01/02/2018

Alinhavando Leituras

 




Utilizando algumas de minhas últimas leituras de livros, artigos de sites e newsletters, arriscarei um alinhavo contínuo um tantinho mais longo, cuja temática principal será o processo de significação / ressignificação de palavras, com pitadinhas de Borges. O breve ensaio On Finding the Right Word (Encontrando a Palavra Certa), escrito por Marilynne Robinson e publicado no New York Times em 09/2017, serve como bom ponto inicial, pois nele, em linhas gerais, a escritora americana destaca a complexidade da linguagem e o quanto a literatura é capaz de explorá-la. 
"Writing should always be exploratory. There shouldn’t be the assumption that you know ahead of time what you want to express. When you enter into the dance with language, you’ll begin to find that there’s something before, or behind, or more absolute than the thing you thought you wanted to express. And as you work, other kinds of meaning emerge than what you might have expected." 
- Marilynne Robinson, On Finding the Right Word.

Destacarei, em tradução livre, a última frase desse trecho, já que ela é perfeita para costurar o próximo ponto do alinhavo: “À medida que se escreve, outros tipos de significado emergem, distintos daqueles que você teria antecipado.”




A seguir, resgatarei o comentário que fiz no Diário Cinematográfico #03 sobre lavanderias, inspirada pelo filme My Beautiful Laundrette. Ali, incluí trecho de um conto escrito pela americana Lucia Berlin, o qual pode ser encontrado na coletânea A Manual for Cleaning Women.

"Apenas quando vi a imagem da lavanderia antes da reforma é que minha memória devolveu a lembrança do curioso conto da Lucia Berlin sobre interações sociais em lavanderias. Segue a imagem do filme com trecho do conto:
"Traveling people go to Angel's. Dirty mattresses, rusty high chairs tied to the roofs of dented old Buicks. Leaky oil pans, leaky canvas water bags. Leaky washing machines. (...) I liked the Indians and their laundry. The broken Coke machine and the flooded floor reminded me of New York. Puerto Ricans mopping, mopping. Their pay phone was always out of order, like Angel's."

- Lucia Berlin, Angel's Laundromat.

Retorno às lavanderias porque, durante a leitura posterior do livro "Look at me", escrito por Anita Brookner, deparei-me com uma nova surpreendente passagem literária explorando o universo mágico das lavanderias.

“On Christmas Day (…) I would go out for some much needed air (…) and it was on one of those walks, (…) that I passed the laundrette, and saw inside the steamy window three men and one woman, quite well-dressed, reduced to spending their day like this, and finding what company the desperation of others afforded them. I never wanted to see that again.”
- Anita Brookner; Look at me.

Aproveitarei para acrescentar mais uma citação da Lucia Berlin acerca do mesmo (agora) peculiar recinto, dessa vez do conto Carpe Diem:
"Most of the time I feel all right about getting old. Some things give me a pang, like skaters. (...) And laundromats. But they were a problem even when I was young. (...) Your entire life has time to flash before your eyes while you sit there, a drowner. (...) The laundries with no attendants are even worse. Then it seems I'm always the only person there at all. But all of the washers are going..."
- Lucia Berlin, Carpe Diem.


Uma vez apresentada a perspectivas fabulosas e impensáveis a respeito de lavanderias, como eu poderia continuar encarando da mesma forma um espaço físico que anteriormente parecia-me tão inofensivo e ordinário? Em minhas elucubrações pessoais motivadas por essa transformação semântica, fui tomada por um enorme deslumbramento ao perceber o quanto a literatura é capaz de modificar o sentido que atribuo às palavras, exatamente como Robinson argumentou no ponto anterior. Por conta de Lucia Berlin e Anita Brookner, a palavra Lavanderia passou a evocar a ideia de uma verdadeira realidade paralela, um mundo encantado habitado por figuras excêntricas e solitárias, onde o tempo permanece em suspensão. Sinto-me tentada até a brincar de neologismos estapafúrdios do tipo LavanderLand. LavanderWorld? Pior: como suspeito de que pertenço a essa turma “natural” das Lavanderias, então eu seria o quê? Lavadeira?! Nah, fácil demais. Lavanderense? Lavanderista? Elfa de Lavanderia? Laundrette Freak? Laundrette Creep? Doida da Lavanderia? Ok, ok; cota de palermice extrapolada, hora de seguir para o próximo ponto do alinhavo.




De pronto, esse modo diferente de enxergar lavanderias compartilhado por Brookner e Berlin fez com que minha mente devolvesse este belo trecho do livro Autumn, escrito por Ali Smith:
“He tapped the cover of the book. 
It is possible, he said, to be in love not with someone but with their eyes. I mean, with how eyes that aren't yours let you see where you are, who you are.”
- Ali Smith; Autumn

Foi praticamente isso o que as duas autoras fizeram comigo, não? Digo, as palavras delas parecem ter funcionado como aquele recurso de descrição de imagens disponibilizado para cegos. A literatura (e outras formas de arte, claro) nos fornece um sistema de leitura do mundo através do qual tomamos emprestado os olhos dos escritores. Não é fascinante descobrir-se uma "deficiente visual" apenas ao “ativar” o recurso de descrição de imagem dos livros? 

Ah, e se eu tivesse de nomear o autor por quem sou apaixonada por conta daquilo que seus olhos veem e permitem que eu veja (quem sou, onde estou), com certeza responderia: Jorge Luis Borges. Ainda que ele me traga mais perguntas, do que exatamente respostas; é bem verdade. Ironicamente, um escritor cego. Cego?! Será realmente?




Daqui, o alinhavo costurará um patch de tecido Borgiano, visto que, na opinião de Gabrielle Bellot, o mundo encontra-se bastante carente do serviço descritivo de Borges, o imortal escritor argentino. No artigo Surviving 2017 with Borges: on the art of wonder and wonder of art, publicado em janeiro de 2018 no site LitHub, Bellot argumenta que a leitura da obra de Borges é mais do que nunca necessária, justamente porque Borges, a despeito de sua cegueira, sempre consegue enxergar os reflexos no espelho. Destaco um trecho significativo desse texto (grifos meus):
"A great writer casts a reflection in a mirror you never knew you had in you, and then, suddenly, you find yourself, too, in this unexpected, perhaps unsettling, glass; Borges, despite the blindness that afflicted him later in life, always saw the reflections. (…) As an adult, Borges’ infectious curiosity restores that sense of wonder to me, even in my sad hours. I feel, again, I can close my eyes and climb the star-steps into a vast labyrinthine hall of doors to who-knows-where, and walk through the first, and, near the hall’s end, my end, anyway, when the hours have outlived all their clocks, I hear the handle of a dust-endragoned door begin to black-hole-buzz. Borges reminds us that even finite books seem to contain a piece of infinity, some simultaneous proof and refutation of Zeno beyond words, in them. Wonder heals; it gives us something to look to, to live for. (…) We need Borges, as we need all the art that inspires us, now, so our good fires don’t dim away, and we with them."



A linha da agulha seguirá costurando o espantoso fenômeno da ressignificação das palavras. Lendo a newsletter Não Tenho Critérios, Mas Tenho Princípios #35, escrita por Isadora Sinay, esbarrei com esta tocante passagem do diário da Sylvia Plath:
“I was supposed to be having the time of my life.(...) I guess, I should have been excited the way most of the other girls were, but I couldn't get myself to react. (I felt very still and very empty, the way the eye of a tornado must feel, moving dully along in the middle of the surrounding hullabaloo.)”
- Sylvia Plath; The Unabridged Journals of Sylvia Plath.

No instante em que meus olhos repousaram no “eye of a tornado”/ olho do furacão, fui acometida por um breve, porém intenso, torpor. Ocorre que, há pouquíssimos meses, era eu quem utilizava essas exatas palavras - “eye of a tornado”/ olho do furacão - para tentar explicar, pra mim mesma, os estranhos sentimentos que então me haviam acometido. Por outro lado, parece que não utilizei o termo com o mesmo sentido de Plath: para a escritora americana, estar no olho do furacão é sinônimo de um vazio anestesiado; para mim, equivale ao máximo desespero de quem já caminhou feito zumbi por tempo suficiente, a ponto de não mais sentir-se capaz de compreender a realidade ao seu redor. Quando me dei conta, portanto, estava com uma nova aba do navegador aberta, procurando o que significaria, afinal de contas, encontrar-se nesse tal “olho do furacão”. Para minha grata surpresa, descobri que existem duas pessoas que estiveram literalmente dentro do olho de um furacão e que sobreviveram para nos contar a sensação.

Relato de Mr. Keller (experiência de 1928):

“Once inside the swirling cloud, everything was as still as death.” He reported smelling a strong gassy smell and had trouble breathing. When he looked up, he saw the circular opening directly overhead, and estimated it to be roughly 50 to 100 feet in diameter and about a half a mile high. The rotating cloud walls were made clearly visible by constant bursts of lightning that "zigzagged from side to side."

Relato de Mr. Hall (experiência de 1951):

“(...) he went inside. He then heard a loud rumbling followed by complete silence. The walls began to shake, and to his surprise, his roof was ripped away and thrown into the woods nearby. At this point, he looked up to find the tornado directly overhead. He described the inside as a smooth wall of clouds, with smaller twisters swirling around the inside before breaking free. Once again, non-stop lightning created a bluish light, enabling him to see everything clearly. And then, just like that, the tornado passed (...)”

Inicialmente, supus que eu tivesse sido infeliz ao escolher essa metáfora como maneira de dar um sentido para o que me havia ocorrido, mas agora penso que ela é, sim, apropriada; como também o é no caso de Plath. O quadro particular da escritora americana correspondia à paralisia alimentada pelo silêncio e estática aterrorizante daquele centro; o meu, em contrapartida, à tentativa exasperada de sair daquele espaço inerte e conseguir enxergar, claramente, para além da parede de nuvens e luz.




No ponto seguinte, o alinhavo cuidará de melhor elaborar o significado de uma palavra e, a partir daí, a linha coserá tecidos devaneantes.  

Dia desses, saquei para ler um artigo publicado pela New Yorker em dezembro de 2017, escrito por Tobi Haslett, cujo título e subtítulo são: The Other Susan Sontag - Her essays emanated authority, but her fiction betrayed an aching sense of uncertainty. Tudo muito bom, tudo muito bem, só que, logo de saída, fui obrigada a confrontar estas frases:

“Seriousness, for Susan Sontag, was a flashing machete to swing at the thriving vegetation of American philistinism. (…) The point was to be serious about power and serious about pleasure: (…) “Seriousness is really a virtue for me,” Sontag wrote in her journal after a night at the Paris opera. She was twenty-four. Decades later, and months before she died, she mounted a stage in South Africa to declare that all writers should “love words, agonize over sentences,” “pay attention to the world,” and, crucially, “be serious.”

- Tobi Haslett.

Serious? Seriousness? Seriously, Sontag?! ⇨ E essas são as palavras destacadas para este ponto do alinhavo.

Imagine a minha cara ao ler isso; precisamente a ~blogueira~ que tem a pachorra de dialogar com as entradas de diário da Sontag usando gif's bestas. Minha reação foi aproximadamente esta:

(*Insistindo no erro.*)
Embora eu já tivesse consciência do tamanho da minha audácia, as coisas acabaram complicando pro meu lado, pois tive acesso à prova de que a realidade seria ainda pior. Entretanto, ultrapassado o susto inicial, a continuidade da leitura removeu o equívoco provocado pela pressa: Sontag não era necessariamente contrária a qualquer forma de humor; mas apenas acreditava que os graves acontecimentos sociais de sua época exigiam uma resposta enfática (≈ séria) de todos, especialmente dos intelectuais como ela. É justo.

De qualquer jeito, o estrago da falsa provocação foi tão notável, que não resisti à tentação de enveredar-me na (divertida!) tarefa de minha própria defesa, até porque humor é uma das coisas que considero mais preciosa na literatura e na vida. Para minha alegria, parece que a sincronicidade cósmica literária abraçou prontamente a causa, dado que encontrei esta incrível frase (novamente) em Autumn, escrito por Ali Smith:
“Nothing comic isn't serious.”
                                                    - Ali Smith; Autumn.

Diga se não é maravilhosa demais, pra ser verdade? Porém juro que ela está escrita desse jeitinho no livro. (- Ali Smith, muito obrigada!)

No próprio blog, é possível topar com este destaque que extraí de O Nome da Rosa, do Umberto Eco:
"Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade."
- Umberto Eco; O Nome da Rosa

que eu tinha em mente para aquele “something/algo”? Humor, é óbvio!!



Não satisfeita, percebi que este era o momento perfeito para finalmente ler “O Valor do Riso”, ensaio escrito por Virginia Woolf, publicado pela primeira vez em 1905, no Guardian. (O Valor do Riso e outros ensaios, Cosac Naify, Tradução Leonardo Fróes.)
“O riso puro (…) não passa mensagem, não transmite informação; é um som inarticulado (…) e exprimir-se assim é indigno de uma espécie que se dotou de linguagem.
Mas há coisas que estão além das palavras, e não por baixo das palavras, e uma delas é o riso.”
- Virginia Woolf, O Valor do Riso.  

Woolf parece juntar-se à temática principal deste alinhavo ao instigar meus desvarios mais ou menos deste jeitinho: ô Daniela, sabia que humor e comédia não são palavras que significam a mesma coisa? Pois é. (grifos meus:)
O humor é das alturas; só as mentes raras são capazes de escalar o pico de onde a totalidade da vida pode ser contemplada como num panorama; mas a comédia, que anda pelas estradas, reflete o trivial e acidental – os erros desculpáveis e as peculiaridades de todos os que passam por seu reluzente espelhinho.”


- Virginia Woolf, O Valor do Riso.

E aí? Bom, só há uma questionamento legítimo: eu sou capaz de explorar/apreciar o humor, ou fico somente na rasteira comédia?
Para concluir a costura deste ponto, incluo excelentes trechos do ensaio da Woolf capazes de atestar que, pelo menos quanto ao posicionamento a respeito de humor/riso, a razão está comigo.
“(…) o riso preserva nosso senso de proporção; lembra-nos sempre que somos apenas humanos, que não há homem que seja um heroi completo ou inteiramente vilão. Tão logo nos esquecemos de rir, vemos coisas fora de proporção e perdemos nosso senso de realidade.” 
“As mulheres e as crianças, então, são os principais ministros do espírito cômico, porque nem seus olhos foram toldados pela erudição nem seu cérebro obstruído pelas teorias dos livros, (...)” 
“Na arte, como na vida, todos os piores tropeços surgem de uma falta de proporção, e a tendência de ambas é ser exageradamente séria.” 
“Não há nada tão difícil como o riso, de fato, mas nenhuma característica é mais valiosa. Ele é uma faca que ao mesmo tempo poda e instrui e dá simetria e sinceridade aos nossos atos e à palavra escrita e falada.”

- Virginia Woolf, O Valor do Riso.




Para eliminar qualquer atrito residual com a Sontag, decidi coser o próximo ponto através da leitura de um texto dela incluído no livro Questão de Ênfase, precisamente este: Uma Carta para Borges (1996). Sim, em pelo menos um aspecto, estamos indubitavelmente de pleno acordo. As palavras da carta escrita por Sontag exalam elogios, carinho, admiração e gratidão a Borges e, logicamente, concordei com (quase*) tudo. (grifos meus:)
" Se existiu algum contemporâneo destinado à imortalidade literária, foi você. (…) Em 1982 — ou seja, quatro anos antes de você morrer — eu disse numa entrevista: “Não existe hoje um escritor vivo mais importante para os outros escritores do que Borges. Muitos diriam que ele é o maior escritor vivo, hoje [...] Muito poucos escritores de hoje não aprenderam algo com ele ou não o imitaram”. Isso ainda é verdade. (...) Você disse que devemos à literatura quase tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, a história desaparecerá, e os seres humanos também. Tenho certeza de que você tem razão. Livros não são apenas a suma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Eles nos dão também o modelo da autotranscendência. Algumas pessoas pensam na leitura apenas como um tipo de fuga: uma fuga do mundo cotidiano “real” para um mundo imaginário, o mundo dos livros. Livros são muito mais. São um modo de ser plenamente humano."
- Susan Sontag; Questão de Ênfase (tradução: Rubens Figueiredo)


[* Eu tentei, Sontag, mas não deu. Não sei se “telas-livro” (≈ ebooks) significam “(...) a morte da interioridade – e do livro." Sinto-me obrigada a respeitosamente discordar. (Hoje, pelo menos.) E ainda incluo uma tirinha do Alex Norris, só pra ser ~engraçadinha~. 😇]



Para concluir o alinhavo de forma circular, retornarei àquele ensaio da Robinson, extraindo dele um parágrafo que dialoga muito proximamente com aquilo que foi abordado na postagem para o conto O Imortal, escrito por quem? Jorge Luis Borges, ora! (grifos meus:)

You go way back into antiquity and everybody is memorizing Homer, everybody is memorizing “The Epic of Gilgamesh” — works of literature that build the cultural mind and make it capacious. Most of us are not the creators of those things, but we possess ourselves of them — or they possess us of them. And each successive work of literature expands the possibilities of our language, deepening our expressive capacity. In almost every major literature there are works that make you love being human, and make you love and revere the humanity of other people. That is the great potential of any art.

- Marilynne Robinson, On Finding the Right Word.

Nenhum comentário:

Postar um comentário