01/11/2016

Romeu e Julieta - Shakespeare

Leitura realizada através (1) do texto em inglês - original e moderno - disponibilizado pelo site "No Fear Shakespeare" - link: X  +  (2) tradução para português da Barbara Heliodora - Edição Saraiva de Bolso.


Frederic Lord Leighton. The Reconciliation of the Montagues and Capulets over the Dead Bodies of Romeo and Juliet, 1853-55
(P.S.: Não é ótima a linguagem corporal do Sr. Capuleto e do Sr. Montéquio nesse quadro? É fácil deduzir o diálogo entre os dois: "- Pelo amor de deus, olha essa desgraça; perdemos nossos filhos! Queremos realmente continuar essa rixa estúpida?; - Não, tem razão.)

Enquanto matutava a respeito do que registraria em postagem sobre uma outra leitura concluída (possivelmente aparecerá logo mais no blog), percebi que seria difícil esquivar-me de comparar o respectivo livro à peça Romeu e Julieta, do meu Bardo fanfarrão preferido. Daí me ocorreu esta complicação devaneante: "err, tipo assim, se eu nunca efetivamente li Romeu e Julieta, como saber até que ponto esta obra dialoga com a famosa peça?" Embora eu já tenha tido a pachorra de fazer isso uma outra vez aqui (x), me senti constrangida em repetir o ultraje.

Enfim, essa lengalenga propõe-se apenas a contextualizar a decisão de finalmente ler a bendita peça e, assim, me excluir do grupo dos ardilosos que adoram comparar qualquer romance do tipo "Ele (lado Y) e Ela (lado X)" a esta obra do Shakespeare, baseando-se exclusivamente nas adaptações para tv ou cinema. A política deste blog é ser impostora, sim, mas com limites, por favor. É prudente praticar a charlatanice com certa parcimônia, não é mesmo?

Embora tenha quase certeza de que ainda me surpreenderei com essa história (mesmo porque não me lembro dos pormenores), sei que, em linhas gerais, ela já é muito célebre. Por conta disso, minha abordagem para este post será esta: do lado de cá, leio e, aqui, registro brevíssimas bobagens "em tempo real". Um live posting, digamos. Ou seja, acredito que este post não servirá nem mesmo como entretenimento próprio durante sábados tediosos. ¯\_(ツ)_/¯

ATO I 
CENA I

 "A pair of star-crossed lovers take their life,"
Ah, mas então o prólogo já entrega que os pombinhos se suicidam no final; uma espécie de sacrifício para a paz entre as famílias? Interessante. Segue a tradição grega, até onde eu saiba.

Se bem que a Heliodora não traduziu dessa maneira. Ela mandou: "Nasce, com má estrela, um par de amantes,". O texto moderno em inglês (site No Fear Shakespeare) assim refere: "become lovers and commit suicide". Bom, enfim.

[R♥J]

SAMPSON
"(...) women, being the weaker 
vessels, are ever thrust to the wall. Therefore I will 
push Montague’s men from the wall, and thrust this 
maids to the wall." 

Ih, olha aí, o machismo do século XVI já começou. Nessa peça foi rápido.

[RJ]

SAMPSON
'Tis all one. I will show myself a tyrant. When I have fought with the men, I will be civil with the maids. I will cut off their heads.
GREGORY
The heads of the maids? (As cabeças das donzelas?)
SAMPSON
Ay, the heads of the maids, or their maidenheads.
Take it in what sense thou wilt. (Cabeças ou cabaços, dê o sentido que quiser.)


Pronto, primeiro trocadilho de teor sexual também apareceu precocemente.

[RJ] 

Nossa, mas essa cena inicial de briga é um show de babaquice masculina, não? E suponho que os Capuletos ganham nesse quesito, pois parecem ser os mais enfezadinhos para começar a confusão. As pobres Ladies, por sua vez, aparentam ser as únicas vozes da razão. (...) Ah, espera, o Príncipe de Verona demonstra ser ajuizado. Belo discurso.

[RJ]
BENVOLIO
A troubled mind drove me to walk abroadSo early walking did I see your son. 

Consigo entender o Benvólio e o Romeu. A mente perturbada é, em parte, o que me leva a correr.  

[RJ] 

Xi, parece que o Romeu faz o tipo vampiro gótico deprimido. Que dó, gente.
MONTAGUE
Many a morning hath he there been seen,
With tears augmenting the fresh morning’s dew,
Adding to clouds more clouds with his deep sighs.
But all so soon as the all-cheering sun
Should in the farthest east begin to draw
The shady curtains from Aurora’s bed,
Away from light steals home my heavy son,


Imagens reais de Romeu:

       

Pior ainda: o caso do Romeu é de amor não correspondido. Esse tipo de trama e de personagem costumam ser meio chatos, vamos acompanhar.

"Pior ainda" número 2: Romeu is such a drama queen!
Tut, I have lost myself. I am not here.
This is not Romeo. He’s some other where.
(Revirando os olhos... Haja paciência, hein, meu querido?) 

Ah, mas ele até que parece ser bom de  discurso. Sobre a briga prévia entre as duas famílias, ele manifesta-se assim:
Não me conte; essa história eu já conheço:
Trata muito de ódio, e mais de amor
Então, amor odiento, ódio amoroso,
Oh qualquer coisa que nasceu do nada!

Esse Romeu vai me dar trabalho... Acho que já me apaixonei? É, vamos acompanhar.

ATO I
CENA II

Certo, então Benvólio, obstinado a salvar o primo Romeu da deprê amorosa, convence-o a bancarem os penetras na festinha dos Capuleto, já que a amada dele - Rosalina - estará lá, bem como outras mocinhas que poderão interessá-lo. Espera, volta lá: ele está apaixonado por Julieta Rosalina?! Eita, vamos acompanhar como esse imbróglio se desenrolará.

A pobre Julieta, por sua vez, com apenas 14 anos de idade, estará também na festa sob os olhares cobiçosos de um tal Páris. Muito bem.
[RJ] 

Obs.: juntando esta às outras poucas peças que já li dele, Shakespeare parece que curte tirar sarro de gente iletrada, não é? Como é que o Sr. Capuleto entrega uma carta para um servo (Peter) que não sabe ler? Quanta maldade, viu? Hoje, acho que isso seria considerado politicamente incorreto, sei não.

Obs. 2: a peça ampara-se muito na simbologia recorrente das estrelas, sim? Logicamente, eu sabia que o "The Fault in our Stars" nunca foi invenção daquele tal escritor nerd mala. O nerd mala, aliás, copiou o Bardo na hora de intitular seu livrinho - peça Julius Caesar ("The Fault, Dear Brutus, Is Not In Our Stars"). O que descubro aqui é que Shakespeare usa esse elemento por mais de uma vez em sua obra completa. Acompanhemos como as estrelas continuarão surgindo em Romeu e Julieta.

CAPULET
At my poor house look to behold this night
Earth-treading stars that make dark heaven light.


(...) (Ah, é, acabo de me lembrar de uma cena e fala do filme (o do Baz Luhrmann) envolvendo estrelas, mas que ainda não apareceu exatamente na peça.)
Léo está tão bem nessa cena, concorda? 

ATO I
CENA III

Segundo trocadilho sexual:
NURSE
“Yea,” quoth he, “Dost thou fall upon thy face?
Thou wilt fall backward when thou hast more wit, (“Fall backward” = have sex.)

Então, enquanto criança, ela cai com a cara no chão, porém, quando for mocinha, ela só vai querer saber de ~cair para trás~. Que coisa.
[RJ]

Ah, Shakespeare curte um humor negro, demonstrando a manha de fazer piadinha com a morte de uma criança de apenas 02 anos (filha da ama dos Capuleto). A menina cai, o pai pergunta "cai assim de cara?" e ela só tem tempo de dizer "É" e: "morreu"! Que feio, Bardo! (Adoro.) Bom, se até a mãe riu...

[RJ] 

É curiosa a diferença de comportamento entre os pais de Julieta sobre a perspectiva de casá-la quando ela tem apenas 14 anos. O pai acha precoce; já a mãe, que passou da hora. Intrigante.

Repara no papinho da Sra. Capuleto e Ama pra cima da Julieta:
Sra. Capuleto
Ao tê-lo, você não se diminui
Ama
Aumenta, que a mulher cresce com o homem.

Não estraguem a menina desse jeito, senhoras.

ATO I
CENA IV

A festa dos Capuleto já começou e... Ah, que lástima, o Romeu não é pé de valsa! Perdeu pontos comigo. E, interessante*, Shakespeare lança mão de sonhos (Romeu é o sonhador) como prenúncio da grande tragédia. Mercutio se arrependerá de ter duvidado de Romeu.
(*= é que, em Guerra e Paz (li este ano), encontrei sonhos serem recorrentemente utilizados por Tolstói como simbologia.)
[R♥J]

E falando em presságio, as estrelas novamente voltam na espécie de premonição do Romeu:
I fear too early, for my mind misgives
Some consequence yet hanging in the stars
Shall bitterly begin his fearful date
With this night’s revels, and expire the term
Of a despisèd life closed in my breast
By some vile forfeit of untimely death.

A peça trabalha com aqueles famigerados conceitos "~They were doomed from the start / It was written in the Stars~". Estava escrito nas estrelas (e desde o prólogo da peça).

ATO I 
CENA V

ROMEO
Did my heart love till now? Forswear it, sight!
For I ne'er saw true beauty till this night.

E com esses famosos versos, BAM!, o Sr. Romeu, que até então desejava morrer em nome de seu amor não correspondido por Rosalina, apaixona-se por Julieta imediatamente ao avistá-la.
(...)
Calma lá. O Teobaldo sabe que Romeu (mascarado) é um Montéquio só pela voz?! Isso é um ódio que quase confunde-se com amor, então. E também é interessante perceber que Shakespeare associa aos mais jovens o sentimento de intensa intolerância mútua, visto que são eles quem têm dificuldade de abandonar o rancor entre as famílias. O Sr. Capuleto e o Sr. Montéquio demonstram ser mais transigentes, concedendo discursos sensatos. Inclusive, o Sr. Capuleto mandou o abusado do Teobaldo ficar pianinho, já que Romeu estava quieto na dele durante a festa. Bem curioso.

[RJ] 

Mas que rapidez! Depois de uma conversa fiada envolvendo "santa, mãozinha, passar pecado para o outro", Romeu e Julieta já se beijaram!

E só depois do beijo,
ele descobre que ela é uma Capuleto:
Is she a Capulet?
O dear account! My life is my foe’s debt.

e ela descobre que ele é um Montéquio:
NURSE
His name is Romeo, and a Montague,
The only son of your great enemy.

JULIET
(aside) My only love sprung from my only hate!
Too early seen unknown, and known too late! 
Prodigious birth of love it is to me,
That I must love a loathèd enemy.


(Ai, que dó!)

A palavra "inimigo", contudo, é muito dramática e exagerada, especialmente se comparada aos discursos apaziguadores dos chefes das respectivas famílias, aparentemente bem dispostos a um acordo de paz. A peça parece tratar notadamente da urgência e intensidade dos sentimentos da juventude - amam e odeiam no volume máximo. Para eles, tudo vira tragédia muito facilmente. Prossigamos para testar tal hipótese.

ATO II
CENAS I a VI
(Condensando; caso contrário, não termino isso nunca mais.)

[CENA I] Terceira piadinha com trocadilho sexual: 
MERCUTIO
If love be blind, love cannot hit the mark.
Now will he sit under a medlar tree
And wish his mistress were that kind of fruit
As maids call medlars when they laugh alone.—
O Romeo, that she were! Oh, that she were
An open arse, and thou a poperin pear.

("Medlar tree = The medlar is a tree whose fruit was considered to look like a vulva or an anus. The fruits were often called "open arses". Mercutio uses the name in an obscene double entrendre.")

[R♥J]

[CENA II] O famoso verso "Rose is a rose is a rose is a rose", da Gertrude Stein, teria essa peça como inspiração?
JULIET
What’s in a name? That which we call a rose
By any other word would smell as sweet.

Aliás, essa fala da Julieta é muito fascinante. O que é um nome? Como é possível que sejamos reduzidos apenas a um nome? Definidos por completo por um nome apenas? Como conceber que o destino desses dois adolescentes esteja estabelecido antes mesmo de seus nascimentos, simplesmente por conta do nome de suas respectivas famílias? O conto "funes, o memorioso", do Borges, traz algo correlato: (...) lhe custava compreender que o símbolo genérico "cachorro" abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; (...)". Um nome, somente, não é capaz de responder à pergunta "Quem sou eu?", correto? Conforme diz, em seguida, Romeu:

ROMEO
                             By a name
I know not how to tell thee who I am.



[R♥J]

Humm... É igualmente notável o uso recorrente, além das citadas estrelas, da simbologia representada pela oposição "Luz x Escuridão", "Dia x Noite". Possivelmente relaciona-se à luz do amor dos jovens prestes a ser ofuscada pela escuridão da horrível tragédia. Amor e Ódio; Vida e Morte.

(* Complemento posterior:) Terminada a leitura da peça, li a introdução escrita pela Bárbara Heliodora, na qual ela ressalta muito bem que os significados atribuídos a esses opostos não são fixos ao longo da obra. É uma complexidade fantástica realmente.

Assim escreve Heliodora: "Mas é tudo muito complexo, porque os grandes momentos de felicidade (o encontro, a cena do balcão, a despedida) vêm da noite - e, naturalmente, a iluminam, enquanto os conflitos, mortes e o banimento dão-se de dia. O sol claro parece ser a luz do ódio, não do amor." 

[R♥J]

[CENA II] XI, já naquela época muitos pivetes não queriam saber de estudar.
ROMEO
A thousand times the worse to want thy light.
Love goes toward love as schoolboys from their books,
But love from love, toward school with heavy looks.


[R♥J]

[CENA III] O diálogo entre Romeu e o Frei Lawrence é uma das coisas mais divertidas que já li do Bardo.
FRIAR LAWRENCE
Holy Saint Francis, what a change is here!
Is Rosaline, whom thou didst love so dear,
So soon forsaken? Young men’s love then lies
Not truly in their hearts, but in their eyes.
Jesu Maria, what a deal of brine
Hath washed thy sallow cheeks for Rosaline!
(...)
Women may fall when there’s no strength in men.
(→ Gostei desse Frei.)

- A fila anda rápido para os jovens, seu Padre. Rosalina? Que Rosalina? Foi totalmente esquecida após uma única pernoite. (Suspeitando de que o Padre teve de ouvir muita ladainha chata do Romeu por causa da Rosalina.)

- Crianças, escutem o Padre, que ele manja das coisas:
ROMEU
Vamos logo: eu estou louco de pressa.
FREI
Muita calma. Quem corre só tropeça.

- Uma dúvida: essa pernoitada fora de casa do Romeu permite que se subentenda que ele e Julieta transaram? Estou (ingenua e) genuinamente na dúvida. Acho que não, confere?

[R♥J]

[CENA III] Há piadinhas e trocadilhos de teor sexual voando para todos os lados durante o papo entre Mercutio e Romeu. A galera - Mercutio principalmente - só pensa em sexo. Vou parar de contar, ok? Mas voltando ao Mercutio: ele também é um palerminha que faz piada escrota com mulher (a pobre Ama, especificamente). Estamos de olho.

E o Romeu tem umas sacadas rápidas muito boas, mesmo. Ele tem um papo legal, quando não está se lamuriando pelos cantos por conta da Rosalina. Ah, os bons espíritos que só um amor correspondido pode fornecer...
[R♥J]

[CENAS V e VI] Na fala de Julieta (sobre a Ama que demorava a voltar), temos um resumo apropriado sobre minha hipótese mencionada para o tema maior dessa peça - a urgência dos sentimentos da juventude:
JULIETA
Had she affections and warm youthful blood,
She would be as swift in motion as a ball.
My words would bandy her to my sweet love,
And his to me.
But old folks, many feign as they were dead,
Unwieldy, slow, heavy, and pale as lead.


Já na cena VI, o Frei complementa com versos excelentes (falando para Romeu) essa noção de que, quando os sentimentos são muito intensos (amor ou ódio), tornam-se violentos e perigosos. Aliás, o primeiro verso até apareceu na nova série da HBO - Westworld (só que, na série, o sentido original insinua estar apenas ligeiramente alterado...).
FRIAR LAWRENCE
These violent delights have violent ends
And in their triumph die, like fire and powder,
Which, as they kiss, consume. The sweetest honey
Is loathsome in his own deliciousness
And in the taste confounds the appetite.
Therefore love moderately. Long love doth so.
Too swift arrives as tardy as too slow.

E eles já se casaram! Caramba, acho que não me lembrava mesmo de nada dessa peça.

ATO III
CENAS I a V

[CENA I] Homens falando merda... Mimimi... Homens lutando feito idiotas - Mercutio x Tybalt... E, depois que Romeu se mete para apartar a briga, Mercutio morre* (não sem antes rogar mais praga para as duas famílias - "A plague o' both your houses!"). Mimimi... Mais luta besta - Romeu x Tybalt... E Tybalt morre*, enquanto Romeu foge, sendo condenado ao exílio pelo Príncipe.

(* = Verdade... E não é que ninguém tinha morrido ainda?! Espantoso!)

E outro agouro de (mais) tragédia:
ROMEO
This day’s black fate on more days doth depend.
This but begins the woe others must end.

[R♥J]

[CENA III] Romeu esconde-se na alcova do Frei, chateado porque foi banido de Verona, onde vive sua amada, digo, esposa.
NURSE
O holy Friar, O, tell me, holy Friar,
Where is my lady’s lord? Where’s Romeo?

FRIAR LAWRENCE
There on the ground, with his own tears made drunk.

Thy tears are womanish.


[CENA IV] Ué, não entendi nada. De repente (pra mim, pelo menos), o Sr. Capuleto decide, em uma segunda-feira, que Julieta casará com Páris naquela próxima quinta-feira? Em três dias?! Os adultos estão afobados do mesmo modo. E, na cena V, o pai ainda é super grosso e autoritário com a filha. Que horror! E que mudança em relação ao primeiro ato.

[CENA V] Ah, agoooora, sim, Romeu e Julieta (casados) transaram.

ATO IV
CENAS I a V


[CENA I] E os primeiros passos para a grande tragédia se iniciam. O Frei entrega para Julieta o falso veneno que simulará sua morte por 48 horas. Na execução ideal desse plano, Romeu, exilado em Mântua, deveria ser avisado do projeto, a fim de resgatá-la do túmulo. Ok.

[CENA III] Interessante descobrir que, minutos antes de executar sua parte do plano, Julieta hesita em executá-lo. Bom saber que a moça ainda demonstra-se capaz de racionalizar tudo aquilo que estava prestes a fazer, dando-se conta da complexidade do plano estrambólico que o Frei, com boas intenções*, viu-se obrigado a arquitetar. Ela contempla, de antemão, todas as possibilidades de insucesso. Esse comportamento enriquece a caracterização da personagem e é bem mais verossímil do que a alternativa de um ato completamente cego e intempestivo. E, de certa maneira, acaba representando mais uma premonição de que aquilo tudo não terminaria bem (de que aquilo terminaria with a violent end). O plano do Frei é tão complicado, que seu sucesso era mesmo praticamente improvável.

* = Aliás, as boas intenções do Frei começaram a tragédia desde o momento em que ele decidira casar Romeu e Julieta com a ideia de forçar a paz entre as duas famílias de Verona. Acaba sendo um outro tema a ser discutido pela peça, suponho: "de boas intenções, o inferno está cheio". Nem sempre "boas intenções" são suficientes para fundamentar a tomada de uma decisão na vida.

[R♥J]

Esse Frei é um tremendo personagem. Ciente de tudo, ele consegue ter sangue frio para manter seu papel no plano e simultaneamente criticar o Sr. Capuleto que, agora (depois de toda a truculência para obrigar a filha a casar-se), chora a "morte" de Julieta.
FRIAR LAWRENCE
The most you sought was her promotion,
For ’twas your heaven she should be advanced.
And weep ye now, seeing she is advanced
Above the clouds, as high as heaven itself?
Oh, in this love, you love your child so ill
That you run mad, seeing that she is well.

ATO V
CENAS I a III

[CENA I] Novamente os sonhos premonitórios de Romeu:
I dreamt my lady came and found me dead—
Strange dream, that gives a dead man leave to think—
And breathed such life with kisses in my lips
That I revived and was an emperor.
Ah me! How sweet is love itself possessed
When but love’s shadows are so rich in joy!

E o jovem manda mais um excelente discurso; dessa vez, sobre dinheiro...(no momento em que paga o Boticário pelo veneno):
There is thy gold, worse poison to men’s souls,
Doing more murder in this loathsome world,
Than these poor compounds that thou mayst not sell.
I sell thee poison. Thou hast sold me none.

[R♥J]

[CENA III] Romeu está na tumba da "defunta", prestes a suicidar-se, e o Bardo ainda dá jeito de colocar o Páris lá, naquele momento, para que os dois lutem. Impressionante! Shakespeare parece gostar da poesia irônica propiciada por lutas que ocorrem no meio dos mortos, tendo em vista que isso também ocorre em Hamlet.
(...)
Caramba, e não é que menino Páris morre?! Passada.

(...)

ROMEO
Here’s to my love! (drinks the poison) O true apothecary,
Thy drugs are quick. Thus with a kiss I die.
                                                                       Romeo dies.

[R♥J]

No meio de tanta tristeza, ainda sobra espaço para um pouco de humor negro durante a fala de Baltasar (respondendo ao Frei que chegava tarde), o qual descumpria as ordens de ir embora, dadas por Romeu. E por que não?

BALTHASAR
As I did sleep under this yew tree here,
I dreamt my master and another fought,
And that my master slew him. 
[R♥J]

Nossa, mas disso eu não me lembrava de jeito nenhum! Então o Frei está presente quando Julieta acorda e, depois de dar-lhe as más notícias, promete levá-la para um convento para se tornar freira?! Como assim?! E o tonto ainda sai, deixando a coitada sozinha para... ora, também suicidar-se com o punhal de Romeu - aqui, sem nenhuma hesitação, aliás. Quanta lambança!! Acredito que o pobre Frei vai gastar uma boa grana com terapia depois de tudo isso.

E as maneiras com que os amantes suicidam-se não deixam de ser intrigantes. Venenos costumam ser reservados para personagens femininas, enquanto a extrema violência de um auto-apunhalamento é mais comumente destinada às figuras masculinas. Realmente peculiar. Gostei e, de novo, penso que reforça muito a intensa determinação do sentimento e personalidade de Julieta.

[R♥J]

PRINCE
A glooming peace this morning with it brings.
The sun, for sorrow, will not show his head.
Go hence, to have more talk of these sad things.
Some shall be pardoned, and some punishèd.
For never was a story of more woe
Than this of Juliet and her Romeo.

                                                                Exeunt
[R♥J]

Adorei demais essa peça e, claro, estou louca para embarcar na nostalgia de rever a adaptação do Luhrmann.

Vamos terminar com a baladinha meio piegas, mas bonitinha, do Dire Straits? Play!


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