12/02/2017

Mrs. Dalloway [+ A Writer's Diary] - Virginia Woolf

(Sobre os livros: clique aqui 1, clique aqui 2)
16 de Agosto de 1922
For my own part I am laboriously dredging my mind for Mrs. Dalloway and bringing up light buckets. I don't like the feeling. I'm writing too quickly. I must press it together. I wrote 4 thousand words of Reading in record time, 10 days; but then it was merely a quick sketch of Pastons, supplied by books. Now I break off, according to my quick change theory, to write Mrs. D. (who ushers in a host of others, I begin to perceive).

20 de Dezembro de 2016
Hoje começo a ler Mrs. Dalloway, livro escolhido pelo clube de leitura do qual tive o prazer de ser convidada a participar. Será meu segundo encontro com Virginia Woolf. Embora o livro seja fininho e a discussão aconteça somente em 17 de Janeiro, escolhi esta data para a largada porque, como pude constatar com To The Lighthouse, não sou capaz de ler Woolf de modo ágil e displicente. A autora me exige concentração, dedicação e engajamento sincero. Mas a recompensa, também já pude atestar, costuma ser garantida. Estou bastante empolgada. 
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14 de Outubro de 1922
Mrs. Dalloway has branched into a book; and I adumbrate here a study of insanity and suicide; the world seen by the sane and the insane side by side—something like that. Septimus Smith? Is that a good name?

21 de Dezembro de 2016
Clarissa já saiu para comprar as flores, e eu saí para comprar os presentes de Natal. Clarissa passeia pelas ruas de Londres em pleno verão europeu de junho, enquanto eu passeio pelas ruas de Fortaleza durante o verão brasileiro de dezembro. Ao que parece, estamos conectadas através do tempo e do espaço, eu e ela, por intermédio das páginas escritas por Woolf. Assim como me assombram, essas coincidências me enternecem. Igualmente, há peculiaridades que me afastam da protagonista. Sou algumas décadas mais nova que ela, não sou casada, não tenho filhos e, mais importante, não testemunhei uma Guerra Mundial há poucos anos atrás.

De supetão, tendo avançado pouquíssimas páginas, tomei a primeira bordoada de Clarissa:
"Such fools we are, she thought, (...). For Heaven only knows why one loves it so, (...)"
- Verdade, Clarissa. Por que, afinal, a gente ama tanto essa porcaria de vida? No tempo de Clarissa, mulheres choravam a morte de seus filhos durante a I Guerra; no meu tempo, Alepo é massacrada e figuras execráveis presidem países. Contudo, de maneira similar à protagonista encantada com sua Londres, não consigo conter a alegria de reencontrar minha família e de ver o mar da minha cidade mais uma vez. Apesar de tudo, Clarissa escolhe dar sua festa, e eu também. 
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4 de Junho de 1923
I'm over peevish in private, partly in order to assert myself. I am a great deal interested suddenly in my book. I want to bring in the despicableness of people like Ott. I want to give the slipperiness of the soul. I have been too tolerant often. The truth is people scarcely care for each other. They have this insane instinct for life. But they never become attached to anything outside themselves

22 de Dezembro de 2016
Surgiu uma passagem que me tocou profundamente, pois dialogou demais com minha experiência pessoal. Talvez por sua idade, pelo momento histórico - fim tão recente de uma guerra atroz com tantos mortos, enquanto a Natureza exibe-se exuberante -, ou simplesmente por um daqueles pensamentos que nos atingem vindos de caminhos incertos, Clarissa começa a refletir sobre a morte:
"(...) did it matter that she must inevitably cease completely; all this must go on without her; did she resent it; or did it not become consoling to believe that death ended absolutely? but that somehow in the streets of London, on the ebb and flow of things, here, there, she survived, (...), she being part, she was positive, of the trees at home; of the house there, (...) part of people she had never met; (...)"
Achei curioso, pois, quando a Inevitável me deu um beijinho no cangote, foi aproximadamente isto que pensei: ~ a vida continuará para os outros, e tantas coisas eles ainda verão e farão, mas eu não mais. Foi uma surpresa, visto que eu nutria a certeza de que, quando minha hora chegasse, mandaria um "Finalmente! Já vou tarde!". Hoje, agora, creio que também penso conforme a reflexão final de Clarissa nessa passagem. Esse trecho me lembrou um pouco do livro da Lispector, A Paixão Segundo GH. A morte não equivaleria, metaforicamente, à experiência de comer a barata? Juntar-se à massa branca? (... Nossa, esse livro vai me... ~baratinar~?)

Ah, outra coisa: Clarissa também refletiu sobre seu casamento e sobre o homem que escolhera para casar e, coincidentemente (de novo), um parente querido acaba de noivar; casamento em 2018. Torço para que surjam apenas lembranças felizes, caso essa pessoa repita os passos de Clarissa em semelhante reflexão futuramente. Trata-se de um passo tão difícil e importante...
"For in marriage a little license, a little independence there must be between people living together day day out in the same house; (...)"
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19 de Junho de 1923
I took up this book with a kind of idea that I might say something about my writing—which was prompted by glancing at what K. M. said about her writing in The Dove's Nest. But I only glanced. She said a good deal about feeling things deeply: also about being pure, which I won't criticise, though of course I very well could. But now what do I feel about my writing?—this book, that is, The Hours,* if that's its name? One must write from deep feeling, said Dostoievsky. And do I? Or do I fabricate with words, loving them as I do? No, I think not. In this book I have almost too many ideas. I want to give life and death, sanity and insanity; I want to criticise the social system, and to show it at work, at its most intense. But here I may be posing.
(...)
Am I writing The Hours from deep emotion? Of course the mad part tries me so much, makes my mind squirt so badly that I can hardly face spending the next weeks at it. It's a question though of these characters. People, like Arnold Bennett, say I can't create, or didn't in Jacob's Room, characters that survive. My answer is—but I leave that to the Nation: it's only the old argument that character is dissipated into shreds now; the old post-Dostoievsky argument. I daresay it's true, however, that I haven't that "reality" gift. I insubstantise, willfully to some extent, distrusting reality—its cheapness. But to get further. Have I the power of conveying the true reality? Or do I write essays about myself? 
(...)

27 de Dezembro de 2017
O estilo de Woolf nesse livro, assim como em To The Lighthouse, me lembra muito aquele de Katherine Mansfield no conto Prelude. Acredito que escrevi sobre ele no blog. Deixe-me ver, aqui, qual foi a bobagem. (...) Ah, sim, foi isto mesmo:
"Como se fôssemos uma abelhinha ou uma câmera invisível, temos a sensação de voar entre os integrantes (~ sete) da família Burnell, saltando dentre as mentes de cada um deles e, assim, percebendo as diferentes perspectivas e sentimentos. Lindo demais. Ah, e lembra bastante o Ao Farol, da Virgínia Woolf, que só foi publicado dez anos depois de Prelude." 
Em Mrs. Dalloway, também escrito depois de Prelude, é exatamente a mesma coisa. Esse estilo me lembra sempre do clipe dos Beatles para a música Free as a Bird - o leitor sente-se como a câmera que simula o olhar do pássaro que voa de um ponto ao outro:



Impressiona-me bastante quantas coisas distintas passam pela cabeça de Clarissa enquanto ela faz seu breve passeio. Tentei recapitular se, enquanto caminho por aí ou corro, minha mente vagueia por tantos caminhos obscuros, mas não tenho certeza se isso ocorre. Seria algo inconsciente? Pensamentos que, tal qual um sonho, eu teria dificuldade de resgatar posteriormente? Hum... Particularmente interessante, também, é vê-la aproveitar a ocasião para repensar questões críticas da própria vida; entretendo-se (?) em rememorações diversas.
"Oh, if she could have had her life over again! she thought, steeping on to the pavement, could have looked even differently!"
O certo é que, assim como ela igualmente faz nesse passeio, tenho prestado mais atenção naquilo que me rodeia, e esse livro está fortalecendo demais isso. Hoje, por exemplo, me peguei observando atentamente o balanço causado pelo vento nas flores de um canteiro. (O que está acontecendo comigo?!) Daí, naquele instante, esta afirmativa da personagem me assomou:
" 'That is all', she said, looking at the fishmonger's. 'That is all', she repeated, pausing for a moment at the window of a glove shop (...)
É possível que eu esteja equivocada, mas escolhi aplicar este sentido à frase dela: isso é tudo; a vida é "só" isso, e não é absolutamente incrível? Ao mesmo tempo, embora hoje eu seja capaz de perceber a beleza fascinante dos pequenos detalhes ao meu redor, também luto contra o mesmo Monstro que teima em espreitar Clarissa, afligindo-a imensamente:
"(...) this brutal monster! to hear twigs cracking and feel hooves planted down in the depths of (...) the soul, never to be content quite, or quite secure, for at any moment the brute would be stirring, this hatred, (...) gave her physical pain, and made all pleasure in beauty, in friendship, in being well in being loved and making her home delightful (...) bend as if indeed there were a monster grubbing at the roots, (...)"
Mais uma vez, o livro acabou remetendo-me a outra música; agora Climbing up the Walls, Radiohead. Parafraseando meu querido Thom: não adianta desviar o olhar, pois ele, o maldito, sempre está por perto, de tocaia, escalando as paredes.



Diante de tantas ponderações sobre a vida, o universo e tudo mais, julguei apenas lógico deparar-me com Clarissa fazendo ruminações também sobre religião. No meio de nosso confuso emaranhado de sentimentos, será que religiões prestam para algo? Falta-me uma resposta definitiva, contudo esta direção de Clarissa me parece satisfatória como ponto de partida:
"(...) her experience that religious ecstasy made people callous (so did causes); dulled their feelings, for Miss Kilman would do anything for the Russians, starved herself for the Austrians, but in private inflicted positive torture, so insensitive was she, (...)"
Por fim, surgiu uma personagem que parece ser incapaz de conter o Monstro: Septimus Warren Smith. Lucrezia, a esposa, tenta fazer com que ele esqueça o Maldito e perceba a vida que floresce ao seu redor - " 'Look, (...), Oh look', she implored him. But what was there to look at?" -, porém sem sucesso. Ao contrário de Clarissa, ele não está conseguindo enxergar nada além do Monstro.
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2 de Agosto de 1924
A feeling of depression is on me, as if we were old and near the end of all things. It must be the change from London and incessant occupation. Then, being at a low ebb with my book—the death of Septimus—and I begin to count myself a failure. (...) Yet if this book proves anything, it proves that I can only write along those lines, and shall never desert them, but explore further and further and shall, heaven be praised, never bore myself an instant. But this slight depression—what is it? I think I could cure it by crossing the channel and writing nothing for a week. 

31 de Dezembro de 2016
Confirmando uma tradição pessoal, o fim de ano traz, mais uma vez, um elefante para sentar-se sobre meu peito. Uma melancolia atroz sempre me consome nessa época do ano de forma irremediável. É inútil racionalizar a circunstância lembrando tratar-se apenas de um número no calendário e que o tempo é outra coisa, pois não adianta; o monstrinho sempre aparece. Já somos tão íntimos, e esse daí passa tão pouco tempo comigo, que consigo lidar razoavelmente bem com ele.

Essa temática do tempo e do fim de um ciclo ajusta-se bem com a presente obra da Woolf. As personagens do livro nem precisam desse tipo de ajuda, mas, de qualquer jeito, o Big Ben comparece recorrente e implacavelmente para sinalizar que o tempo está passando pra todo mundo. Não à toa, Mrs. Dalloway apresenta-me a personagens que se dedicam a devaneios rememorativos que, variavelmente, recaem na relação vida x morte. (Nossa; que momento oportuno para ler Mrs. Dalloway!)

Justamente por conta dessas reflexões, recordei que Woolf cogitara intitular essa obra "The Hours / As Horas" (descobri isso graças à adaptação cinematográfica do livro do Cunningham,  "As Horas"), o que parece-me mais oportuno, não sei. Continuo inapta para elaborar uma razão que a tenha levado a preferir Mrs. Dalloway.
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15 de Agosto de 1924
(...) Mrs. Dalloway is going to stretch beyond October. In my forecasts I always forget some most important intervening scenes: I think I can go straight at the grand party and so end; forgetting Septimus, which is a very intense and ticklish business, and jumping Peter Walsh eating his dinner, which may be some obstacle too. But I like going from one lighted room to another, such is my brain to me; lighted rooms; and the walks in the fields are corridors; and now today I'm lying thinking. 
(...)
By the way, why is poetry wholly an elderly taste? When I was 20, in spite of Thoby who used to be so pressing and exacting, I could not for the life of me read Shakespeare for pleasure; now it lights me as I walk to think I have two acts of King John tonight, and shall next read Richard II. It is poetry that I want now—long poems. Indeed I'm thinking of reading the Seasons. I want the concentration and the romance, and the words all glued together, fused, glowing; have no time to waste any more on prose. 

02 de Janeiro de 2017
Novamente um trecho de Mrs. Dalloway trouxe-me de volta Katherine Mansfield. Dessa vez, foi o conto Bliss, por conta da passagem em que Clarissa está radiante porque Sally Seton viria para o jantar.
" 'She is beneath this roof... She is beneath this roof!' (...) feeling as she crossed the hall 'if it were now to die, 'twere now to be the most happy.'. (...) all because she was coming down to dinner in a white frock to meet Sally Seton!"
Percebo que Woolf gosta muita de uma metáfora que, vira e mexe, tem aparecido: Ondas! É, antes mesmo de The Waves / As Ondas, ela já revela o gosto particular por essa imagem. Exatamente por isso, foi apenas quando Peter relembra que os escritores favoritos de Clarissa apreciavam metáforas náuticas que ela própria às vezes utilizava em seu discurso, que me ocorreu: Clarissa é alter ego de Virginia Woolf?! Fui lerda nessa percepção. Desenvolvendo essa ideia, a impressão que começo a elaborar é que Clarissa e Septimus, um dos vários pares da história - outros seriam vida e morte, passado e futuro, sanidade e loucura, juventude e velhice, mortalidade e eternidade, guerra e paz... -, simbolizam uma dualidade que habitaria Woolf; a luta entre o lado que deseja apegar-se fervorosamente à vida e aquele que simplesmente não consegue, por mais que se esforce. Alguns trechos que trazem as metáforas das ondas:
“How fresh, (…) the air was in the early morning; like the flap of a wave; the kiss of a wave; chill and sharp yet (…) solemn (…)”

“(…) waves of sound (...)” 

“Such are the visions which proffer (…), or murmur in his ears like sirens lolloping away on the green sea waves, (...)”
"So on a summer's day waves collect, overbalance, and fall; collect and fall; and the whole world seems to be saying that's all more and more. (...) Fear no more, says the heart, committing its burden to some seam which sighs collectively for all sorrows, and renews, begins, collects, lets fall. And the body alone listens to the passing bee; the wave breaking; the dog barking, (...)"
Esta última passagem, em especial, fez com que me lembrasse de meus pais, pois eles sempre dão muita importância para que, durante minhas visitas, eu tome pelo menos um banho de mar. Minha mãe brinca dizendo "Para limpar a urucubaca, Dani." ; e respondo-lhe: - Ih, mãe, tem muita urucubaca pra limpar, hein. Tenho quase certeza, então, de que eles concordariam com Clarissa: as ondas do mar têm o poder de coletar nosso sofrimento e renovar o espírito.

Não pude evitar mais esta alusão musical: "Como uma onda no mar"!  ¯\_(ツ)_/¯
(- Muita heresia? Ah, combina com o livro, vai?)

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7 de Setembro de 1924
It is a disgrace that I write nothing, or if I write, write sloppily, using nothing but present participles. I find them very useful in my last lap of Mrs. D. There I am now—at last at the party, which is to begin in the kitchen, and climb slowly upstairs. It is to be a most complicated, spirited, solid piece, knitting together everything and ending on three notes, at different stages of the staircase, each saying something to sum up Clarissa. Who shall say these things? Peter, Richard, and Sally Seton perhaps: but I don't want to tie myself down to that yet. Now I do think this might be the best of my endings and come off, perhaps. But I have still to read the first chapters, and confess to dreading the madness rather; and being clever.

03 de Janeiro de 2017
As associações musicais suscitadas por Mrs. Dalloway simplesmente não param. Hoje, durante a corrida, Mr. Shuffle mandou Fake Plastic Trees (- Thom, você já leu Mrs. Dalloway?) e subitamente, assim do nada mesmo, fui tomada pela lembrança das personagens do livro - Clarissa, Septimus, Lucrezia, Peter. Um aperto doloroso na garganta querendo provocar um choro embaraçoso ali, no meio da corrida e diante de todos. O que está acontecendo comigo?! O que as palavras de Woolf estão fazendo comigo? To the Lighthouse já havia me tocado, mas nem se compara à avalanche causada por Mrs. Dalloway.

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17 de Outubro de 1924
It is disgraceful. I did run upstairs thinking I'd make time to enter that astounding fact—the last words of the last page of Mrs. Dalloway, but was interrupted. Anyhow, I did them a week ago yesterday. "For there she was," and I felt glad to be quit of it, for it has been a strain the last weeks, yet fresher in the head; with less I mean of the usual feeling that I've shaved through and just kept my feet on the tight rope. I feel indeed rather more fully relieved of my meaning than usual—whether this will stand when I re-read is doubtful. But in some ways this book is a feat; finished without break from illness, which is an exception; and written really in one year; and finally, written from the end of March to the 8th October without more than a few days' break for writing journalism. So it may differ from the others. Anyhow, I feel that I have exorcised the spell which Murry and others said I had laid myself under after Jacob's Room.

04 de Janeiro de 2017
Que figura atormentada, esse Peter Walsh. Sinto muita compaixão por ele realmente. Emulando Clarissa, a mente dele vagueia por rememorações em cadeia, onde cada lembrança atua como uma madeleine de Proust, puxando outra lembrança. Ele parece lutar consigo mesmo, tentando convencer-se de que tudo estava bem, de que não amava mais Clarissa, de que ele ainda era jovem e que tinha toda a vida pela frente, não precisando de mais ninguém. Se não fosse tão real, talvez pudesse soar cômico. Também acho curiosa a frequência com que os pensamentos das personagens dedicam-se à análise de outras pessoas. Pensar na vida alheia... Sem grandes surpresas, as conjecturas que elas fazem sobre os outros são majoritariamente equivocadas. 

Mas claro, talvez o tormento dele não seja nada se comparado àquele de Septimus - ou talvez nem caiba comparar, na verdade. Um rapaz que se voluntaria para lutar na guerra, em nome de uma Inglaterra que ele só conhecia a partir das obras de Shakespeare! Coitado. O horror do confronto estava oficialmente encerrado para o mundo, mas não para Septimus. Após testemunhar as atrocidades da guerra e a morte de um amigo, ele não consegue mais sentir nada e o significado da vida escapa-lhe completamente. A conclusão que ele compartilha sobre a obra de Shakespeare - citado também outras vezes nesse livro - me assustou e nunca havia me ocorrido assim tão clara. Septimus confabula que o Bardo desprezava a humanidade, tendo escondido, na beleza de seus versos, toda a sordidez, pequenez e mesquinharia próprios dos seres humanos. A verdadeira natureza humana, em toda sua repugnância, pode ser encontrada nas obras de Shakespeare. Em parte, creio que ele está certo. 

Os médicos, esses sim conseguem ser tragicômicos na maneira com que tratam Septimus. Um deles tem a pachorra de abordá-lo com condescendência grotesca, como se o paciente desesperado fosse uma criança fazendo manha. O outro, um famosão que conseguiu ficar rico com a "loucura" dos outros, diagnostica "falta de senso de proporção" e prescreve para o tratamento: repouso, isolamento e a supressão do pensamento sobre si mesmo. Hum... Mas qual seria a diferença entre essa terapia e a morte, afinal?
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13 de dezembro de 1924
I am now galloping over Mrs. Dalloway, re-typing it entirely from the start, which is more or less what I did with the V.O.: a good method, I believe, as thus one works with a wet brush over the whole, and joins parts separately composed and gone dry. Really and honestly I think it the most satisfactory of my novels (but have not read it cold-bloodedly yet). The reviewers will say that it is disjointed because of the mad scenes not connecting with the Dalloway scenes. And I suppose there is some superficial glittery writing. But is it "unreal"? Is it mere accomplishment? I think not. And as I think I said before, it seems to leave me plunged deep in the richest strata of my mind. I can write and write and write now: the happiest feeling in the world.

05 de Janeiro de 2017
"There remained only the window (...); the troublesome and rather melodramatic business of opening the window and throwing himself out. (...) But he would wait till the very last moment. He did not want to die. Life was good. The sun hot. Only human beings?"
Aqui, despedi-me de Septimus. Ironia peculiar, acompanhar Peter observando a ambulância que levava o corpo de Septimus, enquanto conjecturava sobre a história de quem estaria ali dentro. 

O fato do suicídio dele ter ocorrido minutos depois de uma cena de completo júbilo com a esposa, patrocinada por piadas internas relacionadas à confecção de um chapéu, reforça a efemeridade de nossa circunstância, ao mesmo tempo em que sugere que a felicidade estaria nesses pequenos eventos do dia a dia. Porém é preciso olhar, é preciso saber sentir e enxergar e, às vezes, acho que aquele Monstro previamente citado (da Clarissa, meu, do Thom, do Septimus), pode tornar isso bastante difícil.

Logo em seguida, surgiu mais explicitamente um outro tema (nos pensamentos de Peter e alusões àqueles de Clarissa) que aparentemente é caro à Woolf, pois também encontrei em To The Lighthouse. Falo daquele relacionado à constatação de que não conhecemos verdadeiramente uns aos outros, especialmente porque seríamos fiéis à nossa própria essência apenas quando sozinhos.
"(...) it is the privilege of loneliness; in privacy one may do as one chooses. One might weep if no one saw. (...) Clarissa had a theory (...) to explain the feeling they had of dissatisfaction; not knowing people; not being known. For how could they know each other? (...) It was unsatisfactory, they agreed, how little one knew people. (...) the part of us which appears, are so momentary compared with the other, the unseen part of us, which spreads wide (...)"
Acho importante apegar-me fortemente a isso, para não cair na tentação de julgar levianamente os outros, nutrindo conclusões frequentemente traiçoeiras. 
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8 de abril de 1925
I wonder if this time I have achieved something? Well, nothing anyhow compared with Proust, in whom I am embedded now. The thing about Proust is his combination of the utmost sensibility with the utmost tenacity. He searches out these butterfly shades to the last grain. He is as tough as catgut and as evanescent as a butterfly's bloom. And he will, I suppose, both influence me and make me out of temper with every sentence of my own.

06 de Janeiro de 2017
Então Clarissa, no fim das contas, desceu as escadas e manteve-se resoluta em sua decisão de dar sua festa? É, admito que fui surpreendida. Ponderando a partir desse final, ainda que o "louco" tenha sido excluído da última celebração, penso ser possível supor que a mensagem do livro seja otimista. Será? Seria essa a razão do título "Mrs. Dalloway", e não "The Hours"? Trazer o foco para a personagem que, a despeito de sua solidão e luta interna contra o Monstro, escolhe ver beleza na vida e dar uma festa durante o pós-guerra? Terei de conformar-me com a hipótese. Gosto dela, de qualquer jeito.

As cenas finais também chamaram-me atenção para um símbolo importante da narrativa: a janela! Na primeira página, Clarissa abre uma janela que permite que o ar da manhã a invada como uma onda (!), praticamente convidando-a para um salto que, infelizmente, Septimus fará mais adiante, literalmente. E neste final, através novamente de sua janela, Clarissa observa a rotina de sua vizinha, refletindo sobre o fascínio representado pela constatação de que há várias pessoas vivendo suas vidas simultaneamente, cada uma a sua maneira. Ali, naquele instante tão singelo, parece que ela toma a resolução definitiva de fechar a janela, recusar o convite para o salto e voltar para sua festa - a vida! Não sei se a narrativa permite essa interpretação, mas foi isso que me ocorreu. 
"So there she was."
And here I am. 
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18 de junho de 1925
No, Lytton does not like Mrs. Dalloway, and, what is odd, I like him all the better for saying so, and don't much mind. What he says is that there is a discordancy between the ornament (extremely beautiful) and what happens (rather ordinary—or unimportant). This is caused, he thinks, by some discrepancy in Clarissa herself: he thinks she is disagreeable and limited, but that I alternately laugh at her and cover her, very remarkably, with myself. So that I think as a whole, the book does not ring solid; yet, he says, it is a whole; and he says sometimes the writing is of extreme beauty. What can one call it but genius? he said! Coming when, one never can tell. Fuller of genius, he said, than anything I had done. Perhaps, he said, you have not yet mastered your method. You should take something wilder and more fantastic, a framework that admits of anything, like Tristram Shandy. But then I should lose touch with emotions, I said. Yes, he agreed, there must be reality for you to start from. Heaven knows how you're to do it. But he thought me at the beginning, not at the end. And he said the C.R. was divine, a classic, Mrs. D being, I fear, a flawed stone. This is very personal, he said, and old fashioned perhaps; yet I think there is some truth in it, for I remember the night at Rodmell when I decided to give it up, because I found Clarissa in some way tinselly. Then I invented her memories. But I think some distaste for her persisted. Yet, again, that was true to my feeling for Kitty and one must dislike people in art without its mattering, unless indeed it is true that certain characters detract from the importance of what happens to them. None of this hurts me, or depresses me. It's odd that when Clive and others (several of them) say it is a masterpiece, I am not much exalted; when Lytton picks holes, I get back into my working fighting mood, which is natural to me. I don't see myself a success. I like the sense of effort better. The sales collapsed completely for three days; now a little dribble begins again. I shall be more than pleased if we sell 1500. It's now 1250.

17 de Janeiro de 2017
Hoje ocorreu a discussão do livro com as outras quatro leitoras que fazem parte do clube de leitura. Foi uma experiência muito diferente, especialmente por ter sido meu primeiro clube; e nem mesmo as conhecia antes. Aliás, retomando aquela reflexão que o próprio Mrs. Dalloway me proporcionou, não as conheço e nem as conhecerei verdadeiramente, correto?

O que mais me marcou foi descobrir que este livro e essas personagens não pareceram tê-las tocado da forma tão intensa como ocorreu comigo; sendo que eu estava convicta de que nenhum leitor estaria imune à avalanche arquitetada por Woolf. Recebi a constatação como uma oportunidade para enveredar-me por uma jornada de autoconhecimento (ou quase). Comecei embarcando na seguinte paranoia introspectiva: por que essa narrativa e essas personagens mexeram tanto comigo, afinal?! Organizar as razões em  palavras explícitas me assusta um pouco, então imaginei que, talvez, eu possa contentar-me em parafrasear (supostamente) Flaubert? Clarissa, Peter, Septimus, Lucrezia; sou todos eles.
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17 de fevereiro de 1926
I enjoy almost everything. Yet I have some restless searcher in me. Why is there not a discovery in life? Something one can lay hands on and say "This is it"?
-Virginia Woolf.

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