24/10/2016

O Fuzil de Caça - Yasushi Inoue

* (Link sobre o livro: info, sinopse etc.) (Editora Estação Liberdade / Tradução: Jefferson José Teixeira)


"Amar, ser amado: como são tristes nossos atos."
- Yasushi Inoue, O Fuzil de Caça.

Como mencionado na própria orelha dessa edição, a temática do livro - resumida de maneira rudimentar pela citação destacada acima - não é mesmo nenhuma grande novidade. Especificamente nessa obra de Inoue, ela é discutida a partir de uma relação extraconjugal que origina um complexo triângulo amoroso - também nada singular, correto? Inclusive, pude montar com facilidade uma breve playlist de músicos que já cantaram lindamente a respeito dessa fatídica encruzilhada humana:



"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"



I used to wander all up and down
All up and down
Waiting for someone to love
A long time

A young man is allowed to yearn
But it took me so long to learn
That I needed not so much to be loved as to love





"To love - and be loved
That's what life's - all about
Keeps the stars - coming out
What makes a sad heart sing - the birds take wing"



"A girl needs to love and be loved"


"Llorare, al realizarse, mis sueños, pues, serán mis lagrimas, 
de felicidad, de amor, 
Siempre sola, presintiendo, que se acerca, invisible como el viento 
El amor, el amor, cuantos años van que se ha escondido así 
Y yo quiero amar, y ser amada"

Só que, como igualmente referido pela orelha da edição, Yasushi Inoue parece conseguir, sim, atribuir originalidade a essa premissa através de uma forma e estética instigantes e engenhosas. A narrativa desenvolve-se mediante cartas redigidas por diferentes remetentes e que, fortuitamente, caem nas mãos de um narrador personagem que somente revela-se no preâmbulo e epílogo. Além disso, a trama de O Fuzil de Caça é capaz de intrincar de modo interessante esse mote já tão familiar.

Conforme os títulos das canções selecionadas sugerem, a conjunção usualmente preferida para construir a almejada união entre as possibilidades "amar"/"ser amado" é a "e". Contudo, suponho que esta pergunta seja válida: quantos de nós conseguem conciliar simultaneamente, na figura de uma mesma pessoa, essas duas perspectivas? Não seria mais realista e (possivelmente) confortante, no momento dessa confabulação, trocar aquele "e" pela conjunção "ou"? Amar "ou" ser amado? A citação do livro, não à toa, abriu mão inclusive de conjunção, preferindo uma vírgula. Ardiloso? Talvez seja, mas alerto que as reflexões propiciadas pelo livro prosseguem além desse ponto. Seria possível, ou até justo, contentar-se com uma das duas opções? Resgatando a música do Nat King Cole, parafraseando-a: aqueles que apenas amaram e aqueles que apenas foram amados aprenderam também algo maravilhoso ou frustraram-se ignorantes no meio do caminho? Trazendo, agora, essa discussão para um aspecto pessoal: encontrando-se na situação de poder escolher apenas uma dessas situações, você usufruiria do direito de escolha? Ficaria com qual? Preferiria abdicar das opções, caso não possam vir juntas no mesmo pacote? E aí?  (Admito que esse parágrafo exibiu uma sequência exagerada de pontos de interrogação, mas trata-se de um fenômeno corriqueiro. De boas leituras, costumo sair com várias perguntas cujas respostas não me vêm facilmente. Sendo assim, em vez de bater minha cabeça contra a parede, escolho jogar as inquirições no blog. ¯\_(ツ)_/¯)

A natureza japonesa, evidenciada aqui especialmente por montanhas, neve e mar, tem presença marcante no livro, interagindo com os sentimentos das personagens de modo semelhante ao que observei durante a leitura do Kawabata, aliás. A influência desse meio parece impor uma melancolia, solidão e tristeza mordazes, que contaminam até mesmo o leitor. No momento em que contemplei, no meio da leitura, o ambiente contrastante que me rodeava (quente, seco, árvores retorcidas, planície a perder de vista), veio-me subitamente a imagem contraposta da natureza do oeste americano no livro O Meridiano de Sangue, do Cormac McCarthy. Ambas as naturezas aparecem nas páginas desses dois autores de forma bela e poética, mas há diferenças pronunciáveis entre elas. Na obra do McCarthy, a natureza de tonalidade vermelha e quente é agente intermediária de uma violência notadamente rude, explícita e enérgica. Na obra do Inoue, por sua vez, a natureza reveste-se de uma tonalidade branca/azulada e fria, promovendo uma investida mais sutil sobre as personagens, confundindo-se com o afago de uma companheira que compartilha de seus descontentamentos. São naturezas opostas do ponto de vista geográfico e, percebo agora, literário.
"(...) A natureza ao meu redor se tinge subitamente com cores da tristeza uma ou duas vezes ao dia (...)" 

14/10/2016

Vida e Proezas de Aléxis Zorbás - Nikos Kazantzákis

(Sobre o livro: info, sinopse etc.)  (Editora Grua; tradução: Marisa R. Donatiello e Silvia Ricardino)


◖(˘⌣˘)◗ ♫  Post com trilha sonora. Aperte o play: → 
...

Senhores membros do júri leitor, a seguir, concederemos espaço para as alegações finais redigidas, respectivamente, pela acusação e defesa do livro Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, escrito pelo autor grego Nikos Kazantzákis em 1946.

ACUSAÇÃO:

Senhores jurados leitores, não se deixem iludir pelas belas imagens e musiquinha da adaptação cinematográfica desta obra que foram exibidas como prova pela defesa. Por trás do cenário paradisíaco de Creta, das notas do santir e das singelas frases eventualmente proferidas pelo protagonista Zorbás, escondem-se significativos problemas dessa narrativa que merecem suas atenções críticas, pois são graves o bastante a ponto de estragarem substancial e categoricamente uma experiência de leitura que, de outro modo, poderia ser prazerosa.

Comecemos pela premissa: jovem intelectual de 35 anos, pessoa dos livros pouco experiente na vida (alter ego do Sr. Kazantzákis), vê-se atormentado por uma crise existencial sem saída evidente, até que encontra na figura de uma pessoa humilde - Zorbás, 65 anos -, dotada de inspiradora sabedoria acumulada pela rica experiência prática de vida, as respostas acalentadoras para suas angústias. Senhores jurados, sejam honestos e reflitam a respeito de quantas histórias desse tipo já cruzaram suas vidas como leitores ou mesmo como espectadores de TV e cinema. Francamente, senhores, essa trama já está mais do que manjada. Neste ano mesmo, no presente tribunal, nos dedicamos ao julgamento da obra do Sr. Tolstói que, com as personagens de Pierre e Karatáiev, explora essa exata premissa. E em 1865! 

Quanto aos ensinamentos de Zorbás, tão enaltecidos por sua suposta sabedoria grandiosa e esplêndida, não consigo identificar elementos que permitam comprovar tais alegações. Se considerarmos a elevada frequência com que o discurso desse protagonista flerta intimamente com a pieguice de livros ruins de autoajuda e, principalmente, que é possível resumi-lo plenamente por meio da expressão em latim Carpe Diem – entre nós desde antes de Cristo, senhores! -, como admitir que essa obra seja digna de seus preciosos tempos para leitura? Parece-me inconcebível.

Para finalizar, solicito máxima atenção para o que abordarei agora, pois trata-se da questão mais delicada e problemática desse livro. Em seu palavreado, o protagonista Zorbás manifesta, de forma reiterada, ideias explicitamente machistas e misóginas. Em 1946, é possível que a sociedade não tenha repudiado o tratamento reservado às mulheres por esse livro, contudo, setenta anos depois e em pleno século XXI, acredito que isso não possa mais ser admitido com tamanha benevolência. Segundo o tom da narrativa, prezado júri, - tomando a liberdade de parafraseá-la -, a mulher seria uma vaca vagabunda colocada no mundo pelo Diabo - e Deus! - para atormentar a paz dos homens de natureza elevada, os quais assumem a verdadeira representação da experiência humana na Terra. Mulheres seriam, ainda segundo a fala de Zorbás, umas miseráveis dignas de pena devido às suas supostas aspirações chinfrins e frívolas por um casamento, o qual só serve para aniquilar o homem. Simultaneamente, seriam vis e ambiciosas, uma vez que abririam as pernas para o mero chacoalhar da bolsinha de moedas. O destino fatídico e extremamente violento das duas personagens femininas secundárias – Madame Hortense e a Viúva - , ainda pior, parece apenas corroborar tais opiniões do protagonista. E toda a intelectualidade letrada do narrador personagem de nada serve para contradizer ou mesmo relativizar o discurso de Zorbás, uma vez que esse sujeito escolhe o silêncio e a mera observação. As passagens dessa natureza são inúmeras, prezado júri leitor, e apresento somente algumas como evidência:
"- Com os chifres do diabo vou fazer a mulher." - "Ele fez e nos danamos, Aléxis. Onde quer que você toque a mulher, estará tocando no chifre do diabo. Cuidado, meu filho!" 

"(...) aquela fogosa é como uma potranca: relincha quando vê um homem."
 

"(...) minha mulher sempre foi boa, obediente, pariu filhos homens e jamais levantou os olhos para me olhar na cara; (...)"
 

"Deixe as mulheres gritarem, são mulheres, não têm cérebro."
 

"Não veem nada, as vadias, só a mão que espalha o dinheiro."
 

"(...) a mulher não quer ser livre; a mulher é um ser humano, afinal? (...) Ela também é um ser humano, tanto quanto nós - e pior! No momento em que vê sua carteira, ela fica tonta, gruda em você, perde a liberdade e fica feliz com isso, porque por trás brilha sua carteira, sabe?"
Como se isso não bastasse, há ainda o tratamento grosseiro e aviltante concedido à população cretense, a qual surge nessas páginas como animais desprovidos de qualquer sentimento, moral ou ética.

Enfim, as evidências contra esse livro são diversas e consistentes, e tenho plena confiança de que a justa análise pelos senhores resultará em uma conclusão que não discordará de meu posicionamento. Obrigada.


 DEFESA:

Senhores jurados leitores, parece-me que a acusação chupou muito limão antes de comparecer ao presente julgamento. Estou realmente perplexa. Pois sabem o que a recomendaria? Justamente a leitura de Vida e Proezas de Aléxis Zorbás. Não a leitura superficial aparentemente já concedida pela acusação, mas uma leitura permitindo-se imergir no verdadeiro espírito da obra e da alma de Zorbás.

Inicialmente, o desdém concedido pela acusação à ambientação da história na encantadora e paradisíaca ilha de Creta é incompreensível. Que tipo de azedume, senhores, resistiria ao mar de Creta; à areia fina com conchas e loendros floridos; à maresia, ao ar com cheiro de bagaço das caldeiras de aguardente; às figueiras, tamarindeiros, oliveiras, alfarrobeiras, limoeiros e laranjeiras, ao sol e à lua refletidos pelas ondas do oceano, à aldeia com suas pequenas casas caiadas e com solários, como crânios esbranquiçados enterrados na terra? Não duvidem, porque é exatamente para esse lugar que acabo de descrever, cujas imagens exibo em seguida, que o autor grego os leva com a leitura desse livro. E sem que tenham de mexer um único fio de cabelo para isso! Não parece-lhes esplêndido?

(fotos via: 12)
Os leitores também não passam fome durante a viagem, pois a narrativa serve um farto e delicioso banquete mediterrâneo preparado por Zorbás; repleto de vinhos, queijos, azeitonas, romãs, pães, cebolas, queijos, figos secos, amêndoas, peixes... E todas essas delícias ainda são embaladas pelas harmoniosas e tocantes notas do santir de Zorbás – desde que ele esteja com a boa disposição que o instrumento exige, é verdade; pois a arte requer a plena dedicação do espírito. Não, senhores, a atitude da acusação em fazê-los desconsiderar tamanhos prazeres é inadmissível.

A imprudência da acusação em comparar aquilo que a narrativa pode nos ensinar – ou ajudar a refletir - a um mero livro ruim de autoajuda é igualmente bastante exagerada e equivocada. Observem esta imagem e texto, por favor:

A Mão de Deus - Rodin
          - O que está pensando?
          - Se fosse possível escapar!
          - E ir para onde? A mão de Deus está em toda a parte. Não há salvação. Lamenta isso?
          - Não. É possível que o amor seja a mais intensa alegria sobre a terra. É possível. Mas agora                     que estou vendo esta mão, eu gostaria de escapar.
          - Prefere a liberdade?
          - Sim.
          - E se só formos livres obedecendo à mão? E se a palavra "Deus" não tiver o sentido         
          descuidado que a multidão lhe dá?
          - Não entendo. - disse ela e afastou-se, assustada.

Os senhores avaliam que conseguiriam encontrar a formidável escultura de Rodin – A Mão de Deus – associada a esse diálogo em um livro qualquer de autoajuda? Eu presumo que não. Ademais, a redução das lições de Zorbás ao simples Carpe Diem apenas comprova a superficialidade da leitura realizada pela acusação. Nosso protagonista é capaz de demonstrar, por simples, mas astuciosos, atos e colóquios, 1. POR QUE o famigerado Carpe Diem é tão importante, não devendo ser esquecido jamais; e, ainda, 2. COMO colocá-lo em prática. Costumeiramente, inclusive, não são as coisas mais simples que nos impõem as maiores dificuldades para aprendizado?

Além disso, a discussão proposta pela obra não restringe-se apenas àquela frase em latim, uma vez que aborda conceitos importantes e complexos como a liberdade, a morte, a religiosidade e, amplamente, nossa própria existência. Ao contrário do que seria mais fácil supor, o texto de Kazantzákis refuta admiravelmente a noção de que as religiões são o caminho impreterível para conquistarmos a felicidade e a resposta para nossas angústias existenciais. Duvido mais uma vez, senhores membros do júri, que isso seja o tipo de coisa facilmente encontrada em um livro qualquer de autoajuda. Pelo menos, não com a sensibilidade própria da prosa de Kazantzákis.

Quanto às acusações de que o texto é machista e misógino, esta defesa não ousará negá-las de maneira irresponsável, tendo em vista que as evidências são, de fato, bastante claras. Contudo acreditamos que isso não seja razão para desqualificar completamente o valor dessa grande obra. Mediante arrazoada contextualização, a narrativa viabiliza um essencial debate e reflexão a respeito de como a mulher já foi e continua sendo tratada em nossa sociedade. Melhor do que ignorar um problema, fingindo que ele não existe, é encará-lo com a pertinente responsabilidade.

Por todo o exposto, estou convicta de que os senhores membros do júri chegarão a um entendimento concordante com nosso ponto de vista. Obrigada.


VEREDITO:

...
P.S.: Mas tenho certeza de uma coisa: adoro a ideia de poder dançar meus pensamentos desesperados. Como também já disse Thom Yorke ():

This dance 
Is like a weapon 
Of self-defense 
Against the present 
Present tense
(..)
As my world
Comes crashing down
I'll be dancing
Freaking out
Deaf, dumb, and blind

- Thom Yorke, The Present Tense.

Dança comigo? ♫͙◟̊₍ꃓ₎◞◟₍ꃔ₎◞̊♫͙

06/10/2016

[Série Napolitana] The Story of the Lost Child (L04) - Elena Ferrante

(Sobre o livro: info, sinopse, etc. / Tradução para inglês: Ann Goldstein) 
(* Posts anteriores:  Livro 01 - x,   Livro 02 - xx, Livro 03 - xxx)


 ➻ E para temperatura final: 36.8°C. Concluído o quarto volume, sinto-me curada da epidêmica Ferrante Fever, embora eu não tenha adquirido imunidade permanente. A leitura da série foi super prazerosa, especialmente a dos dois primeiros excelentes volumes, e foi legal poder compartilhar “em tempo real” impressões com outros leitores (como leio poucos contemporâneos e lançamentos, raramente consigo fazer isso), maããas agora o esquema é o seguinte: Lenù e Lila (e Ferrante por um tempinho, pelo menos) seguem por ali, enquanto eu sigo por aqui. Ok? Ok.

E como organizar estas impressões finais? Se eu quisesse incluir aqui absolutamente tudo, seria bastante trabalhoso, pois o tantão de coisas que a Ferrante inseriu nesse tomo de quase 500 páginas dificulta a vida desta opinadora de internet. Bom, continuarei apenas com as ~coisinhas~ que mais me marcaram ou tocaram e, tratando-se do fechamento de um ciclo, acho pertinente resgatar alguns registros anteriores postados no blog.


➻  Para a principal pergunta que me consumiu desde as primeiras páginas de The Brilliant Friend /A Amiga Genial – “Por que Lenù decide escrever esses livros que estou prestes a ler?” -, a narradora personagem acabou concedendo-me aqui uma resposta extremamente generosa e direta (- Obrigada, Lenù!):
“What is the point of all these pages, then? I intended to capture her, to have her beside me again, and I will die without knowing if I succeeded.”
Coincidentemente emendei a leitura de outros dois livros (ainda sem post no blog) que também exploram centralmente esse instigante ímpeto humano de lutar pela preservação de certa memória relacionada a uma(s) pessoa(s) ou a um período específico por meio da escrita, ou seja, imprimindo a estimada lembrança em palavras que possam resistir ao tempo e, assim, preservar na eternidade uma afeição que não mais pertence ao presente. Ainda que ilusório (seria? não sei. penso que não?), não deixa de ser belo e poético.

Ainda sobre essa resposta direta que recebi da Lenù, vale mais uma vez destacar a marcante sensação que tive, durante toda a série, de que a autora constantemente antecipa-se de forma certeira às minhas reações como leitora. Por conta disso, fico caraminholando: Ferrante é muito boa ou eu sou apenas muito previsível? Chuto que as duas hipóteses sejam pertinentes. É tão espantoso, que a autora até mesmo rebateu explicitamente (com a fala da Lenù) minha “reclamação” (aspas por minha conta; já me protegendo) relacionada às personagens FDP e pouco empáticas da tetralogia (post sobre o L03). Expie só a direta que ela me mandou:
“Only in bad novels people always think the right thing, always say the right thing, every effect has its cause, there are the likable ones and the unlikable, the good and the bad, everything in the end consoles you.”
Para defender-me, cara Ferrante (e Lenù), afirmo que minha ressalva é que as coisas positivas que também existem nas personagens desses livros não foram suficientes para devolver-lhes a empatia plena aos meus olhos. Desculpe. Além do mais, ainda que eu não tenha me afeiçoado intensamente a nenhuma delas, isso não implicou na carimbada de “livro ruim” por minha parte. Em vez disso, usei na realidade o carimbo oposto.

Eu também já havia confidenciado que houvera momentos em que senti que eu tinha mergulhado para dentro das páginas da Ferrante e confirmo uma intensificação desse sentimento por conta de muitas falas do Pietro nesse quarto tomo. Reconheci nessa personagem uma espécie de projeção literária pessoal nas páginas napolitanas. Ocorrem, de fato, inúmeras passagens em que ele, de novo, fala exatamente aquilo que passava-se pela minha cabeça. É bem assustador. O que isso significa, hein? Ou ainda: o que isso revela sobre mim? Hummm... Foi uma experiência peculiar.

Por outro lado, algo relativamente frustrante sobre a narrativa é a facilidade com que muitas vezes consegui enxergar suas engrenagens girando e antever o produto final que eu receberia.

Exemplo 1: Ah, então o Nino revela para Lenù que não tinha enviado para publicação o artigo dela sobre o confronto com a professora de religião? Ué, mas alguém não tinha percebido isso ainda lá no primeiro livro?! Confesso que errei apenas porque supus que ele tivesse publicado assumindo, ele próprio, a autoria.

Exemplo 2: Ah, então aquele mesmo livro que a Adele e Lila disseram que era horrível foi publicado com sucesso posteriormente, sendo a salvação da Lenù? Alguém não tinha adivinhado que isso aconteceria?!

Exemplo 3: Ah, então a Lila achou que tinham raptado Tina por tê-la confundido com a filha de Lenù (real alvo almejado) em decorrência da foto equivocada na revista? Alguém não tinha pensado nisso?! Dava até para antecipar este cálculo: título do livro + foto com a criança errada na revista = merda.

Quer dizer, ao mesmo tempo que a autora consegue me desvendar antecipadamente como leitora, ela parece subestimar-me de forma um tantinho humilhante.


 Volto agora ao comentário final que fiz no post do L03. Bem, eu havia afirmado que compreendia, sem julgamentos, a escolha de Lenù por correr atrás do paspalhão Nino (“The honorable/O honorável”?! Sério?!), uma espécie de George Durois napolitano, entretanto confesso que falhei em prever que a desconstrução daquilo que ela imaginara e idealizara transcorreria mediante proporções tão categóricas e monumentais. Como se não bastasse submeter Lenù a viver como a amante oficial (pelo amor de deus), o sujeito ainda transa dentro de casa com a babá?! Sigo, até agora, engolindo seco por conta do asco.

Simultaneamente, considero formidáveis os momentos em que Lenù, tremendamente honesta consigo e com o leitor, divide sua insegurança e desconforto diante de tantas concessões que fazia àquele homem, as quais eram exigidas, por extensão, até das próprias filhas. A personagem assume que estava comportando-se como uma idiota e que, ao mesmo tempo, não sentia-se capaz de agir de modo diferente. Lenù questiona até mesmo se seria uma escritora farsante ou, repetindo o título do livro da Roxane Gay, uma má feminista, tendo em vista que ela parecia permitir que um homem a definisse - Nino. Aprecio demais essa sinceridade que desarma a pronta condenação do leitor e que revela ainda como o discurso feminista pode conflitar com sentimentos práticos e reais. Trata-se de um choque que parece eliminar o caráter libertador da fala feminista, tornando-a perversamente também em algo que constringe e julga o comportamento da mulher.

Ideia correlata, de certo modo, surge igualmente quando a narrativa nos impõe esta pergunta: é possível à mulher conseguir tudo; digo, lograr ser concomitantemente a “free and educated woman (…), the woman-mother (…), the woman-lover, the furious whore, (…)”? É uma meta bastante difícil de ser conquistada na prática, especialmente quando apenas a mulher, e raramente o homem (ele não costuma abrir mão de nenhum privilégio), submete-se às regras capazes de garantir o possível sucesso dessa empreitada.
" 'Think about it. A woman separated, with two children and your ambitions, has to take account of reality and decide what she can give up and what she can't.'
Everything in that sentence bothered me (Lenú)
."

➻  E por falar em maternidade: que experiência mais louca ela parece ser, correto? Não sou categórica com uma afirmativa simplesmente porque não a vivi. Por meio dessa história, Ferrante desconstrói muitas preconcepções que tendem a divinizar de forma simplória – e vil, acredito - algo tão complexo como a maternidade. Vários aspectos são abordados pela narrativa: 1. a ruptura simbolizada pelo parto, 2. a culpa e o orgulho maternos, 3. as comparações com outras mães, 4. as expectativas pessoais maternas transferidas para a prole, 5. filhas percebidas como extensão da mãe (sobre isso: a pulseira da mãe de Lenù revelou-se um símbolo bastante interessante, assumindo praticamente a imagem da passagem de um bastão), 6. filhos como reflexo próprio, 7. a dificuldade em amar os “problemáticos” (se ele é problemático, eu também sou?), 8. a contínua evolução que caracteriza a relação entre mães e filhas (não seria uma dinâmica estática), 9. a dificuldade em admitir para si mesma (e fazer as pazes consigo) de que, sim, às vezes você só quer saber do seu amante e danem-se as filhas, 10. os sentimentos contraditórios em relação aos filhos... Pessoal da psicologia e psicanálise deve se deliciar com essa leitura.

Parando para pensar, talvez a maternidade tenha sido até um dos grandes elos constantes entre Lenù e Lila, consolidando-se desde o início da amizade mediante sua representação pelas bonecas com as quais elas brincavam quando crianças.


 Nesse momento de fim de série, fico extremamente satisfeita com a minha prudência, ainda no post do primeiro livro, de ter reforçado que eu identificava-me com a Lenù “do primeiro livro”. Conforme presumi, a evolução dessa personagem ao longo da narrativa a distanciou progressivamente de qualquer sentimento particular de identificação. Sem dúvidas, nossa narradora não parece disposta a tratar sua imagem com muita compaixão, de modo que minha empatia por ela degringolou em ritmo alucinante ao longo da leitura. A cada página, as qualidades de Lenù tornavam-se mais e mais invisíveis, e, por consequência, eu passava a reparar apenas no egoísmo, na vaidade, no egocentrismo, na obsessão e nas inseguranças daquela pessoa que, em páginas iniciais, havia despertado-me tanta afinidade.

Nas postagens anteriores, comentei bastante sobre a escassa confiança despertada pela narradora, porém é preciso dar o braço a torcer e admitir que, a medida que as protagonistas separam-se espacialmente para seguir suas vidas como adultas, a presença de Lila desaparece lenta e gradativamente da narrativa, especialmente porque Lila evolui fechando-se cada vez mais dentro de si, revelando quase nada à amiga. Lenù não atreve-se muito a enveredar pelo exercício da imaginação para nos falsear uma realidade. A narradora escolhe manter-nos presos dentro de sua mente claustrofóbica, concedendo-nos apenas suas neuróticas elucubrações.
“But it was a voice invented by ill feeling; what she really thought of my behavior as a mother I don't know. Only she can say if, in fact, she has managed to insert herself into this extremely long chain of words to modify my text, to purposely supply the missing links, to unhook others without letting it show, to say of me more than I want, more than I'm able to say. I wish for this intrusion, I've hoped for it ever since I began to write our story, but I have to get to the end (...)”
Creio que é pertinente retomar este comentário que fiz na postagem do L03: "... aqueles leitores que preferem Lila à Lenù estariam conferindo predileção a uma construção (obra das palavras de Lenù) que não existiria nem mesmo na ficção que habita."

Pois muito bem, qual não foi minha surpresa ao ler Lenù afirmar isto no epílogo de The story of the lost child: "Lila is not in these words. There is only what I've been able to put down.” Eu falei, não falei? A impressão da construção de um cobiçado mito em torno da Lila, por parte da Lenù, foi solidificando-se progressivamente no meu entendimento a respeito da relação entre as duas amigas. Em uma dessas felizes coincidências que ocorrem com uma internauta, li recentemente um comentário de René Girard sobre Kierkegaard (entrevista para a Revista CULT - link: x ) que acredito esclarecer demais a relação das amigas napolitanas:

"Kierkegaard constatou, em sua análise dos três estágios do ser, a presença de um homem que se escora no outro. Possuindo um vazio existencial aterrador, ele procura na observação do outro, do que o outro possui, do que o outro aparenta, uma forma de saber quem é e como sentir-se pleno. Portanto, para ser ele mesmo, este homem necessita tomar conhecimento do outro, como no mecanismo do desejo mimético, onde este desejo somente se faz possível pela intermediação do que é e deseja um outro."
- René Girard.

(René Girard e Kierkegaard! Putz, estou fazendo muito jus à minha carteirinha de impostora pseudointelectual.)


 Uma outra temática que permeia toda a série (já citada em post anterior) e que torna-se cada vez mais intensa é a relacionada a nossas origens. No contexto do livro, pareceu-me que Ferrante adota um conceito amplo de origem que inclui não apenas o meio de onde viemos e somos criados, mas também aquele início imediato e direto representado pelos nossos pais (até nomes próprios são repetidos, demarcando o vínculo desde o nascimento e dificultando o desenlace). É impressionante, por exemplo, a quantidade de personagens que acabaram emulando a mesma narrativa dos pais (aquela tal paridade reflexa como escolhi nomear e mencionar no post do L03), ou sendo engolidos pela realidade do bairro de onde procederam - o bairro napolitano, aliás, assume praticamente o papel de uma personagem viva e onipotente na obra. A autora parece cutucar-nos a toda hora: afinal, é possível livrar-nos de nossas origens? Por mais que desejemos negar ou fugir dessa origem em definitivo, adianta lutar contra? Em grande parte, o conflito da Lenù aparenta concentrar-se nesse embate. Ela deseja criar uma identidade totalmente diferente da mãe e da Nápoles pobre, contudo transfere para Lila, quem mais simboliza sua origem, a posição de um mito desejado.


➻ Agora para um breve devaneio. Inspirada pelo que acontece entre as filhas de Lenù - elas ironicamente repetem a disputa por um mesmo garoto travada entre a mãe e Lila -, fiquei devaneando que a narrativa aparenta sugerir que sempre irrompe, durante a juventude, uma grande paixão (não necessariamente por uma pessoa, mas também por um ideal, por exemplo) que representa o momento crítico capaz de definir para sempre o resto de nossas vidas. Se conseguirmos escapar ilesos desse ponto crucial, será possível respirar aliviado para uma vivência saudável. Caso contrário, a vida restará atormentada para sempre pelas decisões relacionadas ao evento fatídico. Gostei dessa teoria hipotética. Acho que faz algum sentido, sim.


 A reflexão especulativa em torno do caráter autoficcional/autobiográfico da obra continuou sendo alimentada nesse volume, e continuei enrolada no divertido e instigante imbróglio montado pela autora.* A narrativa provoca uma rica discussão metalinguística em torno das relações autoria x literatura x memória x imaginação x realidade x ficção x não ficção, autor x literatura x leitor etc.
“(...) I had a natural ability to transform small private events into public reflection. Every night I improvised successfully, starting from my own experience. I talked about the world I came from, about the poverty and squalor, male anf female rages, (...)”
Este diálogo entre as protagonistas é fantástico e induz a muitas considerações:
- It's literature, I didn't narrate real events.
- I recall that you did.
- What do you mean?
-You didn't use the names, but a lot of things were recognizable.
-Why didn't you tell me?
-I told you I didn't like the book. Things are told or not told: you remained in the middle.
-It was a novel.
- Partly a novel, partly not.
Onde terminam as memórias autobiográficas e onde começa a ficção? É possível/necessário separar essas duas entidades? A assertiva de Lenù de que “memória é literatura” incitaria até a paranoia cíclica para o autor (e leitor): se memória é literatura, é possível fazer literatura imaculada de memória? Caramba, cabe até o trocadilho: o que veio primeiro? A memória ou a literatura? E as memórias da tetralogia napolitana são da Elena Ferrante ou da Elena Grecco? Das duas? É, o jogo é hardcore.

* = Como até o fechamento desse post a verdadeira identidade de Elena Ferrante ainda não tinha sido intrusivamente revelada, essa informação foi ignorada nestas impressões. - Até porque: quem se importa? - De qualquer jeito, a revelação tornou a discussão mais (!) fascinante, já que a vida de Anita Raja não tem praticamente nada a ver com a de Elena Grecco. Much respect.)

E tome mais memória, por que não? Segue:
“I had long since realized that each of us organizes memories as it suits him, I'm still surprised when I do it myself. But it surprised me that one could go so far as to give the facts an arrangement that went against one's own interests.”
(Esse trecho serve para corroborar o que falei anteriormente referente à pouca compaixão que Lenù reserva a si mesma durante a narrativa.)

Por outro lado, a própria narradora reconhece uma certa limitação daqueles autores que encontram apenas em suas imediatas realidades a fonte de inspiração para o que escrever, abrindo mão da livre imaginação.*
“If at first the image of the writer who, although able to live elsewhere, had stayed in a dangerous outlying neighborhood to continue to nourish herself on reality, had been useful to me, now there were many intellectuals who prided themselves on the same cliche."
* = Novamente, se juntarmos a revelação da real identidade de Ferrante a essa reflexão, as coisas conseguem ficar melhores. Se o jornalista estiver correto, boa parte do que lemos é fruto do tremendo talento imaginativo de Anita Raja. Genial demais.)

E foi extremamente engraçado, também, quando Lenù impressiona-se com o disparate entre as várias impressões que leitores compartilharam relacionadas ao livro que ela publicava. A personagem fica estupefata ao constatar que seu público parecia fabricar um livro fantasioso a partir dos pontos de vista pessoais (“...each had evoked a fantasy book fabricated from his own biases.”) Mas segundo Roland Barthes, depois que um livro é publicado, já era: autor é morto. Não é assim?

Ah, e esse é o segundo livro que leio em que o texto delineia um perfil de personalidade que poderia ser comum entre escritores. Será que todos são, realmente, uma turma de vaidosos e inseguros que precisam ser bajulados e elogiados o tempo todo? Que dureza. Poxa, tentarei lembrar de sempre massagear o ego dos meus queridos autores (desde que mereçam, é claro, pois aqui a chatice não dá moleza, não).


➻ Sobre o final, gostei de ver as bonecas reaparecendo para fechar o ciclo, retomando a marcante cena inicial que protagonizam no primeiro livro. Ferrante foi muito perspicaz na escolha daquela imagem, pois, respondendo também a minha pergunta lançada no post sobre o L01: sim, a cena sintetiza simbolicamente a dinâmica estabelecida entre Lila e Lenù com grande eficiência.

E as essências das duas amigas parecem seguir em plena oposição até o final da série, sendo difícil conter o riso diante da imagem de Lenù angustiada pelo desejo de deixar sua marca no mundo, enquanto Lila anseia apenas por sumir da face da terra sem rastros. (Mais irônico se lembrarmos que uma escreveu livros e tem três filhas vivas, netos; e a outra desconhece o paradeiro da própria filha, ignorando se estaria viva ou morta.) Nesse ponto, sou completamente time Lila. (Eu lá tenho cara de quem vai se preocupar em deixar ~legado~? Quero mais é escafeder também.)

E Lenù, aproximando-se da conclusão, pergunta:

“Sometimes I wonder where she vanished.”

Bem, Lenù, escolho despedir-me de Lila com a certeza de que ela foi para bem longe de Nápoles; de que ela finalmente livrou-se do medo paralisante (disfarçado habilmente de armadura impenetrável) e abraçou a impossibilidade de controlar as margens da vida. Escolho apegar-me à ideia de que ela entregara-se à inevitável dissolução plena com o mundo. Quem sabe, até, ela teria sido a única a conseguir desvencilhar-se efetivamente das suas origens? E talvez, Lenù, ela tenha respondido, em termos práticos, a sua própria prévia pergunta:

“(…) to be adult is to disappear, is to learn to hide to the point of vanishing?”
...

P.S.: Com pesar, constatei que não aconteceu a cena da mega briga entre as protagonistas com direito à legenda "[xinga muito em italiano]". Aaaahhhh, que pena. Mas tudo bem, pois a autora conseguiu ser mais refinada e complexa na escolha da trama que representa o confronto responsável pelo rompimento entre Lenù e Lila. História tensa, não?

P.S. 2: Dúvida especulativa → teria Lila assassinado os Solara?! Bafo!