13/08/2017

O Lugar sem Limites - José Donoso ( x Pabllo Vittar)

Se uma agente do futuro tivesse me dito "Daniela, logo mais você estará cantando, dançando e encantando-se com uma drag queen brasileira", não há dúvidas de que eu teria mandado um "haha, tá louca, amiga?".  É, e agora estaria quebrando a cara.

Como sou uma pessoa alienada meio desconectada da realidade, só conheci Pabllo Vittar recentemente, graças ao último clipe do Major Lazer feat. Anitta & Pabllo Vittar. Fiquei intrigada com a pessoa, daí fui lá pesquisar. Vídeo vai, vídeo vem e pronto; me apaixonei. Sério, poderosa é pouco:


Então, dia desses estava Lip Syncing for my Life a música "K.O." (AMO) enquanto me montava pro open bar trabalho e acabei comentando, comigo mesma, que eu nunca havia lido um livro com personagem trans/travesti/drag queen*. Percebi que gostaria, sim, de mais diversidade de gênero nas obras que leio. Pois imagine meu susto quando ouvi atrás de mim um "cof, cof". Fui até à sala bancar o John Travolta Gif e, ao me virar pra estante, encontrei O Lugar sem Limites (OLSL) me encarando todo magoado por ter de ouvir aquilo depois de uns dois anos mofando naquela prateleira. "Poxa, minha protagonista é uma travesti, e você sabe disso!"  Ok; sua hora chegou.

Sinopse, info, etc: aqui.  (Ed. Cosac Naify)
Tradução: Heloisa Jahn
Capa (linda, linda): Tatiana Blass - Tragédia/O cão cego, 2009.
Foi um prazer enorme reencontrar-me com o Donoso. Amei intensamente essa leitura, talvez até mais do que a do excepcional O Obsceno Pássaro da Noite (OOPN). De imediato, fiquei envergonhada pela predileção pessoal - OOPN seria tecnicamente superior? - , contudo assisti a um vídeo (link aqui) em que o próprio Donoso afirma considerar OLSL sua obra mais perfeita e completa, com menos erros. Aliás, ele diz até que OLSL nasceu a partir de oito linhas extraídas de OOPN; cujas premissas, na ocasião, ele ainda tentava desenvolver a seu contento. Assim, a consciência ficou leve para assumir que prefiro O Lugar sem Limites.

Estou achando difícil organizar minhas ideias, porque o conjunto de temáticas desse livro, de certa maneira, lembra aqueles tecidos holográficos, nos quais cada cor é melhor visualizada apenas mediante mudanças de posicionamento da imagem. A presença de uma protagonista travesti vivendo em uma pequena cidade tomada por homens brutos e machistas me pareceu, ao longo de toda a leitura, como só uma dentre várias questões exploradas com a história. Uma cor no meio de muitas. Ainda naquele vídeo anteriormente citado, Donoso revela uma característica de seu processo de escrita que possivelmente fundamenta bem minha sensação de um emaranhado de temas pedindo para serem desenleados. O autor refere (paráfrase + tradução livre:) que aprendeu a buscar a estrutura e o significado de suas obras mediante a própria escrita, o que significa dizer que, para Donoso, escrever é uma aventura existencial, na qual um tema desenvolvido o modifica enquanto pessoa. Bastou ouvir isso, para que eu compreendesse a razão de minha dificuldade para organizar as múltiplas temáticas que eu pressentia na leitura. Bem, pois tentarei adotar a técnica do autor, escrevendo aqui como uma espécie de fluxo terapêutico, e vejamos aonde chegarei. Instintivamente, ainda que pareça óbvio, me atrevo a dizer que o início do livro desponta como ideal ponto de partida. Donoso já começa O Lugar sem Limites com os dois pés na porta, usando este assombroso trecho de Doutor Fausto, escrito por Marlowe, como epígrafe:
"Fausto: Primeiro irei interrogá-lo sobre o inferno. Diga-me, onde é o lugar que os homens chamam de inferno? 
Mefistófeles: Debaixo do firmamento. 
Fausto: Está bem, mas onde? 
Mefistófeles: Nas entranhas desses elementos, onde somos torturados e ficamos para sempre: o inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre... 
                                                                                              - Marlowe, Doutor Fausto.
Partindo desse argumento, deduziria que a fictícia localidade de El Olivo representa amplamente o próprio inferno, um lugar esquecido e em ruínas, sem eletrificação, sem cemitério, sem nada; prestes a ser engolido e a desaparecer, levando consigo todos seus habitantes. As sensações de tortura e de prisão perpétua que Marlowe associa ao inferno são as mesmas que devoram praticamente todas as personagens da obra de Donoso.
"(...) nenhuma esperança, que era melhor que tranquilidade, aqui na estação El Olivo, enquanto não passassem o arado por cima de todo o povoado. (...) As coisas que acabam dão paz e as coisas que não mudam começam a chegar ao fim. O terrível é a esperança."  
                                                                                                     - José Donoso, O Lugar sem Limites.
Em outro ponto daquele mesmo vídeo, Donoso acrescenta que, quando ele estava no Chile, sofria de uma espécie de bloqueio criativo, uma estagnação literária. O convite para participar de um congresso literário no México surge, naquela circunstância, como o evento que marca sua saída definitiva do país. O Chile teria virado o Inferno de Donoso? O El Olivo do autor? A trama de OLSL espelha a realidade chilena na percepção de Donoso? Deixo a confabulação.

E quanto a Mefistófeles? Ele faz-se presente na história de OLSL? Sim, pois não seria o próprio Don Alejo, ou melhor, Don Alejandro Cruz? É minha teoria. A maneira com que ele é descrito, uma figura poderosa e sedutora que "promete maravilhas" a todos, sem efetivamente cumprir nada, aponta para essa direção. O político (e o que mais ele seria, correto?) que utiliza as pessoas como meios para seus objetivos. Ele lembrou-me imediatamente de outras duas notáveis personagens da literatura: Pedro Páramo, o todo-poderoso da Comala de Juan Rulfo; e o Juiz Holden, do livro Meridiano de Sangue, escrito pelo Cormac McCarthy. O The Judge, igualmente muito associado à imagem satânica.

A marcante presença dos quatro cachorros pretos, ensandecidos e raivosos, que salvaguardavam os domínios de Don Alejo me chamou muita atenção; e nem tinha como ser diferente. Intrigada, enveredei-me numa breve pesquisa a respeito desses símbolos. No próprio Fausto de Goethe, cuja leitura ainda lamentavelmente estou devendo, descobri que Mefistófeles aparece para Fausto, pela primeira vez, na forma de um cachorro preto que o segue ao longo de um campo. A propósito, revendo a trama de Goethe, suponho agora que a Grande Japonesa poderia ser Fausto, enquanto Manuela seria Margarida? Estou devaneando aqui que talvez a tal aposta (= a velha cafetina conseguiria transar com o travesti?) reflete relativamente bem o pacto fáustico: a Japonesa (Fausto), ao aceitar a aposta, teria vendido sua alma a Don Alejo (Mefistófeles) em troca de tornar-se proprietária do prostíbulo e, nessa transação, deslumbra Manuela (Margarida) para acompanhá-la. Será?  *Nota: pre-ci-so ler Fausto o quanto antes.

Enfim, voltemos aos cachorros. Embora acredite já ter matado a charada maior, registrarei outros pequenos achados. O número quatro, claro, levou-me diretamente aos quatro cavaleiros do apocalipse. Visto que todos os cachorros são pretos, cor símbolo da escuridão e de planícies desertas (opa, mas não é a descrição de El Olivo?), é oportuno lembrar que o cavaleiro dessa respectiva cor representa a peste, a maldição. E considerando-se que são os bichinhos de estimação de um político que não cumpre nenhuma de suas promessas de campanha, é engraçado encontrar a informação de que o cavaleiro preto representa, para alguns estudiosos, também o colapso econômico e a fome. De fato, no fim das contas, Don Alejo aparenta ter levado apenas desgraça à população de El Olivo. E outras interessantes referências caninas na bíblia: “Cuidado com os cães, cuidado com os maus operários, cuidados com os falsos circuncidados!”(Filipenses 3,2) e “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira”. (Apocalipse 22,15)

Além disso, descobri que o Black Dog faz parte do folclore britânico, estando associado ao Diabo e ao Inferno, com aparições noturnas que prenunciam a morte. Bom, aqueles bichinhos de OLSL eram mais ativos exatamente à noite. O legal é que esse ser, aprendi, frequentemente irrompe com tempestades elétricas. Ué, a primeira aparição de Don Alejo com seus cachorros é acompanhada precisamente de uma baita chuva. Fascinante. Ah, e na mitologia grega, encontramos Cerberus, o cachorro de três cabeças que guarda a entrada de Hades, o mundo subterrâneo dos mortos. Não estou falando? Os habitantes de El Olivo viviam no inferno e nem se davam conta. Pelo menos, não de forma consciente.

Mas e quanto à Manuela, batizada Manuel González Astica? Já lancei no post a hipótese de um paralelo com a Margarida do Goethe e, lendo a resenha escrita pela Camila von Holdefer no site Livros Abertos (link aqui), fui chamada atenção para o fato de que essa personagem vivia oprimida por outros infernos, prisões e tormentos: 1. os sentimentos sobre seu próprio corpo - "(...) sua filha que não sabia dançar mas que era jovem e mulher, e cuja esperança ao olhar-se no espelho quebrado não era uma mentira grotesca." - e, 2. nas palavras de Jorge Schwartz,  o arraigado machismo de uma sociedade forjada no pedestal do patriarcado, sem espaço para diversidade alguma. Inclusive, algumas passagens envolvendo Manuela remeteram-me diretamente a Pabllo Vittar. Durante uma das performances da chilena, uns brutamontes arremessam-na em um canal e urinam em cima dela; trecho que levou-me ao momento de um vídeo (link aqui) em que Vittar diz, com lágrimas nos olhos, que um garoto do ensino fundamental jogara um prato de sopa quente na cara dela, porque queria obrigá-la "a agir como um homem". Manuela, por sua vez, confessa não saber por que faziam isso e se pergunta se poderia ser por medo dela. Esse questionamento que ela lança resgatou-me as reflexões proporcionados pelo livro The Vegetarian, da Han Kang; porém deixo pra depois o desenvolvimento desse pensamento.

Continuando naquela mesma entrevista, Vittar relata que "quando estou montada, sei lá, parece que baixa um negócio. Coloco a peruca, acabou: ninguém me tomba" e isso reverbera muito na experiência compartilhada por Manuela. A roupa vermelha, o boá de plumas e sua performática dança espanhola parecem simbolizar a peruca a que Vittar se referiu. Como bem disse Camila von Holdefer em sua resenha, "Para fugir da sua dor, dança. Põe seu vestido de cigana e foge, por uns instantes, do próprio inferno." 
"Mas na pista, com uma flor atrás da orelha, velha e tonta como estava, ela era mais mulher do que todas (...) encurvando o torso para trás e franzindo os lábios e sapateando com mais fúria, eles riam mais e a onda de riso a fazia elevar-se no ar, na direção das luzes."
                                                                                                                            - José Donoso, O Lugar sem Limites. 

Não teve jeito; isso me trouxe de volta um outro livro: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, do Nikos Kazantzákis, com sua proposta de dançar todos esses pensamentos desesperados. Aliás, acho que é por essa razão que me afeiçoei tanto a Pabllo Vittar. Ela surgiu em um momento melancólico e, com sua arte e simpatia contagiante - somadas a tudo que o sucesso dela representa -, me trouxe alegria. Ela mesma diz "que Drag é para levar felicidade, emoção, entretenimento" e acredito que é exatamente isso que ela fez e faz pra mim. Porém, considero importante não esquecer que, por trás da dança de Manuela, havia dor; e Pabllo deixa escapar algo parecido aqui: "Palhaço? Acho bafo, faz a gente rir. Mas  quando a gente é o palhaço, não é fácil, não. É barro."  Em suma, penso que também aplica-se a Pabllo, de certo modo, aquilo que a Japonesa pensou sobre Manuela: "(...) tão fácil quanto era, naquele momento, amá-lo." É fácil gostar da Pabllo. É isso.

P.S.: talvez eu tenha extrapolado a cota de vídeos vistos. Je ne regrette rien.
Para arrematar a postagem, agradeço a Donoso pela magnífica experiência de leitura. (Fico devendo a adaptação cinematográfica. Foi pra fila.) E vamos lá com Pabllo, dançar os pensamentos desesperados. Fuja de El Olivo e venha com a gente, Manuela!



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Pois não é que uma passagem de OLSL recordou-me de que há pouquíssimo tempo eu li, sim, uma obra com personagem travesti?! Enquanto Manuela penteava o cabelo de sua filha Japonesita, lembrei-me da maravilhosa personagem Lala, do conto O Menino Sujo, que faz parte da coletânea As Coisas que Perdemos no Fogo, escrita pela argentina Mariana Enriquez. Como pude me esquecer? Voilà:

Ed. Intrínseca
Tradução: José Geraldo Couto

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