02/01/2017

The Enchanted April - Elizabeth Von Arnim

(Sobre o livro: info, sinopse etc.)
"And here she was going off, spending precious money on going off, simply and solely to be happy. One woman. One woman being happy, and these piteous multitudes..."


Então duas mulheres inglesas do início do século XX levam vidas lazarentas no interior do país e decidem mandar um (paráfrase, claro:) “foda-se essa merda e, principalmente, fodam-se nossos maridos”, picar as mulas e curtir adoidado o verão em um castelo medieval na Itália?! Eita, mas então essa preciosidade de 1922 é, praticamente, uma versão literária do filme Thelma e Louise! Pensando bem, talvez seja mais apropriado, por razões temporais óbvias, elaborar essa alusão em sentido inverso: Thelma e Louise é a versão cinematográfica modernizada de The Enchanted April! Calma, as narrativas não são lá completamente iguaizinhas, mas pareceu-me, de fato, que há uma espécie de espírito similar entre ambas. De qualquer jeito, não preciso forçar comparações, pois posso recorrer diretamente à adaptação específica do livro para o cinema (que não vi) como sinopse da história. Segue o trailer do filme de 1991 (recebeu três indicações ao Oscar, inclusive a de melhor roteiro adaptado):



Como é possível perceber pelo vídeo, na verdade não são apenas duas, e sim quatro mulheres que convivem juntas no retiro veranil em San Salvatore. Na minha percepção, é durante a primeira metade do livro, exatamente quando essas mulheres desconhecidas não apenas ao leitor, mas também umas às outras, são apresentadas e reunidas na singela aventura, que a prosa de Von Arnim exibe suas máximas qualidades. Valendo-se de um humor despretensioso e mediante abordagem que me pareceu feminista, a autora britânica – prima da Katherine Mansfield! - apresenta com precisão, ainda que de maneira leve, as realidades pessoais de cada uma das quatro protagonistas, as quais servem como panorama diversificado da condição assumida em sociedade por parte das mulheres inglesas daquele período. Tentando esquematizar nossas heroínas, teríamos:

Mrs. Lotty Wilkins - Trinta e poucos anos, habitante de Hampstead, casada com um marido controlador que sempre impunha-lhe o esforço de economizar dinheiro - desde que não afetasse a qualidade das comidinhas dele, obviamente, as quais deveriam estar sempre muito bem preparadas pela esposa. Lotty era o tipo de pessoa que ninguém notava, vestida sempre com suas roupinhas usadas adquiridas nas lojas de caridade. Nas palavras da própria irmã, ela era alguém que "deveria permanecer em casa". Pois é justamente ela quem toma a iniciativa, após ler o anúncio de aluguel do castelo italiano, para concretizar a viagem, tentando convencer a si própria de que suas economias financeiras existiam precisamente para a felicidade que um verão na Itália poderia proporcionar. Na cara dura, Lotty aborda e convida uma desconhecida que, coincidentemente, encarava sonhadoramente o mesmo anúncio e que também parecia compartilhar com ela do mesmo olhar de pessoa infeliz.

Mrs. Rose Arbuthnot - Trinta e poucos anos, casada, também habitante de Hampstead e intensamente envolvida nos trabalhos da igreja local. Seu marido era muito distante, não se interessando por nada relacionado à vida da esposa. A atuação dele como escritor de romances históricos eróticos acabava colidindo com as convicções religiosas de Rose e contribuía para o afastamento entre os dois. Ela era uma mulher que havia perdido um filho e, aparentemente, despistava a mordaz solidão dedicando-se avidamente à liderança de trabalhos filantrópicos e religiosos na cidade. 

Quando Lotty, pessoa com quem nunca antes havia trocado uma palavra sequer, a aborda para instigar-lhe o espírito aventureiro, Rose é lançada em um árduo conflito interno moral. De certa maneira, essa protagonista tende a representar aquelas mulheres cujas mentes estão bastante moldadas por certa ideologia religiosa que as faz acreditarem que a fé e o serviço à Igreja são suficientes para garantir a felicidade plena - se infelizes, é porque estão falhando em suas dedicações. Confrontada pelo convite inusitado de Lotty, Rose inicialmente resiste em admitir para si mesma que sua devoção fervorosa à tétrade "Deus, Marido, Lar e Obrigações" não estava sendo capaz de afastar o sentimento de frustração e insatisfação com a própria vida. 
 “For years she had been able to be happy only by forgetting happiness. She wanted to stay like that. She wanted to shout out everything that would remind her of beautiful things, that might set her off again, desiring...”
Nesse ponto em que Lotty e Rose confabulam a respeito da possibilidade de tornar a fantasia em realidade, Von Arnim igualmente explora, com muita delicadeza, o famigerado sentimento aviltante de não sermos dignas de momentos de prazer exclusivamente pessoal; de não termos o direito, ainda que por um mês apenas, de sermos "egoístas" a ponto de nos concedermos férias das ocupações domésticas, religiosas e/ou laborais em troca de um tempo feliz. Quando a chance dessa escapadela surge, a aspiração justa delas esbarra contra a sensação de culpa, a despeito da vida de completa abnegação que ambas conduziam; surgindo ainda incertezas quanto à conveniência de gastar dinheiro em algo que, a princípio, aparentava-lhes tão mesquinho.

Nesse contexto, portanto, Lotty e Rose são duas mulheres unidades pela infelicidade em comum. Isso pode soar desolador, contudo o laço entre ambas rapidamente fortalece-se, evoluindo para uma revigorante e alegre amizade patrocinada pela empreitada que seguiriam juntas (sem que os maridos soubessem): um verão encantado no mediterrâneo italiano.
“She looked so unhappy. Why couldn't two unhappy people refresh each other on their way trough this dusty business of life by a little talk – real, natural talk, about what they felt, what they would have liked, what they still tried to hope?”
Para reduzir os custos com a viagem, e dado que o castelo dispunha de quartos sobrando, Lotty e Rose decidem anunciar vagas para outras mulheres; momento em que entram em cena as outras duas protagonistas.

Lady Caroline Dester - Jovem solteira de vinte e oito anos, rica e pertencente à alta sociedade londrina. Caroline, proveniente de um meio totalmente diferente daquele habitado por Rose e Lotty, lança-se naquela jornada por razões bem distintas. Scrap, como era apelidada por seus pares, é propelida pelo anseio de partir para um lugar onde ninguém a conhecesse, longe das futilidades sociais e dos homens que a sufocavam intrusivamente por conta de sua beleza estonteante. Caroline estava de saco cheio das atenções e das falsas bajulações do meio social no qual era obrigada a circular e, principalmente, atravessava aquele momento em que o jovem adulto questiona o sentido da sua própria existência. Com tal motivação, é quase lógico descobrir que Caroline não queria saber de papo com nenhuma das colegas de viagem.

Parte do conflito dessa personagem pode tornar-se ligeiramente engraçado, uma vez que relaciona-se enormemente com o martírio (?) de ser extraordinariamente linda. Bom, cada qual com seus problemas, não é mesmo?* Além disso, pela maneira como é descrito, parece mesmo ser insuportável ter um bando de homens chatos aporrinhando os pacová, simplesmente por não saberem lidar com uma mulher bonita. Ainda mais para alguém como Caroline, que não buscava um marido após ter perdido o homem que amava durante a primeira guerra mundial.
(Sim, é isso mesmo que você está pensando: eu não sou bonita e não faço ideia de como deve ser, na prática, carregar aquele tipo de beleza capaz de constranger vizinhos.)

Mrs. Fisher - Senhora sexagenária, viúva há 11 anos e respeitada por figuras importantes de Londres. Por conta do convívio com muitos artistas, já que o pai atuara como renomado crítico de artes, poderia ser considerada uma "metida a intelectual" (para ilustrar, registro que o narrador comicamente afirma que ela só falava "o italiano de Dante" - que, veja só, não era útil em quase nada). Claramente distinta das outras três, Mrs. Fisher interessava-se apenas em ser deixada quieta em um canto, sob o sol, para rememorar - seja lá o que isso signifique -, pois o verdadeiro valor das coisas pertencia ao passado, em tudo superior ao presente. O que Mrs. Fischer mais almejava naquele castelo era estabelecer uma distância segura das outras três mais jovens.

Curiosamente, a narrativa sugere que ela retrata as mulheres idosas da época que detinham um pensamento mais conservador, retrógrado e, por que não, até mesmo machista. Ela só conseguia enxergar grandeza de pensamento em homens, e uma das breves pérolas que ela declara, por exemplo, é esta: "Well, at least he was a man, and therefore not quite so annoying (...)". 
Simultaneamente, ao tentar confortar as angústias de Caroline, Mrs. Fisher só consegue desembuchar este conselho:
"I should say that what a young woman like you wants is a husband and children. (...) I shouldn't trouble my head if I were you with considerings and conclusions. Women's heads weren't made for thinking, I assure you."
Pois é, Mrs Fischer não conseguia compreender por que Caroline queria muito mais da vida, além de ser admirada por olhares masculinos embasbacados; afinal as mulheres existiriam apenas para isto: serem contempladas. Oportunamente, ocorre-me agora que a repercussão midiática em torno da atual primeira-dama brasileira indica que parte considerável dos cidadãos do país, quase um século mais velhos que Mrs. Fischer, pensam do mesmo jeitinho que ela. Interessante. Enfim, não surpreende que, por diversas vezes, Arnim utiliza essa protagonista para expor o choque de pensamento entre os grupos etários femininos.

Por outro lado, a mesma viúva ~deliciosamente~ chega a comparar o falecido marido a um prato de macarrão! (Há passagens que permitem subentender que ela tinha sido traída pelo esposo.)
"He had, during their married life behaved very much like maccaroni. He had slipped, he had wriggled, he had made her feel undignified, and when at last she had got him safe, as she thought, there had invaribly been little bits of him that still, as it were, hung out."
Pelo jeito, os maridos daquele presente continuavam meio parecidos com os maridos do passado, de modo que seria possível supor que as diferentes gerações de mulheres seguiam vivenciando dificuldades matrimoniais correlatas.

***
À medida que a narrativa avança, percebemos claramente que não houve nenhuma aleatoriedade quando Arnim adotara a palavra "Encantado" para adjetivar o "Abril" que intitula a obra. O cenário deslumbrante de San Salvatore assume poderes praticamente mágicos capazes de operar milagres nas vidas daquelas inglesas infelizes, cada uma a sua maneira (Oi, Tolstói!). Por desvencilharem-se das rotinas mecanizadas que as oprimiam, e inspiradas pelo belíssimo cenário italiano, essas mulheres recebem a oportunidade de finalmente conhecerem-se verdadeiramente, descobrindo o prazer que é possível encontrar estando sozinhas, mas não solitárias, com seus próprios pensamentos. Lotty, por exemplo, surpreende-se com o efeito que a felicidade no castelo opera em Rose, e em si mesma, visto que ela sempre havia nutrido a certeza de que o ser humano conquistaria a bondade enlevada apenas mediante dor e sofrimento. Todas as personagens iniciam a história desejando isolamento e, por ação miraculosa italiana, aproximam-se cada vez mais; contestando a máxima "a primeira impressão é a que fica". Elas desconectam-se por completo das realidades que deixam para trás e, quase como encanto, têm suas vidas e personalidades transformadas por completo  - até mesmo os homens que, como o trailer indica, eventualmente acabam dando as caras por lá.

Para corações um tanto empedrados e cínicos como o meu, acredito que, nesse ponto da narrativa, as coisas degringolam um pouquinho. Um mês de férias pode ser realmente assim tão conveniente e extraordinariamente milagroso?! Penso que não tenho otimismo suficiente para engolir, sem pestanejar, a magnitude das mudanças por que todos passam. Acrescentaria, também, uma outra pequena crítica fabulosa compartilhada por uma leitora no Goodreads (usuária Elli) e com a qual concordo plenamente (tradução livre minha): "Até o ponto anterior à chegada dos homens, tudo estava ótimo e eu realmente curtia o livro. Então os homens chegam no castelo, um por um, e eu passei a gostar cada vez menos do livro."  Homens estragando tudo; tsc, tsc. ¯\_(ツ)_/¯

Apesar dessas pequenas alfinetadas típicas de chatonilda, trata-se de uma leitura deliciosa, típica daqueles livros que abraçam de modo aconchegante o leitor. Gostei bastante e ganhei mais uma autora para minha lista de britânicas do século XX favoritas.

Ah, e a mensagem que o livro deixa comigo, em um gif, é esta:

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