30/09/2016

Bel-Ami - Guy de Maupassant X Jornalismo


(sobre o livro: info, sinopse, etc.)   (Editora Estação Liberdade. Tradução:  Leila de Aguiar Costa)

Eh bien, talvez a trama e temas principais dessa narrativa concentrem-se mesmo nas presepadas amorosas e jogos sexuais do paspalhão Georges Duroy, o anti-herói que ardilosamente (ainda que, sim, paspalho) garante sua escalada social valendo-se da moral flexível dos parisienses (mais algumas vítimas do sexo feminino largadas durante a ascensão), porém o que realmente me fascinou nessa leitura foi o retrato que Guy de Maupassant constrói do jornalismo parisiense do século XIX. A afirmativa "o jornalismo morreu" é tão replicada atualmente, que já parece ter virado um absoluto lugar-comum; contudo livros como Bel-Ami fazem-me enveredar pela seguinte divagação: se o jornalismo morreu de fato, quando é que isso teria acontecido exatamente, hein?

Em agosto de 2016, por exemplo, o programa americano Last Week Tonight (HBO) colocou este ótimo vídeo no You Tube, no qual o apresentador John Oliver discorre a respeito do temeroso declínio do jornalismo impresso:




O que pude perceber é que os problemas atuais apontados por esse vídeo já relacionam-se, de certa maneira, com o perfil que a narrativa de Maupassant traça do jornalismo de dois séculos atrás. É bem espantoso.

Organizando as características da "realidade jornalística" que encontrei nas páginas do autor francês, teríamos, em linhas gerais, o seguinte:

QUAL ERA A RELEVÂNCIA DOS JORNAIS?
Ao contrário do cenário atual exposto no vídeo do Oliver, é bem verdade que, naquela época, os parisienses pareciam dedicar-se com afinco à leitura dos jornais impressos. Em certa passagem, o narrador descreve a cena de jornais abertos e expostos em portas de vidros na frente das sedes dos grandes veículos de comunicação com até três (!) pessoas paradas diante deles, entretidas pela leitura. (p. 17)  Ah, e os jornais eram vendidos - exato, o pessoal pagava - por 03 Sous (se eu soubesse fazer a conversão, seria bem legal).

Maupassant cita nominalmente sete jornais diferentes em atividade - La Vie Française, Salut, La Planète, Le Figaro, Le Gil Blas, Le Gaulois, L'Évenement -, embora tenha sido engraçada a informação de que havia um jornalista que atuava como secretário de redação em onze jornais diferentes, simultaneamente – é, parece que esses profissionais dão duro há bastante tempo. O detalhe dessa empreitada louca fica por conta da seguinte assertiva: “sem modificar em nada sua maneira de ver e agir" (p. 124).  Por que adequar-se a linhas editoriais diferentes, correto? Será que havia diferença entre os jornais? Sigo em dúvida.

A sociedade parisiense, quando reunida em eventos, também mantinha o hábito de falar (ou fofocar, como queiram) sobre os acontecimentos comentados nos jornais, e o narrador faz uma ressalva interessante referente à maneira distinta com que as pessoas pertencentes ao meio jornalístico dedicavam-se a esse costume. Os envolvidos diretamente com jornalismo não demonstravam indignação ou surpresa em relação aos fatos noticiados, mas, sim, buscavam as secretas causas profundas com uma curiosidade profissional e uma indiferença absoluta pelo crime em si; procuravam explicar as origens das ações e os fenômenos que fizeram nascer a ação. (p. 32) Ou seja, já naquela época, nunca era apenas uma notícia: se estava lá no jornal e descrito de uma maneira peculiar, havia uma razão específica e, possivelmente, atendia a determinados interesses.

  QUEM ERAM OS DONOS DOS JORNAIS?
Bem, o dono (e diretor) do jornal que protagoniza a história, La Vie Française (LVF), chamava-se Walter, e a posição que o digníssimo ocupava na sociedade era, digamos, curiosa (p. 31):

-  ~Deputado~;
-  ~Financista~;
-  ~Homem de dinheiro e negócios~;
-  Judeu. 

Ah, então, manifestações de antissemitismo pareciam rolar um bocadinho soltas naquela época:
“- O patrão? Um verdadeiro judeu! E, você sabe, os judeus nunca mudam. Que raça! E contou três traços surpreendentes de avareza...” (p. 66)

Segundo o mesmo funcionário desse comentário, o Sr. Walter fundara o jornal para sustentar suas operações na Bolsa e suas empresas de toda espécie. O interesse do diretor era utilizar o jornal para fazer correr boatos, manipular o público e agir sobre a renda. (p. 124) Levar informação à sociedade? Não, parece que isso não estava no topo das prioridades - a menos que a informação em questão atendesse a conveniências imediatas, claro. - Ali, John Oliver, não tinha muito espaço para "heróis", não.
Os verdadeiros redatores do LVF eram uma meia dúzia de deputados interessados em todas as especulações que o diretor lançava ou apoiava (…) “o bando de Walter”. (p. 125)
 QUAIS ERAM OS TIPOS DE JORNALISTAS ATUANTES?
Identifiquei esta turminha:
   - Cronistas: (3 no LVF) espirituosos e com tino para a atualidade. Salário: 30.000 francos por ano para entregar 02 artigos semanais. Temas comuns das crônicas de atualidades: a decadência dos costumes, aviltamento dos caracteres, o enfraquecimento do patriotismo e a anemia da honra francesa. (p. 165)  A chatice é... ~crônica~? (tum-dum-tss!)
   - Escritores poetas: escreviam contos, recebendo 300 francos por cada texto entregue de, no      
     máximo, 200 linhas.
   - Redatores políticos (papel crucial para os donos dos jornais).
   - Jornalistas em início de carreira: 200 Francos fixos para visitas e diligências de averiguação
     diárias, com 2 sous por linha para échos ou artigos que porventura escrevessem.
   - Críticos de arte, pintura e teatro.
   - Jornalista criminalista.
   - Jornalista Hípico (!).
  - Jornalistas de coluna social (logicamente): tratavam de questões de moda, de vida elegante, de etiqueta, de savoir-vivre, e cometiam indiscrições sobre as grandes damas. (p. 126) As duas profissionais atuantes nessa área tinham nomes fascinantes - Domino Rose e Patte Blanche - sendo mencionado que elas eram representantes dos destroços da nobreza que os burgueses novos-ricos sempre recolhiam. (p. 134) Nobres encerrando a vida fazendo fofoca em jornal... Que coisa. Bom, apenas foram forçados a profissionalizar o que já faziam por lazer, suponho.

 COMO ERA O AMBIENTE NOS JORNAIS?
Há pouco tempo, rolou pela internet (não achei mais o link; mas existiu) uma planilha em que jornalistas, anonimamente, compartilhavam suas experiências de trabalho em grandes e famosos veículos de mídia, e um dos aspectos que eles às vezes descreviam relacionava-se ao ambiente e espaço físico ligeiramente deplorável. Pois bem, as descrições que Maupassant entrega relacionadas ao LVF – jornal importante, vejam bem - não destoam muito do observado naquela planilha: escadas luxuosas e sujas, sala de espera empoeirada e gasta, forrada com falsos veludos de um verde cor de urina cheios de mancha e rotos em alguns lugares, como se ratos os tivessem roído (p. 18), um odor estranho de mofo (p. 56), particular e inexprimível. Curiosamente, ainda na referida planilha dos jornalistas, houve um que divulgou isto sobre certa empresa: "Merda. Paga mal e banheiro fede amônia de 100 anos de mijo velho seco." Esse lance do cheirinho típico das redações parece ser histórico.

O Maupassant, com muito humor, igualmente não perdoa a artificialidade da pose e a aura de muita importância que o meio jornalístico concedia a si próprio. O narrador relata que havia toda uma preocupação em criar uma mise em scène perfeita para impressionar visitantes que habitualmente eram obrigados a esperar resignadamente pelo atendimento de um diretor de jornal ocupado em suposta reunião, mas que, por trás das portas da sala, ocupava-se mesmo era com uma partida de écarté durante horas. Os demais jornalistas da redação, por sua vez, poderiam ser encontrados jogando bilboquê nas mediações ou fumando com os pés sobre suas mesas, em cima de um artigo começado. (p. 54-56, 73-74) Era tudo bastante profissional evidentemente.

 QUE TIPO DE NOTÍCIAS ERAM PUBLICADAS?
O jornal protagonista da história navega, na verdade, sobre os fundos do Estado e sobre os bas-fonds da política (p. 125), e o assunto quente da época referia-se, sem dúvidas, ao lucrativo negócio das colônias francesas na África – Argélia, Marrocos, Tunísia. Essa era a grande mina de ouro (as colônias eram mera forma de fazer dinheiro fácil. “- A terra africana é uma lareira para a França, (...)"), da qual todos queriam filar um pedaço, e recursos jornalísticos poderiam ser usados como arma para garantir o sucesso dessa empreitada, como realmente acontece no livro.

<SPOILER> Sr. Walter, valendo-se de seu jornal para as manipulação sociopolíticas cabíveis, consegue influenciar a escolha de um amiguinho para o cargo de ministro das Relações Exteriores, o qual garantiria a ocorrência da expedição francesa ao Marrocos. Como segunda etapa desse plano, seu jornal publica notícias que negam a possibilidade de efetivação da expedição, de modo que o diretor e ministro cúmplice conseguem lucrar com a valorização de títulos de empréstimo do Marrocos, cujas dívidas seriam sabidamente (apenas por eles) garantidas pelo Estado francês após a expedição. Foi a perfeita comunhão entre política, jornalismo e especulação financeira. (~ p. 270) 

 COMO TORNAR-SE UM JORNALISTA NAQUELA ÉPOCA? 
Segundo Bel-Ami, para trabalhar como jornalista, não era preciso nenhum diploma de universidade ou bacharelado em letras; sendo suficiente apenas saber passar-se por entendido e não se deixar pegar em delito de flagrante ignorância, já que naquela sociedade todo mundo era burro como porta e estúpido como carpa. (p. 17) Nunca escreveu nada na vida? Ora, não tem problema, pois para tudo há um começo, o qual poderia efetivar-se pela realização de iniciais diligências, visitas e coletas de informações para os demais jornalistas. (p. 19) 

Aliás, também era possível recorrer à prática do ghost-writer que, embora ocorresse de fato, era perpetrada de forma velada no ambiente profissional – todos da redação tinham conhecimento, mas fingiam que não. Esse aspecto da narrativa é completamente fascinante, pois quem assume o papel de ghost-writer é, pasmem, uma mulher - inclusive, ela é a melhor personagem do livro. A cena em que o bocó do Duroy está sentado na cadeira, escrevendo obedientemente aquilo que a Sra. Forestier elegantemente o ditava -  de pé, fumando um cigarro e assoprando fios de fumaça, completamente segura quanto a suas palavras - ficará guardada com carinho na minha memória relacionada ao livro.

Cabe destacar, ainda, a possibilidade factível de requentar matérias antigas. Por aquelas bandas, a galera esperta não perdia tempo entrevistando as grandes figuras e redigindo um novo artigo; já que a técnica pragmática consistia em coletar algumas informações gerais com fontes secundárias, resgatar um velho texto já veiculado, mudar o nome de um aqui e o de um país acolá, acrescentar qualquer bobagem nova e voilà: um novíssimo artigo estava pronto para ser entregue à gráfica. (p. 68) E não era só isso! Não, havia também a operação fenomenal da visitação de redações dos jornais concorrentes para roubar dos colegas, só na lábia astuciosa, as informações que eles já tinham juntado. (p. 72) Moleza demais, gente.

Calma, não sejamos tão levianos, pois a profissão demandava, sim, algum tipo de talento especial. O jornalista necessitava, por exemplo, possuir contatos (o chefe de polícia poderia ser um bom começo) e, principalmente, saber tirar leite de pedra das pessoas. Era fundamental que o redator tivesse a manha de fazer abrir as portas que estivessem fechadas para ele

No geral, tudo bastante simples, não?  D'accord, mas cabe ressaltar que as coisas podiam ficar relativamente perigosas para os jornalistas durante o exercício da profissão. Os redatores levavam tão a sério a preservação de suas reputações profissionais, que qualquer desaforo, ainda que relacionado a simplórias notinhas de brigas na feira do bairro, era solucionado através do famigerado DUELO (!) com armas de fogo! (É o momento mais engraçado do livro.) O pessoal era meio esquentadinho. Será que ainda é assim?
...

E para espairecer depois de tanto estresse, uma passadinha no Folies Bergère! Salut!

Obs.: havia a possibilidade de um outro entretenimento de muito mais alto gabarito reservado aos sabidões de moral frouxa: <SPOILER> casar-se com a filha do diretor do jornal e ficar rico. Très bien, mon Bel Ami!

O Bar das Folies Bergère - Manet
(via)

23/09/2016

All Passion Spent - Vita Sackville-West

(* Sobre o livro: info, sinopse etc.)
Estou contente por finalmente poder alterar a classificação da Vita Sackville-West dentro do meu universo de referências literárias: além da categoria [aquela autora paisagista que trocara cartas amorosas com Virginia Woolf, servindo de inspiração para a obra Orlando], ela agora também pertence à de [autora cujo livro me fez verter uma lagriminha no canto do olho, enquanto eu carregava sacolas de supermercado no meio da rua*]. Sim, pois eis que eu estava caminhando satisfeita por guarnecer meu estimado estoque de açúcar contra a amargura da vida, quando subitamente a lembrança de Lady Slane - a protagonista de All Passion Spent - me invadiu a mente, provocando uma avalanche súbita de ternura melancólica que não fui capaz de conter. Assim mesmo, em público e "do nada", por conta de uma personagem ficcional. Especificando ainda mais a nova categoria pessoal ocupada pela britânica, adianto que achei o livro lindo, muito bem escrito - o discurso indireto livre da primeira parte, em especial, me surpreendeu -, marcado por uma honesta e tocante sensibilidade entremeada por sagaz comicidade. E como recorrente com boas leituras, logicamente saí dessa devaneando sobre algumas  ~questões~.
...

Quando Lady Slane nos é apresentada, ela tem 88 anos de idade, é mãe de seis filhos, já avó e bisavó, e vivencia o exato momento em que tornava-se a viúva do ilustríssimo e honorável  Mr. Henry Lyulph Holland, first Earl of Slane, antigo Vice-Rei da Índia e Primeiro Ministro da Inglaterra. Nos trechos iniciais durante o velório do pai, os filhos sessentões de Lady Slane repetem uma marcante expressão da qual não me esquecerei facilmente:
"Mother is wonderful."
Mesmo para aqueles que não leram o livro, suponho que seja possível captar que, muito além do sugerido conforto dos filhos ao perceberem a serenidade com que a mãe lidava com a morte de seu esposo, essa frase parece camuflar uma peculiar crítica - ainda que apenas inconsciente - dirigida à Lady Slane. Como compreender que uma mulher casada por tanto tempo, mera (ainda que vital) extensão de tão renomado inglês, pudesse continuar viva, exibindo tamanha placidez? Curiosamente, me fez lembrar do protagonista do livro de Camus: Meursault é julgado abertamente (dentre outras razões... spoilers etc) por não chorar desesperadamente durante o enterro da mãe, e Lady Slane, por sua vez, é veladamente (inconscientemente?) repreendida por não se descabelar em cima do caixão do marido. É, a facilidade com que as pessoas julgam aqueles que refutam as performances socialmente aceitas e impostas nunca deixa de me admirar. De qualquer maneira, o fato é que a "mamãe" estava mesmo ótima, na medida do possível, apesar da enorme perda dela, de sua família e de seu país.

As surpresas dos filhos não pararam nessa reação da mãe, pois enquanto eles debatiam a respeito de quem seria o afortunado que cuidaria da "mamãe", Lady Slane apresentou-lhes de pronto seu plano já plenamente definido: ela iria morar sozinha numa singela casa que visitara há 30 anos, no interior de Hampstead, com o propósito de levar uma vida em tudo oposta àquela a qual dedicara-se em razão do marido. Substituindo as solenidades, as artificialidades e a sociedade ambiciosa e performática, Lady Slane viveria modestamente em ritmo calmo, passivo e contemplativo. Inclusive, é a partir da decisão por essa mudança que nós, leitores, permanecemos mais próximos e íntimos de Lady Slane; ou seja, com o sepultamento de Mr. Holland, ela finalmente consegue fazer com que o narrador devolva-lhe a voz própria que havia sido anulada pela presença dominante do marido.

Ciente do pouco tempo de vida que ainda restava-lhe, um tempo ainda mais precioso por estar sendo retomado completamente após mais de 70 anos de casamento com um homem de relevante posição política, Lady Slane deliberadamente escolhe dedicar-se a uma contemplação reflexiva relacionada a sua jornada pregressa. Ela ressalva não tratar-se de uma empreitada melancólica, mas simplesmente de um luxo que iria conceder-se, mesmo porque ela não tinha mais nada (finalmente) para fazer.
"She could lie back against death and examine life."
Essa passagem já me fez embarcar no seguinte questionamento: será que quando idosos, naquela fase em que a morte apresenta-se como a visita palpavelmente iminente, a tentação de revisitar e avaliar toda nossa vida torna-se irresistível? Isso seria saudável? Valeria a pena? Compõe indelevelmente o fechamento do ciclo? Faço essas perguntas especialmente porque essa perspectiva me deixa muito desconfortável; digo, nesse ponto em que estou, tenho certeza de que não gostaria de brincar disso. Por conseguinte, fico ainda mais incomodada ao ponderar sobre as razões desse meu desconforto. Acho que sei qual é a resposta, e ela não me deixa exatamente feliz. Será que a idade permite o embarque nessas retrospectivas pessoais com mais serenidade? Por enquanto, não sei. Saberei? Bem, vamos acompanhar, não é mesmo?

Voltando às meditações de Lady Slane, gostaria de registrar alguns temas que ela aborda.

(1)
"And what, precisely, had been herself, she wondered - an old woman looking back on the girl she once had been? (...) that was she, Deborah Lee, not Deborah Holland, not Deborah Slane; (...) in her head, it was (...) neither love, nor romance, (...) If she dreamed, it was of no young Adam. (...) there are (...) fame and achievement and genius (...) they were thoughts of (...) escape and disguise; (...) freedom in some foreign city (...) The image of the girl faded, and in its place stood a slender boy, (...) a sexless creature. (...) Deborah, in short, at the age of seventeen, had determined to become a painter."
Durante o reencontro da idosa Lady Slane com a jovem Deborah Lee, descobrimos a extensão dos sonhos e desejos de nossa protagonista que acabaram sendo aniquilados pelo fato dela ser uma mulher vivendo em 1860, a quem o casamento aparecia - como de fato apareceu na figura de Mr. Holland - como o único destino a ser atingido. É intrigante encontrar Sackville-West abordando a temática do "novo nome" que Ferrante também discute na Série Napolitana: aqui sai Deborah Lee futura pintora e entra, em seu lugar, Lady Slane, "apenas" a esposa do respeitado Mr. Holland. É preciso ressaltar que Lady Slane faz questão de declarar seu amor pelo falecido marido, reforçando somente a noção tácita dessa troca rígida simbolizada pelo "novo sobrenome", não sendo permitido - pelo marido e pela sociedade - o convívio mútuo das duas identidades (a pintora livre e a esposa/mãe). Ademais, percebe-se que Sackville-West também retoma a essência de Orlando, de Virgínia Woolf, ao conferir a sua protagonista o anseio por tornar-se uma figura assexuada, livre de quaisquer restrições sociais para fazer o que bem desejasse.

De certo modo, acredito igualmente que a autora expande essa discussão além do âmbito, digamos, feminista, uma vez que, mediante ótimas personagens secundárias, ela introduz um subtexto que parece destacar a importância de respeitarmos e abraçarmos integralmente quem realmente somos, ainda que isso signifique desafiar convenções sociais sob o risco de sermos tachados de excêntricos ou aberrações (- ou de estrangeiros, não é, Meursault?). Isso aqueceu bastante meu coração.

(2) 
"But what was happiness? Had she been happy? (...) But one was happy at one moment, unhappy two minutes later, and neither for any good reason; so what did it mean? (...) Certainly, there had been moments of which one could say: Then, I was happy; and with greater certainty: Then, I was unhappy, (...) but whole regions had intervened, which were just existence. (...) No, that was not the question to ask her - not the question to ask anybody. Things were not so simple as all that."
E então? O que seria, afinal, esse troço que, em português, chamamos de Felicidade? "Ser feliz" e "ter levado uma vida feliz" significam o quê? Como gostei imensamente das ponderações de Lady Slane, colarei na resposta dela.

(3)
"(...) she wondered which wounds went the deeper: the jagged wounds of reality, or the profound invisible bruises of imagination?"
Essa pergunta é excelente, não? Ela surge quando Lady Slane descobre  o passado bastante sofrido e miserável de sua dama de companhia Genoux, fiel companheira desde o casamento, e, constrangida por só descobrir aqueles fatos tão tardiamente, Lady Slane passa a conceber a necessidade de relativizar a sua dor, uma vez que, comparada à de Genoux, pertence apenas ao campo da imaginação. O fato de nossa protagonista sofrer por aquilo que ela não pôde realizar na juventude - uma carreira como pintora, notadamente - torna menos válido seu padecimento, já que não é evento real e concreto? Tentando responder à Lady Slane, penso (hoje) que não há o que comparar, que não cabe afirmar que essa dor é mais profunda do que aquela; sendo preciso, isto sim, validar a dor das "cicatrizes invisíveis" - nem melhores, nem piores que as visíveis.

(4)
Para concluir os devaneios, obviamente que resta o formidável título desse livro:
All Passion Spent.
Ele foi o responsável por me atrair à obra e, ao longo da leitura, a abstração instigante foi adquirindo cada vez mais carga significativa concreta. Somente após a conclusão da leitura, descobri também que provieram de versos escritos por John Milton no séc. XVII, pertencentes aos Samson Agonistes (Sansão Agonista) e adicionados ao Paradise Regained (Paraíso Recuperado). O poeta inglês dramatiza a tragédia de Sansão do antigo testamento, e os versos finais são:

His servants he with new acquist
Of true experience from this great event
With peace and consolation hath dismissed,
And calm of mind, all passion spent.

Além da beleza poética desse verso final, gosto enormemente da sugestão de que é possível chegarmos ao fim com a mente calma e serena, desde que tenhamos sido capazes de atender por completo a nossas paixões em vida.

* = cabe admitir que choro muito facilmente por conta de livros. (╯︵╰,)

04/09/2016

Como me tornei freira / A costureira e o vento - César Aira

(sobre o livro: info, sinopse, etc.)          (Ed. Rocco - Coleção Otra Língua/Tradução: Angélica Freitas)
(vídeos usados no gif: 1, 2)
Essa obra aguardava resignadamente o momento de sua chamada para leitura, o qual revelava-se um tanto improvável em curto prazo, até que esta entrevista concedida por Aira ao El País propeliu-a para o topo da minha pilha de livros:

El autor argentino explica su método de escritura coincidiendo con la biblioteca de autor que le dedica su editorial española. Además, publica un ensayo sobre Marcel Duchamp y el arte contemporáneo


O trecho específico responsável pelo feito não foi essa assertiva do autor argentino que protagoniza, com controversa razão, a chamada do artigo (será que a premissa "literatura não serve para nada" ainda é clickbait eficaz?), pois há vários outros momentos mais interessantes nessa entrevista, sendo este o que me provocou precisamente:
Reconheço que certo afobamento possa ter comprometido minha interpretação dessa resposta, ainda assim não negarei que, logo que li isso aí, o diálogo interno e imediato travado entre meus dois neurônios de estimação foi o seguinte: 

- Caramba, o Aira foi lá e praticamente afirmou, sem constrangimento perceptível, que escreve muito bem e que, exatamente por isso, nunca vai ganhar um "merecido" (?) Nobel.
- Será que esse cara está com essa bola toda? 
- Não sei, mas suponho que ele deve ter bastante confiança em seu talento.
- Sim, e segurança quanto à qualidade do que escreve. 
- Quer averiguar?
- Quero. 

E pronto. Saquei então minha edição da coleção Otra Língua, publicada pela Rocco (tradução: Angélica Freitas), para sujeitá-lo ao Ultimate Extreme Literary Test®, by Daniela.
...

Os dois primeiros capítulos de Como me tornei freira (novela que inicia essa edição), quando submetidos ao referido teste patenteado, já foram capazes de induzir a minha dupla dinâmica neuronal a reagir em uníssono:
 - La puta madre que te parió*, esse mierda* escreve bem pra carajo*!

( * = singela homenagem ao autor e à tradutora; quem leu o livro entende. Palavrões em espanhol: insuperables.)

Essas mesmas primeiras páginas poderiam funcionar, presumo, quase como um conto, dado que sustentam-se brilhantemente sozinhas e, além de muito bem escritas, evidenciam de imediato o humor particularmente delicioso presente na prosa de Aira. (Prévias postagens devem ter deixado claro, mas reitero: valorizo enormemente autores que, até para escrever sobre uma hipotética morte da mãe, conseguiriam ser engraçados. Posiciono-me totalmente a favor da valorização do humor na literatura.) 

Também não precisei avançar muito na leitura, para que eu pudesse finalmente entender algo que sempre me intrigava a respeito dessa obra: por que uma menina tomando sorvete de morango figura na capa de diversas edições de um livro cujo título é  "Como me tornei freira"?! O que um sorvete de morango teria a ver com isso?!
Acontece, pude recapitular com a narrativa de Aira, que tudo na vida tem um começo, o qual pode concretizar-se por meio de experiências tão banais e improváveis quanto um mísero sorvete de morango. Aliás, do exato modo como ocorreu com a garota Aira de 06 anos, arriscaria dizer que, quanto mais trivial o acontecimento, maior a chance de que nossa jornada seja afetada por ele em 180°. Um pífio - e lazarento - sorvetinho... Puxa vida.
...

Pinço, agora, outro trecho daquela entrevista, pois ele mostrou-se pertinente durante minha experiência de leitura da obra:
Pois é, aí é que está. Enquanto eu permanecia no conforto da superfície do texto do argentino, as coisas eram realmente muito simples, e eu me divertia com uma história bem narrada e engraçada, eventualmente deparando-me com discretos elementos fantásticos bem excitantes. Quando eu tentava encarar as profundezas do texto, as quais seguiam sempre à vista, incitando provocativamente ao mergulho, é que a situação ficava um tanto mais delicada e desnorteante. Ingenuamente e com discreto embaraço, optei por não conformar-me apenas em apreender a inventiva forma do autor e ousei explorar esse conteúdo, saindo da empreitada com algumas impressões gerais - acertadas? equivocadas? (pelo menos eu tentei etc.) -, das quais uma destacara-se.

O narrador do texto parece assumir uma negativa inflexível e resoluta da realidade. Sempre que as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar para a construção de uma "realidade", o narrador faz questão de embaralhar tudo deliberadamente, de modo que o leitor encontra-se constantemente exposto a um jogo de construção e desconstrução do real. Todos os elementos da narrativa submetem-se a frequentes transmutações que não permitem que consigamos delinear exatamente qual seria a realidade dos fatos: ela simplesmente não existe. Suponho, inclusive, que eu possuiria o direito de questionar: afinal, essa(e?) garota(o?) tornou-se mesmo freira, ou o quê? Pergunto, mas admito que não importo-me com a resposta, tendo em vista que ela não faz, de fato, nenhuma diferença. (Não à toa, percebi, o autor cita Borges naquela entrevista, cuja presença acessória pode ser facilmente percebida nesse livro.)
"Só um louco poderia renunciar a um status quo imaginário. Só um louco poderia adotar o real da realidade."
Na segunda novela dessa edição - A Costureira e o Vento -, o autor compartilha sua instigante teoria da literatura, a qual enriquece enormemente esse contexto relacionado à realidade, uma vez que ela ampara-se na convicção de que o escritor deve almejar o esquecimento, em detrimento da memória, como instrumento de trabalho. Segundo essa tese, o esquecimento seria rico e livre, uma sensação pura baseada na dúvida sobre a existência do suposto real. Gostei imensamente dessa proposta,  a qual surgiu no meio das minhas leituras como algo bastante revigorante, interrompendo a supremacia da onipresente (?) memória. Embora o autor reconheça a dificuldade - quase uma impossibilidade - de livrar-se dessa memória que teima em contaminar tudo aquilo que escrevemos, ele opta por entregar-se à idealizada luta contra as lembranças e reminiscências que impedem o voo completamente livre pelos ventos da imaginação.  
( - Ah, Delia, qual foi a sensação, hein? Ser carregada pelo Ventarrón nos confins da Patagônia... Gostaria de viver essa aventura.)

Escolho juntar-me a Aira, confessando que meu espírito Blanche DuBois encontrou-se ligeiramente acariciado por esse livro.