13/08/2017

O Lugar sem Limites - José Donoso ( x Pabllo Vittar)

Se uma agente do futuro tivesse me dito "Daniela, logo mais você estará cantando, dançando e encantando-se com uma drag queen brasileira; correndo, até, ao som de um tremendo techno brega dela", não há dúvidas de que eu teria mandado um "hahaha, tá louca, amiga?".  É, e agora estaria quebrando a cara. Explico.

Como sou uma pessoa alienada meio desconectada da realidade, só conheci Pabllo Vittar recentemente, por conta do último clipe do Major Lazer feat. Anitta & Pabllo Vittar. Fiquei intrigada com a pessoa, fui lá pesquisar. Vídeo vai, vídeo vem e pronto; me apaixonei completamente. Sério, poderosa é pouco:


Então, dia desses estava Lip Syncing for my Life a música "K.O." (AMO) enquanto me montava pro open bar trabalho e acabei comentando, comigo mesma, que eu nunca havia lido um livro com personagem trans/travesti/drag queen*. Percebi que gostaria, sim, de mais diversidade de gênero nas obras que leio. Imagine o susto quando, de repente, ouvi atrás de mim um cof, cof. Fui até a sala bancar o John Travolta Gif e, ao virar-me pra estante, encontro O Lugar sem Limites (OLSL) me encarando todo magoado por ter de ouvir aquilo depois de uns dois anos mofando naquela prateleira. "Poxa, minha protagonista é uma travesti, e você sabe disso!"  Ok; sua hora chegou.

Sinopse, info, etc: aqui.  (Ed. Cosac Naify)
Tradução: Heloisa Jahn
Capa (linda, linda): Tatiana Blass - Tragédia/O cão cego, 2009.
Foi um prazer enorme reencontrar-me com o Donoso. Amei intensamente essa leitura, talvez até mais do que a do excepcional O Obsceno Pássaro da Noite (OOPN). De imediato, fiquei envergonhada pela predileção pessoal - OOPN seria tecnicamente superior? - , contudo assisti a um vídeo (link aqui) em que o próprio Donoso afirma considerar OLSL sua obra mais perfeita e completa, com menos erros. Aliás, ele diz até que OLSL nasceu a partir de oito linhas extraídas de OOPN; cujas premissas, na ocasião, ele ainda tentava desenvolver a seu contento. Assim, a consciência ficou leve para assumir que prefiro O Lugar sem Limites.

Estou achando bastante difícil organizar minhas ideias, porque o conjunto de temáticas do livro, de certa maneira, lembra aquelas imagens holográficas, onde cada tema representaria uma cor. Na holografia, só identificamos cada uma das cores quando posicionamos a imagem de certa maneira; e o mesmo parece valer no momento de identificar os temas de OLSL. A presença da protagonista travesti vivendo em uma pequena cidade tomada por homens brutos e machistas me pareceu, ao longo de toda a leitura, como sendo apenas uma de várias questões exploradas por Donoso com essa história. Naquele mesmo vídeo anteriormente citado, ele menciona algo revelador relacionado ao seu processo de escrita que poderia fundamentar bem essa minha sensação de um emaranhado de temas pedindo para serem desenleados. O chileno refere (paráfrase + tradução livre:) que aprendeu a buscar a estrutura e o significado de suas obras por meio da própria escrita, o que significa dizer que, para ele, escrever é uma aventura existencial através da qual se desenvolve um tema que o modifica (Donoso) enquanto pessoa. Bastou ouvir isso, para que eu compreendesse a razão de minha exasperação. Constato e sinto as múltiplas temáticas, porém esbarro na dificuldade de organizá-las de modo coerente.

Tentarei adotar a técnica dele, escrevendo como uma espécie de fluxo terapêutico, e vejamos aonde chegarei. Instintivamente, ainda que óbvio, o início do livro desponta como o ponto de partida ideal. Donoso já começa O Lugar sem Limites com os dois pés na porta, usando este assombroso trecho de Doutor Fausto, escrito por Marlowe, como epígrafe:
"Fausto: Primeiro irei interrogá-lo sobre o inferno. Diga-me, onde é o lugar que os homens chamam de inferno? 
Mefistófeles: Debaixo do firmamento. 
Fausto: Está bem, mas onde? 
Mefistófeles: Nas entranhas desses elementos, onde somos torturados e ficamos para sempre: o inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre... 
                                                                                              - Marlowe, Doutor Fausto.
Partindo desse argumento, deduziria que a fictícia localidade de El Olivo representa amplamente o próprio inferno, um lugar esquecido e em ruínas, sem eletrificação, sem cemitério, sem nada; prestes a ser engolido e a desaparecer, levando consigo todos seus habitantes. As sensações de tortura e de prisão perpétua que Marlowe associa ao inferno são as mesmas que devoram praticamente todas as personagens da obra de Donoso.
"(...) nenhuma esperança, que era melhor que tranquilidade, aqui na estação El Olivo, enquanto não passassem o arado por cima de todo o povoado. (...) As coisas que acabam dão paz e as coisas que não mudam começam a chegar ao fim. O terrível é a esperança."  
                                                                                                     - José Donoso, O Lugar sem Limites.
Curiosamente, retornando àquele vídeo, Donoso acrescenta que, quando estava no Chile, passava por uma espécie de bloqueio criativo, uma estagnação literária. O surgimento de um convite para participar de um congresso literário no México surge, naquela circunstância, como o evento que marca sua saída definitiva do país. O Chile teria virado o Inferno de Donoso? O El Olivo do autor? A trama de OLSL espelha a realidade chilena em sua percepção? Deixo a confabulação.

E quanto a Mefistófeles? Ele faz-se presente na história de OLSL? Sim, pois não seria o próprio Don Alejo, ou melhor, Don Alejandro Cruz? É minha teoria. A maneira com que ele é descrito, uma figura poderosa e sedutora que "promete maravilhas" a todos, sem efetivamente cumprir nada, aponta para essa direção. O político (e o que mais ele seria, correto?) que utiliza as pessoas como meios para seus objetivos. Ele lembrou-me imediatamente de outras duas notáveis personagens da literatura: Pedro Páramo, o todo-poderoso da Comala de Juan Rulfo; e o Juiz Holden, do livro Meridiano de Sangue, escrito pelo Cormac McCarthy. O The Judge, igualmente muito associado à imagem satânica.

A marcante presença dos quatro cachorros pretos, ensandecidos e raivosos, que salvaguardavam os domínios de Don Alejo chamou-me muita atenção - e nem tinha como ser diferente. Intrigada, enveredei-me por uma breve pesquisa a respeito desse símbolo. No próprio Fausto de Goethe, cuja leitura ainda lamentavelmente estou devendo, descobri que Mefistófeles primeiro aparece para Fausto na forma de um cachorro preto que o segue ao longo de um campo. A propósito, revendo a trama de Goethe, suponho agora que a Grande Japonesa poderia ser Fausto, enquanto Manuela seria Margarida? Estou devaneando aqui que talvez a tal aposta - a velha cafetina conseguiria transar com o travesti? - reflete relativamente bem o pacto fáustico: a Japonesa (Fausto), ao aceitar a aposta, teria vendido sua alma a Don Alejo (Mefistófeles) em troca de tornar-se proprietária do prostíbulo e, nessa transação, deslumbra Manuela (Margarida) para acompanhá-la. Será?  *Nota: pre-ci-so ler Fausto o quanto antes.

Enfim, voltemos aos cachorros. Embora acredite já ter matado a charada maior, registrarei outros pequenos achados. O número quatro, claro, levou-me diretamente aos quatro cavaleiros do apocalipse. Visto que todos os cachorros são pretos, cor símbolo da escuridão e de planícies desertas (opa, mas não é a descrição de El Olivo?), é oportuno lembrar que o cavaleiro dessa respectiva cor representa a peste, a maldição. E considerando-se que são os bichinhos de estimação de um político que não cumpre nenhuma de suas promessas de campanha, é engraçado encontrar a informação de que o cavaleiro preto representa, para alguns estudiosos, também o colapso econômico e a fome. De fato, no fim das contas, Don Alejo aparenta ter levado apenas desgraça à população de El Olivo. Outras interessantes referências caninas na bíblia: “Cuidado com os cães, cuidado com os maus operários, cuidados com os falsos circuncidados!”(Filipenses 3,2) e “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira”. (Apocalipse 22,15)

Além disso, descobri que o Black Dog faz parte do folclore britânico, estando associado ao Diabo e ao Inferno, com aparições noturnas que prenunciam a morte. Bom, aqueles bichinhos de OLSL eram mais ativos exatamente à noite. O legal é que esse ser, aprendi, frequentemente irrompe com tempestades elétricas. Ué, a primeira aparição de Don Alejo com seus cachorros é acompanhada precisamente por uma baita chuva. Fascinante. Ah, e na mitologia grega, encontramos Cerberus, o cachorro de três cabeças que guarda a entrada de Hades, o mundo subterrâneo dos mortos. Não estou falando? Os habitantes de El Olivo viviam no inferno e nem davam-se conta. Pelo menos, não de forma consciente.

Mas e quanto à Manuela, batizada Manuel González Astica? Já lancei no post a hipótese de um paralelo com a Margarida do Goethe e, lendo a resenha escrita pela Camila von Holdefer no site Livros Abertos (link aqui), fui chamada atenção para o fato de que essa personagem vivia oprimida por outros infernos, prisões e tormentos: 1. os sentimentos sobre seu próprio corpo - "(...) sua filha que não sabia dançar mas que era jovem e mulher, e cuja esperança ao olhar-se no espelho quebrado não era uma mentira grotesca." - e, 2. nas palavras de Jorge Schwartz,  o arraigado machismo de uma sociedade forjada no pedestal do patriarcado, sem espaço para diversidade alguma. Inclusive, algumas passagens envolvendo Manuela remeteram-me diretamente a Pabllo Vittar. Durante uma das performances da chilena, uns brutamontes arremessam-na em um canal e urinam em cima dela; trecho que levou-me ao momento de um vídeo (link aqui) em que Vittar diz, com lágrimas nos olhos, que um garoto do ensino fundamental jogara um prato de sopa quente na cara dela, porque queria obrigá-la "a agir como um homem". Manuela, por sua vez, confessa não saber por que faziam isso e se pergunta se poderia ser por medo dela. Esse questionamento que ela lança resgatou-me as reflexões proporcionados pelo livro The Vegetarian, da Han Kang; porém deixo pra depois o desenvolvimento desse pensamento.

Continuando naquela mesma entrevista, Vittar relata que "quando estou montada, sei lá, parece que baixa um negócio. Coloco a peruca, acabou: ninguém me tomba" e isso reverbera muito na experiência compartilhada por Manuela. A roupa vermelha, o boá de plumas e sua performática dança espanhola parecem simbolizar a peruca a que Vittar se referiu. Como bem disse Camila von Holdefer em sua resenha, "Para fugir da sua dor, dança. Põe seu vestido de cigana e foge, por uns instantes, do próprio inferno." 
"Mas na pista, com uma flor atrás da orelha, velha e tonta como estava, ela era mais mulher do que todas (...) encurvando o torso para trás e franzindo os lábios e sapateando com mais fúria, eles riam mais e a onda de riso a fazia elevar-se no ar, na direção das luzes."
                                                                                                                            - José Donoso, O Lugar sem Limites. 

Não teve jeito; isso trouxe-me de volta um outro livro: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, do Nikos Kazantzákis, com sua proposta de dançar todos esses pensamentos desesperados. Aliás, acho que é por essa razão que me afeiçoei tanto a Pabllo Vittar. Ela surgiu em um momento melancólico e, com sua arte e simpatia contagiante - somado a tudo que seu sucesso representa -, trouxe-me alegria. Ela mesma diz "que Drag é para levar felicidade, emoção, entretenimento" e acredito que é exatamente isso que ela faz; e que fez pra mim. Porém, considero importante não esquecer que, por trás da dança de Manuela, havia dor, e Pabllo deixa escapar algo parecido aqui: "Palhaço? Acho bafo, faz a gente rir. Mas  quando a gente é o palhaço, não é fácil, não. É barro."  Em suma, penso que também aplica-se a Pabllo, de certo modo, aquilo que a Japonesa pensou sobre Manuela: "(...) tão fácil quanto era, naquele momento, amá-lo." É fácil gostar da Pabllo. É isso.

P.S.: talvez eu tenha extrapolado a cota de vídeos vistos. Je ne regrette rien.

Para arrematar a postagem, agradeço a Donoso pela magnífica experiência de leitura. (Fico devendo a adaptação cinematográfica. Foi pra fila.) E vamos lá com Pabllo dançar os pensamentos desesperados. Fuja de El Olivo e venha com a gente, Manuela!



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Pois não é que uma passagem de OLSL recordou-me de que há pouquíssimo tempo eu li, sim, uma obra com personagem travesti?! Enquanto Manuela penteava o cabelo de sua filha Japonesita, lembrei-me da maravilhosa personagem Lala, do conto O Menino Sujo, que faz parte da coletânea As Coisas que Perdemos no Fogo, escrita pela argentina Mariana Enriquez. Como pude me esquecer? Voilà:

Ed. Intrínseca
Tradução: José Geraldo Couto

09/08/2017

A Última Tragédia - Abdulai Sila

( * Sobre o livro - info, sinopse etc: clique aqui - Ed. Pallas,)

Quando encontrava-me no meio dessa leitura, eis que este vídeo da Flip 2017 (Festa Literária Internacional de Paraty) cruzou o meu caminho:

   
Então a Globo bloqueou o vídeo da Flip.  Inacreditável.
Bom, achei outras opções - ainda não bloqueadas - aqui: V1 - V2 - V3.

À medida que ouvia as palavras da Sra. Diva Guimarães, uma aposentada professora brasileira de 77 anos, minha estupefação aumentava progressivamente. Fiquei impressionada não apenas pela contundência de seu discurso, mas especialmente porque seus pontos principais estabeleciam uma relação íntima e direta com algumas importantes temáticas exploradas pelo próprio guineense Abdulai Sila no seu livro A Última Tragédia. Então as experiências de vida de uma mulher negra no Brasil do século XX - nação independente c/ mais de cem anos desde a abolição dos escravos - reverberava em uma obra escrita na década de 80 (* 1a. publicação: 95) sobre a experiência dos negros de Guiné-Bissau, então Guiné Portuguesa, durante o processo colonizatório imposto pelos brancos portugueses na segunda metade do século XX? Pois digo que foi assim. Claro, não demorou muito até que eu percebesse que meu espanto imediato possivelmente revelava uma completa ingenuidade de minha parte.

Destaco, a seguir, trechos ditos pela Sra. Diva, a fim de cruzá-los sucintamente com as questões que encontrei no livro de Sila.

(1) 


A religião católica surge na vida de duas protagonistas de A Última Tragédia exibindo peculiaridades que replicam bastante o que a professora Diva afirmou. Explico.

Certo dia, Dona Linda, uma portuguesa branca que acompanhava o marido a trabalho na colônia, decide que sua criada Daniela, aliás* Ndani, uma guineense negra de quinze anos, passaria a frequentar a igreja com ela. Ndani não entende as intenções da patroa, pois igreja era coisa de branco, o Deus deles é que estava lá dentro. Inclusive, lembrava-se de só ter visto figura de branco ao espreitar o interior da igreja no centro da praça. Ademais, Ndani sabia que a igreja do preto era na baloba e o Deus dos pretos era o Yran. Mas Dona Linda rapidamente socorre Ndani dessa confusão, esclarecendo-lhe que aquela era a missão sagrada da portuguesa em Guiné: salvar os africanos. O padre havia informado à Dona Linda que os europeus tiveram que ir para a África ensinar a religião cristã e salvar as almas dos negros.

E então foi assim que Ndani viu-se obrigada a carregar um crucifixo de prata no pescoço e a pentear o cabelo direito para poder participar regularmente dos encontros de catequese na paróquia, juntamente com outras criadas negras de sua idade. A cobrança que sofria por parte da patroa e do sacristão era ferrenha. Aprender os dez mandamentos, decorar os Padre-Nossos todos e as Ave-Marias todas...

Alguns anos depois, quando Ndani nem mais era criada de Dona Linda, ela conhece o novo Professor da tabanca Quinhamel, um negro de 25 anos que aprendera o ofício do magistério durante os seis anos em que morara em uma Missão com padres italianos. O Professor, ao vê-la lendo um livro de cobois, decide presenteá-la com uma coisa mais interessante: o novo testamento. A reação de Ndani? Segue:
"- Não, isso não, por favor. Leva, leva... Já li muitas vezes. Tantas vezes, que agora já não posso mais. Basta. Leva, por favor..."
[ * = As agressões de Dona Linda chegam até este ponto: mudar o nome de Ndani para Daniela. Justo o meu nome, poxa vida. Como destaque, o narrador ironicamente repete a expressão "Ndani, aliás Daniela".]

(2) 
Ok, essa é, sem dúvidas, a relação mais admirável, e envolve uma terceira personagem: Bsum, o Régulo - espécie de líder, chefe - de Quinhamel. Reproduzirei diretamente as palavras de Bsum, pois é extremamente fácil perceber a sintonia entre o que ele diz e o que disse a Sra. Diva.
"O branco pensa em tudo, mas a cabeça do branco não é mais grande que a cabeça do preto. Têm a mesma coisa lá dentro, foi o mesmo Deus que fez. O branco trabalha pouco, mas pensa muito; o preto trabalha muito, mas pensa pouco. Tudo ao contrário. Foi assim que o problema começou. É preciso encontrar uma saída. Por isso e para isso ele tinha tomado uma decisão: tinha que pensar, pensar sempre. (...) Aí é que está o problema mais grande do preto. Pensar. No dia em que os pretos começarem todos a pensar, os brancos vão por-se fora da terra. (...) O branco é que estava a pensar no lugar do preto. Mas branco é homem como qualquer outro homem!"
Pensar, educar-se. A professora acredita que a educação assume um papel fundamental na trajetória dos negros, e apostaria que Bsum concordaria com ela. Escola para sua tabanca, ele garantiu.
***

Por fim, vale admitir que, indiretamente, a professora acabou explicitando que meu assombro inicial diante do que ela dizia era mesmo despropositado - "Ela não está falando de Portugal, ela está falando do Brasil nos dias de hoje." Dessa maneira, é verdade que Abdulai Sila fala da Guiné Bissau colônia no seu livro A Última Tragédia, entretanto percebi, com a ajuda da Sra. Diva, que talvez ele esteja falando simultaneamente do Brasil de ontem e de hoje. E também do de amanhã? É a pergunta que alimenta minhas reflexões principais ao final dessa leitura; assegurar que a resposta esteja contemplada por um categórico "não".

06/08/2017

[DL #07] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagens anteriores: DL#01, DL #02, DL #03, DL #04, DL #05, DL#06.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVROS 07 & 08
Two Temptations - Sunset and Sunrise

✒ A última postagem desta série ocorreu há mais de quatro meses e, também há mais de quatro meses, concluí a leitura de Middlemarch. Especificamente, no dia três de abril. Portanto, infelizmente acabei prejudicando o andamento ideal deste registro, razão pela qual associo os dois últimos livros da obra nesta postagem única que concluirá o diário de leitura. Reli tudo que eu havia escrito nas entradas anteriores - sim, pois quem disse que eu me lembrava? - e acredito que os pontos principais (dentre aqueles que assimilei da obra, é claro) já foram praticamente todos registrados, mas ainda restam impressões que podem ser acrescentadas aqui.



Esse lance de casamento é mesmo apenas para os fortes, hein? Muito complicado fazer essa parada funcionar a contento para ambas as partes; ajustar o jogo de concessões até um equilíbrio mutuamente satisfatório. Sobre essa temática amplamente explorada por Eliot, destacaria aqui os diálogos excelentes e impressionantes travados entre o casal Lydgate e Rosamond. Assim como para as próprias personagens, foi exasperante perceber que, por mais que se esforçassem, nenhum deles conseguia fazer com que o outro entendesse suas percepções e sentimentos. Lembrou-me bastante de uma engenhosa cena do livro "Coração tão Branco", do autor espanhol Javier Marías, a qual funciona como metáfora tácita para as dificuldades de comunicação que casais usualmente enfrentam. Nela, dois líderes políticos de países distintos encontram-se em uma reunião formal mediante auxílio de um tradutor simultâneo que, percebendo a dificuldade de entrosamento na conversa dos representantes, resolve deliberadamente deturpar de leve as falas traduzidas, garantindo, assim, o pleno sucesso do encontro. Nos diálogos entre Lydgate e Rosamond, parecia realmente que eles expressavam-se em línguas diferentes. Comparando-se à referida metáfora de Marías, a intervenção de Dorothea - conversando a sós com cada um - , praticamente reproduz aquela do tradutor bem intencionado. 

Simultaneamente e nesse mesmo tema, não é esplendida a contrapartida que encontramos entre Mr. e Mrs. Bulstrode? Durante a revelação da verdade de Mr. Bulstrode, o momento de silêncio que eles compartilham detém um poder de comunicação intenso que supera qualquer barreira e prescinde palavras. Os dois se entendem e se confortam sem que precisem dizer coisa alguma. 
"His confession was silent, and her promise of faithfulness was silent."
✒ Por falar em contrapartidas, é peculiar como Middlemarch apresenta perfis distintos de comportamento entre as várias esposas da trama. Encontramos a submissão calada de Dorothea, o companheirismo íntimo de Mrs. Garth, a submissão parcial e consciente de Celia, bem como o egocentrismo egoísta de Rosamond. Opa, pausa! Penso que é necessário prudência antes de apontar todos os dedos contra Rosamond, em favor de Lydgate. Inclusive, nosso narrador, como esperado, não falha em demonstrar, da melhor forma possível, também o ponto de vista dela. Seria justo esquecer a responsabilidade das escolhas de Lydgate? Torna-se mais difícil defendê-la, entretanto, quando ela não consegue expressar sua confiança no marido durante a complicada adversidade relacionada à morte de Mr. Raffles, papel que é assumido por Dorothea, seu quase duplo. E não esqueçamos da ironia entre os opostos: Rosamond sucumbe à falência financeira do marido; Dorothea abre mão de sua fortuna para poder casar-se com Ladislaw. Cada uma, cada uma; confere? Como mencionei antes, aliás, o Dinheiro faz-se constantemente presente, ou ausente (!), na narrativa de Middlemarch.

Para finalizar essa temática, resgatarei uma pergunta que eu havia lançado no DL #03:
"(...) tenho a impressão de que o livro me agraciará com um grupo de pobres mulheres infelizes no matrimônio, cada uma à sua maneira, ao lado de maridos medíocres. Será?"

Pois então, no fim das contas, contamos com mulheres e homens infelizes no matrimônio, amargando as más escolhas que fizeram. Contudo não podemos negar que a história também conta com muitos casamentos aparentemente felizes. Refleti a respeito do perfil de cada um desses discrepantes matrimônios  e, somente no final da leitura, dei-me conta de que parece existir um elemento crucial, óbvio talvez, nos casamentos fortunados: amor. Teve, Eliot, a intenção deliberada de sugerir isso? Tal hipótese só me ocorreu quando observei Lydgate angustiado diante da possibilidade de encontrar-se conscientemente em uma relação sem amor. A presença do nobre sentimento pode até não garantir invariavelmente o almejado desfecho feliz, porém sua ausência dificilmente o fará.


✒ Persistindo no tema de sentimentos humanos, a reta final da leitura evidenciou-me um outro que também foi extensamente explorado pela autora: o orgulho. Nessa história, a maioria das personagens não quer pedir ajuda, não quer que os outros saibam que encontram-se em apuros, não quer aceitar o dinheiro alheio (- não é seu caso, né, Fred?), nem macular a aparência de uma vida perfeita e bem sucedida. Ladislaw, Mr. Busltrode e Rosamond, por exemplo, formam um trio cômico por conta da tendência compartilhada de bancarem os fugitivos. Pra que passar vexame em uma província, se é possível escapar para um local onde ninguém o conhece? Deu merda em um lugar? Só partir para um novo lugar, ora. 


✒ Aproveito a menção que fiz a Marías para trazer outras duas leituras desse ano que também relacionam-se com Middlemarch. E melhor: citam explicitamente a obra!

(1) 
(Sobre o livro: clique aqui)
Essa citação de Middlemarch por Wharton causou-me uma feliz surpresa. De um lado, porque, logo no início da leitura, eu tinha mesmo achado que o estilo e a proposta de A época da inocência remetem bastante ao livro da Eliot. De outro, porque estou quase certa de que, caso o querido Newland Archer - o protagonista que recebia, em 1870, sua edição quentinha de Middlemarch direto da gráfica londrina - tivesse dedicado-se à leitura imediata e atenta do livro, muitos de seus contratempos matrimoniais e sentimentais poderiam ter sido evitados.

(2) 
(Sobre o livro: clique aqui.)
Ok, momento confissão: quando li essa passagem, Dorothea mal tinha casado-se com Casaubon. Ou seja, passei boa parte da leitura apreensiva e totalmente incrédula quanto ao cenário de uma Dodo assassina. Justo ela, dentre tantas opções mais plausíveis?! Por isso mesmo, durante a cena estranha da escada, supus que o momento havia chegado.

Enfim, concluída a leitura, resta evidente que não houve nenhum assassinato - <cof, cof> há controvérsias, não é, Mr. Bulstrode? - de modo que não entendi nada do que a Sontag quis dizer (o que não é grande novidade, convenhamos). Até porque, mesmo sob uma suposta perspectiva simbólica, digamos, discordo completamente que Dorothea tenha contribuído para o fim prematuro de Casaubon. Fica a dúvida.

* Atualização em 06/01/2018: *
(3) Eis que hoje, enquanto eu folheava To The Lighthouse, da Virginia Woolf (procurava um outro trecho específico), deparei-me com uma referência explícita a Middlemarch. Não me recordava disso de jeito nenhum! Decido incluir a passagem aqui:


* Fim da atualização de 06/01/2018. *


✒ Hora de brincar resgatando outras perguntas que eu havia lançado e registrado ao longo deste diário.

(1) DL#01 ↦ "(...) e alerto que ainda não concluí meu completo discernimento a respeito de Dorothea."

Claro que, agora, o processo está concluído e, na falta de palavras, entrego: 💖. Mas a Eliot, por sua vez, dedicou as palavras finais do seu livro justamente a essa magnífica personagem:
"For there is no creature whose inward being is so strong that it is not greatly determined by what lies outside it. A new Theresa will hardly have the opportunity of reforming a conventual life, any more than a new Antigone will spend her heroic piety in daring all for the sake of a brother's burial: the medium in which their ardent deeds took shape is forever gone. But we insignificant people with our daily words and acts are preparing the lives of many Dorotheas, some of which may present a far sadder sacrifice than that of the Dorothea whose story we know. 
Her finely touched spirit had still its fine issues, though they were not widely visible. Her full nature, like that river of which Cyrus broke the strength, spent itself in channels which had no great name on the earth. But the effect of her being on those around her was incalculably diffusive (...)"
(2)  DL #02 ↦ "Será que Lydgate deixará ser engolido pelos middlemarchers?! Estou aflita por ele."

Ele até esboçou uma reação, mas acabou sendo engolido de qualquer jeito. Desde as primeiras páginas, pude antever que as coisas não dariam certo para o jovem médico, mas falhei na estimativa da dimensão do estrago. Os sonhos e ambições de todas as personagens são triturados sem piedade ao longo de suas respectivas jornadas, mas encaro o caso de Lydgate como o mais cruel, talvez porque tenha tido muita identificação com ele. Chega, assim, a hora da segunda confissão: adoraria sair dessa leitura afirmando que Dorothea é a minha personagem favorita, contudo não posso negar que esse posto é ocupado por Tertius Lydgate. 

(3) DL #02 ↦ "Queria registrar uma breve especulação: Mr. Lydgate e Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon parecem estabelecer, nessa narrativa, um paralelo de significado relevante. (...) O que será que a narrativa reserva para esses dois?"

Na verdade, calculo que seja possível estabelecer muitos paralelos entre as personagens (outro ótimo já citado: Dorothea x Rosamond), no entanto a dinâmica desses dois é mesmo especial e favorita, especialmente porque eles protagonizam minha temática predileta. Em um gif, refiro-me a:


Ou ainda, em uma epígrafe utilizada pela Eliot:

"My grief lies onward and my joy behind."
- Shakespeare: Sonnets 
(Epigrafe do cap. 82 de Middlemarch)

Por isso mesmo, foi um deleite acompanhar a parceria firmada entre o dois nos últimos capítulos. Sempre que eu pensar em Middlemarch, imediatamente lembrarei de Dorothea e Lydgate.

(4) DL #04 "Por que, antes de morrer, Featherstone insistiu para que Mary Garth queimasse o último testamento, exatamente aquele que desfazia todos os anteriores e garantia Riggs como
herdeiro? Mary poderia ter evitado algo? O quê?! Alguma catástrofe futura?"

Fiquei abobalhada quando deparei-me com essa pergunta que lancei. Bom, se Mary tivesse queimado o testamento, Fred ficaria rico e... o quê? Torraria a grana irresponsavelmente? Teria casado-se com Mary? Outra: Riggs não apareceria, muito menos Mr. Raffles. Daí, Mr. Bulstrode e Lydgate teriam sido poupados de todo o imbróglio relacionado à morte do alcoólatra chantageador. 

(5) DL#06 ↦ "P.S.: se eles não ficarem juntos no final, a Eliot terá de lidar com meu rancor. (Mentira, pois a leitura foi ótima e Dorothea está muito bem sozinha. Mas não custa nada, não é?)"

Sim, as interações lindamente descritas entre os dois me deixaram meio abestalhada a ponto de ameaçar uma escritora já falecida. Acontece. Mas pronto, Will e Dorothea ficaram juntos, então Eliot só lidará com minha gratidão.


✒ Encerro a fantástica leitura aqui, repetindo a bela última frase de Middlemarch:
P.S.: mas talvez não seja o fim de Middlemarch neste blog, visto que 
1. ainda tenho a adaptação da BBC - link - para assistir;
2. o livro da Rebecca Mead, My Life in Middlemarch, já está na fila de leitura. ;)

Ilustração de: Cecilia Lundgren
(via: The Guardian).

01/08/2017


Pobre John Wick. Perde a esposa, roubam seu carro e ainda assassinam seu cachorrinho (!).
Jamais ousaria comparar minhas atuais circunstâncias às dele, porém, assim como Wick, "aproveitarei" o mau momento para voltar e resgatar do limbo meu humilde blog.

Mas, ao contrário de Wick, não sinto-me lá tão convicta de voltar à ativa. Sendo assim, como condição para oficializar o retorno, imponho-me a finalização do Diário de Leitura de Middlemarch, que acabou lamentavelmente largado próximo à linha de chegada. Prazo para entrega? Indefinido.

Dará super certo! 👍 (Duvido.)