19/12/2017

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #01 - O Imortal

(Sinopse, info, etc: link/ Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Imortal: link 2.

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Parece que comecei me dando mal, pois esse primeiro conto é repleto de referências literárias,  históricas e geográficas. Logo de cara, digo que o meio de campo embaçou, tendo em vista que não li nenhuma obra de Homero (eu sei, eu sei). De qualquer maneira, efetuarei um voo rasante sobre questões que chamaram minha atenção, além de algumas correlações, digamos, desajuizadas.

Bem, acredito que a epígrafe escolhida por Borges seja crucial, posto que aparenta ser a chave que revela a temática principal do conto. Reproduzo o trecho escrito por Francis Bacon (* a edição da Companhia das Letras não conta com tradução do trecho):

"Salomon saith: There is no new thing upon the earth.
So that as Plato had an imagination, that all knowledge
was but remembrance; so Salomon giveth his sentence,
that all novelty is but oblivion."
Francis Bacon, Essays, LVIII

Conforme esse raciocínio de Bacon, não existiriam inovações no mundo, dado que toda e qualquer novidade e/ou novo conhecimento seriam, na verdade, espécies de ecos de rememorações de algo preexistente e esquecido. Sendo assim, seria possível concluir que tudo que existe é, de certo modo, imortal. Segundo a própria narrativa de Borges:
"Entre os imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre incansáveis espelhos. Nada pode acontecer uma única vez, nada é preciosamente precário."
Remete muito à ideia de um retorno eterno, porém com a ressalva irônica de que não haveria retornos, visto que não haveria exatamente partidas (mas, sim, esquecimentos). Refletidas umas nas outras, todas as coisas do mundo tornam-se eternas, sem hiatos. Trata-se de uma imortalidade que, além de brincar com os espelhos queridos por Borges, reproduz outra característica imagética favorita do autor: a circularidade. Os imortais existiriam na forma de uma verdadeira simbiose, o que fundamentaria uma conclusão expressa neste outro trecho do conto:
"Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os homens. (...) o que é uma cansativa maneira de dizer que não sou."
O título daquele livro do Pirandello (vira e mexe o cito nesse blog) resumiria bem o trecho: Um, Nenhum, Cem Mil. Se nossa existência torna-se perene através dos outros, conseguimos ser todos e, concomitantemente, nenhum.

Ademais, os imortais do conto decidiram viver no pensamento, ao qual se entregavam esquecendo-se do mundo físico. Ou seja, o caminho para a imortalidade estaria no pensamento. Como pensar sem linguagem? Sem palavras? Hum, então as palavras seriam o veículo para esse universo dos imortais e, dessa forma, os pensamentos expressos mediante palavras estariam sempre ecoando em outros pensamentos, em outras palavras.
"Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da recordação; só restam palavras. (...) Eu fui Homero; em breve, serei Ninguém, como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto." 
Nesse sentido, a forma e a estrutura narrativa do conto trazem uma metalinguagem que recria, ela própria, a imortalidade circular tratada pela história. O protagonista reverberou em seu texto as palavras de outros autores e, no seu processo ficcional, assim também o fez Borges. Avançando nessas elucubrações, este meu próprio post dá continuidade a essa circularidade, uma vez que ecos de Homero, de Bacon, de Borges surgem aqui reproduzidos. Seria essa a razão inconsciente que me leva a escrever todas estas groselhas no blog? Garantir minha própria imortalidade e, simultaneamente, contribuir para a imortalidade dos livros e autores que leio? Será? Seria cômico, visto que, conscientemente, não sinto nenhuma intenção de ser imortal, porque, como descrito no próprio conto de Borges:
“(...), aumentar a vida dos homens era aumentar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes.”
Tratando-se desse modo a imortalidade, desafia-se a própria percepção do conceito de tempo, não é mesmo? O qual, aliás, é outro tema favorito do escritor argentino. Seria lógico falar em passado, presente e futuro, quando tudo é eterno?

***

Certo, agora é o momento das correlações nada acadêmicas. Ocorre que, em O Imortal, a imortalidade seria conquistada através das águas de um rio:
"(...) "o rio secreto que purifica os homens da morte. (...) rio cujas águas dão a imortalidade."
Pois muito bem; e que tipo de associações esdrúxulas minha mente elaborou com essa informação?

1. A mais óbvia (??!!): o Poço de Lázaro - The Lazarus Pit! Entendo bulhufas a respeito de super-heróis, contudo, vendo a série ajambrada Arrow, do canal CW, aprendi que o vilão da DC Comics chamado Ra's al Ghul tem esse tal Poço de Lázaro que lhe garante a imortalidade, veja só. A razão para usar “Lázaro” - homem ressuscitado por Jesus – no título dessa arma secreta é fácil captar, entretanto o “poço/pit” ficou mais interessante com a leitura desse conto.

Borges x DC Comics! Às vezes, nem eu acredito nas minhas presepadas audaciosas.

2. Na sequência, aprontarei mais esta: Borges x The Leftovers! Isso mesmo, aquela série excelente da HBO, que tornou-se uma das minhas favoritas da vida. Elaborarei uma breve explicação para essa segunda presepada. Dentre os diversos temas tratados em The Leftovers, encontramos estes: o enigma maior sobre nossa existência, os desafios relacionados à compreensão de nossa realidade e mortalidade (alguns dos temas recorrentes na obra de Borges!). Nesse contexto, os roteiristas recorrem ao elemento água inúmeras vezes ao longo dos episódios. No universo ficcional constituído por realidades paralelas (opa, Borges novamente), a personagem interpretada por Theroux, Kevin Garvey, seria aparentemente imortal - pelo menos, ele retorna do mundo dos mortos cerca de 02-03x -, e a água é o veículo utilizado para essa travessia. Selecionei algumas cenas a fim de tentar ilustrar essa onipresença da água na série:

                       

Já que a água molhou meu caminho novamente com o conto de Borges, aproveitarei para dar uma olhadela rápida no livro de símbolos que possuo. Antes, algumas alusões são muito fáceis de serem feitas, obviamente. Nossa existência, afinal, começa dentro de uma bolsa preenchida por líquido amniótico e, regredindo ainda mais na linha temporal, o surgimento dos primeiros seres vivos na Terra foi patrocinado amplamente pela presença da água. Ah, e temos ainda a água utilizada no batismo, representando vida, morte e ressurreição.

J.C. Cirlot, no Dictionary of Symbols, afirmou algo meio óbvio, mas para o qual eu não tinha atinado. Por não possuir uma forma fixa, a água correlaciona-se bastante à noção que discuti de uma existência simbiótica infinita. Ou não? Este trecho, escrito por Cirlot, resume bem o que tento expressar:
“On the cosmic level, the equivalent of immersion is the flood, which causes all forms to dissolve and return to a fluid state, thus liberating the elements which will later be recombined in new cosmic patterns.”
Esta segunda afirmação, do mesmo autor, tornou as coisas divertidas:
“This ‘fluid body’ is interpreted by modern psychology as a symbol of the unconscious, (...)”
Uma eternidade conquistada através da água ou, em outras palavras, de um inconsciente coletivo?! Mas é claro! É precisamente isso! Hum, ou ainda... Uma memória coletiva?

Os dados que encontrei a respeito do símbolo “rio” também caem como uma luva (nenhuma surpresa) em O Imortal  - grifo meu:
 “River is an ambivalent symbol since it corresponds to the creative power both of nature and of time. On the one hand it signifies fertility and the progressive irrigation of the soil; and on the other hand it stands for the irreversible passage of time and, in consequence, for a sense of loss and oblivion.”

No mais, apenas acrescento o tom onírico de toda a narrativa, o que nos faz questionar se aquilo que lemos é real ou um sonho. Contudo sempre surge a interrogação: o que seria o Real? 

Ok, acho que essas foram minhas impressões principais. Fico devendo possíveis correlações com Ilíada/Odisseia, pois, como confessei, nunca os li. Vamos ao vídeo da Aline Aimée. Play!


[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]





[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Peço perdão, pois concederei espaço para um breve autoelogio: pela ótima análise da Aimée, parece que me saí melhor do que eu imaginava. Poxa, consegui, sim, captar boa parte da essência do conto. Yay!

Quanto ao que me escapou, aponto que foi, principalmente, a ideia explorada por Borges de que a imortalidade, tal como a concebemos imediatamente (= viver no plano físico eternamente), seria terrível, visto que tiraria do Homem o senso de propósito. A morte é o que confere sentido à vida. O próprio nome Joseph Cartaphilus, citado logo no início do conto, já carrega esse conceito de que a imortalidade seria um castigo ao Homem. Eu até tinha pesquisado o nome e encontrado a informação de que ele era o judeu errante, no entanto morri na praia antes de fazer a ligação de que a "maldição" que Jesus aplica-lhe é justamente a imortalidade. Como esclarece Aimée: "Ele não morreria até que Jesus voltasse, até o fim dos tempos." Interessante demais. Quando escrevi que eu mesma, conscientemente, não tinha nenhum desejo de ser imortal, nem tinha pensado sob essa perspectiva do Borges, mas, sim, porque me agrada muito mais "ser ninguém" - inclusive, aprendi com a Aimée que essa é uma frase da obra de Homero.

A proposta de Borges para o tipo de imortalidade possível, do modo como discuti e como também o fez Aimée, seria portanto o contraponto efetivamente viável. Ou seja, a imortalidade sobrevém apenas com a tradição cultural que se propaga com a atuação de todos os homens. Aimée ressalta que Homero teria conseguido exatamente isso, uma vez que ele é recorrentemente referido por outros escritores. Todos escritos seriam continuação de Homero.

Outra ligação que falhei em estabelecer foi entre palavras (como registrei, os instrumentos para a imortalidade) e, logicamente, livros! São os livros que assumem o papel daquele espelho do mundo, com ele estabelecendo reflexos mútuos. Evidente! Livros são formados por vários outros livros, e gostei desta fala da Aimée: "Os textos de Borges são como bibliotecas." Igualmente não tinha percebido ativamente que Borges reproduz, nesse conto, sua teoria da imortalidade não somente pelas citações e referências - como afirmei -, mas também mediante reprodução da “narrativa de jornada” desenvolvida por Homero. Além disso, desconhecia que o autor referia a si próprio como um escritor leitor; um autor que simplesmente reescreve tudo que lê. Fascinante.

Para finalizar, uma especulação. Aimée optou por não discutir as correntes filosóficas exploradas no conto por Borges, entretanto ela cita brevemente isto: "Ele cita aqui um filósofo Gianbattista Vico que falaria de uma teoria cíclica (...)". Daí, confabulo: ignorando a teoria desse filósofo italiano, será que consegui inferir corretamente a referência filosófica, ao fazer aquela relação da circularidade?! Em pesquisa breve no site Wikipedia, localizei estes dados

"Cyclical history (Corsi e ricorsi)

Vico believed in a cyclical philosophy of history where human history is created by man. His term for the cyclical nature of history was "corsi e ricorsi". Most importantly, man and society move in parallel from barbarism to civilization.
As societies become more developed socially, human nature also develops, and both manifest their development in changes in language, myth, folklore, economy, etc.; in short, social change produces cultural change.

Vico is therefore using an original organic idea that culture is a system of socially produced and structured elements. Hence, knowledge of any society comes from the social structure of that society, explicable, therefore, only in terms of its own language. As such, one may find a dialectical relationship between language, knowledge and social structure.


Relying on a complex etymology, Vico argues in the Scienza Nuova that civilization develops in a recurring cycle (ricorso) of three ages: (...)"

Não houve uma equivalência exata, mas cheguei relativamente perto. Boa. 

***
Adorei a brincadeira! Farei um esforço para manter esse exercício com a Aimée; a quem agradeço imensamente pelos vídeos. 

16/12/2017

[Alinhavando] What it feels like for a girl


Eis que uma sequência de eventos sincrônicos me obrigou a revisitar sentimentos juvenis do passado. O insight revelador dessa sincronicidade ocorreu enquanto eu escovava os cabelos na frente do espelho: meus olhos encararam atônitos suas imagens reflexas, denunciando a inequívoca e pasmada assimilação da cadeia de acontecimentos. 

Difícil identificar o início, porém sei que o catalisador da constatação consciente foi a recente leitura do livro The Member of The Wedding, escrito por Carson McCullers, combinada ao contemporâneo compartilhamento no twitter de uns versinhos que escrevi aos 13 anos, durante uma aula de literatura da escola. Minha versão adolescente poeta mandou qualquer coisa deste tipo:

"Não sei quê
não sei que lá
choro pelas lágrimas
que não tenho pra chorar."
                       - Daniela C.L.(13 anos)

(Pois é.) É imperioso registrar que a inspiração para o compartilhamento dessa ~obra-prima~ naquela rede social foi justamente o poema supostamente escrito por outra pré-adolescente. Seguem os versos da Lorena  que a Lorena teria plagiado (?) do Khalil Gibran:
(* Por favor, direcionem a atenção ao fato de que a reprodução pela aluna sinaliza atração pelo tema, beleza?)

Via: twitter.
O insight que tive à frente do espelho, dias após a divulgação da minha ~arte~ (ok, parei com a autodepreciação), relacionou-se à súbita percepção de que os sentimentos que fizeram meu eu pré-adolescente escrever aqueles versos foram bastante similares àqueles que exasperam Frankie Addams, a protagonista de treze anos do livro da McCullers. Desse ponto, então, levei somente míseros segundos para recordar que, poucos meses antes, eu chorava na sala de uma psiquiatra, à medida que narrava fatos que me haviam ocorrido aos treze anos - sentindo-me ridícula ao longo do processo, obviamente. Não, definitivamente não é uma etapa fácil e inofensiva da vida.

Dando continuidade à cadeia de assimilação, lembrei ademais que, além da McCullers, li em 2017 dois outros contos, escritos por Flannery O'Connor e Lucia Berlin, que igualmente exploram a louca avalanche de transformações típicas da avassaladora fase pré-adolescente. A lembrança de um conto da Katherine Mansfield lido em 2016, sobre a mesma temática, também acabou invadindo minha epifania. Nada mais justo, portanto, do que tentar estabelecer um diálogo entre esses ótimos textos, sim? Organizar as perspectivas oferecidas por essas excepcionais autoras e, quem sabe, submeter-me a uma espécie de terapia literária. The Member of the Wedding conduzirá a conversa, enquanto os demais contos - e minha própria experiência pessoal - contribuirão pontualmente ampliando as reflexões. 




De que idade estamos falando?
- The Member of the Wedding,  Carson McCullers: Frankie Addams, doze anos.
- A Temple of the Holy Ghost, Flannery O'Connor: protagonista de doze anos, sem nome.
- The Wind Blows, Katherine Mansfield: Matilda, adolescente sem idade especificada.
- Stars and Saints, Lucia Berlin: protagonista de 09 anos, inominada.
________________________________________________________
Ou seja: falamos da faixa etária típica da puberdade feminina. 


✒ Estações do ano x Pré-adolescência.
Dentre as quatro, McCullers e Mansfield são as autoras que optam por explorar essa simbologia. A escolha é interessante, se pensarmos que os gregos representavam as estações do ano através de figuras femininas e, principalmente, que o símbolo reforça a premissa de que o estado de espírito das protagonistas correspondia exatamente a uma etapa do ciclo de desenvolvimento, do ritmo de vida.

A estação escolhida, no entanto, diverge ligeiramente entre as duas escritoras: a americana opta pelo verão, enquanto a neozelandesa fica com a transição entre verão e outono. A informação é apresentada ao leitor logo no início das narrativas:
(McCullers:) "It happened that green and crazy summer when Frankie was twelve years old." 
(Mansfield:) "It is cold. Summer is over-it is autumn-everything is ugly."
Pesquisando esses símbolos no livro de Michael Ferber, A Dictionary of Literary Symbols, encontrei que o verão, no contexto da vida representada por um ano, simbolizaria precisamente a maturidade, o completo desenvolvimento dos poderes da mulher. O mesmo autor relembra que Shakespeare evoca em seus sonetos que o verão é muitas vezes desagradável por conta do excesso de calor e da ventania, o que acredito avivar metaforicamente o desconforto - físico, mental - característico da etapa puberal. 

Em relação ao outono escolhido por Mansfield, Ferber destaca tratar-se da estação em que simultaneamente celebra-se a colheita do verão e lamenta-se a proximidade do fim do ano. É, desse modo, uma estação de dupla faceta, visto que ela festeja tanto a vida, como a morte. Apropriada, parece-me,  considerando-se a própria dualidade transitória "criança-mulher" presente nessa transição.  Além disso, o outono é igualmente usado como metáfora para a maturidade, como Ovídio aqui o emprega: ‘‘Then autumn follows, youth’s fine fervour spent, / Mellow and ripe, a temperate time between / Youth and old age, his temples flecked with grey’’ (Met. 15.209--11, trans. Melville). Dado que a idade da protagonista não é explicitamente relatada por Mansfield, o outono parece sugerir que ela estava completando seu ciclo, e não apenas iniciando-o.


✒  Para Frankie, nem verão, nem outono; mas sim: a Estação (Temporada) dos Dias de Cão!
Exato, a querida protagonista de McCullers opta por um apelido muito mais propício para aquela maldita/bendita estação; o mesmo (origem na Grécia antiga) adotado para designar os dias mais quentes e desconfortáveis de verão.
(McCullers:) “And the season of dog days is like this: it is the time at the end of the summer when as a rule nothing can happen-but if a change does come about, that change remains until dog days are over. Things that are done are not undone and a mistake once made is not corrected.”

✒ Por falar em símbolos,
outro que chama atenção é o vento e suas variações - ventania, tornado, tempestade, ciclone -, os quais surgem intensamente no conto de Mansfield (logo no título: The Wind Blows!), mas também no romance de McCullers. Curiosamente, é um símbolo que também parece carregar dualidade: ventos são vigorosos, caóticos, potencialmente devastadores e, ao mesmo tempo, vazios e efêmeros como aquela própria etapa das vidas das protagonistas. Mansfield vale-se ainda do mar para representar a intensidade de emoções e metamorfoses por que atravessava sua personagem. 
(Mansfield:) "It is only the wind shaking the house, rattling the windows, banging a piece of iron on the roof and making her bed tremble." 
(McCullers:) "I think something is wrong. It's too quiet. I have a peculiar warning in my bones. I bet you a hundred dollars it's going to storm. A terrible terrible dog-day storm. Or maybe even a cyclone."

✒ Abruptude desnorteante.
Peço desculpas, pois optarei por apelar para aquele velho chavão: dorme-se criança e acorda-se mulher. É evidente que as mudanças não acontecem com a fugacidade que essa expressão sugere, entretanto a sensação é praticamente essa; uma vez que o tempo que nos é concedido não é, definitivamente, proporcional à extensão da metamorfose que sofremos. A despeito disso, precisamos sobreviver.

Cientes do sentimento, as autoras recorrentemente reforçam que suas personagens sentem-se tomadas de surpresa, atrapalhadas em decorrência das transformações repentinas:
(Mansfield:) "Suddenly-dreadfully-she wakes up. What has happened? Something dreadful has happened." 

(McCullers:) "One night in April, when she and her father were going to bed, he looked at her and said, all of a sudden: “Who is this great big long-legged twelve-year-old blunderbuss who still wants to sleep with her old papa?”

“And then, on the last friday of August, all this was changed: it was so sudden that Frankie puzzled the whole blank afternoon, and still she did not understand."

“It is so very queer the way it all just happened.”

“Then the spring of that year had been a long queer season. Things began to change and Frankie did not understand this change.”

✒ Então o corpo muda.
Logicamente esse território não teria como estar de fora. No caso das meninas, contudo, há uma engrenagem social que torna o fenômeno mais perverso. A menina confiante que se enxergava (inconscientemente) quase como um ser andrógino, passa a sentir com maior intensidade as pressões relacionadas às rígidas concepções sociais de como uma mulher deve se comportar e se apresentar, notadamente para tornar-se "atraente para garotos". É o terreno fértil para insegurança, baixa autoestima e ansiedade.

Frankie Adamms, aos 12 anos, já contava com 1.67m de altura, calçava sapatos de número 36 e temia o risco de seguir crescendo até virar uma girafona, o que seria péssimo, já que uma dama não pode ser um varapau, não é mesmo? A pobre garota começa a preocupar-se em aparentar seu melhor no casamento do irmão, o que implicaria, na visão dela, em longos cabelos loiros cacheados (porém ela tinha acabado de cortá-los bem curtos!), muitos laçarotes, babados, perfume, sapato apertado. Enfim, somente itens que ela não estava habituada a usar, mas aos quais estaria obrigada a se adequar.
(McCullers:) "this summer she was grown so tall that she was almost a big freak, and her shoulders were narrow, her legs too long. (…) her hair had been cut like a boy's, (…) The reflection in the glass was warped and crooked, but Frankie knew well what she looked like; (...)”
É também quando certos desvios físicos são costumeiramente corrigidos. Eu, por exemplo, tive de encarar aparelhos ortodônticos horrendos; a protagonista do conto de Berlin, coletes para tratamento de escoliose.
(Lucia Berlin:) "But I had this heavy metal brace on my back, for what was called the curvature, let's face it, a hunchback, so I had to get the white blouse and plaid skirt way too big to go over it, (...)" 
                                   


✒ Well then, I'm a FREAK!
Essa recorrência é fascinante, dado que surge de maneira explicitamente similar nas narrativas de O'Connor e McCullers. Em determinados trechos, as respectivas protagonistas mencionam a passagem pela cidade de uma dessas feiras andarilhas de múltiplas atrações, dentre as quais havia a famigerada Tenda dos Freaks. Ainda mais assombroso é que as garotas focam suas atenções na apresentação do hermafrodita, recurso narrativo que novamente parece acentuar os conflitos internos proporcionados pelas expectativas sociais de gênero que elas subitamente precisavam enfrentar.

Certa distinção, todavia, pode ser observada na reação das duas àqueles Freaks. Frankie entra em uma espécie de pânico contido ao considerar que aquela possa ser a turma a qual ela pertence. É o pavor de também ser uma aberração digna de um show circense.
(McCullers:) “She was afraid of all the freaks, for it seemed to her that they had looked at her in a secret way and tried to connect their eyes with hers, as though to say: we know you.”
A protagonista de O'Connor, de outro lado, reagiu de modo peculiar e inesperado: ela apropria-se da resiliência contida nas palavras declaradas pelo hermafrodita para encontrar consolo para seu desespero. Eis o que disse aquele freak: (O'Connor:) This is the way He (God) wanted me to be." Quer dizer, a adolescente conseguiu usar as palavras de teor religioso para se aceitar do jeito que era. Visto que O'Connor era católica fervorosa, não surpreende.

Pessoalmente, sinto que tive uma experiência que resultou da combinação dos casos dessas duas personagens. Comigo, não houve um show de freaks, é lógico, mas uma música. Qual? Voilà, na linda versão piano + Coral Scala, só de garotas:



Quando ouvi essa música pela primeira vez (por volta dos 13-14 anos, creio), sobretudo quando pude associar aquela voz à imagem de um vocalista com pálpebra caída e dentinhos tortos, senti um grande conforto ao perceber que, afinal, eu não estava sozinha! Havia outros creeps por aí que, como eu, não sabiam o que diabos estavam fazendo nesse planeta. (- Obrigada, Thom!)


✒ Solidão, isolamento e não pertencimento.
Aqui é onde desponta aquele meu poeminha. A inspiração para aqueles versos foi esta: meu eu adolescente sentia-se excluído e acreditava (tolinha) que todas as outras garotas populares tinham vidas intensas repletas de acontecimentos, ao passo que nada acontecia comigo. Portanto, como eu poderia chorar; quer de tristeza, quer de alegria? (Rindo:) Perdão pelo tom excessivamente dramático e provavelmente piegas, porém esse é um fato inegável, ainda que embaraçoso. As personagens das obras selecionadas nesse post, além do mais, não permitem que eu minta: todas sentem uma solidão imensa, sentem-se excluídas do mundo e que não pertencem a lugar nenhum. Alguns trechos (de cortar o coração):
(Lucia Berlin:) "(...) I knew that never in my life was I going to get in. Not just fit in, get in. (...) not only unable to get in but seemingly invisible, which was a mixed blessing." 
(McCullers:) “This was the summer when for a long time she had not been a member. She belonged to no club and was a member of nothing in the world." 
“She was an I person who had to walk around and do things by herself. All other people had a we to claim, all others except her.”
No caso de Frankie Addams, McCullers é particularmente cruel, tendo em vista que, naquele verão, 1. as outras garotas não permitiram sua entrada no clube que dava festas com a presença de garotos, 2. sua melhor amiga mudara-se para outro estado, 3. seu irmão partiria de casa após o casamento iminente e 4. até seu gatinho havia fugido de casa para, pasmem, achar uma companheira (teoria da querida personagem Berenice). É demais para uma mocinha de apenas 12 anos, gente!


✒ Som e Penumbra preenchem o vazio.
Admito a possibilidade de que eu tenha viajado nessa percepção, mas a incluirei em meus registros de qualquer jeito. O'Connor e McCullers me pareceram usar penumbra e som, respectivamente, como artifícios aos quais suas protagonistas recorriam, em seus quartos, para disfarçar e/ou aplacar a solidão que as espreitava constantemente; tentativa de criar um aconchego artificial. Seguem os trechos:
(O'Connor:) "She went upstairs and paced the long bedroom (...) She didn't turn on the electric light but let the darkness collect and make the room smaller and more private." 
(McCullers:) “Frankie's room was furnished with an iron bed, a bureau, and a desk. Also Frankie had a motor wich couls be turned on and off; the motor could sharpen knives (...)"

✒ Autoestima tem, mas acabou.
Diante de tudo isso, espanta que essas moças se odiassem?
(O'Connor:) "(...) she knew she would never be a saint. She did not steal or murder but she was a born liar and slothful and she sassed her mother and was deliberately ugly to almost everybody." 
(McCullers:) “This was the summer when Frankie was sick and tired of being Frankie. She hated herself, and had become a loafer and a big no-good who hung around the summer kitchen: (...)"
Que desejassem ser um outro alguém?
(McCullers:) "I wish I was somebody else except me."

✒ Das duas, uma: ou destruição, ou reparação. 
Trata-se, digamos, da direção que o ricochete segue. Algumas garotas rebelam-se a favor da explosão e da destruição. Frankie começa a cometer pequenos furtos pela cidade, a brincar com a pistola do pai e com facas e, efetivamente, a desejar destruir tudo.
(McCullers:) “I just wish I could tear down this whole town.”
Um tipo mais ameno de ira, quase defensiva, direciona-se às garotas que mostravam-se ajustadas à vida (especialmente as mais velhas), sejam aquelas que já estavam namorando e que as excluíam da conversa, sejam as que partiam para o bullying declarado. Para nossas protagonistas, as outras garotas eram estúpidas, tolas e até chamadas de todo tipo de palavrão. Pura salvaguarda.
(O'Connor:) "The child decided, after observing them for a few hours, that they were practically morons and (...) she couldn't have inherited any of their stupidity." 
"Neither one of them could say an intelligent thing and all their sentences began, "you know this boy I know well one time he..." 
(McCullers:) "The son-of-a-bitches.”
Chutando a porta de vez, a personagem da Mansfield revolta-se contra tudo e todos.
(Mansfield:) "How hideous life is-revolting, simply revolting... (...) Go to hell", she shouts, running down the road."
A personagem da Berlin apela para o caminho oposto: empenha-se ao máximo em tentar agradar, para que, de alguma forma, seja aceita e consiga construir qualquer vínculo com alguém. Por ser mais nova, talvez? O desespero da garota é tamanho, tadinha, que ela dedica-se com afinco a agradar até o padre da Igreja Católica que ouvia sua confissão (ela era de família protestante!):
(Berlin:) "Then he asked about my sins. I wasn't lying. I really and trully had no sins to confess. Not a one. I was so ashamed, surely a could think of something. Search deep into your heart, my child... Nothing. Desperate, wanting so bad to please I made one up."
Nesse ponto, Berlin acaba aproximando-se de O'Connor, considerando-se que o universo religioso também traz à sua protagonista algum tipo de alívio para toda aquela pressão. (*As coisas não dão muito certo no final, é verdade.)


✒ Metafísica e crise existencial de sobra.
Pensa que a Lorena do 4o ano B é a única a interessar-se pelo vazio? Então, pense novamente. Todas essas garotas começam a despertar para questões relacionadas à vida, ao universo e tudo mais, entretanto as respostas escapam-lhes completamente. A consequência? Medo, mais solidão e aflição existencial da boa. Seguem algumas instigantes reflexões de nossas personagens:
(Berlin:) "A lot of things were really bothering me in those days, like what gave life to the candles and where the sound came from in the desks. If everything in God's world has a soul, even the desks, since they have a voice, there must be a heaven. I couldn't go to heaven because I was Protestant. I'd have to go to limbo. I would rather have gone to hell than limbo, what an ugly word, like dumbo, or mumbo jumbo, a place without any dignity at all." 
(McCullers:) “She was afraid of these things that made her suddenly wonder who she was, and what she was going to be in the world, and why she was standing at that minute, seing a light, or listening, or staring up into the sky: alone. She was afraid, and there was a queer tightness in her chest.”

✒ Saída? Fugir!
Essa é, aparentemente, a única solução que as personagens vislumbram e a que anseiam fervorosamente. O "para onde" nem importava, mas apenas escapar do sofrimento e explorar o mundo. Retomando nosso símbolo: como conter o vento em um espaço confinado e privá-lo da liberdade de soprar pelos quatro cantos? O conto de Mansfield, por exemplo, encerra com a personagem sonhando acordada a imagem de sua fuga no navio que partia. 

Para Frankie,  o fato do irmão ter passado dois anos servindo ao exército em um lugar tão pitoresco como o Alasca, acrescido das notícias provenientes de vários países durante a então corrente Segunda Guerra Mundial, intensificavam nela a noção de que havia um mundo vasto aguardando que ela o explorasse. Em algum ponto dele, com certeza ela se encontraria. 
(Mansfield:) "They are on board leaning over rail arm in arm. (...) Good-bye, little island, good-bye...(...) the ship is gone, now. 
(McCullers:) “I've been ready to leave this town só long. I wish I didn't have to come back here after the wedding. I wish I was going somewhere for good.” 

“She did not know why she was sad, but because of this peculiar sadness, she began to realize she ought to leave town. (…) but she did not know where she should go.”
**** 
Se pudesse, abraçaria todas essas personagens - e as garotas reais, de carne e osso, que agora enfrentam esse pandemônio - e afirmaria-lhes que esses dias de cão terminam eventualmente. Outros começam, admito, contudo reservaria a revelação desse "detalhe" para uma outra ocasião. 😉


"(...) You are the we of me."

                                                       - Carson McCullers, The Member of the Wedding.


Para exorcizar esses velhos esqueletos do armário, vamos de Florence Welch?


 THE DOG DAYS ARE OVER, FRANKIE! 
(For now.)


10/12/2017

[DROPS] Diários Susan Sontag 1947-1963 [#02]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

- Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagem anterior: #01]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
18/05/1949
"Será que algum dia vou conseguir aprender com a minha própria burrice?"


10/12/2017
Não, acho que o ser humano nunca aprende, Sontag. Bom, pelo menos eu mesma já desisti. Inclusive, suspeito de que o papo que travarei com o capiroto será como aquele da peça do Suassuna:

- Oxe, eu morri, é? E morri de que, Sr. Mefistófeles?
- Lamento informar, mas a senhora morreu foi de burrice mesmo. 
- Mas que merda, hein.
¯\_(ツ)_/¯


➤ 
25/05/1949
“- Meu Deus, viver é uma coisa enorme!"    


10/12/2017












➤ 
 04/06/1949
“Sexo com música! Tão intelectual!!"  

10/12/2017









➤ 
13/02/1950
“De Rilke:
"... a grande questão hereditária: ... se estamos sempre inadequadamente apaixonados, inseguros em nossas decisões, + impotentes em face da morte, como é possível existir?"

...

“Uma vez mortos, nós não sabemos disso, portanto é melhor pensar em estar vivo! Mesmo se morrermos antes de experimentar as coisas que exigimos da vida, não importa quando morremos — só perdemos o momento em que estamos — a vida é horizontal, não vertical — não pode ser acumulada portanto viva, não se humilhe."

10/12/2017
❤❤


➤ 
04/11/1956
“A respeito da morte de Gertrude Stein: saiu de um coma profundo para pedir à sua companheira, Alice Toklas:


[Certeza de que o cachorrinho, ali, sabe a pergunta e a resposta.]
[Espie a cara dele, todo se fazendo de desentendido.]


➤ 
24/12/1956
"David, muito prestativo e carinhoso enquanto se prepara para ir para a cama, ocasião em que houve este diálogo: “E se Deus não tivesse criado o mundo?”. Eu: “Aí a gente não existiria. Isso seria muito ruim, não é?”. Ele: “Não existiria? Nem Moisés?”. Eu: “Como alguém ia existir, se não existisse um mundo para ficar?”. Ele: “Mas, se não havia um mundo, onde é que Deus estava?”. Eu: “Deus existe antes do mundo. Ele não é uma pessoa ou uma coisa”. Ele: “Então, se Deus não é uma pessoa, por que ele teve de descansar?”. Eu: “Bem, a Bíblia fala de Deus como uma pessoa, porque é a única maneira como podemos imaginar Deus. Mas ele não é uma pessoa de verdade”. Ele: “O que ele é? Uma nuvem?”. Eu: “Ele não é uma coisa. Ele é o princípio por trás do mundo todo, a base do ser, em toda parte”. Ele: “Em toda parte? Neste quarto?”. Eu: “Ah, sim”. Ele: “Deus é a melhor coisa que existe?”. Eu: “Exatamente. Boa noite”.


10/12/2017
(Amei essa explicação!)


➤ 
[Com data apenas de 1957]

Em que eu acredito?
Na vida privada
Em mostrar cultura
Em música, Shakespeare, prédios antigos

O que eu aprecio?

Música
Estar apaixonada
Crianças
Dormir
Carne

Meus defeitos
Nunca chegar na hora
Mentir, falar demais
Preguiça
Falta de vontade para recusar



10/12/2017
Em que eu acredito?
(**hoje:)
Na empatia
Em sonhos
Em tartarugas marinhas

O que eu aprecio?
(**hoje:)
Literatura
Chocolate
Música
Serotonina
Paz

Meus defeitos
(**hoje:)
Preguiça
Passividade
Insegurança
Chata toda vida


➤ 
06/01/1957
"Uma espécie de orgulho tolo que advém de manter por muito tempo uma dieta de cultura elevada."

10/12/2017
Sei bem. É uma ideia que as redes sociais andam simbolizando através desta potente imagem:












Seria igualmente tolo orgulhar-se de manter uma dieta exclusiva à base de livros do Dostoiévski, enriquecidos da podridão humana? Hum, interessante. 


➤ 
15/01/1957
"Será que sou eu mesma quando estou sozinha?

Será  que não sou eu mesma quando estou com os outros, nem com o Philip — disso decorre a constante sensação de irritação, com ele, comigo mesma. Mas e sozinha, eu sou eu mesma? Também parece improvável."

10/12/2017
Ah, Sontag, essa questão também me atormenta tanto! Inclusive, já até registrei neste meu diarinho dois trechos dos livros da Woolf e do Pirandello que a abordam. Reproduzo-os novamente:


***

Para encerrar o post, as músicas que a Sontag curtia para render um ~sexo intelectual~. Play!


25/11/2017

Alinhavando Leituras

Algumas de minhas últimas leituras dialogaram de modo tão próximo e instigante em certos pontos específicos, uma complementando e enriquecendo a outra, que escolhi alinhavá-las aqui para um breve registro.


                A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER  ⇿  RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL
 Svetlana Aleksiévitch                                    Ricardo Piglia

A ligação entre essas duas obras iniciou-se a partir da leitura do livro da Svetlana Aleksiévitch. À medida que eu lia o relato das soviéticas que atuaram diretamente na segunda guerra mundial, uma crescente exasperação me atormentava, pois eu sentia que aquelas palavras simplesmente não estavam dando conta de transmitir a realidade vivida pelas mulheres entrevistadas pela autora. O objeto narrado era tão grotesco e aterrorizante, que eu percebia que não estava conseguindo removê-lo do campo da abstração e trazê-lo para a concretude de um real tangível; por mais que eu acreditasse, claro, na veracidade daqueles fatos. Minha relação com o texto transformou-se apenas quando verbalizei, em voz alta, um dos episódios brutais da obra para uma amiga. No instante em que as palavras foram articuladas pela minha boca e que o som emitido atingiu meus próprios ouvidos, minha garganta começou a se estreitar em queimação e tive de conter uma onda súbita de lágrimas. Até então, a simples leitura silenciosa do texto não havia induzido semelhante reação. Ironicamente, dada a similaridade com a oportunidade de verbalização oferecida àquelas mulheres por Aleksiévitch, parece que a leitura oralizada potencializou o poder do texto. Foi, de fato, um fenômeno estranho, o qual não compreendi por completo naquela ocasião.

Meses depois, Respiração Artificial apresentou-me a um trecho que proporcionou certo alento e luz. Piglia, tratando da obra de Kafka, escreve o seguinte (*negritos meus):
“Sobre aquilo de que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado.  
Falar do indizível é pôr em perigo a sobrevivência da linguagem como portadora da verdade do homem. Risco mortal.”  
No instante em que li isso, lembrei de pronto daquelas soviéticas e pensei: pronto; acho que o enigma foi solucionado. Aquelas mulheres, em parceria com Aleksiévitch, ousaram falar/escrever o indizível e, assim, me ensinaram uma lição que tornou-se mais clara mediante a ajuda de Piglia: a linguagem simplesmente não é onipotente. Aquele mundo da segunda guerra mundial, vivido por aquelas combatentes, está além da linguagem. E bom, pelo menos comigo, parece que a oralidade auxiliou a linguagem escrita a melhor executar a árdua tarefa que lhe fora atribuída. O final desse processo, inclusive, acabou por reforçar a importância de conceder àquelas mulheres a chance de verbalizar suas versões da História.


                                      THE LONELY CITY            ⇿                 ENTRE AMIGOS
                                           Olivia Laing                                               Amós Oz

Aqui, até que a questão não me causou tanta surpresa. Li inicialmente The Lonely City – The Adventures in the Art of Being Alone, livro em que Laing explora a relação de artistas com a solidão das grandes cidades – notadamente Nova York, para onde a própria autora havia se mudado e onde enfrentava momentos recorrentes de tremenda solidão -; associada à ironia e à aparente incoerência presente no fato de que, em meio a tantas pessoas, a solidão reine opressivamente.

Na leitura seguinte de Entre Amigos, por sua vez, a prosa delicada e sensível de Amós Oz deixou claro que a solidão não tem nada a ver com estar entre muitas ou poucas pessoas. A vida daqueles que habitam o pequeno kibutz retratado pelo autor israelense é marcada, indiscutivelmente, por uma intensa solidão. A proximidade física com o outro e o maior contato humano facilitado pelo grupo diminuto não garante remédio contra a solidão. Pesquisando posteriormente sobre o livro, encontrei esta fala de Oz que não deixou mais qualquer dúvida sobre minha percepção: 
“Em todo caso, mais do que revisitar o passado, me interessava investigar como uma comunidade criada para aproximar as pessoas colocava-as numa situação limite, diante da solidão, da falta de amor, enfrentando suas perdas. Uma comuna não é certamente um ambiente onde as pessoas vivam em busca de isolamento, mas é justamente a solidão a marca característica dos personagens de Entre Amigos."
É importante destacar que a própria Laing explora a temática de maneira excepcional, deixando claro, em diversos momentos de sua obra, como esse sentimento e a engrenagem social que o alimenta são complexos.
"Cities can be lonely places, and in admitting this we see that loneliness doesn't necessarily require physical solitude, but rather an absence or paucity of connection, closeness, kinship: an inability, for one reason or another, to find as much intimacy as is desired. (...) hardly any wonder, then, that it can reach its apotheosis in a crowd."


                                     THE LONELY CITY     ⇿       A MANUAL FOR CLEANING WOMEN 
     Olivia Laing                                            Lucia Berlin

Nesse ponto, me ative a um outro aspecto do livro de Laing que me admirou bastante: fui informada, implicitamente, que os artistas retratados pela autora também sentiram a necessidade de se expressarem através da escrita. Como encontrava-me na companhia preponderante de pintores e fotógrafos (Andy Warhol, Henry Darger, David Wojnarowicz...), supus que a arte visual que eles exploravam bastaria para que conseguissem exteriorizar tudo aquilo que os inquietava – muitos com passados conturbados e difíceis a serem trabalhados psicologicamente -, mas parece que isso não é a regra. Para muitos artistas (seriam muitos?), a necessidade da escrita, em princípio, acaba surgindo em algum momento. Essa assimilação foi peculiar, considerando-se que praticamente estabelece um contraponto interessante àquela capacidade da linguagem escrita que comentei na abertura desse post: ela até pode não ser onipotente, entretanto há coisas que, sim, só ela é capaz de expressar a contento.

Agora avançarei algumas semanas. Enquanto lia A Manual for Cleaning Women, descobri o quanto Lucia Berlin inspira-se em elementos autobiográficos ao escrever seus contos. Através de uma narrativa que muito remete à ideia de memórias das protagonistas, ela retrata vidas simples - ainda que conturbadas por drogas, alcoolismo, solidão (!!), câncer, morte etc. - que, talvez por isso mesmo, parecem bastante humanas. Pesquisando mais sobre a autora americana, acabei localizando uma entrevista no site Lit Hub (conduzida pelos seus próprios alunos universitários), na qual ela expôs algo que conectou-se admiravelmente com minhas elucubrações relacionadas àqueles artistas anteriormente mencionados:
(* cores e negritos meus:)
"(Writing) It’s a joy to do it. It’s a place to go. It definitely is a place where I am…where I feel my honest self is. When I first started to write, I was alone. My first husband had left me, I was homesick, my parents had disowned me because I had married so young and divorced. I just wrote to—to go home. It was like a place to be where I felt I was safe. And so I write to fix a reality. I just write to fix a time or an event in my own head. As I said in the class it isn’t for therapy, but more for clarity, emotional clarity. To let me see what I really feel about something, to make it sort of acceptable in my head. (…) I think Proust is quite right saying that only neurotic people write. [Laughter] You know? I think writers want to change their realities in some way. You want to show what’s lovable and beautiful and so you sift through your life and you can look at it one way, or you can look at it another. And writers, I think, are people who need to affirm, need an affirmation about their life. And to me, it’s a way to make things positive, not in a corny way, but to make beauty out of negative things or difficult times, or just to make sense."
Transformar a realidade através da escrita e, de certo modo, estabelecer laços de pertencimento. Ok, talvez essa necessidade tenha atraído aqueles artistas do livro da Laing. Aliás, pouco tempo depois, na newsletter Um Lapso Sutil, Tatianne Dantas escreve um certo trecho sobre a escritora Maura Lopes Cansado que, em parte, também me pareceu conectar-se à fala da Berlin e, notadamente, com Henry Darger. Esse artista viveu boa parte da infância e adolescência em um asilo para crianças com retardo mental e, após a morte, foram descobertas milhares de páginas escritas com um texto que representa um incrível exercício imaginativo de reconstrução do real, o qual ele intitulou The Realms of the Unreal (!).  Enfim, o que escreveu Dantas: (* grifos meus:)
"A percepção que tenho de Maura em Hospício é Deus é que a escrita teve uma função vital de atuar como um meio de codificar sua relação subjetiva com o mundo. A noção literária do que é estar em uma instituição se modifica quando uma mulher com um diagnóstico verbaliza sua própria situação e Maura percebia o funcionamento das relações de poder no hospital e tentava mudá-las a partir do seu discurso e atitude. (...) e usava a escrita para afirmar que os rótulos criados na literatura escrita por homens a respeito da mulher não falam sobre a real condição em que as escritoras se viam inseridas."           

    
  THE LONELY CITY          ⇿          A ÉPOCA DA INOCÊNCIA
     Olivia Laing                                         Edith Wharton

Estes dois foram lidos conjuntamente, e pular de um para o outro acabou rendendo uma situação bem engraçada. Em A Época da Inocência, eu encontrava a Nova York do final do século XIX completamente alvoroçada porque uma mulher casada havia largado o marido na Europa para “causar” no noivado alheio. Já em The Lonely City, a protagonista era a Nova York da década de 60-70 marcada 1. pelas festinhas VIP de Warhol no The Factory, onde artistas aprontavam ~altas confusões~, 2. por sessões pornô em diversos cinemas da Times Square, em cujas salas o público fazia tudo que possamos imaginar e 3. por verdadeiras surubas gays que rolavam nas docas do rio Hudson, regadas a muitas drogas. Impossível não se admirar com essa fenomenal evolução da sociedade de Nova York. Ainda mais se pensarmos que, nesse meu caso, o tempo correspondente a um século foi encurtado a uns míseros segundos necessários apenas para trocar de livro. A mágica da literatura!


                                     THE LONELY CITY          ⇿            WALK THROUGH WALLS
                                           Olivia Laing                                         Marina Abramovic

Retomando o olhar para a figura do artista, foi intrigante perceber que, aparentemente, muitos sentem-se como pessoas estranhas e diferentes, provenientes de outro planeta (algo que, inclusive, alimentaria a solidão). Seria um conceito que apelidei de "O Artista Alienígena". A propósito, alienígena é uma palavra boa, tendo em vista que remete bastante à "alienação"; palavra frequente no livro de Laing.

Separando trechos de The Lonely City sobre o tema:
"(Charles Lisanbry falando sobre Warhol:) "He told me he was from another planet. He said he didn't know how he got here." 

"
(dito por Wojnarowicz, trecho de Close to the Knives:) "I think part of what informs this book is the pain of having grown up for years and years believing I was from another  planet. We can all affect each other, by being open enough to make each other feel less alienated."
"Klaus Nomi, mutant chantant, who made an art of being an alien, like no one else on earth." 

"
(sobre Valerie Solanas:) Still shockingly violent now, the manifesto was so far in advance of its time politically as to be almost unreadably strange, written in an alien language, (...)"

Semanas depois, dei de cara com Abramovic compartilhando com seu leitor o que a shamã brasileira Denise lhe dissera:
"You know, you are not from this planet, your DNA is galactic. You came to Earth from a very faraway galaxy, for a purpose."  
She had my full attention. I asked her what my purpose was. She was silent for a while.
Then she said, “Your purpose is to help humans to transcend pain.”
Extraordinário!  (*pescou?)

      
    UMA SOLIDÃO RUIDOSA        ⇿       WALK THROUGH WALLS
         Bohumil Hrabal                                   Marina Abramovic

Esse diálogo foi inesperado e bastante instigante. Em suas memórias, Abramovic comenta a performance Delusional, que ela encenara em Frankfurt, 1994. Nessa peça de cinco atos, Abramovic usa um vestido preto e permanece deitada sobre uma cama de gelo no meio do palco. Espalhadas pelo chão, há inúmeras carcaças de ratos pretos de plástico; enquanto uma entrevista de sua mãe é reproduzida em um telão. Em dado instante, a artista dança energeticamente ao som de uma música folk Húngara. A seguir, um novo vídeo no telão: Abramovic, vestindo um avental de laboratório, discorre sobre ratos. Ela diz que há 6-8 ratos/habitante em Nova York, enquanto Belgrado conta com 25; acrescentando informações relacionadas à incrível capacidade reprodutiva do animal.

Abramovic explica ao leitor que Delusional tratava de todas as coisas das quais ela sentia vergonha: a infelicidade do relacionamento de seus pais, o sentimento de não ser amada, as agressões físicas que sofrera cometidas pela mãe, as brigas dos pais.

Anos depois, ela recorre mais uma vez aos ratos como um dos componentes da perfomance Balkan Baroque, pela qual ela recebe o prêmio de melhor artista na Bienal de Veneza de 1997. Enquanto ela permanece em meio a carcaças reais de animais mortos, ela surge em vídeo narrando a horripilante história do "Wolf Rat". É assim que ela explica, em suma, a essência da obra:
"Really you can only understand the Balkan mentality if you’re from there, or spend a lot of time there. To comprehend it intellectually is impossible—these turbulent emotions are volcanic, insane. There is always war somewhere on this planet, and I wanted to create a universal image that could stand for war anywhere. (...) Here you have the essence of Balkan Baroque: horrifying carnage and an intensely disturbing story, followed by a sexy dance—then a return to more bloody awfulness."
Pois qual não foi minha surpresa quando, semanas depois, encontro Bohumil Hrabal inserindo o protagonista de sua história em um porão repleto de ratos, onde trabalhava compactando papel usado de livros, para lamento da personagem?! E a história de Uma Solidão Ruidosa trata, pelo menos em parte, do regime repressivo da Tchecoslováquia soviética. É fascinante que artistas de estilos tão diferentes como Abramovic e Hrabal, ambos provenientes de países do leste europeu que passaram por regimes autoritários comunistas, tenham pensado no rato como símbolo para tratar de suas experiências, e de maneira assim tão correlata. Trecho do livro de Hrabal:
“(...) e quando tudo estava em silêncio perfeito comecei a ouvir dentes de rato roendo, a ouvi-los destrinchando livros no meu céu, e seu som miúdo me horrorizava, porque era questão de tempo até fazerem um ninho, e poucos meses depois que os ratos fazem ninhos ele fundam um povoado, e seis meses depois formam vilas inteiras, isso se avoluma em progressão geométrica para compor uma cidade, uma cidade de ratos capazes de roer tábuas e vigas com tamanha habilidade que logo, logo (…) duas toneladas inteiras de livros inteiras desabassem na minha cabeça e descarregassem sua vingança em mim por todos os fardos em que compactei a rataria.”
Correto, depois desse livro de Hrabal, a expressão “rato de biblioteca” adquiriu uma nova significação pessoal.

No livro Dictionary of Symbols, J.C. Cirlot descreve isto a respeito do símbolo: "The rat occurs in association with infirmity and death. It was an evildoing deity of the plague in Egypt and China. The mouse, in mediaeval symbolism, is associated with the devil. A phallic implication has been superimposed upon it, but only in so far as it is dangerous or repugnant."

E, claro, ratos já ganharam destaque em outras obras literárias importantes: 1984 (Orwell), Maus (Spiegelman), A Peste (Camus), The Rats in the Walls (Lovecraft).


              AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO      ⇿       DISTÂNCIA DE RESGATE
      Mariana Enriquez                                    Samantha Schweblin


Essa conexão é bem fácil e imediata. Duas escritoras argentinas contemporâneas e extremamente talentosas recorrem a elementos de horror e terror para explorar temas que, originalmente, já são bastante aterrorizantes: violência urbana, ditadura argentina, desigualdade social, patriarcado e machismo, poluição ambiental etc. Dentre as duas, confesso predileção fácil por Enriquez, o que não significa dizer que seja necessariamente a melhor (muito menos a pior!) escritora, ressalto. Na prosa de Schweblin, incomodou-me principalmente o predomínio de um absoluto controle da técnica narrativa em uma prosa que, para além disso, não me ofereceu muito mais. 
                    

                       ZAMA                 ⇿             O DESERTO DOS TÁRTAROS
                                    Antonio Di Benedetto                                     Dino Buzzati

Aqui, deparei-me com o tema comum da espera. A dedicatória escolhida por Di Benedetto pode facilmente ser aplicada ao livro de Buzzati:

"Às vítimas da espera."

Aproveitarei, também, para incluir duas imagens – quase duplas - das adaptações cinematográficas dessas duas obras:

     

A semelhança não é esplêndida? Os dois protagonistas, de pé, encaram o horizonte infinito e vazio como que esperando ansiosamente algo. Mas que diabos de espera é essa? Esperam o quê?  Estariam esperando Godot? Não seria uma resposta de todo equivocada. Se enrolo para responder, é porque esse “o quê” nem importa muito. Acredito que todos nós esperamos alguma coisa, um algo da vida. Como nos casos de Drogo e Zama, o objeto esperado varia de pessoa para pessoa, contudo sua essência costuma ser idêntica: esperamos aquilo que mais ansiamos na vida e que, em última instância, acreditamos que justificará nossa existência. Aquela qualquer coisa que, quanto mais inalcançável, mais desejada é. Daí a gente espera, espera e espera, até que a A Inevitável Espera, aquela objetivamente comum a todos, termina. E nem mesmo temos escolha: esperamos a morte com a certeza de que, esta sim, alcançaremos inevitavelmente. Os protagonistas das obras de Benedetto e Buzzati dão-se conta dessa espera exatamente quando ela termina. Acompanhemos a reflexão final de Drogo:
"Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, e que a sua existência errada pelo menos termine bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena. Ultrapasse com pés firmes o limite da sombra, aprumado como num desfile, e sorria, se conseguir. No fim, sua consciência não está demasiado pesada, e Deus saberá perdoar."
Agora, a de Zama:
"Perguntei-me, não por que vivia, mas por que havia vivido. Supus que pela espera e quis saber se ainda esperava alguma coisa. Pareceu-me que sim. 
Sempre se espera mais. 
No entanto, isto discernia meu entendimento; mas, com prescindência dele, estava entregue a uma inércia violenta, como se minha quota estivesse por esgotar-se, como se o mundo fosse ficar despovoado porque eu não ia mais estar nele."
*** 

E os alinhavos terminam aqui. Aguardarei ansiosamente o que as linhas dos próximos carretéis  alinhavarão pra mim.