28/08/2016

[Série Napolitana] Those Who Leave and Those Who Stay (L03) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein) (* Posts sobre:  Livro 01 - X,   Livro 02 - XX)



➻ Iniciando pela atualização do estado febril da presente leitora, tenho a reportar que minha temperatura arrefeceu consideravelmente para 37.0°C. o(´^`)o  Não, claro que isso não significa que a Ferrante deixou o caldo desandar - esse terceiro tomo é bom -, mas já há umas ~coisinhas~ que começaram a me incomodar, e, resumidamente, destacaria duas delas:

1. Esse tempo que tenho passado dentro da cabeça tresloucada da Lenù tem exaurido demais minhas energias, tratando-se, sem dúvidas, de uma narradora personagem que gradativamente testa a paciência do leitor, sendo que a minha segue sobrevivendo à provação por muito pouco. Nesse volume, as coisas pioraram intensamente quanto a essa questão, de modo que a empatia natural e fácil de que dispunha foi substituída aqui por uma recorrente irritação desconfortante. Saquei um brevíssimo comentário dela para ilustrar o quanto ela fez meus olhos revirarem:
"Hers (Lila, claro) was a life in motion, mine was stopped."
- For the love of sweet baby Jesus, Lenù! Já são uns trinta anos nas costas, não é isso? Acho que já está na hora de tentar amadurecer um pouquinho. Recapitulemos a vida das duas:

LENÙ: publica livro traduzido até fora da Itália; consegue fugir do bairro napolitano, indo morar em Florença; casa-se com um cara que, a despeito dos muitos defeitos, parece ser decente; tem duas filhas saudáveis; escreve e publica elogiados artigos sociopolíticos em jornais....
LILA: depois de comer o pão que o diabo amassou numa fábrica nojenta de embutidos, consegue investir-se como técnica de informática em um trabalho chato e enfadonho; volta a morar no mesmo bairro xexelento de Nápoles; mora com um homem que, embora também íntegro, ela não ama; tem um filho pentelho; é obrigada a sustentar agregados familiares e, eventualmente, até o ex-marido...
_________________
SALDO: e aí? Quem estaria com a vida estagnada e quem a teria em movimento? Esse tipo de comparação tem algum propósito lógico? Faz sentido?  - Ai, Lenù...

Nesse livro, ela me pareceu ainda mais insegura e perdida. E é a toda hora: "ai a Lila isso; ai a Lila aquilo; ai a Lila não sei o quê; ai a Lila não sei o quê lá; Lila, Lila, Lilaaaaaaa..." Cansa um bocadinho, enquanto leitora, encontrar-me presa nesse turbilhão, sabe? Destaco, porém, estar consciente de que isso tem um propósito na narrativa - comentarei adiante.

Ah, e o disco arranhado da Lenù também costuma empacar em outra música superiormente atormentadora: "ai o Nino isso; ai o Nino aquilo; ai o Nino não sei o quê; ai o Nino não sei o quê lá; Nino, Nino, Ninooooo...." ARGH!!


2. Essa.série.só.tem.personagem.FDP, percebo agora, e é mesmo impressionante. Nem as crianças escapam, pois adquiri uma birra perturbadora até contra o filho da Lila. Logicamente, eu sei que um bom livro ou uma boa leitura não se medem exclusivamente pela presença de personagens empáticas, mas, como mera leitora ordinária, preciso admitir que a tolerância presente para lidar com personagens desdenháveis sujeita-se a limites variáveis. De qualquer modo, isso não representa uma inconveniência grave, pois a recorrente torpeza manifestada nessas personagens, ordinariamente muito humana (pelo menos para a maioria delas), instiga-me muito mais uma curiosidade masoquista. Acrescentaria, ainda, que não deixa de surpreender-me a constatação de que, após mais de 1000 páginas na companhia desses indivíduos, eu não tenha me afeiçoado arrebatadoramente por nenhum deles. No máximo, de fato, sinto compaixão e enorme interesse; especialmente pela Lenù, claro.

Também há outras ~coisinhas~ extremamente interessantes que eu ainda não havia comentado em postagens anteriores e que surgiram em Those Who Leave and Those Who Stay, sobre as quais gostaria de comentar.


➻ A Ferrante, teorizo livremente, parece estar jogando uma partida de manipulação recreativa do leitor com essa obra. Durante vários momentos desse livro, eu tive a genuína sensação de que ou a autora tinha lido minhas postagens antecipadamente, ou ela estava respirando no meu cangote esperando o momento em que riria da minha cara. Nas duas postagens anteriores, eu deliberadamente não tratei do recorrente questionamento relacionado ao possível caráter autobiográfico/autoficcional dessa série simplesmente por achar o tema chato e a isca muito bonachona, mas agora ficou muito difícil evitar cair na tentação da interrogação: até que ponto a autora poderia estar contando/ficcionando a própria vida? Aliás, parando para refletir, esse quesito flerta com a insanidade quando lembro-me de que nem mesmo sei quem é Elena Ferrante, somente sei que ela faz-se presente nas suas páginas, frequentemente provocando-me a fazer aquela referida pergunta - a qual não gosto de fazer, destaco. Citando alguns elementos da narrativa relacionados a esse tema:

- Lenù, ou melhor, a escritora napolitana Elena Greco (pescou, pescou?) comenta sobre o embaraço causado pelas fotos dela que os jornais escolhiam para ilustrar as resenhas de seu livro. Pergunto à Ferrante: essa é também uma das razões que a impele ao anonimato?

- Somos constantemente lembrados de como os eventos da própria vida da Elena Greco refletem-se naquilo que ela escreve. Pergunto à Ferrante: você está fazendo/faz o mesmo? Seu método consiste em buscar inspiração deliberada na sua própria realidade?

Simultaneamente, porém, Lila manda esta:
"(...) the disgusting face of things alone was not enough for writing a novel: without imagination it would seem not a true face but a mask."
- Ao mesmo tempo, a idiota assunção feita por leitores (os personagens da realidade da série) e vizinhança de que Lenù confundiria-se indubitavelmente com a personagem de seu livro parece surgir como um alerta crítico aos leitores de Ferrante - "não façam o mesmo, vocês também."

- Durante uma sessão com leitores para promover o livro, Lenù recebe perguntas relacionadas ao "struggles of the female character to escape the environment where she was born" e, ao ler isso, eu pensei "caraca, eu, leitora da Ferrante, fui parar no livro dela?!! Afinal, eu também estou fazendo esse mesmo tipo de pergunta em relação à Série Napolitana; e se a pergunta cabe aos livros da Lenù e da Ferrante, então... seriam uma só?"

Inclusive, muitas críticas que o livro da Lenù recebe poderiam ter sido facilmente dirigidas, sem necessidade de grande adaptação, à Tetralogia Napolitana da Ferrante, como se a autora, através de sua ficção e personagem, estivesse antecipando-se engenhosamente a possíveis julgamentos. Esse terceiro livro contém até uma cena em que Lenù maldiz as capas feias do livro dela publicado na Alemanha, as quais trazem mulheres em vestidos pretos e roupas estendidas no varal. Ei, mas não é a Ferrante quem também tem livros com mulheres na capa fazendo "mulherzices", as quais são universalmente consideradas horrorosas?!

- E falando em sessão com leitores e resenhistas, Lenù igualmente compartilha o quanto sente-se desconfortável e insegura em relação a como comportar-se e responder em tais ocasiões, de maneira que, de novo, segue a pergunta para Ferrante: essa é também uma das razões que a impele ao anonimato?

- Considerando-se que julgo o narrador da Série Napolitana A grande genialidade da obra, como eu já havia destacado, imagine o susto que tomei quando me apareceu este diálogo entre o Nino e a Lenù a respeito do narrador do livro que ela escrevia:
"(...) But what I envy most is your ability as a narrator. You've written something hard to define, I don't know if it's as essay or a story. But it's extraordinary."
"It's that a flaw?"
"What?"
"That it's not classifiable."
"Of course not, that's one of it's merits."
Essa foi, pessoalmente, a cereja do bolo de toda essa paranoia especulativa sobre autoficção/autobiografia da obra da Ferrante. Esses tipos de jogos literários parecem estar na moda atualmente, não sei, só sei que não sou lá grande fã do gênero (seria gênero? categoria?), contudo, ainda assim, confesso estar sendo bastante divertido servir de fantoche para a autora italiana.


➻ Sobre a relação entre Lenù e Lila, só agora percebi algo que, de tão óbvio, acho que eu já deveria ter constatado desde o começo: o fenômeno do duplo/dopplegänger literário.
"And yet even when I lived in other cities and we almost never met, and she as usual didn't give me any news and I made an effort not to ask for it, her shadow goaded me, depressed me, filled me with pride, deflated me, giving me no rest. (...) I want her to erase, add, collaborate in our story (...)"
Notadamente (para mim) em Those Who Leave and Those Who Stay, a unidade indissociável - apesar da atual distância espacial - existente entre Lila e Lenù e as projeções e reflexos que as duas estabelecem entre si ficaram extremamente evidentes por conta da exposição recorrente na narrativa. A sensação que tive foi de que essas personagens surgem através de uma dinâmica Yin e Yang - forças opostas e complementares - ou de uma representação do Id e do Superego - Lila parece representar os aspectos reprimidos na personalidade de Lenù. Para uma análise aprofundada disso, eu precisaria de sólidos conhecimentos sobre teoria literária e psicanalítica que, infelizmente, não detenho, porém tentei pesquisar brevemente o assunto e, do que li, destaco alguns excertos:

- "As an imagined figure, a soul, a shadow, a ghost or a mirror reflection that exists in a dependent relation to the original, the double pursues the subject as his second self and makes him feel as himself and the other at the same time. While its imaginative power springs from its immateriality, from the fact that it is and has always been a phantasam, the psychological power of the double lies in its ambiguity, in the fact that it can stand for contrast or opposition, but likeness as well. It can be complementarity, as in the Platonic conception of twin souls which seek each other in order to make a whole out of their sundered halves. Sympathy between individuals, even human love, can also be seen as one aspect of the dialectic between 'I" and "non-I", the subject and his double, upon which the possibility of wholeness and integration within the self rests."

(na relação das duas, suponho que essa complementaridade seja mais marcante do que um antagonismo direto.)


(Para Lenù, a Lila parece-me, de fato, surgir marcadamente como meio de construção de identidade) (Segundo parêntese para comentar que nunca imaginei que citaria Bakhtin nesse blog. Onde pego minha carteirinha de impostora pseudointelectual?)

- "O fim usualmente envolve um confronto entre as duas personagens, que corresponde à personagem principal confrontando sua própria alma conflituosa."  

(Hum, teremos, portanto, o que eu chutei no post do segundo livro? → "meu saquinho de pipoca já está pronto para A CENA que prevejo acontecer entre Lenù e Lila, referente ao papo franco que terão para limpar essa merda esparramada, daquelas que dariam direito a legendas do tipo [xinga muito em italiano]."

Refletindo, percebi que Ferrante igualmente parece estabelecer, se não exatamente duplicidade literária, relações de paridades reflexas entre várias outras personagens. 

No Goodreads, li também um comentário que achei bem pertinente sobre a prosa da Ferrante nesses livros, o qual referia, parafraseando, que ela consegue o grande mérito de desenvolver complexas análises psicológicas de personagens, com monólogos introspectivos recorrentes, sem nenhum detrimento do plot narrativo. Concordei imensamente.

(- Ferrante, você está fazendo terapia com esses livros, é?)


➻ Ah, e o Pietro, arrancando palavras da minha boca a respeito da Lila e Lenù? Basicamente, é a Ferrante tirando sarro da minha cara de novo:
"I don't understand how your relationship could have lasted so long, obviously you've carefully hidden from each other anything that could rapture it. And he added: either I haven't understood anything about her (Lila) - and it's likely, I don't know her - or I haven't understood anything about you, and that is more upsetting."
Peguei-me até confabulando que aqueles leitores que preferem Lila à Lenù estariam conferindo predileção a uma construção (obra das palavras de Lenù) que não existiria nem mesmo na ficção que habita.


➻ Ainda existem várias outras temáticas abordadas pela autora nesse tomo - sexualidade feminina, experiências únicas e distintas de maternidade, presença da mulher no ambiente de trabalho (assédio sexual, diferenças salariais injustificadas), movimentos feministas, revolução dos anticoncepcionais orais, movimentos sindicais, confrontos e movimentos sociopolíticos -, portanto ainda haveria muito a ser discutido, contudo escolho encerrar a groselha nesse ponto.

Falando só sobre o final dramático deixado como gancho para o próximo volume: inicialmente eu fiquei irada e estupefata com o que Lenù foi capaz de fazer - <SPOILER> largar esposo e filhas para fugir, feito adolescente, com o paspalhão do Nino <SPOILER> -, entretanto logo me dei conta de que não havia outro jeito dela resolver seu conflito adolescente pertencente ao imaginado e idealizado, e não ao concreto e real. Sei que ela precisará efetivamente quebrar a cara com o Nino, para libertar-se da elaboração fantasiosa e emprisionadora que ela própria criara.
(olha, se as coisas derem certo com o Nino, ficarei super pasmada.)

P.S.: e o nordeste brasileiro aparecendo nas páginas da Ferrante através da fala de Pasquale?!
...
- Betty, segura aí o vinho, por favor. Depois de toda a paranoia autobiográfica/autoficcional, das personagens "adoráveis" e "bem resolvidas", e do final desse livro, eu também estou precisando.

11/08/2016

A Romana - Alberto Moravia

(sobre o livro: info, sinopse, etc.)   (Edição lida: Nova Cultural - 1987, tradução: Marina Colasanti)
Perceba que até Don Draper ficou curioso e espia melhor o título do livro - The Woman of  Rome - para ler depois.

Concluída esta leitura adicional, sinto-me confortável para juntar-me à virtual turma que corrobora o "sucesso de crítica e de público" das obras italianas recomendadas por Mário Vargas Llosa (anteriores lidas por mim: x1, x2). Se eu fosse você, eu correria atrás do que esse tal peruano aí sugere (e de autores italianos, percebo), pois ele manja realmente dos paranauês literários; creio que posso atestar. A Romana, de Alberto Moravia: que livro totalmente excelente. Como todo bom livro, a multiplicidade de análises que ele admite é desnorteante, então ressalvo que focarei - como sempre - nos pontos em que ele me atingiu; contudo, para já instigar o interesse, adianto uma pergunta: sabia que o universo da Série Napolitana, escrita pela italiana Elena Ferrante, possui um spin-off, e que ele chama-se A Romana? Pois é verdade. Retomarei esse ponto logo mais; cenas dos próximos parágrafos.
...

O fato da série Mad Men ter colocado um exemplar da obra em inglês, The Woman of  Rome, no colo daquela mulher estonteante não foi incalculado, pois o livro de Moravia trata, em essência, da vida de Adriana, uma jovem e bela prostituta de corpo renascentista que percorrera as ruas de Roma atraindo o olhar lascivo de todos os homens durante o regime fascista de Mussolini. Há erotismo na obra? Sim, há; mas eu, pelo menos, não a encarei como um exemplar de literatura erótica, tendo em vista que o erotismo não parece ser seu foco principal. Llosa, meu atual assessor favorito para recomendações literárias, também parece concordar comigo (livre tradução do espanhol, que não domino, alerto): (...) embora Adriana, a protagonista, faça amor - por motivos profissionais e pessoais - com muita frequência, o sexo não aparece com a roupagem prestigiosa e excitante exigida pelo gênero (erótico), mas assumindo um papel mais deprimente, através do qual o pior de homens e mulheres resta revelado: violência (...), obsessões edípicas (...), frigidez de coração (...), espírito venal (...). Embora o sexo seja a atmosfera do mundo fictício de Moravia, ele sempre está instrumentalizado para configurar uma visão crítica e problemática da sociedade. 

Ainda contando com o amparo de Llosa - ele diz: "Adriana deleita-se mais na reflexão filosófica do que lhe sucede, do que no relato das ocorrências" -, afirmo que as instigantes contemplações e ruminações de Adriana - nossa narradora que rememora seu passado - foram os elementos que mais me tocaram e desestruturaram. De Adriana, tomei uma saraivada de bordoadas que me deixaram zonza até o presente momento.

Bordoada 1
"Talvez não tivesse essa sensação de mundo feliz proibido, se mamãe, durante minha infância, não me tivesse mantido distante do parque, assim como de qualquer outra diversão. Mas a viuvez de mamãe, sua pobreza, (...) não me permitiram pisar no parque, (...). Deve ser por isso, provavelmente, que me ficou para toda a vida uma espécie de suspeita de ter sido excluída do mundo alegre e cintilante da felicidade."
A atriz-comediante-roteirista-produtora-etc. Mindy Kalling, ocorreu-me, escreveu um livro cujo título dialoga de forma mais ~leve e engraçadinha~ com o teor daquilo que Adriana compartilha conosco nessa passagem: Is everybody hanging out without me? A intensa pobreza em que Adriana nasceu e foi criada a excluiu de coisas aparentemente triviais como simplesmente ir a um parque de diversões, a quem todos, também aparentemente, teriam acesso. Nessa realidade de enormes privações, acaba chamando ainda mais atenção, de modo desconcertante, a ambição ingênua e inocente à qual Adriana apoia-se, resumida no simples desejo de casar-se, ter uma casa limpa e construir uma família que sempre teria possibilidade de visitar o parque. Pude constatar precocemente, portanto, que a realidade extrema de Adriana exige-me, felizmente (mandatório que o reconheça), um grande esforço para que eu consiga afastá-la do campo da abstração e aproximá-la de uma concretude mais tangível.

Bordoada 2
"(...) constatação de que a normalidade da vida não estava nos meus projetos de felicidade e sim no contrário, ou seja, em todas as coisas rebeldes a planos e programas, fortuitas, que se revelam defeituosas e imprevisíveis, que causam desilusão e dor."
Esse golpe desferido por Adriana deixou-me confabulando: será que todos possuem um determinado momento decisivo - o inglês tem a boa expressão "turning point" - em suas vidas que, valendo-me das palavras de Adriana, as resgata definitivamente da embriaguez, fazendo com que retomem a consciência da real "normalidade da vida" caracterizada pela presença constante de adversários (pessoas, eventos, ocorrências) contra nossos planos de felicidade? Ok, ok, entendo que esse discurso pode soar um tanto amargo e ressentido demais, porém confesso, sim, acreditar nele. Particularmente, admito também que já encarei o meu "momento decisivo", todavia, assim como Adriana, escolhi aceitar resignadamente essa normalidade e dar prosseguimento à minha jornada mesmo assim, sem rancores ou raiva.

Bordoada 3
"Pensei que gostava de amor, gostava de dinheiro, gostava das coisas que se podem obter com dinheiro, e disse a mim mesma que a partir de então, quando a ocasião se apresentasse, não recusaria mais nem o amor, nem o dinheiro, nem aquilo que o dinheiro pode dar. (...) minhas aspirações continuavam idênticas; entretanto, a vida fácil me agradava muito, e o brilho desta perspectiva me escondia tudo o que de triste e resignado havia no fundo das minhas novas decisões."
Aqui, surge uma premissa interessante que pareceu-me ser bastante forte no texto de Moravia, a qual refere-se à necessidade apaziguadora do indivíduo confirmar-se a si mesmo, ou seja, de descobrir conscientemente suas essências/naturezas e aceitá-las plenamente, sejam elas quais forem. Na narrativa do autor italiano, Adriana não surge como uma, digamos, típica ou estereotipada personagem prostituta da literatura, pois ela mostra-se capaz de reconhecer o prazer erótico em muitas de suas investidas sexuais, acolhendo sabiamente os conflitos de seus sentimentos. A narradora consegue estabelecer uma trégua com aquilo que a vida reservara-lhe, ao mesmo tempo em que não desiste por completo do sonho simples de uma casa limpa para constituir uma família. Isso não parece ser libertador? Hoje, eu responderia que sim. Adriana é, realmente, uma personagem complexa que recorrentemente me surpreendeu com seus pensamentos e condutas. 

Nocaute 
"(...) minha angústia não era devida ao que fazia, mas sim, mais profundamente, ao simples fato de viver, que não era nem ruim nem bom, mas somente doloroso e insensato. (...) suspensa no nada. Parecia-me que esse nada era uma coisa solene, terrível e incompreensível, (...) Mas não me iludia com ser a única a ter sentimentos tão violentos e tão desesperados. Pensava que podia acontecer a qualquer um, pelo menos uma vez por dia, sentir a própria vida reduzida a um ponto de angústia, indizível e absurdo. Só que nas outras pessoas também esse conhecimento não produzia qualquer efeito visível. Saiam em seguida de suas casas, como eu, e iam representar com sinceridade seu papel insincero. Esse pensamento confirmava minha convicção de que todos os homens, todos, são dignos de compaixão, nem que seja pelo simples fato de viverem."
Há uma pergunta que comumente figura em questionários de temática literária, dirigidos a leitores ou escritores, que orbita em torno da seguinte proposição: que livro mudou sua forma de ver o mundo? Bom, eu sempre a julguei um tanto ingênua, pois não acreditava que um livro de ficção fosse capaz de proporcionar isso, porém, ao ser nocauteada por esse discurso de Adriana, receio que não verei o mundo, ou melhor, as pessoas da mesma maneira. A partir de agora, sempre que sentir que meu enternecimento pelo coleguinha ao lado está desfalecendo, espero poder contar com o auxílio da reflexão de Adriana. Como não sentir compaixão, ainda que ínfima, pelo vizinho que está mergulhado no nada exatamente como eu e que, ainda assim, segue vivendo, também como eu? Na ocasião em que li essa passagem, devo ter ficado contemplando o ar por alguns segundos. Ah, e esse nocaute ocorreu entre as páginas 174-175, enquanto o livo tem 411 totais. ¯\_(ツ)_/¯
...

A fim de registrar o fascinante aprendizado que me proporcionara, gostaria de retornar à resenha do Llosa, na qual o peruano, praticamente, dispara-me a seguinte pergunta parafraseada: ô Daniela, vem cá, mas será possível que você não está achando que toda essa filosofada intelectual e gramaticalmente impecável da Adriana destoa demais das origens humildes descritas para a personagem? E retruquei a Llosa: caraca, Llosa, e não é que você tem razão?! Inicialmente, eu me senti bem envergonhada, mas ouso compartilhar que fiquei orgulhosa quando o mesmo resenhista também afirma que a obra seria uma ficção ficcional que exige que o leitor renuncie à ilusão realista para viver a fantasia literária. Optei por assumir que eu fora capaz de aceitar a convenção do mundo da ficção e fazer o mergulho literário ao qual Moravia havia convidado-me. (* momento em que dou palminha no meu ombro - boa leitora, boa leitora.
...

Sem que eu tivesse planejado, descobri surpresamente que esse livro é, sem muito exagero (avalio), um spin-off  - e/ou vice-versa - da Série Napolitana, escrita pela Elena Ferrante. Não faço parte do meio acadêmico, mas chutaria que essas obras renderiam bons trabalhos na área de literatura comparada.

Ambas histórias ocorrem em realidades de pobreza extrema da Itália, da qual emergem personagens femininas que nos narram, mediante retomada de memórias, suas histórias. Essas duas narradoras - Adriana e Lenù:
1. têm relações bastante complicadas com suas respectivas mães, surgindo, nos dois livros, ricas descrições desses intricados relacionamentos. O detalhe dissonante é que a mãe de Adriana parece ter tido sua moral ~ligeiramente~ mais afetada pela miséria do que a mãe de Lenù, - contudo creio que esse é um tema controverso, que aceita muitas relativizações; 
2. veem-se enoveladas em amizades sufocantes e multifacetadas com outras duas personagens femininas marcantes;
3. embora separadas temporalmente por cerca de cinquenta anos (espacialmente, temos Roma e Nápoles respectivamente), as duas vivem durante momentos de marcante tensão política no país - fascismo de Mussolini e o tenso período pós-segunda guerra mundial - que é inserido e discutido na narrativa por Moravia e Ferrante (ainda que mediante perspectivas e modos bem distintos);
4. compartilham a passagem de personagens masculinos tóxicos que causam estragos indeléveis nas vidas de ambas. Impressiona enormemente o dedo podre que as duas protagonistas têm para escolher parceiros masculinos;
5. tentam, como podem, sobreviver à miséria excruciante e à sociedade patriarcal opressora e violenta.

Será que a Ferrante leu essa obra de Moravia? Gostaria enormemente de saber. A despeito dessas semelhanças, é importante ressalvar que esses livros continuam muito diferentes.
...
"(Adriana:) Pensava que o amor, e não a leitura, fosse a condição mais favorável à abertura da alma humana."
...
Como gostei bastante da maneira com que Llosa encerra sua resenha (escrita em 1988), reproduzo as palavras dele aqui para também encerrar minha postagem. O peruano reflete sobre as razões que poderiam explicar por que um livro que hoje parece-nos tão "inofensivo" (palavra minha) foi encarado como um tabu escandaloso à época de sua publicação:

"Não deixa de ser surpreendente que A Romana tenha sido um livro polêmico que provocou tanto escândalo. O que nele escandalizou? Os episódios sexuais, com poucas exceções, são bastante inofensivos, e Adriana, embora exerça o meretrício, nutre uma moral severa e conformista. A única audácia do livro é a amarga amoralidade da mãe, pouco menos do que uma testemunha dos encontros amorosos da filha, mas, em todo o caso, é difícil acreditar que isso tenha conferido ao livro a fama de maldito.
Os leitores e livros devem ter mudado bastante nos últimos 40 anos, pois estou certo de que essa história que meus avós e minha mãe me proibiram de ler não embaraçaria nem a senhorita mais virtuosa. Há algo bom nessa mudança: os leitores podem, finalmente, ler A Romana com objetividade, sem os preconceitos de outros tempos."

Não é interessante que o tempo seja capaz de mudar a forma com que leitores percebem um livro? Essa possibilidade encanta-me com certeza.