21/07/2016

Lendo Contos (+ 01 Novela) | As Hortensias - Felisberto Hernández

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Ed. Grua - Tradução: Pablo Cardellino Soto e Walter Carlos Costa)
       

Minha curiosidade pelo escritor uruguaio Felisberto Hernández é bastante recente - ignorava, até mesmo, que um dia ele existira -, contudo o respectivo catalisador responsável escapa-me da memória (odeio quando isso acontece, mas suspeito de que tenha sido o twitter). De qualquer maneira, o que importa é que me interessei pelo autor e, durante a caçada de um livro dele para aquisição, esbarrei em contratempos desagradáveis:

1. A Cosac Naify (RIP) havia publicado uma coletânea de contos de Hernández - O cavalo perdido e outras histórias (coleção Prosa do Observatório) - que hoje detém status de relativa raridade nos sebos virtuais, sendo vendida por preços que variam entre R$100,00-150,00. Como eu desejava apenas "ver qual é do cara", essa opção restou, portanto, sumariamente descartada. (vacilei com a Cosac, agora só resta-me chorar.)

2. Partindo para ativos catálogos de venda em livrarias, encontrei somente esta pequena coletânea da Editora Grua, publicada em 2012, composta por uma novela e três contos em edição bilíngue. Aliás, mesmo em sebos não encontrei mais nada traduzido que pudesse comprar (além da mencionada edição "de ouro" da Cosac Naify). Assim, investi na aquisição de um exemplar de As Hortensias.

Por conta dessas intempéries, eu acabei resgatando a impressão particular que compartilhei no post sobre o livro do Bolaño: "Senti o país (Brasil) um pouco desconectado da identidade latino-americana descrita nas páginas de Bolaño." Em artigo da Folha, Manuel da Costa Pinto expôs, inclusive, observações curiosas a respeito dessa edição da Grua que acabaram intensificando ainda mais essa minha impressão. As Hortensias compõe a coleção Boca a Boca, a qual "tem por objetivo a publicação e difusão da Literatura Uruguaia no Brasil e da Literatura Brasileira no Uruguai, pela edição de títulos e autores representativos de suas culturas e letras", contando com apoio do Ministério da Cultura do Brasil/Fundação Biblioteca Nacional; e Manuel destaca o dissonante perfil das obras selecionadas para publicação no Uruguai e no Brasil (grifos meus):
O projeto prevê a publicação, no Uruguai, de brasileiros como Beatriz Bracher, Raimundo Carrero e Rodrigo Lacerda. No Brasil, sairão volumes bilíngues de Marosa di Giorgio, Felipe Polleri e Fernando Cabrera, entre outros.
O fato de a série de "Literatura Uruguaia" da coleção começar por um clássico como Hernández -quando sua contrapartida, "Literatura Brasileña Contemporánea", focaliza a prosa atual- indica o descompasso na recepção recíproca das literaturas dos dois países.
Carlos Eduardo de Magalhães (editor da Grua) explica que a Biblioteca Nacional do Uruguai, apoiadora do projeto, considera os clássicos brasileiros já conhecidos dos leitores uruguaios (que contam com traduções dos diferentes países de expressão espanhola).
Mas a chegada tardia de Hernández por aqui -que começou em 2006, com "O Cavalo Perdido e Outras Histórias" (Cosac Naify)- permite uma leitura de "As Hortensias" menos marcada pela herança literária.
 
...

As Hortensias, novela que inicia a obra, narra a história de Horacio, um sujeito que, ao contrário do Mr. Grey, realmente tem o direito de afirmar "meus gostos são muito peculiares, você não entenderia". Horacio coleciona bonecas um pouco mais altas que as mulheres normais com as quais uma equipe contratada monta cenas em vitrines de vidro mantidas na casa dele. Depois do jantar, o senhor de gostos peculiares deleita-se com a contemplação das instalações artísticas, embalado pela trilha sonora de um pianista (o próprio Hernández era pianista), enquanto, simultaneamente, tenta desvendar a história, a narrativa da respectiva boneca personagem. Ocupando um lugar especial na coleção do excêntrico (o adjetivo é por minha conta, assumo), encontramos Hortensia, a boneca "cópia" de sua esposa Maria quem, por sua vez, adorava usá-la para surpreender o marido com ~brincadeiras~ - a boneca chegava a dormir com os dois na cama (não acredita? pois leia o livro). Daí, cenas vão, cenas vêm; brincadeira com Hortensia vai, brincadeira com Hortensia vem... o cara apaixona-se pela boneca... Acho... Parece. Ah, sim, e "Hortensias" seria, então, o nome de uma linha especial de bonecas que Horacio encomenda para comercialização e que, se entendi direito (Hernández é muito elegante ao optar pela sutileza), diferenciam-se das demais por conta da presença de um orifício entre as pernas. Nem venha me perguntar o que ele e demais consumidores faziam com esse adicional de fábrica.
"O senhor é feio? Não se preocupe. O senhor é tímidoNão se preocupe. Numa Hortensia o senhor terá um amor silencioso, sem brigas, sem orçamentos apertados, sem mulheres chatas."
Bom, minha estupefação com a bizarrice da história aumentava progressivamente com o avançar da leitura, até que fui acometida por uma sequência de estalos que demonstraram que aquilo tudo não era assim tão singular:

Estalo 1: ah é, e aquele filme lá, do Ryan Gosling - Lars and the Real Girl?



Ademais, fui esclarecida a respeito de outras variantes cinematográficas: 
Her Objects of Affection: Movie Men Infatuated with Mannequins, Dolls and Droids.

Estalo 2: eita, é verdade; o Arreola também tem um conto que corresponde exatamente a um panfleto publicitário para bonequinhas Hortensias, digo, Plastisex!
"Onde quer que a presença da mulher seja difícil, onerosa ou prejudicial, quer seja na alcova de solteiro, ou no campo de concentração, o emprego de Plastisex© é sumamente recomendável. (...) Nós lhe propomos a mulher com quem tem sonhado toda sua vida: manipula-se por meio de controles automáticos e é feita de materiais sintéticos que reproduzem as características mais superficiais ou secretas da beleza feminina."
- Juan José Arreola, Anúncio (Confabulário).

Estalo 3: hum, e se eu jogasse no google "stories of men falling in love with dolls"?


Da matéria do The Atlantic (grifos meus):
Davecat met his future wife, Sidore Kuroneko at a goth club in 2000, so the story goes. The less romantic but perhaps more true version is that he saved up for a year and a half to buy her online. She cost about $6,000
Sidore is a RealDoll, manufactured by Abyss Creations in the shape of a human woman. She is covered in artificial skin made of silicone, so she’s soft. These high-end, anatomically correct—even equipped with fake tongues—love dolls (or capital-D Dolls) are ostensibly made for sex. But 40-year-old Davecat (a nickname acquired from videogames that he now prefers to go by) and others who call themselves iDollators see their dolls as life partners, not sex toys.
O mais impressionante a respeito desse artigo é que o rapaz Davecat, assim como Horacio (e demais iDollators, suspeito), sente a necessidade de construir uma narrativa própria para suas bonecas, repleta de detalhes. Achei isso bastante curioso e intrigante, pois sugere que eles recorrem a uma narrativa ficcional a fim de personificarem suas bonecas, aproximando-as de uma existência humana. O premiado musical americano Hamilton, super famoso atualmente (gosto muito), por exemplo, traz diversos versos que enaltecem a importância que o ser humano confere à construção de sua história, de sua narrativa.
"Who lives, who dies, who tells your story."
Aliás, já na Ilíada os heróis desejam que cantem suas glórias, confere? Se ninguém narra nossas histórias, ou se ninguém canta nossas glórias, podemos dizer que existimos?

(E só mais este link, pois vale o click: 22 Weird And Disturbing Facts About Sex Dolls.)
...

(Saindo dessa toca de coelho e voltando para o Hernández:)

Especialmente durante a leitura de As Hortensias, senti bastante estranhamento em relação à prosa do autor uruguaio, julgando-a bem pouco fluida, meio intrincada e estranha, chegando a suspeitar da tradução, contudo o texto final dos tradutores, incluído na edição da Grua, esclareceu-me algumas características do chamado "idioleto felisbertiano":
- uso idiossincrático da língua;
- (Emir Rodriguez Monegal:) ambiguidades na exposição lógica e imprecisão na sintaxe, estilo pleno de incorreções e coloquialismos;
- (Gabriel Saad:) repetições, aparentes descuidos, esquisitices;
- (Davi Arrigucci Jr.:) pode dar a falsa impressão de desalinho, beirando o descuido ou negligência.

Construções similares à do trecho que destaquei ao lado da capa, as quais personificam objetos criando uma aura relativamente sobrenatural, são muito recorrentes. Uma outra de que também gostei:
"(...) eu tinha descoberto que para as lembranças andarem, eu tinha que dar corda nelas caminhando."
Aquele mesmo texto dos tradutores refere que Hernández constrói um fantástico em que o sobrenatural e o mistério são apresentados de modo bastante peculiar, porém em nenhum momento da leitura considerei o livro como um exemplo de literatura fantástica (embora tenha sentido um suspense antecipatório quanto às bonecas), de modo que assimilei quase tudo seguindo exatamente uma outra possibilidade aventada pelos próprios tradutores: o caráter sobrenatural pertence ao olhar do narrador. Tomando apenas a leitura dessa pequena amostra, eu concordaria muito mais com Juan José Saer: Hernández parece ser precursor do "boom" do realismo mágico, cujo gênero por excelência foi o conto. Saer, porém, preferiu descrever sua prosa como "autobiografia onírica". Esse aspecto onírico, de fato, me pareceu bem marcante na novela As Hortensias, e menos nos demais três contos.

Em artigo do Estadão, por Ricardo Corona, encontrei também esta avaliação que julguei mais certeira quanto ao suposto fantástico felisbertiano: visão que dissocia o objeto do todo, sem vinculação com a consciência do sujeito que o enquadra, invertendo uma lógica que é marca neste autor, ou seja, conforme frisa Jorge Monteleone, da Universidade de Buenos Aires: "Não é a realidade que é absurda: o absurdo é um incremento do real". 

Há, ainda, outras evidentes recorrências simbólicas que destacam-se bastante: o negro, a obsessão com sons (musicais, inclusive)/ruídos/barulhos e imagens em espelhos, sombras personificadas, árvores. E as mulheres surgem assumindo papéis um pouco, digamos, controversos na narrativa do autor: uma se parece com uma vaca (conto Úrsula), outra com um cavalo (conto A mulher parecida a mim) e a terceira é uma rabugenta que se alimenta com uma mamadeira (conto A árvore de mamãe). 

É possível também notar um humor discreto no texto do Hernández que, embora pouco frequente, é formidável; e registro uma estupenda frase que foi contemplada por ele (fora do contexto, não é tão engraçada, mas, mesmo assim, avalio que o meme já está pronto para ser adotado pelas redes sociais):

               "Já está na hora de colocar água quente na espiã."            
( ͡° ͜ʖ ͡°)

Duas bonecas visualizaram seu perfil.
(via)

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