28/08/2016

[Série Napolitana] Those Who Leave and Those Who Stay (L03) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein) (* Posts sobre:  Livro 01 - X,   Livro 02 - XX)



➻ Iniciando pela atualização do estado febril da presente leitora, tenho a reportar que minha temperatura arrefeceu consideravelmente para 37.0°C. o(´^`)o  Não, claro que isso não significa que a Ferrante deixou o caldo desandar - esse terceiro tomo é bom -, mas já há umas ~coisinhas~ que começaram a me incomodar, e, resumidamente, destacaria duas delas:

1. Esse tempo que tenho passado dentro da cabeça tresloucada da Lenù tem exaurido demais minhas energias, tratando-se, sem dúvidas, de uma narradora personagem que gradativamente testa a paciência do leitor, sendo que a minha segue sobrevivendo à provação por muito pouco. Nesse volume, as coisas pioraram intensamente quanto a essa questão, de modo que a empatia natural e fácil de que dispunha foi substituída aqui por uma recorrente irritação desconfortante. Saquei um brevíssimo comentário dela para ilustrar o quanto ela fez meus olhos revirarem:
"Hers (Lila, claro) was a life in motion, mine was stopped."
- For the love of sweet baby Jesus, Lenù! Já são uns trinta anos nas costas, não é isso? Acho que já está na hora de tentar amadurecer um pouquinho. Recapitulemos a vida das duas:

LENÙ: publica livro traduzido até fora da Itália; consegue fugir do bairro napolitano, indo morar em Florença; casa-se com um cara que, a despeito dos muitos defeitos, parece ser decente; tem duas filhas saudáveis; escreve e publica elogiados artigos sociopolíticos em jornais....
LILA: depois de comer o pão que o diabo amassou numa fábrica nojenta de embutidos, consegue investir-se como técnica de informática em um trabalho chato e enfadonho; volta a morar no mesmo bairro xexelento de Nápoles; mora com um homem que, embora também íntegro, ela não ama; tem um filho pentelho; é obrigada a sustentar agregados familiares e, eventualmente, até o ex-marido...
_________________
SALDO: e aí? Quem estaria com a vida estagnada e quem a teria em movimento? Esse tipo de comparação tem algum propósito lógico? Faz sentido?  - Ai, Lenù...

Nesse livro, ela me pareceu ainda mais insegura e perdida. E é a toda hora: "ai a Lila isso; ai a Lila aquilo; ai a Lila não sei o quê; ai a Lila não sei o quê lá; Lila, Lila, Lilaaaaaaa..." Cansa um bocadinho, enquanto leitora, encontrar-me presa nesse turbilhão, sabe? Destaco, porém, estar consciente de que isso tem um propósito na narrativa - comentarei adiante.

Ah, e o disco arranhado da Lenù também costuma empacar em outra música superiormente atormentadora: "ai o Nino isso; ai o Nino aquilo; ai o Nino não sei o quê; ai o Nino não sei o quê lá; Nino, Nino, Ninooooo...." ARGH!!


2. Essa.série.só.tem.personagem.FDP, percebo agora, e é mesmo impressionante. Nem as crianças escapam, pois adquiri uma birra perturbadora até contra o filho da Lila. Logicamente, eu sei que um bom livro ou uma boa leitura não se medem exclusivamente pela presença de personagens empáticas, mas, como mera leitora ordinária, preciso admitir que a tolerância presente para lidar com personagens desdenháveis sujeita-se a limites variáveis. De qualquer modo, isso não representa uma inconveniência grave, pois a recorrente torpeza manifestada nessas personagens, ordinariamente muito humana (pelo menos para a maioria delas), instiga-me muito mais uma curiosidade masoquista. Acrescentaria, ainda, que não deixa de surpreender-me a constatação de que, após mais de 1000 páginas na companhia desses indivíduos, eu não tenha me afeiçoado arrebatadoramente por nenhum deles. No máximo, de fato, sinto compaixão e enorme interesse; especialmente pela Lenù, claro.

Também há outras ~coisinhas~ extremamente interessantes que eu ainda não havia comentado em postagens anteriores e que surgiram em Those Who Leave and Those Who Stay, sobre as quais gostaria de comentar.


➻ A Ferrante, teorizo livremente, parece estar jogando uma partida de manipulação recreativa do leitor com essa obra. Durante vários momentos desse livro, eu tive a genuína sensação de que ou a autora tinha lido minhas postagens antecipadamente, ou ela estava respirando no meu cangote esperando o momento em que riria da minha cara. Nas duas postagens anteriores, eu deliberadamente não tratei do recorrente questionamento relacionado ao possível caráter autobiográfico/autoficcional dessa série simplesmente por achar o tema chato e a isca muito bonachona, mas agora ficou muito difícil evitar cair na tentação da interrogação: até que ponto a autora poderia estar contando/ficcionando a própria vida? Aliás, parando para refletir, esse quesito flerta com a insanidade quando lembro-me de que nem mesmo sei quem é Elena Ferrante, somente sei que ela faz-se presente nas suas páginas, frequentemente provocando-me a fazer aquela referida pergunta - a qual não gosto de fazer, destaco. Citando alguns elementos da narrativa relacionados a esse tema:

- Lenù, ou melhor, a escritora napolitana Elena Greco (pescou, pescou?) comenta sobre o embaraço causado pelas fotos dela que os jornais escolhiam para ilustrar as resenhas de seu livro. Pergunto à Ferrante: essa é também uma das razões que a impele ao anonimato?

- Somos constantemente lembrados de como os eventos da própria vida da Elena Greco refletem-se naquilo que ela escreve. Pergunto à Ferrante: você está fazendo/faz o mesmo? Seu método consiste em buscar inspiração deliberada na sua própria realidade?

Simultaneamente, porém, Lila manda esta:
"(...) the disgusting face of things alone was not enough for writing a novel: without imagination it would seem not a true face but a mask."
- Ao mesmo tempo, a idiota assunção feita por leitores (os personagens da realidade da série) e vizinhança de que Lenù confundiria-se indubitavelmente com a personagem de seu livro parece surgir como um alerta crítico aos leitores de Ferrante - "não façam o mesmo, vocês também."

- Durante uma sessão com leitores para promover o livro, Lenù recebe perguntas relacionadas ao "struggles of the female character to escape the environment where she was born" e, ao ler isso, eu pensei "caraca, eu, leitora da Ferrante, fui parar no livro dela?!! Afinal, eu também estou fazendo esse mesmo tipo de pergunta em relação à Série Napolitana; e se a pergunta cabe aos livros da Lenù e da Ferrante, então... seriam uma só?"

Inclusive, muitas críticas que o livro da Lenù recebe poderiam ter sido facilmente dirigidas, sem necessidade de grande adaptação, à Tetralogia Napolitana da Ferrante, como se a autora, através de sua ficção e personagem, estivesse antecipando-se engenhosamente a possíveis julgamentos. Esse terceiro livro contém até uma cena em que Lenù maldiz as capas feias do livro dela publicado na Alemanha, as quais trazem mulheres em vestidos pretos e roupas estendidas no varal. Ei, mas não é a Ferrante quem também tem livros com mulheres na capa fazendo "mulherzices", as quais são universalmente consideradas horrorosas?!

- E falando em sessão com leitores e resenhistas, Lenù igualmente compartilha o quanto sente-se desconfortável e insegura em relação a como comportar-se e responder em tais ocasiões, de maneira que, de novo, segue a pergunta para Ferrante: essa é também uma das razões que a impele ao anonimato?

- Considerando-se que julgo o narrador da Série Napolitana A grande genialidade da obra, como eu já havia destacado, imagine o susto que tomei quando me apareceu este diálogo entre o Nino e a Lenù a respeito do narrador do livro que ela escrevia:
"(...) But what I envy most is your ability as a narrator. You've written something hard to define, I don't know if it's as essay or a story. But it's extraordinary."
"It's that a flaw?"
"What?"
"That it's not classifiable."
"Of course not, that's one of it's merits."
Essa foi, pessoalmente, a cereja do bolo de toda essa paranoia especulativa sobre autoficção/autobiografia da obra da Ferrante. Esses tipos de jogos literários parecem estar na moda atualmente, não sei, só sei que não sou lá grande fã do gênero (seria gênero? categoria?), contudo, ainda assim, confesso estar sendo bastante divertido servir de fantoche para a autora italiana.


➻ Sobre a relação entre Lenù e Lila, só agora percebi algo que, de tão óbvio, acho que eu já deveria ter constatado desde o começo: o fenômeno do duplo/dopplegänger literário.
"And yet even when I lived in other cities and we almost never met, and she as usual didn't give me any news and I made an effort not to ask for it, her shadow goaded me, depressed me, filled me with pride, deflated me, giving me no rest. (...) I want her to erase, add, collaborate in our story (...)"
Notadamente (para mim) em Those Who Leave and Those Who Stay, a unidade indissociável - apesar da atual distância espacial - existente entre Lila e Lenù e as projeções e reflexos que as duas estabelecem entre si ficaram extremamente evidentes por conta da exposição recorrente na narrativa. A sensação que tive foi de que essas personagens surgem através de uma dinâmica Yin e Yang - forças opostas e complementares - ou de uma representação do Id e do Superego - Lila parece representar os aspectos reprimidos na personalidade de Lenù. Para uma análise aprofundada disso, eu precisaria de sólidos conhecimentos sobre teoria literária e psicanalítica que, infelizmente, não detenho, porém tentei pesquisar brevemente o assunto e, do que li, destaco alguns excertos:

- "As an imagined figure, a soul, a shadow, a ghost or a mirror reflection that exists in a dependent relation to the original, the double pursues the subject as his second self and makes him feel as himself and the other at the same time. While its imaginative power springs from its immateriality, from the fact that it is and has always been a phantasam, the psychological power of the double lies in its ambiguity, in the fact that it can stand for contrast or opposition, but likeness as well. It can be complementarity, as in the Platonic conception of twin souls which seek each other in order to make a whole out of their sundered halves. Sympathy between individuals, even human love, can also be seen as one aspect of the dialectic between 'I" and "non-I", the subject and his double, upon which the possibility of wholeness and integration within the self rests."

(na relação das duas, suponho que essa complementaridade seja mais marcante do que um antagonismo direto.)


(Para Lenù, a Lila parece-me, de fato, surgir marcadamente como meio de construção de identidade) (Segundo parêntese para comentar que nunca imaginei que citaria Bakhtin nesse blog. Onde pego minha carteirinha de impostora pseudointelectual?)

- "O fim usualmente envolve um confronto entre as duas personagens, que corresponde à personagem principal confrontando sua própria alma conflituosa."  

(Hum, teremos, portanto, o que eu chutei no post do segundo livro? → "meu saquinho de pipoca já está pronto para A CENA que prevejo acontecer entre Lenù e Lila, referente ao papo franco que terão para limpar essa merda esparramada, daquelas que dariam direito a legendas do tipo [xinga muito em italiano]."

Refletindo, percebi que Ferrante igualmente parece estabelecer, se não exatamente duplicidade literária, relações de paridades reflexas entre várias outras personagens. 

No Goodreads, li também um comentário que achei bem pertinente sobre a prosa da Ferrante nesses livros, o qual referia, parafraseando, que ela consegue o grande mérito de desenvolver complexas análises psicológicas de personagens, com monólogos introspectivos recorrentes, sem nenhum detrimento do plot narrativo. Concordei imensamente.

(- Ferrante, você está fazendo terapia com esses livros, é?)


➻ Ah, e o Pietro, arrancando palavras da minha boca a respeito da Lila e Lenù? Basicamente, é a Ferrante tirando sarro da minha cara de novo:
"I don't understand how your relationship could have lasted so long, obviously you've carefully hidden from each other anything that could rapture it. And he added: either I haven't understood anything about her (Lila) - and it's likely, I don't know her - or I haven't understood anything about you, and that is more upsetting."
Peguei-me até confabulando que aqueles leitores que preferem Lila à Lenù estariam conferindo predileção a uma construção (obra das palavras de Lenù) que não existiria nem mesmo na ficção que habita.


➻ Ainda existem várias outras temáticas abordadas pela autora nesse tomo - sexualidade feminina, experiências únicas e distintas de maternidade, presença da mulher no ambiente de trabalho (assédio sexual, diferenças salariais injustificadas), movimentos feministas, revolução dos anticoncepcionais orais, movimentos sindicais, confrontos e movimentos sociopolíticos -, portanto ainda haveria muito a ser discutido, contudo escolho encerrar a groselha nesse ponto.

Falando só sobre o final dramático deixado como gancho para o próximo volume: inicialmente eu fiquei irada e estupefata com o que Lenù foi capaz de fazer - <SPOILER> largar esposo e filhas para fugir, feito adolescente, com o paspalhão do Nino <SPOILER> -, entretanto logo me dei conta de que não havia outro jeito dela resolver seu conflito adolescente pertencente ao imaginado e idealizado, e não ao concreto e real. Sei que ela precisará efetivamente quebrar a cara com o Nino, para libertar-se da elaboração fantasiosa e emprisionadora que ela própria criara.
(olha, se as coisas derem certo com o Nino, ficarei super pasmada.)

P.S.: e o nordeste brasileiro aparecendo nas páginas da Ferrante através da fala de Pasquale?!
...
- Betty, segura aí o vinho, por favor. Depois de toda a paranoia autobiográfica/autoficcional, das personagens "adoráveis" e "bem resolvidas", e do final desse livro, eu também estou precisando.

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