28/03/2017

[DL #06] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagens anteriores: DL#01, DL #02, DL #03, DL #04, DL #05.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVRO 06
The Widow and the Wife


✒ E a tensão sexual presente na narrativa das duas (!) despedidas entre Will e Dorothea, hein? Uma palavra: excepcional. Gostei especialmente da forma com que Eliot utilizou a descrição minuciosa da linguagem corporal do casal para construir a atmosfera aflitiva que salta das páginas e exaspera o leitor, quase como a marcação de cena em uma peça de teatro. Lembrei de que não é um recurso que surge somente nesse momento, pois, ao longo do livro, a autora descreve detalhadamente vários pequenos gestos trocados entre Mr. e Mrs. Garth que reforçam a grande intimidade e cumplicidade do casal, já sugeridas pelos diálogos.

A relação entre Will e Dorothea está rendendo um fôlego que me impulsiona a concluir quanto antes a leitura, a fim de que eu possa vê-los finalmente juntos. Ou não ficarão juntos? Hum... A ver.


✒  P.S.:  está sendo super gratificante poder reencontrar-me com a Dorothea do livro 01. Digo, ela é quase a mesma Dodo, pois houve amadurecimento e aprendizado de lições valiosas para qualquer pessoa.
"Sorrow comes in so many ways. Two years ago I had no notion of that - I mean of the unexpected way in which trouble comes, and ties our hands, and makes us silent when we long to speak. I used to despise women a little for not shaping their lives more, and doing better things. I was very fond of doing as I liked, but I have almost given it up."
Acho que essa foi uma das passagens mais incríveis que li em Middlemarch. Que personagem instigante!

P.S.2: o Will Ladislaw não lembra, mais ou menos, uma espécie de Mr. Darcy "pobretão" (por azar e por escolha)? Viajei demais? Acredito que não há como esse cara tornar-se mais orgulhoso, sinceramente. Will tem lá seus motivos, talvez ele acredite que o orgulho seja a única coisa que lhw resta, mas continua chamando muita atenção.

✒ Agora, sim, a treta do passado que inesperadamente liga Mr. Bulstrode a Will Ladislaw foi explicada em todos os seus pormenores; não apenas para o leitor, mas para o próprio Will. Deixe-me resgatar a teoria que eu havia elaborado no DL#05: "minha suposição é que Will Ladislaw teve seu patrimônio "roubado" duplamente. Parece-me que o pai dele - o Ladislaw filho da avó Julia - casara-se com uma moça que só era pobre porque tivera sua herança roubada pelo padrasto, o Mr. Bulstrode. Ou seja, minha suspeita é que o pai e a mãe de Will Ladislaw são herdeiros que, de alguma maneira, tiveram as fortunas a que tinham direito surrupiadas. Por enquanto, foi o que entendi." Ah, meu entendimento nem foi um fiasco completo. Resta tapar  buracos e acertar arestas com as minúcias disponibilizadas no livro seis.

Quando era um jovem membro de uma igreja calvinista dissidente, época em que dedicava-se avidamente à sua vocação para o trabalho missionário, Bulstrode fora convidado para trabalhar como sócio de um dos membros mais ricos da congregação, Mr. Dunkirk - o (futuro) avô materno de Will Ladislaw. A "honestidade" do negócio da família Dunkirk, no entanto, era questionável - pelo menos para os termos da comunidade religiosa - , pois tratava-se de uma casa de penhor que lucrava em cima de almas perdidas. Mesmo assim, após digladiar-se com sua consciência, Busltrode cede à tentação do dinheiro. E quando Mr. Dunkirk bate as botas, Bulstrode ainda aproveita a deixa para se casar com a rica viúva, então sozinha no mundo, visto que a filha - a (futura) mãe de Will - fugira de casa por discordar das transações comerciais da família. Posteriormente, Bulstrode consegue localizar a enteada, entretanto decide omitir a informação da esposa. Por conseguinte, depois que a avó de Will morre, é Bulstrode quem herda sozinho toda a grana dos Dunkirk. ~Dirty Business~.

E por mais inconcebível que possa soar, essa ardilosa tramoia do fervoroso religioso de Middlemarch nem foi o que mais me impressionou. Não; o que mais me abalou foi testemunhar Will Ladislaw abrir mão de toda a grana a que teria direito, e que Bulstrode o entregava (finalmente) de bom grado, porque ele decide ratificar a pregressa escolha de sua mãe. Se o dinheiro era sujo, então ele não queria tocar nele. Ou seja, Will opta por fazer aquilo que Bulstrode não tivera coragem, nem idoneidade de fazer quando jovem. Mas calma, pois Will ainda dispôs de uma outra motivação especial que me desmontou completamente:
"No one but himself then knew how everything connected with the sentiment of his own dignity had and immediate bearing for him on his relation to Dorothea and to Mr. Casaubon's treatment of him. And in the rush of impulses by which he flung back that it would have been impossible for him ever to tell Dorothea that he had accepted it."
Se aceitasse aquele dinheiro, o desgraçado acredita que não estaria digno e à altura de Dorothea que, caso estivesse naquela mesma posição, com certeza rejeitaria a oferta de Bulstrode. Como lidar com esse cara depois dessa?

P.S.: se eles não ficarem juntos no final, a Eliot terá de lidar com meu rancor. (Mentira, pois a leitura foi ótima e Dorothea está muito bem sozinha. Mas não custa nada, não é?)


✒ Aproximando-me da conclusão da leitura, alguns temas da obra deixam de ser meras hipóteses e já consolidam-se de modo mais concreto e inquestionável, portanto gostaria de organizar melhor essas ideias. Pontuando, sucintamente, em gifs ilustrativos e anotações:

1. 

Muitas questões morais discutidas nesse livro. Quase todas as personagens se vêem metidas em uma situação que as coloca contra a parede da moralidade. Recapitulando passagens pregressas, percebo agora que a posição de Lydgate lá no livro 2, tendo de votar para a escolha do novo guia espiritual do hospital, já era o primeiro (algum outro antes?) de uma sequência de pequenos testes morais de Middlemarch. Alguns exemplos de dilemas:

- Lydgate → 1. Devo votar no candidato que beneficiará minha jornada ou naquele que julgo mais preparado para a vaga? 2. É correto associar-me a um indivíduo de caráter duvidoso, em nome da conquista de um bem maior que beneficiará todos?

- Ladislaw → 1. Devo apoiar um político que votará a favor daquilo que desejo para meu país, ainda que ele seja um completo incompetente hipócrita? 2. É justo beneficiar-me de dinheiro adquirido às custas da desgraça de vidas alheias? 

- Farebrother, Fred, Bulstrode → Devo trabalhar com algo para o qual não tenho a menor vocação, simplesmente pela promessa de dinheiro relativamente fácil, mesmo sabendo que me tornarei um profissional incompetente e infeliz? Melhor ser pobre exercendo aquilo para o qual tenho vocação?

- Bulstrode → Deus é quem está garantindo este dinheiro que recebo, a fim de que eu consiga fazer valer suas vontades na Terra, certo? A desventura alheia que gera minha riqueza é um contratempo menor, diante da vontade de Deus, confere? Confere, né? Fazer o bem por aí sai caro, afinal.

- Dorothea → Devo dar seguimento ao trabalho inconcluso do meu falecido marido, ainda que eu discorde plenamente de sua relevância? O matrimônio cria esse tipo de responsabilidade após a morte do meu companheiro?

- Mary Garth → É certo queimar, na calada da noite, um dos testamentos de um doente que agoniza em seus últimos momentos? 

2. 

Eu já havia associado a frase do Brás Cubas "tantos sonhos, e não sou nada" ao Mr. Casaubon, porém percebo que ela pode ser aplicada a outras personagens do livro. A maioria almeja por algo bastante específico, traça planos ambiciosos que são perseguidos com grande afinco, contudo a vida, ironicamente, as atropela cruelmente no começo/meio/fim da jornada. Para umas, definitivamente. Para outras, não? Vamos acompanhar.

Criar sonhos é fácil, concretizá-los, por sua vez, já é uma outra história. 

3. 

Não é notável a quantidade de circunstâncias em que o Dinheiro assume o papel de vilão no meio dessas mesmas jornadas idealistas? Recorrerei àquela famigerada frase: dinheiro não traz felicidade, mas compra. Certo, pode até comprar, só que seríamos obrigados a voltar para o primeiro item da minha presente lista: vale qualquer coisa para conseguir a maldita/bendita grana? Quer dizer, todas essas questões temáticas aparecem engenhosamente interconectadas na narrativa.

4. 

Esse, eu já discuti bastante por aqui, porém vale destacar que a dinâmica estabelecida entre Lydgate e Rosamond fortalece muito a concepção de que fazer um casamento funcionar não é uma tarefa exatamente fácil. Aliás, qualquer relação, antes mesmo da fase matrimonial, impõe grandes desafios, Will e Dorothea que o digam. 

O título do livro seis chama atenção para o que eu havia comentado no DL#05, a respeito da enorme diferença de comportamento e de personalidade existente entre Rosamond e Dorothea. Ao contrário do que fez Dodo, Rosamond resiste a submeter-se passivamente às vontades do marido e não demonstra qualquer interesse pela profissão que Lydgate tão apaixonadamente exerce. Como já citei, houve praticamente uma troca de casais: Dodo deveria estar com Lydgate e Rosamond com Casaubon. Mas será que a troca daria um jeito em tudo? Existiria uma fórmula capaz de garantir o sucesso de um casamento? Aliás, a própria instituição pode estar sendo questionada, especialmente o que ela representa na vida das mulheres. 

Dessa reflexão, é igualmente possível retornar aos pontos 2 e 3 dessa minha lista. Quantos sonhos são construídos em torno de um matrimônio perfeito que não resiste à primeira dificuldade financeira? Em Middlemarch, conhecemos pelo menos um caso: Rosamond e Lydgate. Ou eles conseguirão superar a má fase e a completa dissintonia? Vamos acompanhar.

Obs.: todas essas conexões temáticas conferem tanta humanidade às personagens do livro. Pelo menos, eu acho. Sinto-me muito constrangida e desconfortável em julgá-las. Como poderia fazer isso?! (Ok, fiz um pouquinho com o Casaubon, mas ele facilitou. 😏)

✒  Para encerrar a conversa, quero só atualizar duas listas de DL's prévios.
1. Informações históricas
Como registro da leitura, destaco que Eliot novamente demonstrou a ignorância provinciana diante das inovações da época, desse vez por conta da construção de estradas de ferro interligando o país. Trabalhadores chegavam até a atacar os agentes das companhias das linhas de trem. 
"(...) as mulheres consideravam a locomoção a vapor audaciosa e arriscada, (...) nada iria convencê-las a embarcar num vagão; ao passo que os proprietários (...) eram porém unânimes na opinião de que vendendo terras (...) agências deveriam ser forçadas a pagar um preço bem alto pela permissão de fazer mal às pessoas."
Ademais, o narrador ressalva brevemente que também ocorriam os horrores da Cólera.

2. Mulher na sociedade provinciana do século XIX
O que se esperava de uma viúva em Middlemarch? Que ela se casasse de novo, claro, pois uma mulher morando sozinha inevitavelmente tornava-se psicótica. Ora, o que ela teria para fazer, sem um marido e filhos, ué? Bom, quem disse isso foi a Mrs. Cadwallader.

18/03/2017

[DL #05] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagens anteriores: DL#01, DL #02, DL #03, DL #04.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
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LIVRO 05
The Dead Hand


✒ E finalmente despeço-me para sempre de Mr. Casaubon. Desculpo-me pelo "finalmente", mas a verdade é que o advérbio é inevitável. Além do mais, o DL#04 atesta que, com a ajuda do narrador, eu bem que tentei dar uma chance à personagem, mas ela não apenas dificultou a empreitada, como também provou que meu último "P.S." foi certeiro e premonitório. Recapitulando: "P.S.: só que... O temor que Mr. Casaubon manifesta pelo destino de Dorothea depois que ele tenha batido as botas, rechaçando um eventual casamento dela com Ladislaw, é meio patético demais pra mim."  Eis que o digníssimo tratante foi lá e, na prorrogação do segundo tempo, incluiu em seu testamento um codicilo que determina que Dorothea perde toda a herança, na hipótese de casar-se com Will Ladislaw. Felizmente ele papocou antes que ela tivesse prometido-lhe qualquer besteira. Para minha lembrança futura, acho que vale esclarecer que a indignação com o codicilo não relaciona-se ao receio de que ele impeça uma maior aproximação entre Dorothea e Ladislaw, mas sim às inerentes repercussões e implicações. Com esta condição, Mr. Casaubon expôs suas vis e infundadas suspeitas, induzindo todos a duvidarem da fidelidade e dedicação de Dorothea a seu esposo, ao mesmo tempo em que coloca Will na posição daquele que torce pela morte do primo para que possa aplicar o golpe do baú na viúva. Analisando retrospectivamente a jornada de Mr. Casaubon, não me resta dúvida de que a circunstância e a posição patética em que ele é encontrado morto reflete bem como foi sua passagem pela vida: indivíduo que sustenta uma postura imponente e solene, mas que não passa de um moribundo irrelevante e desprezível. (Ah!, fiquei mesmo irada com esse cara.)

A revelação do codicilo faz com que Dorothea questione toda a realidade que construíra para seu casamento, submetendo-se a uma verdadeira metamorfose na qual a memória não se ajusta aos novos fatos descobertos. Como uma espécie de despertar do coma, tudo mudava de aspecto para ela: a conduta do marido, seu senso de dever em relação a ele e sua ligação com Will Ladislaw. A constatação de que Mr. Casaubon vivia secretamente alienado em suspeitas torpes fez com que a devoção submissa dela fosse substituída pela lembrança dolorosa de que os escrúpulos do marido estavam abaixo do que Dodo havia idealizado. Quanto a Will, o golpe de Casaubon parece ter provocado nela o efeito contrário daquilo que pretendia: se antes Dorothea jamais havia pensado em Will como um possível amante, ela agora ponderava a respeito da amizade dos dois em tais termos hipotéticos. 


✒ Aproveito para já repassar algumas suposições e conclusões registradas em diários prévios, pois o prosseguimento da leitura demonstra que mandei muitas bolas pra fora. Quanto a esse aspecto, o diário de leitura está ficando até divertido.

(1) Cheguei a cogitar que Dorothea pudesse trair o marido com Will, mas isso já é claramente carta fora do baralho. Afirmei que acharia esse rumo péssimo e despropositado em relação à personalidade da personagem, portanto fico aliviada ao observar que isso não ocorrerá. Subestimei ligeiramente Eliot, uma vez que ela parece tratar suas personagens com muita reverência, de fato.

(2) Também equivoquei-me quanto à passagem do tempo ao longo do livro. Já houve dois casamentos, dois óbitos, Celia já tem um bebê e Rosamond está grávida. Resta evidente a ocorrência de breves saltos temporais a cada capítulo e/ou livro. Sendo assim, a narrativa inicia-se em 1829, ok; mas já estamos em 1831! Isso é citado explicitamente nesse livro 5.

(3) Outro deslize cometido refere-se ao Mr. Brooke. Até o livro 04, eu não havia percebido que o tio de Dorothea tinha pretensões de candidatar-se ao parlamento. A brincadeira dele com o jornalzinho não era mera militância política via textões, visto que servia de prévia campanha eleitoral, o que torna a hipocrisia estabelecida entre o discurso reformista e a posição social dele mais ridícula. De todo modo, isso já está resolvido, pois, após um discurso fracassado com direito a saraivada de ovos, ele desistiu do projeto político.

(4) A teoria dos casamentos desastrosos, contudo, parece-me seguir relativamente válida. Dorothea e Casaubon, conforme discutido, foram um fiasco completo. Os papos travados entre Lydgate e Rosamond revelam que o casal tem pouco em comum, sendo sugerido ademais que Lydgate está metendo-se em dívidas por conta do casamento. E tenho dúvidas se a enorme consideração com que Chettam trata Dorothea corresponde apenas à afeição de um cunhado preocupado.

Vale acrescentar, porém, que Will e Dorothea poderão despontar como um possível casal feliz para o final dessa história. Gosto da maneira com que Eliot está construindo o relacionamento dos dois. Vamos acompanhar.

A despeito desses equívocos, ouso registrar outra proposta temática. Especialmente por conta do conflito interno por que passa Ladislaw, só agora também ocorreu-me que, na verdade, praticamente todas as personagens do livro estão simples e arduamente lutando para dar um sentido às próprias vidas. Penso que a diferença esteja apenas nos estágios em que elas se encontram e os caminhos que estão seguindo nessa busca. Isso favorece muito a empatia. 


✒ Agora, gostaria de registrar o instigante diálogo travado entre Lydgate e Ladislaw no capítulo 46.
Antes, pausa para uma especulação (mais uma). Começo a suspeitar de que a proximidade sonora entre o nome dos dois não seja mera coincidência, porém ainda não consigo elaborar a contento os significados e relações. "Lead Gate - Portão/Via de Acesso" x "Lad is Law - É a lei"??! Será que procuro cabelo em casca de ovo? É bastante possível. As contrapartidas femininas dessas personagens, Rosamond e Dorothea, também estão estabelecendo uma dinâmica interessante. Elas parecem figurar em lados opostos de um espectro, quase sugerindo que esses casais estariam trocados. Lydgate assemelha-se a uma versão masculina de Dorothea, enquanto Ladislaw parece ser a de Rosamond. Os opostos se atraem inevitavelmente? Este poderia ser um outro tema? Eu já havia lançado, em DL anterior, a ideia de que isso permite observar como os caminhos de um homem e de uma mulher, com mesmas personalidades e ambições, são traçados naquela sociedade.

Pronto, falemos daquele citado diálogo. De forma veemente, Lydgate aponta que a colaboração política que Ladislaw oferecia a Mr. Brooke era descabida, visto que o Pioneer at the Grange não tinha porte de homem público, sendo deslealdade lançá-lo como um candidato reformista messiânico capaz de resolver problemas que, na verdade, estariam muito além de suas capacidades. Em princípio, a lógica de Lydgate soa bastante pertinente, contudo Ladislaw oferece contra-argumentos que provocam e fomentam uma boa reflexão. Se Mr. Brooke representava um voto no sentido das mudanças desejadas, fazia muita diferença ele ser um papagaio incapaz de solucionar miraculosamente todos os problemas? Se o candidato garantirá, quando no parlamento, um voto a favor do que eu quero, a postura moral dele em sociedade importa? A solução dos grandes problemas não precisaria começar por pequenas, mas factíveis, medidas? Só podemos fazer o esforço para tentar mudar as coisas quando acharmos homens imaculados para assumir esse papel? Mas existiriam homens imaculados e completamente escrupulosos? É preciso começar as reformas a partir de algum ponto, não? Enfim, achei a discussão relevante e ainda atual. Particularmente, meu raciocínio político aproxima-se mais daquele compartilhado por Lydgate, entretanto reconheço que o discurso de Ladislaw, de certo modo, auxilia combater a descrença política total que conduz à inércia cínica.

Em certo ponto, Ladislaw foi astuto ao também colocar Lydgate contra a parede por conta da associação do médico com o banqueiro Mr. Bulstrode. Lydgate não perde o rebolado, asseverando que mantinha vínculos com aquela controversa figura apenas para conseguir as reformas médicas necessárias para toda a sociedade, não havendo na relação nenhum interesse de caráter pessoal. Ladislaw, claro, refuta igualmente vantagens particulares na sua parceria com Mr. Brooke. Esse ponto do debate amplia a reflexão em torno de conluios pessoais moralmente questionáveis para conseguirmos determinados propósitos. Se não houver ganhos pessoais, está liberado relacionar-se com qualquer um para obtermos um bem maior para todos? Os fins sempre justificam os meios? Todo esse debate poderia ser também facilmente transposto, por exemplo, para alianças políticas entre partidos. 


✒ As peripécias de Lydgate, agora um doutor casado e futuro papai, para reformar a prática médica e construir o hospital das febres em Middlemarch continuam rendendo observações históricas curiosas que atualizarão a lista do DL#02. Pontuando brevemente:

  A ideia de que exames necroscópicos ofereceriam informações valiosas sobre os mecanismos das doenças parecia tão esdrúxula aos middlemarchers, que já circulavam pela cidade teorias conspiratórias de que Lydgate cortaria e esquartejaria todos os defuntos de seu hospital. Pois é.

  A discussão acerca da prescrição de remédios avançou no livro 5. Naquela época e por aquelas bandas, um atendimento médico só prestava, caso resultasse na prescrição de algum medicamento. Inclusive os pacientes achavam que não deveriam pagar nada pela consulta, se eles não saíssem com uma receitinha na mão. Era um verdadeiro círculo vicioso estabelecido entre médicos e pacientes. E até hoje não é assim? Detalhe: estamos falando de comprimidos do tipo "Strengthening Medicine" e "Purifying Pills" capazes de curar absolutamente qualquer coisa. Quer dizer, uns placebinhos de serventia bastante questionável.
"Does he suppose that people will pay him only to come and sit with them and go away again?"
Além disso, existia a controvérsia sobre como remunerar o médico pela prescrição dos remédios. Quem o pagaria? Farmacêuticos? Pacientes? Caberia pagamento extra pelo atendimento médico com prescrição de fármacos? Sei que isso continua muito atual para alguns remédios (quimioterápicos especialmente) e para órteses, próteses e materiais cirúrgicos especiais. 

  À prescrição racional de remédios, Lydgate associava uma outra inovação interessante: a conduta expectante, ou seja, o simples acompanhamento passivo da evolução natural da doença. Trata-se de outra fonte valiosa de informação médica. Quantas doenças para as quais a velha guarda tinha por hábito prescrever "purificantes" não evoluiriam satisfatoriamente independente do remédio? Gripes, por exemplo? 

  Como se isso tudo não bastasse, o Dr. Lydgate ainda saía por ali contradizendo o diagnóstico alheio. Poxa, mas como defender um sujeito que confunde contratura muscular com tumor de prognóstico reservado?! Restava criada, então, a necessidade de discutir ética médica entre os profissionais e pacientes.

Por tudo isso, não surpreende que Lydgate estivesse sendo carinhosamente apelidado de charlatão, arrogante, insolente e pretensioso. Por enquanto, ele segue elegante e firme em suas convicções e objetivos. Só que, como já referi, ele está se metendo em uma aparente enrascada financeira que, talvez, complique mais sua ligação com o banqueiro Bulstrode. Temo que a historinha que ele conta para Rosamond sobre Vesalius, um outro médico que defendeu seus princípios até o fim para morrer miseravelmente no final, possa ser uma premonição do que ocorrerá com ele. É, persisto preocupada com Lydgate. Vamos acompanhar.
"But oppositions have the illimitable range of objections at command, which need never stop short at the boundary of knowledge , but can draw forever on the vasts of ignorance."
P.S.: Dorothea aproximou-se mais dele por conta da doença de Mr. Casaubon e até concederá doações monetárias mensais ao hospital. É curioso que ela esteja envolvida com os dois personagens que mais lutam por reformas e mudanças. Ela seria um elo entre os dois? Um triângulo não amoroso desse tipo seria mais divertido.


✒ Sobre a contextualização histórica, a narrativa trouxe outros elementos. Aquele era o momento em que a House of Commons debatia as medidas propostas por Lord John Russel, as quais culminariam no Ato de Reforma de 1832, assim como discutia a pauta da emancipação dos negros e reformas no direito penal.

Sobre o futuro processo eleitoral, é relatado que aquela seria uma "Dry Election / Eleição Seca, na qual a profundidade do interesse popular poderia ser medida pela baixa quantidade de bebida ingerida."  Aham, é claro que funciona assim, não é? E tive de retornar ao site do Parlamento do Reino Unido para compreender a "Dissolução do Parlamento". O termo "dissolução" me passa a ideia de algo excepcional e extremo, mas, como suspeitava, trata-se de uma denominação habitual para as regras do regime que eles adotam: "Dissolution is the official term for the end of a Parliament. Under the Fixed-term Parliaments Act 2011 a general election must be held in the UK, and a new Parliament elected, every five years."


✒ 


O gif sobre o famigerado polígono retorna, pois há um novo triângulo amoroso: Fred Vincy - Mr. Farebrother - Mary Garth. Impressiona demais a capacidade do Farebrother de se meter em situações vexatórias. Esse senhor simplesmente topa interceder em defesa de Fred (pela segunda vez!) junto à Mary e, como ela refuta o molenga paspalho, Farebrother aproveita para mandar uma indireta em causa própria de maneira completamente embaraçosa. E foi rejeitado, obviamente. Bom, "pelo menos" ele conseguiu assumir a vaga deixada por Mr. Casaubon. 


✒ Para finalizar: e não é que o passado condena Mr. Bulstrode?! Quem diria que o devoto religioso estaria metido em maracutaias moralmente questionáveis, hein? Então descobrimos que Mr. Raffles - o padrasto de Mr. Riggs -  fora um amiguinho de tempos remotos menos gloriosos de Bulstrode. Raffles já chega todo trabalhado na chantagem jocosa, disposto a trocar seu silêncio por uma boa grana.

Assumirei aqui que não sei se entendi bem as insinuações a respeito dessa treta. No momento, minha suposição é que Will Ladislaw teve seu patrimônio "roubado" duplamente. Parece-me que o pai dele - o Ladislaw filho da avó Julia - casara-se com uma moça que só era pobre porque tivera sua herança roubada pelo padrasto, o Mr. Bulstrode. Ou seja, minha suspeita é que o pai e a mãe de Will Ladislaw são herdeiros que, de alguma maneira, tiveram as fortunas a que tinham direito surrupiadas. Por enquanto, foi o que entendi. Veremos se mandei outra bola pra fora. ¯\_(ツ)_/¯

Ah, e o comentário elogioso sobre Dorothea que Ladislaw manda, hein? Curti demais.
"When one sees a perfect woman, one never think of her attributes - one is conscious of her presence.