09/07/2016

[Série Napolitana] My Brilliant Friend (L01) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein)

➻ Correto, fui eu mesma quem disse, ainda no começo deste ano, que não ousaria duvidar novamente do postulado "never believe the hype", porém eis-me aqui, disposta a contradizer-me vexativamente mediante registro da minha experiência de leitura do primeiro volume da badaladíssima Série Napolitana, escrita pela italiana Elena Ferrante. Em minha defesa, digo que me encontrei praticamente sem saída, tendo em vista que a ode aficionada conhecida como "Ferrante Fever", a qual reverbera incessantemente pelas redes sociais, estava prestes a fazer com que eu tomasse uma tremenda birra da autora, sem nem ao menos ter-lhe concedido a oportunidade de uma leitura despida de prejulgamentos infundados. 

Muito bem, e concluído o período de incubação literária, será que contraí a Febre Ferrante? Olha, é possível que seja um mero sinal falso positivo, mas o termômetro já marca, de fato, 38°C. E por que pode ser falso positivo? Porque a leitura isolada de The Brilliant Friend (A Amiga Genial) sugere bastante que a divisão da obra em quatro volumes corresponde à mera estratégia editorial, de forma que o projeto da autora me parece exigir, para uma avaliação absolutamente justa, a leitura de todos os tomos. Como só li o primeiro, minhas impressões, no momento, acabam assumindo um caráter parcial, e minhas percepções preliminares poderão mudar ao longo das leituras sequenciais. Ah, pois é, lerei, sim, os outros três livros da série ainda este ano. (Hum, isso também corrobora a hipótese diagnóstica de Ferrante Fever... Lasquei-me.)

Pontuo, a seguir, algumas impressões gerais.

➻ Quanto à história do livro, penso que meu posicionamento geral favorável à prescindibilidade de sinopses ganha intensidade máxima com essa tetralogia. Não há muito o que chafurdar a respeito da premissa: acompanharemos décadas das vidas de duas amigas napolitanas, Lila e Lenù (apelidos) - nesse primeiro volume, elas percorrem a jornada dos (~) seis aos dezesseis anos -, de modo que a graça está em descobrir todos os pormenores da evolução dessa relação. Se eu quisesse ser ainda mais direta, não penso que seria leviano chamar a obra de novelão. Um ótimo novelão, veja bem.

Logo no início da narrativa, há uma cena entre as amigas que parece (foco nesse "parece"; logo o retomarei) servir de alegoria para a dinâmica firmada entre as duas: Lila é quem segue na frente como a líder que toma Lenù pela mão, a qual obedece deslumbradamente enquanto é guiada ora ao aparente inferno obscuro e assustador; ora ao suposto céu que reserva surpresas inesperadas e encantadoras. Se as coisas serão sempre assim, ainda não saberia dizer, pois suspeito fortemente de que isso seja uma aparência falsa e traidora. Veremos.

➻ Pronto, gostaria de retomar aquele "parece". A princípio, acredito que a forma narrativa desse livro foi uma das escolhas mais acertadas da Ferrante, considerando-se a elevada eficácia demonstrada em me deixar bastante cabreira e intrigada a respeito do desenrolar da história.

A narrativa é em primeira pessoa, sendo a Lenù do futuro quem expõe os fatos remotos e pontos de vista. Enriquecendo ainda mais isso, surge a revelação inicial de que Lenù decide escrever as páginas que estamos prestes a ler em resposta ao contemporâneo sumiço da amiga Lila - Lenù não demonstra surpresa quanto a isso, revelando já saber que a amiga planejava eliminar sua existência do mapa. Muito bem, todo esse rico "imbróglio narrativo" provoca-me várias perguntas/ponderações:

1. Certo, esses são os pontos de vista da Lenù, mas e quanto à Lila? Será que ela concordaria com tudo o que a amiga escreve? As versões coincidiriam?
2. Até que ponto o recuo para o passado afeta a evocação da memória de Lenù? Parte (tudo?!) dessa narrativa pode ser fabricação?
3.  A distância temporal entre a Lenù escritora e Lenù narradora-personagem é bastante considerável - inicialmente, quase 60 anos, creio -, portanto muita coisa deve ter ocorrido entre as duas nesse ínterim. Sendo assim, e visto que eu ainda ignoro tais eventos futuros (minha perspectiva), como saber de que maneira eles poderiam estar afetando o tom da narrativa de Lenù? Ela teria motivos para manipular deliberadamente a suposta versão "real" (que nunca existe, eu sei)?
4. Para mim, a intenção de Lenù com o livro também ainda não está clara. Trata-se de uma celebração da Lila, da longa amizade entre ambas? Poderia ser algum tipo de revanche? 

Por tudo isso, sinto-me bastante insegura em tentar processar adequadamente o relato de Lenù apenas com a leitura de The Brilliant Friend. Suspeito de que possa ser um daqueles casos em que, terminado o quarto volume, um retorno ao primeiro revele percepções distintas e mais nítidas.

O imensamente curioso é que essas reflexões narrativas acabaram ecoando nas minhas próprias concepções memoriais. Perceba que, se eu fosse obrigada a responder à pergunta "Você é/foi uma Lila ou Lenù?", não pestanejaria e responderia "Lenù" (a Lenù do primeiro livro, atenção). Ainda mais grave é que algumas Lilas cruzaram meu caminho (a Lila do livro 1, ressalto), e sempre nutri a certeza inabalável de que elas eram meninas perfeitas, populares, lindas e super seguras de si. Naturalmente, portanto, a narrativa da Ferrante me fez entrar na divagação ensimesmada: ué, mas se eu estou duvidando da Lenù, supondo que Lila poderia não sentir-se com a superior autoconfiança que ela esforça-se em me sugerir, então o mesmo também poderia valer para as Lilas da minha vida?  Se estou considerando a possibilidade de que Lila tenha tido momentos em que invejara Lenù, será, então, que as "minhas Lilas", vez ou outra, não invejaram-me também? No meu caso, nunca mais saberei, embora a mera dúvida já tenha massageado minha autoestima já tão combalida. No caso da Lila e Lenù, é possível que eu descubra nos próximos volumes. Antes de largar essa questão, registro a dúvida que acaba de cruzar minha mente: será que existem garotas que têm firmeza para assumirem-se como sendo a "Lila" de suas relações de amizade?! Como diria Hamilton: Chick-a-plao!


➻ Por enquanto, avalio ter gostado enormemente da maneira com que Ferrante abordou a temática da competição (natural, acho) entre amigas, principalmente porque há várias circunstâncias na narrativa que deixam claro (para mim) que ela não assumia um caráter unicamente negativo ou prejudicial. Com ressalvas, acho que é possível afirmar que essa rivalidade atuou como um propulsor contra a inércia na vida da Lenù, ajudando-a na tomada de muitas decisões que poderão beneficiá-la no futuro. Quanto à Lila, é verdade, creio que meu juízo segue incerto.

Apesar dessa impressão geral, admito que houve algumas situações que me provocaram o desejo de socar a cara da Lenù, pois a competição ultrapassava realmente todos os limites de uma razoabilidade saudável. Como exemplos: a conclusão de que ela teria que perder a virgindade ao mesmo tempo que Lila, ou quando ela incomoda-se com a mesma professora que a elogia, mas que também percebe que Lila não aluga mais livros na biblioteca. Enfim, são momentos que sugerem que Lenù seria incapaz de sentir-se plenamente feliz com o andar favorável de sua própria vida, caso Lila possuísse algum tipo de vantagem relativa. Isso é bem assustador e impressiona especialmente quando lembramos de que é a própria Lenù do futuro quem está admitindo esses sentimentos torpes sem qualquer embaraço.


➻ Voltando, mais uma vez, às minhas próprias memórias, afirmo que o livro, em muitas passagens, transportou-me para momentos do meu passado que, suspeito, também são partilhados por muitas meninas, tais como a boba corrida da menarca, o constrangimento com os seios que começam a aparecer, sentir-se horrorosa na fase da pré-adolescência, a descoberta do prazer sexual, etc. 

Por ter-me remetido diretamente a um causo particular que até hoje me faz rir, gostaria apenas de destacar a cena em que, conversando com Lenù, Gigliola diz que Lila teria feito um blow job (o vulgar "chupar pirulito") em Marcello, enquanto Lenù confidencia para o leitor que, naquela ocasião, ela não fazia a menor ideia do que seria um blow job. Passei por perrengue similar na pré-adolescência quando, brincando de jogo da verdade (erro mortal), minha amiga me perguntou se, na "hora H", eu preferiria tirar minha própria roupa ou que ele me despisse. De pronto, meus neurônios passaram a debater a respeito do que seria a tal "hora H" e por que diabos eu iria querer ficar pelada na frente de um menino. Obviamente, reagi igualzinha à Lenù: respondi qualquer bobagem na cara dura, sem dar pinta da minha ignorância - entre adolescentes, isso é questão de pura sobrevivência.


➻ Outra temática extremamente marcante e relevante corresponde ao ambiente de extrema pobreza e dificuldades sociais que caracterizam o bairro de Nápoles em que vivem as duas protagonistas e demais personagens - temporalmente, estamos nas décadas ~ 50-60, pós-guerra. A maneira com que essa questão é tratada me remeteu muito à abordagem (algo correlata) que William Golding faz em "O Senhor das Moscas", notadamente os trechos em que Lila experiencia o fenômeno que ela chama de "dissolving margins", durante o qual um transe dissolve a periferia delineadora das pessoas, permitindo que ela enxergasse a essência interior ou, aproximadamente, aquele "Bicho" referido por Golding. A distinção é que, em O Senhor das Moscas, é o isolamento na ilha que desnuda o Bicho; na obra de Ferrante, é a miséria. A impressão que tive é que Ferrante discutirá e demonstrará, em sua obra, como a pobreza entranha e contamina as personalidades, os comportamentos, a natureza e a vida daquelas pessoas.

Esse mesmo tema sucinta outras discussões conexas interessantes:

1. Posição da mulher em um meio tomado pela penúria extrema.

Incomodou-me particularmente o retrato da objetificação que marca o tratamento que os homens reservavam às mulheres do bairro, estando todos eles (pais, irmãos, maridos, amigos, vizinhos) tomados pela certeza de uma posse de direito, autointitulada, desses "objetos".

2. Questão linguística peculiar que eu desconhecia, concernente à distinção entre o dialeto napolitano e o italiano literário, "de escola".

Recentemente, por conta de Gomorra (livro e série de TV sobre a máfia italiana), eu tinha assimilado que os mafiosos de Nápoles só falam em dialeto, entretanto eu ignorava a existência de possíveis repercussões sociolinguísticas; uma relação com questões de classe (imaginava que fosse uma mero aspecto regional pouco relevante). Lenù faz questão de reforçar explicitamente, diversas vezes, quando uma personagem fala em dialeto - ganha tom pejorativo - ou em italiano literário.

3. Provocações indiretas sobre como aquelas pessoas poderiam escapar da pobreza.

Educação? Certo, mas como isso ocorreria, se as crianças precisavam largar a escola cedo para trabalhar ajudando os pais? Adianto, ademais, que a própria miséria atravancava qualquer crença que aqueles indivíduos pudessem depositar na possibilidade de uma saída através da instrução. Literatura, por exemplo, era uma piada para muitos.

Meios escusos? Pode ser, hein. É preciso acompanhar o desenrolar da narrativa, mas a sugestão já surge forte nesse primeiro volume.

4. Pais representando, para os filhos, a personificação da desgraça tacanha que inevitavelmente o futuro os reservava.

São intensos os momentos em que Lenù aflige-se com a visão da própria mãe, revelando-nos o medo que a consome quanto à chance extremamente real de tornar-se uma mulher como ela, sem nenhuma escapatória.


➻ Em referência à controvérsia gerada pelas medonhas e cafonérrimas capas americanas, compartilho que, agora, a encaro com muito mais estima. De pronto, vale dizer que a leitura do livro eliminou facilmente minha prévia hipótese de que essas capas pudessem ser uma pífia tática para vender livro à custa de polêmica, tendo em vista que pude constatar que as respectivas imagens não ludibriam o leitor em relação ao universo que ele encontrará nas páginas escritas pela Ferrante - what you see is exactly what you get. É exatamente aquilo mesmo.

Munida dessa revelação, considerei certeiro o argumento principal do site The Atlantic (artigo aqui), o qual fundamenta-se no reconhecimento de que o conceito de elevada qualidade literária resta completamente dissociado de capas que trazem imagens de "mulheres fazendo coisas" - the very image of women doing things now strikes even women readers as unliterary. Ou seja, não seria possível atingir essa dita "excelência literária" a partir de histórias sobre mulheres em seus cotidianos particulares, não reconhecidos necessariamente como universais. Bom, Ferrante parece conseguir provar que essa avaliação representa um pleno equívoco.

Simultaneamente, penso que essa válida fundamentação das capas da Série Napolitana não deve invalidar por completo críticas que já existem em torno do perfil de capas que editoras corriqueiramente costumam reservar aos livros escritos por mulheres. A sensação que tenho, pessoalmente, é que muitas vezes o mercado aplica estas duas regras: Foi mulher que escreveu? Ok, então devemos atrair público leitor feminino, pois só mulher lê mulheres. → E que tipo de capa atrai o público leitor feminino? Opa, são coisas meiguinhas, fofinhas, cor rosa, flores, penteadeiras, bonecas, corações, casais, crianças, etc.  Defendo que a regra deve ser a mesma para todos autores: o conteúdo, primordialmente, é que dita a capa.

Apenas por curiosidade, agrupei exemplos de como outros países já "resolveram o problema" das capas americanas:
(de cima para baixo, esquerda  direita: alemanha, brasil, espanha, eslovênia, frança, suécia, turquia, romênia)
Assim, depois de desafiar a confiança que deposito no "Never believe the hype", a Ferrante cutucou os alicerces do meu lema "Mostra-me a capa, e te direi se o livro pode prestar."    ¯\_(ツ)_/¯


Por fim, duas confissões:
1. Até a última página, continuei tendo que recapitular mentalmente os eventos, para conseguir identificar todas as personagens (exceto Lila e Lenù, óbvio). Conseguirei decorar eventualmente? Que vergonha.

2. Só quando o título apareceu explicitamente no livro, dei-me conta de que ele reserva uma peculiar dubiedade. Eu havia interpretado que o "Brilliant/Genial" qualificava a pessoa enquanto amiga; porém, no livro, trata-se de um adjetivo que qualifica o indivíduo (Lenù) em absoluto, fora do papel de "amiga". Intrigante.

➻ A seguir: The Story of a New Name (L02).

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