07/11/2017

The Golden Notebook - Doris Lessing

* As falas de Llosa são adaptadas a partir da resenha que ele publica no livro La Verdad de las Mentiras - Alfaguara (2002).
** Papo anterior: Herzog, de Saul Bellow.
***

Oi, Llosa; como vai? Tem um tempinho pra jogar conversa fora?
Concluí a leitura de mais uma das suas recomendações. 

Olá, Daniela! Para literatura, tenho sempre.
Estou bem, e você? Conversaremos sobre que livro?

Que ótimo! É sempre uma alegria conversar com você.
Hoje quero falar sobre The Golden Notebook (TGN), da Doris Lessing.
Na sua tradução: El Cuaderno Dorado. 
(Info sobre o livro: x)

Excelente.
E o que tem a me dizer sobre sua experiência de leitura?

Em uma palavra? Arrebatadora. E, talvez, transformadora. Amei o livro.
Entretanto vale dizer que o livro demorou a me fisgar e que as últimas ~100 páginas foram um pouco arrastadas.

Verdade? Pois quando o li pela primeira vez em 1966, fiquei meio cético.
Na ocasião, achei-o muito parecido com Os Mandarins, da Simone de Beauvoir.
É mesmo? Ainda não li Os Mandarins, daí nem saberia o que dizer sobre a comparação. Porém esse seu comentário é curioso, pois TGN também me remeteu a um outro livro, ou melhor, série: A Tetralogia Napolitana, da Elena Ferrante. Muito mais por conta dos diversos temas que as obras compartilham, do que pela forma, claro. Aliás, falei desses livros no nosso último papo.

Interessante. No entanto, sabe que mudei de ideia depois da segunda leitura que realizei em 1988? Achei-o melhor que Os Mandarins, dado que percebi que ele trata dos mesmos temas com mais profundidade, enquanto inclui, ademais, outros.

Há realmente tantas temáticas em TGN, não? O que nem de longe é uma crítica, mas, sim, um tremendo elogio. Especialmente porque penso que Lessing os explorou de modo formidável.

Com efeito, é um romance ambicioso. Encontramos: psicanálise, stalinismo, relações entre a ficção e a realidade vivida, experiências sexuais, neurose e a cultura moderna, a guerra dos sexos, a liberação da mulher, a situação colonial e o racismo. E todos estão relacionados, é claro. Você teria um favorito?

Não ria da minha cara, mas obviamente foi o combo neurose + psicanálise + ficção x realidade. Logo nas páginas iniciais, quando Anna praticamente confessa que encarava sua vida um fracasso completo, percebi de imediato que aquela era a fala que assumiria o papel de minha chave de leitura elementar. Foi o gatilho perfeito para levar-me a apertar os cintos, pois a jornada seria claramente intensa pra mim. A narrativa impôs muitas ressonâncias pessoais com meu momento atual.

Anna estava analisando sua vida e encontrando: 1. um casamento falido, 2. um amor não correspondido, 3. uma investida  política (comunismo) - sonho? utopia? - que se revelava uma farsa, 4. o bloqueio criativo e a percepção de que a escrita de romances não estava comprometida com a verdade da realidade, 5. inseguranças como mãe. Ela parecia não conseguir encontrar nada que pudesse ser salvo.
"Why do our lot never admit failure? Never. It might be better for us if we did."
Com certeza. A racionalidade inicial era feita de argila e ocultava uma paisagem caótica. Gradativamente a lucidez reflexiva de Anna Wulf se dissolve em loucura. A independência e liberdade que Anna e Molly usufruíam não as protegiam contra a fragilidade emocional. Nem mesmo conferia-lhes a maturidade intelectual para superar os fracassos. Elas aspiram ao matrimônio, sendo incapazes de encarar o sexo como mero passatempo. Exatamente por tudo isso, resisto em tomar o livro como uma bíblia feminista.

Nossa, nem me fale. Suponho que essa foi, inclusive, a razão que me aborreceu tanto durante as últimas cem páginas aproximadamente. Naquele ponto, eu simplesmente não consegui estabelecer afinidade, nem entender por que Anna insistia naqueles casos com homens imbecis, que apenas serviam para afundá-la cada vez mais no desgraçamento mental.

Você citou o matrimônio dentre seus argumentos, e poderíamos incluir também o tratamento da maternidade? Será? Haveria a mensagem "sem ela, a mulher pira"? Anna confessa que a filha funcionava como um porto seguro, trazia o mínimo de ordem para a vida dela. Fiquei devaneando a respeito disso.

 De qualquer maneira, vale lembrar que a própria Lessing não considera TGN uma obra  feminista. A edição que li contém duas introduções escritas pela autora em momentos diferentes - 1971 e 1993 - e, olha, ela demonstra uma irritação extrema em relação a esse tipo de interpretação. Na opinião dela, reduz imensamente o escopo do livro, revelando uma espécie de leitura preguiçosa e simplista do romance.

O que não me surpreende. Na minha opinião,  El Cuaderno Dorado não tem, de fato, a pretensão de ser um livro edificante contra a alienação das mulheres na sociedade contemporânea.

Trata-se, isto sim, de um romance sobre as ilusões perdidas de uma classe intelectual que, desde a guerra até meados dos anos cinquenta, sonha em transformar a sociedade segundo as pautas ditadas por Marx e em mudar a vida como pedia Rimbaud, mas que acabou percebendo que seus esforços não haviam servido para grande coisa.

Acho que concordo com você. Seria, aliás, o motivo que particularmente leva-me a admitir uma curiosa contradição no livro: percebo-o datado - não no sentido pejorativo, mas apenas por refletir extremamente bem o espírito de seu tempo -, contudo simultaneamente ainda  atual e relevante.

Compreendo. Sim, centenas de ficções dos anos 50 e 60 tentaram capturar o espírito daquela época, com sua ilusões, seus terríveis fracassos e profundas transformações históricas; e Doris Lessing conseguiu.

Acrescentaria ainda que, embora a história seja narrada pela perspectiva de uma mulher, a condição feminina não é a que aparece - abstratamente - como assunto central do livro. O tema principal é o fracasso da utopia experimentado por um intelectual -  aqui, uma mulher.

Nesse ponto, acredito que tenho dúvidas, Llosa. Não sei. Muitos personagens masculinos dessa história, até onde me lembre, pareciam estar bastante bem consigo mesmos. Os homens do livro aparentam possuir um pragmatismo que os impede de se abalar e de ruir mentalmente. Ou, no mínimo, eles seriam capazes de esconder melhor o destrambelhamento.

Por falar nisso, sabe que uma das críticas que o romance recebeu na ocasião refere-se ao fato de que todos os personagens masculinos são repulsivos ou desprezíveis? E, realmente, nenhum deles tem a menor hombridade.

Haha, não estou falando?! Pois eu cheguei até a comentar, com outra leitora da Ferrante, que TGN estava repleto de "Ninos Sarratores", que é o personagem masculino mais desprezível da Tetralogia Napolitana, quiçá da literatura. O Richard e o Michael não devem nada ao Sr. Nino, vou te contar.

Ok, pois aproveitarei o momento para fazer uma provocação:
as mulheres do livro, por acaso, são melhores?

Eita; cuidado nessa hora, Sr. Llosa. rs Ah, eu acho que elas são, sim. Veja, não digo que, ao contrário dos personagens masculinos, elas sejam perfeitas; mas que possuem um pouquinho mais de dignidade e consideração, lá isso elas possuem.

Mas Dani, nem Anna, a personagem que conhecemos mais intimamente, é capaz de nos seduzir! A vida dela é seca em decorrência dos princípios ideológicos e da incapacidade de adaptação que garante-lhe infelicidade e inutilidade social. Ela luta contra o convencionalismo, contudo sucumbe a certos estereótipos no momento de julgar homens, ou até os EUA, por ex.

Não, Llosa; aí você me perdeu por completo. Afirmo que fui totalmente seduzida por Anna - exceto, é verdade, durante o final, como já mencionei. Sei lá, apenas consegui estabelecer uma enorme empatia por ela. Poxa, esse bendito livro me fez até chorar no metrô, Llosa!

Entendo. Concordamos em discordar?
Queria retomar aquela questão da maternidade que você havia citado. Você a incluiu entre os fracassos da protagonista, e eu destacaria que, possivelmente, a filha de Anna representa o maior fracasso.

Seguindo um instinto de defesa, a garota busca diferenciar-se da mãe e, a todo custo, reintegrar-se à sociedade alienada e conformista da qual Anna quer desvencilhar-se. Muito provavelmente, Janet conseguirá transformar-se em uma dama inglesa indiferente e neurótica.

É, e a própria Anna compartilha com o leitor seu espanto diante das diferenças de comportamento entre ela e a filha. Falando em filhos: o que dizer sobre Tommy, o filho da Molly? Aquele garoto me desvairou bastante também.

Ah, e Llosa, eu não poderia perder a oportunidade para perguntar: o que você teria a me dizer sobre a forma narrativa desse romance?

Parece-me que a fragmentação nos quatro cadernos e a linha narrativa presente correlaciona-se bem com este temor de Anna:
"Afterwards I fought with a feeling that always takes hold of me after one of these exchanges: unreality, as if the substance of my self were thinning and dissolving."
Inutilmente, Anna tenta frustrar essa dissolução caótica e desorganizada de sua realidade através da categorização de sua vida por assuntos/aspectos em cada um dos cadernos. Como se fosse possível desconjuntar cada uma das partes de nossa existência. Não é, logicamente.

Na introdução de 1971, Lessing escreve que Anna mantém quatro cadernos porque, em resposta ao medo do caos e da falta de uma forma (formlessness), ela pressupõe que necessita separar e catalogar as coisas. A autora acrescenta que, no caderno dourado final, os elementos se agregam, as divisões são rompidas e Anna atinge a formlessness através do fim da fragmentação. E ela arremata: é o tema da unidade. Lessing acredita que, dentre as diversas temáticas de TGN, esta seria a dominante.

Retornando à Ferrante, isso lembra demais a relação da personagem Lila com a experiência que ela denomina como "dissolving margins". Já não é fácil perceber a evidente semelhança apenas pelos termos?! Lila igualmente temia a perda de sua forma. Dado que, em minha leitura, o sumiço final de Lila significa que ela rompe finalmente suas margens, dissolvendo-se com o mundo; parece-me que Anna também termina a história de maneira correlata; apenas não simbolizada por um sumiço, mas pelo caderno dourado que substitui e rompe as margens dos outros quatro.

Correto, o caráter fragmentado do livro não é gratuito. Essa estrutura responde à emaranhada realidade emocional e social tal como é vivida e analisada pela protagonista. Esta organização é desmentida pela prática.

Anna não consegue manter invioláveis as fronteiras temáticas que ela mesma fixa para seus cadernos. Isso mostra, graficamente e através do domínio da forma, que o racional e o irracional constituem uma realidade indissolúvel que confere à vida humana uma característica fundamental: sua imprevisibilidade.

Ressalvo apenas que é importante lembrar que o conteúdo da obra está em paridade com a riqueza inventiva dessa forma.

Agora, uma pergunta: de que maneira aquele tema "realidade x ficção" foi seu favorito? Como você o percebeu?

Destaquei essa questão para você pensando principalmente nas ponderações e frustrações que Anna compartilha a respeito do único romance dela, o "Frontiers of Wars". Deixou-me bastante reflexiva, a enorme exasperação e desencanto que ela sente ao dar-se conta de que seu livro falhou em captar a real verdade da África colonial, do racismo. Parte do bloqueio criativo dela, entendo, deve-se a isto; à pergunta: "Pra que serve, afinal, a literatura? Por que escrever, então?"

É engraçado, pois já até comentamos que Lessing logrou êxito exatamente em captar a essência daquela época, não é mesmo? Sendo assim, a boa literatura, pelo menos, seria capaz disso, sim? De captar a realidade? E, para não complicar, é melhor nem emendar com a elucubração "O que é a realidade?" 😶.

Creio que compreendi seu ponto de vista. De fato, Anna escreve um livro baseado em suas experiências na África, e no qual ela insere uma crítica severa ao colonialismo. Entretanto, o grande sucesso comercial que ele obtêm deve-se ao apagamento de seu aspecto político, o qual resta convertido em um produto de consumo para o mero entretenimento de um público que não associa a literatura a questões de ordem alguma.

Ah, se pararmos para pensar e novamente resgatarmos o que discutimos, Lessing teve de enfrentar o mesmo com TGN?! Reduziram seu livro a um panfleto feminista, quando ele é tão mais do que apenas isso. Essas conexões são peculiares.

Llosa, mais uma vez, muitíssimo obrigada pela ótima recomendação de leitura e por reservar uns minutinhos de seu tempo para ler minhas groselhas e papear.

É sempre um grande prazer.
Já teríamos um livro escolhido para nossa próxima discussão literária?

Veja, estava pensando que passou da hora de incluir uma postagem a respeito de um de seus livros no meu humilde diarinho, concorda? Ainda não decidi qual será, porém, quando aparecer por aqui, o envio para leitura (com vergonha, mas envio). Combinado?

Que grande satisfação; agradeço.
Lerei, sim, suas impressões. Abraços.

Para você também!
Até mais.

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