25/11/2017

Alinhavando Leituras

Algumas de minhas últimas leituras dialogaram de modo tão próximo e instigante em certos pontos específicos, uma complementando e enriquecendo a outra, que escolhi alinhavá-las aqui para um breve registro.


                A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER  ⇿  RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL
 Svetlana Aleksiévitch                                    Ricardo Piglia

A ligação entre essas duas obras iniciou-se a partir da leitura do livro da Svetlana Aleksiévitch. À medida que eu lia o relato das soviéticas que atuaram diretamente na segunda guerra mundial, uma crescente exasperação me atormentava, pois eu sentia que aquelas palavras simplesmente não estavam dando conta de transmitir a realidade vivida pelas mulheres entrevistadas pela autora. O objeto narrado era tão grotesco e aterrorizante, que eu percebia que não estava conseguindo removê-lo do campo da abstração e trazê-lo para a concretude de um real tangível; por mais que eu acreditasse, claro, na veracidade daqueles fatos. Minha relação com o texto transformou-se apenas quando verbalizei, em voz alta, um dos episódios brutais da obra para uma amiga. No instante em que as palavras foram articuladas pela minha boca e que o som emitido atingiu meus próprios ouvidos, minha garganta começou a se estreitar em queimação e tive de conter uma onda súbita de lágrimas. Até então, a simples leitura silenciosa do texto não havia induzido semelhante reação. Ironicamente, dada a similaridade com a oportunidade de verbalização oferecida àquelas mulheres por Aleksiévitch, parece que a leitura oralizada potencializou o poder do texto. Foi, de fato, um fenômeno estranho, o qual não compreendi por completo naquela ocasião.

Meses depois, Respiração Artificial apresentou-me a um trecho que proporcionou certo alento e luz. Piglia, tratando da obra de Kafka, escreve o seguinte (*negritos meus):
“Sobre aquilo de que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado.  
Falar do indizível é pôr em perigo a sobrevivência da linguagem como portadora da verdade do homem. Risco mortal.”  
No instante em que li isso, lembrei de pronto daquelas soviéticas e pensei: pronto; acho que o enigma foi solucionado. Aquelas mulheres, em parceria com Aleksiévitch, ousaram falar/escrever o indizível e, assim, me ensinaram uma lição que tornou-se mais clara mediante a ajuda de Piglia: a linguagem simplesmente não é onipotente. Aquele mundo da segunda guerra mundial, vivido por aquelas combatentes, está além da linguagem. E bom, pelo menos comigo, parece que a oralidade auxiliou a linguagem escrita a melhor executar a árdua tarefa que lhe fora atribuída. O final desse processo, inclusive, acabou por reforçar a importância de conceder àquelas mulheres a chance de verbalizar suas versões da História.


                                      THE LONELY CITY            ⇿                 ENTRE AMIGOS
                                           Olivia Laing                                               Amós Oz

Aqui, até que a questão não me causou tanta surpresa. Li inicialmente The Lonely City – The Adventures in the Art of Being Alone, livro em que Laing explora a relação de artistas com a solidão das grandes cidades – notadamente Nova York, para onde a própria autora havia se mudado e onde enfrentava momentos recorrentes de tremenda solidão -; associada à ironia e à aparente incoerência presente no fato de que, em meio a tantas pessoas, a solidão reine opressivamente.

Na leitura seguinte de Entre Amigos, por sua vez, a prosa delicada e sensível de Amós Oz deixou claro que a solidão não tem nada a ver com estar entre muitas ou poucas pessoas. A vida daqueles que habitam o pequeno kibutz retratado pelo autor israelense é marcada, indiscutivelmente, por uma intensa solidão. A proximidade física com o outro e o maior contato humano facilitado pelo grupo diminuto não garante remédio contra a solidão. Pesquisando posteriormente sobre o livro, encontrei esta fala de Oz que não deixou mais qualquer dúvida sobre minha percepção: 
“Em todo caso, mais do que revisitar o passado, me interessava investigar como uma comunidade criada para aproximar as pessoas colocava-as numa situação limite, diante da solidão, da falta de amor, enfrentando suas perdas. Uma comuna não é certamente um ambiente onde as pessoas vivam em busca de isolamento, mas é justamente a solidão a marca característica dos personagens de Entre Amigos."
É importante destacar que a própria Laing explora a temática de maneira excepcional, deixando claro, em diversos momentos de sua obra, como esse sentimento e a engrenagem social que o alimenta são complexos.
"Cities can be lonely places, and in admitting this we see that loneliness doesn't necessarily require physical solitude, but rather an absence or paucity of connection, closeness, kinship: an inability, for one reason or another, to find as much intimacy as is desired. (...) hardly any wonder, then, that it can reach its apotheosis in a crowd."


                                     THE LONELY CITY     ⇿       A MANUAL FOR CLEANING WOMEN 
     Olivia Laing                                            Lucia Berlin

Nesse ponto, me ative a um outro aspecto do livro de Laing que me admirou bastante: fui informada, implicitamente, que os artistas retratados pela autora também sentiram a necessidade de se expressarem através da escrita. Como encontrava-me na companhia preponderante de pintores e fotógrafos (Andy Warhol, Henry Darger, David Wojnarowicz...), supus que a arte visual que eles exploravam bastaria para que conseguissem exteriorizar tudo aquilo que os inquietava – muitos com passados conturbados e difíceis a serem trabalhados psicologicamente -, mas parece que isso não é a regra. Para muitos artistas (seriam muitos?), a necessidade da escrita, a princípio, acaba surgindo em algum momento. Essa assimilação foi peculiar, considerando-se que praticamente estabelece um contraponto interessante àquela capacidade da linguagem escrita que comentei na abertura desse post: ela até pode não ser onipotente, entretanto há coisas que, sim, só ela é capaz de expressar a contento.

Agora avançarei algumas semanas. Enquanto lia A Manual for Cleaning Women, descobri o quanto Lucia Berlin inspira-se em elementos autobiográficos ao escrever seus contos. Através de uma narrativa que muito remete à ideia de memórias das protagonistas, ela retrata vidas simples - ainda que conturbadas por drogas, alcoolismo, solidão (!!), câncer, morte etc. - que, talvez por isso mesmo, parecem bastante humanas. Pesquisando mais sobre a autora americana, acabei localizando uma entrevista no site Lit Hub (conduzida pelos seus próprios alunos universitários), na qual ela expôs algo que conectou-se admiravelmente com minhas elucubrações relacionadas àqueles artistas anteriormente mencionados:
(* cores e negritos meus:)
"(Writing) It’s a joy to do it. It’s a place to go. It definitely is a place where I am…where I feel my honest self is. When I first started to write, I was alone. My first husband had left me, I was homesick, my parents had disowned me because I had married so young and divorced. I just wrote to—to go home. It was like a place to be where I felt I was safe. And so I write to fix a reality. I just write to fix a time or an event in my own head. As I said in the class it isn’t for therapy, but more for clarity, emotional clarity. To let me see what I really feel about something, to make it sort of acceptable in my head. (…) I think Proust is quite right saying that only neurotic people write. [Laughter] You know? I think writers want to change their realities in some way. You want to show what’s lovable and beautiful and so you sift through your life and you can look at it one way, or you can look at it another. And writers, I think, are people who need to affirm, need an affirmation about their life. And to me, it’s a way to make things positive, not in a corny way, but to make beauty out of negative things or difficult times, or just to make sense."
Transformar a realidade através da escrita e, de certo modo, estabelecer laços de pertencimento. Ok, talvez essa necessidade tenha atraído aqueles artistas do livro da Laing. Aliás, pouco tempo depois, na newsletter Um Lapso Sutil, Tatianne Dantas escreve um certo trecho sobre a escritora Maura Lopes Cansado que, em parte, também me pareceu conectar-se à fala da Berlin e, notadamente, com Henry Darger. Esse artista viveu boa parte da infância e adolescência em um asilo para crianças com retardo mental e, após a morte, foram descobertas milhares de páginas escritas com um texto que representa um incrível exercício imaginativo de reconstrução do real, o qual ele intitulou The Realms of the Unreal (!).  Enfim, o que escreveu Dantas: (* grifos meus:)
"A percepção que tenho de Maura em Hospício é Deus é que a escrita teve uma função vital de atuar como um meio de codificar sua relação subjetiva com o mundo. A noção literária do que é estar em uma instituição se modifica quando uma mulher com um diagnóstico verbaliza sua própria situação e Maura percebia o funcionamento das relações de poder no hospital e tentava mudá-las a partir do seu discurso e atitude. (...) e usava a escrita para afirmar que os rótulos criados na literatura escrita por homens a respeito da mulher não falam sobre a real condição em que as escritoras se viam inseridas."           

    
  THE LONELY CITY          ⇿          A ÉPOCA DA INOCÊNCIA
     Olivia Laing                                         Edith Wharton

Estes dois foram lidos conjuntamente, e pular de um para o outro acabou rendendo uma situação bem engraçada. Em A Época da Inocência, eu encontrava a Nova York do final do século XIX completamente alvoroçada porque uma mulher casada havia largado o marido na Europa para “causar” no noivado alheio. Já em The Lonely City, a protagonista era a Nova York da década de 60-70 marcada 1. pelas festinhas VIP de Warhol no The Factory, onde artistas aprontavam ~altas confusões~, 2. por sessões pornô em diversos cinemas da Times Square, em cujas salas o público fazia tudo que possamos imaginar e 3. por verdadeiras surubas gays que rolavam nas docas do rio Hudson, regadas a muitas drogas. Impossível não se admirar com essa fenomenal evolução da sociedade de Nova York. Ainda mais se pensarmos que, nesse meu caso, o tempo correspondente a um século foi encurtado a uns míseros segundos necessários apenas para trocar de livro. A mágica da literatura!


                                     THE LONELY CITY          ⇿            WALK THROUGH WALLS
                                           Olivia Laing                                         Marina Abramovic

Retomando o olhar para a figura do artista, foi intrigante perceber que, aparentemente, muitos sentem-se como pessoas estranhas e diferentes, provenientes de outro planeta (algo que, inclusive, alimentaria a solidão). Seria um conceito que apelidei de "O Artista Alienígena". A propósito, alienígena é uma palavra boa, tendo em vista que remete bastante à "alienação"; palavra frequente no livro de Laing.

Separando trechos de The Lonely City sobre o tema:
"(Charles Lisanbry falando sobre Warhol:) "He told me he was from another planet. He said he didn't know how he got here." 

"
(dito por Wojnarowicz, trecho de Close to the Knives:) "I think part of what informs this book is the pain of having grown up for years and years believing I was from another  planet. We can all affect each other, by being open enough to make each other feel less alienated."
"Klaus Nomi, mutant chantant, who made an art of being an alien, like no one else on earth." 

"
(sobre Valerie Solanas:) Still shockingly violent now, the manifesto was so far in advance of its time politically as to be almost unreadably strange, written in an alien language, (...)"

Semanas depois, dei de cara com Abramovic compartilhando com seu leitor o que a shamã brasileira Denise lhe dissera:
"You know, you are not from this planet, your DNA is galactic. You came to Earth from a very faraway galaxy, for a purpose."  
She had my full attention. I asked her what my purpose was. She was silent for a while.
Then she said, “Your purpose is to help humans to transcend pain.”
Extraordinário!  (*pescou?)

      
    UMA SOLIDÃO RUIDOSA        ⇿       WALK THROUGH WALLS
         Bohumil Hrabal                                   Marina Abramovic

Esse diálogo foi inesperado e bastante instigante. Em suas memórias, Abramovic comenta a performance Delusional, que ela encenara em Frankfurt, 1994. Nessa peça de cinco atos, Abramovic usa um vestido preto e permanece deitada sobre uma cama de gelo no meio do palco. Espalhadas pelo chão, há inúmeras carcaças de ratos pretos de plástico; enquanto uma entrevista de sua mãe é reproduzida em um telão. Em dado instante, a artista dança energeticamente ao som de uma música folk Húngara. A seguir, um novo vídeo no telão: Abramovic, vestindo um avental de laboratório, discorre sobre ratos. Ela diz que há 6-8 ratos/habitante em Nova York, enquanto Belgrado conta com 25; acrescentando informações relacionadas à incrível capacidade reprodutiva do animal.

Abramovic explica ao leitor que Delusional tratava de todas as coisas das quais ela sentia vergonha: a infelicidade do relacionamento de seus pais, o sentimento de não ser amada, as agressões físicas que sofrera cometidas pela mãe, as brigas dos pais.

Anos depois, ela recorre mais uma vez aos ratos como um dos componentes da perfomance Balkan Baroque, pela qual ela recebe o prêmio de melhor artista na Bienal de Veneza de 1997. Enquanto ela permanece em meio a carcaças reais de animais mortos, ela surge em vídeo narrando a horripilante história do "Wolf Rat". É assim que ela explica, em suma, a essência da obra:
"Really you can only understand the Balkan mentality if you’re from there, or spend a lot of time there. To comprehend it intellectually is impossible—these turbulent emotions are volcanic, insane. There is always war somewhere on this planet, and I wanted to create a universal image that could stand for war anywhere. (...) Here you have the essence of Balkan Baroque: horrifying carnage and an intensely disturbing story, followed by a sexy dance—then a return to more bloody awfulness."
Pois qual não foi minha surpresa quando, semanas depois, encontro Bohumil Hrabal inserindo o protagonista de sua história em um porão repleto de ratos, onde trabalhava compactando papel usado de livros, para lamento da personagem?! E a história de Uma Solidão Ruidosa trata, pelo menos em parte, do regime repressivo da Tchecoslováquia soviética. É fascinante que artistas de estilos tão diferentes como Abramovic e Hrabal, ambos provenientes de países do leste europeu que passaram por regimes autoritários comunistas, tenham pensado no rato como símbolo para tratar de suas experiências, e de maneira assim tão correlata. Trecho do livro de Hrabal:
“(...) e quando tudo estava em silêncio perfeito comecei a ouvir dentes de rato roendo, a ouvi-los destrinchando livros no meu céu, e seu som miúdo me horrorizava, porque era questão de tempo até fazerem um ninho, e poucos meses depois que os ratos fazem ninhos ele fundam um povoado, e seis meses depois formam vilas inteiras, isso se avoluma em progressão geométrica para compor uma cidade, uma cidade de ratos capazes de roer tábuas e vigas com tamanha habilidade que logo, logo (…) duas toneladas inteiras de livros inteiras desabassem na minha cabeça e descarregassem sua vingança em mim por todos os fardos em que compactei a rataria.”
Correto, depois desse livro de Hrabal, a expressão “rato de biblioteca” adquiriu uma nova significação pessoal.

No livro Dictionary of Symbols, J.C. Cirlot descreve isto a respeito do símbolo: "The rat occurs in association with infirmity and death. It was an evildoing deity of the plague in Egypt and China. The mouse, in mediaeval symbolism, is associated with the devil. A phallic implication has been superimposed upon it, but only in so far as it is dangerous or repugnant."

E, claro, ratos já ganharam destaque em outras obras literárias importantes: 1984 (Orwell), Maus (Spiegelman), A Peste (Camus), The Rats in the Walls (Lovecraft).


              AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO      ⇿       DISTÂNCIA DE RESGATE
      Mariana Enriquez                                    Samantha Schweblin


Essa conexão é bem fácil e imediata. Duas escritoras argentinas contemporâneas e extremamente talentosas recorrem a elementos de horror e terror para explorar temas que, originalmente, já são bastante aterrorizantes: violência urbana, ditadura argentina, desigualdade social, patriarcado e machismo, poluição ambiental etc. Dentre as duas, confesso predileção fácil por Enriquez, o que não significa dizer que seja necessariamente a melhor (muito menos a pior!) escritora, ressalto. Na prosa de Schweblin, incomodou-me principalmente o predomínio de um absoluto controle da técnica narrativa em uma prosa que, para além disso, não me ofereceu muito mais. 
                    

                       ZAMA                 ⇿             O DESERTO DOS TÁRTAROS
                                    Antonio Di Benedetto                                     Dino Buzzati

Aqui, deparei-me com o tema comum da espera. A dedicatória escolhida por Di Benedetto pode facilmente ser aplicada ao livro de Buzzati:

"Às vítimas da espera."

Aproveitarei, também, para incluir duas imagens – quase duplas - das adaptações cinematográficas dessas duas obras:

     

A semelhança não é esplêndida? Os dois protagonistas, de pé, encaram o horizonte infinito e vazio como que esperando ansiosamente algo. Mas que diabos de espera é essa? Esperam o quê?  Estariam esperando Godot? Não seria uma resposta de todo equivocada. Se enrolo para responder, é porque esse “o quê” nem importa muito. Acredito que todos nós esperamos alguma coisa, um algo da vida. Como nos casos de Drogo e Zama, o objeto esperado varia de pessoa para pessoa, contudo sua essência costuma ser idêntica: esperamos aquilo que mais ansiamos na vida e que, em última instância, acreditamos que justificará nossa existência. Aquela qualquer coisa que, quanto mais inalcançável, mais desejada é. Daí a gente espera, espera e espera, até que a A Inevitável Espera, aquela objetivamente comum a todos, termina. E nem mesmo temos escolha: esperamos a morte com a certeza de que, esta sim, alcançaremos inevitavelmente. Os protagonistas das obras de Benedetto e Buzzati dão-se conta dessa espera exatamente quando ela termina. Acompanhemos a reflexão final de Drogo:
"Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, e que a sua existência errada pelo menos termine bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena. Ultrapasse com pés firmes o limite da sombra, aprumado como num desfile, e sorria, se conseguir. No fim, sua consciência não está demasiado pesada, e Deus saberá perdoar."
Agora, a de Zama:
"Perguntei-me, não por que vivia, mas por que havia vivido. Supus que pela espera e quis saber se ainda esperava alguma coisa. Pareceu-me que sim. 
Sempre se espera mais. 
No entanto, isto discernia meu entendimento; mas, com prescindência dele, estava entregue a uma inércia violenta, como se minha quota estivesse por esgotar-se, como se o mundo fosse ficar despovoado porque eu não ia mais estar nele."
*** 

E os alinhavos terminam aqui. Aguardarei ansiosamente o que as linhas dos próximos carretéis  alinhavarão pra mim.

10/11/2017

[DROPS] No meio do caminho, surgiu um poema / Tomas Tranströmer

"The airy sky has taken its place leaning against the wall.
It is like a prayer to what is empty.
And what is empty turns its face to us
and whispers:
“I am not empty, I am open.”


- Tomas Tranströmer, Vermeer.
  Tradutor: Robert Bly.

(* Poema completo aqui: x)

07/11/2017

The Golden Notebook - Doris Lessing

* As falas de Llosa são adaptadas a partir da resenha que ele publica no livro La Verdad de las Mentiras - Alfaguara (2002).
** Papo anterior: Herzog, de Saul Bellow.
***

Oi, Llosa; como vai? Tem um tempinho pra jogar conversa fora?
Concluí a leitura de mais uma das suas recomendações. 

Olá, Daniela! Para literatura, tenho sempre.
Estou bem, e você? Conversaremos sobre que livro?

Que ótimo! É sempre uma alegria conversar com você.
Hoje quero falar sobre The Golden Notebook (TGN), da Doris Lessing.
Na sua tradução: El Cuaderno Dorado. 
(Info sobre o livro: x)

Excelente.
E o que tem a me dizer sobre sua experiência de leitura?

Em uma palavra? Arrebatadora. E, talvez, transformadora. Amei o livro.
Entretanto vale dizer que o livro demorou a me fisgar e que as últimas ~100 páginas foram um pouco arrastadas.

Verdade? Pois quando o li pela primeira vez em 1966, fiquei meio cético.
Na ocasião, achei-o muito parecido com Os Mandarins, da Simone de Beauvoir.
É mesmo? Ainda não li Os Mandarins, daí nem saberia o que dizer sobre a comparação. Porém esse seu comentário é curioso, pois TGN também me remeteu a um outro livro, ou melhor, série: A Tetralogia Napolitana, da Elena Ferrante. Muito mais por conta dos diversos temas que as obras compartilham, do que pela forma, claro. Aliás, falei desses livros no nosso último papo.

Interessante. No entanto, sabe que mudei de ideia depois da segunda leitura que realizei em 1988? Achei-o melhor que Os Mandarins, dado que percebi que ele trata dos mesmos temas com mais profundidade, enquanto inclui, ademais, outros.

Há realmente tantas temáticas em TGN, não? O que nem de longe é uma crítica, mas, sim, um tremendo elogio. Especialmente porque penso que Lessing os explorou de modo formidável.

Com efeito, é um romance ambicioso. Encontramos: psicanálise, stalinismo, relações entre a ficção e a realidade vivida, experiências sexuais, neurose e a cultura moderna, a guerra dos sexos, a liberação da mulher, a situação colonial e o racismo. E todos estão relacionados, é claro. Você teria um favorito?

Não ria da minha cara, mas obviamente foi o combo neurose + psicanálise + ficção x realidade. Logo nas páginas iniciais, quando Anna praticamente confessa que encarava sua vida um fracasso completo, percebi de imediato que aquela era a fala que assumiria o papel de minha chave de leitura elementar. Foi o gatilho perfeito para levar-me a apertar os cintos, pois a jornada seria claramente intensa pra mim. A narrativa impôs muitas ressonâncias pessoais com meu momento atual.

Anna estava analisando sua vida e encontrando: 1. um casamento falido, 2. um amor não correspondido, 3. uma investida  política (comunismo) - sonho? utopia? - que se revelava uma farsa, 4. o bloqueio criativo e a percepção de que a escrita de romances não estava comprometida com a verdade da realidade, 5. inseguranças como mãe. Ela parecia não conseguir encontrar nada que pudesse ser salvo.
"Why do our lot never admit failure? Never. It might be better for us if we did."
Com certeza. A racionalidade inicial era feita de argila e ocultava uma paisagem caótica. Gradativamente a lucidez reflexiva de Anna Wulf se dissolve em loucura. A independência e liberdade que Anna e Molly usufruíam não as protegiam contra a fragilidade emocional. Nem mesmo conferia-lhes a maturidade intelectual para superar os fracassos. Elas aspiram ao matrimônio, sendo incapazes de encarar o sexo como mero passatempo. Exatamente por tudo isso, resisto em tomar o livro como uma bíblia feminista.

Nossa, nem me fale. Suponho que essa foi, inclusive, a razão que me aborreceu tanto durante as últimas cem páginas aproximadamente. Naquele ponto, eu simplesmente não consegui estabelecer afinidade, nem entender por que Anna insistia naqueles casos com homens imbecis, que apenas serviam para afundá-la cada vez mais no desgraçamento mental.

Você citou o matrimônio dentre seus argumentos, e poderíamos incluir também o tratamento da maternidade? Será? Haveria a mensagem "sem ela, a mulher pira"? Anna confessa que a filha funcionava como um porto seguro, trazia o mínimo de ordem para a vida dela. Fiquei devaneando a respeito disso.

 De qualquer maneira, vale lembrar que a própria Lessing não considera TGN uma obra  feminista. A edição que li contém duas introduções escritas pela autora em momentos diferentes - 1971 e 1993 - e, olha, ela demonstra uma irritação extrema em relação a esse tipo de interpretação. Na opinião dela, reduz imensamente o escopo do livro, revelando uma espécie de leitura preguiçosa e simplista do romance.

O que não me surpreende. Na minha opinião,  El Cuaderno Dorado não tem, de fato, a pretensão de ser um livro edificante contra a alienação das mulheres na sociedade contemporânea.

Trata-se, isto sim, de um romance sobre as ilusões perdidas de uma classe intelectual que, desde a guerra até meados dos anos cinquenta, sonha em transformar a sociedade segundo as pautas ditadas por Marx e em mudar a vida como pedia Rimbaud, mas que acabou percebendo que seus esforços não haviam servido para grande coisa.

Acho que concordo com você. Seria, aliás, o motivo que particularmente leva-me a admitir uma curiosa contradição no livro: percebo-o datado - não no sentido pejorativo, mas apenas por refletir extremamente bem o espírito de seu tempo -, contudo simultaneamente ainda  atual e relevante.

Compreendo. Sim, centenas de ficções dos anos 50 e 60 tentaram capturar o espírito daquela época, com sua ilusões, seus terríveis fracassos e profundas transformações históricas; e Doris Lessing conseguiu.

Acrescentaria ainda que, embora a história seja narrada pela perspectiva de uma mulher, a condição feminina não é a que aparece - abstratamente - como assunto central do livro. O tema principal é o fracasso da utopia experimentado por um intelectual -  aqui, uma mulher.

Nesse ponto, acredito que tenho dúvidas, Llosa. Não sei. Muitos personagens masculinos dessa história, até onde me lembre, pareciam estar bastante bem consigo mesmos. Os homens do livro aparentam possuir um pragmatismo que os impede de se abalar e de ruir mentalmente. Ou, no mínimo, eles seriam capazes de esconder melhor o destrambelhamento.

Por falar nisso, sabe que uma das críticas que o romance recebeu na ocasião refere-se ao fato de que todos os personagens masculinos são repulsivos ou desprezíveis? E, realmente, nenhum deles tem a menor hombridade.

Haha, não estou falando?! Pois eu cheguei até a comentar, com outra leitora da Ferrante, que TGN estava repleto de "Ninos Sarratores", que é o personagem masculino mais desprezível da Tetralogia Napolitana, quiçá da literatura. O Richard e o Michael não devem nada ao Sr. Nino, vou te contar.

Ok, pois aproveitarei o momento para fazer uma provocação:
as mulheres do livro, por acaso, são melhores?

Eita; cuidado nessa hora, Sr. Llosa. rs Ah, eu acho que elas são, sim. Veja, não digo que, ao contrário dos personagens masculinos, elas sejam perfeitas; mas que possuem um pouquinho mais de dignidade e consideração, lá isso elas possuem.

Mas Dani, nem Anna, a personagem que conhecemos mais intimamente, é capaz de nos seduzir! A vida dela é seca em decorrência dos princípios ideológicos e da incapacidade de adaptação que garante-lhe infelicidade e inutilidade social. Ela luta contra o convencionalismo, contudo sucumbe a certos estereótipos no momento de julgar homens, ou até os EUA, por ex.

Não, Llosa; aí você me perdeu por completo. Afirmo que fui totalmente seduzida por Anna - exceto, é verdade, durante o final, como já mencionei. Sei lá, apenas consegui estabelecer uma enorme empatia por ela. Poxa, esse bendito livro me fez até chorar no metrô, Llosa!

Entendo. Concordamos em discordar?
Queria retomar aquela questão da maternidade que você havia citado. Você a incluiu entre os fracassos da protagonista, e eu destacaria que, possivelmente, a filha de Anna representa o maior fracasso.

Seguindo um instinto de defesa, a garota busca diferenciar-se da mãe e, a todo custo, reintegrar-se à sociedade alienada e conformista da qual Anna quer desvencilhar-se. Muito provavelmente, Janet conseguirá transformar-se em uma dama inglesa indiferente e neurótica.

É, e a própria Anna compartilha com o leitor seu espanto diante das diferenças de comportamento entre ela e a filha. Falando em filhos: o que dizer sobre Tommy, o filho da Molly? Aquele garoto me desvairou bastante também.

Ah, e Llosa, eu não poderia perder a oportunidade para perguntar: o que você teria a me dizer sobre a forma narrativa desse romance?

Parece-me que a fragmentação nos quatro cadernos e a linha narrativa presente correlaciona-se bem com este temor de Anna:
"Afterwards I fought with a feeling that always takes hold of me after one of these exchanges: unreality, as if the substance of my self were thinning and dissolving."
Inutilmente, Anna tenta frustrar essa dissolução caótica e desorganizada de sua realidade através da categorização de sua vida por assuntos/aspectos em cada um dos cadernos. Como se fosse possível desconjuntar cada uma das partes de nossa existência. Não é, logicamente.

Na introdução de 1971, Lessing escreve que Anna mantém quatro cadernos porque, em resposta ao medo do caos e da falta de uma forma (formlessness), ela pressupõe que necessita separar e catalogar as coisas. A autora acrescenta que, no caderno dourado final, os elementos se agregam, as divisões são rompidas e Anna atinge a formlessness através do fim da fragmentação. E ela arremata: é o tema da unidade. Lessing acredita que, dentre as diversas temáticas de TGN, esta seria a dominante.

Retornando à Ferrante, isso lembra demais a relação da personagem Lila com a experiência que ela denomina como "dissolving margins". Já não é fácil perceber a evidente semelhança apenas pelos termos?! Lila igualmente temia a perda de sua forma. Dado que, em minha leitura, o sumiço final de Lila significa que ela rompe finalmente suas margens, dissolvendo-se com o mundo; parece-me que Anna também termina a história de maneira correlata; apenas não simbolizada por um sumiço, mas pelo caderno dourado que substitui e rompe as margens dos outros quatro.

Correto, o caráter fragmentado do livro não é gratuito. Essa estrutura responde à emaranhada realidade emocional e social tal como é vivida e analisada pela protagonista. Esta organização é desmentida pela prática.

Anna não consegue manter invioláveis as fronteiras temáticas que ela mesma fixa para seus cadernos. Isso mostra, graficamente e através do domínio da forma, que o racional e o irracional constituem uma realidade indissolúvel que confere à vida humana uma característica fundamental: sua imprevisibilidade.

Ressalvo apenas que é importante lembrar que o conteúdo da obra está em paridade com a riqueza inventiva dessa forma.

Agora, uma pergunta: de que maneira aquele tema "realidade x ficção" foi seu favorito? Como você o percebeu?

Destaquei essa questão para você pensando principalmente nas ponderações e frustrações que Anna compartilha a respeito do único romance dela, o "Frontiers of Wars". Deixou-me bastante reflexiva, a enorme exasperação e desencanto que ela sente ao dar-se conta de que seu livro falhou em captar a real verdade da África colonial, do racismo. Parte do bloqueio criativo dela, entendo, deve-se a isto; à pergunta: "Pra que serve, afinal, a literatura? Por que escrever, então?"

É engraçado, pois já até comentamos que Lessing logrou êxito exatamente em captar a essência daquela época, não é mesmo? Sendo assim, a boa literatura, pelo menos, seria capaz disso, sim? De captar a realidade? E, para não complicar, é melhor nem emendar com a elucubração "O que é a realidade?" 😶.

Creio que compreendi seu ponto de vista. De fato, Anna escreve um livro baseado em suas experiências na África, e no qual ela insere uma crítica severa ao colonialismo. Entretanto, o grande sucesso comercial que ele obtêm deve-se ao apagamento de seu aspecto político, o qual resta convertido em um produto de consumo para o mero entretenimento de um público que não associa a literatura a questões de ordem alguma.

Ah, se pararmos para pensar e novamente resgatarmos o que discutimos, Lessing teve de enfrentar o mesmo com TGN?! Reduziram seu livro a um panfleto feminista, quando ele é tão mais do que apenas isso. Essas conexões são peculiares.

Llosa, mais uma vez, muitíssimo obrigada pela ótima recomendação de leitura e por reservar uns minutinhos de seu tempo para ler minhas groselhas e papear.

É sempre um grande prazer.
Já teríamos um livro escolhido para nossa próxima discussão literária?

Veja, estava pensando que passou da hora de incluir uma postagem a respeito de um de seus livros no meu humilde diarinho, concorda? Ainda não decidi qual será, porém, quando aparecer por aqui, o envio para leitura (com vergonha, mas envio). Combinado?

Que grande satisfação; agradeço.
Lerei, sim, suas impressões. Abraços.

Para você também!
Até mais.