22/01/2018

Cartas para a minha mãe - Teresa Cárdenas

(Sobre o livro - info, sinopse etc- clique aqui.) (Ed. Pallas / Tradução: Eliana Aguiar)

[** Post dedicado à minha mãe, a leitora mais assídua e amada deste humilde blog.**]


Oi, mãe,

tudo bem? Não tinha prometido uma postagem especialmente pra você? Pois aqui está! Acho que  escolhi um livro ótimo pra isso, pois, como o título dele sugestiona, trata-se de uma espécie de coletânea de breves cartinhas que uma garota de dez anos – não nomeada - escreve para a falecida mãe, quem ela acredita estar no céu. (Eu, em contrapartida, escrevo um post de blog pra minha mãe muita viva, sim, senhor! 😊) Suspeito de que você gostará da maneira com que ela define o céu. Será? Leia aí:
“O céu de verdade não se vê, se sente. É uma coisa tão bonita e serena que não dá nem para imaginar. (…) Eu imagino que é um lugar onde não existem mentiras e onde todo mundo se dá muito bem.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe

Para preencher a saudade e dar vazão à solidão que sentia, ela escolhe essa forma de diálogo com a mãe ausente. É um pouquinho triste, sim, mas também singelo e comovente. Para que você tenha uma ideia melhor, insiro a imagem da primeira carta (perdão pela qualidade ruim):


Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.
(Tradução: Eliana Aguiar)

Teresa Cárdenas é uma escritora cubana e, nesse seu livro publicado pela primeira vez em 1998, ela utiliza a ingenuidade e a percepção singular das crianças, assim como o jeito simples e direto com que elas se expressam, para explorar aspectos da realidade vivida pelos negros em Cuba. Organizei em três tópicos as principais questões que consegui identificar.


RACISMO

O teor das correspondências indica que o racismo é tremendamente marcante em Cuba, a tal ponto que os próprios negros parecem incorrer, paradoxa e cruelmente, em manifestações racistas uns contra os outros. A narrativa sugere que eles estariam tão cegamente convencidos da falaciosa inferioridade fabricada durante a história do país, que não se mostrariam capazes de se orgulharem de quem são, dos seus traços negros e de sua rica cultura.
“Algumas pessoas não sabem ser negras. Tenho pena delas.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe

Nesse sentido, elenco alguns fatos relevantes que a garota compartilha nas cartas:

1. as crianças cubanas sentiam vergonha dos pais que tinham pele mais escura;

2. a menina descreve episódios em que sofria bullying praticado pelos coleguinhas de escola, o que ela atribui ao fato de que era “a mais preta da sala, logo a mais triste.”;

3. casar-se com um branco era sinônimo de uma afortunada conquista para muitos negros, pois significaria “apurar a raça”;

4. alguns negros só queriam relacionar-se com brancos, e por isso depreciativamente chamados de “piolas”;

5. a garota afirma que muitos negros preferiam trabalhar na casa de famílias brancas; o que julgavam uma grande honra;

6. as meninas alisavam os cabelos com chapinha e cantarolavam “Meu cabelo é bom! Meu cabelo é liso!”;

7. quando a tia responsável pela guarda da menina se aborrecia, vociferava palavras supostamente ofensivas por enaltecer os traços típicos da raça negra; como“beiçuda”. É bastante tocante quando a criança compreende que ela deveria, isto sim, orgulhar-se de seus traços – nariz, boca, cabelo, pele -, especialmente por serem similares aos da mãe.
“Descobri que meus olhos são parecidos com os seus, que não podiam ser mais bonitos, e que minha boca e meu nariz são normais. Não gosto que digam que os negros têm nariz achatado e beição. Se Deus existe, com certeza está furioso por ouvir tanta gente criticando sua obra. (…) Por isso não deixo que passem pente quente em meu cabelo. Prefiro fazer penteados. Como as africanas."
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.  


RELIGIÃO E FÉ

A garotinha descreve diversos elementos próprios da relação do país com a religião afro-cubana. Ela explica que as doenças eram atribuídas a mau-olhado e a espíritos perturbadores, e que eram tratadas também com ajuda religiosa, a qual incluía: 1. banhos de descarrego com ervas aromáticas e cascarilla - bolinhas feitas com casca de ovos esmigalhadas –, 2. limpeza com galho de pau-ferro banhado em cachaça e defumado com cigarro e 3. o sacrifício de animais aos deuses.

Alguns orixás são citados ao longo do livro e, como não sou familiarizada com essas divindades (você é, mãe?), incluirei imagens que garimpei na internet; até porque as considero belíssimas, especialmente Oxum e Iansã.

Fontes: 12. 34, 5.

Ainda sobre esse tema, chama atenção a passagem em que a criança, acostumada com a religião Iorubá, demonstra confusão quando a escola começa a ensinar-lhe a doutrina católica.
“Mamãe, por pouco ele não nasceu na África! Pode imaginar isso? Mãezinha, você acha que Deus entende quando lhe falam em africano? Eu acho que não. A velhinha das flores me explicou que o Deus dos negros se chama Olofi, mas é o mesmo Deus dos brancos, só que cada um coloca nele a cor e o nome que tiver vontade.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.


MULHER NEGRA CUBANA

Lendo essa narrativa, acabei me lembrando de uma frase da obra Their Eyes Were Watching God, escrita pela americana Zora Neale Hurston, especialmente porque julgo resumir bem o que encontrei no livro da Cárdenas:
"Black women, as far as Nanny can see, get the worst lot in life. While white men are highest in the hierarchy and look down on black men, the black men in turn drop the burden on the shoulders of their women. Everyone treats black women like animals ." 
(Traduzi assim:)
“Mulheres negras, na opinião da Vovó, levam a pior na vida. Enquanto homens brancos ocupam o lugar mais alto na hierarquia e menosprezam os homens negros; os homens negros, por sua vez, jogam esse fardo sobre os ombros de suas mulheres. Todo mundo trata as mulheres negras como animais.”
- Zora Neale Hurston, Their Eyes Were Watching God

Pelo exposto nas cartinhas, é fácil deduzir que as coisas eram (devo acrescentar “e continuam sendo”?) muito difíceis para as negras cubanas. Elas começam a trabalhar cedo (ainda crianças) em afazeres domésticos, frequentemente para famílias de brancos. Pior, parece que se aposentam bastante tarde (se é que conseguem), visto que a avó da protagonista persistia trabalhando como empregada doméstica. Muitas eram abandonadas pelos maridos, ficando obrigadas a enfrentar sozinhas todas as dificuldades de criar os filhos. Este trecho, por outro lado, insinua que algumas tinham de recorrer à prostituição para prover o sustento da família:
“(...) já sei que Roberto está triste. A mãe dele anda com vários homens por dinheiro. Às vezes, sai e volta no dia seguinte.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.

Há uma passagem chocante, na qual a garota surpreende o namorado da tia saindo do quarto da prima após tê-la estuprado. Claro que, devido à idade, ela não usa essa palavra e não compreende exatamente o que teria ocorrido – embora saiba que foi uma agressão à prima -, porém a forma com que ela descreve não permite que o leitor tenha dúvidas.

Além disso, é doloroso notar que, por conta de tantas dificuldades e sofrimento, algumas mulheres tornam-se vítimas de certo embrutecimento da sensibilidade. A garotinha diz que a avó era mal-humorada, amarga e que não queria saber de carinhos, uma vez que “não serve para comer.”

*

Quando a menina transforma-se em uma mulher finalmente pronta para enfrentar a vida sozinha, tendo criado laços afetivos fortes com outras pessoas, é a hora do adeus. É como se mãe e filha percebessem que as cartas não eram mais necessárias. Um dia, no seu tempo, elas se reencontrariam. Reproduzo a imagem da última cartinha, com a qual ela se despede da mãe, pois é super meiga e acredito que você gostará de lê-la:

Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.
(Tradução: Eliana Aguiar)

E é isso. Será que alguma vez você também pensou em escrever uma carta para sua mãe / a vovó? Ela a receberia onde está agora? Bonito isso, não? Digo, tentar comunicar-se com uma pessoa querida, que não mais está presente fisicamente, através de cartas. Imagino que você concordará. 😉

Se tiver ficado com vontade de ler o livro, levo pra você, ok? E, mais uma vez, obrigada pelo carinho de suas visitas frequentes neste meu bloguinho.

Grande beijo;
Dani.

********

Certa vez, você me disse que gosta dos posts com músicas, então incluirei um vídeo. Tal qual a garota do livro, o cantor americano Sufjan Stevens tentou estabelecer um diálogo com a mãe morta, contudo através da música. Ele não teve uma relação próxima com a mãe: ela tinha depressão, era alcoólatra e esquizofrênica, tendo abandonado-o quando Stevens era só uma criança. Desse modo, o disco Carrie & Lowell foi a forma que o músico encontrou de fazer as pazes e dizer adeus. Segue a linda música mais famosa. (É possível que já a conheça, visto que muitas séries de tv e filmes a têm usado como trilha sonora.) 😚

16/01/2018

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #02 - O Morto

(Sinopse, info, etc: link/ Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Morto: link 2.
- Minha postagem anterior:
  #01 - o imortal.

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Eis que, justamente após ler um conto de Borges sem elementos fantásticos, me encontro desprovida de uma imediata impressão global de leitura. A princípio isso é tão cômico, que chego a ouvir o tema de abertura de Curb Your Enthusiasm. Bom, sendo assim, procederei resgatando os destaques que grifei no conto para, a seguir, pontuar elucubrações pessoais.

(1) 
A presença de um recurso narrativo que me parece ser recorrente na obra de Borges chama atenção logo no início: um narrador observador que não conhece todos os fatos da história e que, "pior", sequer é capaz de atestar a veracidade daquilo que nos conta. Em parte, talvez essa seja a causa de meu pronto desnorteio ao final da leitura; o qual ainda me obriga a segurar um "tá, e daí?" entalado na garganta.
(Err, desculpe. ¯\_(ツ)_/¯)
"(...) quero contar o destino de Benjamín Otálora, de quem talvez não reste lembrança (...) Ignoro os detalhes da sua aventura; quando me forem revelados, tratarei de corrigir e ampliar estas páginas. Por ora, este resumo pode ser útil." 
"Muitas coisas vão acontecendo depois, de que sei pouco. (...) Outras versões mudam a ordem desses fatos e negam que tenham ocorrido num único dia."
- Jorge Luis Borges, O Morto

Confabulo se objetivaria enaltecer a literatura oral, fazendo o leitor refletir a respeito de sua evolução para o registro escrito e seu importante papel na preservação da cultura e história de um povo. Novamente, explicaria minha reação ao final da leitura: na tradição oral, a extração de uma mensagem fundamentada na narrativa fica por conta do ouvinte (aqui, documento escrito, da leitora).

Curiosamente, isso resgatou de minha memória a experiência que tive ao ler "O Obsceno Pássaro da Noite", de José Donoso. Nesse livro, a narrativa do autor chileno realça inúmeras vezes o papel daqueles pequenos causos que são contados entre gerações, crescendo cada vez mais, ganhando múltiplas versões e ares pitorescos. Trata-se de uma tradição que julgo ser, de fato, típica da cultura latino-americana. Saquei o livro da estante e, na página 24 (Editora Francisco Alves, 1979),  localizei esta passagem (um exemplo apenas, pois há vários outros) que dialoga muito bem (acho) com o recurso usado por Borges em O Morto:
"(...) as velhas, não me lembro qual delas, tanto faz, estavam contando mais ou menos esta fábula, porque a ouvi tantas vezes e em versões tão contraditórias, que todas se confundem."
- José Donoso, O Obsceno Pássaro da Noite (* nome do tradutor não localizado)

A identificação desse elemento provoca divertidos questionamentos devaneantes:
- A ausência de um atestado de veracidade daquilo que é narrado compromete seu valor? Repercute em nossa interpretação, certo, no entanto invalida a história contada? Tudo indica que não.

- Essa incerteza em relação àquilo que é narrado não lembra bastante a forma com que contamos nossos sonhos a terceiros?! Sonhos!! Rá!

- Uma vez que o narrador afirma desconhecer alguns fatos, ao mesmo tempo que reconhece a existência de outras versões e uma disposição para ampliar posteriormente seu relato; teríamos então uma anedota... infinita?! Passível de engrandecimento e correções infinitas?! Ora, ora, hein?

**Atualização em 27/05/2018**
A leitura recente do livro Com Borges, de Alberto Manguel, me revelou outro aspecto importante dessas informações de natureza imprecisa no texto: remetem aos romances policiais, tão amados por Borges!! Puxa, mas é claro! Conforme o livro de Manguel, Borges cita um trecho de Dom Quixote, o começo "Em um lugar de la Mancha, cujo nome não quero recordar...", e propõe o seguinte: "e se lêssemos Dom Quixote como um romance policial?" O "não quero recordar" já levantaria suspeitas no leitor, do tipo "por quê? que pistas está escondendo?"
**Fim da atualização**

(2)
Depois, pude perceber outro tema também caro a Borges (a própria nota de rodapé inicial do tradutor facilita): o gaucho e seu vasto mundo das planícies. Dando uma olhadela na coletânea Ficções, pesquei dois contos aparentemente responsáveis pela minha recordação: O Fim e O Sul. Segue um trecho de O Morto que sugere bem tal temática:
"Começa então para Otálora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que têm o odor do cavalo. Aquela vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, porque, da mesma forma que os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece esses símbolos) ansiamos pela planície inesgotável ressoando sob os cascos. Otálora fora criado nos bairros do carreteiro e do quarteador; antes de um ano se torna gaucho."
- Jorge Luis Borges, O Morto.

Aproveitei para recorrer, finalmente, ao Borges Babilônico, enciclopédia organizada por Jorge Schwartz (Companhia das Letras, 2017). Prontamente, topei com uma direção mais clara quanto à anteriormente referida tradição oral: ela relaciona-se ao próprio gauchesco! Fascinante. E registro, super resumidamente, que o termo "gaucho" surgiu no último terço do século XVIII (a história do conto transcorre em 1891), tendo sofrido mudanças de significações até atingir o mitificado emblema de uma identidade nacional. Para detalhes, recomendo a leitura direta do texto contido na enciclopédia, do qual extraio os seguintes trechos:
"(...) no rio da Prata, uma coisa é a tradição e a produção oral dos gauchos (v.) (...) O efeito oralizante da gauchesca é tão forte que até os mais argutos leitores esquecem que com grande frequência esses textos estabelecem outra ficção: a de que o lido corresponde a algo — gazeta, carta, manifesto, reclame, anúncio, ameaça — escrito por imaginários gauchos letrados, embora de forma muito distante do conceito das belas-letras contemporâneas, como se, ao escreverem, estivessem falando."
"As primeiras atitudes de Borges quanto à questão dos gauchos e às temáticas que a rodeiam, nos textos impregnados de um vanguardismo de matiz criollista (v. criollo) que ele depois eliminou das Obras completas, foram de fascínio pelo personagem e pelas modalidades de sua fala e tons, que contaminaram as próprias opções léxicas e de fonetização da escrita."
- Julio Schvartzman, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

O fato de que Otálora não nasce gaucho, mas, sim, que torna-se um a partir de sua condição de compadrito (plebeu das cidades) parece particularmente relevante, contudo encontro dificuldade em delinear precisamente a intenção de Borges aqui. Acredito que essa reflexão exige maior conhecimento dos aspectos políticos e históricos formadores da identidade nacional dos países da bacia platina, o qual não possuo infelizmente. Ouso lançar uma pergunta especulativa: a metamorfose explicaria o destino que a narrativa reservou a Otálora? Sendo um gaucho (mal) "convertido", digamos, seu final restaria fadado a tamanha prematuridade? Aliás, quando a imagem dele não apareceu refletida no espelho embaçado, vaticinei um "xi, ferrou, Otálora."

E olha só! Buscando "Otálora" no Borges Babilônico, encontrei uma informação bastante esclarecedora: a transformação do protagonista também se relaciona à ambiguidade do espaço de fronteira.
"Ali (fronteira) a ambiguidade é possível e a identidade pode ser alterada, refeita, como faz o personagem de “O morto” (O Aleph), Benjamín Otálora, um argentino que se torna um gaucho (v.) no Uruguai — uma ironia sobre a possibilidade de definir a nacionalidade argentina tendo como ponto de partida o gaucho."
- Pablo Martínez Gramuglia, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

Mas é claro. Boa. 

 (3) 
Ademais, acrescento somente que parece-me peculiar que as coisas tenham dado errado para o jovem Otálora exatamente quando ele se deixa guiar cegamente pela ambição, caindo na crença falaciosa de que sua juventude derrotaria a larga experiência do velho Azevedo Bandeira. Outro grave erro cometido pelo rapaz foi subestimar os laços de fidelidade construídos na sociedade gauchesca. Ele erra embaraçosamente ao apostar que o fiel capanga Ulpiano Suárez estaria disposto a passar a perna em seu velho chefe. Haveria, desse modo, lições de paciência e de respeito pela sabedoria e tradição que nos antecede? Deixo a especulação. 

E achei igualmente interessante que uma liderança bem-sucedida naquele meio gauchesco tenha sido caracterizada pela conquista de uma tríade (descrita por dois grupos distintos de palavras):
"A mulher, o arreio e o alazão são atributos ou adjetivos de um homem que ele almeja destruir." 
"(...) o amor, o mando e o triunfo, (...)"
- Jorge Luis Borges, O Morto.

Indica que, nas amplas e infinitas (oi!) planícies, esses seriam os bens que realmente importam.

Por fim, ressalto o gosto amargo produzido pelo destino final de Otálora. Considerando-se a frase “lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo, porque já o davam por morto, (…)”, minhas conjecturas contemplativas concentraram-se nesta pergunta: a morte seria a única maneira de conquistar a tríade gloriosa? Opto concluir que, quando metemos os pés pelas mãos como o fez o jovem gaúcho Otálora, sim.

É, ficarei por aqui. Vamos ao vídeo da Aimée. Play!



[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]






[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Como leitora que teve de segurar um “tá, e daí?” ao terminar de ler O Morto (porém ressalvo que a Aimée admite ser um conto simples) , afirmo que é espantosa a complexidade que se revela quando nos dispomos a lê-lo minuciosamente. A análise do vídeo ficou excelente. Procederei à complementação das minhas impressões.

“O Imortal → O Morto”: é verdade! A ironia na sequencia dos títulos, comentada por Aimée, tinha me escapado vergonhosamente. Concordo quando ela diz que Borges era um fanfarrão. Se duvidar, é por isso mesmo que gosto tanto do que ele escreveu. 

Preciso anotar uma informação significativa que ela fornece no vídeo, a qual eu ignorava. Borges, em sua obra, contesta três certezas de nossa existência:

- O Universo;

- A Personalidade;

- O Tempo.

Ótimo, terei isso em mente para os próximos contos. Aimée refere que, em O Imortal, ele explora a contestação da personalidade. Contudo, como escrevi em minha postagem anterior, penso que o autor contesta conjuntamente também o tempo naquele conto. Como falar de “tempo” em um contexto de imortalidade, afinal? Em O Morto, Aimée esclarece que também encontramos a discussão da personalidade, visto que Otálora passa por extremos de identidade. Além disso, essa ambiguidade aparece não só no espaço de fronteiras e nesse lugar movente da personalidade do protagonista (as quais consegui captar), mas igualmente na cena em que o protagonista leva o chá para Bandeira. Era uma tarefa medíocre e, simultaneamente, notável por permitir que Otálora se aproximasse de seu alvo. Há lógica; e achei formidável!

Certo; contudo a parte mais legal da resenha da Aimée ficou por conta do comentário referente às leituras distintas que Otálora e Bandeira fizeram daquela situação. Otálora cai nas pistas falsas que surgem em seu percurso colocadas por Bandeira, o melhor leitor* e a personagem que efetivamente escrevia aquela história. Nesse sentido, a identidade que Otálora cria para si é uma mentira, ou seja, uma ficção. (O que, uma vez mais, contesta a ideia de personalidade.) Essa chave, penso, encaixa-se na pergunta que eu havia lançado (repito:): "A ausência de um atestado de veracidade daquilo que é narrado compromete seu valor? Repercute em nossa interpretação, certo, no entanto invalida a história contada? Parece que não, confere?". Resta evidente, nesse ponto, que uma inveracidade não apenas não invalida uma narrativa; mas, inclusive, constrói a ficção. É divertido. Ah, e Aimée lembra que isso estabelece um paralelo com o conto A Morte e a Bússola, da coletânea Ficções. Não vislumbro outra saída, senão repetir a exclamação: é verdade!

[** Atualização em 20/01/2018:**]
Atualmente estou lendo o livro Autumn, escrito pela escocesa Ali Smith, e surgiu uma passagem  - um diálogo entre duas personagens, para ser mais precisa - que acredito também traduzir de uma boa maneira o que eu quis dizer quanto à relação entre histórias x verdades x mentiras. Decidi incluir o trecho nesta postagem. Segue:
"The world exists. Stories are made up, Elisabeth said. 
But no less true for that, Daniel said. (...) And whoever makes up the story makes up the world, (...) And if I'm the storyteller I can tell it in any way I like, (...) 
So how do we ever know it's true? Elisabeth said. 
Now you're talking, Daniel said."
                                                                                                                      - Ali Smith, Autumn. 
[** ...Fim da atualização de 20/01/2018**]

Agora, para algo que me aparvalhou: há, no texto, sutis referências bíblicas. Meu deus (intencional 😉). Benjamin é o nome do filho de Jacó, havendo reflexos (oi!) entre a jornada da figura bíblica e a da borgiana (Benjamín Otálora). Outra: a cena do beijo que Otálora recebe de sua amante, antes de morrer, lembra o beijo de Judas. Não dou conta desse fanfarrão argentino. Amo.

- Aimée, obrigada pelo vídeo.

Próximo conto: Os Teólogos. Até lá.
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* Hum, eu seria uma Leitora Otária Otálora??!