19/12/2017

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #01 - O Imortal

(Sinopse, info, etc: link/ Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Imortal: link 2.

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Parece que comecei me dando mal, pois esse primeiro conto é repleto de referências literárias,  históricas e geográficas. Logo de cara, digo que o meio de campo embaçou, tendo em vista que não li nenhuma obra de Homero (eu sei, eu sei). De qualquer maneira, efetuarei um voo rasante sobre questões que chamaram minha atenção, além de algumas correlações, digamos, desajuizadas.

Bem, acredito que a epígrafe escolhida por Borges seja crucial, posto que aparenta ser a chave que revela a temática principal do conto. Reproduzo o trecho escrito por Francis Bacon (* a edição da Companhia das Letras não conta com tradução do trecho):

"Salomon saith: There is no new thing upon the earth.
So that as Plato had an imagination, that all knowledge
was but remembrance; so Salomon giveth his sentence,
that all novelty is but oblivion."
Francis Bacon, Essays, LVIII

Conforme esse raciocínio de Bacon, não existiriam inovações no mundo, dado que toda e qualquer novidade e/ou novo conhecimento seriam, na verdade, espécies de ecos de rememorações de algo preexistente e esquecido. Sendo assim, seria possível concluir que tudo que existe é, de certo modo, imortal. Segundo a própria narrativa de Borges:
"Entre os imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre incansáveis espelhos. Nada pode acontecer uma única vez, nada é preciosamente precário."
Remete muito à ideia de um retorno eterno, porém com a ressalva irônica de que não haveria retornos, visto que não haveria exatamente partidas (mas, sim, esquecimentos). Refletidas umas nas outras, todas as coisas do mundo tornam-se eternas, sem hiatos. Trata-se de uma imortalidade que, além de brincar com os espelhos queridos por Borges, reproduz outra característica imagética favorita do autor: a circularidade. Os imortais existiriam na forma de uma verdadeira simbiose, o que fundamentaria uma conclusão expressa neste outro trecho do conto:
"Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os homens. (...) o que é uma cansativa maneira de dizer que não sou."
O título daquele livro do Pirandello (vira e mexe o cito nesse blog) resumiria bem o trecho: Um, Nenhum, Cem Mil. Se nossa existência torna-se perene através dos outros, conseguimos ser todos e, concomitantemente, nenhum.

Ademais, os imortais do conto decidiram viver no pensamento, ao qual se entregavam esquecendo-se do mundo físico. Ou seja, o caminho para a imortalidade estaria no pensamento. Como pensar sem linguagem? Sem palavras? Hum, então as palavras seriam o veículo para esse universo dos imortais e, dessa forma, os pensamentos expressos mediante palavras estariam sempre ecoando em outros pensamentos, em outras palavras.
"Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da recordação; só restam palavras. (...) Eu fui Homero; em breve, serei Ninguém, como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto." 
Nesse sentido, a forma e a estrutura narrativa do conto trazem uma metalinguagem que recria, ela própria, a imortalidade circular tratada pela história. O protagonista reverberou em seu texto as palavras de outros autores e, no seu processo ficcional, assim também o fez Borges. Avançando nessas elucubrações, este meu próprio post dá continuidade a essa circularidade, uma vez que ecos de Homero, de Bacon, de Borges surgem aqui reproduzidos. Seria essa a razão inconsciente que me leva a escrever todas estas groselhas no blog? Garantir minha própria imortalidade e, simultaneamente, contribuir para a imortalidade dos livros e autores que leio? Será? Seria cômico, visto que, conscientemente, não sinto nenhuma intenção de ser imortal, porque, como descrito no próprio conto de Borges:
“(...), aumentar a vida dos homens era aumentar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes.”
Tratando-se desse modo a imortalidade, desafia-se a própria percepção do conceito de tempo, não é mesmo? O qual, aliás, é outro tema favorito do escritor argentino. Seria lógico falar em passado, presente e futuro, quando tudo é eterno?

***

Certo, agora é o momento das correlações nada acadêmicas. Ocorre que, em O Imortal, a imortalidade seria conquistada através das águas de um rio:
"(...) "o rio secreto que purifica os homens da morte. (...) rio cujas águas dão a imortalidade."
Pois muito bem; e que tipo de associações esdrúxulas minha mente elaborou com essa informação?

1. A mais óbvia (??!!): o Poço de Lázaro - The Lazarus Pit! Entendo bulhufas a respeito de super-heróis, contudo, vendo a série ajambrada Arrow, do canal CW, aprendi que o vilão da DC Comics chamado Ra's al Ghul tem esse tal Poço de Lázaro que lhe garante a imortalidade, veja só. A razão para usar “Lázaro” - homem ressuscitado por Jesus – no título dessa arma secreta é fácil captar, entretanto o “poço/pit” ficou mais interessante com a leitura desse conto.

Borges x DC Comics! Às vezes, nem eu acredito nas minhas presepadas audaciosas.

2. Na sequência, aprontarei mais esta: Borges x The Leftovers! Isso mesmo, aquela série excelente da HBO, que tornou-se uma das minhas favoritas da vida. Elaborarei uma breve explicação para essa segunda presepada. Dentre os diversos temas tratados em The Leftovers, encontramos estes: o enigma maior sobre nossa existência, os desafios relacionados à compreensão de nossa realidade e mortalidade (alguns dos temas recorrentes na obra de Borges!). Nesse contexto, os roteiristas recorrem ao elemento água inúmeras vezes ao longo dos episódios. No universo ficcional constituído por realidades paralelas (opa, Borges novamente), a personagem interpretada por Theroux, Kevin Garvey, seria aparentemente imortal - pelo menos, ele retorna do mundo dos mortos cerca de 02-03x -, e a água é o veículo utilizado para essa travessia. Selecionei algumas cenas a fim de tentar ilustrar essa onipresença da água na série:

                       

Já que a água molhou meu caminho novamente com o conto de Borges, aproveitarei para dar uma olhadela rápida no livro de símbolos que possuo. Antes, algumas alusões são muito fáceis de serem feitas, obviamente. Nossa existência, afinal, começa dentro de uma bolsa preenchida por líquido amniótico e, regredindo ainda mais na linha temporal, o surgimento dos primeiros seres vivos na Terra foi patrocinado amplamente pela presença da água. Ah, e temos ainda a água utilizada no batismo, representando vida, morte e ressurreição.

J.C. Cirlot, no Dictionary of Symbols, afirmou algo meio óbvio, mas para o qual eu não tinha atinado. Por não possuir uma forma fixa, a água correlaciona-se bastante à noção que discuti de uma existência simbiótica infinita. Ou não? Este trecho, escrito por Cirlot, resume bem o que tento expressar:
“On the cosmic level, the equivalent of immersion is the flood, which causes all forms to dissolve and return to a fluid state, thus liberating the elements which will later be recombined in new cosmic patterns.”
Esta segunda afirmação, do mesmo autor, tornou as coisas divertidas:
“This ‘fluid body’ is interpreted by modern psychology as a symbol of the unconscious, (...)”
Uma eternidade conquistada através da água ou, em outras palavras, de um inconsciente coletivo?! Mas é claro! É precisamente isso! Hum, ou ainda... Uma memória coletiva?

Os dados que encontrei a respeito do símbolo “rio” também caem como uma luva (nenhuma surpresa) em O Imortal  - grifo meu:
 “River is an ambivalent symbol since it corresponds to the creative power both of nature and of time. On the one hand it signifies fertility and the progressive irrigation of the soil; and on the other hand it stands for the irreversible passage of time and, in consequence, for a sense of loss and oblivion.”

No mais, apenas acrescento o tom onírico de toda a narrativa, o que nos faz questionar se aquilo que lemos é real ou um sonho. Contudo sempre surge a interrogação: o que seria o Real? 

Ok, acho que essas foram minhas impressões principais. Fico devendo possíveis correlações com Ilíada/Odisseia, pois, como confessei, nunca os li. Vamos ao vídeo da Aline Aimée. Play!


[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]





[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Peço perdão, pois concederei espaço para um breve autoelogio: pela ótima análise da Aimée, parece que me saí melhor do que eu imaginava. Poxa, consegui, sim, captar boa parte da essência do conto. Yay!

Quanto ao que me escapou, aponto que foi, principalmente, a ideia explorada por Borges de que a imortalidade, tal como a concebemos imediatamente (= viver no plano físico eternamente), seria terrível, visto que tiraria do Homem o senso de propósito. A morte é o que confere sentido à vida. O próprio nome Joseph Cartaphilus, citado logo no início do conto, já carrega esse conceito de que a imortalidade seria um castigo ao Homem. Eu até tinha pesquisado o nome e encontrado a informação de que ele era o judeu errante, no entanto morri na praia antes de fazer a ligação de que a "maldição" que Jesus aplica-lhe é justamente a imortalidade. Como esclarece Aimée: "Ele não morreria até que Jesus voltasse, até o fim dos tempos." Interessante demais. Quando escrevi que eu mesma, conscientemente, não tinha nenhum desejo de ser imortal, nem tinha pensado sob essa perspectiva do Borges, mas, sim, porque me agrada muito mais "ser ninguém" - inclusive, aprendi com a Aimée que essa é uma frase da obra de Homero.

A proposta de Borges para o tipo de imortalidade possível, do modo como discuti e como também o fez Aimée, seria portanto o contraponto efetivamente viável. Ou seja, a imortalidade sobrevém apenas com a tradição cultural que se propaga com a atuação de todos os homens. Aimée ressalta que Homero teria conseguido exatamente isso, uma vez que ele é recorrentemente referido por outros escritores. Todos escritos seriam continuação de Homero.

Outra ligação que falhei em estabelecer foi entre palavras (como registrei, os instrumentos para a imortalidade) e, logicamente, livros! São os livros que assumem o papel daquele espelho do mundo, com ele estabelecendo reflexos mútuos. Evidente! Livros são formados por vários outros livros, e gostei desta fala da Aimée: "Os textos de Borges são como bibliotecas." Igualmente não tinha percebido ativamente que Borges reproduz, nesse conto, sua teoria da imortalidade não somente pelas citações e referências - como afirmei -, mas também mediante reprodução da “narrativa de jornada” desenvolvida por Homero. Além disso, desconhecia que o autor referia a si próprio como um escritor leitor; um autor que simplesmente reescreve tudo que lê. Fascinante.

Para finalizar, uma especulação. Aimée optou por não discutir as correntes filosóficas exploradas no conto por Borges, entretanto ela cita brevemente isto: "Ele cita aqui um filósofo Gianbattista Vico que falaria de uma teoria cíclica (...)". Daí, confabulo: ignorando a teoria desse filósofo italiano, será que consegui inferir corretamente a referência filosófica, ao fazer aquela relação da circularidade?! Em pesquisa breve no site Wikipedia, localizei estes dados

"Cyclical history (Corsi e ricorsi)

Vico believed in a cyclical philosophy of history where human history is created by man. His term for the cyclical nature of history was "corsi e ricorsi". Most importantly, man and society move in parallel from barbarism to civilization.
As societies become more developed socially, human nature also develops, and both manifest their development in changes in language, myth, folklore, economy, etc.; in short, social change produces cultural change.

Vico is therefore using an original organic idea that culture is a system of socially produced and structured elements. Hence, knowledge of any society comes from the social structure of that society, explicable, therefore, only in terms of its own language. As such, one may find a dialectical relationship between language, knowledge and social structure.


Relying on a complex etymology, Vico argues in the Scienza Nuova that civilization develops in a recurring cycle (ricorso) of three ages: (...)"

Não houve uma equivalência exata, mas cheguei relativamente perto. Boa. 

***
Adorei a brincadeira! Farei um esforço para manter esse exercício com a Aimée; a quem agradeço imensamente pelos vídeos. 

16/12/2017

[Alinhavando] What it feels like for a girl


Eis que uma sequência de eventos sincrônicos me obrigou a revisitar sentimentos juvenis do passado. O insight revelador dessa sincronicidade ocorreu enquanto eu escovava os cabelos na frente do espelho: meus olhos encararam atônitos suas imagens reflexas, denunciando a inequívoca e pasmada assimilação da cadeia de acontecimentos. 

Difícil identificar o início, porém sei que o catalisador da constatação consciente foi a recente leitura do livro The Member of The Wedding, escrito por Carson McCullers, combinada ao contemporâneo compartilhamento no twitter de uns versinhos que escrevi aos 13 anos, durante uma aula de literatura da escola. Minha versão adolescente poeta mandou qualquer coisa deste tipo:

"Não sei quê
não sei que lá
choro pelas lágrimas
que não tenho pra chorar."
                       - Daniela C.L.(13 anos)

(Pois é.) É imperioso registrar que a inspiração para o compartilhamento dessa ~obra-prima~ naquela rede social foi justamente o poema supostamente escrito por outra pré-adolescente. Seguem os versos da Lorena  que a Lorena teria plagiado (?) do Khalil Gibran:
(* Por favor, direcionem a atenção ao fato de que a reprodução pela aluna sinaliza atração pelo tema, beleza?)

Via: twitter.
O insight que tive à frente do espelho, dias após a divulgação da minha ~arte~ (ok, parei com a autodepreciação), relacionou-se à súbita percepção de que os sentimentos que fizeram meu eu pré-adolescente escrever aqueles versos foram bastante similares àqueles que exasperam Frankie Addams, a protagonista de treze anos do livro da McCullers. Desse ponto, então, levei somente míseros segundos para recordar que, poucos meses antes, eu chorava na sala de uma psiquiatra, à medida que narrava fatos que me haviam ocorrido aos treze anos - sentindo-me ridícula ao longo do processo, obviamente. Não, definitivamente não é uma etapa fácil e inofensiva da vida.

Dando continuidade à cadeia de assimilação, lembrei ademais que, além da McCullers, li em 2017 dois outros contos, escritos por Flannery O'Connor e Lucia Berlin, que igualmente exploram a louca avalanche de transformações típicas da avassaladora fase pré-adolescente. A lembrança de um conto da Katherine Mansfield lido em 2016, sobre a mesma temática, também acabou invadindo minha epifania. Nada mais justo, portanto, do que tentar estabelecer um diálogo entre esses ótimos textos, sim? Organizar as perspectivas oferecidas por essas excepcionais autoras e, quem sabe, submeter-me a uma espécie de terapia literária. The Member of the Wedding conduzirá a conversa, enquanto os demais contos - e minha própria experiência pessoal - contribuirão pontualmente ampliando as reflexões. 




De que idade estamos falando?
- The Member of the Wedding,  Carson McCullers: Frankie Addams, doze anos.
- A Temple of the Holy Ghost, Flannery O'Connor: protagonista de doze anos, sem nome.
- The Wind Blows, Katherine Mansfield: Matilda, adolescente sem idade especificada.
- Stars and Saints, Lucia Berlin: protagonista de 09 anos, inominada.
________________________________________________________
Ou seja: falamos da faixa etária típica da puberdade feminina. 


✒ Estações do ano x Pré-adolescência.
Dentre as quatro, McCullers e Mansfield são as autoras que optam por explorar essa simbologia. A escolha é interessante, se pensarmos que os gregos representavam as estações do ano através de figuras femininas e, principalmente, que o símbolo reforça a premissa de que o estado de espírito das protagonistas correspondia exatamente a uma etapa do ciclo de desenvolvimento, do ritmo de vida.

A estação escolhida, no entanto, diverge ligeiramente entre as duas escritoras: a americana opta pelo verão, enquanto a neozelandesa fica com a transição entre verão e outono. A informação é apresentada ao leitor logo no início das narrativas:
(McCullers:) "It happened that green and crazy summer when Frankie was twelve years old." 
(Mansfield:) "It is cold. Summer is over-it is autumn-everything is ugly."
Pesquisando esses símbolos no livro de Michael Ferber, A Dictionary of Literary Symbols, encontrei que o verão, no contexto da vida representada por um ano, simbolizaria precisamente a maturidade, o completo desenvolvimento dos poderes da mulher. O mesmo autor relembra que Shakespeare evoca em seus sonetos que o verão é muitas vezes desagradável por conta do excesso de calor e da ventania, o que acredito avivar metaforicamente o desconforto - físico, mental - característico da etapa puberal. 

Em relação ao outono escolhido por Mansfield, Ferber destaca tratar-se da estação em que simultaneamente celebra-se a colheita do verão e lamenta-se a proximidade do fim do ano. É, desse modo, uma estação de dupla faceta, visto que ela festeja tanto a vida, como a morte. Apropriada, parece-me,  considerando-se a própria dualidade transitória "criança-mulher" presente nessa transição.  Além disso, o outono é igualmente usado como metáfora para a maturidade, como Ovídio aqui o emprega: ‘‘Then autumn follows, youth’s fine fervour spent, / Mellow and ripe, a temperate time between / Youth and old age, his temples flecked with grey’’ (Met. 15.209--11, trans. Melville). Dado que a idade da protagonista não é explicitamente relatada por Mansfield, o outono parece sugerir que ela estava completando seu ciclo, e não apenas iniciando-o.


✒  Para Frankie, nem verão, nem outono; mas sim: a Estação (Temporada) dos Dias de Cão!
Exato, a querida protagonista de McCullers opta por um apelido muito mais propício para aquela maldita/bendita estação; o mesmo (origem na Grécia antiga) adotado para designar os dias mais quentes e desconfortáveis de verão.
(McCullers:) “And the season of dog days is like this: it is the time at the end of the summer when as a rule nothing can happen-but if a change does come about, that change remains until dog days are over. Things that are done are not undone and a mistake once made is not corrected.”

✒ Por falar em símbolos,
outro que chama atenção é o vento e suas variações - ventania, tornado, tempestade, ciclone -, os quais surgem intensamente no conto de Mansfield (logo no título: The Wind Blows!), mas também no romance de McCullers. Curiosamente, é um símbolo que também parece carregar dualidade: ventos são vigorosos, caóticos, potencialmente devastadores e, ao mesmo tempo, vazios e efêmeros como aquela própria etapa das vidas das protagonistas. Mansfield vale-se ainda do mar para representar a intensidade de emoções e metamorfoses por que atravessava sua personagem. 
(Mansfield:) "It is only the wind shaking the house, rattling the windows, banging a piece of iron on the roof and making her bed tremble." 
(McCullers:) "I think something is wrong. It's too quiet. I have a peculiar warning in my bones. I bet you a hundred dollars it's going to storm. A terrible terrible dog-day storm. Or maybe even a cyclone."

✒ Abruptude desnorteante.
Peço desculpas, pois optarei por apelar para aquele velho chavão: dorme-se criança e acorda-se mulher. É evidente que as mudanças não acontecem com a fugacidade que essa expressão sugere, entretanto a sensação é praticamente essa; uma vez que o tempo que nos é concedido não é, definitivamente, proporcional à extensão da metamorfose que sofremos. A despeito disso, precisamos sobreviver.

Cientes do sentimento, as autoras recorrentemente reforçam que suas personagens sentem-se tomadas de surpresa, atrapalhadas em decorrência das transformações repentinas:
(Mansfield:) "Suddenly-dreadfully-she wakes up. What has happened? Something dreadful has happened." 

(McCullers:) "One night in April, when she and her father were going to bed, he looked at her and said, all of a sudden: “Who is this great big long-legged twelve-year-old blunderbuss who still wants to sleep with her old papa?”

“And then, on the last friday of August, all this was changed: it was so sudden that Frankie puzzled the whole blank afternoon, and still she did not understand."

“It is so very queer the way it all just happened.”

“Then the spring of that year had been a long queer season. Things began to change and Frankie did not understand this change.”

✒ Então o corpo muda.
Logicamente esse território não teria como estar de fora. No caso das meninas, contudo, há uma engrenagem social que torna o fenômeno mais perverso. A menina confiante que se enxergava (inconscientemente) quase como um ser andrógino, passa a sentir com maior intensidade as pressões relacionadas às rígidas concepções sociais de como uma mulher deve se comportar e se apresentar, notadamente para tornar-se "atraente para garotos". É o terreno fértil para insegurança, baixa autoestima e ansiedade.

Frankie Adamms, aos 12 anos, já contava com 1.67m de altura, calçava sapatos de número 36 e temia o risco de seguir crescendo até virar uma girafona, o que seria péssimo, já que uma dama não pode ser um varapau, não é mesmo? A pobre garota começa a preocupar-se em aparentar seu melhor no casamento do irmão, o que implicaria, na visão dela, em longos cabelos loiros cacheados (porém ela tinha acabado de cortá-los bem curtos!), muitos laçarotes, babados, perfume, sapato apertado. Enfim, somente itens que ela não estava habituada a usar, mas aos quais estaria obrigada a se adequar.
(McCullers:) "this summer she was grown so tall that she was almost a big freak, and her shoulders were narrow, her legs too long. (…) her hair had been cut like a boy's, (…) The reflection in the glass was warped and crooked, but Frankie knew well what she looked like; (...)”
É também quando certos desvios físicos são costumeiramente corrigidos. Eu, por exemplo, tive de encarar aparelhos ortodônticos horrendos; a protagonista do conto de Berlin, coletes para tratamento de escoliose.
(Lucia Berlin:) "But I had this heavy metal brace on my back, for what was called the curvature, let's face it, a hunchback, so I had to get the white blouse and plaid skirt way too big to go over it, (...)" 
                                   


✒ Well then, I'm a FREAK!
Essa recorrência é fascinante, dado que surge de maneira explicitamente similar nas narrativas de O'Connor e McCullers. Em determinados trechos, as respectivas protagonistas mencionam a passagem pela cidade de uma dessas feiras andarilhas de múltiplas atrações, dentre as quais havia a famigerada Tenda dos Freaks. Ainda mais assombroso é que as garotas focam suas atenções na apresentação do hermafrodita, recurso narrativo que novamente parece acentuar os conflitos internos proporcionados pelas expectativas sociais de gênero que elas subitamente precisavam enfrentar.

Certa distinção, todavia, pode ser observada na reação das duas àqueles Freaks. Frankie entra em uma espécie de pânico contido ao considerar que aquela possa ser a turma a qual ela pertence. É o pavor de também ser uma aberração digna de um show circense.
(McCullers:) “She was afraid of all the freaks, for it seemed to her that they had looked at her in a secret way and tried to connect their eyes with hers, as though to say: we know you.”
A protagonista de O'Connor, de outro lado, reagiu de modo peculiar e inesperado: ela apropria-se da resiliência contida nas palavras declaradas pelo hermafrodita para encontrar consolo para seu desespero. Eis o que disse aquele freak: (O'Connor:) This is the way He (God) wanted me to be." Quer dizer, a adolescente conseguiu usar as palavras de teor religioso para se aceitar do jeito que era. Visto que O'Connor era católica fervorosa, não surpreende.

Pessoalmente, sinto que tive uma experiência que resultou da combinação dos casos dessas duas personagens. Comigo, não houve um show de freaks, é lógico, mas uma música. Qual? Voilà, na linda versão piano + Coral Scala, só de garotas:



Quando ouvi essa música pela primeira vez (por volta dos 13-14 anos, creio), sobretudo quando pude associar aquela voz à imagem de um vocalista com pálpebra caída e dentinhos tortos, senti um grande conforto ao perceber que, afinal, eu não estava sozinha! Havia outros creeps por aí que, como eu, não sabiam o que diabos estavam fazendo nesse planeta. (- Obrigada, Thom!)


✒ Solidão, isolamento e não pertencimento.
Aqui é onde desponta aquele meu poeminha. A inspiração para aqueles versos foi esta: meu eu adolescente sentia-se excluído e acreditava (tolinha) que todas as outras garotas populares tinham vidas intensas repletas de acontecimentos, ao passo que nada acontecia comigo. Portanto, como eu poderia chorar; quer de tristeza, quer de alegria? (Rindo:) Perdão pelo tom excessivamente dramático e provavelmente piegas, porém esse é um fato inegável, ainda que embaraçoso. As personagens das obras selecionadas nesse post, além do mais, não permitem que eu minta: todas sentem uma solidão imensa, sentem-se excluídas do mundo e que não pertencem a lugar nenhum. Alguns trechos (de cortar o coração):
(Lucia Berlin:) "(...) I knew that never in my life was I going to get in. Not just fit in, get in. (...) not only unable to get in but seemingly invisible, which was a mixed blessing." 
(McCullers:) “This was the summer when for a long time she had not been a member. She belonged to no club and was a member of nothing in the world." 
“She was an I person who had to walk around and do things by herself. All other people had a we to claim, all others except her.”
No caso de Frankie Addams, McCullers é particularmente cruel, tendo em vista que, naquele verão, 1. as outras garotas não permitiram sua entrada no clube que dava festas com a presença de garotos, 2. sua melhor amiga mudara-se para outro estado, 3. seu irmão partiria de casa após o casamento iminente e 4. até seu gatinho havia fugido de casa para, pasmem, achar uma companheira (teoria da querida personagem Berenice). É demais para uma mocinha de apenas 12 anos, gente!


✒ Som e Penumbra preenchem o vazio.
Admito a possibilidade de que eu tenha viajado nessa percepção, mas a incluirei em meus registros de qualquer jeito. O'Connor e McCullers me pareceram usar penumbra e som, respectivamente, como artifícios aos quais suas protagonistas recorriam, em seus quartos, para disfarçar e/ou aplacar a solidão que as espreitava constantemente; tentativa de criar um aconchego artificial. Seguem os trechos:
(O'Connor:) "She went upstairs and paced the long bedroom (...) She didn't turn on the electric light but let the darkness collect and make the room smaller and more private." 
(McCullers:) “Frankie's room was furnished with an iron bed, a bureau, and a desk. Also Frankie had a motor wich couls be turned on and off; the motor could sharpen knives (...)"

✒ Autoestima tem, mas acabou.
Diante de tudo isso, espanta que essas moças se odiassem?
(O'Connor:) "(...) she knew she would never be a saint. She did not steal or murder but she was a born liar and slothful and she sassed her mother and was deliberately ugly to almost everybody." 
(McCullers:) “This was the summer when Frankie was sick and tired of being Frankie. She hated herself, and had become a loafer and a big no-good who hung around the summer kitchen: (...)"
Que desejassem ser um outro alguém?
(McCullers:) "I wish I was somebody else except me."

✒ Das duas, uma: ou destruição, ou reparação. 
Trata-se, digamos, da direção que o ricochete segue. Algumas garotas rebelam-se a favor da explosão e da destruição. Frankie começa a cometer pequenos furtos pela cidade, a brincar com a pistola do pai e com facas e, efetivamente, a desejar destruir tudo.
(McCullers:) “I just wish I could tear down this whole town.”
Um tipo mais ameno de ira, quase defensiva, direciona-se às garotas que mostravam-se ajustadas à vida (especialmente as mais velhas), sejam aquelas que já estavam namorando e que as excluíam da conversa, sejam as que partiam para o bullying declarado. Para nossas protagonistas, as outras garotas eram estúpidas, tolas e até chamadas de todo tipo de palavrão. Pura salvaguarda.
(O'Connor:) "The child decided, after observing them for a few hours, that they were practically morons and (...) she couldn't have inherited any of their stupidity." 
"Neither one of them could say an intelligent thing and all their sentences began, "you know this boy I know well one time he..." 
(McCullers:) "The son-of-a-bitches.”
Chutando a porta de vez, a personagem da Mansfield revolta-se contra tudo e todos.
(Mansfield:) "How hideous life is-revolting, simply revolting... (...) Go to hell", she shouts, running down the road."
A personagem da Berlin apela para o caminho oposto: empenha-se ao máximo em tentar agradar, para que, de alguma forma, seja aceita e consiga construir qualquer vínculo com alguém. Por ser mais nova, talvez? O desespero da garota é tamanho, tadinha, que ela dedica-se com afinco a agradar até o padre da Igreja Católica que ouvia sua confissão (ela era de família protestante!):
(Berlin:) "Then he asked about my sins. I wasn't lying. I really and trully had no sins to confess. Not a one. I was so ashamed, surely a could think of something. Search deep into your heart, my child... Nothing. Desperate, wanting so bad to please I made one up."
Nesse ponto, Berlin acaba aproximando-se de O'Connor, considerando-se que o universo religioso também traz à sua protagonista algum tipo de alívio para toda aquela pressão. (*As coisas não dão muito certo no final, é verdade.)


✒ Metafísica e crise existencial de sobra.
Pensa que a Lorena do 4o ano B é a única a interessar-se pelo vazio? Então, pense novamente. Todas essas garotas começam a despertar para questões relacionadas à vida, ao universo e tudo mais, entretanto as respostas escapam-lhes completamente. A consequência? Medo, mais solidão e aflição existencial da boa. Seguem algumas instigantes reflexões de nossas personagens:
(Berlin:) "A lot of things were really bothering me in those days, like what gave life to the candles and where the sound came from in the desks. If everything in God's world has a soul, even the desks, since they have a voice, there must be a heaven. I couldn't go to heaven because I was Protestant. I'd have to go to limbo. I would rather have gone to hell than limbo, what an ugly word, like dumbo, or mumbo jumbo, a place without any dignity at all." 
(McCullers:) “She was afraid of these things that made her suddenly wonder who she was, and what she was going to be in the world, and why she was standing at that minute, seing a light, or listening, or staring up into the sky: alone. She was afraid, and there was a queer tightness in her chest.”

✒ Saída? Fugir!
Essa é, aparentemente, a única solução que as personagens vislumbram e a que anseiam fervorosamente. O "para onde" nem importava, mas apenas escapar do sofrimento e explorar o mundo. Retomando nosso símbolo: como conter o vento em um espaço confinado e privá-lo da liberdade de soprar pelos quatro cantos? O conto de Mansfield, por exemplo, encerra com a personagem sonhando acordada a imagem de sua fuga no navio que partia. 

Para Frankie,  o fato do irmão ter passado dois anos servindo ao exército em um lugar tão pitoresco como o Alasca, acrescido das notícias provenientes de vários países durante a então corrente Segunda Guerra Mundial, intensificavam nela a noção de que havia um mundo vasto aguardando que ela o explorasse. Em algum ponto dele, com certeza ela se encontraria. 
(Mansfield:) "They are on board leaning over rail arm in arm. (...) Good-bye, little island, good-bye...(...) the ship is gone, now. 
(McCullers:) “I've been ready to leave this town só long. I wish I didn't have to come back here after the wedding. I wish I was going somewhere for good.” 

“She did not know why she was sad, but because of this peculiar sadness, she began to realize she ought to leave town. (…) but she did not know where she should go.”
**** 
Se pudesse, abraçaria todas essas personagens - e as garotas reais, de carne e osso, que agora enfrentam esse pandemônio - e afirmaria-lhes que esses dias de cão terminam eventualmente. Outros começam, admito, contudo reservaria a revelação desse "detalhe" para uma outra ocasião. 😉


"(...) You are the we of me."

                                                       - Carson McCullers, The Member of the Wedding.


Para exorcizar esses velhos esqueletos do armário, vamos de Florence Welch?


 THE DOG DAYS ARE OVER, FRANKIE! 
(For now.)


10/12/2017

[DROPS] Diários Susan Sontag 1947-1963 [#02]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

- Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagem anterior: #01]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
18/05/1949
"Será que algum dia vou conseguir aprender com a minha própria burrice?"


10/12/2017
Não, acho que o ser humano nunca aprende, Sontag. Bom, pelo menos eu mesma já desisti. Inclusive, suspeito de que o papo que travarei com o capiroto será como aquele da peça do Suassuna:

- Oxe, eu morri, é? E morri de que, Sr. Mefistófeles?
- Lamento informar, mas a senhora morreu foi de burrice mesmo. 
- Mas que merda, hein.
¯\_(ツ)_/¯


➤ 
25/05/1949
“- Meu Deus, viver é uma coisa enorme!"    


10/12/2017












➤ 
 04/06/1949
“Sexo com música! Tão intelectual!!"  

10/12/2017









➤ 
13/02/1950
“De Rilke:
"... a grande questão hereditária: ... se estamos sempre inadequadamente apaixonados, inseguros em nossas decisões, + impotentes em face da morte, como é possível existir?"

...

“Uma vez mortos, nós não sabemos disso, portanto é melhor pensar em estar vivo! Mesmo se morrermos antes de experimentar as coisas que exigimos da vida, não importa quando morremos — só perdemos o momento em que estamos — a vida é horizontal, não vertical — não pode ser acumulada portanto viva, não se humilhe."

10/12/2017
❤❤


➤ 
04/11/1956
“A respeito da morte de Gertrude Stein: saiu de um coma profundo para pedir à sua companheira, Alice Toklas:


[Certeza de que o cachorrinho, ali, sabe a pergunta e a resposta.]
[Espie a cara dele, todo se fazendo de desentendido.]


➤ 
24/12/1956
"David, muito prestativo e carinhoso enquanto se prepara para ir para a cama, ocasião em que houve este diálogo: “E se Deus não tivesse criado o mundo?”. Eu: “Aí a gente não existiria. Isso seria muito ruim, não é?”. Ele: “Não existiria? Nem Moisés?”. Eu: “Como alguém ia existir, se não existisse um mundo para ficar?”. Ele: “Mas, se não havia um mundo, onde é que Deus estava?”. Eu: “Deus existe antes do mundo. Ele não é uma pessoa ou uma coisa”. Ele: “Então, se Deus não é uma pessoa, por que ele teve de descansar?”. Eu: “Bem, a Bíblia fala de Deus como uma pessoa, porque é a única maneira como podemos imaginar Deus. Mas ele não é uma pessoa de verdade”. Ele: “O que ele é? Uma nuvem?”. Eu: “Ele não é uma coisa. Ele é o princípio por trás do mundo todo, a base do ser, em toda parte”. Ele: “Em toda parte? Neste quarto?”. Eu: “Ah, sim”. Ele: “Deus é a melhor coisa que existe?”. Eu: “Exatamente. Boa noite”.


10/12/2017
(Amei essa explicação!)


➤ 
[Com data apenas de 1957]

Em que eu acredito?
Na vida privada
Em mostrar cultura
Em música, Shakespeare, prédios antigos

O que eu aprecio?

Música
Estar apaixonada
Crianças
Dormir
Carne

Meus defeitos
Nunca chegar na hora
Mentir, falar demais
Preguiça
Falta de vontade para recusar



10/12/2017
Em que eu acredito?
(**hoje:)
Na empatia
Em sonhos
Em tartarugas marinhas

O que eu aprecio?
(**hoje:)
Literatura
Chocolate
Música
Serotonina
Paz

Meus defeitos
(**hoje:)
Preguiça
Passividade
Insegurança
Chata toda vida


➤ 
06/01/1957
"Uma espécie de orgulho tolo que advém de manter por muito tempo uma dieta de cultura elevada."

10/12/2017
Sei bem. É uma ideia que as redes sociais andam simbolizando através desta potente imagem:












Seria igualmente tolo orgulhar-se de manter uma dieta exclusiva à base de livros do Dostoiévski, enriquecidos da podridão humana? Hum, interessante. 


➤ 
15/01/1957
"Será que sou eu mesma quando estou sozinha?

Será  que não sou eu mesma quando estou com os outros, nem com o Philip — disso decorre a constante sensação de irritação, com ele, comigo mesma. Mas e sozinha, eu sou eu mesma? Também parece improvável."

10/12/2017
Ah, Sontag, essa questão também me atormenta tanto! Inclusive, já até registrei neste meu diarinho dois trechos dos livros da Woolf e do Pirandello que a abordam. Reproduzo-os novamente:


***

Para encerrar o post, as músicas que a Sontag curtia para render um ~sexo intelectual~. Play!