05/12/2018

[Alinhavando] Alejandra Pizarnik; Diarios [#01]

Segunda temporada da série "Dialogando com Diários" (S1 - Susan Sontag, [Diários 1947-1963]); agora interagindo humildemente com o diário de Alejandra Pizarnik (Editora Lumen, 2004), autora argentina que tive a felicidade de conhecer graças às novas edições de seus poemas publicadas em 2018 pela Editora Relicário. A proposta consiste em (1) anotar trechos particularmente tocantes, (2) devanear a partir das entradas da escritora, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões. Detalhe relevante: estou lendo em espanhol. Pergunta: eu manjo de espanhol? Resposta: não. Portanto será uma longa leitura auxiliada por um portunhol fluente, dicionários e Google Tradutor, havendo reais chances de tropeços ao longo do caminho. ¯\_(ツ)_/¯

Legenda:
* Texto sinalizado com 📔, em verde itálico = entradas originais de Alejandra Pizarnik.

*Alerta de Gatilho*
Muitas entradas escritas por Pizarnik são dolorosas e extremamente depressivas. 

Cuaderno de Septiembre de 1954 

24 de Septiembre 

📔 "Un nuevo día lleno de sol. Despego mi ventana y la luminosidad cae en la habitación. Luz amarilla y vital. Me da miedo por sus ansias fugitivas. No me acompaña en las horas de estudio, no me sonríe en mi encierro benéfico; todo lo contrario; me llama junto a sí, al paseo matinal, lleno de árboles y seres que caminan."

Essa presença da luz do dia como aparente entidade viva que invade nossas casas, nossa intimidade, para nos incitar à fuga e chamar (quase ordenar!) para o passeio matinal - para a vida? - remeteu-me diretamente ao artifício similar concebido por Bruno Schulz no conto Agosto (coletânea Lojas de Canela). Naquela ocasião de meu primeiro contato com esse incrível escritor, os trechos da brincadeira metafórica com a luz solar que a todos inebria me causou forte impressão por conta da enternecedora beleza. Creio haver semelhança, porém simultaneamente existe uma diferença crucial: a escritora argentina lamenta o antagonismo entre seu ânimo e o da luz; enquanto o polonês celebra o entusiasmo compartilhado pela luminosidade e suas personagens. Esta é a citação de Schulz a que me refiro:

Tradutor: Henrik Siewierski

📔“De lejos, de muy lejos, venían los latidos de un perro. Se le ocurrió ubicar a ese perro en la cima de un planeta, Saturno, rodeado de los anillos de fuego (amarillo).”

Não resisti e arrisquei converter essa divertida imagem em uma colagem no biblio journal:


Na continuação da frase, Pizarnik sinaliza que tentava se esquivar do sofrimento psíquico no universo da imaginação, do irreal – através da escrita, da leitura, dos sonhos –; embora sugira que a dor a acompanhava inclusive por aquelas bandas. Parece corresponder ao grave estágio da depressão em que o indivíduo não consegue sequer realizar as atividades usualmente prazerosas e potencialmente terapêuticas.

📔 "Los aullidos se acercaban, lo que motivaba el alejamiento del planeta fantaseado. A medida que se acerca lo comúnmente llamado real, se aleja (o se expulsa) la fantasía. En verdad no sabía qué preferir: si lo real o lo irreal. En cualquiera de ambos, se hallaba triste. Dejó correr el hilo esperanzado de su imaginación, mientras suspiraba inquisitiva y semirresignada."

No romance History (La Storia), escrito por Elsa Morante (por sinal, uma favorita de Elena Ferrante), esbarrei com uma valiosa expressão que imediatamente incorporei ao meu vocabulário, constatando agora que talvez ela também pudesse ter sido adotada por Pizarnik: The Paralysis of Unhappiness – A Paralisia da Infelicidade. Quando meus olhos a avistaram nas páginas da italiana, exclamei um eureka! repleto de alívio. Quantas vezes pelejei para explicar à terapeuta que os problemas do trabalho me paralisavam fora dele... Daí, trombo, em uma obra de ficção, com um rico garoto judeu e anarquista que, ao juntar-se (voluntariamente) aos camaradas operários no piso de uma fábrica insalubre, acaba acometido pela Paralisia da Infelicidade. Minha terapeuta não entendeu, porém a revelação de que uma escritora italiana sabe perfeitamente do que falo é confortante. Literatura é, por certo, a única terapia possível; não tem jeito.
Tradutor (italiano → inglês): William Weaver
Misturando minhas palavras às de Pizarnik e Morante: às vezes o real é suficientemente corrosivo - uma irrealidade contranatural de total infelicidade - a ponto de destruir até o subterfúgio construído, do que resulta uma paralisia devastadora. 


Olha, eu super estou tentando me afastar temporariamente dos passarinhos, mas eles insistem em me fazer companhia. (- Obrigada por não desistirem de mim, amiguinhos!) Na continuidade da leitura daquela coletânea de contos escrita por Angela Carter – a citei no recente post “To ring, or not to ring, that is the question” -, por exemplo, dei de cara com dois contos em que a autora inglesa igualmente utiliza a metáfora do pássaro engaiolado que canta pela liberdade (em linhas bem gerais, uma alusão à condição social de muitas mulheres). Em seguida, eis que esses bichinhos alados tão simpáticos surgiram também nos diários de Pizarnik; e o mais surpreendente é que, assim como eu, ela concentra-se no anseio de voo, e não no canto. Espie:

📔“La visión de un ave grisácea contoneándose humanamente sobre una frente roja, despabiló su doliente deseo. El ave es mi alma. El ave no se siente fuerte, teme caerse, no puede echarse a volar. ¡Ayúdala! ¿Cómo? Y ¿por qué? Porque es tu ave. Elevó los ojos y sonrió al dibujo que, pegado en la pared, representaba lo que ella quería: el ave inaugurando el vuelo.”

Sinto-me um tanto baratinada com o quanto me identifico com as palavras dessa mulher.

Ah, e aproveito a oportunidade para registrar no blog esta piadinha da série Portlandia, porque a carapuça está me servindo com perfeito caimento - Put a bird on it!!:



📔“(…) sensación de no ser más que un corpúsculo rebelde en el cosmos descomunal.”

Esse tipo de pensamento me causa uma vertigem alucinante. No último mini-documentário que vi sobre a missão Apollo 8 da Nasa, o discurso dos astronautas relacionado ao confronto direto com a visível e irrefutável insignificância do planeta de mármore azul que simplesmente flutua na infinita imensidão negra me deixou extremamente ansiosa. [-Mas e eu, então; que sou um mero grãozinho de areia dentro desse balão que boia no nada?!] Sempre que minha mente envereda-se pela reflexão de que sou um corpúsculo rebelde no cosmos descomunal un corpúsculo rebelde en el cosmos descomunal, tenho a sensação de que o chão onde piso desaparece.

Este é o doc, dirigido por Emmanuel Vaughan-Lee e disponibilizado no canal The Atlantic:


No desenvolvimento do texto, a escritora inclui outra inspirada descrição daquilo que ela efetivamente é (e somos, sim?) no contexto cósmico. Aqui:

📔"Soy un trozo de humo solidificado. Soy un residuo que alguien olvidó en el Olimpo."

Curiosamente, imagino que a própria Lua diria isso de si mesma, especialmente depois do que é mencionado a respeito dela no vídeo anexado acima. ⤴


Por falar em Lua, Pizarnik associa o satélite natural terrestre ao plano dos sonhos, à realidade onírica. O sol, como inferi naquele trecho da luz, resta associado à vida real. E, como ela, lamento profundamente minha incapacidade de engatar psicodélicos sonhos lúcidos. Voilà:

📔"Tocó su rostro proveniente de allá, de la región desconocida plena de sueños que ahora no recordaba. Intentó atraer alguna señal que le permitiese el acceso consciente a ese mundillo nocturno del que acababa de surgir tan pálida como un habitante imaginario de la luna, cansada como una guerrillera valerosa; aspiró fuertemente sintiendo que su cuerpo se llenaba de un olor vivificante, olor de las mañanas, olor de café y de sol. Poco a poco sus ojos se abrían hacia el extraño arco iris matinal. Sus ojos eran el verde que faltaba para completar el prisma cotidiano."


Retornando à luminescência, gostei da maneira como Pizarnik conecta nossa percepção da diária alternância luz/sombra à passagem do tempo: 

📔 "(...) El cuarto se hundía lentamente en una gris penumbra equilibrada por la luz breve del velador. (...) Su habitación se había introducido en las penumbras mientras ella estuvo elucubrando su fobia dominical. Se irritó. Nunca podía palpar realmente el cambio de luces y sombras de los días. Era como contemplar un reloj para comprobar empíricamente la velocidad del tiempo."

Trouxe à memória aquelas animações aceleradas, frequentemente exibidas em documentários/séries para transformar a passagem do tempo em imagem. Exemplo:


No mesmo conto Agosto, Schulz também brinca poeticamente ao descrever sombras:

Hum, percebo que tenho grande afeição a essa temática “luz x sombra”. Acho que é hora de sacar da estante o livro do Junichiro Tanizaki, Em Louvor da Sombra. Epa!, acho que temos algo em comum, Monsieur Hugo! Sua dualidade luz x sombra, em Os Miseráveis, é carregada de uma simbologia que não se assemelha àquela explorada por Pizarnik e Schulz, entretanto o tema se faz presente, sim. Poxa, faz tempo que não nos falamos, hein? Como está, caro amigo? Continua zangado comigo?

Voltando ao que Pizarnik compartilha naquela passagem, acredito que sei do que ela escreve. Infelizmente, tenho certa familiaridade com o estado psíquico que faz com que treze horas ininterruptas sejam investidas dormindo, ao fim das quais o despertar ocorre a contragosto; um desentendimento entre o corpo que recusa-se a prolongar o sono e a mente que tenciona o apagão eterno. No momento dessa emersão à consciência, a distinção visual das nuances luminosas do quarto revela-se inútil para a localização temporal. Não raro, sobrevém a suspeita de que o tempo, só de pirraça, permaneceu suspenso durante o anestésico refúgio no palácio de Morfeu.

De fato, é mais ou menos isso que a escritora relata posteriormente:

📔 "8 y 1/2 h. Mi cuerpo no quiere levantarse, sino seguir durmiendo. Entreabro los ojos, aspirando los objetos de la habitación. Los cierro de nuevo, suspirando. ¡Cuántas cosas pierdo! ¡Cuántas sensaciones, vivencias, aprendizajes! ¡Todo por morir un poco más! ¡Todo por vivir menos, en ésta, mi dolorosa e irreal realidad! Y esa voz que te grita vives y no te veo vivir."

26 de Septiembre

📔 "Entro en una librería desconocida. Me dirijo a los anaqueles coloreados, llena de curiosidad y tensa de emoción. La esperanza de hallar «algo nuevo» es quebrada por la voz del empleado que me pregunta qué títulos busco. No sé qué decirle. Al fin, recuerdo uno. No está. Hubiese querido seguir mirando, pero sentía sobre mí el peso de esa mirada comerciante, tan estrecha y desaprobadora ante alguien que «no sabe» lo que quiere. ¡Siempre lo mismo!"

Antecedendo esse trecho específico, surge a confissão de que o futuro angustia Pizarnik, ponto em que ela dispara a assustadora pergunta: "¿qué será de mí?". No livro The Gift of Therapy, Irvin Yalom menciona que a figura do paciente que não sabe o que quer é bastante comum na prática clínica. A piada é que, ainda segundo Yalom, há casos tão ~complicados~, que até o terapeuta precisa se segurar para não perder as estribeiras e deixar transparecer a tal desaprovação social referida por Pizarnik no trecho que transcrevi acima. Nas palavras de Yalom:


Nem preciso confessar os motivos pelos quais essa informação ficou incrustada em minha memória, né? Estou segura de que Chidi, pelo menos, dispensa explicações.


No mais, curti a correlação que Pizarnik estabelece entre o frequente desnorteio perante a vida e a experiência da visita a livrarias. Aliás, a última (e deliciosamente maluca) animação japonesa a que assisti - The Night is Long, Walk on Girl - brinca proximamente com a metáfora que ela apresenta:




Por fim, confabulei que talvez eu possa utilizar a alegoria de Pizarnik em meu benefício próprio;
digo, usá-la para fazer as pazes com minhas dúvidas. Tal qual a caça ao livro, a caça ao tesouro vital (= decisões/respostas saturadas de certeza) pode ser alegre e exultante. Será? Os caminhos possíveis para a vida são muitos, ok; mas o desafio das escolhas precisa ser necessariamente sofrido? Se panz, o barato do jogo da vida é justamente este: o contínuo processo de "escolha-erro-acerto-escolha-acerto-erro-escolha...". 

Ah, e para conectar essas divagações aos acontecimentos recentes de minha realidade: lamentável que 600 livrarias tenham fechado suas portas no país, consequentemente inviabilizando a mágica pesca para tantos leitores. (* Para não bancar a hipócrita, é imperioso reconhecer que talvez eu tenha contribuído para essa conta - ou, no mínimo, não cooperei na prevenção. Neste ano, por exemplo, estimo ter comprado apenas 01 livro em livraria física. E foi para presentear uma amiga. Adianta usar a falta de carro como desculpa? Oh well.)


📔 "Acá, entre el cansancio y el humo, entre el Miedo y las ansias inmortales, me digo: he de escribir o morir. He de llenar cuadernillos o morir."

No dia anterior àquele em que li essa frase da Pizarnik, eu havia me deparado com uma construção / proposição relativamente parecida em um conto de Ernest Hemingway, entremeado de elementos autobiográficos. O americano escreveu:

Desde que constatei, com o livro The Lonely City, escrito por Olivia Laing, que até artistas relacionados às artes visuais variavelmente sucumbem à arte da escrita, fiquei ainda mais tentada a desvendar este grande mistério: o que instiga uma pessoa a escrever? Que impulso doido é esse? E, por favor, o famigerado papinho “Ãin, mas nem consigo me ver não escrevendo; Ãin, escrever é como respirar” não me serve pra nada, porque as considero falas clichês vazias de significado (pelo menos, para meus propósitos). Sim, eu escrevo umas groselhas neste espaço, contudo quem disse que eu sei por quê? Enfim, tenho estado especialmente atenta, durante minhas leituras, a trechos que abordam essa questão que tanto me intriga e fascina. Nos casos de Pizarnik e Hemingway, a escrita parece representar uma rota de fuga da realidade fatual, ou, de outra forma, um artifício aniquilador da realidade opressora. Por meio da escrita, a autora argentina refugia-se do real no mundo imaginário; o americano, por sua vez, consegue apagar determinados elementos do real, espécie de descarrego pela palavra.

Na entrada de 28/09/1954, entretanto, Pizarnik acrescenta este dado:

📔 "Compruebo que no es posible escribir bajo el «dolor puro». Hace unos instantes me sentía tan, pero tan angustiada que, cuando traté de concretar por escrito mis emociones, la pluma resbaló de mis dedos llorosos."

Ou seja, novamente ela reforça que, por vezes, a depressão era tão intensa, que paralisava sua escrita. A Paralisia da Infelicidade! Não disse?!


📔 "(...) porque yo no pedí nacer en forma de signo de interrogación (...)"

Nascer em formato de ponto de interrogação… Não é esplêndido?! Penso que, se eu juntar essa ideia ao bordão da personagem Settembrini, do livro A Montanha Mágica (Thomas Mann), chegarei à definição perfeita da minha pessoa: um ponto de interrogação que leva uma vida horizontal.

Uma interrogação horizontal! 


📔 "(...) el viento es un trozo de oxígeno disfrazado de fantasma, (...)"

Outra analogia fabulosa – vento como um tanto de oxigênio disfarçado de fantasma. Pizarnik me ofereceu a oportunidade perfeita para comentar uma resenha do novo livro da fotógrafa Rachel Cobb, Mistral, no qual ela se propôs a fotografar o invisível: o vento! W. Scott Wolsen, resenhista do artigo (disponível aqui), introduz o texto comentando um divertido enredo da antiga série de TV Mad About You, no qual Yoko Ono contrata o protagonista para que ele produza um documentário que inclua imagens dos ventos nos canyons de Nova Yorque. Sem surpresa, a empreitada fracassa, afinal como seria possível filmar o invisível? Pois Rachel Cobb foi lá e mostrou como é que se faz, conforme estas imagens extraídas da resenha podem comprovar:

Rachel Cobb, Wind Festival
Rachel Cobb, Wedding 02
Rachel Cobb, Evening Walk
Mediante feliz coincidência, encontrei, dentre as inscrições para o prêmio de melhor fotografia da National Geographic deste ano, uma foto de M. Engelmann que capta algo semelhante (especialmente com a Evening Walk). Na linda captura, observamos que os galhos das árvores na montanha alemã Schauinsland ficam inclinados na direção em que sopram os intensos ventos do oeste.

M. Engelmann
No entanto, bancando-se a crítica chata, é possível constatar que o mote da piada de Mad About You não foi prejudicado pelas fotos de Cobb e Engelmann, uma vez que os fotógrafos registraram os efeitos da ação do vento sobre seres/objetos/natureza, mas não o vento propriamente dito. Nesse estágio de meus devaneios, trouxe para a discussão o conto The Haunted House (A Casa Assombrada – falei dele aqui), de Virginia Woolf. Assim como ocorre com o vento, a narradora não consegue enxergar os fantasmas, mas somente o quê? Exato: os efeitos da ação dos fantasminhas - uma batida de porta, um copo que cai no chão etc. Por tudo isso, achei realmente encantadora a metáfora bolada por Pizarnik.


📔 "el reloj es un viejo que murió de un ataque al corazón y luego resucitó (para vengarse de los que se sentían molestos con el ruido de sus latidos)." 

O relógio é um homem velho que morreu de um ataque cardíaco e depois ressuscitou (para se vingar daqueles que se sentiam incomodados com o barulho de seu batimento cardíaco).
Nunca mais olharei para um relógio do mesmo jeito. Outra certeira.


28 de Septiembre

📔 ¿Quién me enseñó el nombre de Shakespeare? Nadie. Nací con este nombre grabado a priori en mi nebulosa. ¡«Esto» es eternidad!

Possível firmar conexão direta com Borges, é claro; visto que essa concepção permeia toda a obra dele. No conto O Imortal, conforme divaguei aqui no blog, Borges defende justamente o mesmo que Pizarnik aí: a imortalidade, da qual deriva a eternidade, provém dos livros. Você, passarinho, recorda-se de quando ouviu o nome do Bardo pela primeira vez? Será que Shakespeare já faz parte de nosso código genético?!

📔 "Una humilde mujer ha tocado el timbre. Viene a ofrecerse como sirviente. La miro: morena, mal vestida, grosera, con una horrible voz agudizada por el hambre (quizás). Le hablo. Para mí, su imagen no es más que una experiencia, es un «modelo» de la clase que representa. Nuestra conversación merece de mi parte la consideración de un juego empírico. Y, ¿cómo será para ella? ¡Ah! Es algo muy serio. Acá se debate su trabajar o no; su vivir o no; su subsistir o no… Creo que no fue posible hallar un golpe más brusco para mi angustia trascendental."

Esse tipo de autocrítica aparece recorrentemente nas palavras de Pizarnik. Ela faz chacota de si mesma, da dor que parece-lhe risível e simplória, considerando-se que a vida dela, quando analisada pela lupa da consciência, não oferece razões que justifiquem tamanha tristeza.

O confronto com outra mulher cujas aflições existenciais correspondem ao “será que arrumarei trabalho? será que terei o que comer amanhã?” efetivamente não aquieta o conflito interno da autora, segundo a narrativa acima. Perspectiva: a valiosa joia que também é uma merda.

A zombaria auto-depreciativa rende, inclusive, versos:

📔 (...) ¡Háblenme de gitanas sucias y despatriadas!
     ¡Háblenme de estrellas sin cielo!
     ¡Háblenme de flores sin pétalos!
     ¡Yo, sólo yo sufro! (...)

📔 "Atisbó su alma para comprobar el efecto que le producía esta palabra fatal: morir. No. Sólo nada. Su alma asentía en silencio. Ya no le importaba no ser. Quiso sonreír y el llanto sobrevino. ¡No ser! Y ahora, ¿acaso ella era? ¿Qué era? ¡Un grito de dolor! Un simulacro fastidioso de agonía humana que ocultaba un prosaico y pequeño fracaso: ¡el de su vida!

(...)

Trató de ocultarse, de sonreír aun cuando la falsedad de su alegría fuese conciente."


Sim, suponho que aqueles versos do poema O Quarto do Suicida, de Wislawa Szymborska

aludem justamente à ocultação referida por Pizarnik. Trata-se de processo extenuante e frágil, que costuma ruir diante das mais tolas pressões externas.


Para o primeiro caderno, foi isto aí. Super alto-astral, hein?

29/11/2018

[DROPS - Estilando & Cine] Um fantasminha camarada


No estilo da última madrugada aterrorizante, finalmente arrisquei reproduzir em desenho uma das minhas cenas favoritas do filme A Ghost Story (2017), de David Lowery [⭐(💛)].

Aliás, esse filme é largamente inspirado em um excelente microconto de Virginia Woolf. Transcrevo aqui o parágrafo final lindo de morrer (ops!) de A Haunted House; o qual dialoga diretamente - e bem (na minha opinião etc®) - com o roteiro de Lowery. (grifos meus:)
“Safe, safe, safe,” the heart of the house beats proudly. “Long years—” he sighs. “Again you found me.” “Here,” she murmurs, “sleeping; in the garden reading; laughing, rolling apples in the loft. Here we left our treasure—” Stooping, their light lifts the lids upon my eyes. “Safe! safe! safe!” the pulse of the house beats wildly. Waking, I cry “Oh, is this your buried treasure? The light in the heart.”
                                                                                                      - Virginia Woolf; A Haunted House

(**Não manjo nada, hein; isto é uma mera atividade recreativa terapêutica. 😉**)

24/11/2018

[Alinhavando] To ring or not to ring, that is the question


Eu, Daniela, uma lazarenta spinster balzaquiana sem muita vergonha na cara, faço parte da tripulação de um ship de série de TV. Shippo, não nego, paro quando puder. Se inicio esse alinhavo com tão embaraçosa confissão, é porque tomei uns cruzados de direita, cravados por leituras recentes, justamente porque o ship me fez baixar a guarda. Explico.

Em companhia dos colegas tripulantes do ship, aturei muitas idas e vindas rocambolescas e estapafúrdias de meu glorioso One True Pairing - OTP; todas porcamente arquitetadas por incompetentes roteiristas sem coração. A despeito dessas amargas intempéries, toda a tripulação permaneceu firme e, após longos anos repletos de raiva e dor, obtivemos finalmente a sonhada recompensa: nosso casal foi reconhecido canon e o casamento oficial aconteceu. Pronto; agora é o momento da segunda revelação constrangedora: cada vez que o OTP aparece em cena e a câmera enquadra graciosamente as alianças nos dedinhos dos dois, eu banco a tonta assim: 💖😍💖 (Estou velha demais pra posar de fangirl adolescente; mas é que eles estão super bonitiiiiiiinhos.) Embora eu não estabeleça um diálogo próximo com outros tripulantes do ship, pude perceber, mediante comentários em sites diversos, que essa reação parece ser compartilhada por muitos. Em rápido levantamento retrospectivo, consegui localizar este exemplo:
Enfim, esse lero-lero introdutório serve para demonstrar que, nos últimos meses, meu lado romântico está embriagado pela imagem da aliança matrimonial. Nesse estado deplorável, acabei servindo de presa fácil para uns textos que ~meio que~ descem o sarrafo na marmota aliança de casamento. Hum, seria mesmo uma marmota? Cenas dos próximos pontos do alinhavo.
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O primeiro peteleco partiu de um trecho do livrinho ali ↰. Atualmente escalo (a sofridos passos de tartaruga) essa tal Montanha Mágica concebida por Thomas Mann e, em certo ponto da subida, apareceu um papo a respeito de alianças que, claro, imediatamente despertou minha atenção. 

O lance começa com moço Hans Castorp, o protagonista paspalhão que está lá todo suspirando por Mme Clávdia Chauchat, paciente russa do Sanatório Internacional Berghof. Aproveitando a pasmaceira que reina no lugar, Hans puxa conversa fiada com a professora Engelhart, vizinha de mesa dele, a fim de obter informações sobre o crush.

Dentre as curiosidades que Hans deseja apaziguar, consta a preliminar necessidade de confirmar se Cládvia é casada. Como o bobalhão não avista aliança no dedo da moça, ele desconfia do relato prévio de que o crush é uma senhora oficialmente comprometida. Já que quem pergunta o que quer, ouve o que não quer; ao externar tais questionamentos, ele acaba tendo de escutar um textão lacrador da senhora Engelhart. Aliás, ele e eu. Acho? Bom, para a senhora Engelhart, essa coisa de aliança é prosaica e negativa; mero símbolo de servidão que confere às mulheres um quê de freira, um quê de florzinhas não-me-toques. Visto que a professora sabe por fontes seguras que Mme Chauchat é, sim, casada; Engelhart conjectura que a russinha, sendo tão jovem e moderna, simplesmente não deve ter vontade, nem ver motivos para mostrar seus laços conjugais a todo cavalheiro que lhe aperta a mão. Engelhart supõe que Cládvia julga o uso de aliança um costume burguês (😀 eita), afirmando mesmo que "andar assim com uma argola lisa no dedo - só falta o molho de chaves num cestinho..." E aí; que tal o discurso da professora? Minha deusa interior feminista interior, até então inebriada pelo suposto gaslighting (?) promovido pelo ship casado, reagiu deste jeito (imagens reais):

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E não parou aí, pois em seguida acabei vítima de outra bordoada desferida por - ninguém mais,
ninguém menos que - Angela Carter. Especificamente, o golpe partiu do conto The Bloody Chamber, versão da autora inglesa para o conto de fadas O Barba Azul, escrito originalmente por Charles Perrault. A narrativa de Carter atira símbolos para todos os lados e, evidentemente, a aliança surge majestosa no meio do tiroteio.

A protagonista do conto é uma humilde mocinha virgem de apenas dezessete anos que se casa com um rico marquês que já tinha despachado para o caixão três esposas. Quem conhece o conto de fadas que serviu de inspiração sabe o destino final que aquelas pobres mulheres efetivamente tiveram. No contexto dessa obra, a aliança - precisamente, uma solitária opala:

(1) É símbolo da longa sucessão de mulheres que padeceram nas mãos de homens violentos e opressores. A linhagem de dedos femininos ornados pela opala, antigo presente de Catherine de Medici (!), remonta à avó do marquês e inclui todas as esposas que repousavam eternamente na câmara sangrenta do marido algoz. E, se dependesse das intenções do Barba Azul de Carter, a continuidade da genealogia conjugal estaria garantida através do anel que ele faz questão de exigir de volta.
"Give it me back, whore." 
The fires in the opal had all died down. I gladly slipped it from my finger and, even in that dolorous place, my heart was lighter for the lack of it. My husband took it lovingly and lodged it on the tip of his finger; it would go no further. 
"It will serve me for a dozen more fiancees," he said. "
(2) Integra toda a parafernália que representa o exílio doméstico da heroína. A visão do brilho da opala obriga a protagonista a reconhecer que, por conta de sua ingenuidade e inexperiência, ela havia se deixado seduzir pelas riquezas do marquês.
"My first thought, when I saw the ring for which I had sold myself to this fate, was, how to escape it."
(3) Simboliza a relação de poder; a posse do marido que, sem maiores surpresas, exige que a esposa exiba a opala inclusive por cima da luva. A imagem da aliança sinaliza aos demais que aquela mulher era um objeto que tinha dono. 
"My husband liked me to wear my opal over my kid glove, a showy, theatrical trick -- but the moment the ironic chauffeur glimpsed its simmering flash he smiled, as though it was proof positive I was his master's wife".
(4) (de arrepiar os cabelos:) Representa o marido onipresente; a opala, os olhos do esposo que tudo vê.
" The light caught the fire opal on my hand so that it flashed, once, with a baleful light, as if to tell me the eye of God -- his eye -- was upon me."
Obviamente, a vozinha da feminista interior veio me aporrinhar de novo os pacovás:

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Posteriormente, dei asas às minhas tendências mexeriqueiras ("shame on me" número 3) para investigar se, conforme eu tinha passado a suspeitar, o símbolo da aliança surge em algum verso de Sylvia Plath com conotação similar àquelas encontradas nas recentes leituras. Dado o que conhecemos da biografia de Plath, notadamente do casamento dela com Ted Hughes, a bisbilhotice espontaneamente surgiu. (Perdão?) Bom, dei de cara com isto (grifos meus):

The Couriers

The word of a snail on the plate of a leaf?
It is not mine. Do not accept it.

Acetic acid in a sealed tin?
Do not accept it. It is not genuine.

A ring of gold with the sun in it?
Lies. Lies and a grief.


Frost on a leaf, the immaculate
Cauldron, talking and crackling

All to itself on the top of each
Of nine black Alps,

A disturbance in mirrors,
The sea shattering its grey one——

 Love, love, my season.

E isto:

The Rabbit Catcher (* incluí apenas a estrofe final:)

(...)

And we, too, had a relationship——
Tight wires between us,
Pegs too deep to uproot, and a mind like a ring
Sliding shut on some quick thing,
The constriction killing me also.


Continuei alimentando minhas tendências conspiratórias, dessa vez com Ana Cristina César e, por coincidência (?), a metáfora da aliança como espécie de objeto constritor que sufoca, que tolhe a liberdade feminina (algo próximo ao poema de Plath...?) também aparenta estar presente:
(Por favor, focar no "aparenta", porque 1. não manjo de poemas, 2. desconheço detalhes da biografia de ACC)


Sábado de aleluia (* incluí apenas alguns versos:)

(...)

Eram brincos caídos
e um anel de jade que selasse numa dura castidade
minha fúria de batalha
que viaja e volta.


                                                                                        ---

Considerando-se que a toca do coelho já se encontrava aos meus pés, decidi me atirar; porém sem me aprofundar, admito. Realizei somente uma googlada fajuta que pudesse confirmar resumidamente a história básica: quando e como, afinal de contas, começou a tradição da troca de alianças em casamentos? Rá!; “troca”?! A primeira questão crucial que esqueci de notar refere-se exatamente à inexistência de uma troca nos primórdios dessa prática. O uso compartilhado do ornamento por casais é agora tão popular e dominante, que de fato meus devaneios não atinaram que homens casados só começaram a ornar seus dedinhos com um anel a partir da segunda metade do século XX (!). Essa mudança, pelo que apurei, teria sido preliminarmente patrocinada pelos combatentes da 2a. Guerra Mundial, para quem o objeto simbolizava uma lembrança afetuosa das esposas e famílias que eles tinham sido obrigados a deixar para trás. Movimentos feministas daquele século também parecem ter exercido algum papel na mudança do padrão. 

A dinâmica social relacionada à histórica presença da aliança em casamentos realmente aproxima-se mais àquela explorada por Carter e defendida por Engelhart, visto que só era usada pelas esposas e usualmente sinalizava que a mulher tinha dono, era propriedade de um marido. E, nesse sentido, meu instinto fangirl sentimental não foi acalentado pela recordação de que as cerimônias de celebração dos contratos feudais frequentemente usavam anéis para simbolizar a investidura e os laços de fidelidade firmados entre suserano e vassalo durante a idade média. (Holy shit)

O uso compartilhado do adorno é hoje muito mais prevalente; certo, contudo minha superficial pesquisa revelou uma anedota curiosa que eu desconhecia: o príncipe William esnobou a aliança. Sim, o Duque de Cambridge, segundo matéria que li, alegou ser avesso a joias de todo e qualquer tipo, razão pela qual ele teria optado manter os dedos desnudos. Embora eu considere que o sentido da coisa resta amplamente perdido quando apenas um lado usa a peça; julguei ~tudo tranquilo~ - se os dois estão de acordo, quem sou eu para dar pitaco, confere? Igualmente não embarco na onda "hum, ele quer deixar o terreno livre hahaha", pois a lorota de usar aliança para coibir galanteios de terceiros - uma espécie de sinal vermelho - é por demais tola e disparatada. O legal dessa brincadeira reflexiva, entretanto, correspondeu à indagação provocadora feita pelo jornalista do artigo: e se o único repudiador da aliança tivesse sido a esposa, Duquesa Kate Middleton, hein? Será que a galera estaria de boas se a Duquesa fosse o cônjuge a desfilar por aí sem um anel* no dedo? Ora, ora; veja só. (*Anel que, a propósito, pertencera à falecida sogra traída pelo respectivo marido, o senhor Charles. Oh boy.)

Para arrematar o alinhavo, resgato a pergunta que deixei suspensa na introdução: aliança de casamento é uma marmota? Bem, a despeito do ponto de vista encontrado nas últimas leituras e dos achados da superficial pesquisa, lamento reportar que, após sérias ponderações embaixo do chuveiro, o lado romântico bobinho persistiu levando a melhor em cima da feminista interior. Placar final: sem objeções ao uso *compartilhado* do anel (quem quiser, usa; quem não quiser, não usa); caráter não marmotoso. O resultado foi apertado, é verdade, porém acredito que é o que tenho para hoje


Em minhas toscas divagações, confabulei que gastar energia problematizando um anel significaria desvirtuar-se da real questão: estruturas sociais patriarcais e concretas dinâmicas matrimoniais perniciosas. Pode ser, ou nem? Naquele próprio conto da Angela Carter, por exemplo, a heroína casa-se novamente com um homem capaz de construir uma relação de respeito e companheirismo recíprocos com uma mulher. Conforme também afirma Rosemary Moore, a protagonista "substitui uma relação marcada pelo poder e submissão por outra de afeto e igualdade mútuos." A narrativa de Carter não diz se houve uma nova aliança na parada, mas ousarei lançar a hipótese no mundo ficcional: e se a narradora tivesse afirmado que sim? Essa segunda aliança presumida, naquela nova realidade conjugal, teria valor simbólico equivalente ao da opala reluzente do marquês? Deveria ser igualmente condenada? Sei lá, estou humildemente assumindo que minha ingenuidade lírica teima em não abrir mão do objeto que, para os egípcios, encarnava a vena amoris = a veia do amor que parte do coração até o quarto dedo da mão esquerda. Enquanto dois seres humanos forem capazes de estabelecer entre si um genuíno e recíproco laço afetivo (são? aqui, é meu lado cínico que manifesta uma duríssima contestação), acredito que resistirei à tentação de demonizar em absoluto todo e qualquer objeto trocado para simbolizar, celebrar e reforçar a existência do elo. Aliás, encerro a postagem deliberadamente com a palavra "objeto", em vez de anel/aliança, porque considero imprescindível ressaltar que 1. a ideia à qual me apego aqui não exige necessariamente um anel, 2. nem refere-se necessariamente a uma relação de amor romântico; 3. ah, e tampouco restringe-se a casais héteros, é lógico. Lanço dois caros exemplos ficcionais que representam bem (acho) o teor da defesa que porcamente tentei apresentar. São eles:

 → Anel "BFF - Melhores Amigos Para Sempre", dos amigos Bob Esponja e Patrick:


→ Os colares de caveira usados pelo lindo e apaixonado casal vampiresco do filme Only Lovers Left Alive (💛):

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Ok; hoje, fico de fato com esse posicionamento e escolho continuar a bordo do ship, conservando a empolgação pueril diante das cenas protagonizadas pelas alianças do OTP.  Amanhã? Sequer sei se estarei viva amanhã, portanto: ¯\_(ツ)_/¯

07/11/2018

[Alinhavando & Estilando] Amar um passarinho é coisa louca

🐦 E os passarinhos continuam me fazendo companhia; dessa vez, no estilo da madrugada.

Pontos do alinhavo feitos com: Carel Fabritius, Anna Akhmátova, Jane Bowles, Maya Angelou,
                                                   Donna Tartt, Carlos Drummond de Andrade.

(**Ah, não manjo nada, hein; isto é uma mera atividade recreativa terapêutica. 😉**) 
                 

06/11/2018

[Alinhavando] Má oi; tá ok ou não tá?!

E lá vou eu para outro episódio da série "Se uma agente do futuro tivesse me dito que logo mais eu estaria fazendo X, eu teria mandado um - haha, tá louca, amiga?". O X da vez é escrever sobre política. Inicialmente, a perspectiva de aprontar tamanho despautério me deixou bem apoquentada, porém os ânimos foram apaziguados pelas sábias e certeiras palavras da grande filósofa Leslie Knope (ilustradas acima):
"Política, né?
Fazer o quê?"
                                                                                            - Leslie Knope

Considerando-se que este espaço é um reles diarinho temático pessoal, o que registrarei aqui será um inocente desabafo entremeado de livros, de tal modo que as análises políticas acertadas permanecerão reservadas àqueles devidamente capacitados.

No começo destes trabalhos, apelo (sem muita originalidade) para Radiohead - "2+2=5":

Parece que é isso? Agora, dançaremos a coreografia idealizada pelo capiroto e não adianta espernear? Bom, pelo menos a trupe está dizendo que "é melhor já ir se acostumando", então acho que é isso, sim. Mas, sei lá, esse slogan que o Mestre bolou para nos dar as boas-vindas à nova era soa tão acolhedor e carinhoso, não?  Aquece tanto meu coração, que talvez a gente até se divirta, não? É, pode ser. Será?

De qualquer jeito, a previsão cantada por Thom de que o ritmo da dança mudaria porque eu não estava prestando atenção é definitivamente precisa, portanto meu presente desabafo será caracterizado exatamente pela descrição das tresloucadas fases transcorridas até a queda da ficha.

Bora lá.

[fase da negação]
Quando a referida candidatura do novo coreógrafo despontou de forma consolidada, eu a encarei como uma completa piada - de mau gosto, mas ainda assim uma piada - e estava absolutamente convicta de que todos estavam nessa mesma sintonia. Ou seja, até alguns meses atrás, eu tinha certeza de que nenhum eleitor em sã consciência sequer cogitava tascar um confirma ao lado da foto daquele candidato. Contudo ~certo~ dia, eis que descubro que uma ~certa~ pessoa, de um ~certo~ meio por onde circulo (forçada etc), não apenas votaria naquele candidato, como estava engajada ativamente naquela campanha. De início, chacoalhei a cabeça tentando espantar a confusão promovida pela inesperada descoberta, depois parti para uma tentativa de ponderação racional. Efetivamente, pensei coisas do tipo "nah, tá tudo bem, é só o ponto fora da curva"; "ah, mas dessa pessoa, talvez eu nem devesse ter esperado algo diferente. tá beleza, tudo normal."


[fase da raiva]
O procedimento de negação foi tão eficiente que, por alguns instantes, fiquei ansiosa para compartilhar com os demais colegas a hilária anedota de que tínhamos entre nós uma "maluca" eleitora daquele coreógrafo. Deus deve ter tido compaixão da minha pessoa (às vezes, ele tem dessas), porque antes mesmo que tal vexame ocorresse, fui exposta à autêntica realidade: TO-DOS daquele lugar votariam efusivamente naquela candidatura. Acho que o choque foi tão desconcertante que, durante alguns minutos, embarquei em uma discussão ligeiramente acalorada. Ora, dado que usualmente eu mal falo com aquele povo (todos adoráveis, só que não), minha reação foi um tanto surpreendente.

Dentre treze candidatos, como diabos (ai) aquele poderia ser quem a galera julgava menos pior melhor preparado??!! Será que prestaram atenção nas propostas coreográficas do moço?! Opa, retifico: será que prestaram atenção, por trás da espessa cortina de fumaça moral, na ausência de propostas referentes às questões verdadeiramente primordiais no momento? Nem a própria figura sabe a dança que irá propor, caso assuma o posto, caramba!! E o diálogo? E as discussões, negociações? Ler a Constituição, que é bom, nem parece ter rolado. Ah, e a estratégia à la "O Senhor das Moscas" (William Golding) - alimentar a crença na existência do Bicho (-Papão) para lacrar seguidores obedientes a um líder - ainda cola?!?!
O passo "salvador da pátria milagreiro" ainda não foi superado pelos caros colegas bailarinos?                Depois  da  bizarrice  "Lindo, roubou meu coração",  pessoal  adota  com  gosto o meme de tratamento "Mito!👉👉"?! Trocar João de Panônia, por Aureliano? Mas, mas... WTF??!!


[fase da barganha]
O estágio seguinte correspondeu à radical montanha-russa de devaneios introspectivos nos quais me afoguei. Pelejei para processar toda a novidade e, como tentativa de auxílio, a memória catapultou, à minha reflexiva consciência, alguns livros previamente lidos.

Acontecimentos na Irrealidade Imediata, escrito pelo romeno Max Blecher, aflorou no início das divagações - falei dele no alinhavo anterior, inclusive. Especificamente, resgatei a cena em que a protagonista do livro faz "uma descoberta assombrosa": o quadro familiar que supostamente representava um rei e uma rainha com traços finos e seguros era, na verdade, um amontoado de letrinhas visíveis apenas mediante auxílio de uma lupa. Segue o trecho em que ela expõe sua consternação com a experiência:

Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Cosac Naify, Tradutor: Fernando Klabin

Percebi que a proximidade do dia da eleição operou pra mim tal qual uma lupa: não havia votos do tipo "qualquer candidato, exceto aquele". A pintura que me espreitava consistia em um único traço: "o voto é naquele candidato".

Também me lembrei prontamente da personagem Cassandra; do instante em que ela questiona suas próprias convicções proféticas quanto à queda de Troia e a guerra descabida. Na narrativa do mito grego concebida pela autora alemã Christa Wolf, foi isto que eu havia lido:
Christa Wolf; Cassandra
Estação Liberdade; Tradução: Marijane Vieira Lisboa

Do mesmo modo que Cassandra, eu estava rodeada por opiniões emitidas de maneira tão enérgica, que facilmente titubeei e conjecturei se eu seria a única doida daquela história. Até porque sequer possuo poderes proféticos infalíveis, veja bem. Eu já tinha pleno conhecimento de ser - isto, sim - uma total destrambelhada (minha psiquiatra e terapeuta nem me deixariam mentir), no entanto não tinha ciência de que a dimensão de minha loucura atingia níveis tão estratosféricos. Minha percepção da realidade estaria assim tão desregulada?? Tentei pôr em funcionamento as sinapses que pudessem me fazer perceber a realidade tal qual ela se apresentava ao meu grupo, porém falhei miseravelmente. Não, por mais que me empenhasse, o meu real persistia representado pela asseveração de que aquele candidato era completamente incompetente e inadmissível do ponto de vista moral.

Logicamente, o terror marcou o passo seguinte. O medo de estar isolada em uma ilha e, pior, incapaz de discernir se eu estava na ilha da ignorância ou da clareza, passou a me dominar. Conforme questiona Cassandra: o que significa ter razão?! Essas palavras podem soar exageradas, contudo me senti de fato tomada pelo pavor de ser a lunática solitária que não entende patavina do que ocorre ao seu redor. Esse foi o ponto em que Sanna, a jovem narradora protagonista do livro After Midnight (Nacht Mitternatcht; 1937), escrito pela alemã Irmgard Keun, retornou aos meus pensamentos. Esse livro é muito interessante, pois retrata a rotina, os sentimentos, a realidade (olha aí) dos alemães comuns, digamos, nos anos iniciais (Pré-Segunda Guerra) após a vitória eleitoral de Hitler pelo Partido Nacional Socialista. Imersa na máquina nazista que rapidamente começava a ditar as novas regras de conduta sócio-politicas, Sanna sucumbe algumas vezes ao desespero por simplesmente não compreender aquele horror. Incluo passagens:

Irmgard Keun; After Midnight
Mellville House; Tradutora: Anthea Bell

Sei que seria ridículo comparar o que vivo hoje ao que os alemães viveram naquele período, é evidente, entretanto foco aqui na natureza do sentimento que acredito compartilhar com Sanna, destacando-se em especial que minha percepção da realidade atual teima em denunciar alguns elementos muito similares àqueles que a narradora descreve em After Midnight.

Por fim, subitamente me dei conta de que minha estante contava com um novo livro do Alberto Manguel que incluía um capítulo - o primeiro - cujo título é "Cassandra". E o título do livro, ademais, é "A Cidade das Palavras". Durante uma eleição em que a proliferação de notícias falsas desempenhava aparente papel determinante, um livro cujo título inclui "Palavras" parecia promissor. Através da palavra, Deus criou o mundo; o homem, por sua vez... decidiu eleições?

Logo na largada da leitura daquele capítulo, Manguel me deixou muito feliz, uma vez que ele praticamente ratificou a estratégia reflexa adotada pelo meu cérebro: "deu tilt na decodificação da realidade? voltemos aos livros para tentar recalibrar o processador."

Alberto Manguel, A Cidade das Palavras
Companhia das Letras, Tradutor: Samuel Titan Jr.

Simultaneamente, porém, o autor justificou uma de minhas inquietações pessoais. Manguel explica que a linguagem surgiu há cerca de 50 mil anos "como um instrumento baseado numa representação convencional do mundo capaz de garantir a um grupo de homens e mulheres a convicção, por incerta que fosse, de que seus pontos de referência eram os mesmos e de que suas expressões traduziam uma realidade percebida de modo semelhante." Pois muito bem, a pergunta que me aporrinha os pacová, hoje, é a seguinte: se os indivíduos de uma sociedade permanecem inundados por um lamaçal de notícias deliberadamente manipuladas e falseadas segundo interesses, é possível evitar a formação de amplos abismos entre as diferentes percepções da realidade? A sociedade restaria, assim, fadada a extremismos? Assusta constatar que os próprios elementos que nos permitem construir a realidade estão corrompidos ou, de outra maneira, que muitas vezes sequer somos capazes de identificar o que está ou não corrompido. Na dúvida, galerinha está decidindo esse impasse por conta própria, seguindo o juízo e a conveniência pessoais. Tudo é verdadeiro e falso, simultaneamente, a depender do avaliador. Para piorar, Manguel ainda repete aquela lei do Padeiro, na Caça ao Snark de Lewis Carroll: “Tudo que eu disser três vezes é verdade”. Tudo que é replicado centenas e centenas de vezes em uma rede social, então, vira o quê? Uma ultra-mega-power verdade insuscetível à desconstrução?  <engolindo seco>

Para acalmar meus próprios ânimos, acredito que Manguel sugeriu uma saída: literatura! O argentino recorda que escritores e poetas iluminam a realidade e sempre forçam-nos a reavaliar crenças, arejar definições e questionar respostas. "(...) a linguagem da poesia e das histórias, que reconhece a impossibilidade de nomear o mundo de modo preciso e terminante, nos reúne sob a égide de uma humanidade fluida e compartilhada, ao mesmo tempo que nos confere identidades transparentes." Isso me trouxe um pouco de paz, pois demonstrou que talvez eu não esteja tão biruta quanto imaginava. Meu mundo sempre foi dominado por incertezas, dúvidas, perguntas (e todo o temor que isso provoca, claro); e verificar-me envolta de tanta gritaria incisiva e autoritária não deve necessariamente ser motivo para tamanha inquietação. (- Obrigada, Manguel.)
Alberto Manguel, A Cidade das Palavras
Companhia das Letras, Tradutor: Samuel Titan Jr.

[fase da depressão (*mais)]
Para a depressão, foi um pulo.

A meu ver, a melancolia que me assomou nem era provocada exatamente pela perspectiva de vitória de um coreógrafo que desaprovo por completo. Não; o que mais me angustiava era ter evidenciado, em um piscar de olhos, que me encontrava rodeada por pessoas com as quais eu não conseguia estabelecer qualquer tipo de íntima conexão. Digo, eu não conseguia pensar como os demais, vibrar em suas frequências. Sim, admito que sempre tive dificuldades para me enturmar (Forever Alone Club – Lifetime Member), contudo este fenômeno prodigiosamente piorava as coisas. Drama queen? Pode ser. Afinal, já disse que não sei de mais nada.

Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Cosac Naify, Tradutor: Fernando Klabin

[fase da aceitação]
No fim das contas, tratei de embarcar na onda do bordão vencedor = fui me acostumando (ou quase). Democracia é o que tem para hoje (e para amanhã, e depois, e depois... **espero**), sendo forçoso dançar a coreografia democraticamente eleita, porém sempre recorrendo contra passinhos de dança capengas, através dos meios previstos na regra dos ensaios e apresentações. No mais, torcer, sim? Torcer para que a apresentação transcorra da melhor forma possível, já que estamos em muito maus lençóis. Suspeito, né, sei lá; quem sou eu na fila do pitaco político?


Nessa fase final de resignação, pensei muito no livro A cada um o seu  (título bacana para o momento, não?), escrito pelo italiano Leonardo Sciascia. Em sua obra, Sciascia retrata principalmente o papel da máfia e da igreja católica na política e sociedade italianas nas décadas de 60-80, demonstrando que os conceitos de direita/esquerda, fascista/comunista eram (e são?) fluidos feito água. Na política italiana, o alvo está no Poder. Resguardadas as devidas proporções, acho que há um match entre países, hein.  ¯\_(ツ)_/¯

Leonardo Sciascia; A cada um o seu
Alfaguara; Tradutor: Nilson Moulin

Bom, A cada um o seu é protagonizado pelo professor Laurana, um homem que, basicamente:

"- Era um imbecil." 
                             
                                                   - Leonardo Sciascia; A cada um o seu

Mas calma que a piada ainda não chegou. Quando li o livro, ri desavergonhadamente do pobre Laurana, um homem dos livros (rá! lógico) que, por viver de olhos fechados e sem tempo para ver certas coisas, se meteu desprecavido nos meandros mafiosos da política italiana. Tal como Meursault de Camus, Laurana tocou a ordenação do sistema e foi exposto à luz crua das leis (p.67), ou seja, acabou com a boca cheia de formiga sob um pesado monte de escórias, numa mina de enxofre abandonada. Pronto, agora sim vem a piada: e quem é que está com a boca cheia de formiga agora? Sim, euzinha. Massa. Achei que sacava as coisas melhor que Laurana, entretanto as últimas eleições cruelmente provaram que sou mais tapada do que o tímido professor da Sicília. Porca miseria!


Leonardo Sciascia; A cada um o seu
Alfaguara; Tradutor: Nilson Moulin