sonhado toda sua vida: manipula-se por meio de controles automáticos e é feita de materiais sintéticos que reproduzem as características mais superficiais ou secretas da beleza feminina."
- Juan José Arreola, Anúncio (Confabulário).

Estalo 3: hum, e se eu jogasse no google "stories of men falling in love with dolls"?


Da matéria do The Atlantic (grifos meus):
Davecat met his future wife, Sidore Kuroneko at a goth club in 2000, so the story goes. The less romantic but perhaps more true version is that he saved up for a year and a half to buy her online. She cost about $6,000
Sidore is a RealDoll, manufactured by Abyss Creations in the shape of a human woman. She is covered in artificial skin made of silicone, so she’s soft. These high-end, anatomically correct—even equipped with fake tongues—love dolls (or capital-D Dolls) are ostensibly made for sex. But 40-year-old Davecat (a nickname acquired from videogames that he now prefers to go by) and others who call themselves iDollators see their dolls as life partners, not sex toys.
O mais impressionante a respeito desse artigo é que o rapaz Davecat, assim como Horacio (e demais iDollators, suspeito), sente a necessidade de construir uma narrativa própria para suas bonecas, repleta de detalhes. Achei isso bastante curioso e intrigante, pois sugere que eles recorrem a uma narrativa ficcional a fim de personificarem suas bonecas, aproximando-as de uma existência humana. O premiado musical americano Hamilton, super famoso atualmente (gosto muito), por exemplo, traz diversos versos que enaltecem a importância que o ser humano confere à construção de sua história, de sua narrativa.
"Who lives, who dies, who tells your story."
Aliás, já na Ilíada os heróis desejam que cantem suas glórias, confere? Se ninguém narra nossas histórias, ou se ninguém canta nossas glórias, podemos dizer que existimos?

(E só mais este link, pois vale o click: 22 Weird And Disturbing Facts About Sex Dolls.)
...

(Saindo dessa toca de coelho e voltando para o Hernández:)

Especialmente durante a leitura de As Hortensias, senti bastante estranhamento em relação à prosa do autor uruguaio, julgando-a bem pouco fluida, meio intrincada e estranha, chegando a suspeitar da tradução, contudo o texto final dos tradutores, incluído na edição da Grua, esclareceu-me algumas características do chamado "idioleto felisbertiano":
- uso idiossincrático da língua;
- (Emir Rodriguez Monegal:) ambiguidades na exposição lógica e imprecisão na sintaxe, estilo pleno de incorreções e coloquialismos;
- (Gabriel Saad:) repetições, aparentes descuidos, esquisitices;
- (Davi Arrigucci Jr.:) pode dar a falsa impressão de desalinho, beirando o descuido ou negligência.

Construções similares à do trecho que destaquei ao lado da capa, as quais personificam objetos criando uma aura relativamente sobrenatural, são muito recorrentes. Uma outra de que também gostei:
"(...) eu tinha descoberto que para as lembranças andarem, eu tinha que dar corda nelas caminhando."
Aquele mesmo texto dos tradutores refere que Hernández constrói um fantástico em que o sobrenatural e o mistério são apresentados de modo bastante peculiar, porém em nenhum momento da leitura considerei o livro como um exemplo de literatura fantástica (embora tenha sentido um suspense antecipatório quanto às bonecas), de modo que assimilei quase tudo seguindo exatamente uma outra possibilidade aventada pelos próprios tradutores: o caráter sobrenatural pertence ao olhar do narrador. Tomando apenas a leitura dessa pequena amostra, eu concordaria muito mais com Juan José Saer: Hernández parece ser precursor do "boom" do realismo mágico, cujo gênero por excelência foi o conto. Saer, porém, preferiu descrever sua prosa como "autobiografia onírica". Esse aspecto onírico, de fato, me pareceu bem marcante na novela As Hortensias, e menos nos demais três contos.

Em artigo do Estadão, por Ricardo Corona, encontrei também esta avaliação que julguei mais certeira quanto ao suposto fantástico felisbertiano: visão que dissocia o objeto do todo, sem vinculação com a consciência do sujeito que o enquadra, invertendo uma lógica que é marca neste autor, ou seja, conforme frisa Jorge Monteleone, da Universidade de Buenos Aires: "Não é a realidade que é absurda: o absurdo é um incremento do real". 

Há, ainda, outras evidentes recorrências simbólicas que destacam-se bastante: o negro, a obsessão com sons (musicais, inclusive)/ruídos/barulhos e imagens em espelhos, sombras personificadas, árvores. E as mulheres surgem assumindo papéis um pouco, digamos, controversos na narrativa do autor: uma se parece com uma vaca (conto Úrsula), outra com um cavalo (conto A mulher parecida a mim) e a terceira é uma rabugenta que se alimenta com uma mamadeira (conto A árvore de mamãe). 

É possível também notar um humor discreto no texto do Hernández que, embora pouco frequente, é formidável; e registro uma estupenda frase que foi contemplada por ele (fora do contexto, não é tão engraçada, mas, mesmo assim, avalio que o meme já está pronto para ser adotado pelas redes sociais):

               "Já está na hora de colocar água quente na espiã."            
( ͡° ͜ʖ ͡°)

Duas bonecas visualizaram seu perfil.
(via)

09/07/2016

[Série Napolitana] My Brilliant Friend (L01) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein)

➻ Correto, fui eu mesma quem disse, ainda no começo deste ano, que não ousaria duvidar novamente do postulado "never believe the hype", porém eis-me aqui, disposta a contradizer-me vexativamente mediante registro da minha experiência de leitura do primeiro volume da badaladíssima Série Napolitana, escrita pela italiana Elena Ferrante. Em minha defesa, digo que me encontrei praticamente sem saída, tendo em vista que a ode aficionada conhecida como "Ferrante Fever", a qual reverbera incessantemente pelas redes sociais, estava prestes a fazer com que eu tomasse uma tremenda birra da autora, sem nem ao menos ter-lhe concedido a oportunidade de uma leitura despida de prejulgamentos infundados. 

Muito bem, e concluído o período de incubação literária, será que contraí a Febre Ferrante? Olha, é possível que seja um mero sinal falso positivo, mas o termômetro já marca, de fato, 38°C. E por que pode ser falso positivo? Porque a leitura isolada de The Brilliant Friend (A Amiga Genial) sugere bastante que a divisão da obra em quatro volumes corresponde à mera estratégia editorial, de forma que o projeto da autora me parece exigir, para uma avaliação absolutamente justa, a leitura de todos os tomos. Como só li o primeiro, minhas impressões, no momento, acabam assumindo um caráter parcial, e minhas percepções preliminares poderão mudar ao longo das leituras sequenciais. Ah, pois é, lerei, sim, os outros três livros da série ainda este ano. (Hum, isso também corrobora a hipótese diagnóstica de Ferrante Fever... Lasquei-me.)

Pontuo, a seguir, algumas impressões gerais.

➻ Quanto à história do livro, penso que meu posicionamento geral favorável à prescindibilidade de sinopses ganha intensidade máxima com essa tetralogia. Não há muito o que chafurdar a respeito da premissa: acompanharemos décadas das vidas de duas amigas napolitanas, Lila e Lenù (apelidos) - nesse primeiro volume, elas percorrem a jornada dos (~) seis aos dezesseis anos -, de modo que a graça está em descobrir todos os pormenores da evolução dessa relação. Se eu quisesse ser ainda mais direta, não penso que seria leviano chamar a obra de novelão. Um ótimo novelão, veja bem.

Logo no início da narrativa, há uma cena entre as amigas que parece (foco nesse "parece"; logo o retomarei) servir de alegoria para a dinâmica firmada entre as duas: Lila é quem segue na frente como a líder que toma Lenù pela mão, a qual obedece deslumbradamente enquanto é guiada ora ao aparente inferno obscuro e assustador; ora ao suposto céu que reserva surpresas inesperadas e encantadoras. Se as coisas serão sempre assim, ainda não saberia dizer, pois suspeito fortemente de que isso seja uma aparência falsa e traidora. Veremos.

➻ Pronto, gostaria de retomar aquele "parece". A princípio, acredito que a forma narrativa desse livro foi uma das escolhas mais acertadas da Ferrante, considerando-se a elevada eficácia demonstrada em me deixar bastante cabreira e intrigada a respeito do desenrolar da história.

A narrativa é em primeira pessoa, sendo a Lenù do futuro quem expõe os fatos remotos e pontos de vista. Enriquecendo ainda mais isso, surge a revelação inicial de que Lenù decide escrever as páginas que estamos prestes a ler em resposta ao contemporâneo sumiço da amiga Lila - Lenù não demonstra surpresa quanto a isso, revelando já saber que a amiga planejava eliminar sua existência do mapa. Muito bem, todo esse rico "imbróglio narrativo" provoca-me várias perguntas/ponderações:

1. Certo, esses são os pontos de vista da Lenù, mas e quanto à Lila? Será que ela concordaria com tudo o que a amiga escreve? As versões coincidiriam?
2. Até que ponto o recuo para o passado afeta a evocação da memória de Lenù? Parte (tudo?!) dessa narrativa pode ser fabricação?
3.  A distância temporal entre a Lenù escritora e Lenù narradora-personagem é bastante considerável - inicialmente, quase 60 anos, creio -, portanto muita coisa deve ter ocorrido entre as duas nesse ínterim. Sendo assim, e visto que eu ainda ignoro tais eventos futuros (minha perspectiva), como saber de que maneira eles poderiam estar afetando o tom da narrativa de Lenù? Ela teria motivos para manipular deliberadamente a suposta versão "real" (que nunca existe, eu sei)?
4. Para mim, a intenção de Lenù com o livro também ainda não está clara. Trata-se de uma celebração da Lila, da longa amizade entre ambas? Poderia ser algum tipo de revanche? 

Por tudo isso, sinto-me bastante insegura em tentar processar adequadamente o relato de Lenù apenas com a leitura de The Brilliant Friend. Suspeito de que possa ser um daqueles casos em que, terminado o quarto volume, um retorno ao primeiro revele percepções distintas e mais nítidas.

O imensamente curioso é que essas reflexões narrativas acabaram ecoando nas minhas próprias concepções memoriais. Perceba que, se eu fosse obrigada a responder à pergunta "Você é/foi uma Lila ou Lenù?", não pestanejaria e responderia "Lenù" (a Lenù do primeiro livro, atenção). Ainda mais grave é que algumas Lilas cruzaram meu caminho (a Lila do livro 1, ressalto), e sempre nutri a certeza inabalável de que elas eram meninas perfeitas, populares, lindas e super seguras de si. Naturalmente, portanto, a narrativa da Ferrante me fez entrar na divagação ensimesmada: ué, mas se eu estou duvidando da Lenù, supondo que Lila poderia não sentir-se com a superior autoconfiança que ela esforça-se em me sugerir, então o mesmo também poderia valer para as Lilas da minha vida?  Se estou considerando a possibilidade de que Lila tenha tido momentos em que invejara Lenù, será, então, que as "minhas Lilas", vez ou outra, não invejaram-me também? No meu caso, nunca mais saberei, embora a mera dúvida já tenha massageado minha autoestima já tão combalida. No caso da Lila e Lenù, é possível que eu descubra nos próximos volumes. Antes de largar essa questão, registro a dúvida que acaba de cruzar minha mente: será que existem garotas que têm firmeza para assumirem-se como sendo a "Lila" de suas relações de amizade?! Como diria Hamilton: Chick-a-plao!


➻ Por enquanto, avalio ter gostado enormemente da maneira com que Ferrante abordou a temática da competição (natural, acho) entre amigas, principalmente porque há várias circunstâncias na narrativa que deixam claro (para mim) que ela não assumia um caráter unicamente negativo ou prejudicial. Com ressalvas, acho que é possível afirmar que essa rivalidade atuou como um propulsor contra a inércia na vida da Lenù, ajudando-a na tomada de muitas decisões que poderão beneficiá-la no futuro. Quanto à Lila, é verdade, creio que meu juízo segue incerto.

Apesar dessa impressão geral, admito que houve algumas situações que me provocaram o desejo de socar a cara da Lenù, pois a competição ultrapassava realmente todos os limites de uma razoabilidade saudável. Como exemplos: a conclusão de que ela teria que perder a virgindade ao mesmo tempo que Lila, ou quando ela incomoda-se com a mesma professora que a elogia, mas que também percebe que Lila não aluga mais livros na biblioteca. Enfim, são momentos que sugerem que Lenù seria incapaz de sentir-se plenamente feliz com o andar favorável de sua própria vida, caso Lila possuísse algum tipo de vantagem relativa. Isso é bem assustador e impressiona especialmente quando lembramos de que é a própria Lenù do futuro quem está admitindo esses sentimentos torpes sem qualquer embaraço.


➻ Voltando, mais uma vez, às minhas próprias memórias, afirmo que o livro, em muitas passagens, transportou-me para momentos do meu passado que, suspeito, também são partilhados por muitas meninas, tais como a boba corrida da menarca, o constrangimento com os seios que começam a aparecer, sentir-se horrorosa na fase da pré-adolescência, a descoberta do prazer sexual, etc. 

Por ter-me remetido diretamente a um causo particular que até hoje me faz rir, gostaria apenas de destacar a cena em que, conversando com Lenù, Gigliola diz que Lila teria feito um blow job (o vulgar "chupar pirulito") em Marcello, enquanto Lenù confidencia para o leitor que, naquela ocasião, ela não fazia a menor ideia do que seria um blow job. Passei por perrengue similar na pré-adolescência quando, brincando de jogo da verdade (erro mortal), minha amiga me perguntou se, na "hora H", eu preferiria tirar minha própria roupa ou que ele me despisse. De pronto, meus neurônios passaram a debater a respeito do que seria a tal "hora H" e por que diabos eu iria querer ficar pelada na frente de um menino. Obviamente, reagi igualzinha à Lenù: respondi qualquer bobagem na cara dura, sem dar pinta da minha ignorância - entre adolescentes, isso é questão de pura sobrevivência.


➻ Outra temática extremamente marcante e relevante corresponde ao ambiente de extrema pobreza e dificuldades sociais que caracterizam o bairro de Nápoles em que vivem as duas protagonistas e demais personagens - temporalmente, estamos nas décadas ~ 50-60, pós-guerra. A maneira com que essa questão é tratada me remeteu muito à abordagem (algo correlata) que William Golding faz em "O Senhor das Moscas", notadamente os trechos em que Lila experiencia o fenômeno que ela chama de "dissolving margins", durante o qual um transe dissolve a periferia delineadora das pessoas, permitindo que ela enxergasse a essência interior ou, aproximadamente, aquele "Bicho" referido por Golding. A distinção é que, em O Senhor das Moscas, é o isolamento na ilha que desnuda o Bicho; na obra de Ferrante, é a miséria. A impressão que tive é que Ferrante discutirá e demonstrará, em sua obra, como a pobreza entranha e contamina as personalidades, os comportamentos, a natureza e a vida daquelas pessoas.

Esse mesmo tema sucinta outras discussões conexas interessantes:

1. Posição da mulher em um meio tomado pela penúria extrema.

Incomodou-me particularmente o retrato da objetificação que marca o tratamento que os homens reservavam às mulheres do bairro, estando todos eles (pais, irmãos, maridos, amigos, vizinhos) tomados pela certeza de uma posse de direito, autointitulada, desses "objetos".

2. Questão linguística peculiar que eu desconhecia, concernente à distinção entre o dialeto napolitano e o italiano literário, "de escola".

Recentemente, por conta de Gomorra (livro e série de TV sobre a máfia italiana), eu tinha assimilado que os mafiosos de Nápoles só falam em dialeto, entretanto eu ignorava a existência de possíveis repercussões sociolinguísticas; uma relação com questões de classe (imaginava que fosse uma mero aspecto regional pouco relevante). Lenù faz questão de reforçar explicitamente, diversas vezes, quando uma personagem fala em dialeto - ganha tom pejorativo - ou em italiano literário.

3. Provocações indiretas sobre como aquelas pessoas poderiam escapar da pobreza.

Educação? Certo, mas como isso ocorreria, se as crianças precisavam largar a escola cedo para trabalhar ajudando os pais? Adianto, ademais, que a própria miséria atravancava qualquer crença que aqueles indivíduos pudessem depositar na possibilidade de uma saída através da instrução. Literatura, por exemplo, era uma piada para muitos.

Meios escusos? Pode ser, hein. É preciso acompanhar o desenrolar da narrativa, mas a sugestão já surge forte nesse primeiro volume.

4. Pais representando, para os filhos, a personificação da desgraça tacanha que inevitavelmente o futuro os reservava.

São intensos os momentos em que Lenù aflige-se com a visão da própria mãe, revelando-nos o medo que a consome quanto à chance extremamente real de tornar-se uma mulher como ela, sem nenhuma escapatória.


➻ Em referência à controvérsia gerada pelas medonhas e cafonérrimas capas americanas, compartilho que, agora, a encaro com muito mais estima. De pronto, vale dizer que a leitura do livro eliminou facilmente minha prévia hipótese de que essas capas pudessem ser uma pífia tática para vender livro à custa de polêmica, tendo em vista que pude constatar que as respectivas imagens não ludibriam o leitor em relação ao universo que ele encontrará nas páginas escritas pela Ferrante - what you see is exactly what you get. É exatamente aquilo mesmo.

Munida dessa revelação, considerei certeiro o argumento principal do site The Atlantic (artigo aqui), o qual fundamenta-se no reconhecimento de que o conceito de elevada qualidade literária resta completamente dissociado de capas que trazem imagens de "mulheres fazendo coisas" - the very image of women doing things now strikes even women readers as unliterary. Ou seja, não seria possível atingir essa dita "excelência literária" a partir de histórias sobre mulheres em seus cotidianos particulares, não reconhecidos necessariamente como universais. Bom, Ferrante parece conseguir provar que essa avaliação representa um pleno equívoco.

Simultaneamente, penso que essa válida fundamentação das capas da Série Napolitana não deve invalidar por completo críticas que já existem em torno do perfil de capas que editoras corriqueiramente costumam reservar aos livros escritos por mulheres. A sensação que tenho, pessoalmente, é que muitas vezes o mercado aplica estas duas regras: Foi mulher que escreveu? Ok, então devemos atrair público leitor feminino, pois só mulher lê mulheres. → E que tipo de capa atrai o público leitor feminino? Opa, são coisas meiguinhas, fofinhas, cor rosa, flores, penteadeiras, bonecas, corações, casais, crianças, etc.  Defendo que a regra deve ser a mesma para todos autores: o conteúdo, primordialmente, é que dita a capa.

Apenas por curiosidade, agrupei exemplos de como outros países já "resolveram o problema" das capas americanas:
(de cima para baixo, esquerda  direita: alemanha, brasil, espanha, eslovênia, frança, suécia, turquia, romênia)
Assim, depois de desafiar a confiança que deposito no "Never believe the hype", a Ferrante cutucou os alicerces do meu lema "Mostra-me a capa, e te direi se o livro pode prestar."    ¯\_(ツ)_/¯


Por fim, duas confissões:
1. Até a última página, continuei tendo que recapitular mentalmente os eventos, para conseguir identificar todas as personagens (exceto Lila e Lenù, óbvio). Conseguirei decorar eventualmente? Que vergonha.

2. Só quando o título apareceu explicitamente no livro, dei-me conta de que ele reserva uma peculiar dubiedade. Eu havia interpretado que o "Brilliant/Genial" qualificava a pessoa enquanto amiga; porém, no livro, trata-se de um adjetivo que qualifica o indivíduo (Lenù) em absoluto, fora do papel de "amiga". Intrigante.

➻ A seguir: The Story of a New Name (L02).