25/02/2017

[DL #04] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagens anteriores: DL#01, DL #02, DL #03.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVRO 04
Three Love Problems


 Errei feio ao apostar que Fred levaria a herança de Mr. Featherstone, hein? Espere; pensando
melhor, nem mandei assim tãããoo mal, pois, durante alguns minutos, a herança ficou, sim, nas mãos
do Fred. Hum, se bem que eu sabia da encrenca relacionada aos três testamentos... Ok, mandei mal
mesmo. Fui muito ingênua por não ter antecipado que Eliot, evidentemente, aproveitaria a ocasião
para quê? Isto mesmo: introduzir uma nova personagem. Avaliando retrospectivamente minha breve
jornada literária, Middlemarch desponta como o livro com a maior densidade demográfica de
personagens que já li. É realmente impressionante. Ressalto que não tenho enfrentado
dificuldades para orientar-me no meio de tanta gente, visto que a narrativa de Eliot dá conta do
recado bastante bem. Porém, ainda assim, enalteço o auxílio providencial do meu caderninho de
anotações das personagens. (*^-‘) 乃

Mas, afinal, quem seria esse tal Joshua Riggs? Por que justamente ele, um cara que materializou-se
do nada (para o leitor e personagens), é o sortudo que leva para casa o cobiçado prêmio? Por
enquanto, pouca coisa foi esclarecida a respeito desse mistério, porém a narrativa já depositou
muitas pulgas atrás da minha orelha:

1. Onde e como Featherstone arrumou, na última hora, esse pimpolho desconhecido?
2. Por que, antes de morrer, Featherstone insistiu para que Mary Garth queimasse o último
testamento, exatamente aquele que desfazia todos os anteriores e garantia Riggs como
herdeiro? Mary poderia ter evitado algo? O quê?! Alguma catástrofe futura?
3. O que significa aquele papo do Riggs com seu padrasto pidão (cap. 41)?
4. E qual seria a implicação daquele pedaço de papel que o padrasto surrupia do enteado, no
qual consta o nome de... Bulstrode?! (O banqueirão protagonizará a temática da burguesia
que apropriava-se da posição social, relevância e posses da nobreza decadente?)

MUCH CONSPIRACY!!

Destaco que essa passagem da revelação do conteúdo do testamento foi, até aqui, a parte mais
engraçada do livro. Li durante a madrugada e é possível que eu tenha acordado o vizinho com
minhas gargalhadas. Como se não bastasse redigir três testamentos, o filho da puta - não há outro
termo, desculpe - do Mr. Featherstone ainda teve a pachorra de sacanear os urubus da família
reservando parte considerável da sua herança para a construção de um asilo para velhos pobres, a
fim de “agradar a Deus”. Mr. Featherstone (R.I.P.) fará muita falta nessa narrativa. Tremenda
personagem.

As manifestações da parentada foram espetaculares:
– "Inconcebível!"
– "Excêntrico!"
– "Hipócrita!"
– "E a despesa que a gente fez com a viagem, (…)!"
– "Para ele, o lugar para onde foi não vai fazer diferença"
 (= foi pro inferno.)
– "Não tenho a menor vontade de pôr meus pés aqui de novo. Tenho minha própria terra e meus bens para legar aos outros." (= versão pomposa do “Eu nem queria essa bosta mesmo. Eu sou “rycoh!”)
– "Um testamento de doido numa família já basta."
- Narrativa finíssima, Eliot. Parabéns.

Fred Vincy, agora que não pode mais contar com nenhuma herança caída do céu, terá de tentar
tomar vergonha na cara e retomar os estudos. Por enquanto, Mary escapa desse sujeito (o que
também destruiria outra teoria minha); enquanto um novo pretendente surge no horizonte dela: Mr
Farebrother! Mais um religioso. Que dó. Nas palavras da Mary (falando para Fred Vincy):
“(...) (você) seria um desses pastores ridículos que contribuem para tornar o próprio clero ridículo.”
Eu já havia registrado suspeita similar, mas aproveito a recorrência do tema para ratificar a
impressão de que o clero inglês do século XIX era composto, em sua maioria, por um bando de
ridículos sem vocação, interessados no pragmatismo financeiro da posição.

Por falar em Mary Garth (que persiste como minha personagem favorita), o narrador ofereceu uma
nova descrição dela que fez com que eu elaborasse outra hipótese: Mary Garth poderia ser uma
espécie de alter ego da... George Eliot?! Transcrevo o trecho suspeito a seguir:
"Se você quiser saber mais exatamente como era Mary na aparência, há uma chance em dez de que veja um rosto como o dela na rua cheia amanhã, se lá se puser à espreita: (...) ponha os olhos numa pessoinha amorenada e roliça, de postura firme e serena, que olha à volta de si mas não supõe que haja alguém olhando-a. Se ela tiver o rosto grande e a testa quadrada, sobrancelhas bem marcadas, o cabelo preto e crespo, certa expressão de regozijo no olhar, o segredo do qual sua boca guarda, e no mais uns traços totalmente insignificantes - tome essa pessoa comum mas não desinteressante como um retrato de Mary Garth. Caso você a faça rir, ela há de lhe mostrar que tem dentinhos perfeitos; caso a ponha zangada, não há de erguer a voz, mas é provável que diga uma das coisas mais amargas que você já tenha provado; caso lhe faça uma gentileza, ela nunca esquecerá."
Será? (Tópico para pesquisa posterior.)


 Acredito que, até este ponto da leitura, o livro 4 foi o mais denso do ponto de vista histórico,
expondo muitos elementos narrativos que retratam de maneira bastante interessante o cenário
político-social e a tendência para reformas liberais (inevitáveis) que predominavam na Inglaterra
durante o começo do século XIX. Como registrado em DL anterior, os eventos de Middlemarch
ocorrem durante o ano de 1829, momento imediatamente anterior ao início da concretização das
maiores reformas inglesas (= 1831). Segundo o site do parlamento do Reino Unido, houve, por
nenhuma surpresa deparar-me com a aristocracia provinciana de Middlemarch completamente em
polvorosa e morrendo de medo de perder seus privilégios (baseados principalmente na
posse de terra) para a "ralé" social.

Naquele momento, também discutia-se a necessidade de reformas eleitorais amplas na Inglaterra, as
quais concretizaram-se em 1832. Assim, também quanto a esse aspecto, aquele era o período
em que políticos de Middlemarch (e de outras províncias inglesas, estou certa) estavam soltando
fumaça pelo nariz diante das possibilidades projetadas para o futuro próximo: perda de
prerrogativas, maior cerco contra a corrupção eleitoral, extensão do direito de voto a não nobres e
novas regras eleitorais e de financiamento político que, possivelmente, aumentariam os custos de
campanha dos candidatos das províncias ao parlamento inglês.

Claro, tive de fazer uma breve pesquisa para compreender melhor esse contexto histórico, mas a
narrativa da Eliot é bastante generosa – e divertida! - na forma com que ilustra a panela de pressão
em que o país parece ter se transformado naquele ano. No livro 4, ela utilizou especialmente o Mr.
Brooke, “The Pioneer at the Grange” (apelido irônico que recebeu dos conterrâneos), para
protagonizar os fatos principais. Se entendi direito, Mr. Brooke, ao comprar um jornal de linha
editorial liberal que pretendia atirar pedra no telhado de vidro dos colegas aristocratas de
Middlemarch, acabou esquecendo-se de que as pedras que ele atirava atingiriam seu próprio telhado
de vidro. Enquanto Mr. Brooke brincava de editor de jornal liberal, contando com a ajuda oportuna
de Ladislaw, seus rendeiros viviam em situação de extrema dificuldade e miséria, trabalhando em
terras que necessitavam urgentemente de investimentos de infraestrutura que Mr. Brooke
displicentemente negava-se a fazer. A forma com que Eliot descreve um dos rendeiros dele acabou remetendo-me diretamente ao retrato que Tchekhov constrói em seus contos da vida
sofrida dos mujiques russos daquele mesmo século. Os privilégios sociais baseados na propriedade
eram, de fato, bastante concentrados em uma pequena aristocracia conservadora que tornava
bastante difícil a vida da maioria da população inglesa.

Mr. Chettam, o sogro, é quem acaba liderando o grupo dos nobres coleguinhas da cidade que
alertam Mr. Brooke de como a conduta dele era arriscada e hipócrita. Foram necessárias diversas
advertências e conselhos do sogro, dos Cadwallader's e da Dorothea para que Mr. Brooke
percebesse, quase mediante epifania assustadora, que ele precisava reestruturar suas terras e
melhorar as condições de vida de seus rendeiros, caso não quisesse permanecer como alvo das
próprias criticas que propagava em seu jornal.

Aproveito o tema para resgatar a relevante cena que inicia o livro 4 e que me pareceu bastante simbólica para esse cenário social. Posicionados em uma janela no alto de um solar, Mrs. Cadwallader, os Chettam's, Dorothea, Mr. Brooke e o Reitor assistem ao funeral de Featherstone e, à exceção de Dodo, fazem chacota dos "estranhos animais" presentes. A morte de Featherstone parece simbolizar a morte da nobreza inglesa que, idiota do alto de seu castelinho de areia, nem percebia que seu legado chegava ao fim.
"A pequena nobreza rural dos velhos tempos vivia numa atmosfera social rarefeita: encastelada à parte em seus postos de observação na montanha, olhava para baixo sem distinguir muito bem os cinturões de vida aglomerada no plano."
E a sugestão de que exatamente Bulstrode, o banqueirão da cidade, possa abocanhar as terras do falecido Featherstone apenas reforça isso. 

Cabe registrar que, por conta disso, essa foi uma passagem em que os Garth finalmente se deram bem na história (no thanks to Fred Vincy, all right), uma vez que Caleb foi contratado por Mr. Brooke e Mr. Chettam para administrar as propriedades de ambos. A intenção dos contratantes era “demonstrar” que estavam investindo em suas terras e beneficiando seus rendeiros, de modo que "não havia nenhuma necessidade de Reformas".

P.S.: Ah, e por conta dessa grana extra para o pai, Mary escapa de tornar-se professora, permanecendo em Middlemarch.



Quando avistei o título do livro 4, fiquei empolgada diante da suposta evidência de que eu havia
acertado na mosca com a minha teoria registrada no DL#03, contudo logo percebi que aquele
“Três” não refere-se a casais distintos, mas aos vértices de um complicado triângulo amoroso:
Dorothea - Casaubon - Ladislaw.

O mais fascinante desse imbróglio triangular é que Dorothea ignora absolutamente o papel que
assume na relação conturbada entre os primos. Ela não nutre (pelo menos não demonstrou até
aqui) nenhum interesse romântico por Ladislaw, nem mesmo percebe o efeito que sua presença
provoca no mancebo. De outro lado, suspeito poder afirmar que ela não possui esse tipo de interesse
sequer pelo marido, visto que casara-se para ser o braço direito de um grande estudioso que
ilusoriamente transformaria o mundo. Ou seja, a mulher do triângulo não está nem aí para os dois
paspalhos, estando muito mais preocupada em encontrar um sentido para a própria vida. E, ainda
assim, os bocós se metem em uma briga boba com direito a troca de insultos requintados em
cartinhas pomposas (≈ “Sai daqui!” x “Saio nada!”); cada um convicto da estima que o “oponente”
sentia por Dorothea, quem representava o único vértice que ignorava fazer parte de um triângulo amoroso. Bom, pelo menos os dois tontos não duvidavam da inocência da Dorothea.


 No capítulo 38, quando Dodo volta a socializar longe de Lowick e do marido, pude perceber de
maneira mais contundente e explícita como a personagem havia, de fato, mudado muito depois do
casamento com Mr. Casaubon. Lendo o discurso eloquente que ela profere ao tio e a Ladislaw,
lançando argumentos enfáticos, minha reação imediata foi: “caramba; essa, sim, é a Dorothea do
livro 01!”. Ocorre que essa mesma Dorothea do livro 01 é desconhecida de Ladislaw e, curiosamente,
foi recebida por ele com certa aversão:
“For the moment, Will's admiration was accompanied with a chilling sense of remoteness. A man is seldom ashamed of feeling that he cannot love a woman so well when he sees a certain greatness in her: nature having intended greatness for men.”
Sei que vou repetir-me, mas expresso novamente a tristeza de observar o destino cruel de uma
mulher como Dorothea. O livro 4 expôs mais explicitamente o medo que ela sentia de expor suas
opiniões e o constrangimento causado pelo desinteresse de um marido que não tinha paciência para
lidar com as colaborações dela. De qualquer jeito, destaco que a personagem reforça não almejar
um papel social de protagonismo, tencionando somente o exercício do braço direito de um
“revolucionário”, digamos. Ela é uma personagem peculiar, sem qualquer dúvida. (→ Acho que me
repeti aqui também, mas aí está.)


 Por outro lado, enfatizo o tratamento particular que o narrador destina a Casaubon.
Reiteradamente, nosso narrador embarca em uma espécie de defesa dele, esforçando-se ao máximo
para que o leitor compreenda também o lado do marido e perceba que não é assim tão fácil criticá-lo.
Há tanta dedicação em expor honestamente Casaubon (no livro 4, foram muitas páginas
dedicadas a tal propósito), que começo a desconfiar que Eliot tenha se inspirado em algum
conhecido quando criou essa personagem. Ademais, só agora me dei conta de que minhas suspeitas
em relação aos reais propósitos do narrador aumentam justamente quando a narrativa trata de
Casaubon. O objetivo de quem narra é mesmo a imparcialidade histórica - para fatos e personagens
- ou ele está sendo irônico e tentando me ludibriar?

Bom, com o auxílio desse escrupuloso narrador, pude compreender que Casaubon também não
estava feliz em sua vida de casado e que, assim como Dorothea, constatava o equívoco de suas
expectativas matrimoniais. É uma personagem que aparenta representar o indivíduo que sempre foi cheio de ambições e desejos (exatamente como a jovem Dorothea!), mas
que, chegando na idade em que a ceifadora pode ser observada espreitando na esquina, percebe que
falhou em tudo e que não há mais tempo para concertar as coisas. Ele fez ressurgir na memória aquela ótima frase do Brás Cubas: “(...) tantos sonhos, e não sou nada.”

Nesse contexto, as presenças de Dorothea e Ladislaw lembram-no, sem piedade, de seu fracasso e
de sua irrelevância, e criticam implicitamente toda a vida dele. Até então, Casaubon conseguia
convencer a si mesmo de que a vida seguia bem, contudo, encurralado pela doença e pela
jovialidade da esposa e do primo, essa empreitada tornou-se bem mais difícil.
“When the commonplace 'we must all die' transforms itself suddenly into the acute consciousness 'I must die-and soon'(...)”
Ah, e acertei o diagnóstico dele! ↴
“I believe that you are suffering from what is called fatty degeneration of the heart, a disease which was first divined and explored by Laennec, (…)"
Complementando, a descrição que Lydgate faz de seu paciente realmente demonstra como Mr.
Casaubon havia colocado o pé na cova cedo demais:
“(...) the figure (…) showed more markedly than ever the signs of premature age – the student's bent shoulders, the emaciated limbs, and the melancholy lines of the mouth. 'Poor fellow', he thought, 'some men with his years are like lions; one can tell nothing of their age except that they are full grown'.”
Certo, certo, entendo por que o narrador o trata como “Poor Mr. Casaubon (...)”.

P.S.: só que... O temor que Mr. Casaubon manifesta pelo destino de Dorothea depois que ele tenha
batido as botas, rechaçando um eventual casamento dela com Ladislaw, é meio patético demais pra
mim.

P.S. 2: que final enigmático, aquele na escada, não? Achei bastante suspeito e simbólico, só não saberia dizer do que, ainda.


 E surgiram novas informações sobre o tal ~mau casamento~ da tia Julia: ela inventou de casar-se
com um polonês refugiado e foi excluída da herança da família! E é por conta disso, portanto, que
Casaubon sentiu-se moralmente obrigado a ajudar financeiramente o primo – contudo segue
indisposto a dividir patrimônio com ele. Ladislaw acabou sofrendo duras consequências por essa
escolha da avó, sempre vivendo em dificuldade financeira. E eu achando que Casaubon estava
sendo generoso demais com o priminho... Veja só.


 Por fim, as informações sobre os preparativos do casamento entre Lydgate e Rosamond seguiram
reforçando minha teoria do DL#3 - ainda que ela aplique-se apenas a dois casais. As expectativas do
noivo e da noiva quanto à vida matrimonial parecem estar divergentes demais para que as coisas
deem certo. O pai, pelo menos, bem que fez tudo que pôde para evitar um potencial estrago. Vamos
acompanhar.


 Primeira metade de Middlemarch concluída; rumo à segunda! 😎

12/02/2017

Mrs. Dalloway [+ A Writer's Diary] - Virginia Woolf

(Sobre os livros: clique aqui 1, clique aqui 2)
16 de Agosto de 1922
For my own part I am laboriously dredging my mind for Mrs. Dalloway and bringing up light buckets. I don't like the feeling. I'm writing too quickly. I must press it together. I wrote 4 thousand words of Reading in record time, 10 days; but then it was merely a quick sketch of Pastons, supplied by books. Now I break off, according to my quick change theory, to write Mrs. D. (who ushers in a host of others, I begin to perceive).

20 de Dezembro de 2016
Hoje começo a ler Mrs. Dalloway, livro escolhido pelo clube de leitura do qual tive o prazer de ser convidada a participar. Será meu segundo encontro com Virginia Woolf. Embora o livro seja fininho e a discussão aconteça somente em 17 de Janeiro, escolhi esta data para a largada porque, como pude constatar com To The Lighthouse, não sou capaz de ler Woolf de modo ágil e displicente. A autora me exige concentração, dedicação e engajamento sincero. Mas a recompensa, também já pude atestar, costuma ser garantida. Estou bastante empolgada. 
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14 de Outubro de 1922
Mrs. Dalloway has branched into a book; and I adumbrate here a study of insanity and suicide; the world seen by the sane and the insane side by side—something like that. Septimus Smith? Is that a good name?

21 de Dezembro de 2016
Clarissa já saiu para comprar as flores, e eu saí para comprar os presentes de Natal. Clarissa passeia pelas ruas de Londres em pleno verão europeu de junho, enquanto eu passeio pelas ruas de Fortaleza durante o verão brasileiro de dezembro. Ao que parece, estamos conectadas através do tempo e do espaço, eu e ela, por intermédio das páginas escritas por Woolf. Assim como me assombram, essas coincidências me enternecem. Igualmente, há peculiaridades que me afastam da protagonista. Sou algumas décadas mais nova que ela, não sou casada, não tenho filhos e, mais importante, não testemunhei uma Guerra Mundial há poucos anos atrás.

De supetão, tendo avançado pouquíssimas páginas, tomei a primeira bordoada de Clarissa:
"Such fools we are, she thought, (...). For Heaven only knows why one loves it so, (...)"
- Verdade, Clarissa. Por que, afinal, a gente ama tanto essa porcaria de vida? No tempo de Clarissa, mulheres choravam a morte de seus filhos durante a I Guerra; no meu tempo, Alepo é massacrada e figuras execráveis presidem países. Contudo, de maneira similar à protagonista encantada com sua Londres, não consigo conter a alegria de reencontrar minha família e de ver o mar da minha cidade mais uma vez. Apesar de tudo, Clarissa escolhe dar sua festa, e eu também. 
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4 de Junho de 1923
I'm over peevish in private, partly in order to assert myself. I am a great deal interested suddenly in my book. I want to bring in the despicableness of people like Ott. I want to give the slipperiness of the soul. I have been too tolerant often. The truth is people scarcely care for each other. They have this insane instinct for life. But they never become attached to anything outside themselves

22 de Dezembro de 2016
Surgiu uma passagem que me tocou profundamente, pois dialogou demais com minha experiência pessoal. Talvez por sua idade, pelo momento histórico - fim tão recente de uma guerra atroz com tantos mortos, enquanto a Natureza exibe-se exuberante -, ou simplesmente por um daqueles pensamentos que nos atingem vindos de caminhos incertos, Clarissa começa a refletir sobre a morte:
"(...) did it matter that she must inevitably cease completely; all this must go on without her; did she resent it; or did it not become consoling to believe that death ended absolutely? but that somehow in the streets of London, on the ebb and flow of things, here, there, she survived, (...), she being part, she was positive, of the trees at home; of the house there, (...) part of people she had never met; (...)"
Achei curioso, pois, quando a Inevitável me deu um beijinho no cangote, foi aproximadamente isto que pensei: ~ a vida continuará para os outros, e tantas coisas eles ainda verão e farão, mas eu não mais. Foi uma surpresa, visto que eu nutria a certeza de que, quando minha hora chegasse, mandaria um "Finalmente! Já vou tarde!". Hoje, agora, creio que também penso conforme a reflexão final de Clarissa nessa passagem. Esse trecho me lembrou um pouco do livro da Lispector, A Paixão Segundo GH. A morte não equivaleria, metaforicamente, à experiência de comer a barata? Juntar-se à massa branca? (... Nossa, esse livro vai me... ~baratinar~?)

Ah, outra coisa: Clarissa também refletiu sobre seu casamento e sobre o homem que escolhera para casar e, coincidentemente (de novo), um parente querido acaba de noivar; casamento em 2018. Torço para que surjam apenas lembranças felizes, caso essa pessoa repita os passos de Clarissa em semelhante reflexão futuramente. Trata-se de um passo tão difícil e importante...
"For in marriage a little license, a little independence there must be between people living together day day out in the same house; (...)"
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19 de Junho de 1923
I took up this book with a kind of idea that I might say something about my writing—which was prompted by glancing at what K. M. said about her writing in The Dove's Nest. But I only glanced. She said a good deal about feeling things deeply: also about being pure, which I won't criticise, though of course I very well could. But now what do I feel about my writing?—this book, that is, The Hours,* if that's its name? One must write from deep feeling, said Dostoievsky. And do I? Or do I fabricate with words, loving them as I do? No, I think not. In this book I have almost too many ideas. I want to give life and death, sanity and insanity; I want to criticise the social system, and to show it at work, at its most intense. But here I may be posing.
(...)
Am I writing The Hours from deep emotion? Of course the mad part tries me so much, makes my mind squirt so badly that I can hardly face spending the next weeks at it. It's a question though of these characters. People, like Arnold Bennett, say I can't create, or didn't in Jacob's Room, characters that survive. My answer is—but I leave that to the Nation: it's only the old argument that character is dissipated into shreds now; the old post-Dostoievsky argument. I daresay it's true, however, that I haven't that "reality" gift. I insubstantise, willfully to some extent, distrusting reality—its cheapness. But to get further. Have I the power of conveying the true reality? Or do I write essays about myself? 
(...)

27 de Dezembro de 2017
O estilo de Woolf nesse livro, assim como em To The Lighthouse, me lembra muito aquele de Katherine Mansfield no conto Prelude. Acredito que escrevi sobre ele no blog. Deixe-me ver, aqui, qual foi a bobagem. (...) Ah, sim, foi isto mesmo:
"Como se fôssemos uma abelhinha ou uma câmera invisível, temos a sensação de voar entre os integrantes (~ sete) da família Burnell, saltando dentre as mentes de cada um deles e, assim, percebendo as diferentes perspectivas e sentimentos. Lindo demais. Ah, e lembra bastante o Ao Farol, da Virgínia Woolf, que só foi publicado dez anos depois de Prelude." 
Em Mrs. Dalloway, também escrito depois de Prelude, é exatamente a mesma coisa. Esse estilo me lembra sempre do clipe dos Beatles para a música Free as a Bird - o leitor sente-se como a câmera que simula o olhar do pássaro que voa de um ponto ao outro:



Impressiona-me bastante quantas coisas distintas passam pela cabeça de Clarissa enquanto ela faz seu breve passeio. Tentei recapitular se, enquanto caminho por aí ou corro, minha mente vagueia por tantos caminhos obscuros, mas não tenho certeza se isso ocorre. Seria algo inconsciente? Pensamentos que, tal qual um sonho, eu teria dificuldade de resgatar posteriormente? Hum... Particularmente interessante, também, é vê-la aproveitar a ocasião para repensar questões críticas da própria vida; entretendo-se (?) em rememorações diversas.
"Oh, if she could have had her life over again! she thought, steeping on to the pavement, could have looked even differently!"
O certo é que, assim como ela igualmente faz nesse passeio, tenho prestado mais atenção naquilo que me rodeia, e esse livro está fortalecendo demais isso. Hoje, por exemplo, me peguei observando atentamente o balanço causado pelo vento nas flores de um canteiro. (O que está acontecendo comigo?!) Daí, naquele instante, esta afirmativa da personagem me assomou:
" 'That is all', she said, looking at the fishmonger's. 'That is all', she repeated, pausing for a moment at the window of a glove shop (...)
É possível que eu esteja equivocada, mas escolhi aplicar este sentido à frase dela: isso é tudo; a vida é "só" isso, e não é absolutamente incrível? Ao mesmo tempo, embora hoje eu seja capaz de perceber a beleza fascinante dos pequenos detalhes ao meu redor, também luto contra o mesmo Monstro que teima em espreitar Clarissa, afligindo-a imensamente:
"(...) this brutal monster! to hear twigs cracking and feel hooves planted down in the depths of (...) the soul, never to be content quite, or quite secure, for at any moment the brute would be stirring, this hatred, (...) gave her physical pain, and made all pleasure in beauty, in friendship, in being well in being loved and making her home delightful (...) bend as if indeed there were a monster grubbing at the roots, (...)"
Mais uma vez, o livro acabou remetendo-me a outra música; agora Climbing up the Walls, Radiohead. Parafraseando meu querido Thom: não adianta desviar o olhar, pois ele, o maldito, sempre está por perto, de tocaia, escalando as paredes.



Diante de tantas ponderações sobre a vida, o universo e tudo mais, julguei apenas lógico deparar-me com Clarissa fazendo ruminações também sobre religião. No meio de nosso confuso emaranhado de sentimentos, será que religiões prestam para algo? Falta-me uma resposta definitiva, contudo esta direção de Clarissa me parece satisfatória como ponto de partida:
"(...) her experience that religious ecstasy made people callous (so did causes); dulled their feelings, for Miss Kilman would do anything for the Russians, starved herself for the Austrians, but in private inflicted positive torture, so insensitive was she, (...)"
Por fim, surgiu uma personagem que parece ser incapaz de conter o Monstro: Septimus Warren Smith. Lucrezia, a esposa, tenta fazer com que ele esqueça o Maldito e perceba a vida que floresce ao seu redor - " 'Look, (...), Oh look', she implored him. But what was there to look at?" -, porém sem sucesso. Ao contrário de Clarissa, ele não está conseguindo enxergar nada além do Monstro.
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2 de Agosto de 1924
A feeling of depression is on me, as if we were old and near the end of all things. It must be the change from London and incessant occupation. Then, being at a low ebb with my book—the death of Septimus—and I begin to count myself a failure. (...) Yet if this book proves anything, it proves that I can only write along those lines, and shall never desert them, but explore further and further and shall, heaven be praised, never bore myself an instant. But this slight depression—what is it? I think I could cure it by crossing the channel and writing nothing for a week. 

31 de Dezembro de 2016
Confirmando uma tradição pessoal, o fim de ano traz, mais uma vez, um elefante para sentar-se sobre meu peito. Uma melancolia atroz sempre me consome nessa época do ano de forma irremediável. É inútil racionalizar a circunstância lembrando tratar-se apenas de um número no calendário e que o tempo é outra coisa, pois não adianta; o monstrinho sempre aparece. Já somos tão íntimos, e esse daí passa tão pouco tempo comigo, que consigo lidar razoavelmente bem com ele.

Essa temática do tempo e do fim de um ciclo ajusta-se bem com a presente obra da Woolf. As personagens do livro nem precisam desse tipo de ajuda, mas, de qualquer jeito, o Big Ben comparece recorrente e implacavelmente para sinalizar que o tempo está passando pra todo mundo. Não à toa, Mrs. Dalloway apresenta-me a personagens que se dedicam a devaneios rememorativos que, variavelmente, recaem na relação vida x morte. (Nossa; que momento oportuno para ler Mrs. Dalloway!)

Justamente por conta dessas reflexões, recordei que Woolf cogitara intitular essa obra "The Hours / As Horas" (descobri isso graças à adaptação cinematográfica do livro do Cunningham,  "As Horas"), o que parece-me mais oportuno, não sei. Continuo inapta para elaborar uma razão que a tenha levado a preferir Mrs. Dalloway.
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15 de Agosto de 1924
(...) Mrs. Dalloway is going to stretch beyond October. In my forecasts I always forget some most important intervening scenes: I think I can go straight at the grand party and so end; forgetting Septimus, which is a very intense and ticklish business, and jumping Peter Walsh eating his dinner, which may be some obstacle too. But I like going from one lighted room to another, such is my brain to me; lighted rooms; and the walks in the fields are corridors; and now today I'm lying thinking. 
(...)
By the way, why is poetry wholly an elderly taste? When I was 20, in spite of Thoby who used to be so pressing and exacting, I could not for the life of me read Shakespeare for pleasure; now it lights me as I walk to think I have two acts of King John tonight, and shall next read Richard II. It is poetry that I want now—long poems. Indeed I'm thinking of reading the Seasons. I want the concentration and the romance, and the words all glued together, fused, glowing; have no time to waste any more on prose. 

02 de Janeiro de 2017
Novamente um trecho de Mrs. Dalloway trouxe-me de volta Katherine Mansfield. Dessa vez, foi o conto Bliss, por conta da passagem em que Clarissa está radiante porque Sally Seton viria para o jantar.
" 'She is beneath this roof... She is beneath this roof!' (...) feeling as she crossed the hall 'if it were now to die, 'twere now to be the most happy.'. (...) all because she was coming down to dinner in a white frock to meet Sally Seton!"
Percebo que Woolf gosta muita de uma metáfora que, vira e mexe, tem aparecido: Ondas! É, antes mesmo de The Waves / As Ondas, ela já revela o gosto particular por essa imagem. Exatamente por isso, foi apenas quando Peter relembra que os escritores favoritos de Clarissa apreciavam metáforas náuticas que ela própria às vezes utilizava em seu discurso, que me ocorreu: Clarissa é alter ego de Virginia Woolf?! Fui lerda nessa percepção. Desenvolvendo essa ideia, a impressão que começo a elaborar é que Clarissa e Septimus, um dos vários pares da história - outros seriam vida e morte, passado e futuro, sanidade e loucura, juventude e velhice, mortalidade e eternidade, guerra e paz... -, simbolizam uma dualidade que habitaria Woolf; a luta entre o lado que deseja apegar-se fervorosamente à vida e aquele que simplesmente não consegue, por mais que se esforce. Alguns trechos que trazem as metáforas das ondas:
“How fresh, (…) the air was in the early morning; like the flap of a wave; the kiss of a wave; chill and sharp yet (…) solemn (…)”

“(…) waves of sound (...)” 

“Such are the visions which proffer (…), or murmur in his ears like sirens lolloping away on the green sea waves, (...)”
"So on a summer's day waves collect, overbalance, and fall; collect and fall; and the whole world seems to be saying that's all more and more. (...) Fear no more, says the heart, committing its burden to some seam which sighs collectively for all sorrows, and renews, begins, collects, lets fall. And the body alone listens to the passing bee; the wave breaking; the dog barking, (...)"
Esta última passagem, em especial, fez com que me lembrasse de meus pais, pois eles sempre dão muita importância para que, durante minhas visitas, eu tome pelo menos um banho de mar. Minha mãe brinca dizendo "Para limpar a urucubaca, Dani." ; e respondo-lhe: - Ih, mãe, tem muita urucubaca pra limpar, hein. Tenho quase certeza, então, de que eles concordariam com Clarissa: as ondas do mar têm o poder de coletar nosso sofrimento e renovar o espírito.

Não pude evitar mais esta alusão musical: "Como uma onda no mar"!  ¯\_(ツ)_/¯
(- Muita heresia? Ah, combina com o livro, vai?)

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7 de Setembro de 1924
It is a disgrace that I write nothing, or if I write, write sloppily, using nothing but present participles. I find them very useful in my last lap of Mrs. D. There I am now—at last at the party, which is to begin in the kitchen, and climb slowly upstairs. It is to be a most complicated, spirited, solid piece, knitting together everything and ending on three notes, at different stages of the staircase, each saying something to sum up Clarissa. Who shall say these things? Peter, Richard, and Sally Seton perhaps: but I don't want to tie myself down to that yet. Now I do think this might be the best of my endings and come off, perhaps. But I have still to read the first chapters, and confess to dreading the madness rather; and being clever.

03 de Janeiro de 2017
As associações musicais suscitadas por Mrs. Dalloway simplesmente não param. Hoje, durante a corrida, Mr. Shuffle mandou Fake Plastic Trees (- Thom, você já leu Mrs. Dalloway?) e subitamente, assim do nada mesmo, fui tomada pela lembrança das personagens do livro - Clarissa, Septimus, Lucrezia, Peter. Um aperto doloroso na garganta querendo provocar um choro embaraçoso ali, no meio da corrida e diante de todos. O que está acontecendo comigo?! O que as palavras de Woolf estão fazendo comigo? To the Lighthouse já havia me tocado, mas nem se compara à avalanche causada por Mrs. Dalloway.

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17 de Outubro de 1924
It is disgraceful. I did run upstairs thinking I'd make time to enter that astounding fact—the last words of the last page of Mrs. Dalloway, but was interrupted. Anyhow, I did them a week ago yesterday. "For there she was," and I felt glad to be quit of it, for it has been a strain the last weeks, yet fresher in the head; with less I mean of the usual feeling that I've shaved through and just kept my feet on the tight rope. I feel indeed rather more fully relieved of my meaning than usual—whether this will stand when I re-read is doubtful. But in some ways this book is a feat; finished without break from illness, which is an exception; and written really in one year; and finally, written from the end of March to the 8th October without more than a few days' break for writing journalism. So it may differ from the others. Anyhow, I feel that I have exorcised the spell which Murry and others said I had laid myself under after Jacob's Room.

04 de Janeiro de 2017
Que figura atormentada, esse Peter Walsh. Sinto muita compaixão por ele realmente. Emulando Clarissa, a mente dele vagueia por rememorações em cadeia, onde cada lembrança atua como uma madeleine de Proust, puxando outra lembrança. Ele parece lutar consigo mesmo, tentando convencer-se de que tudo estava bem, de que não amava mais Clarissa, de que ele ainda era jovem e que tinha toda a vida pela frente, não precisando de mais ninguém. Se não fosse tão real, talvez pudesse soar cômico. Também acho curiosa a frequência com que os pensamentos das personagens dedicam-se à análise de outras pessoas. Pensar na vida alheia... Sem grandes surpresas, as conjecturas que elas fazem sobre os outros são majoritariamente equivocadas. 

Mas claro, talvez o tormento dele não seja nada se comparado àquele de Septimus - ou talvez nem caiba comparar, na verdade. Um rapaz que se voluntaria para lutar na guerra, em nome de uma Inglaterra que ele só conhecia a partir das obras de Shakespeare! Coitado. O horror do confronto estava oficialmente encerrado para o mundo, mas não para Septimus. Após testemunhar as atrocidades da guerra e a morte de um amigo, ele não consegue mais sentir nada e o significado da vida escapa-lhe completamente. A conclusão que ele compartilha sobre a obra de Shakespeare - citado também outras vezes nesse livro - me assustou e nunca havia me ocorrido assim tão clara. Septimus confabula que o Bardo desprezava a humanidade, tendo escondido, na beleza de seus versos, toda a sordidez, pequenez e mesquinharia próprios dos seres humanos. A verdadeira natureza humana, em toda sua repugnância, pode ser encontrada nas obras de Shakespeare. Em parte, creio que ele está certo. 

Os médicos, esses sim conseguem ser tragicômicos na maneira com que tratam Septimus. Um deles tem a pachorra de abordá-lo com condescendência grotesca, como se o paciente desesperado fosse uma criança fazendo manha. O outro, um famosão que conseguiu ficar rico com a "loucura" dos outros, diagnostica "falta de senso de proporção" e prescreve para o tratamento: repouso, isolamento e a supressão do pensamento sobre si mesmo. Hum... Mas qual seria a diferença entre essa terapia e a morte, afinal?
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13 de dezembro de 1924
I am now galloping over Mrs. Dalloway, re-typing it entirely from the start, which is more or less what I did with the V.O.: a good method, I believe, as thus one works with a wet brush over the whole, and joins parts separately composed and gone dry. Really and honestly I think it the most satisfactory of my novels (but have not read it cold-bloodedly yet). The reviewers will say that it is disjointed because of the mad scenes not connecting with the Dalloway scenes. And I suppose there is some superficial glittery writing. But is it "unreal"? Is it mere accomplishment? I think not. And as I think I said before, it seems to leave me plunged deep in the richest strata of my mind. I can write and write and write now: the happiest feeling in the world.

05 de Janeiro de 2017
"There remained only the window (...); the troublesome and rather melodramatic business of opening the window and throwing himself out. (...) But he would wait till the very last moment. He did not want to die. Life was good. The sun hot. Only human beings?"
Aqui, despedi-me de Septimus. Ironia peculiar, acompanhar Peter observando a ambulância que levava o corpo de Septimus, enquanto conjecturava sobre a história de quem estaria ali dentro. 

O fato do suicídio dele ter ocorrido minutos depois de uma cena de completo júbilo com a esposa, patrocinada por piadas internas relacionadas à confecção de um chapéu, reforça a efemeridade de nossa circunstância, ao mesmo tempo em que sugere que a felicidade estaria nesses pequenos eventos do dia a dia. Porém é preciso olhar, é preciso saber sentir e enxergar e, às vezes, acho que aquele Monstro previamente citado (da Clarissa, meu, do Thom, do Septimus), pode tornar isso bastante difícil.

Logo em seguida, surgiu mais explicitamente um outro tema (nos pensamentos de Peter e alusões àqueles de Clarissa) que aparentemente é caro à Woolf, pois também encontrei em To The Lighthouse. Falo daquele relacionado à constatação de que não conhecemos verdadeiramente uns aos outros, especialmente porque seríamos fiéis à nossa própria essência apenas quando sozinhos.
"(...) it is the privilege of loneliness; in privacy one may do as one chooses. One might weep if no one saw. (...) Clarissa had a theory (...) to explain the feeling they had of dissatisfaction; not knowing people; not being known. For how could they know each other? (...) It was unsatisfactory, they agreed, how little one knew people. (...) the part of us which appears, are so momentary compared with the other, the unseen part of us, which spreads wide (...)"
Acho importante apegar-me fortemente a isso, para não cair na tentação de julgar levianamente os outros, nutrindo conclusões frequentemente traiçoeiras. 
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8 de abril de 1925
I wonder if this time I have achieved something? Well, nothing anyhow compared with Proust, in whom I am embedded now. The thing about Proust is his combination of the utmost sensibility with the utmost tenacity. He searches out these butterfly shades to the last grain. He is as tough as catgut and as evanescent as a butterfly's bloom. And he will, I suppose, both influence me and make me out of temper with every sentence of my own.

06 de Janeiro de 2017
Então Clarissa, no fim das contas, desceu as escadas e manteve-se resoluta em sua decisão de dar sua festa? É, admito que fui surpreendida. Ponderando a partir desse final, ainda que o "louco" tenha sido excluído da última celebração, penso ser possível supor que a mensagem do livro seja otimista. Será? Seria essa a razão do título "Mrs. Dalloway", e não "The Hours"? Trazer o foco para a personagem que, a despeito de sua solidão e luta interna contra o Monstro, escolhe ver beleza na vida e dar uma festa durante o pós-guerra? Terei de conformar-me com a hipótese. Gosto dela, de qualquer jeito.

As cenas finais também chamaram-me atenção para um símbolo importante da narrativa: a janela! Na primeira página, Clarissa abre uma janela que permite que o ar da manhã a invada como uma onda (!), praticamente convidando-a para um salto que, infelizmente, Septimus fará mais adiante, literalmente. E neste final, através novamente de sua janela, Clarissa observa a rotina de sua vizinha, refletindo sobre o fascínio representado pela constatação de que há várias pessoas vivendo suas vidas simultaneamente, cada uma a sua maneira. Ali, naquele instante tão singelo, parece que ela toma a resolução definitiva de fechar a janela, recusar o convite para o salto e voltar para sua festa - a vida! Não sei se a narrativa permite essa interpretação, mas foi isso que me ocorreu. 
"So there she was."
And here I am. 
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18 de junho de 1925
No, Lytton does not like Mrs. Dalloway, and, what is odd, I like him all the better for saying so, and don't much mind. What he says is that there is a discordancy between the ornament (extremely beautiful) and what happens (rather ordinary—or unimportant). This is caused, he thinks, by some discrepancy in Clarissa herself: he thinks she is disagreeable and limited, but that I alternately laugh at her and cover her, very remarkably, with myself. So that I think as a whole, the book does not ring solid; yet, he says, it is a whole; and he says sometimes the writing is of extreme beauty. What can one call it but genius? he said! Coming when, one never can tell. Fuller of genius, he said, than anything I had done. Perhaps, he said, you have not yet mastered your method. You should take something wilder and more fantastic, a framework that admits of anything, like Tristram Shandy. But then I should lose touch with emotions, I said. Yes, he agreed, there must be reality for you to start from. Heaven knows how you're to do it. But he thought me at the beginning, not at the end. And he said the C.R. was divine, a classic, Mrs. D being, I fear, a flawed stone. This is very personal, he said, and old fashioned perhaps; yet I think there is some truth in it, for I remember the night at Rodmell when I decided to give it up, because I found Clarissa in some way tinselly. Then I invented her memories. But I think some distaste for her persisted. Yet, again, that was true to my feeling for Kitty and one must dislike people in art without its mattering, unless indeed it is true that certain characters detract from the importance of what happens to them. None of this hurts me, or depresses me. It's odd that when Clive and others (several of them) say it is a masterpiece, I am not much exalted; when Lytton picks holes, I get back into my working fighting mood, which is natural to me. I don't see myself a success. I like the sense of effort better. The sales collapsed completely for three days; now a little dribble begins again. I shall be more than pleased if we sell 1500. It's now 1250.

17 de Janeiro de 2017
Hoje ocorreu a discussão do livro com as outras quatro leitoras que fazem parte do clube de leitura. Foi uma experiência muito diferente, especialmente por ter sido meu primeiro clube; e nem mesmo as conhecia antes. Aliás, retomando aquela reflexão que o próprio Mrs. Dalloway me proporcionou, não as conheço e nem as conhecerei verdadeiramente, correto?

O que mais me marcou foi descobrir que este livro e essas personagens não pareceram tê-las tocado da forma tão intensa como ocorreu comigo; sendo que eu estava convicta de que nenhum leitor estaria imune à avalanche arquitetada por Woolf. Recebi a constatação como uma oportunidade para enveredar-me por uma jornada de autoconhecimento (ou quase). Comecei embarcando na seguinte paranoia introspectiva: por que essa narrativa e essas personagens mexeram tanto comigo, afinal?! Organizar as razões em  palavras explícitas me assusta um pouco, então imaginei que, talvez, eu possa contentar-me em parafrasear (supostamente) Flaubert? Clarissa, Peter, Septimus, Lucrezia; sou todos eles.
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17 de fevereiro de 1926
I enjoy almost everything. Yet I have some restless searcher in me. Why is there not a discovery in life? Something one can lay hands on and say "This is it"?
-Virginia Woolf.

01/02/2017

[DL #03] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagens anteriores: DL#01, DL#02.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVRO 03
Waiting for Death


✒ Quando avistei o título do Livro 3, confesso que, a despeito da quantidade enorme de personagens presentes em Middlemarch (e continuam aparecendo mais!), fiquei aflita pela possibilidade de já ter de despedir-me de alguém - quem?! Ciente dessa provocação que o "Waiting for death" causaria nos leitores, Eliot decide ser ainda mais perversamente ardilosa, arquitetando uma série de personagens adoecendo sequencialmente. É o bolão da Morte em Middlemarch!

Fred Vincy com febre tifoide - "Eita, ele é um porre, mas tão novo para morrer...";
↓ daí
 Mr. Casaubon com angina (acho) - "Ah, então é ele? Ok.";
↓ daí
Mr. Featherstone nos últimos suspiros - "Xi, É ELE!".

E a gaiatice da narrativa não parou aí, pois ela logo revela o deboche implícito no título "Waiting for death / À espera da morte": quem aguarda a visita da Inevitável não é uma personagem doente, mas os urubus da família do futuro morto, ansiosos para finalmente abocanhar a carniça herança. Que cena tragicômica, todos os parentes e aparentados do Mr. Featherstone - os ricos e os pobres; de perto e de longe - batendo ponto diariamente na casa do moribundo, para tentar garantir uma vaga final no testamento.

"The troublesome ones in a family 
are usually either the wits or the idiots."

Resta, porém, descobrir o(s) nome(s) do(s, a, as) herdeiro(os, a, as) do falecido Mr. Featherstone (R.I.P.), o que talvez não será tão fácil, visto que o camarada complicou a treta deixando dois testamentos; o "último" e o "último versão definitiva the final countdown." Torço para que a grana vá para a Mary Garth, mas suspeito de que o bocó Fred Vincy levará essa para... Adivinha? Conseguir casar com a Mary! Será? Essa é minha aposta, especialmente considerando-se minha nova hipótese para um outro possível tema desse livro.


✒ No DL#02, comecei a especular a respeito de temáticas subjacentes que estariam sendo exploradas pela Eliot e presumo que o Livro 3 ofereceu-me sinais mais claros sobre uma outra: o "Casamento", particularmente sob a perspectiva da jovem esposa provinciana.

Eis que já contamos com os seguintes power couples:
- Mrs. Dorothea Casaubon + Mr. Casaubon;
- Miss Rosamond Vincy + Mr. Lydgate;
- Miss Celia Brooke + Mr. Chettam;
- Miss Mary Garth + Mr. Fred Vincy ??? - Bem, há indícios de que serão um casal, mesmo com a negativa firme da Mary. Ou não? Veremos.

A narrativa insinua que essas moças fizeram/farão cagadas monumentais durante a escolha de seus maridos, todas ludibriadas por suas próprias suposições ingênuas, equivocadas e/ou precipitadas. Como bem lembra nosso narrador, com ar fatalista:
"In all failures, the beginning is certainly the half of the whole."
Lamentavelmente, parece que a regra será a da constatação tarde demais do vacilo. Sendo assim, tenho a impressão de que o livro me agraciará com um grupo de pobres mulheres infelizes no matrimônio, cada uma à sua maneira, ao lado de maridos medíocres. Será?


Retomando cada um daqueles casais:
(1) Mrs. Dorothea Casaubon + Mr. Casaubon
Nossa, está bem penoso acompanhar a tragédia em que transformou-se a vida de Dodo. Retornando a Lowick depois da lua-de-mel, ela não consegue mais enxergar a velha propriedade carcomida com o mesmo encanto promissor de quando a conhecera enquanto noiva.

No DL#01, registrei que a história da tia de Mr. Casaubon, a Julia (avó de Ladislaw) envolvida em um tal "~mau casamento~", pareceu-me bastante suspeita para fins da narrativa e vejo que acertei. Agora, Dorothea olha para o quadro da Aunt Julia buscando o acolhimento de alguém que supostamente a entenderia como ninguém mais seria capaz.
"(...) the miniature of (...) aunt Julia, who made the unfortunate marriage. Dorothea could fancy that it was alive now (...). Was it only her friends who thought her marriage unfortunate? or did she herself find it out to be a mistake, and taste the salt bitterness of her tears in the merciful silence of the night? What breadths of experience Dorothea seemed to have passed over since she first looked at this miniature. She felt a new companionship with it, (...) Here was a woman who had known some difficulty about marriage."
Agravando a lastimosa situação, o piripaque de Mr. Casaubon veio apenas para jogar a pá de cal sobre as esperanças de Dodo, visto que a prescrição de Lydgate ao seu esposo consistia em menos trabalho e mais repouso. Foi doloroso vê-la suplicando à Lydgate que ajudasse Mr. Casaubon, quando eu - leitora - e o médico podíamos perceber que, na verdade, Dorothea rogava desesperadamente em causa própria:
"Oh, you are a wise man, are you not? You know all about life and death. Advise me. Think what I can do. He has been laboring all his life and looking forward. He minds about nothing else. - And I mind nothing else-."
É bastante aflitivo acompanhar a jornada de uma mulher apaixonadamente ambiciosa que não consegue vislumbrar outra forma de concretizar seus sonhos, senão por intermédio de um marido.

Ah, e Ladislaw (pivô da nova briga entre Dorothea e Casaubon) está prestes a retornar. Esse quiproquó segue em suspensão. Adultério? Segundo casamento? A ver.

(2) Miss Rosamond Vincy + Mr. Lydgate
A doença de Fred Vincy acabou ajudando a tirar esses dois do chove-não-molha. Depois de uns xavecos sem graça aqui, uma intervenção da tia Bulstrode ali (à la Lady Catherine de Bourgh, de Pride and Prejudice), uma recuada assustada de Lydgate acolá e uma choradinha terna de Rosamond mais para lá; eis que os dois afinal noivaram. 

A narrativa joga várias pistas que parecem indicar que esse matrimônio também vai dar merda. Ora, o enlace até começa mediante circunstâncias, no mínimo, precipitadas. Esta certeza que Rosamond tem, de que Lydgate seria um cara com boas conexões e que, sendo estrangeiro, estaria em clara vantagem sobre os demais cavalheiros de Middlemarch... Hum, sei não. Minha aposta é que, assim como Dorothea, ela descobrirá que estava errada. Bem, vamos acompanhar. 

(3) Miss Celia Brooke + Mr. Chettam
Aqui, minha percepção é que Celia acabou ficando com as sobras da irmã. Mr. Chettam aparenta tentar reiteradamente convencer-se de que superou a esnobada que tomara de Dorothea, contudo não estou botando fé de que isso seja verdade. E se ele tiver ido lá e contentado-se com a segunda da fila? A princípio, a suposta candidata número dois aceitou felizona a proposta de casamento. Resta observar.

(4) Miss Mary Garth + Mr. Fred Vincy 
Com todo meu coração, desejo que esta minha suposição revele-se completamente infundada, contudo acho que isso não acontecerá, infelizmente. O papinho cheio de segurança da Mary refutando Fred; os pais dos pombinhos contrários à união e tentando pôr juízo na cabeça dos filhos... Suspeitíssimo. Caramba, Mary consegue até sentir dó de Fred, mesmo depois que ele arruína financeiramente a família dela. Ademais, este conselho que Mary recebe do pai também sustenta bastante essa nova hipótese temática que apresentei:
"(...) a woman, let her be as good as she may, has got to put up with the life her husband makes for her. Your mother has had to put up with a good deal because of me." (Ou seja, as mulheres precisavam escolher direitinho com quem se casariam, caso contrário teriam de engolir o choro da frustração obrigatoriamente.)
Vale ressaltar, contudo, que Mary tem uma diferença crucial em relação às outras três middlemarchers citadas: ela conhece bastante bem seu pretendente Mr. Bocó Fred Vincy, e há muito tempo. Essa desculpa, ela não terá permissão para invocar, caso cometa essa presepada. A ver.
...

Claro, reconheço que não é possível colocar a culpa unicamente na conta dessas jovens, pois as particularidades do contexto geral e de cada uma delas não cooperam muito. Um aspecto curioso, por exemplo, é como toda a galera de Middlemarch gosta de meter o bedelho nos assuntos matrimoniais alheios. Todo mundo tem uma análise acertada para compartilhar a respeito de qualquer casal, real ou hipotético, da cidade. A intromissão é realmente hilária. 

Enfim, haverá mesmo um bando de esposas infelizes e frustradas, presas a maridos imprestáveis? Cenas dos próximos capítulos.


✒ Retomando a temática hipotética que lancei no DL#02 - diferentes relações entre oportunidades na vida x aproveitamentos para homens e mulheres -, houve uma fala da Mary (dirigida ao Fred) que a reforça:
"(...) how can you bear to be fit for nothing in the world that is useful? And with so much good in your disposition, Fred, - you might be worth a great deal."
Ele tinha tudo para ser um sucesso na vida e só mandava bola fora; enquanto havia personagens femininas loucas para conquistar o mundo, mas que não possuíam as mesmas chances. Outros rapazes, por sua vez, sabiam aproveitar avidamente todas as vantagens.


✒ E o narrador, hein? Modo "sangue nos olhos" ativado nesse livro, mandando diversas bordoadas maravilhosas e elaborando muita ~crítica social foda~.  Recapitulando aqui, penso que todas as personagens tomaram alfinetada dele. Aliás, começo a suspeitar de que que esse narrador é ainda mais irônico do que eu havia captado. Por exemplo, agora estou incerta se aquelas defesas de personagens que ele faz (mencionei nos DLs anteriores) são realmente defesas, ou se ele estaria bancando o cínico comigo. (O momento em que ele disse "Por que sempre Dorothea? O ponto de vista dela era o único?" foi o catalisador.) Ele é extremamente capcioso, e quase o enxergo com um risinho no canto da boca, enquanto banca o imparcial comprometido com a verdade. Comentando alguns dos vários momentos magistrais:

(1) A descrição da fanfarronice representada pela figura do Fred Vincy foi espetacular. Eliot constrói frases preciosas (quase um discurso indireto livre), para demonstrar ao leitor como a personalidade desse mancebo é ensaboada. Se entendi direito, Fred é um exemplar da espécie "deixa a vida me levar"; ele é a versão do século XIX dos nossos playboyzinhos mimados de classe média, aqueles que não assumem responsabilidade com nada, que estão no mundo para curtir a vida sem estresse, uma vez que tudo se ajeita no final (= os papais se encarregam disso).
"During the vacations Fred had naturally required more amusements than he had ready money for (...)" (Naturalmente, sim; é apenas lógico.)
"(...) his assets of hopefulness had a sort of gorgeous superfluity about them." 
"(...) the universal order of things would necessarily be agreeable to an agreeable young man."  (Como as coisas não dariam certo para um rapaz tão bacana, não é?)
"(...) being implicitly convinced that he at least (...) had a right to be free from anything disagreeable."
E no fim das contas, quem é que cai na armadilha desse tipo de garoto? Indivíduos como Mr. Caleb Garth, um senhor humilde que trabalhava de graça para boa parte dos middlemarchers e que encarava o trabalho como uma religião edificante. Poxa, o pai da Mary não consegue nem mesmo culpar Fred pela presepada da dívida. Para defender-se, Fred mal hesita antes de apontar o dedo para Mr. Garth com o revoltante "ninguém mandou ele assumir minha dívida". Ódio!

O ápice da crítica que Eliot faz a esse tipo de rapaz ocorreu, pra mim, neste trecho certeiro e que, assustadoramente, aplica-se à nossa sociedade atual:
"Fred was conscious that he would have been yet more severely dealt with if his family as well as himself had not secretly regarded him as Mr. Featherstone's heir (...) - just as when a youthful nobleman steals jeweler we call the act kleptomania, speak of it with a philosophical smile, and never think of his being sent to the house of correction as if he were a ragged boy who had stolen turnips."
Já no século XIX, o roubo/a merda que o jovem riquinho comete representa um mero lapso pueril a ser perdoado, a fim de não macular o futuro promissor dele. Do outro lado, o jovem pobretão, quando faz bobagens similares, vira o vagabundo que merece apodrecer detido. Fiquei bem abobalhada com isso.

(2) Eliot aproveita o caso da família Garth para demonstrar que, em Middlemarch, na hora de "fazer uma social", não importa a índole da pessoa, mas suas posses. Rolava quase um sistema de castas, onde as classes não se misturavam.
"(...) there were nice distinctions of rank in Middlemarch (...) be connected with none but equals, (...). (...) his honorable exertions had won him due esteem; but in no part of the world is genteel visiting founded on esteem, in the absence of suitable furniture and complete dinner service."
Aquela, não é? "Diz-me teu saldo bancário, e te direi se comparecerei à tua festinha."

(3) Lydgate manda a real: doente rico é muito chato! Eu ri; desculpe. De quebra, ele assume que rola uma diferença de tratamento.
"But I don't really like attending such people so well as the poor. The cases are more monotonous, and one has to go through more fuss and listen more deferentially to nonsense."
(4) Sabe quando vamos às reuniões de família, e uma tia distante que só nos vê nessas ocasiões encara-nos da cabeça aos pés? Então; tais olhadas pouco sutis - julgando/cobiçando/invejando - aconteciam em Middlemarch.
A tia: "(...) Rosamond's bonnet was so charming that it was impossible not to desire the same kind of thing for Kate, and Mrs. Bulstrode's eyes, (...) rolled round that ample circuit, while she spoke." 

A sobrinha: "Rosamond's eyes were roaming over her aunt's large embroidered collar."
(5) Para ilustrar a ironia por vezes bastante sutil do narrador, aqui:
"Mr. Casaubon, (...) in a few days began to recover his usual condition."
Pescou? O narrador não afirma que Mr. Casaubon "melhorou"/"ficou bom", mas que recobrou sua ~condição usual~. Aquela, sabe qual? Coitado. É, eu ri de novo.

(6) E a descrição do rapaz sem queixo?
"To superficial observers his chin had too vanishing an aspect, looking as if it were being gradually reabsorbed." 
Brilhante!

✒ Finalizo atualizando duas listas dos DL's anteriores;
(1) DL#01 - Lista "Homens x Mulheres x Matrimônio"
Segundo Fred, as mulheres tinham a responsabilidade moral de sempre pensar o melhor a respeito dos homens, esforçando-se sempre para torná-los em pessoas melhores. Ok.
"(...), Mary. (...) It is not generous to believe the worst of a man. When you have got any power over him, I think you might try and use it to make him better; but that's is what you never do."
(2) DL #02 - Lista da "Realidade Médica no séc. XIX"
O estetoscópio começava a ser mais largamente utilizado:
"He not only used his stethoscope (which had not become a matter of course in practice at that time), (...)"
 ✒ Avante ao Livro 04! ᕕ(ᐛ)ᕗ