23/02/2018

[DL #01] Ifigênia - Teresa de la Parra


Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)

PARTE 1
Uma carta muito longa na qual as coisas 
são contadas como nos romances

De saída, legitimo o título da primeira parte do livro, pois ele realmente descreve de modo literal a natureza do conteúdo lido. Quanto ao contexto temporal, a narrativa não inclui explicitamente o ano em que a história ocorre (a menos que eu tenha comido bola), entretanto há detalhes que apontam indiretamente para a primeira década do século XX. A remetente da carta chama-se María Eugenia Alonso, e é ela quem desponta como a protagonista da obra. Não me pergunte a razão do livro chamar-se Ifigênia, porque, pelo menos por enquanto, eu não tenho uma resposta satisfatória para oferecer. Em leituras paralelas, trombei ocasionalmente com explicações sobre o Mito de Ifigênia, porém sua aplicação à obra de Teresa de La Parra permanece em meu campo especulatório. Surgirá uma Ifigênia no enredo? 

Mas falemos de María Eugenia. A nossa heroína (potencial) é uma venezuelana que, aos seis anos, havia deixado seu país natal rumo a Paris na companhia do pai Alonso, cujo recente falecimento a obriga, então, a fazer o percurso de volta, quando ela já está com dezoito anos de idade. A carta lida nessa primeira parte destina-se à amiga de infância parisiense Cristina de Iturbe e, no momento em que é escrita, quatro meses tinham transcorrido desde o retorno de Eugenia à Caracas. Aliás, quatro longuíssimos meses do mais absoluto TÉDIO sufocante. Embora eu esteja fazendo essa leitura completamente no escuro, sei que essa breve jornada da protagonista reflete aquela vivida pela própria autora, cujo pai atuara como embaixador da Venezuela na Europa.

Ok; a partir dessa simplória introdução, organizarei em tópicos algumas de minhas elucubrações.

 Visto que tenho um afeto especial pela escrita de cartas, acho justo refletir brevemente sobre o gênero epistolar adotado nessa primeira parte, até porque a remetente escreve comentários interessantes sobre o tema. Uma vez que Eugenia encara sua situação em Caracas de forma definitiva e imutável, para ela a amiga Cristina já pertence ao plano pretérito irresgatável da vida. Essa percepção concede à protagonista ampla liberdade para expor à amiga seus mais íntimos sentimentos, de modo que o teor da carta assume a feição de segredos que os mortos levam consigo. A enorme distância entre as duas, considerada absolutamente intransponível, posiciona a amiga Cristina entre as pessoas queridas que “se foram para não voltar”, e o carinho acentuado pela saudade serve de propulsor para uma escrita epistolar intimista e verdadeiramente honesta. É tocante pensar no instrumento da carta e na escrita como formas de manter laços e a intimidade com pessoas distantes; especialmente no caso de Eugenia, uma moça ainda tão jovem para sentir-se derrotada pelo pressentimento de uma fatalidade.
“Por sorte inventaram a escrita, e nela vai e vem um pouco disto que tanto amamos nas pessoas queridas, isto que é a alma e é espírito, que, assim como dizem que não morre nunca, tampouco se ausenta completamente, já que quando ama não quer ausentar-se.”

 Outra característica importante dessa carta: a moça informa à sua destinatária que aquela carta era deliberadamente escrita conforme os grandes romances, tanto porque Eugenia era uma apaixonada leitora, como também porque o gosto comum pela leitura tinha incentivado a amizade entre as duas. Ademais, os quatro meses em Caracas serviram para aperfeiçoar a capacidade de observação e de expressão de Eugenia; espécie de efeito colateral do tédio, todavia. Esse dado é significativo por revelar que a personagem considera sua jornada digna dos livros clássicos. Ela é a heroína de sua própria vida e, tal qual a princesa dos contos de fadas, tem de resignar-se ao encastelamento que lhe é imposto pelo destino cruel. Partindo dessa premissa, e considerando-se que é ela mesma quem narra sua história, é difícil conter suspeitas, assim como é irresistível especular paralelos. Por exemplo, se ela é a princesa, quem será o vilão? Ou a bruxa má? Quem será o príncipe? Que sapo virará príncipe? Ou a sina de Eugenia permanecerá voltada ao azar, fazendo-a trombar com um suposto príncipe que virará sapo? O final será representado pelo “casaram e foram felizes para sempre”? Uma tragédia? Só me resta acompanhar. Por ora, possuo apenas hipóteses.
"(...) isso de viver encastelada sendo tão bonita como sou, longe de ser humilhante e vulgar, parece ao contrário coisa de romance ou lenda de princesa em cativeiro. (...) Você, eu, todos os que, andando pelo mundo, têm algumas tristezas são heróis e heroínas do romance da própria vida, que é mais bonito e mil vezes melhor que os romances escritos."
Permanecendo nesse tema, penso que é possível encarar a própria viagem de regresso a Caracas como a Odisseia de Eugenia, com a relevante distinção de que suas aventuras começam efetivamente após a chegada à terra natal. A fase em Caracas representará sua Ilíada?

De qualquer maneira, ocorreu um evento de proporção relativamente épica durante os dezoito dias daquela viagem de navio, o qual rende à Eugenia uma valiosa lição: homens, mesmo quando sábios, não tem tato. ¯\_(ツ)_/¯   Durante as noites no navio, ela costumava bater papo com um velho poeta colombiano e ex-diplomata, ouvindo-o recitar suas poesias. Quando esse senhor tenta tascar-lhe um beijo de supetão, ela descobre então que os homens na verdade não sabem de nada, não tendo o hábito de olhar a própria imagem refletida na alma alheia, ignoram a si mesmos por completo, como se jamais se houvessem visto no espelho. Ela me fez recordar do recente caso do produtor de cinema Harvey Weinstein acusado de assediar sexualmente diversas atrizes, dentre as quais Rose McGowan que, em uma entrevista concedida à jornalista Amanpour (CNN), levanta um argumento similar ao de María Eugenia nesta passagem:
"Pois lhe ocorreu que sua boca horrorosa, de bigode grisalho, cheirando a tabaco e a champanhe, podia dar um beijo na minha, que naquele instante estava sorridente, fresca e recém-pintada com batom da Guerlain."

 Agora, um assunto completamente delicinha dessa primeira parte: a personalidade de Eugenia. Quem é, afinal, essa heroína?

Posto que o diário de leitura do ano passado destacou-se pela presença da notável e marcante protagonista Dorothea Brooke, foi impossível não cair na armadilha de compará-la com Eugenia Alonso, principalmente porque as diferenças entre as duas são gritantes a ponto de tornarem-se ligeiramente engraçadas.

O fato de Eugenia não relutar em considerar-se uma princesa de contos de fadas já oferece ótimos indícios de quem ela é. Ao contrário de Dodo, ela não nasceu para ser o braço direito de um grande homem, mas, isto sim, para ser a protagonista líder de sua própria jornada. Além disso, a venezuelana tinha consciência de sua beleza; ela era uma mulher bastante vaidosa que desejava estar sempre muito bem apresentada, vestindo as melhores roupas da última moda e com maquiagem francesa impecável. Dorothea encontrava no mundo espiritual e moral a razão de ser de sua existência, enquanto a vida da venezuelana não reservava muito espaço para esse tipo de coisa. Ao contrário, ela sentia-se oprimida justamente por esse aspecto tão marcante da sociedade de Caracas. Usarei uma expressão meio piegas para resumir a impressão geral que tive dela: uma força da natureza! Certo, Dorothea também era uma força da natureza, contudo talvez ela represente o Yin, enquanto Eugenia fique com o Yang. Pode haver exagero aí, porém manterei o devaneio.

Para melhor entender a energia e os anseios de Eugenia por voos muito mais altos do que aqueles que Caracas parecia possibilitar-lhe, é importante contemplar a vida dela em Paris. Na cidade da luz, ela fora criada e educada em uma escola católica que seguia rigorosos princípios morais e religiosos, comandada pelas mãos de ferro de freiras. Naquele ambiente, ela era uma garota tímida que dedicava-se com afinco aos estudos, estimulada a cuidar do “modo correto” com que deveria se apresentar. Eugenia era constantemente submetida ao discurso de que, entre as paredes escolares, ela estaria protegida da depravação pecaminosa do que as freiras chamavam de “outro mundo”. Até esse ponto, curiosamente, a jovem julgava que a sorte teria reservado-lhe apenas papeis coadjuvantes e obscuros. É apenas após a morte repentina do pai, enquanto aguarda a data do fatídico regresso, que ela tem a oportunidade de sentir o gosto da liberdade pela primeira vez. E não falo de qualquer liberdade, afinal ela goza de três meses em Paris, com dinheiro suficiente para torrar nas melhores lojas e restaurantes. Ela finalmente estabelece contato com o “outro mundo” repleto dos melhores atrativos parisienses e dos olhares admirados de homens e mulheres. Nossa heroína “acorda” para o que seria seu de direito: o protagonismo do mundo! Baixa autoestima nem de longe é um problema dessa já querida personagem. Em certo momento, ela me pareceu uma espécie de versão venezuelana da Scarlett O'Hara  - na verdade, de acordo com os anos de publicação, essa ordem seria inversa: a Scarlett como uma versão americana +- da Eugenia. Ao longo deste post, haverá outras informações que enriquecerão mais a caracterização da protagonista.


 Só que... Há sempre um "só que" nos livros, não é? Bem, só que mal Eugenia retorna, e graves obstáculos aparecem.

(1) POBREZA
Em Caracas, ela reside na casa da avó materna, junto com a tia solteira Clara. Papo vai, papo vem entre as três, a garota decide casualmente perguntar sobre a fazenda San Nicolás, suposta propriedade de seu pai. Após trocarem olhares desconcertados, avó e tia lhe revelam que aquela era uma carta fora do baralho. Com algum embaraço, a avó esclarece que Alonso havia deixado apenas dívidas, as quais teriam sido cobertas pelo tio materno Eduardo, então administrador e coproprietário. Sendo assim, a fazenda agora pertencia unicamente ao tio Eduardo. E não era só isso: a grana que Eugenia havia torrado durante os três meses em Paris (para desespero da avó, aliás) era uma caridade daquele mesmo tio, que igualmente arcara com todos os custos do enterro e da viagem. Em suma, Eugenia não tinha nenhum tostão furado e viveria na total dependência financeira da avó e da tia, figuras que, por sinal, mal tinham onde cair mortas. Curiosamente ou não, a treta que justifica a falta de grana da avó e da tia envolve novamente o dedo do tio Eduardo, que também “gentilmente” colaborava com uma mesadinha para as duas. Voltando à questão do conto de fadas, a pulga dá oi atrás da orelha: tio Eduardo será o vilão?

Eugenia fica possessa e prontamente suspeita de que há caroço no angu preparado pelo tio. Visto que o tom com que o pai costumava lhe falar de San Nicolás sugeria que ele era o único dono e que, quando recebia as cartinhas mensais do tio Eduardo, ele habitualmente praguejava "aquele imbecil! aquele idiota!", a coisa toda soava no mínimo esquisita para ela. A avó, por outro lado, não embarca facilmente nas suspeitas da neta e praticamente atesta que seu filho Eduardo é um santo na terra; o que dificulta maiores investigações. Por ora, portanto, Eugenia precisa conformar-se à dura realidade de viver à custa de favores de terceiros. A propósito, isso reforça a alcunha que carimbei de "Sarlett O'Hara Venezuelana", confere?


(2) CARACAS
Sem maiores surpresas, naturalmente Caracas era um bocadinho diferente de Paris. Em breve busca online, consegui localizar no site Early Latin American Photography estas excelentes imagens da cidade naquele período.  A primeira imagem é um amplo panorama de quase 360o fotografado a partir do El Calvario, permitindo avistar toda extensão do El Avila, a montanha formada por um braço dos Andes e que separa Caracas do mar; mudando de cor várias vezes ao longo do dia, condescendente com os caprichos da atmosfera que a rodeia. 

O panorama pode ser dividido em cinco partes, e incluí aqui apenas as duas primeiras, da esquerda para direita. As imagens originais podem ser observadas aqui: x.




Conforme o tio paterno Pancho, aquela era a época em que as pessoas não mais eram vistas nas janelas observando o movimento das ruas, pois preferiam frequentar os cinematógrafos e as matinês dos teatros. Ou seja, embora rudimentar em comparação a Paris, alguma opção de entretenimento existia na cidade.

Na carta, Eugenia também acrescenta informações sociais relacionadas à condição dos negros e mestiços da cidade que chamam bastante atenção. Para comprovar o argumento de que a cidade La Guaíra era horrível, por exemplo, tio Eduardo afirma que ela era repleta de negros para todos os lados. Em Caracas, negros e mestiços eram relegados aos paupérrimos bairros da periferia à beira de barrancos e tomados por matagal, cujo acesso dava-se por ruas de terra sem calçada. A cena em que Eugenia visita uma dessas periferias da cidade soa completamente surreal por conta da maneira estranhíssima com que é descrita.
"Eu estava ansiosa para ver o sofrimento pitoresco da miséria, (...)"
A impressão causada pelo relato é a de que ela e o tio Pancho passeavam por um Simba Safari Antropológico onde os negros, os miseráveis e os doentes correspondiam às atrações do zoológico. Há um ponto em que o tio, saudosista dos tempos em que os escravos eram fieis e robustos, profere um discurso que parece indicar que a cor da pele daquelas pessoas definia irrefutavelmente o destino miserável:
"Não acha que há algo torturante na expressão dessa gente? (...) é a voz dos anseios presos no cárcere de um corpo que os tiraniza e os acorrenta, ao apregoar aos gritos a inferioridade mortificante de sua origem. E esse descompasso entre o corpo e a alma extremamente sensível do mulato é um conflito muito interessante... (...) Sim, o mulato é o cadinho paciente onde se fundem dolorosamente os elementos heterogêneos de tanta raça aventureira!"
A escravidão até poderia estar legalmente abolida na Venezuela, entretanto a narrativa permite inferir que negros e mulatos estavam fadados ao racismo e à penúria de um desamparo social completo.


(3) SOCIEDADE CARAQUEÑA
Essa temática é disparadamente a parte mais pitoresca do relato da protagonista. Bom, para ser justa e exata, ela acabou sendo divertida só pra mim, pois a pobre Eugenia não curtiu muito a novidade. E com razão, coitada.

Inicialmente, meu plano era fazer aqui um tremendo arrodeio para caracterizar a sociedade de Caracas, no entanto percebi que seria mais simples dar logo o devido nome aos bois. Assim sendo, eis que a nata social de Caracas era <que rufem os tambores> patriarcal, machista e moralista até o último fio de cabelo. Retomando aquela comparação com a Dorothea Brooke, a sensação é de que Eugenia teria partido da maravilhosa e moderna Paris do início do século XX não em um navio, mas sim na Tardis do Doctor (Who) rumo à Middlemarch do começo do século XIX. O desapontamento da personagem não causa, de fato, espanto. Verdade seja dita, Eugenia provavelmente ainda diria que estou sendo generosa ao equiparar Caracas com Middlemarch, uma vez que, logo na primeira página, ela trata a realidade que vivia como "algo medieval". ¯\_(ツ)_/¯

Como se não bastassem as restritas opções de entretenimento na cidade, a pobre garota ainda submetia-se a um controle rigoroso de tudo que vestia, dizia e fazia por parte da avó e da tia. Sair de casa às 16h?! Sozinha?! Nem pensar. Desfilar pela casa só com uma bata japonesa, sem anágua? Onde se viu uma coisa dessas?! Tocar piano em casa quando não tinham se passado nem cinco meses desde a morte do pai?! Estaria a menina fora de si?! O que pensariam os vizinhos? Certamente que ela não era uma mulher virtuosa o suficiente para sacrificar-se em nome da memória do pai. Enfim, acho que deu pra entender, não?

A princesa de apenas 18 anos vivia condenada à clausura da severidade e do tédio, constantemente assombrada pela imagem espectral do que o futuro parecia lhe reservar: as vidas monótonas e sem graça da avó e da tia Clara, sempre trancafiadas entre as quatro paredes que protegiam suas aureoladas virtudes. 


"(…) vi nitidamente, em toda sua feiura, a garra aberta desse monstro que se deleita agora em trancar com chave todas as portas do meu futuro, (...) esse que, instalado em definitivo aqui nesta casa, é como um filho da vovó e como um irmão mais velho de tia Clara; sim, este: o Tédio, Cristina!... o cruel, perseverante, o malvado, o assassino Tédio!..."
Perspicaz e inteligente, é claro que Eugenia não tarda a compreender a razão de todo o rigor moral da avó, especialmente depois que esta explica que a pobreza da neta poderia ser facilmente solucionada por intermédio de um feliz casamento. Sim, a avó garante que, ao contrário de Paris, os homens solteiros de Caracas são muito bonzinhos e só buscam uma mulher digna e respeitosa. Melhor ainda se ela for tão bonita como Eugenia, pouco importando uma condição de pobretona. Isso posto, é evidente que a avó estava tão somente protegendo o futuro da neta, aquilo que, na visão dela, representava a felicidade: um casamento que traria o homem que a sustentaria.
"Nossos homens sentem verdadeira adoração pela mulher virtuosa e, quando vão se casar, nunca procuram a companheira rica, mas sim a de comportamento irrepreensível... Por isso, minha filha, por isso quero sempre vê-la sem a mais breve sombra de frivolidade! (...) a virtude de uma mulher impecável vale muito mais que o dinheiro dela."
É um discurso que serve para reforçar o senso de um futuro desafortunado que esmagava o espírito de Eugenia. Com facilidade e brilhantismo, nossa heroína traduz o que a felicidade pintada pela avó efetivamente significa:
“(...) tentar ser um zero à esquerda no mundo, a fim de que um homem, seduzido por minha nulidade, viesse me fazer o imenso favor de se colocar a meu lado na qualidade de número, elevando-se por obra e graça de sua presença numa soma redonda e respeitável que assim adquirisse certo valor real perante a sociedade e o mundo.”
O tio Pancho contribui com peças cruciais para finalizar a montagem do quebra-cabeça social de Caracas. Segundo ele, a maioria das mulheres de Caracas era “do lar”, o que implicava dizer que elas seguiam duas religiões:

1. aquela que praticavam na igreja;
2. aquela cujo deus era “o homem da família”, religião praticada com o coração e sentimentos.

Ou seja, tio Pancho afirma que as mulheres caraqueñas não questionam nada que os homens fazem, pois, sendo deuses, tudo que eles fazem é bem-feito, tudo que dizem é lei e tudo que existe é colocado nas mãos deles. A ira desses homens deuses, fosse ela justa, arbitrária ou grotesca, decorreria de duas únicas possibilidades: deslize ou negligência de uma mulher. Em outras palavras, homens caraqueños não erram jamais, já as mulheres...

O tio refere que as bases da sociedade de Caracas explicam esse estado das coisas. Com a decadência das famílias crioulas por conta das perseguições partidárias após a independência, foram justamente as mulheres que acabaram na miséria e/ou esquecimento, sem um tostão furado próprio. Sendo assim, restava aos homens sustentá-las financeiramente, de modo que elas dependiam totalmente deles. Por consequência, como esperar que aqueles corações gratos não os tratassem feito deuses?

Pressionada a preservar com tamanho rigor a pureza de sua virtude e honra, é justo que Eugenia questione revoltada (parafraseando):  “tá, beleza, mas e a honra dos homens? O que dizer da honra desse tio Eduardo que parece ter roubado minha herança e que deixa minha avó e tia quietas? Ninguém vai falar nada? Onde estão os vizinhos futriqueiros nessa hora?" Aqui também o tio oferece uma elucidação fascinante: a honra dos homens de Caracas não se define, ela é. Como tal, nem faz sentido questioná-la ou mencioná-la, uma vez que subsiste por si só. Na dinâmica social caraqueña, apenas as mulheres da casa seriam capazes de manchar as reputações masculinas e, sendo assim, eles vigiam escrupulosa e constantemente o comportamento das mulheres que compõem seus núcleos familiares. Esse papo me fez lembrar de certos xingamentos que, ainda hoje, são comumente esbravejados contra homens: "corno manso", "chifrudo". 

É fácil perceber, portanto, que se estabelecia em Caracas um sistema que se autoalimentava. Os homens buscavam as mulheres que, sendo resignadas e virtuosas, seriam capazes de proteger as honras de seus maridos, venerando-os sem qualquer tipo de questionamento. Usando aquela mesma expressão de Eugenia: é bem mais provável que uma zero à esquerda antes do casamento permaneça uma zero à esquerda plenamente submissa depois do casamento, confere?


⤳ E é agora que chegamos ao clímax (na minha opinião). Como é que María Eugenia reage a toda essa palhaçada? Alternando entre desespero, horror e raiva, revoltada contra a possibilidade de um destino eternamente tutelado por um homem e trancada entre quatro paredes, ela se descobre feminista! Ela admite que, em Paris, não tinha dado bola para o discurso de uma sufragista por conta das roupas chinfrins que a palestrante usava (pois é!), mas agora constata que elas sim é que estão com a razão. Quando o calo aperta...
"Se pelo menos eu tivesse nascido homem! (...) Mas sou mulher e ser mulher é o mesmo que ser canário ou pintassilgo. Trancam você numa gaiola, cuidam de você, dão-lhe de comer e não a deixam sair; enquanto isso, os outros andam alegres e voando por toda parte!" 
"Ah, que injustiça! Quem dera virar sufragista junto com Pankhurst, para incendiar Congressos de homens e arranhar com uma faca os quadros célebres dos museus! Veríamos se assim todos esses abusos acabariam!"

E aproveito esse ponto para trazer mais um aspecto que parece ser relevante na personalidade de María Eugenia: apesar de toda essa angústia, sofrimento e solidão, ela não é mulher de chorar.
"Nunca choro, apesar de que teria razões para me debulhar em lágrimas. Talvez porque a tristeza sempre esteve ao meu lado, e por isso aprendi a escondê-la de todos, com um movimento instintivo, (...)"

⤳ No final, tio Pancho dá pinta de que bancará a fada madrinha da história quando desembucha que estava mexendo os pauzinhos necessários para arrumar um baita pretendente para Eugenia, digno dos melhores contos de fadas. Tudo muito bom, tudo muito bem, só que (ele de novo!) cabe recordar que a popularidade da máxima “quando a esmola é demais, o santo desconfia” não existe à toa.

O candidato a príncipe é um tal Gabriel Olmedo, homem com mais de 30 anos, teoricamente bonito e elegante que não tem nenhuma fortuna própria, apesar de um currículo de fazer inveja – é advogado e médico formado pela Universidade de Caracas, com 10 anos de estudo posterior na Europa, doutor em filosofia e ciência política. Como assim?! Daí, o tio Pancho vem com uma historinha de que esse Olmedo fará negócios brilhantes na política, com enormes chances de ficar rico etc. Estou achando tudo muito mal contado, como aliás também o está Eugenia, que de sonsa, não parece ter nada (felizmente). E para piorar, o tio revela que o sucesso da empreitada dependeria de uma trégua na antiga rixa existente entre sua avó materna e a senhora Mercedes Galindo, a madrinha casamenteira capaz de fazer a união prosperar.

No entanto, quando Eugenia despede-se de Cristina na carta, ela informa que já haviam se passado dois meses desde que o tio Pancho contara-lhe o plano mirabolante e nada de concreto havia acontecido. Ela permanecia afogada no tédio corrosivo, encontrando alívio onde? Na biblioteca de Caracas! (Ah, a ironia que isso representa pra mim é tocante demais.) E até para fazer suas leituras, Eugenia necessita contar com o apoio de Gregoria, a lavadeira negra da casa e exímia contadora de histórias que ela conhecia desde criança, antes de partir da Venezuela. Sim, pois a avó jamais concordaria que a neta estivesse lendo Voltaire. Gregoria gentilmente contrabandeia livrinhos da biblioteca para ela, e assim o tempo vai passando para nossa heroína.
“Entre meus livros e minha carta, aguardando o projeto de tio Pancho, o tempo foi passando pouco a pouco, praticamente sem que eu me desse conta. Porque além de escrever, trancada e sozinha, é também aqui, neste quarto, que me isolo para poder ler. Em minha solidão, como o asceta em sua cela. Já aprendi a valorizar a intensa vida interior do espírito.”
Será que, assim como ocorrera com Dorothea Brooke, a vida passará a perna na radiante Eugenia? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.


⤳ Para encerrar esta postagem, dois registros:
1. embora a personagem persista meio ensaboada, é justo copiar aqui os cômicos aforismos do grande filósofo Tio Pancho:
“(...) o ímpeto investigador só nos leva a descobertas desagradáveis. As pessoas mais felizes serão sempre aquelas que descobriram menos coisas durante a vida.”
“A mania de chegar é relativamente moderna e a praga mais terrível com que a civilização nos mortifica.”
“(...); quem sabe os jornais nem mesmo existiriam, o que seria o cúmulo do bem-estar.”
“Como na história daquele almoço celebrado entre marido e mulher: a ração do ausente é sempre aquela que o gato come!”
“Não há nada mais convincente do que a eloquência silenciosa das coisas, e umas meias de 120 fracos podem chegar a dominar magistralmente as leis da dialética e da oratória.”
2. colo duas lindas composições da talentosa pianista venezuelana que serve de inspiração para Eugenia: Teresa Carreño, a Valquíria do Piano.



09/02/2018

[DROPS] Miscelânea - The Good Place, Victor Hugo - Os Miseráveis, Yorkon, Dragões, Borges, Lavanderias (yep, de novo), Anna Paquin, Albert King

▶ Edição com quatro breves registros:

(1)

The Good Place - S02E06
The Trolley Problem
[Chidi]
In the last homework assignment, I asked you to examine the ethics of "Les Misérables," in which a man steals a loaf of bread to feed his starving family. Would you please read your first paragraph here?

[Michael]
 "Everyone in this story sucks and belongs in the Bad Place. The thief is bad. The officer chasing him is bad. All the whiny prostitutes are bad. Plus, they're all French, so they're going to the Bad Place automatically."

[Chidi]
Do you see how you're already off topic?

[Michael]
Chidi, I've been around a long time... like, all of it. But I know for a fact that if you steal a loaf of bread, it's a negative 17 points... 20 if it's a baguette because that makes you more French.

[Chidi]
Okay. Sure. But philosophy is about questioning things that you take for granted, and I-I just don't think that you're doing that.

I mean, "I personally know that Victor Hugo is in the Bad Place being tortured. He's a real wuss, too. If one of the lava monsters even gets near the guy, he's like, 
"Sacre bleu, I peed in my pants."
[Michael]
I don't know what you want from me. T-that's exactly what he said.




Na boa, Monsieur Hugo? Eu ri de chorar vendo essa cena da série The Good Place, me desculpe. Especialmente porque o senhor, afinal de contas, terminou Os Miseráveis com estas palavras:
"Estava morto. 
A noite era sem estrelas e profundamente escura. Sem dúvida, nas trevas, um anjo imenso estava de pé, de asas abertas, à espera de sua alma."
- Victor Hugo, Os Miseráveis. (tradução: Frederico O. P. de Barros)

E, na pedra lisa "num canto deserto do cemitério do Père-Lachaise", o senhor disse ainda que alguém havia escrito, a lápis, estes quatro versos:
"Il dort. Quoique le sort fût pour lui bien étrange,
Il vivait. Il mourut quand il n'eut plus son ange;
La chose simplement d'elle-même arriva, 
Comme la nuit se fait lorsque le jour s'en va."
                                        - Victor Hugo, Os Miseráveis

E aí?? Jean Vealjean está no Bad Place ou no Good Place? Nah, certeza de que ele está no Good Place. Inclusive, tenho a imagem do momento exato em que ele avista o anjinho que o recebeu nos portões do Paraíso:

Como ele não estaria no Good Place, com essa cara de Jesus Cristo?!
Alguém me explica?

E o Javert, obviamente, está no Bad Place. Ou não?!



(2)
Pronto. A Escolha de Sofia Daniela que atormentava meu juízo desde 12/06/2015 - aqui o link do registro: x - está oficialmente extinta. Tal qual minha xará Daenerys, agora eu também tenho um dragão para chamar de meu! ୧(﹒ᴗ﹒)୨      

Senhoras e senhores leitores deste blog (= Mãe), eu vos apresento 🐉Yorkon 🐉, meu dragãozinho melancólico:


Ah, e sabe quem já escreveu sobre dragões? Táh-dáh! ↷



(3)
Não canso de me deslumbrar com a sincronicidade do universo. Em 01/02/18, postei o Alinhavando que incluiu, dentre otras cositas, devaneios sobre lavanderias. Muito bem. Pois espie, agora, a foto que a Anna Paquin (adoro) postou no Instagram, dia 04/02/2018 (para ser mais precisa, foi um repost na conta do maridão Stephen Moyer)


¯\_(ツ)_/¯

(4)
Para finalizar este Drops, play no Laundromat Blues, com o Albert King. ↷

[- Cante comigo, 🔥Yorkon🔥! O quê? O Jean Valjean? Nah, o Valjean está no Good Place, enquanto nós estamos no Medium Place; então, deixe ele pra lá.]


01/02/2018

Alinhavando Leituras

 




Utilizando algumas de minhas últimas leituras de livros, artigos de sites e newsletters, arriscarei um alinhavo contínuo um tantinho mais longo, cuja temática principal será o processo de significação / ressignificação de palavras, com pitadinhas de Borges. O breve ensaio On Finding the Right Word (Encontrando a Palavra Certa), escrito por Marilynne Robinson e publicado no New York Times em 09/2017, serve como bom ponto inicial, pois nele, em linhas gerais, a escritora americana destaca a complexidade da linguagem e o quanto a literatura é capaz de explorá-la. 
"Writing should always be exploratory. There shouldn’t be the assumption that you know ahead of time what you want to express. When you enter into the dance with language, you’ll begin to find that there’s something before, or behind, or more absolute than the thing you thought you wanted to express. And as you work, other kinds of meaning emerge than what you might have expected." 
- Marilynne Robinson, On Finding the Right Word.

Destacarei, em tradução livre, a última frase desse trecho, já que ela é perfeita para costurar o próximo ponto do alinhavo: “À medida que se escreve, outros tipos de significado emergem, distintos daqueles que você teria antecipado.”




A seguir, resgatarei o comentário que fiz no Diário Cinematográfico #03 sobre lavanderias, inspirada pelo filme My Beautiful Laundrette. Ali, incluí trecho de um conto escrito pela americana Lucia Berlin, o qual pode ser encontrado na coletânea A Manual for Cleaning Women.

"Apenas quando vi a imagem da lavanderia antes da reforma é que minha memória devolveu a lembrança do curioso conto da Lucia Berlin sobre interações sociais em lavanderias. Segue a imagem do filme com trecho do conto:
"Traveling people go to Angel's. Dirty mattresses, rusty high chairs tied to the roofs of dented old Buicks. Leaky oil pans, leaky canvas water bags. Leaky washing machines. (...) I liked the Indians and their laundry. The broken Coke machine and the flooded floor reminded me of New York. Puerto Ricans mopping, mopping. Their pay phone was always out of order, like Angel's."

- Lucia Berlin, Angel's Laundromat.

Retorno às lavanderias porque, durante a leitura posterior do livro "Look at me", escrito por Anita Brookner, deparei-me com uma nova surpreendente passagem literária explorando o universo mágico das lavanderias.

“On Christmas Day (…) I would go out for some much needed air (…) and it was on one of those walks, (…) that I passed the laundrette, and saw inside the steamy window three men and one woman, quite well-dressed, reduced to spending their day like this, and finding what company the desperation of others afforded them. I never wanted to see that again.”
- Anita Brookner; Look at me.

Aproveitarei para acrescentar mais uma citação da Lucia Berlin acerca do mesmo (agora) peculiar recinto, dessa vez do conto Carpe Diem:
"Most of the time I feel all right about getting old. Some things give me a pang, like skaters. (...) And laundromats. But they were a problem even when I was young. (...) Your entire life has time to flash before your eyes while you sit there, a drowner. (...) The laundries with no attendants are even worse. Then it seems I'm always the only person there at all. But all of the washers are going..."
- Lucia Berlin, Carpe Diem.


Uma vez apresentada a perspectivas fabulosas e impensáveis a respeito de lavanderias, como eu poderia continuar encarando da mesma forma um espaço físico que anteriormente parecia-me tão inofensivo e ordinário? Em minhas elucubrações pessoais motivadas por essa transformação semântica, fui tomada por um enorme deslumbramento ao perceber o quanto a literatura é capaz de modificar o sentido que atribuo às palavras, exatamente como Robinson argumentou no ponto anterior. Por conta de Lucia Berlin e Anita Brookner, a palavra Lavanderia passou a evocar a ideia de uma verdadeira realidade paralela, um mundo encantado habitado por figuras excêntricas e solitárias, onde o tempo permanece em suspensão. Sinto-me tentada até a brincar de neologismos estapafúrdios do tipo LavanderLand. LavanderWorld? Pior: como suspeito de que pertenço a essa turma “natural” das Lavanderias, então eu seria o quê? Lavadeira?! Nah, fácil demais. Lavanderense? Lavanderista? Elfa de Lavanderia? Laundrette Freak? Laundrette Creep? Doida da Lavanderia? Ok, ok; cota de palermice extrapolada, hora de seguir para o próximo ponto do alinhavo.




De pronto, esse modo diferente de enxergar lavanderias compartilhado por Brookner e Berlin fez com que minha mente devolvesse este belo trecho do livro Autumn, escrito por Ali Smith:
“He tapped the cover of the book. 
It is possible, he said, to be in love not with someone but with their eyes. I mean, with how eyes that aren't yours let you see where you are, who you are.”
- Ali Smith; Autumn

Foi praticamente isso o que as duas autoras fizeram comigo, não? Digo, as palavras delas parecem ter funcionado como aquele recurso de descrição de imagens disponibilizado para cegos. A literatura (e outras formas de arte, claro) nos fornece um sistema de leitura do mundo através do qual tomamos emprestado os olhos dos escritores. Não é fascinante descobrir-se uma "deficiente visual" apenas ao “ativar” o recurso de descrição de imagem dos livros? 

Ah, e se eu tivesse de nomear o autor por quem sou apaixonada por conta daquilo que seus olhos veem e permitem que eu veja (quem sou, onde estou), com certeza responderia: Jorge Luis Borges. Ainda que ele me traga mais perguntas, do que exatamente respostas; é bem verdade. Ironicamente, um escritor cego. Cego?! Será realmente?




Daqui, o alinhavo costurará um patch de tecido Borgiano, visto que, na opinião de Gabrielle Bellot, o mundo encontra-se bastante carente do serviço descritivo de Borges, o imortal escritor argentino. No artigo Surviving 2017 with Borges: on the art of wonder and wonder of art, publicado em janeiro de 2018 no site LitHub, Bellot argumenta que a leitura da obra de Borges é mais do que nunca necessária, justamente porque Borges, a despeito de sua cegueira, sempre consegue enxergar os reflexos no espelho. Destaco um trecho significativo desse texto (grifos meus):
"A great writer casts a reflection in a mirror you never knew you had in you, and then, suddenly, you find yourself, too, in this unexpected, perhaps unsettling, glass; Borges, despite the blindness that afflicted him later in life, always saw the reflections. (…) As an adult, Borges’ infectious curiosity restores that sense of wonder to me, even in my sad hours. I feel, again, I can close my eyes and climb the star-steps into a vast labyrinthine hall of doors to who-knows-where, and walk through the first, and, near the hall’s end, my end, anyway, when the hours have outlived all their clocks, I hear the handle of a dust-endragoned door begin to black-hole-buzz. Borges reminds us that even finite books seem to contain a piece of infinity, some simultaneous proof and refutation of Zeno beyond words, in them. Wonder heals; it gives us something to look to, to live for. (…) We need Borges, as we need all the art that inspires us, now, so our good fires don’t dim away, and we with them."



A linha da agulha seguirá costurando o espantoso fenômeno da ressignificação das palavras. Lendo a newsletter Não Tenho Critérios, Mas Tenho Princípios #35, escrita por Isadora Sinay, esbarrei com esta tocante passagem do diário da Sylvia Plath:
“I was supposed to be having the time of my life.(...) I guess, I should have been excited the way most of the other girls were, but I couldn't get myself to react. (I felt very still and very empty, the way the eye of a tornado must feel, moving dully along in the middle of the surrounding hullabaloo.)”
- Sylvia Plath; The Unabridged Journals of Sylvia Plath.

No instante em que meus olhos repousaram no “eye of a tornado”/ olho do furacão, fui acometida por um breve, porém intenso, torpor. Ocorre que, há pouquíssimos meses, era eu quem utilizava essas exatas palavras - “eye of a tornado”/ olho do furacão - para tentar explicar, pra mim mesma, os estranhos sentimentos que então me haviam acometido. Por outro lado, parece que não utilizei o termo com o mesmo sentido de Plath: para a escritora americana, estar no olho do furacão é sinônimo de um vazio anestesiado; para mim, equivale ao máximo desespero de quem já caminhou feito zumbi por tempo suficiente, a ponto de não mais sentir-se capaz de compreender a realidade ao seu redor. Quando me dei conta, portanto, estava com uma nova aba do navegador aberta, procurando o que significaria, afinal de contas, encontrar-se nesse tal “olho do furacão”. Para minha grata surpresa, descobri que existem duas pessoas que estiveram literalmente dentro do olho de um furacão e que sobreviveram para nos contar a sensação.

Relato de Mr. Keller (experiência de 1928):

“Once inside the swirling cloud, everything was as still as death.” He reported smelling a strong gassy smell and had trouble breathing. When he looked up, he saw the circular opening directly overhead, and estimated it to be roughly 50 to 100 feet in diameter and about a half a mile high. The rotating cloud walls were made clearly visible by constant bursts of lightning that "zigzagged from side to side."

Relato de Mr. Hall (experiência de 1951):

“(...) he went inside. He then heard a loud rumbling followed by complete silence. The walls began to shake, and to his surprise, his roof was ripped away and thrown into the woods nearby. At this point, he looked up to find the tornado directly overhead. He described the inside as a smooth wall of clouds, with smaller twisters swirling around the inside before breaking free. Once again, non-stop lightning created a bluish light, enabling him to see everything clearly. And then, just like that, the tornado passed (...)”

Inicialmente, supus que eu tivesse sido infeliz ao escolher essa metáfora como maneira de dar um sentido para o que me havia ocorrido, mas agora penso que ela é, sim, apropriada; como também o é no caso de Plath. O quadro particular da escritora americana correspondia à paralisia alimentada pelo silêncio e estática aterrorizante daquele centro; o meu, em contrapartida, à tentativa exasperada de sair daquele espaço inerte e conseguir enxergar, claramente, para além da parede de nuvens e luz.




No ponto seguinte, o alinhavo cuidará de melhor elaborar o significado de uma palavra e, a partir daí, a linha coserá tecidos devaneantes.  

Dia desses, saquei para ler um artigo publicado pela New Yorker em dezembro de 2017, escrito por Tobi Haslett, cujo título e subtítulo são: The Other Susan Sontag - Her essays emanated authority, but her fiction betrayed an aching sense of uncertainty. Tudo muito bom, tudo muito bem, só que, logo de saída, fui obrigada a confrontar estas frases:

“Seriousness, for Susan Sontag, was a flashing machete to swing at the thriving vegetation of American philistinism. (…) The point was to be serious about power and serious about pleasure: (…) “Seriousness is really a virtue for me,” Sontag wrote in her journal after a night at the Paris opera. She was twenty-four. Decades later, and months before she died, she mounted a stage in South Africa to declare that all writers should “love words, agonize over sentences,” “pay attention to the world,” and, crucially, “be serious.”

- Tobi Haslett.

Serious? Seriousness? Seriously, Sontag?! ⇨ E essas são as palavras destacadas para este ponto do alinhavo.

Imagine a minha cara ao ler isso; precisamente a ~blogueira~ que tem a pachorra de dialogar com as entradas de diário da Sontag usando gif's bestas. Minha reação foi aproximadamente esta:

(*Insistindo no erro.*)
Embora eu já tivesse consciência do tamanho da minha audácia, as coisas acabaram complicando pro meu lado, pois tive acesso à prova de que a realidade seria ainda pior. Entretanto, ultrapassado o susto inicial, a continuidade da leitura removeu o equívoco provocado pela pressa: Sontag não era necessariamente contrária a qualquer forma de humor; mas apenas acreditava que os graves acontecimentos sociais de sua época exigiam uma resposta enfática (≈ séria) de todos, especialmente dos intelectuais como ela. É justo.

De qualquer jeito, o estrago da falsa provocação foi tão notável, que não resisti à tentação de enveredar-me na (divertida!) tarefa de minha própria defesa, até porque humor é uma das coisas que considero mais preciosa na literatura e na vida. Para minha alegria, parece que a sincronicidade cósmica literária abraçou prontamente a causa, dado que encontrei esta incrível frase (novamente) em Autumn, escrito por Ali Smith:
“Nothing comic isn't serious.”
                                                    - Ali Smith; Autumn.

Diga se não é maravilhosa demais, pra ser verdade? Porém juro que ela está escrita desse jeitinho no livro. (- Ali Smith, muito obrigada!)

No próprio blog, é possível topar com este destaque que extraí de O Nome da Rosa, do Umberto Eco:
"Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade."
- Umberto Eco; O Nome da Rosa

que eu tinha em mente para aquele “something/algo”? Humor, é óbvio!!



Não satisfeita, percebi que este era o momento perfeito para finalmente ler “O Valor do Riso”, ensaio escrito por Virginia Woolf, publicado pela primeira vez em 1905, no Guardian. (O Valor do Riso e outros ensaios, Cosac Naify, Tradução Leonardo Fróes.)
“O riso puro (…) não passa mensagem, não transmite informação; é um som inarticulado (…) e exprimir-se assim é indigno de uma espécie que se dotou de linguagem.
Mas há coisas que estão além das palavras, e não por baixo das palavras, e uma delas é o riso.”
- Virginia Woolf, O Valor do Riso.  

Woolf parece juntar-se à temática principal deste alinhavo ao instigar meus desvarios mais ou menos deste jeitinho: ô Daniela, sabia que humor e comédia não são palavras que significam a mesma coisa? Pois é. (grifos meus:)
O humor é das alturas; só as mentes raras são capazes de escalar o pico de onde a totalidade da vida pode ser contemplada como num panorama; mas a comédia, que anda pelas estradas, reflete o trivial e acidental – os erros desculpáveis e as peculiaridades de todos os que passam por seu reluzente espelhinho.”


- Virginia Woolf, O Valor do Riso.

E aí? Bom, só há uma questionamento legítimo: eu sou capaz de explorar/apreciar o humor, ou fico somente na rasteira comédia?
Para concluir a costura deste ponto, incluo excelentes trechos do ensaio da Woolf capazes de atestar que, pelo menos quanto ao posicionamento a respeito de humor/riso, a razão está comigo.
“(…) o riso preserva nosso senso de proporção; lembra-nos sempre que somos apenas humanos, que não há homem que seja um heroi completo ou inteiramente vilão. Tão logo nos esquecemos de rir, vemos coisas fora de proporção e perdemos nosso senso de realidade.” 
“As mulheres e as crianças, então, são os principais ministros do espírito cômico, porque nem seus olhos foram toldados pela erudição nem seu cérebro obstruído pelas teorias dos livros, (...)” 
“Na arte, como na vida, todos os piores tropeços surgem de uma falta de proporção, e a tendência de ambas é ser exageradamente séria.” 
“Não há nada tão difícil como o riso, de fato, mas nenhuma característica é mais valiosa. Ele é uma faca que ao mesmo tempo poda e instrui e dá simetria e sinceridade aos nossos atos e à palavra escrita e falada.”

- Virginia Woolf, O Valor do Riso.




Para eliminar qualquer atrito residual com a Sontag, decidi coser o próximo ponto através da leitura de um texto dela incluído no livro Questão de Ênfase, precisamente este: Uma Carta para Borges (1996). Sim, em pelo menos um aspecto, estamos indubitavelmente de pleno acordo. As palavras da carta escrita por Sontag exalam elogios, carinho, admiração e gratidão a Borges e, logicamente, concordei com (quase*) tudo. (grifos meus:)
" Se existiu algum contemporâneo destinado à imortalidade literária, foi você. (…) Em 1982 — ou seja, quatro anos antes de você morrer — eu disse numa entrevista: “Não existe hoje um escritor vivo mais importante para os outros escritores do que Borges. Muitos diriam que ele é o maior escritor vivo, hoje [...] Muito poucos escritores de hoje não aprenderam algo com ele ou não o imitaram”. Isso ainda é verdade. (...) Você disse que devemos à literatura quase tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, a história desaparecerá, e os seres humanos também. Tenho certeza de que você tem razão. Livros não são apenas a suma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Eles nos dão também o modelo da autotranscendência. Algumas pessoas pensam na leitura apenas como um tipo de fuga: uma fuga do mundo cotidiano “real” para um mundo imaginário, o mundo dos livros. Livros são muito mais. São um modo de ser plenamente humano."
- Susan Sontag; Questão de Ênfase (tradução: Rubens Figueiredo)


[* Eu tentei, Sontag, mas não deu. Não sei se “telas-livro” (≈ ebooks) significam “(...) a morte da interioridade – e do livro." Sinto-me obrigada a respeitosamente discordar. (Hoje, pelo menos.) E ainda incluo uma tirinha do Alex Norris, só pra ser ~engraçadinha~. 😇]



Para concluir o alinhavo de forma circular, retornarei àquele ensaio da Robinson, extraindo dele um parágrafo que dialoga muito proximamente com aquilo que foi abordado na postagem para o conto O Imortal, escrito por quem? Jorge Luis Borges, ora! (grifos meus:)

You go way back into antiquity and everybody is memorizing Homer, everybody is memorizing “The Epic of Gilgamesh” — works of literature that build the cultural mind and make it capacious. Most of us are not the creators of those things, but we possess ourselves of them — or they possess us of them. And each successive work of literature expands the possibilities of our language, deepening our expressive capacity. In almost every major literature there are works that make you love being human, and make you love and revere the humanity of other people. That is the great potential of any art.

- Marilynne Robinson, On Finding the Right Word.