11/08/2016

A Romana - Alberto Moravia

(sobre o livro: info, sinopse, etc.)   (Edição lida: Nova Cultural - 1987, tradução: Marina Colasanti)
Perceba que até Don Draper ficou curioso e espia melhor o título do livro - The Woman of  Rome - para ler depois.

Concluída esta leitura adicional, sinto-me confortável para juntar-me à virtual turma que corrobora o "sucesso de crítica e de público" das obras italianas recomendadas por Mário Vargas Llosa (anteriores lidas por mim: x1, x2). Se eu fosse você, eu correria atrás do que esse tal peruano aí sugere (e de autores italianos, percebo), pois ele manja realmente dos paranauês literários; creio que posso atestar. A Romana, de Alberto Moravia: que livro totalmente excelente. Como todo bom livro, a multiplicidade de análises que ele admite é desnorteante, então ressalvo que focarei - como sempre - nos pontos em que ele me atingiu; contudo, para já instigar o interesse, adianto uma pergunta: sabia que o universo da Série Napolitana, escrita pela italiana Elena Ferrante, possui um spin-off, e que ele chama-se A Romana? Pois é verdade. Retomarei esse ponto logo mais; cenas dos próximos parágrafos.
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O fato da série Mad Men ter colocado um exemplar da obra em inglês, The Woman of  Rome, no colo daquela mulher estonteante não foi incalculado, pois o livro de Moravia trata, em essência, da vida de Adriana, uma jovem e bela prostituta de corpo renascentista que percorrera as ruas de Roma atraindo o olhar lascivo de todos os homens durante o regime fascista de Mussolini. Há erotismo na obra? Sim, há; mas eu, pelo menos, não a encarei como um exemplar de literatura erótica, tendo em vista que o erotismo não parece ser seu foco principal. Llosa, meu atual assessor favorito para recomendações literárias, também parece concordar comigo (livre tradução do espanhol, que não domino, alerto): (...) embora Adriana, a protagonista, faça amor - por motivos profissionais e pessoais - com muita frequência, o sexo não aparece com a roupagem prestigiosa e excitante exigida pelo gênero (erótico), mas assumindo um papel mais deprimente, através do qual o pior de homens e mulheres resta revelado: violência (...), obsessões edípicas (...), frigidez de coração (...), espírito venal (...). Embora o sexo seja a atmosfera do mundo fictício de Moravia, ele sempre está instrumentalizado para configurar uma visão crítica e problemática da sociedade. 

Ainda contando com o amparo de Llosa - ele diz: "Adriana deleita-se mais na reflexão filosófica do que lhe sucede, do que no relato das ocorrências" -, afirmo que as instigantes contemplações e ruminações de Adriana - nossa narradora que rememora seu passado - foram os elementos que mais me tocaram e desestruturaram. De Adriana, tomei uma saraivada de bordoadas que me deixaram zonza até o presente momento.

Bordoada 1
"Talvez não tivesse essa sensação de mundo feliz proibido, se mamãe, durante minha infância, não me tivesse mantido distante do parque, assim como de qualquer outra diversão. Mas a viuvez de mamãe, sua pobreza, (...) não me permitiram pisar no parque, (...). Deve ser por isso, provavelmente, que me ficou para toda a vida uma espécie de suspeita de ter sido excluída do mundo alegre e cintilante da felicidade."
A atriz-comediante-roteirista-produtora-etc. Mindy Kalling, ocorreu-me, escreveu um livro cujo título dialoga de forma mais ~leve e engraçadinha~ com o teor daquilo que Adriana compartilha conosco nessa passagem: Is everybody hanging out without me? A intensa pobreza em que Adriana nasceu e foi criada a excluiu de coisas aparentemente triviais como simplesmente ir a um parque de diversões, a quem todos, também aparentemente, teriam acesso. Nessa realidade de enormes privações, acaba chamando ainda mais atenção, de modo desconcertante, a ambição ingênua e inocente à qual Adriana apoia-se, resumida no simples desejo de casar-se, ter uma casa limpa e construir uma família que sempre teria possibilidade de visitar o parque. Pude constatar precocemente, portanto, que a realidade extrema de Adriana exige-me, felizmente (mandatório que o reconheça), um grande esforço para que eu consiga afastá-la do campo da abstração e aproximá-la de uma concretude mais tangível.

Bordoada 2
"(...) constatação de que a normalidade da vida não estava nos meus projetos de felicidade e sim no contrário, ou seja, em todas as coisas rebeldes a planos e programas, fortuitas, que se revelam defeituosas e imprevisíveis, que causam desilusão e dor."
Esse golpe desferido por Adriana deixou-me confabulando: será que todos possuem um determinado momento decisivo - o inglês tem a boa expressão "turning point" - em suas vidas que, valendo-me das palavras de Adriana, as resgata definitivamente da embriaguez, fazendo com que retomem a consciência da real "normalidade da vida" caracterizada pela presença constante de adversários (pessoas, eventos, ocorrências) contra nossos planos de felicidade? Ok, ok, entendo que esse discurso pode soar um tanto amargo e ressentido demais, porém confesso, sim, acreditar nele. Particularmente, admito também que já encarei o meu "momento decisivo", todavia, assim como Adriana, escolhi aceitar resignadamente essa normalidade e dar prosseguimento à minha jornada mesmo assim, sem rancores ou raiva.

Bordoada 3
"Pensei que gostava de amor, gostava de dinheiro, gostava das coisas que se podem obter com dinheiro, e disse a mim mesma que a partir de então, quando a ocasião se apresentasse, não recusaria mais nem o amor, nem o dinheiro, nem aquilo que o dinheiro pode dar. (...) minhas aspirações continuavam idênticas; entretanto, a vida fácil me agradava muito, e o brilho desta perspectiva me escondia tudo o que de triste e resignado havia no fundo das minhas novas decisões."
Aqui, surge uma premissa interessante que pareceu-me ser bastante forte no texto de Moravia, a qual refere-se à necessidade apaziguadora do indivíduo confirmar-se a si mesmo, ou seja, de descobrir conscientemente suas essências/naturezas e aceitá-las plenamente, sejam elas quais forem. Na narrativa do autor italiano, Adriana não surge como uma, digamos, típica ou estereotipada personagem prostituta da literatura, pois ela mostra-se capaz de reconhecer o prazer erótico em muitas de suas investidas sexuais, acolhendo sabiamente os conflitos de seus sentimentos. A narradora consegue estabelecer uma trégua com aquilo que a vida reservara-lhe, ao mesmo tempo em que não desiste por completo do sonho simples de uma casa limpa para constituir uma família. Isso não parece ser libertador? Hoje, eu responderia que sim. Adriana é, realmente, uma personagem complexa que recorrentemente me surpreendeu com seus pensamentos e condutas. 

Nocaute 
"(...) minha angústia não era devida ao que fazia, mas sim, mais profundamente, ao simples fato de viver, que não era nem ruim nem bom, mas somente doloroso e insensato. (...) suspensa no nada. Parecia-me que esse nada era uma coisa solene, terrível e incompreensível, (...) Mas não me iludia com ser a única a ter sentimentos tão violentos e tão desesperados. Pensava que podia acontecer a qualquer um, pelo menos uma vez por dia, sentir a própria vida reduzida a um ponto de angústia, indizível e absurdo. Só que nas outras pessoas também esse conhecimento não produzia qualquer efeito visível. Saiam em seguida de suas casas, como eu, e iam representar com sinceridade seu papel insincero. Esse pensamento confirmava minha convicção de que todos os homens, todos, são dignos de compaixão, nem que seja pelo simples fato de viverem."
Há uma pergunta que comumente figura em questionários de temática literária, dirigidos a leitores ou escritores, que orbita em torno da seguinte proposição: que livro mudou sua forma de ver o mundo? Bom, eu sempre a julguei um tanto ingênua, pois não acreditava que um livro de ficção fosse capaz de proporcionar isso, porém, ao ser nocauteada por esse discurso de Adriana, receio que não verei o mundo, ou melhor, as pessoas da mesma maneira. A partir de agora, sempre que sentir que meu enternecimento pelo coleguinha ao lado está desfalecendo, espero poder contar com o auxílio da reflexão de Adriana. Como não sentir compaixão, ainda que ínfima, pelo vizinho que está mergulhado no nada exatamente como eu e que, ainda assim, segue vivendo, também como eu? Na ocasião em que li essa passagem, devo ter ficado contemplando o ar por alguns segundos. Ah, e esse nocaute ocorreu entre as páginas 174-175, enquanto o livo tem 411 totais. ¯\_(ツ)_/¯
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A fim de registrar o fascinante aprendizado que me proporcionara, gostaria de retornar à resenha do Llosa, na qual o peruano, praticamente, dispara-me a seguinte pergunta parafraseada: ô Daniela, vem cá, mas será possível que você não está achando que toda essa filosofada intelectual e gramaticalmente impecável da Adriana destoa demais das origens humildes descritas para a personagem? E retruquei a Llosa: caraca, Llosa, e não é que você tem razão?! Inicialmente, eu me senti bem envergonhada, mas ouso compartilhar que fiquei orgulhosa quando o mesmo resenhista também afirma que a obra seria uma ficção ficcional que exige que o leitor renuncie à ilusão realista para viver a fantasia literária. Optei por assumir que eu fora capaz de aceitar a convenção do mundo da ficção e fazer o mergulho literário ao qual Moravia havia convidado-me. (* momento em que dou palminha no meu ombro - boa leitora, boa leitora.
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Sem que eu tivesse planejado, descobri surpresamente que esse livro é, sem muito exagero (avalio), um spin-off  - e/ou vice-versa - da Série Napolitana, escrita pela Elena Ferrante. Não faço parte do meio acadêmico, mas chutaria que essas obras renderiam bons trabalhos na área de literatura comparada.

Ambas histórias ocorrem em realidades de pobreza extrema da Itália, da qual emergem personagens femininas que nos narram, mediante retomada de memórias, suas histórias. Essas duas narradoras - Adriana e Lenù:
1. têm relações bastante complicadas com suas respectivas mães, surgindo, nos dois livros, ricas descrições desses intricados relacionamentos. O detalhe dissonante é que a mãe de Adriana parece ter tido sua moral ~ligeiramente~ mais afetada pela miséria do que a mãe de Lenù, - contudo creio que esse é um tema controverso, que aceita muitas relativizações; 
2. veem-se enoveladas em amizades sufocantes e multifacetadas com outras duas personagens femininas marcantes;
3. embora separadas temporalmente por cerca de cinquenta anos (espacialmente, temos Roma e Nápoles respectivamente), as duas vivem durante momentos de marcante tensão política no país - fascismo de Mussolini e o tenso período pós-segunda guerra mundial - que é inserido e discutido na narrativa por Moravia e Ferrante (ainda que mediante perspectivas e modos bem distintos);
4. compartilham a passagem de personagens masculinos tóxicos que causam estragos indeléveis nas vidas de ambas. Impressiona enormemente o dedo podre que as duas protagonistas têm para escolher parceiros masculinos;
5. tentam, como podem, sobreviver à miséria excruciante e à sociedade patriarcal opressora e violenta.

Será que a Ferrante leu essa obra de Moravia? Gostaria enormemente de saber. A despeito dessas semelhanças, é importante ressalvar que esses livros continuam muito diferentes.
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"(Adriana:) Pensava que o amor, e não a leitura, fosse a condição mais favorável à abertura da alma humana."
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Como gostei bastante da maneira com que Llosa encerra sua resenha (escrita em 1988), reproduzo as palavras dele aqui para também encerrar minha postagem. O peruano reflete sobre as razões que poderiam explicar por que um livro que hoje parece-nos tão "inofensivo" (palavra minha) foi encarado como um tabu escandaloso à época de sua publicação:

"Não deixa de ser surpreendente que A Romana tenha sido um livro polêmico que provocou tanto escândalo. O que nele escandalizou? Os episódios sexuais, com poucas exceções, são bastante inofensivos, e Adriana, embora exerça o meretrício, nutre uma moral severa e conformista. A única audácia do livro é a amarga amoralidade da mãe, pouco menos do que uma testemunha dos encontros amorosos da filha, mas, em todo o caso, é difícil acreditar que isso tenha conferido ao livro a fama de maldito.
Os leitores e livros devem ter mudado bastante nos últimos 40 anos, pois estou certo de que essa história que meus avós e minha mãe me proibiram de ler não embaraçaria nem a senhorita mais virtuosa. Há algo bom nessa mudança: os leitores podem, finalmente, ler A Romana com objetividade, sem os preconceitos de outros tempos."

Não é interessante que o tempo seja capaz de mudar a forma com que leitores percebem um livro? Essa possibilidade encanta-me com certeza.

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