29/07/2016

[Série Napolitana] The Story of a New Name (L02) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein)       (* Post sobre o Livro 01: X)
➻ Ok, atualizando minha temperatura: 39°C!  ∑(゚ロ゚〃) 

➻ Seguinte, para traçar um panorama geral desse segundo livro, escolho compartilhar que, na minha cabeça, a imagem dominante durante a leitura foi de uma Ferrante (sem rosto, é verdade) digitando cada frase de The Story of a New Name (História do Novo Sobrenome) tremendamente puta da vida "com tudo isto que está aí"  sponsored by Patriarcado + ânimo enérgico para demonstrar que "é assim que se narra uma história, [insira aqui o palavrão de sua preferência]!" Especificamente quanto ao que ocorre nessa segunda fase (acompanhamos as protagonistas até os ~23 anos, alcançando o ano ~1967), também posso recorrer ao seguinte resuminho singelo que me invade a mente: a merda já bateu no ventilador e, pior (melhor, vai), creio que ainda resta uma montanha considerável para traçar a mesma trajetória. Aliás, meu saquinho de pipoca já está pronto para A CENA que prevejo acontecer (livro três? quatro?) entre Lenù e Lila, referente ao papo franco que terão para limpar essa merda esparramada, daquelas que dariam direito a legendas do tipo [xinga muito em italiano]. (seria massa; não me decepcione, Ferrante!)

De antemão, cabe afirmar que praticamente tudo que comentei em relação ao primeiro livro continua válido aqui, porém já é possível complicar algumas coisas. Listando, então, algumas impressões, devaneios e temáticas (o livro está repleto delas, permitindo uma diversidade grande de análises):

➻ Tendo em vista que repercute amplamente na análise de vários outros elementos da obra, opto por começar retomando uma questão que já abordei no primeiro post: o narrador  - para mim, a grande estrela dessa obra.
"Yes, it's Lila who makes writing difficult. (...) What I am now recounting I learned from various people at various times."
Se já no primeiro livro eu fiquei cismada com a narrativa ambivalente da Lenù, com o segundo essa sensação tornou-se ainda mais intensa, especialmente porque, agora, há momentos bem mais explícitos em que Lenù denuncia-se ou mesmo compartilha abertamente que ela está, de fato, tomando liberdades para preencher ocos narrativos - notadamente em relação à Lila, óbvio.
"(...) the story of the facts has to reckon filters, deferments, partial truths, half lies: from it comes an arduous measurement of time passed that is based completely on the unreliable measuring device of words."
Não é conveniente, por exemplo, que Lila tenha mantido um diário mágico com todas as informações do que se passara em sua vida e que, puxa vida, o tenha dado para Lenù? (*Ok, também sei que isso pode mesmo ter acontecido, o que me leva a suspeitar de um possível ato deliberado da Lila; a qual, conhecendo bem Lenù, sabia que a amiga leria o que escrevesse.) Não é extraordinária a existência de três pessoas capazes de fornecer um relatório completo do que se passara com Lila enquanto Lenù estivera ausente? Humm...

Como leitora, particularmente, acrescento que minhas atenções voltaram-se ainda mais para a narradora por conta da natureza dos novos fatos revelados quanto à história das duas amigas. Dado que não foram coisinhas de pouca importância que ocorreram entre elas - encarar A primeira grande paixão de adolescência "roubada" pela suposta melhor amiga?! encarar a melhor amiga seguindo O rumo de vida que você almejava para si?! -, tenho absoluta convicção de que tais ocorrências estão, de alguma forma (como exatamente? ainda não sei) afetando a narrativa. Ademais, com os novos subsídios que recebo, estou cada vez mais consciente da atordoante complexidade da relação estabelecida entre Lila e Lenù - insana interdependência de amor e ódio, alicerçada em uma competição hierárquica -, o que também impõe que eu questione tudo que me é narrado. 

Vale ressalvar, contudo, que minhas desconfianças não recaem apenas sobre o que é dito em relação à Lila, mas também sobre o que Lenù fala de si própria, claro. Um dos momentos mais marcantes para mim nesse segundo livro, por exemplo, é quando Lenù vai à festa na casa da professora Galiani. Nessa passagem, a reação das pessoas à presença da Lenù é descrita de modo que destoou completamente do que eu tinha antecipado, tendo em vista o retrato que Lenù havia construído para si até aquele ponto. Eu tomei um choque ao ler o entusiasmo elogioso e enaltecedor com que a professora e seus filhos recebem Lenù, achando mesmo que eles estavam falando de uma personagem alienígena da história. Será que a autoestima de Lenù é tão baixa a ponto de refestelar na maneira com que ela se desenha na narrativa?! Ou a ficção estaria na reação descrita das pessoas? Sigo sem resposta definitiva.

Assim, ao longo de quase toda a leitura, eu mantive um semblante que imitava aquele característico da Lila: "looking with a frown, a long horizontal crease across her brow." Admito que tenho medo de estar, ao fim da série, louca por conta dessa narradora nada confiável.

➻ Percebo que, aparentemente, Ferrante prosseguirá aumentando, a cada livro, a resolução do microscópio sob o qual ela submete as engrenagens que movem homens e mulheres da realidade pobre de Nápoles no fim do século XX. O curioso é que, veja só, tal realidade parece extrapolar tempo e nacionalidade, pois eu - brasileira do século XXI - só li verdades™ aplicáveis também à minha própria realidade. A noção de uma posse autointitulada do "objeto mulher" pelos homens, que eu havia mencionado no primeiro post, segue bastante reforçada mediante situações e diálogos estarrecedores, destacando-se as repetidas cenas de estupros e violência doméstica. 

Reiteradamente a autora alude à simplicidade e ao desvirtuamento do conceito que os homens e mulheres daquele meio aplicavam à masculinidade. Ali, o macho de verdade que se preza é aquele que demonstra interesse por toda e qualquer mulher (caso contrário = bicha); engravida a esposa logo na saída da igreja,  "dá jeito" na esposa "geniosa" (quem manda na casa é só ele, lógico), sabe que todas as mulheres cobiçam seu pênis de ouro (bancam as difíceis só para azucriná-lo), prova seu amor através da imediata ereção, etc. Foi surpreendente observar a autora explorando, através de Nino, aquela mesma ideia postulada por Tolstói em Guerra e Paz relacionada à distinção entre a "mulher verdadeira" e a "inteligente" (citei no Diário de Leitura #15): a "verdadeira" é só a que escuta encantada e caladinha toda a sapiência emanada da boca do seu magnânimo esposo. O Sr. Nino, ficou evidente, só quer saber das verdadeiras. 

Para ser considerada mulher respeitosa e "de bom nome (good name)", igualmente era preciso seguir determinadas regras que, em linhas gerais, resumem-se ao papel exclusivo de esposa do lar, obediente e subserviente a seu marido.

Gostei demais, também, da ausência de condescendência no tratamento das mulheres; de forma que a narrativa deixa claro, por diversas vezes, que elas próprias contribuíam para o fortalecimento de suas situações precárias. A facilidade com que as personagens femininas do livro denigrem-se mutuamente, convivendo em um clima de competição corrosiva (ou mesmo desesperada, dada a pobreza extrema), impressiona bastante; remetendo-me comparativamente a realities do tipo The Bachelor. Todas pareciam competir entre si pelo único prêmio que sobrava-lhes no meio de tanta desgraça: um marido abastado. Nesse contexto, se pensarmos no rumo que a vida da Lenù está tomando, a sorte dela parece ser realmente espantosa.

A narrativa permite, ainda, devanear a respeito das diferenças entre os processos experimentados por homens e mulheres quando apaixonam-se. No livro de Ferrante, percebe-se nas paixões dos homens uma aparente instantaneidade mágica movida por questões físicas, capaz de desaparecer tão rápido quanto surge; enquanto as mulheres atravessam uma jornada mais lenta fomentada pela admiração de uma personalidade encarada como superior, sendo uma paixão um pouco menos efêmera.

➻ Lamento entender pouquíssimo sobre a história da Itália, pois Ferrante também destaca bastante o clima sociopolítico que dominava aquele período. Pelo menos até aqui, as personagens assumem posicionamentos e discursos (a maioria de esquerda/comunista) que só têm servido como mero exibicionismo intelectual próprio, com utilidade prática nula. Se eu tivesse de lançar uma hipótese, eu ousaria propor que a autora escolhe uma posição cética ao revelar marcadamente o tom hipócrita e vazio predominante dos discursos políticos daquelas pessoas. Estou curtindo, hein; vamos acompanhar.

➻ Recentemente, vi no twitter comentários sobre um outro livro da Ferrante, o Dias de Abandono (ainda não li), relacionados à visão pouca romântica da autora sobre a maternidade e fiquei surpresa, pois já em The Story of  a New Name a autora começa a insinuar que tal ponto de vista será explorado. Expie este trecho:
"And on the street he (filho) got tired after ten steps, he said his knee hurt, he demanded to be picked up, and if she refused he fell on the ground screaming.
At first Lila resisted, then slowly she began to give in. Since at night he would quiet down only if she let him come into her bed, she let him sleep with her. When they went out to do the shopping she carried him, even though he was a well nourished, heavy child: on one side the bags, on the other him. She returned exhausted."
Esse não soa como um retrato muito romântico da maternidade, confere? A cria confunde-se com um parasita estranho e impiedoso que apenas suga, dando pouco - ou nada - em troca. 

Ainda sobre o tema, ocorreu-me a possibilidade de traçar um paralelo entre os comportamentos da Lila e da Helen, personagem do livro da Anne Brontë, em The Tenant of Wildfell Hall. Vítimas de violência doméstica perpetrada pelos maridos, ambas estavam convictas de que eram responsáveis por prover a melhor educação possível aos seus filhos, o que deveriam fazer a qualquer custo, tendo em vista que julgavam ser o meio que garantiria que eles escapariam da recapitulação dos comportamentos e destinos dos pais. Tendo isso em mente, e relembrando como o filho de Lila é descrito logo no começo do primeiro livro (adulto aos 40 anos, sendo um completo imprestável e pouco inteligente), antecipa-se o fracasso de Lila que, de certo modo (para mim, pelo menos), reitera o escrutínio a que Ferrante submete a experiência da maternidade - sendo explicitamente cruel: mulher passa anos em perrengue desgraçado como mãe, para ver o filho tornar-se um bosta. ¯\_(ツ)_/¯


➻ Continuando as comparações literárias, esta passagem sobre Lila
"(...) because for love she was on the point of carrying out an act inconceivable in the environment we had grown up - abandoning her husband, throwing away the comfort so recently acquired, running the risk of being murdered along with her lover and the child she carried in her womb-I considered her happy, with that tempestuous happiness of novels, films, and comic strips, the only kind that at that time truly interested me, that is to say not conjugal happiness but the happiness of passion, a furious confusion of evil and good that had befallen her and not me."
fez-me investir no seguinte devaneio: Lila poderia ser uma espécie de Emma Bovary aos olhos da vizinhança do bairro? Suponho que a extrapolação não seria tão exagerada, pois Lila não estava satisfeita com o que aquelas mulheres reconheciam como "A sorte grande". Um casamento com um marido que simplesmente garante o provimento da casa (único sonho possível para muitas) não bastava para Lila. Ela ansiava pela promessa dos altos voos que conseguia enxergar nos livros que lia. 


➻ Aliás, preciso tomar nota das inúmeras referências literárias que Ferrante inclui em seus livros. Por enquanto, já tivemos:

- Little women (Mulherzinhas) - Louisa May Alcott
- Peças do Samuel Beckett
- Guerra e Paz, Tolstói
- Ulisses, James Joyce
- houve mais algum que esqueço?

A autora bem que poderia pensar em escrever um livro de não-ficção sobre literatura, pois os diálogos relacionados ao tema que aparecem no livro - todos liderados pela Lila - são lidos com enorme prazer.
"The title is Ulysses. (...) it's about how prosaic life is today. (...) It says that our heads are full of nonsense. That we are flesh, blood, and bone. That one person has the same value as another. That we want only to eat, drink, fuck. (...)"
Não sei se exagero, mas acho até que ela parece incutir na narrativa uma defesa da importância e relevância da ficção literária em relação às obras de não-ficção, as quais são usualmente tomadas como mais sérias e detentoras de uma finalidade intelectual mais palpável. Isso me ocorreu especialmente por conta da caracterização de Nino, visto que ele nunca se interessava por obras de ficção e acaba surpreendido pela fascinante discussão que Lila levanta a partir da leitura das peças de Beckett.


➻ E o título do livro, não é mesmo? A leitura acabou revelando algumas imprevistas conexões além da discussão imediata mais fácil de antever → Lila (= mulheres), agora casada, metamorfoseia-se no exclusivo binômio esposa/mãe sob a alcunha do sobrenome do marido ("lógico"). Espantei-me com a passagem em que Lenù descreve seu pai incomodando-se ao ler o próprio sobrenome na capa do livro que ela publicava (em uma suposta ordem natural das coisas, deveria ser o sobrenome do marido de Lenù, pois a mulher pertence ao marido... ou não?). E pude notar que esse título parece relacionar-se ao mote que inicia o primeiro livro; mediante sugestão de que Lila passara por muitas metamorfoses, sempre apagando traços de sua forma anterior. Fiquei pensando que, de certo modo, isto era o que a maioria daquelas mulheres (e homens, talvez) do bairro desejavam: apagar o passado lazarento e começar do zero. Lila, pelo jeito, acumulará várias tentativas.
"It's not possible that I could remain forever a prisoner of this place and these people." (Lenù)
➻ Percebi aqui, igualmente, a suposta presença de ecos das passagens iniciais da infância entre as duas. Nino equivaleria à segunda boneca de Lenù que Lila joga na escuridão; enquanto o sucesso de Lila em nadar além da quebra de ondas repetiria sua coragem em encarar Don Achille.

< Pausa > Ah, sim, sobre o lance do Nino, tenho certeza absoluta de que Lila sabia que Lenù estava apaixonada por ele; tendo agido como vingança pela vergonha por que passara na festa e para provar para Lenù que ainda era capaz de superá-la em algo. O que não estava previsto nos planos dela era acabar vítima da própria - consciente ou inconsciente? - arapuca, apaixonando-se perdidamente por um paspalho que não vale absolutamente nada. 

Ainda nesse volume, inclusive, fomos agraciados com o que considero uma tremenda (e um tanto cruel) revanche da Lenù: visitar Lila no ambiente ensebado da fábrica de embutidos para dizer que estava publicando um livro (o Lemonade da Lenù). Achei uma cacetada triunfal, mas fiquei com um pouquinho de pena da Lila. (bem pouca, pois não gosto de Jolenes.)

 E esse engodo ainda pode complicar, pois o paspalhão é a estrela do gancho final do livro. 

➻ Vamos visitar Ischia?

(via)

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