09/08/2017

A Última Tragédia - Abdulai Sila

( * Sobre o livro - info, sinopse etc: clique aqui - Ed. Pallas,)

Quando encontrava-me no meio dessa leitura, eis que este vídeo da Flip 2017 (Festa Literária Internacional de Paraty) cruzou o meu caminho:

   
Então a Globo bloqueou o vídeo da Flip.  Inacreditável.
Bom, achei outras opções - ainda não bloqueadas - aqui: V1 - V2 - V3.

À medida que ouvia as palavras da Sra. Diva Guimarães, uma aposentada professora brasileira de 77 anos, minha estupefação aumentava progressivamente. Fiquei impressionada não apenas pela contundência de seu discurso, mas especialmente porque seus pontos principais estabeleciam uma relação íntima e direta com algumas importantes temáticas exploradas pelo próprio guineense Abdulai Sila no seu livro A Última Tragédia. Então as experiências de vida de uma mulher negra no Brasil do século XX - nação independente c/ mais de cem anos desde a abolição dos escravos - reverberava em uma obra escrita na década de 80 (* 1a. publicação: 95) sobre a experiência dos negros de Guiné-Bissau, então Guiné Portuguesa, durante o processo colonizatório imposto pelos brancos portugueses na segunda metade do século XX? Pois digo que foi assim. Claro, não demorou muito até que eu percebesse que meu espanto imediato possivelmente revelava uma completa ingenuidade de minha parte.

Destaco, a seguir, trechos ditos pela Sra. Diva, a fim de cruzá-los sucintamente com as questões que encontrei no livro de Sila.

(1) 


A religião católica surge na vida de duas protagonistas de A Última Tragédia exibindo peculiaridades que replicam bastante o que a professora Diva afirmou. Explico.

Certo dia, Dona Linda, uma portuguesa branca que acompanhava o marido a trabalho na colônia, decide que sua criada Daniela, aliás* Ndani, uma guineense negra de quinze anos, passaria a frequentar a igreja com ela. Ndani não entende as intenções da patroa, pois igreja era coisa de branco, o Deus deles é que estava lá dentro. Inclusive, lembrava-se de só ter visto figura de branco ao espreitar o interior da igreja no centro da praça. Ademais, Ndani sabia que a igreja do preto era na baloba e o Deus dos pretos era o Yran. Mas Dona Linda rapidamente socorre Ndani dessa confusão, esclarecendo-lhe que aquela era a missão sagrada da portuguesa em Guiné: salvar os africanos. O padre havia informado à Dona Linda que os europeus tiveram que ir para a África ensinar a religião cristã e salvar as almas dos negros.

E então foi assim que Ndani viu-se obrigada a carregar um crucifixo de prata no pescoço e a pentear o cabelo direito para poder participar regularmente dos encontros de catequese na paróquia, juntamente com outras criadas negras de sua idade. A cobrança que sofria por parte da patroa e do sacristão era ferrenha. Aprender os dez mandamentos, decorar os Padre-Nossos todos e as Ave-Marias todas...

Alguns anos depois, quando Ndani nem mais era criada de Dona Linda, ela conhece o novo Professor da tabanca Quinhamel, um negro de 25 anos que aprendera o ofício do magistério durante os seis anos em que morara em uma Missão com padres italianos. O Professor, ao vê-la lendo um livro de cobois, decide presenteá-la com uma coisa mais interessante: o novo testamento. A reação de Ndani? Segue:
"- Não, isso não, por favor. Leva, leva... Já li muitas vezes. Tantas vezes, que agora já não posso mais. Basta. Leva, por favor..."
[ * = As agressões de Dona Linda chegam até este ponto: mudar o nome de Ndani para Daniela. Justo o meu nome, poxa vida. Como destaque, o narrador ironicamente repete a expressão "Ndani, aliás Daniela".]

(2) 
Ok, essa é, sem dúvidas, a relação mais admirável, e envolve uma terceira personagem: Bsum, o Régulo - espécie de líder, chefe - de Quinhamel. Reproduzirei diretamente as palavras de Bsum, pois é extremamente fácil perceber a sintonia entre o que ele diz e o que disse a Sra. Diva.
"O branco pensa em tudo, mas a cabeça do branco não é mais grande que a cabeça do preto. Têm a mesma coisa lá dentro, foi o mesmo Deus que fez. O branco trabalha pouco, mas pensa muito; o preto trabalha muito, mas pensa pouco. Tudo ao contrário. Foi assim que o problema começou. É preciso encontrar uma saída. Por isso e para isso ele tinha tomado uma decisão: tinha que pensar, pensar sempre. (...) Aí é que está o problema mais grande do preto. Pensar. No dia em que os pretos começarem todos a pensar, os brancos vão por-se fora da terra. (...) O branco é que estava a pensar no lugar do preto. Mas branco é homem como qualquer outro homem!"
Pensar, educar-se. A professora acredita que a educação assume um papel fundamental na trajetória dos negros, e apostaria que Bsum concordaria com ela. Escola para sua tabanca, ele garantiu.
***

Por fim, vale admitir que, indiretamente, a professora acabou explicitando que meu assombro inicial diante do que ela dizia era mesmo despropositado - "Ela não está falando de Portugal, ela está falando do Brasil nos dias de hoje." Dessa maneira, é verdade que Abdulai Sila fala da Guiné Bissau colônia no seu livro A Última Tragédia, entretanto percebi, com a ajuda da Sra. Diva, que talvez ele esteja falando simultaneamente do Brasil de ontem e de hoje. E também do de amanhã? É a pergunta que alimenta minhas reflexões principais ao final dessa leitura; assegurar que a resposta esteja contemplada por um categórico "não".

Nenhum comentário:

Postar um comentário