27/11/2016

The Door - Magda Szabó

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.) (Edição NYRB, Tradução para inglês por Len Rix)

     
Dando mera largada na minha tentativa de processamento dessa leitura, ousarei adaptá-la, com admitida leviandade, a uma hipotética parábola:

“Após tomar dolorosos socos desferidos por circunstâncias atrozes e por pessoas estimadas que apenas a desapontaram, uma honrada senhora opta pelo único meio de defesa de que dispunha: isolar-se de tudo e de todos, trancafiando-se em seu castelo. A despeito da severa solidão, a estratégia adotada transcorre com absoluto êxito e sem perturbações, até que uma desconhecida jovem genuinamente bem-intencionada bate à porta. Com comedida cautela, a encastelada decide abrir uma brechinha da entrada para a inesperada visitante, e as duas acabam tornando-se cada vez mais íntimas com o passar dos dias. Gradativamente a visitante desperta na honrada senhora uma afeição esperançosa que há tempos não experimentava, a qual era demonstrada por formas pouco convencionais que recorrentemente confundiam a estranha. Não tardou para que a encastelada adquirisse coragem de escancarar a pequena brecha, contudo infelizmente também não demorou para que a convidada, com um impensado e cruel golpe, revelasse ser indigna da generosa confiança recebida. A velha senhora não resiste finalmente à derradeira pancada, e os muros do castelo começam a ruir lamuriosamente."

Qual seria a moral dessa história? Mais vale amargar uma vida de solidão, do que tomar soco na cara? Mesmo que haja fatídico arrependimento, as alegrias propiciadas pelo convívio com outras pessoas, ainda que breves e inconstantes, justificam os riscos inerentes? Se vai bater na porta de alguém, esteja completamente seguro de que fará jus à benevolência recebida? Questões, questões (como sempre, tratando-se do presente blog, não respondo nada).

Ratificando o que já reconheci, explicito que minha sumarização acaba sendo exageradamente negligente, pois as circunstâncias da trama em que estão envolvidas as duas protagonistas desse livro – Emerence (a “encastelada”) e Narradora Protagonista Inominada (a “visitante”) – são muito mais complicadas. Como melhores pistas do enredo, deixo o trailer da respectiva adaptação do livro para o cinema (Atrás da Porta - 2012):


Um usuário disponibilizou o filme inteiro no YouTube aqui: x.

Boa parte da complexidade da obra pode ser atribuída à fácil constatação de que a relação entre as personagens principais e os eventos de The Door (1987) retratam e simbolizam bastante daquilo que efetivamente ocorreu à população da Hungria durante o século XX; notadamente as duas guerras e a posterior ocupação russa, sob o regime comunista (a história do livro transcorre durante o pós-segunda guerra). Assim como Magda Szabó, por exemplo, a narradora personagem é uma escritora cujos livros haviam sido alvo de severa censura política no passado (entre 1949 e 1956, a publicação dos livros de Szabó foi proibida pelo regime stalinista). Lendo um artigo no site Hungarian Literature Online, pude constatar que os críticos oferecem algumas chaves de interpretações distintas no momento da análise do livro, com foco especial sobre a relação estabelecida entre Emerence (empregada) e Narradora Personagem (escritora e patroa). Listo-as a seguir:

- Conflito entre classes, um tema que parece ter sido comumente explorado pelos intelectuais da Hungria durante a década de 60;
- Feudalismo húngaro perpétuo, com a lealdade dos servos sendo traída;
- Conflitos e dinâmicas sociais firmadas entre os intelectuais e os trabalhadores braçais da sociedade húngara;
- Companheirismo entre mulheres, as quais oferecem ajuda e suporte mútuos;
- Solidariedade como meio de transpor as barreiras sociais;
- Topos do reencontro simbólico com uma família perdida; aqui destacando-se as posições de mãe e filha;
- Questões morais em escala individual e nacional relacionadas à perseguição de judeus e comunistas, anarquismo político.

A despeito de todas essas opções interpretativas, admito que, durante a leitura, as minhas atenções voltaram-se muito mais para os “tipos de pancadas” (voltando à minha fábula) sofridas por Emerence e suas respectivas sequelas, pois esse aspecto do livro, de fato, me tocou profundamente. Desejei, acima de tudo, tentar compreender Emerence. Essa tarefa não é nada fácil, mas humildemente dispus-me a arriscar.

Encontrava-me incerta de como começar essa exploração da personagem, até que, através de uma resenha do livro "A guerra não tem rosto de mulher", da Svetlana Aleksiévitch, cruzei com uma citação que me ajudou enormemente:
Assim que a li, pensei em sobressalto: “Acho que é isso! Minha impressão é que Emerence simboliza exatamente isso!”

Calculo que, com algumas ressalvas (?), Emerence (★ 1905) possa representar amplamente as pessoas dos países europeus (principalmente a Hungria, claro) que foram forçadas a tomar parte de duas grandes guerras, testemunhando antissemitismo e genocídios, bem como padecendo severamente da miséria que tais barbáries patrocinaram. É possível passar por tudo isso e sair ileso? Como pessoa, sair do mesmo jeito com que se entrou? Quem conseguiu escapar (testemunhas inclusive), foi obrigado a carregar cicatrizes mais ou menos profundas, visíveis ou não. Nas palavras da própria narradora, passando por uma espécie de epifania:
“I stood gazing at the tress lined up in rows like soldiers, contemplating the memories the land must hold, with so much blood, so many dead, and all their dreams, all that failure and defeat. How could it bear to go on producing, with a burden like that?”
Aos poucos, junto com a narradora, o leitor descobre que não foram poucas as enormes atrocidades testemunhadas e vividas por Emerence durante as duas grandes guerras. A narrativa lentamente nos revela, além disso, que a personagem havia arriscado a vida por mais de uma vez para salvar pessoas da morte, ao mesmo tempo em que perdera outras em circunstâncias tremendamente penosas.

Ao embarcar na empreitada de desvendar (ou quase) Emerence, surgem ensinamentos pertinentes e a imposição de reflexões que podem ser desconfortáveis:

1. A dinâmica estabelecida entre as duas protagonistas é peculiar, tratando-se de uma amizade que desenvolve-se de maneira intrincada. Com Emerence, a narradora aprende esta lição valiosa para todos – (embora ela tenha deixado de aprender outras, na minha opinião):
“I know now what I didn't then, that affection can't always be expressed in calm, orderly, articulate ways; and that one cannot prescribe the form it should take for anyone else.”
Ou seja, é insensato esperar que as pessoas expressem seus sentimentos de forma igual, todas seguindo uma fórmula preestabelecida. É preciso exercer a sensibilidade e a empatia para compreender e aceitar a complexidade dos outros.

2. A solidão é inerente, de maneira irremediável, à vida humana? Sobre isso, creio que concordo com Emerence:
“Who isn't lonely, I'd like to know? And that includes people who do have someone but just haven't noticed. (…)”
Persistindo no tema, li recentemente este artigo interessante no The Washington Post: "Loneliness can be depressing, but it may have helped humans survive."

3.
“If someone can't be helped, then they don't want help. If she'd had enough of life, no one had the right to hold her back. (…) Try to understand. When the sands run out for someone, don't stop them going. You can't give them anything to replace life. (…) It's just that, as well as love, you also have to know how to kill. (…) If I hadn't loved her, I would have stopped her.”

A passagem de onde extraí a citação acima é uma das mais impressionantes: Emerence ajuda uma amiga a cometer suicídio, explicando à narradora o seu ponto de vista marcado por desconcertante pragmatismo.

Por extensão, fiquei refletindo que Emerence, de certo modo, manifesta uma defesa que é relativamente apropriada ao caso de Yeong-hye, a protagonista do livro A Vegetariana, escrito pela coreana Han Kang. Caso tal personagem tivesse apresentado à Emerence a mesma pergunta que ela lançara à irmã - “- Estou agindo desse jeito porque tenho medo de que você morra!  - Por quêMorrer é algo assim tão ruim?” - , suponho que Emerence não vacilaria em responder “-Não, morrer não é assim tão ruim."

E apenas como complemento dessa discussão, de novo Svetlana Aleksiévitch me auxilia. Do mesmo "A Guerra não tem rosto de mulher" ("War’s Unwomanly Face"), trombei com uma outra frase que pode, talvez, ajudar a explicar o pensamento de Emerence: “Suffering justifies our hard and bitter life. For us, pain is an art.”

4. Por conta das "pancadas", algumas “cicatrizes possíveis”: incredulidade - em instituições políticos ou religiosas, por exemplo -, desconfiança, perda da esperança.
(Emerence:) They want peace. Do you believe that? I don't, because who then will buy the guns, and what pretext will they have for hanging and looting? And anyway, if there's never been world peace before, why should it happen now?”
5. Por fim, junto-me à narradora na revelação garantida por Emerence:
“At that moment I understood our recent history as I never had before.”

E apenas neste instante, ao final do post, percebo que, em vez de “cicatrizes”, talvez eu pudesse ter escolhido uma outra palavra: memórias (sempre elas). Hum, e surge o gancho para outra postagem...
... 

↪ P.S.: é mandatório destacar que, em The Door,  Magda Szabó constrói absurdamente bem um cachorro como personagem, o Viola. Sem surpresas, talvez o singelo bichinho seja superior a todos os outros humanos que passam pelas páginas do livro.

↪ Nota mental: é, preciso ler logo "A guerra não tem rosto de mulher", da Svetlana Aleksiévitch.

19/11/2016

[DL #01] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele. 

Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVRO 01
Miss Brooke
 Hein? Ah, sim, claro, esses aí são, na verdade, Santa Teresa de Ávila e John Locke, porém a (já) queridíssima Eliot utiliza explicitamente essas duas célebres figuras como referências para caracterizar preliminarmente as personagens que formam o primeiro* power couple de nossa jornada por Middlemarch.   (* = Suspeito de que haverá mais alguns ao longo da narrativa. Vamos acompanhar.)

Calma, controlemos por um instante o afobamento. Antes de destrinchar os pormenores relacionados ao nosso intrigante (e suposto) "OTP - One True Paring" inaugural - volto já aos dois, segure aí - , penso ser mais apropriado tratar inicialmente do panorama em que estou me metendo ao encarar a leitura de Middlemarch. Nesse sentido, considero o subtítulo do livro bastante generoso : "Um estudo da vida provinciana." Prontinho. Pela leitura do livro I, parece-me que será exatamente isso. A epígrafe do capítulo XI, em meu entendimento, também sumariza bastante bem as intenções de Eliot com essa obra:

"But deeds and language such as men do use, 
And persons such as comedy would choose, 
When she would show an image of the times, 
And sport with human follies, not with 
crimes." 

("Língua e ações como as que os homens usam
E pessoas tais de que as comédias abusam,
Quando resolvem mostrar a imagem dos anos
E rir das loucuras, não dos crimes humanos.")
                                             - Ben Jonson. 
Ou seja, os indícios do livro I sinalizam que Eliot desenvolve uma minuciosa análise das pessoas que viveram na interiorana cidade de Middlemarch durante o século XIX, na Inglaterra. Ações, linguajares, interações, idiossincrasias e dinâmicas estabelecidas entre todos os indivíduos que compunham aquela sociedade são esmiuçados pela autora com impressionante inteligência, perspicácia, sutileza e riqueza de detalhes. Como resultado, somos agraciados com uma representação fidedigna - me parece - e muito bem humorada (sim!) daquele período. Nesse contexto,  a constatação de que, após 124 páginas, nossa história já conta com 28 personagens aproximadamente - e tenho certeza de que ainda aparecerão mais - não surpreende. Até o momento, três páginas do meu caderninho de anotações foram consumidas para registrar os nomes de toda essa galera. Pois é. Confabulando, imaginei que talvez Middlemarch possa ser considerada, inclusive, como uma espécie de versão inglesa - focada apenas na província - da Comédia Humana, do Balzac (essa comparação já existe corriqueiramente?). Adotando-se essa teoria, seria possível concluir 1. que Eliot deteria um poder de concisão muito mais apurado que o de seu contraparte francês, e 2. que, com sua obra, não sou forçada a "fazer vista grossa" para um homem discursando que "ah, porque a mulher é assim e assado etc." (- desculpe, Balzac, mas você sabe que é exatamente isso que você teima em fazer.) Minha impressão preliminar é que, na prosa de Eliot, as personagens femininas são examinadas de maneira muito mais apurada e complexa, havendo a exposição sagaz da condição desvantajosa que aqueles tempos reservavam ao sexo feminino. A epígrafe do primeiro capítulo sugere, de forma impactante, qual seria a posição que as mulheres ocupavam naquela sociedade e, por extensão, nas páginas de Eliot:

"Since I can do no good because a woman,
Reach constantly at something that is near it."
—The Maid's Tragedy: BEAUMONT AND FLETCHER.

("Se de bom, por ser mulher, nada faço,
Tendo sempre ao que há mais perto a ele.")
- A Tragédia da Donzela: BEAUMONT AND FLETCHER.)

Adicionalmente, esta outra passagem, por sua vez, reforça a percepção inicial de que o foco principal desse estudo de sociedade recairá sobre as mulheres:
"In fact, much the same sort of movement and mixture went on in old England as we find in older Herodotus, who also, in telling what had been, thought it well to take a woman's lot for his starting-point; (...)"
O ponto de partida escolhido pela autora para a história é, portanto, o fado de uma mulher.


✒ Como a maioria dos leitores não resiste a um mapinha complementando uma leitura, eis aqui Middlemarch:
Clique aqui para versão ampliada e detalhada.

✒ Quanto ao período específico, posso estar equivocada, mas creio que a narrativa não definiu expressamente, até agora, o ano preciso em que a história se passa. Porém há pistas, como as passagens em que as personagens discutem as reformas implementadas pelo parlamento do Reino Unido durante o século XIX. Em pesquisa no site do respectivo parlamento (link aqui), observei que houve diversas reformas durante aquele século, tendo sido implementados Atos de Reforma em 1832, 1867 e 1884 (majoritariamente relacionados a alterações eleitorais e de representação política na casa parlamentar).
"(...) all people in those ante-reform times)"
Outra pista mais específica refere-se à menção explícita (no tempo pretérito) do "Ato de Ajuda Católica de 1829", o qual implicou na culminação do processo de Emancipação Católica no Reino Unido e na Irlanda. Sendo assim, suponho que estamos em torno de 1830-32.
"I shall inform against you: remember you are both suspicious characters since you took Peel's side abaout the Catholic Bill."
A propósito, aproveito o tema da contextualização temporal para já comentar que, pelo papo trocado entre os Middlemarchers, parece-me que o pessoal da província era super conservador; o que talvez não seja assim tão inesperado realmente. Em linhas gerais, a maioria dos cidadãos parece resistir bravamente às ideias liberais, às reformas políticas e à emancipação católica. Os middlemarchers mais notórios, por assim dizer, demonstram preconceito e aversão contra gente da burguesia, como banqueiros e manufatureiros, sobrando comentários suspeitos até contra judeus. Entre eles, o valor maior ainda estava reservado às famílias de nome nobre possuidoras de terras e àqueles que lidavam com atividades agrícolas. É, os moderninhos eram minoria por aquelas bandas.
"(...) she preferred the farmers at the tithe-dinner, who drank her health unpretentiously, and were not ashamed of their grandfathers' furniture. For in that part of the country, before reform had done its notable part in developing the political consciousness, there was a clearer distinction of ranks and a dimmer distinction of parties; so that Mr. Brooke's miscellaneous invitations seemed to belong to that general laxity which came from his inordinate travel and habit of taking too much in the form of ideas."
"The Miss Vincy who had the honor of being Mr. Chichely's ideal was of course not present; for Mr. Brooke, always objecting to go too far, would not have chosen that his nieces should meet the daughter of a Middlemarch manufacturer, unless it were on a public occasion."
"No, by George! They are as rich as Jews, those Waules and Featherstones; I mean, for people like them, who don't want to spend anything. And yet they hang about my uncle like vultures, and are afraid of a farthing going away from their side of the family. But I believe he hates them all."

✒ Para concluir o painel geral das impressões introdutórias, cabe falar um pouco mais sobre a prosa da George Eliot. Eu diria, de maneira pura e simples, que é uma coisa finíssima demais. Ela elabora uma escrita tremendamente refinada, do tipo que costumo categorizar como "chique, sem pedantismo". Particularmente, considerei que existem até ligeiras similaridades entre o estilo dela e o da Virginia Woolf, mas desconheço se essa comparação já existe ou se é aceita pelos acadêmicos. Descobri apenas que a Woolf escreveu um ensaio elogioso sobre a obra da Eliot, o qual guardei para ler após concluída a leitura de Middlemarch.

A narrativa da Eliot igualmente me conquista por conta da presença, sempre bem-vinda, de humor em seu texto, o qual manifesta-se principalmente através dos excelentes diálogos entre as personagens - a maioria delas, aliás, é muito engraçada. Não foram poucas as vezes em que tive de interromper a leitura, simplesmente porque não conseguia parar de rir. E não invariavelmente, acrescento, eu começava a rir subitamente, ao longo dos dias, apenas por me lembrar de alguma passagem da história. Isso é o tipo de coisa que faz um livro acumular muitos pontos extras quando submetido ao meu patenteado Ultimate Extreme Literary Test®.

Por fim, desejo comentar uma particularidade bastante interessante da narrativa referente ao modo com que a autora trata suas personagens. Coincidentemente, li há pouco tempo um artigo no site The Atlantic relacionado à Jane Austen, no qual a respectiva autora - Megan Garber - menciona o seguinte: "Austen is not George Eliot, after all; she is neither copious nor comprehensive in her empathies. She is Jane Austen, OG Gossip Girl. Her narrator, in Pride and Prejudice, is judgy. She plays favorites. She mocks. She deploys her wit with surgical strikes." Ou seja, afirma-se que Austen, ao contrário de George Eliot, julga, debocha e toma partido de suas personagens. Como ainda não tinha lido nada da Eliot (da Austen, sim), não pude entender completamente a comparação naquele momento. Agora, contudo, compreendo-a claramente e, destaco, concordo com ela. 

Em Middlemarch, o narrador escolhe fazer pausas explícitas na narrativa, a fim de interceder em nome de suas personagens mediante ponderações e relativizações generosas das ações por elas tomadas. É como se ele suspeitasse antecipada e acertadamente de que nós, leitores, incorrendo em falhas morais similares às dos middlemarchers, não resistiríamos ao ímpeto de levianamente apontar o dedo contra aquelas figuras ficcionais. Com certa recorrência, ele lembra-nos de que seres humanos são complexos e preocupa-se em fortalecer nossa honesta empatia. Sem dúvidas, tratam-se de passagens muito louváveis, salientando-se que não recaem em pieguice, considerando-se que Eliot oferece-nos argumentos sagazes contra a condenação categórica por parte de seus leitores. Pessoalmente, recebo o auxílio do narrador, de fato, com tremenda gratidão, pois é bem fácil cair na tentação de sair julgando implacavelmente todos os middlemarchers. É bom ter alguém sugerindo que eu "me olhe no espelho" antes, sabe?

Mas vamos às fofocas, porque, tratando-se de calhamaços vitorianos, é o que mais interessa, sim? Sejamos honestos, não é mesmo? A leitura desses romances parece-me um caso exemplar do famigerado adágio "aprender brincando."


✒ Não é a toa que Miss Dorothea Brooke, Dodo para os íntimos, intitula esse primeiro livro de Middlemarch, pois a atenção maior recai sobre ela; uma personagem fascinante e complexa - e alerto que ainda não concluí meu completo discernimento a respeito dela. Ademais, com a caralhada de personagens que compõem a obra, eu ainda não sei dizer se ela ocupará uma suspeita posição de heroína protagonista. Vamos acompanhar. 

Nesta introdução, Miss Dorothea Brooke tem em torno de 20 anos, órfã desde os 12 anos e, quando a encontramos, ela está de volta a Middlemarch, junto com sua irmã mais nova Célia, retornando de anos de estudo na Suíça, para onde o tio delas, Mr. Brooke (60 anos), as havia enviado.

Logo no prelúdio, no instante em que Eliot implicitamente compara Dodo à Santa Teresa de Ávila, recebemos elementos decisivos quanto ao caráter da personagem. Sabe quem foi Santa Teresa? Praticando a habitual honestidade neste veículo, admito que eu mesma não fazia ideia. Para informações detalhadas sobre a santa, segue este link opcional: aqui.

O que importa para nossa questão, a fim de entendermos quem era Dorothea, é o que Santa Teresa simboliza; nas palavras de Eliot:  uma mulher de natureza idealista e apaixonada que encontrou na reforma de uma ordem religiosa a epopeia capaz de conciliar o desespero de ser com a consciência arrebatada da vida além do ser. Miss Brooke representa uma das muitas Teresas que existiram (e que ainda existem?) séculos depois daquela santa original. O contratempo é que uma cidade provinciana inglesa do século XIX não mais oferecia a uma mulher de religiosidade fervorosa e praticante de um puritanismo magnânimo, que ambicionava realizar grandes feitos, as mesmas condições que permitiram que Santa Teresa implementasse suas reformas. Por conseguinte, Dodo acaba personificando, novamente nas palavras tácitas de Eliot, "o cruzamento de uma certa grandeza espiritual mal correspondida com a pequenez das oportunidades, talvez um fracasso trágico (...)"

É pertinente lembrar que, aos olhos da sociedade em que Dodo estava inserida, seu comportamento e objetivos extraordinários, ainda que mal delineados, eram encarados como puras extravagâncias excêntricas, e sou obrigada a admitir que certas coisas que ela fazia eram relativamente descomedidas. Asceta exemplar, ela não queria saber das vaidades relacionadas à toalete e coqueteria praticadas pelas moças da época, preferindo vestir-se modestamente. Embora sentisse grande prazer com a montaria, ela buscava resistir de maneira enérgica à prática, pois julgava que poderia aproximá-la do pecado. Ela também refutava atividades e interesses considerados notoriamente femininos naquele século, habitualmente reservados ao ambiente doméstico, como a pintura, piano, e bordados. Ou seja, assim como Santa Teresa, a vida de Dodo não tinha espaço para essas "frivolidades" impostas às mulheres do século XIX. Não, nossa personagem intencionava algo mais grandioso, destacando-se que ela já estava envolvida com trabalhos em uma escola infantil que mantinha na cidade, bem como elaborava projetos de construção de casas populares para os mais humildes. Caso não tenha ficado claro, imagino que basta dizer que ela era o tipo de pessoa que se ajoelhava no meio da rua ao lado de um doente para rezar, que lia livros teológicos até altas horas da noite e que impunha-se jejuns rigorosos. Acho que não tinha mesmo como ser diferente: para a maioria daquela sociedade, Dodo era uma perfeita lunática capaz de afugentar qualquer pretendente potencial - conquanto fosse, sim, muito bonita. 

Embora reconheça que Miss Brooke comporta-se de modo excessivo e caricato, quase estupidamente pueril (e a graça é que ela julgava-se muito superior aos demais compatriotas), é imperioso também apontar que ela parece retratar a figura de uma mulher ambiciosa que culminou como vítima de seu tempo. Ali, nas condições que a sociedade reservava ao sexo feminino, não havia espaço para grandes feitos por uma mulher. Como mais um produto daquele meio, nem mesmo Dorothea, a despeito de suas prementes aspirações, foi capaz de cogitar que conseguiria conquistar algo do que almejava fora da posição da esposa companheira. É justamente com tal pensamento que ela decide casar-se, por livre e espontânea vontade, com um clérigo cinquentão, teólogo respeitado por sua vasta obra sobre a História da Religião; um homem descrito como sendo fisicamente idêntico ao John Locke (gatão demais, hein?) e já mal da visão - o Reverendo Mr. Casaubon. Dorothea julgava que a notória velhice do estudioso refletia a superioridade dos valores do passado e que, servindo como braço direito dele na posição de esposa, ela conseguiria pôr em prática seus sonhos de grandes realizações para a humanidade.

Dodo percebia o casamento de maneira demasiadamente infantil, buscando um marido que representaria a figura aproximada de um pai, aquele mentor intelectual e religiosamente superior a ela e que a ensinaria tudo. Pânico: ela sonhava com uma vida de mansplaining. Não parece-lhes lamentável que aquele período não tenha concedido à Dorothea, e demais Santas Teresas, a aptidão para vislumbrar que o alcance de uma vida significativamente plena poderia ocorrer independente de uma relação matrimonial? Para aquelas moças, a concretização dos grandes feitos sonhados passava necessariamente por um homem, pois, sozinhas, elas próprias estavam certas de que nada conseguiriam. Em minhas conjecturas particulares, interrogo o que teria acontecido com Dodo, caso ela tivesse nascido no século XXI. Suspeito de que ela possivelmente sequer consideraria um casamento para si, muito menos com um velhaco* (ainda que respeitável e bem intencionado).

Dentre as argumentações do narrador a respeito de Dorothea, há esta passagem bastante enfática quanto à natureza da suposta "inteligência" dela:
"It would be a great mistake to suppose that Dorothea would have cared about any share in Mr. Casaubon's learning as mere accomplishment; for though opinion in the neighborhood of Freshitt and Tipton had pronounced her clever, that epithet would not have described her to circles in whose more precise vocabulary cleverness implies mere aptitude for knowing and doing, apart from character. All her eagerness for acquirement lay within that full current of sympathetic motive in which her ideas and impulses were habitually swept along. She did not want to deck herself with knowledge—to wear it loose from the nerves and blood that fed her action; and if she had written a book she must have done it as Saint Theresa did, under the command of an authority that constrained her conscience. But something she yearned for by which her life might be filled with action at once rational and ardent; and since the time was gone by for guiding visions and spiritual directors, since prayer heightened yearning but not instruction, what lamp was there but knowledge? Surely learned men kept the only oil; and who more learned than Mr. Casaubon?"
(Sim, nosso narrador também é capaz de ser um crítico vigoroso de suas personagens, quando a situação exige.) Ou seja, em concordância com o que eu disse, Dodo não poderia ser considerada exatamente "inteligente" em sentido estrito, pois ela não intencionava conquistar conhecimento como uma proeza pessoal, mas simplesmente preencher a vida com uma ação ardente, a qual se materializaria através do conhecimento que seria provido através de um marido erudito como Casaubon. Com enorme satisfação, Dorothea entregava-se ao matrimônio consciente da posição inferior que "naturalmente" lhe cabia, buscando como objetivo maior atingir a renúncia plena para melhor satisfazer a seu marido. Trata-se de uma personagem fabulosa, ainda que desperte sentimentos bastantes contraditórios.

Para finalmente concluir, retomo o início deste post: o primeiro power couple de nossa história lamentavelmente não nasce do amor, mas de mera conveniência imaturamente deturpada. Acontece nas melhores/piores famílias.

* <PAUSA>
Olha, nem vou tentar disfarçar: parte das ótimas piadas, na minha opinião, vieram das reações das personagens ao descrever o pobre Mr. Casaubon (não espanta, portanto, que o narrador tenha reservado alguns parágrafos para defendê-lo, coitado).

Uma personagem, quando soube da novidade matrimonial, mandou esta: 
"Good God! It is horrible! He is no better than a mummy!"

Enquanto outra o descreveu do seguinte modo: "(...) he looks like a death's head skinned over for the ocasion."

É, gente, beleza não era o forte do Mr. Casaubon.
<FIM DA PAUSA>

Celia indiscutivelmente amava e respeitava a irmã, contudo, dado que representava o lado mais, digamos, sensato e ponderado da dupla fraterna (e não compartilhando o mesmo ardor religioso), ela acabava por observar as decisões de Dodo com censura e incredulidade que mal conseguia disfarçar. As duas irmãs, opostas em quase 180 graus, estabelecem uma dinâmica que gera boas risadas. Celia tinha dificuldade em entender como Dorothea poderia, de bom grado, casar-se com um velho tão feio e que só queria saber de estudar, ainda mais quando um bonitão mais jovem estava no páreo, o Mr. James Chettam. Ela considerava o projeto todo completamente embaraçoso e ridículo. Aproveitando que A Bela e a Fera anda novamente na moda (por conta do live-action prestes a estrear nos cinemas), calha registrar que Celia deve achar a moral desse conto de fadas uma enorme lorota:
"Oh, Mrs. Cadwallader, I don't think it can be nice to marry with a gret soul."
Além disso, é pertinente acrescentar que foi Celia quem nos chamou atenção - e à Dodo - para certas peculiaridades do Mr. Casaubon: 1. ele pisca quando fala, 2. faz barulho ao tomar sopa e 3. tem duas verrugas cabeludas na cara. Tão lindo e charmoso!


✒ Como o disse-me-disse era o hobby predileto dos Middlemarchers, claro que houve muito mexerico a respeito do casamento entre o bizarro casal Miss Brooke e Mr. Casaubon, o qual era incrementado pelo clichê infalível do "triângulo amoroso", tendo em vista que Chettam (o jovem bonitão) foi espicaçado assombrosamente pela "maluca" Dorothea. Acompanhando o papo-furado trocado entre os middlemarchers sobre esse "romântico" imbróglio (nossa, usei muitas aspas. perdão), é possível começar a delinear bem quais posições estavam reservadas a homens e mulheres no matrimônio, e como cada sexo era classificado por aqueles pares. Pontuando algumas ponderações que surgiram a esse repeito:

*1.
 (sobre o risco de Dodo tender a predominar na relação) "um homem sempre podia pôr por terra, quando o desejasse."

Ou como recomenda o tio de Dorothea a Casaubon: "Agora, Casaubon, ela estará em suas mãos: convém que ensine minha sobrinha a encarar as coisas com mais serenidade, (...)".

Temos aí o consagrado "dar um jeito na mulher". Vem de longa data, hein?

*2.
Talvez não houvesse razão para supor que Dodo intimidaria os pretendentes, pois "A cabeça de um homem - o que disso existe - sempre tem a vantagem de ser masculina (...) e até mesmo sua ignorância é de superior qualidade."  Estão pensando o quê? O homem, até quando burro, detém uma burrice superior à da mulher!

*3.
 Dorothea era peculiar, já que "(...) este amor do conhecimento, este interessar-se por tudo (...) não costuma ocorrer na linha feminina, a não ser que corra subterraneamente (...) para aparecer nos filhos." Mulheres normalmente não queriam saber de aprender coisa alguma, ué.

*4.
Mas Dorothea segue sendo peculiar, uma vez que "(...) esses estudos tão aprofundados, os clássicos, a matemática, esse tipo de coisa, forçam muito as mulheres (...). Na mente feminina há porém um quê de leveza, (...) a música, as belas-artes (...) elas deveriam estudar até um certo ponto, (...) mas de leve." Na província do século XIX, portanto, a mulher podia, e devia até, estudar, mas só um pouquinho. Bastava incluir as artes para prática no ambiente doméstico. Nada de assuntos complicados, pois o sexo feminino não nasceu para isso.

"What did missy want with more books? What must you be bringing her more books for?"

*5.
Mulheres também não deveriam se meter com política, ora essa!
"Não me disponho a discutir política com uma senhora. (...) Em seu sexo não há pensadores, sabe (...)."

*6.
O que o sexo feminino tinha a oferecer em um casamento, era isto:
 "O grande encanto de seu sexo é esta capacidade de uma ardente afeição de quem se auto-sacrifica, na qual vemos sua adequação para coroar e completar a existência do nosso."

"(...) uma afeição ardente e submissa que prometia corresponder às suas mais agradáveis previsões de casamento."

7.
A ordem natural das coisas era a seguinte: "(...) a noiva deve ir ver sua futura casa e ordenar as eventuais mudanças que gostaria de fazer. A mulher ordena antes do casamento a fim de que, depois, possa ter um desejo de submissão." 

*8.
 O tio de Dodo tenta alertar a sobrinha da realidade matrimonial: "um marido gosta de ser o mestre." Quem manda é o homem.

9.
Quanto ao preparo da mulher para o casamento: "(...) você precisa saber compreender os rapazes. (...) Uma mulher deve aprender a não ligar para coisas de somenos. Algum dia você estará casada.

*10.
Mr. Casaubon entra naquela de casamento com objetivos bastante virtuosos: "já estava na hora de ornamentar sua vida com as graças da companhia feminina (...) e de garantir-se, ao culminar nesta idade, o refrigério do desvelo feminino em seus anos de declínio." Alguém teria de cuidar do velhinho, ora.

*11.
O que certos homens andavam pensando ou falando a respeito de Dodo e mulheres em geral:
"É uma boa criatura, mas um pouco séria demais. É um problema conversas com tais mulheres. Estão sempre procurando razões, no entanto são muito ignorantes para compreender os méritos de qualquer questão, e geralmente recorrem a seu sentido moral para resolver as coisas de acordo com seu próprio gosto."
...
"- Bela mulher, Miss Brooke!
- É, mas não é meu tipo: gosto da mulher que se exibe um pouco mais para agradar a gente. é preciso que haja na mulher um pouco de filigrana - alguma coisa da coquete. O homem gosta de uma espécie de desafio. Quanto mais ela o deixar acuado, melhor.
- Há certa verdade nisto e, por Deus, é geralmente por aí que elas vão. (...) Foi a Providência que as fez assim, não é (...)?
- (...) Antes, inclinar-me-ia a vinculá-la ao diabo.
- Ah, sem dúvida, numa mulher é preciso que haja um diabinho."

Muito bem, parece que, às mulheres, restava apenas o papel de lindos bibelozinhos mudos enviados pelo satanás para agradar os homens. Legal, não é? Eu achei.

(* = Tratam-se de pensamentos ou opiniões manifestadas por personagens masculinas.)


✒ Eliot igualmente comprova sua apurada capacidade de observação das figuras de sua sociedade ao expor, com alguma sutileza, como o sexo masculino conseguia ser estupidamente vaidoso.  Basta que mulheres demonstrem o mínimo interesse, para que eles já se derretam em fácil ternura. De outro modo, o narrador também não vacila ao nos indicar que Chettam, o jovem bonitão rejeitado por Dorothea, não sentiu-se humilhado com a intensidade esperada, uma vez que havia sido trocado por um vovô horroroso. Ao contrário, Chettam foi capaz de exibir até compaixão por Dorothea.

Antes que o bonitão conseguisse tirar algum sentido completo daquela situação, porém, ele procura o auxílio do reitor Mr. Cadwallader, o qual profere uma das falas mais divertidas e pertinentes do livro, a qual desnuda a parvoíce do "complexo de pavão" dos homens:
"Não entendo vocês, os rapazes bonitos que acham que tudo no mundo tem de ser de seu jeito! Vocês não compreendem as mulheres. Elas não os admiram nem a metade do que vocês mesmos se admiram."
Adorei demais. E esse Mr. Cadwallader parece ser uma figura legal, pois considero admirável alguém que, como descrito no livro, é capaz de enxergar piada em qualquer sátira dita a seu próprio respeito.

Sem desperdiçar a oportunidade, registro breves comentários sobre a digníssima Mrs. Cadwallader, esposa do reitor. Essa daí renderia uma postagem apenas para ela, sendo sincera. Onde quer que haja confusão em Middlemarch, creio que posso ter certeza de que lá encontrarei Mrs. Cadwallader metendo seu (conservador) bedelho, pois assim explica o narrador:
"Ela era o diplomata de Tipton e Freshitt, e tudo o que acontecesse sem sua participação, era uma irregularidade ofensiva."
Curiosamente, o narrador deu-se o trabalho de também defendê-la perante o leitor, explicando que as alcovitices da Mrs. Cadwallader eram, de certo modo, naturalmente esperadas diante daquela vida rural simples. Somos alertados de que não há más intenções no comportamento da diplomata de Middlemarch.


✒ Como já escrevi demais,  finalizo somente registrando um grupo de personagens promissoras para as cenas dos próximos capítulos:
1. Mr. Will Ladislaw: um jovem primo de terceiro (acho) grau do Mr. Casaubon. Esse parece que vai dar trabalho, sendo descrita a abobrinha de que ele se considerava um Pegasus (!) capaz de ser maculado pelo trabalho. Ele pretendia sair viajando pelo mundo - patrocínio do primo vovô -, para "se encontrar" ou coisa parecida. Impressionada por saber que esses tipos já existiam no século XIX. E ainda tem uma história mal explicada de que ele era neto da tia de Casaubon, que fizera um ~mau casamento~. Achei essa informação suspeita.

2. Mr. Lydgate: um novo médico, jovem e ambicioso, algo filantropo, que recentemente chegava a Middlemarch - e já se engraçando por uma mocinha famosa.

3. Galera do segundo e terceiro núcleo familiar (além dos Brooke), os quais apareceram nos últimos capítulos: The Vincys e The Featherstones. Especial atenção para os filhos de Mr. Vincy (que era o novo prefeito manufatureiro de Middlemarch):

Rosamond Vincy - curiosa para acompanhar o desenvolvimento dessa personagem, pois suspeito de que ela fará outro contraponto (além de Celia Brooke) interessante à Dorothea Brooke. 

Fred Vincy - um palermão preguiçoso que andava metido com jogatina. E ele até que manda umas tiradas engraçadas. Por exemplo:
"I beg your pardon: correct English is the slang of prigs who write history and essays. And the strongest slang of all is the slang of poets."
Mary Garth -  se entendi direito (é muita gente, caramba!), é sobrinha de Mr. Featherstone (pela família da primeira esposa), mas estou na dúvida. Ela é outra jovem personagem feminina bastante interessante, trabalhada em certa ironia e cinismo espirituosos. Quero acompanhá-la.

E chega de bobagens, não é?

01/11/2016

Romeu e Julieta - Shakespeare

Leitura realizada através (1) do texto em inglês - original e moderno - disponibilizado pelo site "No Fear Shakespeare" - link: X  +  (2) tradução para português da Barbara Heliodora - Edição Saraiva de Bolso.


Frederic Lord Leighton. The Reconciliation of the Montagues and Capulets over the Dead Bodies of Romeo and Juliet, 1853-55
(P.S.: Não é ótima a linguagem corporal do Sr. Capuleto e do Sr. Montéquio nesse quadro? É fácil deduzir o diálogo entre os dois: "- Pelo amor de deus, olha essa desgraça; perdemos nossos filhos! Queremos realmente continuar essa rixa estúpida?; - Não, tem razão.)

Enquanto matutava a respeito do que registraria em postagem sobre uma outra leitura concluída (possivelmente aparecerá logo mais no blog), percebi que seria difícil esquivar-me de comparar o respectivo livro à peça Romeu e Julieta, do meu Bardo fanfarrão preferido. Daí me ocorreu esta complicação devaneante: "err, tipo assim, se eu nunca efetivamente li Romeu e Julieta, como saber até que ponto esta obra dialoga com a famosa peça?" Embora eu já tenha tido a pachorra de fazer isso uma outra vez aqui (x), me senti constrangida em repetir o ultraje.

Enfim, essa lengalenga propõe-se apenas a contextualizar a decisão de finalmente ler a bendita peça e, assim, me excluir do grupo dos ardilosos que adoram comparar qualquer romance do tipo "Ele (lado Y) e Ela (lado X)" a esta obra do Shakespeare, baseando-se exclusivamente nas adaptações para tv ou cinema. A política deste blog é ser impostora, sim, mas com limites, por favor. É prudente praticar a charlatanice com certa parcimônia, não é mesmo?

Embora tenha quase certeza de que ainda me surpreenderei com essa história (mesmo porque não me lembro dos pormenores), sei que, em linhas gerais, ela já é muito célebre. Por conta disso, minha abordagem para este post será esta: do lado de cá, leio e, aqui, registro brevíssimas bobagens "em tempo real". Um live posting, digamos. Ou seja, acredito que este post não servirá nem mesmo como entretenimento próprio durante sábados tediosos. ¯\_(ツ)_/¯

ATO I 
CENA I

 "A pair of star-crossed lovers take their life,"
Ah, mas então o prólogo já entrega que os pombinhos se suicidam no final; uma espécie de sacrifício para a paz entre as famílias? Interessante. Segue a tradição grega, até onde eu saiba.

Se bem que a Heliodora não traduziu dessa maneira. Ela mandou: "Nasce, com má estrela, um par de amantes,". O texto moderno em inglês (site No Fear Shakespeare) assim refere: "become lovers and commit suicide". Bom, enfim.

[R♥J]

SAMPSON
"(...) women, being the weaker 
vessels, are ever thrust to the wall. Therefore I will 
push Montague’s men from the wall, and thrust this 
maids to the wall." 

Ih, olha aí, o machismo do século XVI já começou. Nessa peça foi rápido.

[RJ]

SAMPSON
'Tis all one. I will show myself a tyrant. When I have fought with the men, I will be civil with the maids. I will cut off their heads.
GREGORY
The heads of the maids? (As cabeças das donzelas?)
SAMPSON
Ay, the heads of the maids, or their maidenheads.
Take it in what sense thou wilt. (Cabeças ou cabaços, dê o sentido que quiser.)


Pronto, primeiro trocadilho de teor sexual também apareceu precocemente.

[RJ] 

Nossa, mas essa cena inicial de briga é um show de babaquice masculina, não? E suponho que os Capuletos ganham nesse quesito, pois parecem ser os mais enfezadinhos para começar a confusão. As pobres Ladies, por sua vez, aparentam ser as únicas vozes da razão. (...) Ah, espera, o Príncipe de Verona demonstra ser ajuizado. Belo discurso.

[RJ]
BENVOLIO
A troubled mind drove me to walk abroadSo early walking did I see your son. 

Consigo entender o Benvólio e o Romeu. A mente perturbada é, em parte, o que me leva a correr.  

[RJ] 

Xi, parece que o Romeu faz o tipo vampiro gótico deprimido. Que dó, gente.
MONTAGUE
Many a morning hath he there been seen,
With tears augmenting the fresh morning’s dew,
Adding to clouds more clouds with his deep sighs.
But all so soon as the all-cheering sun
Should in the farthest east begin to draw
The shady curtains from Aurora’s bed,
Away from light steals home my heavy son,


Imagens reais de Romeu:

       

Pior ainda: o caso do Romeu é de amor não correspondido. Esse tipo de trama e de personagem costumam ser meio chatos, vamos acompanhar.

"Pior ainda" número 2: Romeu is such a drama queen!
Tut, I have lost myself. I am not here.
This is not Romeo. He’s some other where.
(Revirando os olhos... Haja paciência, hein, meu querido?) 

Ah, mas ele até que parece ser bom de  discurso. Sobre a briga prévia entre as duas famílias, ele manifesta-se assim:
Não me conte; essa história eu já conheço:
Trata muito de ódio, e mais de amor
Então, amor odiento, ódio amoroso,
Oh qualquer coisa que nasceu do nada!

Esse Romeu vai me dar trabalho... Acho que já me apaixonei? É, vamos acompanhar.

ATO I
CENA II

Certo, então Benvólio, obstinado a salvar o primo Romeu da deprê amorosa, convence-o a bancarem os penetras na festinha dos Capuleto, já que a amada dele - Rosalina - estará lá, bem como outras mocinhas que poderão interessá-lo. Espera, volta lá: ele está apaixonado por Julieta Rosalina?! Eita, vamos acompanhar como esse imbróglio se desenrolará.

A pobre Julieta, por sua vez, com apenas 14 anos de idade, estará também na festa sob os olhares cobiçosos de um tal Páris. Muito bem.
[RJ] 

Obs.: juntando esta às outras poucas peças que já li dele, Shakespeare parece que curte tirar sarro de gente iletrada, não é? Como é que o Sr. Capuleto entrega uma carta para um servo (Peter) que não sabe ler? Quanta maldade, viu? Hoje, acho que isso seria considerado politicamente incorreto, sei não.

Obs. 2: a peça ampara-se muito na simbologia recorrente das estrelas, sim? Logicamente, eu sabia que o "The Fault in our Stars" nunca foi invenção daquele tal escritor nerd mala. O nerd mala, aliás, copiou o Bardo na hora de intitular seu livrinho - peça Julius Caesar ("The Fault, Dear Brutus, Is Not In Our Stars"). O que descubro aqui é que Shakespeare usa esse elemento por mais de uma vez em sua obra completa. Acompanhemos como as estrelas continuarão surgindo em Romeu e Julieta.

CAPULET
At my poor house look to behold this night
Earth-treading stars that make dark heaven light.


(...) (Ah, é, acabo de me lembrar de uma cena e fala do filme (o do Baz Luhrmann) envolvendo estrelas, mas que ainda não apareceu exatamente na peça.)
Léo está tão bem nessa cena, concorda? 

ATO I
CENA III

Segundo trocadilho sexual:
NURSE
“Yea,” quoth he, “Dost thou fall upon thy face?
Thou wilt fall backward when thou hast more wit, (“Fall backward” = have sex.)

Então, enquanto criança, ela cai com a cara no chão, porém, quando for mocinha, ela só vai querer saber de ~cair para trás~. Que coisa.
[RJ]

Ah, Shakespeare curte um humor negro, demonstrando a manha de fazer piadinha com a morte de uma criança de apenas 02 anos (filha da ama dos Capuleto). A menina cai, o pai pergunta "cai assim de cara?" e ela só tem tempo de dizer "É" e: "morreu"! Que feio, Bardo! (Adoro.) Bom, se até a mãe riu...

[RJ] 

É curiosa a diferença de comportamento entre os pais de Julieta sobre a perspectiva de casá-la quando ela tem apenas 14 anos. O pai acha precoce; já a mãe, que passou da hora. Intrigante.

Repara no papinho da Sra. Capuleto e Ama pra cima da Julieta:
Sra. Capuleto
Ao tê-lo, você não se diminui
Ama
Aumenta, que a mulher cresce com o homem.

Não estraguem a menina desse jeito, senhoras.

ATO I
CENA IV

A festa dos Capuleto já começou e... Ah, que lástima, o Romeu não é pé de valsa! Perdeu pontos comigo. E, interessante*, Shakespeare lança mão de sonhos (Romeu é o sonhador) como prenúncio da grande tragédia. Mercutio se arrependerá de ter duvidado de Romeu.
(*= é que, em Guerra e Paz (li este ano), encontrei sonhos serem recorrentemente utilizados por Tolstói como simbologia.)
[R♥J]

E falando em presságio, as estrelas novamente voltam na espécie de premonição do Romeu:
I fear too early, for my mind misgives
Some consequence yet hanging in the stars
Shall bitterly begin his fearful date
With this night’s revels, and expire the term
Of a despisèd life closed in my breast
By some vile forfeit of untimely death.

A peça trabalha com aqueles famigerados conceitos "~They were doomed from the start / It was written in the Stars~". Estava escrito nas estrelas (e desde o prólogo da peça).

ATO I 
CENA V

ROMEO
Did my heart love till now? Forswear it, sight!
For I ne'er saw true beauty till this night.

E com esses famosos versos, BAM!, o Sr. Romeu, que até então desejava morrer em nome de seu amor não correspondido por Rosalina, apaixona-se por Julieta imediatamente ao avistá-la.
(...)
Calma lá. O Teobaldo sabe que Romeu (mascarado) é um Montéquio só pela voz?! Isso é um ódio que quase confunde-se com amor, então. E também é interessante perceber que Shakespeare associa aos mais jovens o sentimento de intensa intolerância mútua, visto que são eles quem têm dificuldade de abandonar o rancor entre as famílias. O Sr. Capuleto e o Sr. Montéquio demonstram ser mais transigentes, concedendo discursos sensatos. Inclusive, o Sr. Capuleto mandou o abusado do Teobaldo ficar pianinho, já que Romeu estava quieto na dele durante a festa. Bem curioso.

[RJ] 

Mas que rapidez! Depois de uma conversa fiada envolvendo "santa, mãozinha, passar pecado para o outro", Romeu e Julieta já se beijaram!

E só depois do beijo,
ele descobre que ela é uma Capuleto:
Is she a Capulet?
O dear account! My life is my foe’s debt.

e ela descobre que ele é um Montéquio:
NURSE
His name is Romeo, and a Montague,
The only son of your great enemy.

JULIET
(aside) My only love sprung from my only hate!
Too early seen unknown, and known too late! 
Prodigious birth of love it is to me,
That I must love a loathèd enemy.


(Ai, que dó!)

A palavra "inimigo", contudo, é muito dramática e exagerada, especialmente se comparada aos discursos apaziguadores dos chefes das respectivas famílias, aparentemente bem dispostos a um acordo de paz. A peça parece tratar notadamente da urgência e intensidade dos sentimentos da juventude - amam e odeiam no volume máximo. Para eles, tudo vira tragédia muito facilmente. Prossigamos para testar tal hipótese.

ATO II
CENAS I a VI
(Condensando; caso contrário, não termino isso nunca mais.)

[CENA I] Terceira piadinha com trocadilho sexual: 
MERCUTIO
If love be blind, love cannot hit the mark.
Now will he sit under a medlar tree
And wish his mistress were that kind of fruit
As maids call medlars when they laugh alone.—
O Romeo, that she were! Oh, that she were
An open arse, and thou a poperin pear.

("Medlar tree = The medlar is a tree whose fruit was considered to look like a vulva or an anus. The fruits were often called "open arses". Mercutio uses the name in an obscene double entrendre.")

[R♥J]

[CENA II] O famoso verso "Rose is a rose is a rose is a rose", da Gertrude Stein, teria essa peça como inspiração?
JULIET
What’s in a name? That which we call a rose
By any other word would smell as sweet.

Aliás, essa fala da Julieta é muito fascinante. O que é um nome? Como é possível que sejamos reduzidos apenas a um nome? Definidos por completo por um nome apenas? Como conceber que o destino desses dois adolescentes esteja estabelecido antes mesmo de seus nascimentos, simplesmente por conta do nome de suas respectivas famílias? O conto "funes, o memorioso", do Borges, traz algo correlato: (...) lhe custava compreender que o símbolo genérico "cachorro" abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; (...)". Um nome, somente, não é capaz de responder à pergunta "Quem sou eu?", correto? Conforme diz, em seguida, Romeu:

ROMEO
                             By a name
I know not how to tell thee who I am.



[R♥J]

Humm... É igualmente notável o uso recorrente, além das citadas estrelas, da simbologia representada pela oposição "Luz x Escuridão", "Dia x Noite". Possivelmente relaciona-se à luz do amor dos jovens prestes a ser ofuscada pela escuridão da horrível tragédia. Amor e Ódio; Vida e Morte.

(* Complemento posterior:) Terminada a leitura da peça, li a introdução escrita pela Bárbara Heliodora, na qual ela ressalta muito bem que os significados atribuídos a esses opostos não são fixos ao longo da obra. É uma complexidade fantástica realmente.

Assim escreve Heliodora: "Mas é tudo muito complexo, porque os grandes momentos de felicidade (o encontro, a cena do balcão, a despedida) vêm da noite - e, naturalmente, a iluminam, enquanto os conflitos, mortes e o banimento dão-se de dia. O sol claro parece ser a luz do ódio, não do amor." 

[R♥J]

[CENA II] XI, já naquela época muitos pivetes não queriam saber de estudar.
ROMEO
A thousand times the worse to want thy light.
Love goes toward love as schoolboys from their books,
But love from love, toward school with heavy looks.


[R♥J]

[CENA III] O diálogo entre Romeu e o Frei Lawrence é uma das coisas mais divertidas que já li do Bardo.
FRIAR LAWRENCE
Holy Saint Francis, what a change is here!
Is Rosaline, whom thou didst love so dear,
So soon forsaken? Young men’s love then lies
Not truly in their hearts, but in their eyes.
Jesu Maria, what a deal of brine
Hath washed thy sallow cheeks for Rosaline!
(...)
Women may fall when there’s no strength in men.
(→ Gostei desse Frei.)

- A fila anda rápido para os jovens, seu Padre. Rosalina? Que Rosalina? Foi totalmente esquecida após uma única pernoite. (Suspeitando de que o Padre teve de ouvir muita ladainha chata do Romeu por causa da Rosalina.)

- Crianças, escutem o Padre, que ele manja das coisas:
ROMEU
Vamos logo: eu estou louco de pressa.
FREI
Muita calma. Quem corre só tropeça.

- Uma dúvida: essa pernoitada fora de casa do Romeu permite que se subentenda que ele e Julieta transaram? Estou (ingenua e) genuinamente na dúvida. Acho que não, confere?

[R♥J]

[CENA III] Há piadinhas e trocadilhos de teor sexual voando para todos os lados durante o papo entre Mercutio e Romeu. A galera - Mercutio principalmente - só pensa em sexo. Vou parar de contar, ok? Mas voltando ao Mercutio: ele também é um palerminha que faz piada escrota com mulher (a pobre Ama, especificamente). Estamos de olho.

E o Romeu tem umas sacadas rápidas muito boas, mesmo. Ele tem um papo legal, quando não está se lamuriando pelos cantos por conta da Rosalina. Ah, os bons espíritos que só um amor correspondido pode fornecer...
[R♥J]

[CENAS V e VI] Na fala de Julieta (sobre a Ama que demorava a voltar), temos um resumo apropriado sobre minha hipótese mencionada para o tema maior dessa peça - a urgência dos sentimentos da juventude:
JULIETA
Had she affections and warm youthful blood,
She would be as swift in motion as a ball.
My words would bandy her to my sweet love,
And his to me.
But old folks, many feign as they were dead,
Unwieldy, slow, heavy, and pale as lead.


Já na cena VI, o Frei complementa com versos excelentes (falando para Romeu) essa noção de que, quando os sentimentos são muito intensos (amor ou ódio), tornam-se violentos e perigosos. Aliás, o primeiro verso até apareceu na nova série da HBO - Westworld (só que, na série, o sentido original insinua estar apenas ligeiramente alterado...).
FRIAR LAWRENCE
These violent delights have violent ends
And in their triumph die, like fire and powder,
Which, as they kiss, consume. The sweetest honey
Is loathsome in his own deliciousness
And in the taste confounds the appetite.
Therefore love moderately. Long love doth so.
Too swift arrives as tardy as too slow.

E eles já se casaram! Caramba, acho que não me lembrava mesmo de nada dessa peça.

ATO III
CENAS I a V

[CENA I] Homens falando merda... Mimimi... Homens lutando feito idiotas - Mercutio x Tybalt... E, depois que Romeu se mete para apartar a briga, Mercutio morre* (não sem antes rogar mais praga para as duas famílias - "A plague o' both your houses!"). Mimimi... Mais luta besta - Romeu x Tybalt... E Tybalt morre*, enquanto Romeu foge, sendo condenado ao exílio pelo Príncipe.

(* = Verdade... E não é que ninguém tinha morrido ainda?! Espantoso!)

E outro agouro de (mais) tragédia:
ROMEO
This day’s black fate on more days doth depend.
This but begins the woe others must end.

[R♥J]

[CENA III] Romeu esconde-se na alcova do Frei, chateado porque foi banido de Verona, onde vive sua amada, digo, esposa.
NURSE
O holy Friar, O, tell me, holy Friar,
Where is my lady’s lord? Where’s Romeo?

FRIAR LAWRENCE
There on the ground, with his own tears made drunk.

Thy tears are womanish.


[CENA IV] Ué, não entendi nada. De repente (pra mim, pelo menos), o Sr. Capuleto decide, em uma segunda-feira, que Julieta casará com Páris naquela próxima quinta-feira? Em três dias?! Os adultos estão afobados do mesmo modo. E, na cena V, o pai ainda é super grosso e autoritário com a filha. Que horror! E que mudança em relação ao primeiro ato.

[CENA V] Ah, agoooora, sim, Romeu e Julieta (casados) transaram.

ATO IV
CENAS I a V


[CENA I] E os primeiros passos para a grande tragédia se iniciam. O Frei entrega para Julieta o falso veneno que simulará sua morte por 48 horas. Na execução ideal desse plano, Romeu, exilado em Mântua, deveria ser avisado do projeto, a fim de resgatá-la do túmulo. Ok.

[CENA III] Interessante descobrir que, minutos antes de executar sua parte do plano, Julieta hesita em executá-lo. Bom saber que a moça ainda demonstra-se capaz de racionalizar tudo aquilo que estava prestes a fazer, dando-se conta da complexidade do plano estrambólico que o Frei, com boas intenções*, viu-se obrigado a arquitetar. Ela contempla, de antemão, todas as possibilidades de insucesso. Esse comportamento enriquece a caracterização da personagem e é bem mais verossímil do que a alternativa de um ato completamente cego e intempestivo. E, de certa maneira, acaba representando mais uma premonição de que aquilo tudo não terminaria bem (de que aquilo terminaria with a violent end). O plano do Frei é tão complicado, que seu sucesso era mesmo praticamente improvável.

* = Aliás, as boas intenções do Frei começaram a tragédia desde o momento em que ele decidira casar Romeu e Julieta com a ideia de forçar a paz entre as duas famílias de Verona. Acaba sendo um outro tema a ser discutido pela peça, suponho: "de boas intenções, o inferno está cheio". Nem sempre "boas intenções" são suficientes para fundamentar a tomada de uma decisão na vida.

[R♥J]

Esse Frei é um tremendo personagem. Ciente de tudo, ele consegue ter sangue frio para manter seu papel no plano e simultaneamente criticar o Sr. Capuleto que, agora (depois de toda a truculência para obrigar a filha a casar-se), chora a "morte" de Julieta.
FRIAR LAWRENCE
The most you sought was her promotion,
For ’twas your heaven she should be advanced.
And weep ye now, seeing she is advanced
Above the clouds, as high as heaven itself?
Oh, in this love, you love your child so ill
That you run mad, seeing that she is well.

ATO V
CENAS I a III

[CENA I] Novamente os sonhos premonitórios de Romeu:
I dreamt my lady came and found me dead—
Strange dream, that gives a dead man leave to think—
And breathed such life with kisses in my lips
That I revived and was an emperor.
Ah me! How sweet is love itself possessed
When but love’s shadows are so rich in joy!

E o jovem manda mais um excelente discurso; dessa vez, sobre dinheiro...(no momento em que paga o Boticário pelo veneno):
There is thy gold, worse poison to men’s souls,
Doing more murder in this loathsome world,
Than these poor compounds that thou mayst not sell.
I sell thee poison. Thou hast sold me none.

[R♥J]

[CENA III] Romeu está na tumba da "defunta", prestes a suicidar-se, e o Bardo ainda dá jeito de colocar o Páris lá, naquele momento, para que os dois lutem. Impressionante! Shakespeare parece gostar da poesia irônica propiciada por lutas que ocorrem no meio dos mortos, tendo em vista que isso também ocorre em Hamlet.
(...)
Caramba, e não é que menino Páris morre?! Passada.

(...)

ROMEO
Here’s to my love! (drinks the poison) O true apothecary,
Thy drugs are quick. Thus with a kiss I die.
                                                                       Romeo dies.

[R♥J]

No meio de tanta tristeza, ainda sobra espaço para um pouco de humor negro durante a fala de Baltasar (respondendo ao Frei que chegava tarde), o qual descumpria as ordens de ir embora, dadas por Romeu. E por que não?

BALTHASAR
As I did sleep under this yew tree here,
I dreamt my master and another fought,
And that my master slew him. 
[R♥J]

Nossa, mas disso eu não me lembrava de jeito nenhum! Então o Frei está presente quando Julieta acorda e, depois de dar-lhe as más notícias, promete levá-la para um convento para se tornar freira?! Como assim?! E o tonto ainda sai, deixando a coitada sozinha para... ora, também suicidar-se com o punhal de Romeu - aqui, sem nenhuma hesitação, aliás. Quanta lambança!! Acredito que o pobre Frei vai gastar uma boa grana com terapia depois de tudo isso.

E as maneiras com que os amantes suicidam-se não deixam de ser intrigantes. Venenos costumam ser reservados para personagens femininas, enquanto a extrema violência de um auto-apunhalamento é mais comumente destinada às figuras masculinas. Realmente peculiar. Gostei e, de novo, penso que reforça muito a intensa determinação do sentimento e personalidade de Julieta.

[R♥J]

PRINCE
A glooming peace this morning with it brings.
The sun, for sorrow, will not show his head.
Go hence, to have more talk of these sad things.
Some shall be pardoned, and some punishèd.
For never was a story of more woe
Than this of Juliet and her Romeo.

                                                                Exeunt
[R♥J]

Adorei demais essa peça e, claro, estou louca para embarcar na nostalgia de rever a adaptação do Luhrmann.

Vamos terminar com a baladinha meio piegas, mas bonitinha, do Dire Straits? Play!