04/01/2017

[The End of the Affair - Graham Greene] x [O Silêncio - Shusaku Endo]

(Sinopse, informações etc. > The End of the Affair: clique 1; O Silêncio: clique 2.)
(* O Silêncio - Editora Planeta Literário; traduzido (do inglês**) por Mário Vilela.)


Oi? Oi, Você está aí?... Olá? Não vai me responder? Tudo bem, pois Você já não me espanta faz tempo. Aliás, se já não me respondia quando eu ainda acreditava piamente em Você, por que haveria de me responder agora, depois que dei-lhe as costas, correto? Da minha parte, não há ressentimentos. De qualquer modo, sou teimosa e me dirigirei a Você mesmo assim e tenho certeza de que vai me ouvir. Sabe por quê? Porque, para variar um pouco, não falarei com Você sobre mim e não serei o assunto (não o principal, pelo menos) do nosso papo unilateral. Isso soa incrível, eu sei, mas pode acreditar em mim. Na verdade, a razão de tamanho evento é que acabo de ler dois livros, um logo após o outro, que falam exatamente de Você. Assim, não falam  de Você, mas Você acaba sendo o foco principal das narrativas (achei). De maneira mais específica, abordam o fenômeno da fé em Você. , olha só, agora eu tenho sua atenção, não é? Você é bem previsível às vezes, francamente. Já sabia que as obras do Greene e do Endo discutem esse mistério da fé em Você? Pois é, eu não sabia disso antes de começar e emendar as leituras, e fui surpreendida. - Por acaso isso foi artimanha sua, hein? Hum... - Dane-se, admitirei: de início, fui surpreendida negativamente. É isso mesmo que Você ouviu. Você não responde, mas eu sei que ouviu perfeitamente. Aliás, consigo quase escutá-lo: "Daniela, se já não crês em mim, como sabes que te respondi? Teu raciocínio é contraditório." Pois saiba que não devo satisfação nenhuma a Você, ok? Posso voltar aos livros? Quando quer, Você consegue ser bem chato, sabe? Como eu dizia: de início, não gostei de descobrir que Você seria o foco principal desses livros, porém os dois autores conseguiram me dobrar por razões diferentes - eles divergem bastante na maneira com que exploram o tema.

***
Quero começar pelo livro do Endo, cuja adaptação cinematográfica produzida pelo Martin Scorsese está prestes a estrear (trailer - aqui). Ah, e adianto de pronto o seguinte: o prefácio da tradução me informou que Endo é conhecido como o "Greene japonês", mas, cá entre nós, comparando exclusivamente esses livros, considerei o Endo superior ao Greene - mas este também com um livro muito bom, ressalvo -, de modo que essa referência me pareceu inoportuna. Shusaku Endo é o Shusaku Endo, excelente autor japonês, e ponto final. (Na minha opinião, logicamente.)

O Silêncio é um romance histórico inspirado nos trabalhos de evangelização que missionários católicos conduziram no Japão durante o século XVII. Você se lembra das coisas horríveis que aconteceram naquele período, não é? Humpf, espero que sim, afinal, não foram poucos os seres humanos que morreram brutalmente em seu nome. Bem, especificamente, pude acompanhar mais de perto a saga do missionário português Sebastião Rodrigues, um rapaz de apenas 27 anos que, com outros dois jovens colegas clérigos, parte para o Japão em 1637 para localizar Cristovão Ferreira, um renomado missionário português, ex-professor desses três na Companhia de Jesus, que, por razões então mal compreendidas, apostatara mediante tortura e havia sumido. Veja bem, meu caro; essa missão na qual os três jovens embarcam pode ser considerada praticamente suicida. É importante destacar que estou falando, aqui, de um período em que a caça aos fiéis e sacerdotes cristãos era brutal e incluía torturas hediondas para forçar a apostasia, como a imersão em água fervente vulcânica. Mas, hey, em nome da fé, parece que vale tudo, não é? E tudo estava bem, pois, no início da jornada, Sebastião Rodrigues encontrava-se realmente inundado pela fé em Você e, ainda que temeroso, não relutou em embarcar de corpo e alma na missão. Só que... Pois é, só que Você parece que não deu as caras por lá, visto que Sebastião Rodrigues e seus companheiros acabaram submetidos às mais penosas e cruéis atrocidades, todas descritas de forma impressionante por Endo (o filme de Scorsese, prevejo, terá cenas de violência muito fortes). Culpa Rodrigues por ter vacilado na fé em Você? Ah, seja sincero: Você não facilita as coisas! Bom, eu não culpo de modo algum o jovem missionário. Enquanto estive ao lado dele através das palavras do autor japonês, consegui escutar com Rodrigues um conjunto bastante variado de ruídos:

- da chuva caindo ritmada, monótona e melancólica;
- das ondas do mar;
- dos gatos miando baixinho;
- do grasnido estridente dos corvos;
- do zumbido das moscas;
- das asas das moscas;
- do canto das rolinhas;
- das vozes orando lastimosas;
- do canto das cigarras;
- do balanço das folhas das árvores;
- dos gemidos dos cristãos torturados, pendurados no poço;

Enfim, eu, leitora, e Rodrigues fomos submetidos a um barulho constante e infernal, o qual era interrompido recorrentemente apenas pelo silêncio de morte. Tantos e distintos sons, e o único que importava a Rodrigues, o Seu, ele não conseguiu ouvir.

"Senhor, por que estais calado? Por que estais sempre calado?..."

Você ousará me dizer que falou com ele justamente através de todos esses sons que listei? Você é tão complicado... Como murmurou o próprio protagonista:

"Por que a vida humana é tão cheia de grotesca ironia?"

Não, eu sei que Você não vai me dizer por quê. Pelo menos não da maneira que eu gostaria: clara, simples, direta e explícita.

Um breve adendo antes de avançar para o Greene: Você não acha irônico que os clérigos que apostataram tenham sido obrigados a viver no Japão, incorporando plenamente a cultura japonesa, inclusive assumindo grotescamente a identidade de japoneses mortos (com direito até às esposas deles!)? Ora, e a missão católica não prestava-se a fazer exatamente o mesmo tipo de agressão com os japoneses? Impor a religião ocidental àquele povo? Enfim, reflexões apenas; pois Você bem sabe que não disponho de resposta certa para coisa alguma. Perguntas, tenho muitas.

***

E o Greene, hein? Ah, do Greene, eu tenho quase certeza de que Você vai gostar um pouco mais; sabe por quê? Porque, no livro do autor americano, Você responde!  Sim! Parece-me que o Greene compreende e aceita plenamente uma espécie de variação daquela assertiva que diz que Você "escreve certo, por linhas tortas". Seria "responde através de mensagens cifradas"? Sei lá, somente especulo.

Em The End of The Affair (também já adaptado para o cinema - trailer aqui x), avançamos para o século XX, especificamente para a Inglaterra em plena Segunda Guerra Mundial - é, mais seres humanos morrendo de forma hedionda, sem que Você faça (quase?) nada (aparentemente?). Bom, a casa em que um casal apaixonado encontra-se reunido em mais uma escapadela adúltera (a mulher era casada) é bombardeada ferindo gravemente o homem. A mulher, ao avistar o amante caído desacordado sob escombros, supõe que ele estava morto e suplica a Você: 
"Dear God, make me believe. (...) Let him be alive, and I will believe. Give him a chance. Let him have this happiness. Do this and I'll believe."
Sabe o que acontece depois? Isso mesmo que Você está imaginando: o cara entra vivinho da silva no quarto! Um milagre! Hum, seria mesmo um milagre? O homem estava morto ou ela foi precipitada em assumir que ele havia falecido? Greene não elimina a dúvida. De qualquer jeito, depois de tamanho assombro, Sarah, a mulher, não consegue mais manter a incredulidade em Você e, como gratidão, termina o caso com o amante. Em certo ponto, o Greene vai lá e coloca essa sua protagonista até mesmo obrando supostos milagres. (Preciso dizer que achei essa parte um bocadinho forçada?)
***

Você já consegue perceber, então, o paralelo interessante entre esses dois livros? Na obra do Endo, o protagonista inicialmente repleto de fé, vacila penosamente por conta do silêncio que Você mantém diante de tantas brutalidades; enquanto na do Greene, a protagonista, no começo ateia, conquista uma fé robusta, capaz de afastá-la do homem que ama, porque Você teria rompido finalmente o silêncio e respondido as súplicas dela. Foi uma sequência realmente curiosa de leitura. Teve dedo seu, não teve?

Bem, peço apenas que me compreenda e aceite: não é fácil adquirir e, principalmente, manter a fé em Você. O Greene lembra até de um fato instigante que ajuda a corroborar isso: nós temos dificuldade em acreditar até no amor explicitamente confesso de humanos de carne e osso; imagine, então, naquele de um Deus que não enxergamos, que não responde a nossas perguntas e que permite que soframos tanto! Explico melhor: na história do americano, Mr. Bendrix, o amante, só consegue acreditar que Sarah o amava, quando lê o diário dela. As falas e atos de Sarah não bastaram para Bendrix. Ou seja, até com outros humanos, nós aplicamos o "ver para crer." E lembro que, em The End of the Affair, tratamos de um relacionamento amoroso (no meio da Guerra, ok), hein! Calcule, então, as dificuldades do pobre jovem Ferreira, tão açoitado pela violência japonesa.

Enfim, só consigo terminar essas ruminações, repetindo as palavras do querido missionário:
"Por que a vida humana é tão cheia de grotesca ironia?"
- Shusaku Endo, O Silêncio.

(P.S.: Conforme afirmei antes, sei que Você não me responderá essa pergunta do jeito que eu gostaria. E tudo bem. Acho...?)

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