22/01/2017

[DROPS] Diários Susan Sontag 1947-1963 [#01]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

- Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
23/11/1947
"eu acredito:
(...)
d) que o único critério para uma ação é a felicidade ou a infelicidade individual que em última instância ela produz;
(...)"


22/01/2017  11/05/2018 *ATUALIZAÇÃO*
A Sontag de 14 anos fez uma listinha de seis coisas nas quais ela acredita (*destaquei aqui uma apenas). 

Minha lista = uma música. > *ATUALIZAÇÃO*: daí que o maluco que "acredita poder voar" está sendo acusado de uns crimes horrorosos, e de jeito nenhum poderia continuar no meu diarinho. Em seu lugar entra, hoje, moço Phil Collins (espero que também não tenha aprontado nada...)


Se bem que, hoje, eu também poderia responder essa pergunta assim: Acredito que estou lascada. 👍

➤ 
13/04/1948
“As ideias perturbam a regularidade da vida.”


22/01/2017
Opa, eu não poderia dizer melhor; especialmente no dia de hoje.

➤ 
 29/07/1948
“...E o que é ser jovem durante anos e de repente despertar para a angústia, a premência da vida?
(...)
É a retração do sentimento pela própria família e por todos os ídolos da infância... É mentir... e o ressentimento, e depois o ódio..."
(...)"


22/01/2017 
Outra listinha com várias respostas para a pergunta que ela mesma apresenta. A minha resposta, hoje, seria esta:
É constatar que o famigerado "você pode ser tudo o que quiser" é uma falácia. 
Criatividade bombando.

➤ 
01/09/1948 
“(...) A montanha mágica [de Thomas Mann] é um livro para toda vida.” 

22/01/2017
Aos 15 anos, Sontag já tinha lido A Montanha Mágica. Eu, aos 15 anos, sequer sabia que existia um autor chamado Thomas Mann. ¯\_(ツ)_/¯

Se é pior, não sei; mas a verdade é que, remediada essa ignorância sobre o autor, ainda não li A Montanha Mágica. Aliás, nunca li nada do Sr. Mann,  porém, como a Sontag diz que é um livro para toda vida, resta-me apenas priorizar a leitura do bendito. (Mas vai demorar um pouco, pois parece-me que TODO.MUNDO decidiu lê-lo agora, então não quero brincar disso. Sim, sou mala desse jeito.)

➤ 
 01/09/1948
“...Quando eu estiver morto, espero que digam: Os seus pecados foram graves, mas seus livros foram lidos.” - Hilaire Belloc

22/01/2017
Gostei disso, contudo nunca ouvi falar desse autor (ironia não intencional) – e como sou pessoa irrelevante, isso não quer dizer nada. Deixe-me pesquisar rapidinho, então. (…) Ok, segundo a Wikipedia:
Joseph Hilaire Pierre René Belloc (1870 — 1953) foi um escritor britânico (...) reconhecido por, juntamente com os outros católicos (G. K. Chesterton, Cecil Chesterton, Arthur Penty), haver previsto o sistema sócio-económico do distributismo. (…) Escreveu muito sobre História, incluindo uma História de Inglaterra em quatro volumes, e vários tratamentos histórico e biográficos da Revolução Francesa (…) Ele era crítico literário e analista social e político, um incessante polemista em muitas áreas, jornalista, novelista e sobretudo, poeta. (…) Os seus poemas podem ser encontrados em muitas antologias de poesia inglesa, mas a sua primeira aventura neste campo foi a dos versos com non sense. O seu livro The Bad Child’s Book of Beasts, escrito enquanto se encontrava em Oxford, em 1896, gerou uma atenção imediata e é considerado nos nossos dias como um clássico.
Entendi. Achei umas imagens curiosas desse livrinho infantil dele, o mencionado The Bad Child’s Book of Beasts

➤ 
01/09/1948
“É inútil para mim registrar somente as partes agradáveis da minha existência – (Afinal, são tão poucas!)”


22/01/2017
Pronto; suponho que essa seja, em parte, a razão pela qual não mantenho uma conta no instagram.

➤ 
19/12/1948 
“Há tantos livros, peças e contos que tenho de ler – eis aqui apenas alguns:” 
(...)
Santuário — William Faulkner

Esther Waters — George Moore

Diário de um escritor — Dostoiévski

Às avessas — Huysmans

O discípulo — Paul Bourget
(...)

22/01/2017
Sempre tantos livros para ler... Listando alguns que separei para tentar ler em 2017:

- A Guerra não tem Rosto de Mulher - Svetlana Aleksiévitch;

- ? - Thomas Mann (Culpa da Sontag. Acho que começarei com Morte em Veneza. Baby Steps.);

- Tudo o que tenho levo comigo – Herta Müller;

- The Golden Notebook - Doris Lessing;

- As I Lay Dying - William Faulkner;

- Coração tão Branco - Javier Marías;

- Crossing to Safety - Wallace Stegner;

- Doutor Jivago - Boris Pasternak;

- Os Luminares – Eleanor Catton;

- Complete Stories – Dorothy Parker (começar);

- The Complete Stories - Flannery O'Connor (começar).

Listo somente esses, porém tem muito mais. Nessa edição dos Diários da Sontag, inclusive, o organizador David Rieff - filho da autora - informa que o diário original dela contava, nessa entrada, com mais de cinco páginas, mais de 100 títulos citados pela Sontag de 15 anos.

No final do ano, tentarei resgatar essa lista, para averiguar meu desempenho.

➤ 
25/12/1948
“A música é, a uma só vez, a mais maravilhosa e a mais viva de todas as artes – é a mais abstrata, a mais perfeita, a mais pura – e a mais sensual.”


22/01/2017
Concordo. Sontag cita isso logo depois de registrar que estava “completamente entretida (…) com uma das obras musicais mais belas que já ouvi – o concerto em si menor para pianoforte de Vivaldi, da gravadora Cetra-Soria, com Mario Salerno. Não achei essa exatamente, contudo tento uma vaga aproximação como registro:



***
Olha só; esse mini post imprestável encerrou com Vivaldi.
Redemption achieved!

16/01/2017

[DL #02] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagem anterior: DL#01.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVRO 02
Old and Young


✒ Estou preocupada com o destino do menino Lydgate na provinciana Middlemarch. O jovem médico chega à cidade com a admirável intenção de revolucionar a medicina no país, uma reforma e província de cada vez, porém, logo de cara, esbarra contra uma eleição bizarra para o religioso que se encarregaria de prestar auxílio espiritual aos pacientes internados nas enfermarias. O que um profissional interessado em exercer medicina baseada em evidências científicas poderia ter a ver com supostos "interesses espirituais" dos pacientes? Mr. Lydgate se faz essa pergunta e até tenta argumentar racionalmente com Mr. Bulstrode - o banqueiro influente; financiador e diretor do conselho hospitalar -, mas não consegue se safar da disputa clerical. Era Mr. Bulstrode quem mandava ali e, para ele, a medicina não era uma questão apenas de cura de doenças mortais. E é nesse meio que Lydgate pretende modernizar a ciência médica. Oh, boy; não vai prestar. 

O que me deixou realmente temerosa por esta personagem, contudo, foi constatar que Mr. Tertius Lydgate claramente ainda não tem o jogo de cintura malevolente e astucioso que a sobrevivência em uma sociedade como Middlemarch exige. Pois não é que esse tonto, embora entrando a contragosto como eleitor obrigatório, encara a empreitada religiosa com seriedade?! Digo, o maluco foi lá e assumiu a tarefa com toda a circunspecção possível, ponderando de forma lógica (um homem da ciência? em assunto clerical?) a respeito dos pontos fortes e fracos dos dois candidatos ao posto, tentando identificar o melhor preparado. - Mas, mas... Seu moço, por que fazer isso?! Surpreendentemente, Mr. Farebrother, um dos próprios clérigos candidatos concorrente de Mr. Tyke, o protegido por Mr. Bulstrode, ousou falar abertamente a Lydgate que, fosse ele esperto e prudente, seu voto já deveria estar mais do que decidido: Mr. Tyke. Por que peitar o banqueirão influente e cheio da grana, votando contra o candidato dele?! Bem, Lydgate também vacila especialmente por conta do perfil de Mr. Farebrother, um clérigo naturalista que admitia sua vocação religiosa duvidosa e revelava-se um ávido entusiasta dos estudos de História Natural e Entomologia. Ou seja, o candidato da oposição detinha um perfil muito mais próximo ao do jovem médico.

Com esse simples enredo, Eliot consegue construir e revelar ao leitor grande parte da personalidade de Lydgate. Mesmo não importando-se com questões religiosas, Lydgate não sente-se moralmente confortável para votar de qualquer jeito, apenas atendendo prontamente aos interesses daquele que poderia beneficiar-lhe no futuro. O doutor não era um homem disposto a facilmente fazer concessões em troca de benesses pessoais. Enfim, Lydgate ingenuamente tarda a constatar que, em Middlemarch, as complexas relações sociais influenciariam, sim, sua prática profissional. Fora dos muros da universidade, afinal, a realidade é bem diferente. 

Além das questões profissionais, vale dizer que minha apreensão pelo destino de Lydgate também relaciona-se à seara ~romântica~. Nosso narrador revela certos eventos do passado amoroso do rapaz que igualmente contribuem bastante para a composição da personalidade dele. O lance é meio intrincado, mas tentarei resumir em nome do registro pessoal, pois adorei a história.* - Que tremenda imaginação, teve a Eliot, quando a escreveu! Bem, um Lydgate mais mocinho, então estudante de medicina em Paris, se apaixona por uma atriz que, enquanto encenava com o marido no palco, acaba matando-o. A mulher foge, pois a sociedade parisiense especula que teria sido um crime premeditado. Lydgate, ~cego pela paixão~, crê que tudo teria sido um acidente e, obcecadamente, revira o mundo atrás da atriz. Quando a localiza, ela confessa-lhe com frieza que matara intencionalmente o marido, tendo decidido o ato de supetão. E pior: ela nega que o marido fosse cruel, displicentemente relatando que ele apenas a cansava com sua dedicação, recusando-se a se mudar de Paris para a terra natal dela. Com um trauma dessa magnitude, somado à fervorosa vocação pela Medicina, a atual indisposição de Lydgate para envolver-se novamente em frívolos casinhos amorosos não espanta em absoluto. Esse erro, ele não tem intenção de repetir; pretendendo evitá-lo mediante o permanente ajuste de expectativas associado a uma abordagem científica da mulher. - Hein? O que diabo seria isso?! Analisar cientificamente uma mulher? Vácuo.

[* = Acabou me lembrando do Dorian Grey, que também apaixonara-se por uma atriz de teatro, a pobre Sibyl Vane. Teria Wilde se inspirado neste trecho de Middlemarch?]

Acompanharei de pertinho o desenrolar dessa treta, pois já ocorre um certo flerte entre ele e Rosamond, a filha do prefeito e sobrinha (pelo lado da esposa) de Mr. Bulstrode. Será que dará merda? Todos os indícios apontam que sim. Yay!


✒ Essa maior imersão no universo de Lydgate propiciou que a narrativa elaborasse um interessantíssimo painel histórico da realidade médica durante o século XIX, na Inglaterra; outra área que também passava por transformações e discussões reformistas.

Elencando sucintamente:
(Obs.: antes, é importante destacar que, nesse livro 2, Eliot explicita o ano em que a história se passa: 1829. Ah, minha estimativa da DL #01 (≈ 1830-32) bateu na trave!)

→ Como já referi, era uma época em que clérigos circulavam pelas enfermarias, encarregados da cura espiritual dos pacientes.

→ Julgando a partir da experiência de Lydgate, os médicos superintendentes dos hospitais eram escolhidos por eleição de conselhos.

→ Lydgate defende, em Middlemarch, a criação de um "fever hospital", o que parece ser os primeiros passos em direção à criação de hospitais especializados em doenças infecciosas, com isolamentos de pacientes contagiosos.

→ Mencionam-se avanços na área da Patologia; incluindo novas pesquisas valendo-se mais extensivamente dos recursos microscópios.

→ Desde aquela época, pelo menos, a ciência médica é uma área entremeada por intrigas, invejas e amabilidades sociais questionáveis.

→ Quanto à educação médica, o narrador afirma que, dado o esforço das universidades em garantir a "pureza do conhecimento", o acesso era exclusivo, caro e escasso. Mesmo assim, diz-se que jovens cavalheiros ignorantes conseguiam o direito de praticar a medicina. Ou seja, embora a profissão não estivesse disponível para qualquer um, havia muitos incompetentes exercendo-a.

→ Em sintonia com o clima reformista do período, havia discussões sobre reformas da educação médica que envolveriam tentativas de descentralizar os centros de ensino para o interior do país. Até então, a centralização ocorria nas capitais europeias.

→ Era uma época em que a preocupação em manter-se atualizado a partir de periódicos científicos como o Lancet era visto com desdém e encarado de forma pejorativa.

Por que Lydgate ousava levar a Middlemarch as novas descobertas científicas, se a cidadezinha já contava com velhos profissionais tão experientes apenas pela prática médica?

→ A relação viciosa dos profissionais com a prescrição desenfreada e irresponsável de remédios parece ser questionada desde aquele período, pelo menos. A narrativa inclui uma crítica implícita à crença vigente, entre médicos e pacientes, de que a prescrição de muitos remédios garantia a excelência profissional. Por conseguinte, existiam mais e mais drogas sendo prescritas, e em posologias cada vez maiores.

E não é só! Fiquei estupefata ao descobrir que, no século XIX, havia decisão legal que impunha a obrigação da prescrição desvinculada de farmácias ou de comissões dos comércios farmacêuticos. Médicos corruptos lucrando em parceria com a produção farmacêutica existiriam há, no mínimo, ≈ 188 anos. Impressionante.

→ Até mesmo a solidificação dos conceitos sobre Medicina Legal e, principalmente, sobre qual profissional estaria apto a exercê-la, estava em voga. Hoje é engraçado pensar (eu acho) que, em outros tempos, magistrados detentores apenas de conhecimentos legais julgavam-se exclusiva e plenamente capacitados para atuar como peritos legistas emitindo laudos de necrópsia. Quero dizer, nem sei se é possível chamar o que eles emitiam de "laudo necroscópico", pois, pelo diálogo do livro, eles apenas colhiam as informações de testemunhas. Que piada.

Essa foi, inclusive, mais uma discussão entre os "sabidões" antiguados de Middlemarch que rendeu dor de cabeça para o Lydgate. É importante frisar, todavia, que o jovem médico peita geral, rebatendo todos os argumentos ignorantes sem acanhamento ou grosseria explícita.

Sim, a luta de Mr. Lydgate é real. Mas ele até que está aguentando bem as pontas. Por enquanto. Seguiremos acompanhando de perto a jornada dele. 
"Any one may see what comes of turning. If you change once, why not twenty times? (...) I am nearly seventy, Mr. Lydgate, and I go upon experience. I am not likely to follow new lights, (...)."


✒ E deu ruim para o suposto One True Pairing - OTP do livro 1: Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon e Mr. Edward Casaubon. Acho que a hipótese inicial de que os dois formariam o par perfeito dessa história pode ser completamente descartada, pois o caldo matrimonial já desandou. Eu suspeitei de que seria rápido, porém Eliot conseguiu me surpreender nessa.

Ainda na lua de mel em Roma, o narrador descreve indícios explícitos de que Dodo constata o tamanho da cagada que cometera ao casar-se com Mr. Casaubon. Nas palavras do narrador: "begun to emerge from that stupidity." (Ouch!). A dinâmica do casal por lá era, no mínimo, peculiar: ele passava o dia fora estudando na biblioteca, enquanto ela frustrava-se sozinha em casa ou em museus pelos quais não manifestava o menor interesse. Ora, os planos de Dorothea era revolucionar o mundo atuando como o braço direito ativo do seu "importante" marido estudioso, e não ser deixada de lado por um esposo que, quanto mais estudava, não demonstrava chegar a lugar algum. Para comparação aproximada, presumo que ela pretendia ser o Dr. Watson do Sherlock Holmes, e acabou sendo o Sancho Pança do Dom Quixote. E olhe lá! É, não está bonito acompanhar a magnitude da decepção de Dorothea diante da dura realidade. Até discussão durante o café da manhã e choros no quarto sozinha aconteceram durante os poucos dias de casamento.

Para tornar tudo mais divertido e complicar um pouco a situação, o jovem priminho de Mr. Casaubon, o Mr. Will Ladislaw, encontrava-se em Roma e, coincidentemente, cruza com Dodo em um museu e começa a se aproximar, dando claros sinais, após poucos dias, de que estava completamente apaixonado por ela. Será que o livro contará com um caso de infidelidade conjugal? Enfrento enorme dificuldade para aceitar que Dorothea, aquela moça puritana com vigorosas convicções religiosas, cometerá adultério. Será? Penso, a princípio, que seria um destino bastante cruel para ela. Bem, só me resta acompanhar.


✒ Queria registrar uma breve especulação: Mr. Lydgate e Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon parecem estabelecer, nessa narrativa, um paralelo de significado relevante. Ambos são bastante ambiciosos, dois jovens passionais que anseiam profundamente por transformar o mundo dentro de suas respectivas áreas de interesse, porém as ferramentas de que dispõem para pôr seus sonhos em prática mostram-se bem divergentes. Como homem, Mr. Lydgate está recebendo todas as oportunidades para atuar ativamente na execução de seus nobres planos - resta saber se terá habilidade necessária para o sucesso -, enquanto a moça Miss Brooke, coitada, teve de contentar-se com o papel secundário de esposa do revolucionário que, agora ela descobre, é um impostor. Claro, preciso prosseguir com a leitura, para testar essa hipótese. O que será que a narrativa reserva para esses dois?

Aproximando essa tese ao título do livro 2 - Old and Young/Velhos e Jovens -, talvez eu possa compor um grupo maior que inclua, junto de Mr. Lydgate e Miss Brooke, outras personagens jovens da história que também confrontam as velhas regras e lutam por seus vigorosos anseios. Cada uma delas parece encontrar dificuldades próprias que encaram de modo particular. Fred Vincy e Ladislaw seriam os panacas que poderiam conquistar tudo, mas não fazem nada. Rosamond é a moça pueril que acha que encontrará um mundo muito diferente fora da sociedade retrógrada de Middlemarch, atingível apenas através de um casamento. Mary Garth... É, acho que ela é a jovem mais sensata de todos, embora esteja nadando contra a maré mais forte. Torço para que tudo dê certo para ela. Mediante tal perspectiva e ampliando essa minha teoria, lanço a dúvida: estaria sendo construído um contraponto entre entre os jovens homens e mulheres quanto ao quesito "oportunidades x aproveitamento"? Conjecturas a serem investigadas ao longo da leitura.

De qualquer jeito, porém, acredito que Mr. Lydgate foi mesmo o principal responsável pelo título do livro 2; representando, na escala individual de Middlemarch, as mudanças que os "jovens" impunham aos "velhos" middlemarchers. Na escala nacional, o “Old and Young/Velhos e Jovens” poderia relacionar-se às mudanças reformistas pelas quais o país atravessava.

✒ Por falar em Mary Garth: necessito dedicar a essa personagem um pouco mais do que algumas míseras linhas, pois ela deu um show no livro dois e me conquistou arrebatadoramente.

Dentre os jovens personagens da história, a situação dela mostra-se como a menos vantajosa. Pena trabalhando como uma espécie de governanta para o intratável Mr. Featherstone e, vinda de família pobre, sua possibilidade de um casamento financeiramente favorável é remota - e isso nem parecia ser sua maior preocupação, na verdade. Apesar dessas desvantagens, Mary Garth não demonstra qualquer tipo de amargura ou ressentimento, mas, ao contrário, um pragmatismo maduro enternecedor. Ela mostra-se conformada ao admitir que não teve talento para ser professora (algo que estranho, pois ela expressa-se de modo bastante inteligente, articulado e irônico) e que, por conta disso, aceita de bom grado (?) o ofício que era plenamente capaz de executar: governanta do velho rico e chato.

Há um diálogo excelente entre ela e Fred Vincy, durante o qual ele tenta convencê-la de que Mary era a responsável por ele não tomar jeito na vida e não dedicar-se ao teste para clérigo, visto que não aceitava casar-se com ele (coisa que nem os pais deles desejavam). Na cabeça do paspalho, ele estaria metido na enrascada de dívidas por culpa dela. Contudo, atirando argumentos certeiros e perspicazes, Mary consegue desmontar o discursinho ridículo de Fred. Ora, apenas ele poderia ser responsável pela própria vida! A conveniência de lançar sobre os outros a culpa de nossos erros é sempre tão tentadora e acolhedora, não é?
Quando Fred sugere que Mr. John Waule (sobrinho de Mr. Featherstone) estaria apaixonado por ela, surge também outro excelente momento de Mary que contesta a equivocada concepção geral de que mulheres inevitavelmente apaixonam-se por homens que as tratam bem:
"(...) it is one of the most odious things in a girl's life, that there must always be some supposition of falling in love coming between her and any man who is kind to her, and to whom she was grateful. I should have thought that I, at least, might have been safe from all that. I have no ground for the nonsensical vanity of fancying everybody who comes near me is in love with me." 
E como se não bastasse, ela aparenta ser uma leitora voraz, tendo recorrido às personagens femininas das peças de Shakespeare para testar a suposição de Fred de que mulheres nunca se apaixonariam por aqueles que conhecem desde sempre. Estou achando que Mary Garth tem algo que remete demais à Elizabeth Bennet (personagem de Pride and Prejudice, da Jane Austen) e, até aqui, ela é minha personagem favorita disparadamente. 

Obs.: ainda a respeito do Fred, ressalto que é bem curiosa a ironia de tentar resolver o futuro dele atirando-o para o ofício religioso. Religião como tábua de salvação financeira para as famílias, garantindo, assim, clérigos sem vocação para o país? Ok, então.


✒ Para encerrar essa entrada, creio que é obrigatório falar novamente do Narrador desse livro, pois ele tem, de fato, características muito particulares e interessantes. Houve uma passagem em que ele falou de si próprio, identificando-se como um "historiador tardo" e preocupado em concentrar-se nas tramas específicas dos destinos humanos que estão sob sua responsabilidade. É um narrador que assume um compromisso explícito com suas personagens e com o leitor. Achei isso fascinante.

O Narrador apresenta essa confissão quando prepara-se para nos revelar a verdadeira essência de Mr. Lydgate, pois o objetivo declarado dele é que conheçamos profundamente o médico, melhor do que qualquer middlemarcher poderia.

Nesse contexto, o Narrador discute um tema que considero bastante relevante: usualmente utilizamos apenas um amontoado de falsas suposições para construir as impressões relacionadas ao caráter das pessoas. A grande realidade é que ninguém conhece ninguém verdadeiramente. Por que dedicaríamos tempo tentando conhecer melhor alguém, se podemos partir para conclusões precipitadas que atendam a nossos interesses, confere? Em Middlemarch, a situação não era diferente, contudo o Narrador faz questão de que nós, leitores, estejamos melhor informados.
"É bem provável que ninguém em Middlemarch tivesse uma ideia do passado de Lydgate tal como aqui rapidamente esboçado; os respeitáveis moradores locais, com efeito, não se davam mais do que os mortais em geral as tentativas ciosas de exatidão na representação mental de algo que não entrasse diretamente em contato com seus sentidos. Não só as jovens virgens da cidade, como também homens de barba grisalha, precipitavam-se não raro em conjecturas para saber como um novo conhecido poderia ser envolvido em seus planos, contentes com um conhecimento muito vago do modo pelo qual a vida o estivera até então forjando para esta instrumentalidade. Middlemarch, de fato, contava com engolir Lydgate e assimilá-lo da maneira mais cômoda."
(De novo: será que Lydgate deixará ser engolido pelos middlemarchers?! Estou aflita por ele e pela maioria das personagens.)

✒ P.S.: admito que escrever sobre Middlemarch de forma concisa tem se mostrado um grande desafio, pois, em pouco mais de 100 páginas, George Eliot insere diversos elementos a serem explorados. Minha impressão, como leitora comum, é que essa obra admite uma quantidade quase infinita de chaves de interpretação. Por exemplo, nem tenho comentado sobre as epígrafes de cada capítulo, mas chutaria que apenas o estudo delas – conjuntamente com os títulos dos livros - garantiria uma tese de mestrado. As epígrafes são fantásticas e algumas intrigam-me demais.

Estou achando esse livro cada vez mais espetacular.

✒ P.S. 2: apesar do ritmo indefinido, tentarei, a partir de agora, priorizar essa leitura, caso contrário terminarei Middlemarch só em 2018! Um livro/semana será o objetivo. Oremos. 

04/01/2017

[The End of the Affair - Graham Greene] x [O Silêncio - Shusaku Endo]

(Sinopse, informações etc. > The End of the Affair: clique 1; O Silêncio: clique 2.)
(* O Silêncio - Editora Planeta Literário; traduzido (do inglês**) por Mário Vilela.)


Oi? Oi, Você está aí?... Olá? Não vai me responder? Tudo bem, pois Você já não me espanta faz tempo. Aliás, se já não me respondia quando eu ainda acreditava piamente em Você, por que haveria de me responder agora, depois que dei-lhe as costas, correto? Da minha parte, não há ressentimentos. De qualquer modo, sou teimosa e me dirigirei a Você mesmo assim e tenho certeza de que vai me ouvir. Sabe por quê? Porque, para variar um pouco, não falarei com Você sobre mim e não serei o assunto (não o principal, pelo menos) do nosso papo unilateral. Isso soa incrível, eu sei, mas pode acreditar em mim. Na verdade, a razão de tamanho evento é que acabo de ler dois livros, um logo após o outro, que falam exatamente de Você. Assim, não falam  de Você, mas Você acaba sendo o foco principal das narrativas (achei). De maneira mais específica, abordam o fenômeno da fé em Você. , olha só, agora eu tenho sua atenção, não é? Você é bem previsível às vezes, francamente. Já sabia que as obras do Greene e do Endo discutem esse mistério da fé em Você? Pois é, eu não sabia disso antes de começar e emendar as leituras, e fui surpreendida. - Por acaso isso foi artimanha sua, hein? Hum... - Dane-se, admitirei: de início, fui surpreendida negativamente. É isso mesmo que Você ouviu. Você não responde, mas eu sei que ouviu perfeitamente. Aliás, consigo quase escutá-lo: "Daniela, se já não crês em mim, como sabes que te respondi? Teu raciocínio é contraditório." Pois saiba que não devo satisfação nenhuma a Você, ok? Posso voltar aos livros? Quando quer, Você consegue ser bem chato, sabe? Como eu dizia: de início, não gostei de descobrir que Você seria o foco principal desses livros, porém os dois autores conseguiram me dobrar por razões diferentes - eles divergem bastante na maneira com que exploram o tema.

***
Quero começar pelo livro do Endo, cuja adaptação cinematográfica produzida pelo Martin Scorsese está prestes a estrear (trailer - aqui). Ah, e adianto de pronto o seguinte: o prefácio da tradução me informou que Endo é conhecido como o "Greene japonês", mas, cá entre nós, comparando exclusivamente esses livros, considerei o Endo superior ao Greene - mas este também com um livro muito bom, ressalvo -, de modo que essa referência me pareceu inoportuna. Shusaku Endo é o Shusaku Endo, excelente autor japonês, e ponto final. (Na minha opinião, logicamente.)

O Silêncio é um romance histórico inspirado nos trabalhos de evangelização que missionários católicos conduziram no Japão durante o século XVII. Você se lembra das coisas horríveis que aconteceram naquele período, não é? Humpf, espero que sim, afinal, não foram poucos os seres humanos que morreram brutalmente em seu nome. Bem, especificamente, pude acompanhar mais de perto a saga do missionário português Sebastião Rodrigues, um rapaz de apenas 27 anos que, com outros dois jovens colegas clérigos, parte para o Japão em 1637 para localizar Cristovão Ferreira, um renomado missionário português, ex-professor desses três na Companhia de Jesus, que, por razões então mal compreendidas, apostatara mediante tortura e havia sumido. Veja bem, meu caro; essa missão na qual os três jovens embarcam pode ser considerada praticamente suicida. É importante destacar que estou falando, aqui, de um período em que a caça aos fiéis e sacerdotes cristãos era brutal e incluía torturas hediondas para forçar a apostasia, como a imersão em água fervente vulcânica. Mas, hey, em nome da fé, parece que vale tudo, não é? E tudo estava bem, pois, no início da jornada, Sebastião Rodrigues encontrava-se realmente inundado pela fé em Você e, ainda que temeroso, não relutou em embarcar de corpo e alma na missão. Só que... Pois é, só que Você parece que não deu as caras por lá, visto que Sebastião Rodrigues e seus companheiros acabaram submetidos às mais penosas e cruéis atrocidades, todas descritas de forma impressionante por Endo (o filme de Scorsese, prevejo, terá cenas de violência muito fortes). Culpa Rodrigues por ter vacilado na fé em Você? Ah, seja sincero: Você não facilita as coisas! Bom, eu não culpo de modo algum o jovem missionário. Enquanto estive ao lado dele através das palavras do autor japonês, consegui escutar com Rodrigues um conjunto bastante variado de ruídos:

- da chuva caindo ritmada, monótona e melancólica;
- das ondas do mar;
- dos gatos miando baixinho;
- do grasnido estridente dos corvos;
- do zumbido das moscas;
- das asas das moscas;
- do canto das rolinhas;
- das vozes orando lastimosas;
- do canto das cigarras;
- do balanço das folhas das árvores;
- dos gemidos dos cristãos torturados, pendurados no poço;

Enfim, eu, leitora, e Rodrigues fomos submetidos a um barulho constante e infernal, o qual era interrompido recorrentemente apenas pelo silêncio de morte. Tantos e distintos sons, e o único que importava a Rodrigues, o Seu, ele não conseguiu ouvir.

"Senhor, por que estais calado? Por que estais sempre calado?..."

Você ousará me dizer que falou com ele justamente através de todos esses sons que listei? Você é tão complicado... Como murmurou o próprio protagonista:

"Por que a vida humana é tão cheia de grotesca ironia?"

Não, eu sei que Você não vai me dizer por quê. Pelo menos não da maneira que eu gostaria: clara, simples, direta e explícita.

Um breve adendo antes de avançar para o Greene: Você não acha irônico que os clérigos que apostataram tenham sido obrigados a viver no Japão, incorporando plenamente a cultura japonesa, inclusive assumindo grotescamente a identidade de japoneses mortos (com direito até às esposas deles!)? Ora, e a missão católica não prestava-se a fazer exatamente o mesmo tipo de agressão com os japoneses? Impor a religião ocidental àquele povo? Enfim, reflexões apenas; pois Você bem sabe que não disponho de resposta certa para coisa alguma. Perguntas, tenho muitas.

***

E o Greene, hein? Ah, do Greene, eu tenho quase certeza de que Você vai gostar um pouco mais; sabe por quê? Porque, no livro do autor americano, Você responde!  Sim! Parece-me que o Greene compreende e aceita plenamente uma espécie de variação daquela assertiva que diz que Você "escreve certo, por linhas tortas". Seria "responde através de mensagens cifradas"? Sei lá, somente especulo.

Em The End of The Affair (também já adaptado para o cinema - trailer aqui x), avançamos para o século XX, especificamente para a Inglaterra em plena Segunda Guerra Mundial - é, mais seres humanos morrendo de forma hedionda, sem que Você faça (quase?) nada (aparentemente?). Bom, a casa em que um casal apaixonado encontra-se reunido em mais uma escapadela adúltera (a mulher era casada) é bombardeada ferindo gravemente o homem. A mulher, ao avistar o amante caído desacordado sob escombros, supõe que ele estava morto e suplica a Você: 
"Dear God, make me believe. (...) Let him be alive, and I will believe. Give him a chance. Let him have this happiness. Do this and I'll believe."
Sabe o que acontece depois? Isso mesmo que Você está imaginando: o cara entra vivinho da silva no quarto! Um milagre! Hum, seria mesmo um milagre? O homem estava morto ou ela foi precipitada em assumir que ele havia falecido? Greene não elimina a dúvida. De qualquer jeito, depois de tamanho assombro, Sarah, a mulher, não consegue mais manter a incredulidade em Você e, como gratidão, termina o caso com o amante. Em certo ponto, o Greene vai lá e coloca essa sua protagonista até mesmo obrando supostos milagres. (Preciso dizer que achei essa parte um bocadinho forçada?)
***

Você já consegue perceber, então, o paralelo interessante entre esses dois livros? Na obra do Endo, o protagonista inicialmente repleto de fé, vacila penosamente por conta do silêncio que Você mantém diante de tantas brutalidades; enquanto na do Greene, a protagonista, no começo ateia, conquista uma fé robusta, capaz de afastá-la do homem que ama, porque Você teria rompido finalmente o silêncio e respondido as súplicas dela. Foi uma sequência realmente curiosa de leitura. Teve dedo seu, não teve?

Bem, peço apenas que me compreenda e aceite: não é fácil adquirir e, principalmente, manter a fé em Você. O Greene lembra até de um fato instigante que ajuda a corroborar isso: nós temos dificuldade em acreditar até no amor explicitamente confesso de humanos de carne e osso; imagine, então, naquele de um Deus que não enxergamos, que não responde a nossas perguntas e que permite que soframos tanto! Explico melhor: na história do americano, Mr. Bendrix, o amante, só consegue acreditar que Sarah o amava, quando lê o diário dela. As falas e atos de Sarah não bastaram para Bendrix. Ou seja, até com outros humanos, nós aplicamos o "ver para crer." E lembro que, em The End of the Affair, tratamos de um relacionamento amoroso (no meio da Guerra, ok), hein! Calcule, então, as dificuldades do pobre jovem Ferreira, tão açoitado pela violência japonesa.

Enfim, só consigo terminar essas ruminações, repetindo as palavras do querido missionário:
"Por que a vida humana é tão cheia de grotesca ironia?"
- Shusaku Endo, O Silêncio.

(P.S.: Conforme afirmei antes, sei que Você não me responderá essa pergunta do jeito que eu gostaria. E tudo bem. Acho...?)

02/01/2017

The Enchanted April - Elizabeth Von Arnim

(Sobre o livro: info, sinopse etc.)
"And here she was going off, spending precious money on going off, simply and solely to be happy. One woman. One woman being happy, and these piteous multitudes..."


Então duas mulheres inglesas do início do século XX levam vidas lazarentas no interior do país e decidem mandar um (paráfrase, claro:) “foda-se essa merda e, principalmente, fodam-se nossos maridos”, picar as mulas e curtir adoidado o verão em um castelo medieval na Itália?! Eita, mas então essa preciosidade de 1922 é, praticamente, uma versão literária do filme Thelma e Louise! Pensando bem, talvez seja mais apropriado, por razões temporais óbvias, elaborar essa alusão em sentido inverso: Thelma e Louise é a versão cinematográfica modernizada de The Enchanted April! Calma, as narrativas não são lá completamente iguaizinhas, mas pareceu-me, de fato, que há uma espécie de espírito similar entre ambas. De qualquer jeito, não preciso forçar comparações, pois posso recorrer diretamente à adaptação específica do livro para o cinema (que não vi) como sinopse da história. Segue o trailer do filme de 1991 (recebeu três indicações ao Oscar, inclusive a de melhor roteiro adaptado):



Como é possível perceber pelo vídeo, na verdade não são apenas duas, e sim quatro mulheres que convivem juntas no retiro veranil em San Salvatore. Na minha percepção, é durante a primeira metade do livro, exatamente quando essas mulheres desconhecidas não apenas ao leitor, mas também umas às outras, são apresentadas e reunidas na singela aventura, que a prosa de Von Arnim exibe suas máximas qualidades. Valendo-se de um humor despretensioso e mediante abordagem que me pareceu até feminista, a autora britânica – prima da Katherine Mansfield! - apresenta com precisão, ainda que de maneira leve, as realidades pessoais de cada uma das quatro protagonistas, as quais servem como panorama diversificado da condição assumida em sociedade por parte das mulheres inglesas daquele período. Tentando esquematizar nossas heroínas, teríamos:

Mrs. Lotty Wilkins - Trinta e poucos anos, habitante de Hampstead, casada com um marido controlador que sempre impunha-lhe o esforço de economizar dinheiro - desde que não afetasse a qualidade das comidinhas dele, obviamente, as quais deveriam estar sempre muito bem preparadas pela esposa. Lotty era o tipo de pessoa que ninguém notava, vestida sempre com suas roupinhas usadas adquiridas nas lojas de caridade. Nas palavras da própria irmã, ela era alguém que "deveria permanecer em casa". Após ler o anúncio do aluguel de um castelo italiano, é justamente ela quem toma a iniciativa para concretizar a viagem, tentando convencer a si própria de que suas economias financeiras existiam precisamente para a felicidade que um verão na Itália poderia proporcionar. Na cara dura, Lotty aborda e convida uma desconhecida que, por coincidência, encarava sonhadoramente o mesmo anúncio e que também parecia compartilhar com ela do mesmo olhar de pessoa infeliz.

Mrs. Rose Arbuthnot - Trinta e poucos anos, casada, também habitante de Hampstead e intensamente envolvida nos trabalhos da igreja local. Seu marido era muito distante, não se interessando por nada relacionado à vida da esposa. A atuação dele como escritor de romances históricos eróticos acabava colidindo com as convicções religiosas de Rose e contribuía para o afastamento entre os dois. Ela era uma mulher que havia perdido um filho e, aparentemente, despistava a mordaz solidão dedicando-se avidamente à liderança de trabalhos filantrópicos e religiosos na cidade. 

Quando Lotty, pessoa com quem nunca antes havia trocado uma palavra sequer, a aborda para instigar-lhe o espírito aventureiro, Rose é lançada em um árduo conflito interno moral. De certa maneira, essa protagonista tende a representar aquelas mulheres cujas mentes estão bastante moldadas por certa ideologia religiosa que as faz acreditarem que a fé e o serviço à Igreja são suficientes para garantir a felicidade plena - se infelizes, é porque estão falhando em suas dedicações. Confrontada pelo convite inusitado de Lotty, Rose inicialmente resiste em admitir para si mesma que sua devoção fervorosa à tétrade "Deus, Marido, Lar e Obrigações" não estava sendo capaz de afastar o sentimento de frustração e insatisfação com a própria vida. 
 “For years she had been able to be happy only by forgetting happiness. She wanted to stay like that. She wanted to shout out everything that would remind her of beautiful things, that might set her off again, desiring...”
Nesse ponto em que Lotty e Rose confabulam a respeito da possibilidade de tornar a fantasia em realidade, Von Arnim igualmente explora, com muita delicadeza, o famigerado sentimento aviltante de não sermos dignas de momentos de prazer exclusivamente pessoal; de não termos o direito, ainda que por um mês apenas, de sermos "egoístas" a ponto de nos concedermos férias das ocupações domésticas, religiosas e/ou laborais em troca de um tempo feliz. Quando a chance dessa escapadela surge, a aspiração justa delas esbarra contra a sensação de culpa, a despeito da vida de completa abnegação que ambas conduziam; surgindo ainda incertezas quanto à conveniência de gastar dinheiro em algo que, em princípio, aparentava-lhes tão mesquinho.

Nesse contexto, portanto, Lotty e Rose são duas mulheres unidades pela infelicidade em comum. Isso pode soar desolador, contudo o laço entre ambas rapidamente se fortalece, evoluindo para uma revigorante e alegre amizade patrocinada pela empreitada que seguiriam juntas (sem que os maridos soubessem): um verão encantado no mediterrâneo italiano.
“She looked so unhappy. Why couldn't two unhappy people refresh each other on their way trough this dusty business of life by a little talk – real, natural talk, about what they felt, what they would have liked, what they still tried to hope?”
Para reduzir os custos com a viagem, e dado que o castelo dispunha de quartos sobrando, Lotty e Rose decidem anunciar vagas para outras mulheres; momento em que entram em cena as outras duas protagonistas.

Lady Caroline Dester - Jovem solteira de vinte e oito anos, rica e pertencente à alta sociedade londrina. Caroline, proveniente de um meio totalmente diferente daquele habitado por Rose e Lotty, lança-se naquela jornada por razões bem distintas. Scrap, como era apelidada por seus pares, é propelida pelo anseio de partir para um lugar onde ninguém a conhecesse, longe das futilidades sociais e dos homens que a sufocavam intrusivamente por conta de sua beleza estonteante. Caroline estava de saco cheio das atenções e das falsas bajulações do meio social no qual era obrigada a circular e, principalmente, atravessava aquele momento em que o jovem adulto questiona o sentido da sua própria existência. Com tal motivação, é quase lógico descobrir que Caroline não queria saber de papo com nenhuma das colegas de viagem.

Parte do conflito dessa personagem pode tornar-se ligeiramente engraçado, uma vez que relaciona-se demais com o martírio (?) de ser extraordinariamente linda. Bom, cada qual com seus problemas, não é mesmo? Além disso, pela maneira como é descrito, parece mesmo ser insuportável ter um bando de homens chatos aporrinhando os pacovás, simplesmente por não saberem lidar com uma mulher bonita. Sobretudo para alguém como Caroline, que não buscava um marido após ter perdido o homem que amava durante a primeira guerra mundial.

Mrs. Fisher - Senhora sexagenária, viúva há 11 anos e respeitada por figuras importantes de Londres. Por conta do convívio com muitos artistas, já que o pai atuara como renomado crítico de artes, poderia ser considerada uma "metida a intelectual" (para ilustrar, registro que o narrador comicamente afirma que ela só falava "o italiano de Dante" - que, veja só, não era útil em quase nada). Claramente distinta das outras três, Mrs. Fisher interessava-se apenas em ser deixada quieta em um canto, sob o sol, para rememorar - seja lá o que isso signifique -, pois o verdadeiro valor das coisas pertencia ao passado, em tudo superior ao presente. O que Mrs. Fischer mais almejava naquele castelo era estabelecer uma distância segura das outras três mais jovens.

Curiosamente, a narrativa sugere que ela retrata as mulheres idosas da época que detinham um pensamento mais conservador, retrógrado e, por que não, até mesmo machista. Ela só conseguia enxergar grandeza de pensamento em homens, e uma das breves pérolas que ela declara, por exemplo, é esta: "Well, at least he was a man, and therefore not quite so annoying (...)". 
Simultaneamente, ao tentar confortar as angústias de Caroline, Mrs. Fisher só consegue desembuchar este conselho:
"I should say that what a young woman like you wants is a husband and children. (...) I shouldn't trouble my head if I were you with considerings and conclusions. Women's heads weren't made for thinking, I assure you."
Pois é, Mrs Fischer não conseguia compreender por que Caroline queria muito mais da vida, além de ser admirada por olhares masculinos embasbacados; afinal as mulheres existiriam apenas para isto: serem contempladas. Oportunamente, ocorre-me agora que a repercussão midiática em torno da atual primeira-dama brasileira indica que parte considerável dos cidadãos do país, quase um século mais velhos que Mrs. Fischer, pensam do mesmo jeitinho que ela. Interessante. Enfim, não surpreende que, por diversas vezes, Arnim utiliza essa protagonista para expor o choque de pensamento entre os grupos etários femininos.

Por outro lado, a mesma viúva ~deliciosamente~ chega a comparar o falecido marido a um prato de macarrão! (Há passagens que permitem subentender que ela tinha sido traída pelo esposo.)
"He had, during their married life behaved very much like maccaroni. He had slipped, he had wriggled, he had made her feel undignified, and when at last she had got him safe, as she thought, there had invaribly been little bits of him that still, as it were, hung out."
Pelo jeito, os maridos daquele presente continuavam meio parecidos com os maridos do passado, de modo que seria possível supor que as diferentes gerações de mulheres seguiam vivenciando dificuldades matrimoniais correlatas.

***
À medida que a narrativa avança, percebemos claramente que não houve nenhuma aleatoriedade quando Arnim adotara a palavra "Encantado" para adjetivar o "Abril" que intitula a obra. O cenário deslumbrante de San Salvatore assume poderes praticamente mágicos capazes de operar milagres nas vidas daquelas inglesas infelizes, cada uma a sua maneira (Oi, Tolstói!). Por desvencilharem-se das rotinas mecanizadas que as oprimiam, e inspiradas pelo belíssimo cenário italiano, essas mulheres recebem a oportunidade de finalmente conhecerem-se verdadeiramente, descobrindo o prazer que é possível encontrar estando sozinhas, mas não solitárias, com seus próprios pensamentos. Lotty, por exemplo, surpreende-se com o efeito que a felicidade no castelo opera em Rose, e em si mesma, visto que ela sempre havia nutrido a certeza de que o ser humano conquistaria a bondade enlevada apenas mediante dor e sofrimento. Todas as personagens iniciam a história desejando isolamento e, por ação miraculosa italiana, aproximam-se cada vez mais; contestando a máxima "a primeira impressão é a que fica". Elas desconectam-se por completo das realidades que deixam para trás e, quase como encanto, têm suas vidas e personalidades transformadas por completo - até mesmo os homens que, como o trailer indica, eventualmente acabam dando as caras por lá.

Para corações um tanto empedrados e cínicos como o meu, acredito que, nesse ponto da narrativa, as coisas degringolam um pouquinho. Um mês de férias pode ser realmente assim tão conveniente e extraordinariamente milagroso?! Penso que não tenho otimismo suficiente para engolir, sem pestanejar, a magnitude das mudanças por que todos passam. Acrescentaria, também, uma outra pequena crítica fabulosa compartilhada por uma leitora no Goodreads (usuária Elli) e com a qual concordo plenamente (tradução livre minha): "Até o ponto anterior à chegada dos homens, tudo estava ótimo e eu realmente curtia o livro. Então os homens chegam no castelo, um por um, e eu passei a gostar cada vez menos do livro."  Homens estragando tudo; tsc, tsc. ¯\_(ツ)_/¯

Apesar dessas pequenas alfinetadas típicas de chatonilda, trata-se de uma leitura deliciosa, típica daqueles livros que abraçam de modo aconchegante o leitor. Gostei bastante e ganhei mais uma autora para minha lista de britânicas do século XX favoritas.

Ah, e a mensagem que o livro deixa comigo, em um gif, é esta: