04/09/2016

Como me tornei freira / A costureira e o vento - César Aira

(sobre o livro: info, sinopse, etc.)          (Ed. Rocco - Coleção Otra Língua/Tradução: Angélica Freitas)
(vídeos usados no gif: 1, 2)
Essa obra aguardava resignadamente o momento de sua chamada para leitura, o qual revelava-se um tanto improvável em curto prazo, até que esta entrevista concedida por Aira ao El País propeliu-a para o topo da minha pilha de livros:

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César Aira: “Leyendo novelas no se aprende nada”

El autor argentino explica su método de escritura coincidiendo con la biblioteca de autor que le dedica su editorial española. Además, publica un ensayo sobre Marcel Duchamp y el arte contemporáneo

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O trecho específico responsável pelo feito não foi essa assertiva do autor argentino que protagoniza, com controversa razão, a chamada do artigo (será que a premissa "literatura não serve para nada" ainda é clickbait eficaz?), pois há vários outros momentos mais interessantes nessa entrevista, sendo este o que me provocou precisamente:

Reconheço que certo afobamento possa ter comprometido minha interpretação dessa resposta, ainda assim não negarei que, logo que li isso aí, o diálogo interno e imediato travado entre meus dois neurônios de estimação foi o seguinte: 

- Caramba, o Aira foi lá e praticamente afirmou, sem constrangimento perceptível, que escreve muito bem e que, exatamente por isso, nunca vai ganhar um "merecido" (?) Nobel.
- Será que esse cara está com essa bola toda? 
- Não sei, mas suponho que ele deve ter bastante confiança em seu talento.
- Sim, e segurança quanto à qualidade do que escreve. 
- Quer averiguar?
- Quero. 

E pronto. Saquei então minha edição da coleção Otra Língua, publicada pela Rocco (tradução: Angélica Freitas), para sujeitá-lo ao Ultimate Extreme Literary Test®, by Daniela.
...

Os dois primeiros capítulos de Como me tornei freira (novela que inicia essa edição), quando submetidos ao referido teste patenteado, já foram capazes de induzir a minha dupla dinâmica neuronal a reagir em uníssono:
 - La puta madre que te parió*, esse mierda* escreve bem pra carajo*!

Essas mesmas primeiras páginas poderiam funcionar, presumo, quase como um conto, dado que sustentam-se brilhantemente sozinhas e, além de muito bem escritas, evidenciam de imediato o humor particularmente delicioso presente na prosa de Aira. (Prévias postagens devem ter deixado claro, mas reitero: valorizo enormemente autores que, até para escrever sobre uma hipotética morte da mãe, conseguiriam ser engraçados. Posiciono-me totalmente a favor da valorização do humor na literatura.) 

Também não precisei avançar muito na leitura, para que eu pudesse finalmente entender algo que sempre me intrigava a respeito dessa obra: por que uma menina tomando sorvete de morango figura na capa de diversas edições de um livro cujo título é  "Como me tornei freira"?! O que um sorvete de morango poderia ter a ver com isso?!


Acontece, pude recapitular com a narrativa de Aira, que tudo na vida tem um começo, o qual pode concretizar-se por meio de experiências tão banais e improváveis quanto um mísero sorvete de morango. Aliás, do exato modo como ocorreu com a garota Aira de 06 anos, arriscaria dizer que, quanto mais trivial o acontecimento, maior a chance de que nossa jornada seja afetada por ele em 180°. Um pífio - e lazarento - sorvetinho... Puxa vida.
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Pinço, agora, outro trecho daquela entrevista, pois ele mostrou-se pertinente durante minha experiência de leitura da obra:


Pois é, aí é que está. Enquanto eu permanecia no conforto da superfície do texto do argentino, as coisas eram realmente muito simples, e eu me divertia com uma história bem narrada e engraçada, eventualmente deparando-me com discretos elementos fantásticos bem excitantes. Quando eu tentava encarar as profundezas do texto, as quais seguiam sempre à vista, incitando provocativamente ao mergulho, é que a situação ficava um tanto mais delicada e desnorteante. Ingenuamente e com discreto embaraço, optei por não conformar-me apenas em apreender a inventiva forma do autor e ousei explorar esse conteúdo, saindo da empreitada com algumas impressões gerais - acertadas? equivocadas? (pelo menos eu tentei etc.) -, das quais uma destacara-se.

O narrador do texto parece assumir uma negativa inflexível e resoluta da realidade. Sempre que as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar para a construção de uma "realidade", o narrador faz questão de embaralhar tudo deliberadamente, de modo que o leitor encontra-se constantemente exposto a um jogo de construção e desconstrução do real. Todos os elementos da narrativa submetem-se a frequentes transmutações que não permitem que consigamos delinear exatamente qual seria a realidade dos fatos: ela simplesmente não existe. Suponho, inclusive, que eu possuiria o direito de questionar: afinal, essa(e?) garota(o?) tornou-se mesmo freira, ou o quê? Pergunto, mas admito que não importo-me com a resposta, tendo em vista que ela não faz, de fato, nenhuma diferença. (Não à toa, percebi, o autor cita Borges naquela entrevista, cuja presença acessória pode ser facilmente percebida nesse livro.)
"Só um louco poderia renunciar a um status quo imaginário. Só um louco poderia adotar o real da realidade."
Na segunda novela dessa edição - A Costureira e o Vento -, o autor compartilha sua instigante teoria da literatura, a qual enriquece enormemente esse contexto relacionado à realidade, uma vez que ela ampara-se na convicção de que o escritor deve almejar o esquecimento, em detrimento da memória, como instrumento de trabalho. Segundo essa tese, o esquecimento seria rico e livre, uma sensação pura baseada na dúvida sobre a existência do suposto real. Gostei imensamente dessa proposta,  a qual surgiu no meio das minhas leituras como algo bastante revigorante, interrompendo a supremacia da onipresente (?) memória. Embora o autor reconheça a dificuldade - quase uma impossibilidade - de livrar-se dessa memória que teima em contaminar tudo aquilo que escrevemos, ele opta por entregar-se à idealizada luta contra as lembranças e reminiscências que impedem o voo completamente livre pelos ventos da imaginação.  
( - Ah, Delia, qual foi a sensação, hein? Ser carregada pelo Ventarrón nos confins da Patagônia... Gostaria de viver essa aventura.)

Escolho juntar-me a Aira, confessando que meu espírito Blanche DuBois encontrou-se ligeiramente acariciado por esse livro.


* = singela homenagem ao autor e à tradutora; quem leu o livro entende. Palavrões em espanhol: insuperables.)

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