23/05/2018

[DL #04] Ifigênia - Teresa de la Parra



Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)
Postagens Anteriores: DL#01Anexo#01DL#02, DL#03.

PARTE 4
Ifigênia

Nem de longe previ o soco desferido pelo arremate final de Ifigênia. Calma, não quero dizer que a autora caiu no famigerado trope do “ass-pull” (= “tirou do c*”). Não; é justamente o contrário: nesta parte final, Parra resgata vários elementos inseridos anteriormente na narrativa, a fim de criar uma conclusão coesa e extremamente engenhosa para seu livro. O soco a que me refiro ocorreu por conta das características do desenlace em que a vida a autora coloca sua protagonista. Claro, dado que o título do livro é Ifigênia e que revisei essa mitologia durante este mesmo diário (Anexo 01), meu abalo pode soar desarrazoado, entretanto os derradeiros caminhos que Parra faz Eugenia percorrer não me permitiram outra reação.

⤳ Segundo DL's prévios, eu já havia percebido em Ifigênia elementos de romance de formação, romance de costumes e distopia surreal (sendo algo irônica). Certo. Pois, nesta quarta parte, pesquei elementos de romance romântico (lembrou bastante o tom melodramático do Balzac) e de romance psicológico (passagens super favoritas). Para tentar orientar meu emaranhado de elucubrações, farei um resuminho esquemático bem mequetrefe dos últimos acontecimentos da trama:

Tio Pancho adoece → Gabriel Olmedo (formado em medicina, é bom lembrar) ressurge “do nada” para auxiliar nos cuidados paliativos do moribundo → Olmedo cerca apaixonada e obcecadamente Eugenia, declarando-lhe que nunca a esquecera e que está disposto a largar tudo para ficar com ela → e daqui desponta o grande momento de angústia para Eugenia, o auge da quarta parte:


Casar-se, conforme planejado,                        OU                                                            Largar o noivo
com César Leal?                                                                                                      e fugir com Olmedo?
 =
Resignar-se às convenções sociais                OU               Fugir com o amado, lançando-se cegamente
e à expectativa da família, casando-se                                                à total dependência de um homem
com um homem que não ama, mas que                       aparentemente apaixonado (só por sua beleza?),  “garantirá um futuro mais seguro”?                               mas que, afinal de contas, largava pra trás uma
                                                                                       esposa (que ele mesmo reconhece que era uma
                                                                                         boa pessoa, isenta de qualquer culpa), sem dó                                                                                                    nem piedade? (= quem garante que não
                                                                                                                                   fará isso de novo?!)
                                                                                                                          
=

Tornar-se um corpo sem alma?                      OU                                  Tornar-se uma alma sem corpo?


Estas questões nada simples tiveram de ser resolvidas por Eugenia no prazo de uma mísera noite. E, a esse tempo exíguo, somou-se ainda uma outra dificuldade: em meio à confusão noturna envolvida na tentativa de formação de um juízo, Eugenia é assombrada pela inesperada presença de sua tia Clara, aquela que, conforme antecipei acertadamente em DL's anteriores, personifica  o espectro premonitório do tipo de desgraça que recairia sobre Eugenia, caso ela fizesse a escolha errada. No entanto, a grande questão que resta ser respondida é: algumas daquelas duas opções realmente manteria a luz da heroína acessa? Havia caminho acertado? Sendo explicita: será que Eugenia já não estava lascada de qualquer jeito, independente de sua escolha? Minha conclusão no DL#02, aquela sobre a liberdade da mulher caraqueña, inevitavelmente volta a ressoar na cabeça: "Às mulheres, é prisão antes, durante e depois (do casamento)." 
“(...) o único objeto da fé é a esperança! E é tão necessária, sobretudo para nós, pobres mulheres, que andamos pela vida sempre, sempre, com a resignação pesando em nossas costas... o senhor vê; resignação para nos entediar, resignação para esquecer os ideais que não podem existir, resignação para nos calar e para que em nós tudo se cale sempre... ah! tanta, tanta resignação (...)"
⤳ Após publicado o DL#03, me questionei se, talvez, eu havia enxergado cabelo em casca de ovo ao lançar uma luz tão intensa sobre o tema do “matrimônio”, contudo a encruzilhada de Eugenia e o destaque para o símbolo do vestido de noiva demonstraram que não acertei tão longe do alvo.

Aqui, a narrativa intensificou ainda mais suas duras críticas ao deus milenar de sete cabeças que chamam de sociedade, família, honra, religião, moral, dever, convenções e princípios; aquela divindade que exige que as pessoas renunciem a todos os seus sonhos e desejos mais íntimos, em nome da sujeição plena às convenções, leis e códigos morais por ela definidos. E é sobre a mulher, especialmente em um meio patriarcal e machista como o de Caracas do começo do século XX, que o domínio desse deus dá-se de modo mais cruel e sem chance de escapatória – demonstrado pela sina de Eugenia.

Naquela sociedade caraqueña, o que o deus de sete cabeças predefinia para toda e qualquer mulher é um casamento marcado pela subordinação obediente e jubilosa ao marido (= risco de tornar-se um corpo sem alma). A mulher poderia até livrar-se das garras desse seu plano, porém cairia no limbo simbolizado, nessa narrativa, pela personagem de tia Clara, que é:
a vela votiva cujo fogo idealista vai consumindo pouco a pouco a própria vida; e sua vida é a luz mística e perseverante que, esquecida de todos, arde na sombra, (…). 
No projeto “divino” estabelecido para aquela Caracas, a mulher entra completamente desamparada, digo, ela não recebe quaisquer ferramentas que lhe permitam lutar por uma vida independente e livre dos desígnios preestabelecidos. Para não dizer que não recebe nada, reconhece-se que o referido deus concede-lhe apenas a beleza (aqui entram os caprichos da divindade: umas ganham; outras, não), arma fugaz com a qual ela deve fisgar um marido, caso ela queira sobreviver. Expirada a beleza, já era!; a moça perde o jogo. O prêmio de consolação é seguir, como dito, os passos da tia Clara, a quem sobra canalizar a torrente de vida na tediosa beatitude solitária.
"(..) vislumbrei nitidamente a catástrofe quase certa de minha vida se eu perdesse agora essa oportunidade de me casar. Se vovó morresse, haveria anos de luto, e depois do luto... ah!... depois do luto, no caso de que houvesse morrido também o imenso poder de minha beleza, minha única razão de ser, só me restaria como projeto de vida a mesma existência de tia Clara, eternamente humilhada e reclusa junto a tia Eduardo e sua família..."
Trazendo o nó deliberativo de Eugenia para esse raciocínio: quando ela não fosse mais uma beldade, o suporte de Olmedo continuaria realmente assegurado? Será?
"(...) Gabriel , que está vivo, e é forte, e é jovem, e é rico, e me ama loucamente e me fará feliz, e me amará para sempre... sim!... me amará para sempre!... me amará para sempre!... Ah!... Me amará para sempre?"
Se ele a abandonasse, o que ela poderia fazer? Tendo em mente o universo de onde ela veio e o contexto em que sua única posse era a beleza, não seria justo julgá-la precipitadamente de medrosa ou coisa parecida por conta dessa dúvida paralisante.

Creio que, novamente, vale destacar uma ressalva anotada no DL#03: Ifigênia não pretende, me parece, execrar o casamento e provar que ele deve ser totalmente excluído da trajetória de toda e qualquer mulher. A meu ver, a história apenas demonstra que essa instituição não pode simplesmente ser imposta às mulheres na forma de única opção "viável", principalmente em decorrência dos pormenores com que ela tipicamente funciona nas sociedades patriarcais e machistas. Às mulheres, é preciso que sejam conferidas/conquistadas, isto sim, condições para o exercício da plena liberdade de escolhas, a partir de possibilidades de direções diversas e reais.

⤳ Esses devaneios acabaram me fazendo recordar uma recente campanha organizada pelo governo de meu estado para celebrar o 08 de Março. Na entrada do metrô, montou-se uma galeria com inúmeras fotos posadas e muito bem produzidas de mulheres, acompanhadas por frases que nos encorajavam a nos sentirmos sempre belas. Confesso que, por mais que eu pensasse na alegria daquelas que ilustravam as imagens, o tom daquilo tudo me trouxe um desconforto e, por que não, um aborrecimento difícil de ignorar. Não sei se distorço o texto de Parra - é possível - porém noto que ele me ajudou a entender a razão da minha torcida de nariz para a campanha aparentemente bem intencionada do governo.

Considerando-se que a beleza, quando desponta como arma única da mulher, não a liberta, mas somente reforça os grilhões colocados nos tornozelos femininos por aquele deus de sete cabeças, quais benefícios seriam obtidos através de uma campanha daquela? Pra que reforçar a já enorme exigência, apego e valorização que as mulheres depositam em suas belezas físicas; algo que, por sua efemeridade (ainda mais por sujeitar-se às variações das regras ditadas pela mídia e padrões sociais correntes), não garante munição para lutar contra aquela maldita hidra social? Não dá. O caminho da liberdade feminina não passa pelo reforço dessa ferramenta pífia - ~beleza~-, mas, sim, pela conscientização de que outras, de desempenho muito mais eficiente, precisam ser conquistadas.

⤳ De outro lado, em mais uma dessas felizes sincronicidades que vira e mexe me apanham, eis que, assistindo dia desses ao episódio quatro da antiga série O Poder do Mito (1988)*, Joseph Campbell me aparece para acrescentar mais uma intrigante camada à relação que Parra estabelece entre casamento e sacrifício:
"O casamento é um relacionamento. Quando você se sacrifica no casamento, você não o faz pelo outro, mas pelo relacionamento. Isso é simbolizado, por exemplo, na imagem chinesa do tai-chi; o Tao, com a parte escura e a parte clara interagindo - um símbolo bem conhecido -, é a relação de yang e yin, macho e fêmea, que é o próprio casamento. No casamento, você não é mais você; você é o relacionamento. Assim, eu diria que o casamento não é um caso de amor, mas sim uma provação. E a provação é o sacrifício do ego em benefício do relacionamento, através do qual uma dualidade se torna unidade não apenas biológica, mas essencialmente espiritual."
- Joseph Campbell, The Power of Myth - Episode 04 Sacrifice and Bliss.

[* = aliás, a série foi uma recomendação da @leticiaplease. - Obrigada, Leticia!

⤳ (Para finalizar:) Não sei se extrapolo - "é possível" No. 02 -, contudo acredito mesmo que a prosa de Parra surpreendentemente concede espaço para um breve flerte com o feminismo negro. Através das falas da personagem Gregória, a autora venezuelana reconhece explicitamente que as coisas funcionam de modo bem diferente para as mulheres negras; assim, exigindo medidas/armas igualmente distintas.
(fala da própria Gregória:)
"Sim, bem negra, e bem feia, e tudo o que você quiser, mas nunca me faltou quem me dissesse algo, esta é a mais pura verdade!... E se não me casei foi porque eu não quis entrar em questões de casamento, porque sempre acreditei que o casamento só foi feito para gente fina...! Sim, sim, as negras casadas ficam pretensiosas e sofrem muito com a questão da cor e além disso têm de aguentar insultos, e até pauladas, do marido, e calar a boca, e ir aonde eles mandam, e sofrer um bocado para sustentar a respeitabilidade..."
*** 

- Eugenia, agora minha Imaginação assume o mesmo papel que Goethe exerceu sobre o destino de Ifigênia: ela a resgata e a joga uma vez mais no mundo; momento, então, em que ela a abandona, para que você seja efetivamente livre para viver a vida segundo suas próprias escolhas. Esse, sim, é o ponto em que nos despedimos. Adeus, querida María Eugenia. 

16/05/2018

[DL #03] Ifigênia - Teresa de la Parra


Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)
Postagens Anteriores: DL#01, Anexo#01, DL#02.

PARTE 3
Em Direção ao Porto de Áulis


Na entrada anterior deste meu diário, compartilhei minha noção de que Ifigênia combina elementos de romance de formação e romance de costumes. Certo; pois complemento que Parra escolhe também explorar o universo das distopias! Nesta terceira parte do livro, surreais cenas de horror jamais antecipadas por mim são protagonizadas por uma Eugênia quase irreconhecível. Continuo bem abilolada por conta do que ocorreu à querida personagem, porém farei um esforço para tentar organizar alguma ideia.

⤳ Há um intervalo de dois anos entre os eventos narrados na segunda e terceira partes de Ifigênia, e o comecinho desta é marcado pela exposição da justificativa da retomada de escrita do diário. A Eugenia "do presente" relê os escritos da Eugenia "do passado" e documenta (brevemente) as impressões que suas palavras pretéritas lhe despertam. Assim, a estrutura narrativa deste trecho  oferece uma fascinante contrapartida ao que eu mesma escrevi na entrada anterior deste diário. No DL#02, registrei meus pitacos concebidos a partir da leitura daquilo que a protagonista escreveu, e agora a própria protagonista repete esse exato processo. No geral, me pareceu que nossas visões sobre a Eugenia "do passado" se harmonizam bem.

Como também mantenho um diário (ainda que virtual, público e temático), obviamente me chamaram atenção as considerações que a protagonista faz a respeito da experiência de reler, após transcorrido certo tempo, aquilo que escrevemos. Trata-se de uma espécie de viagem temporal rumo ao encontro com um outro "eu" que, na maioria das vezes, se apresenta como uma figura completamente estranha a nós mesmos. Considerando-se, portanto, que essa releitura revela-lhe o valor psicológico de tais textos, material rico para um processo de auto-análise, Eugenia acaba reconhecendo seu equívoco cometido no momento em que chamara de ridículo o hábito da escrita de diários. (Não disse que Eugenia está mudada??!)


⤳ Quanto à trama especificamente, nossa heroína não tarda em revelar a grande novidade da sua vida: habemus sponsae! - temos um noivo! Que nem é Gabriel Olmedo!! Não, o camarada é um tal César Leal, Doutor em Leis, Senador da República e atual Diretor do Ministério do Fomento. E é aqui, no imbróglio desse noivado, que as cenas distópicas com uma Eugenia (meio que) transfigurada são descritas, para desconsolo do leitor. Esse pamonha chamado César – nem a pau o chamarei pelo sobrenome, como ele impõe à própria noiva -, em resumo, encarna todo o machismo, misoginia e pedantismo pseudointelectual DO MUNDO!! Eu exagero, reconheço, entretanto não consigo expor de outro modo, tamanha é minha estupefação. <PAUSA> Será que exagerei de fato? Segue uma breve curadoria de comentários (de/sobre) e ordens do moço César:
"(...) desenvolveu suas sensatas e bem fundamentadas teorias sobre a moral, cujos pilares se assentam na absoluta pureza e severidade dos costumes femininos." 
"(...) na vida o homem sempre deve se portar como homem, e a mulher como mulher!" 
"(...) meu noivo fica indignado diante da mera ideia de que eu possa estar maquiada, (...)" 
"- Espero que os vestidos não sejam decotados, porque senão você vai perdê-los. Eu nunca, nunca, permitirei que minha mulher use decote!" 
"- Que papel uma mulher casada pode desempenhar nos bailes? E, principalmente, que papel fará um marido que deixa sua mulher dançar em público?" 
"(...) ele não gosta nem um pouco que eu tome qualquer iniciativa que não seja sugerida por ele, (...) lhe desagrada profundamente que eu possa proporcionar a mim mesma um prazer - por mais insignificante que seja - que não venha de suas mãos." 
"(...) ele odiava (...) as mulheres como eu, que pretendiam ser sábias e intelectuais; que, em sua opinião, a cabeça de uma mulher era um objeto mais ou menos decorativo, completamente vazio por dentro, feito para alegrar os olhos dos homens." 

O mais louco é que Eugenia, no plano consciente pelo menos, exibe enorme satisfação com essa união, feliz por ter “encontrado o amor” e conseguido mudar “para melhor”, ou seja, virar finalmente a perfeita imagem da futura esposa exemplar, comportada, subordinada e obediente ao seu marido.
"Sim, por fim, o amor, esta maravilhosa e transparente libélula, eu a seguro (...) não importa o que tio Pancho diga, meu noivo e eu concordamos em tudo, nos entendemos muito bem e estou certa de que seremos felicíssimos."
Nas palavras dela, sua pessoa submeteu-se a um "progresso moral e material"; eu, no entanto, diria que ela aparenta ter se transformado naquele "zero à esquerda" que energicamente denunciava e rejeitava na primeira parte do livro. Bem, no plano inconsciente, contudo, não tenho tanta certeza se Eugenia realmente está assim tão satisfeita com o rumo das coisas.

Aliás, a passagem em que Eugenia escuta escondida a reunião em que a família delibera se o pretendente potencial deveria ou não ser aceito, antes mesmo de lançar a questão à principal interessada, remete demais às discussões em que a galera, na peça de Eurípides,  se debruça sobre o impasse "Sacrificar ou não sacrificar Ifigênia, eis a questão.” Não pode ser sinal de bom agouro.


⤳ Em meio à confusão, consegui cogitar algumas teorias que pudessem explicar essa inesperada doideira. Na segunda parte do livro, Eugenia recebe uma carta resposta da amiga Cristina de Iturbe, aproveitando esse mote para descrever, em uma longa passagem, o histórico daquela amizade. Em face desse noivado estapafúrdio, só agora me dou conta de que aquelas informações tinham alguma razão de ser, que não apenas encher linguiça e distraí-la do tédio.

As divagações de Eugenia na segunda parte denunciam ao leitor a enorme influência que Cristina exercera na construção da personalidade de nossa heroína. Foi Cristina, por exemplo, quem despertou-lhe o espírito curioso, a veia estudiosa e leitora. A moça praticamente resgatou Eugenia de uma pasmaceira inerte diante da vida. Pelo tom das palavras da protagonista, supus que Cristina ocupa a posição do Mito a ser conquistado e/ou copiado. Ora, por que não dizer: Cristina estava para Eugenia, assim como Lila estava para Lenu (personagens da Tetralogia Napolitana – Elena Ferrante). Então, minha teoria para explicar a mudança de curso na trama passou a ser esta: já que Cristina estava transbordando de felicidade por conta de um casamento iminente anunciado na carta resposta, à Eugenia não restaria outra saída, senão também casar-se, ainda que com o primeiro palerma que cruzasse seu caminho, e ainda que neutralizando sua verdadeira essência.

Como não concluí a leitura, acrescento outra teoria na forma de pergunta: com essa reviravolta, Teresa de la Parra igualmente tenta demonstrar que, naquela sociedade patriarcal corroída pelo machismo e misoginia (sustentada em grande parte por muitas mulheres, hein), uma moça nas condições de Eugenia, por mais perspicaz e inteligente que fosse, não tinha chances de escapar ao destino fatídico que o meio social reservava às mulheres? Seria isso? A ver.


⤳ Ao lembrar do trecho do livro que destaquei apenas na seção Biblio Journal deste diarinho, fico ainda mais perdida em como encarar a aparente metamorfose de Eugenia. A passagem a que me refiro é esta, uma divagação de Mercedes Galindo:


É um trecho interessante, pois ele desmonta ou, no mínimo, lança fortes dúvidas à possível interpretação intempestiva de que este livro apresentaria uma mensagem de total oposição ao casamento, à entrega da mulher à instituição do matrimônio. A questão a ser criticada pela obra poderia voltar-se muito mais para a maneira com que a dinâmica frequentemente se estabelece: relação de posse associada à subordinação absoluta e ao total aniquilamento da natureza das mulheres promovido pelos homens. Será? Sei lá. Meros devaneios, de verdade.

Estou ansiosa para descobrir de que modo ocorrerá o desfecho na quarta parte. Como a terceira encerra com uma Eugenia lentamente acordando para a percepção consciente das mudanças horríveis que aquele noivado provocava nela, tenho esperança de que a história possa mudar de direção novamente. Para melhor, é claro.

P.S.: ah, e aproveito pare me redimir perante Tio Pancho e Mercedes. Imaginei que os dois passariam a perna em Eugenia; entretanto, até este ponto, eles parecem oferecer os melhores conselhos e intenções para a vida da protagonista. Poxa, Panchito foi o único da família a remar – com um humor corrosivo, é verdade - contra a maré de César.

- Tio Pancho e Mercedes: perdão, aí, pessoal.

13/05/2018

Com Borges - Alberto Manguel

(Sobre o livro: info sinopse etc - clicar aqui. / Editora Âyiné - Tradução: Priscila Catão)
Afirmo que fui vítima de uma vil coação. Sob a mira da sinopse “lá lá lá, um encantador escritor apaixonado por literatura reconta os anos da adolescência em que lera livros para O outro grande escritor apaixonado por literatura, lá lá lá”, não tive outra saída, senão adquirir um exemplar de Com Borges pra mim. Nunca antes na história de meus anos como consumidora, eu havia sofrido um golpe assim tão baixo.
***

Admirei com ternura a honestidade contida na forma poética com que Manguel escolhe concluir esse pequenino livro:
(...) não são memórias; são memórias das memórias das memórias, e os acontecimentos que as inspiraram desapareceram, deixando apenas algumas imagens, algumas palavras, e não consigo ter certeza nem de que elas mesmas se passaram como lembro.”
                                                                                                             - Alberto Manguel, Com Borges.

Aliás, há realmente tanta poesia nessa frase inicial de Manguel, que até a escritora americana Nicole Krauss já utilizou uma frase praticamente idêntica para intitular um de seus livros: A Memória de Nossas Memórias. (* Não lido. Encarei essa sincronia como um conselho do universo (!) para que eu cogite com mais seriedade essa leitura, pois aí está outra excelente escritora.)

Bom, ainda que Manguel tivesse arriscado alguma artimanha para encobrir o fato que ele escolhe confessar no trecho destacado, ela teria falhado miseravelmente, pois a leitura do livro denuncia de maneira bastante clara que, daqueles anos de convívio com Borges, bem pouco permaneceu nos labirintos memoriais do autor. Os relatos da obra não revelam informações privilegiadas ou especiais que só pudessem ser contadas por quem teve o prazer de conviver com o grande autor argentino. A impressão que tive é que grande parcela dos relatos de Manguel pode ser apreendida, com moderada facilidade, através das várias entrevistas concedidas por Borges e disponibilizadas em fontes diversas. Reforço isso principalmente porque, no momento, estou lendo uma breve coletânea de entrevistas que Borges concedera a Osvaldo Ferrari, e pude identificar considerável superposição de elementos entre ambas leituras.

Refletindo sobre o que sabemos a respeito da construção da memória, avalio que nem poderia ter sido diferente, visto que Manguel também admite, logo no início, que seu eu adolescente encarava aquele contato borgiano com uma indiferença de quem não tinha a menor noção do privilégio. Se aquela experiência não despertava nenhuma grande emoção extraordinária no coração do jovem escritor, como poderia ter formado raízes profundas na mente dele? Com efeito, a sensação que a leitura provoca é a do contato com uma memória concebida mediante revisitação do passado com um novo olhar sentimental já “contaminado” por memórias e eventos posteriores.

Caso pareça que estou invalidando totalmente esse livro, é imperioso assegurar: de jeito nenhum! Pra mim, os mistérios inesgotáveis de Borges geram fascínio suficiente para sustentar praticamente qualquer coisa que diga-lhe respeito. Além disso, como a isca da sinopse indica, o livro efetivamente entrega ao leitor um papo informal delicioso sobre literatura, sobre o amor aos livros e, por que não, à própria vida.

Registrarei um pequeno apanhado de passagens marcantes pra mim. Segue a breve listinha.

1. Entonces el Sr. Borges era un llorón?!

Ele não era indiferente aos melodramas. Chorava em faroestes e filmes de gângsters. Soluçou ao fim de “Anjos de Cara Suja”, (…) Parado à beira dos pampas, (…) uma lágrima escorria pelo seu rosto e ele murmurava: “Caralho, a pátria!” (…) Um certo parágrafo do esquecido escritor argentino Manuel Peyrou o fazia chorar porque mencionava calle Nicaragua, uma rua perto de onde nasceu. Gostava de recitar quatro versos de Rubén Darío (…) o ritmo o fazia lacrimejar. Ele confessou muitas vezes ser descaradamente sentimental.”
                                                                                                              - Alberto Manguel, Com Borges.

Esse dado foi novidade pra mim, e o recebi com enorme gratidão, pois calculo que me ajudará a fazer as pazes com o traço de minha personalidade que, veja só, compartilho com Borges. Por exemplo, hoje mesmo, na data em que escrevo este post, exibi olhos lacrimejantes em pleno chá de fraldas organizado para uma colega de trabalho que conheço há menos de 01 ano (o vexame é real). Ora, por que ir tão longe, se dia desses incluí neste diarinho que chorei ao ouvir uma música antiga da Madonna? Meu deus. Relaciono-me com esse meu lado chorona nível hardcore com grande aborrecimento e exaustão. Até à minha terapeuta, solicitei ajuda para cortar pela raiz essa barata sentimentalidade da minha psique, mas ela não parece ter se compadecido a contento.

- Tô chorando, ok; mas pelo menos Borges me entenderia e não me julgaria. > Pronto; de agora em diante, essa será minha expressão indulgente.


2. [ALINHAVANDO] Borges x Szymborska
Hum, não sei se exagero (é bastante possível), porém creio que o argentino e a polonesa compartilhavam ideias de uma Utopia que dialogavam de maneira curiosamente próxima. Será que estou derrapando no sabão, ou nem? Vejamos, sim?

Aqui, o que pensava Borges (nas palavras de Manguel):
De vez em quando, ele cansa de ouvir as leituras, cansa dos livros, das conversas literárias que repete com leves variações para cada visitante ocasional. É então que gosta de imaginar um universo em que revistas e livros não são necessários porque cada um teria em si toda revista e todo livro, toda história e todo verso. No seu universo (ele o descreveria finalmente com o título Utopia de Um Homem Cansado) todo homem é um artista e, portanto, a arte não é mais necessária (...)” 
                                                                                                  - Alberto Manguel, Com Borges.

Agora, a Utopia concebida por Wislawa Szymborska (tradução: Regina Przybycien):

Utopia


Ilha onde tudo se esclarece.

Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Não há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa
de galhos desenredados desde antanho.

A árvore do Entendimento, fascinantemente simples
junto à fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista
do Vale da Evidência.

Se há alguma dúvida, o vento a dispersa.

O eco toma a palavra sem ser chamado
e de bom grado desvenda os segredos dos mundos.

Do lado direito uma caverna onde mora o sentido.
Do lado esquerdo o lago da Convicção Profunda.
A verdade surge do fundo e suave vem à tona.

Domina o vale a Inabalável Certeza.
Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a ilha é deserta
e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias
se voltam sem exceção para o mar.

Como se daqui só se saísse
e sem voltar se submergisse nas profundezas.

Na vida imponderável.

                                               - Wislawa Szymborska.


Pois bem, minhas elucubrações voaram por estas paragens: se todos têm dentro de si toda revista e todo livro, toda história e todo verso; então (?) todos sempre chegam a todas as respostas, sempre entendem a essência do mundo e eliminam quaisquer incertezas. E aí? Essa proposição condicional é verdadeira ou falsa? Minha tendência inicial é refutá-la, contudo, quando a proposta de Borges conclui que nessa sua Utopia “arte não é mais necessária”, minhas dúvidas se dissipam e sinto-me mais confortável para afirmar que aquela proposição está, sim, correta. Por quê? Porque o único mundo que prescinde de arte que consigo conceber é aquele em que todos já são agraciados* por inexoráveis convicções a respeito de tudo, sendo imunes a dúvidas.

* = Hum, se entendi direito o poema de Szymborska, versos finais especialmente, essa Utopia seria incompatível com a vida humana, certo? Sendo assim, o “agraciados” teria de ser substituído por “penalizados/amaldiçoados”? Confere?

Seja como for, fica aí o registro desse meu devaneio... hesitante! Indeterminado! → , claro que não tenho todos os livros dentre de mim e que não dispenso arte em minha vida. Infelizmente Felizmente.


3. Borges e Poemas
Por falar em “se entendi direito o poema”, Borges aparentemente negaria este famigerado argumento comumente usado por aqueles que tentam convencer leitores a ler mais poemas: ~”não precisa entender, basta sentir.”~

Manguel refere que Borges julgava que só seria capaz de dizer se um poeta era bom ou ruim, caso tivesse uma ideia do que ele/ela se propôs a fazer; o que, por sua vez, exigiria a plena compreensão de seus poemas.


4. ("Por falar em poema" no. 03:) - Susan Sontag, olha que legal isto aqui! Já sabia??
"Fazer listas é uma das atividades mais antigas do poeta."
                                                                                    - Jorge Luis Borges.

5. [Biblio Journal]



6. Alfinetada no Victor Hugo! Adoooooro
Manguel incluiu este comentário maroto sobre Victor Hugo dito, na verdade, por Macedonio Fernández:
Victor Hugo, ah, aquele gringo insuportável! O leitor já foi embora e ele continua falando." 
                                                                                                         - Macedonio Fernández.
(- Monsieur Hugo, esta deve ser, sei lá, a quarta vez que tenho de me desculpar com o senhor por rir de alguma piadinha envolvendo-o, mas a carne é fraca. Perdão mesmo. Saiba que gosto muito da sua prolixidade, ok?)

12/05/2018

[DROPS] Diários Susan Sontag 1947-1963 [#03]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagens anteriores: #01, #02]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
26/08/1949
"Observo com prazer o meu ingresso na fase anarquista-estética da minha juventude. (...) Estou de saco cheio de gente, de burrice, de mediocridade, de cruzadas e política..."


12/05/2018
16 anos. Meros dezesseis aninhos, e a Sontag já estava puta com tudo. Começou a passar raiva bem cedo. Sinto muito por ela.














Em vez da fase anarquista - que nunca tive, aliás -, aos 16 anos, eu já tinha iniciado minha fase eremítica. Hey, cada um reage às agressões do mundo como pode, certo? Sem julgamentos, por favor.














➤ 
24/10/1956
“Filosofia é topologia do pensamento...
"

"Permita-me radiografar seu argumento..."
"Permita-me desemaranhar seu sistema..."    
"Dê-me licença para escavar seus motivos..."

12/05/2018
Eita, será que consigo dar continuidade à brincadeira? Deixe-me ver aqui...
"Não, lindíssima, falou nada; bora rever issaê?..."
"E se eu peneirasse essa sua caixinha de areia, hein, gato? A pazinha já tá na mão..."
"Ei, Metidão a Gambinão, deixe-me interpretar os símbolos dessa sua tentativa de This is America..."

(É o que teve pra hoje.)

➤ 
31/10/1956
“O solipisismo é a única filosofia verdadeira, se por filosofia se entende algo diferente do senso comum. Mas, é claro, ela não se entende assim e não é isso. Portanto não estamos em busca de uma filosofia verdadeira." 


12/05/2018












➤ 
16/11/1956
“(...) pathos da vocação do artista." 


12/05/2018
Mas é claro! No último Diário Cinematográfico, ao tentar descrever a descoberta de uma temática que aparentemente não curto muito em filmes, eu apelei para as expressões "Jornada do Artista /  Calvário do Artista / Alegrias e Tristezas da vida do Artista." , porém essa aí é muito mais precisa e, como diria a própria jovem Sontag, intelectual! Já incorporei ao meu arsenal particular. Valeu.


➤ 
14/01/1957
"Notas sobre uma infância


[Primeira versão]

Pernil + espinafre. Anthony Rowley.

No trem para a Flórida: "Mãe, como se soletra pneumonia?"

Sentada na cama do vovô no domingo de manhã.
(...)
Equipamentos de química"


12/05/2018
Notas sobre uma infância

Sopa no jantar às segundas, quartas e sextas. (oh, yeah.)

Em pleno almoço (!): "Pai, pra que serve a língua, hein?"
(*Hoje entendo porque papai perdeu a paciência comigo. Que criança idiota eu era. (..) "Era"? Aham.)

Visitar o avô materno e ele sempre perguntar: "E como vão os estudos?"

Nas aulas de informática: floppy disks e comandos MS-DOS.
(Que me deixavam BI-RU-TA-ÇA e chorando: "nunca decorarei essas merdas, vou reprovaaaaaaaar, eu quero môrréééééééér!!")
*
- Crianças do século XXI que nunca viram/pegaram/usaram um deste aí (👇), eu as invejo pra ca**lho!

Hold that smile, kid; hold that smile.

09/05/2018

[Alinhavando - Dance Edition] Childish Gambino x Alice Walker

(* Disclaimer: não vi este alinhavo antes pela internet. Caso já tenha sido feito em outro lugar, desconheço; o que explicaria uma cogitável ausência de crédito, ok?)


Aqueles que, como eu, ainda não conseguiram aderir por completo ao eremitismo, com certeza  tiveram o prazer de assistir ao último vídeo de Childish Gambino (= Donald Glover) lançado para sua nova música"This is America". Honestamente, perdi a conta de quantas vezes eu já apertei play neste clipe totalmente excelente, mas, hey, como ainda aguento mais, segue o repeteco para a devida apreciação:


As imagens protagonizadas por Glover e dirigidas por Hiro Murai geraram na internet uma espécie de competição para descobrir quem seria capaz de desvendar o maior número de símbolos presentes nesse grande feito audiovisual. Como sou uma pessoa muito afeiçoada e fiel às minhas obsessões, é claro que toda minha atenção voltou-se preponderantemente para somente um dos símbolos: 🕺A DANÇA! 💃 Antes de prosseguir, por favor, preciso dar os créditos: a maravilhosa coreografia do clipe de Gambino ficou a cargo da ruandesa Sherrie Silver. Anexo um vídeo da coreógrafa em ação, direto de Uganda, pois é espetacular demaaaaaaaais:


Confesso que, quando assisti ao vídeo pela primeira e segunda vez, meus olhos realmente não conseguiram prestar atenção em outra coisa, senão nos passos incríveis de Gambino e da turma de dançarinos que o acompanham - ressalvado o enorme choque proporcionado pelos assassinatos encenados, é claro. [- Carapuça serviu por aqui, Sr. Gambino. Lição aprendida. Espero. Apologetic High-five!] Superada a empolgação da incredulidade imediata, consegui então tentar explorar todos os demais detalhes.
*

Lendo artigos on-line, encontrei as seguintes teorias a respeito do que a dança poderia representar no clipe de Gambino:

1. [Via Forbes, artigo de Adrienne Gibbs:] Gibbs salienta que os bailarinos permanecem alheios a todo o violento conflito que transcorre no segundo plano. O que isso significaria?

- Eles não têm realmente a menor noção do que se passa em seus entornos e, por isso, conseguem seguir dançando no meio da zorra, sem demonstrar qualquer constrangimento?
- Estão cientes de tudo que ocorre, porém escolhem dançar, a fim de não se renderem ao pranto? Seria uma defesa?
- Estariam se apresentando conscientemente para a câmera, assumindo assim, de maneira deliberada, o papel de distração própria e para o espectador?
- Rezam, através da dança, para ignorar os confrontos?

Todas essas são possibilidades elencadas pela autora do texto. De todo jeito, Gibbs defende que, seja a dança tomada como uma ofensa ou uma forma de sobrevivência, o certo é que ela corresponde à estratégia para lidar com a morte.

Ah, e vale ainda registrar as informações técnicas a respeito da dança. Conforme a jornalista, Gambino faz referência a, pelo menos, dez danças bastante populares, tanto antigas quanto modernas. Uma delas é o Gwara Gwara, de origem sul-africana.

2. [Via Mashable; artigo de Martha Tesema:] Tesema alega que a metáfora da composição referencia o fato de que, enquanto artistas negros apresentam sua arte/dança recebendo acalorada ovação, a violência e injustiça raciais persistem sendo uma rotina na vida diária dos negros americanos.

Ela ainda lança outras possibilidades: seria uma referência aos políticos ineptos que, como costumamos dizer aqui no Brasil, simplesmente sambam em cima da desgraça dos cidadãos? Denunciaria que os americanos só querem saber das "dancinhas" dos negros, e dane-se o resto?

**

Acredito que ficou fácil perceber que as imagens do clipe admitem um gama bem variada de análises que, possivelmente, sequer se anulam mutuamente. Pois bem, confesso que foi apenas enquanto lia essas interpretações que a minha memória devolveu, quase feito uma pedra lançada com estilingue, o título formidável da coletânea de poemas da autora americana Alice Walker: Hard Times Require Furious Dancing / (tradução livre, +-:) Tempos Difíceis Exigem uma Dança Furiosa (2010). Ainda não li os poemas de Walker, porém, como sou a pessoa que 1. vira e mexe martela aqui no diarinho os bordões "Dançar os pensamentos desesperados" (- Nikos Kazantzakis) e "This dance is like a weapon of self defense against the present tense" (-Thom Yorke), e que 2. já pagou o vexame de exibir uns passinhos bobos para toda a Internet ver, é óbvio que minha memória armazenou em um lugar de destaque o poderoso título da poeta americana.

A fim de enriquecer este alinhavo, li o prefácio que Walker escreveu para sua coletânea, no qual contextualiza o título escolhido, mediante exposição de seu ponto de vista. Foi interessantíssimo perceber a relação que ela estabelece entre os negros e a dança, destacando sua possível origem e o efeito algo catártico e expiatório. A visão dela acomoda-se perfeitamente bem aos sentidos daqueles meus bordões citados, bem como às imagens construídas pelo vídeo de Gambino. Para registro, arrisco, a seguir, uma tradução amadora do texto de Alice Walker:

"Aprendendo a dançar 

Sou a mais nova dentre oito irmãos. Cinco de nós morreram. Compartilho perdas, preocupações com a saúde e outros desafios comuns à condição humana, especialmente nestes tempos de guerra, pobreza, degradação ambiental e ambição que superam a maior das imaginações criativas. Às vezes parece ser mais do que é possível suportar. Uma vez que sou uma pessoa que sofre de episódios regulares de grave depressão, traço familiar de transtorno mental que afetou cada um de meus irmãos de modo diferente, acabei amadurecendo para tornar-me alguém que jamais sonhei: uma otimista incorrigível que sempre enxerga o copo repleto de algo. Pode estar pela metade de água, preciosa por si só, mas na outra metade há um arco-íris que só poderia existir em um espaço vazio.

Aprendi a dançar.

Não que antes eu não soubesse dançar; todos da minha comunidade sabem dançar, mesmo aqueles com múltiplos pés esquerdos. Eu apenas não sabia como a dança é crucial na manutenção do equilíbrio. O fato de Africanos estarem sempre dançando (em seus rituais e cerimônias) demonstra consciência disso. Certo dia percebi, enquanto dançava, que os passos maravilhosos 
na pista de dança, pelos quais os afro-americanos são conhecidos, surgiram, especialmente em tempos pregressos, porque os dançarinos se contorciam para desfazer vários nós de estresse. Alguns dos movimentos envolvendo a região lombar que herdamos e que sugerem um mero caráter sensual, sem dúvida foram criados após um dia inteiro de trabalho sobre o arado ou enxada em uma plantação tocada por escravos.
Desejando honrar o papel da dança na cura das famílias, comunidades e nações, eu aluguei um salão e uma banda locais, convidei amigos e familiares, de perto e de longe, para uma confraternização no dia de Ação de Graças, a fim de dançarmos nossa tristeza até a sua exaustão ou, pelo menos, até que sua presença em nossas existências diárias se tornasse mais palatável. Quando em luto pela morte recente de uma mãe, minha cunhada, a geração seguinte de minha família, organizou uma espiritual dança de grupo em linha, o que me assegurou que, embora cada um de nós tenha sua parcela de sofrimento e problemas, ainda conseguimos sustentar e manter a linha da beleza, da forma e do ritmo - o que não é pouca coisa, em um mundo tão desafiador como este.

Tempos difíceis requerem uma dança furiosa. Cada um de nós é prova.

                                                              
- Alice Walker, Hard Times Requires Furious Dancing.

(- Opa, estou aí para engrossar esse grupo de provas testemunhais, senhora Walker.)

***
Transbordando de pensamentos desesperados após chegar do trabalho, é claro que parti para tentativa de aprender os passitos do Gambino, porém sigo bem triste por ainda não conseguir fazer direitinho  O PASSO MAIS LEGAL:
                               

08/05/2018

[DROPS] Siri Hustvedt: sobre a leitura

(!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)


[arriscando uma tradução livre:]

"O romance pode ser um instrumento político. Não tenho interesse em literatura panfletária, porque ideologia tem a tendência de ser simplista, enquanto os melhores romances não são reducionistas; eles são bastante complexos. Romances lidam com as ambiguidades da experiência humana, em vez de reduzirem-se a um slogan. Boa parte da cultura popular trata de slogans, de estereótipos e de oferecer respostas simples para problemas que são complicados. 

Dentro de um romance, o indivíduo tem a oportunidade de viver a ambígua realidade de toda uma outra consciência. Durante a leitura, você é possuído pela voz do outro, abrindo mão de ser você mesmo. Enquanto se lê, não é possível ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Para pensar naquilo que se está lendo, é preciso desvencilhar-se do livro. Falando daquilo que eu chamo de "narrador interior", daquela voz que todos carregam dentro de si: você abre mão desse seu narrador interior, em nome da outra voz do livro. Enquanto lemos, somos literalmente possuídos, e essa posse oferece a possibilidade de nos mudar para sempre, porém é preciso estar aberto, para que isso aconteça. 

Acredito que é por isso que muitos homens não querem ler livros escritos por mulheres, pois significaria submeterem-se à autoridade de uma mulher, o que provoca uma sensação de emasculação. Na verdade, compadeço e compreendo como isso opera em nossa cultura. Perguntam "Por que mulheres leem livros escritos por mulheres, enquanto os homens não querem?" Para mim, essa é a resposta. Para a mulher, não é humilhante estar à serviço de uma outra voz, nós não sentimos isso, nós não necessitamos controlar o texto; o que é ótimo. Ao mesmo tempo, é lastimável que obras escritas por mulheres carreguem a noção de que os homens sejam emasculados, caso renunciem de si mesmos em nome daquelas vozes; é muito triste."                       
 - Siri Hustvedt

06/05/2018

[DL #02] Ifigênia - Teresa de la Parra


Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)
Postagens Anteriores: DL#01, Anexo#01.

PARTE 2
A Varanda de Julieta


Embora "A Varanda de Julieta"  tenha aparecido intitulando explicitamente um poeminha escrito por Eugênia para seu amado (sim, agora contamos com um "amado"; o abordarei logo, logo), a verdade é que esse título consegue alcançar implicações amplas, visto que ele denota super bem o clima inteiro deste segmento específico do livro. Explico. Eugenia, mais entediada do que nunca em sua solitária clausura, toma a paisagem bucólica de Caracas (com destaque aqui para as laranjeiras, acácias, rios, jardins de quintais) como alimento para seu espírito contemplativo, a partir de onde efervesce sua veia filósofa. Daí, são justamente as pequenas pílulas filosóficas espalhadas pela narrativa o que mantém o ânimo acesso pra todo mundo, personagem e leitor, uma vez que praticamente nada (em termos de trama) acontece ao longo dessa parte de Ifigênia. A leitura não chega a invadir o território da chatice, porém embarca, com toda certeza, em um ritmo mais lânguido, imerso na introspecção solitária da protagonista. Em outras palavras: o tédio de Eugênia ricocheteia pelas bandas do leitor.

Outra distinção percebida aqui refere-se à própria forma: sai a carta, entra o diário. A pobre Eugenia sente-se tão enfastiada após o envio daquela correspondência para Cristina, que não vislumbra outra saída, senão dedicar-se à manutenção de um diarinho, hábito que ela considera ridículo e cafona, por sinal (*- Indireta recebida, Eugenia). Essa mudança da narrativa me pareceu ótima, posto que o diário permite que a personalidade peculiar (para dizer o mínimo) da protagonista aflore sem qualquer tipo de subterfúgio. Considerando-se que a personagem afirma isto
"Escrevo tudo o que me dá na telha, porque o papel, este branco e luminoso papel, guarda com amor tudo o que lhe digo e nunca, jamais, se escandaliza, nem me repreende, (...)"
aquilo que Eugenia expressa praticamente não desperta qualquer desconfiança, pois ela realmente não dá sinais de estar fazendo joguinhos com o leitor. Aliás, a figura de um leitor sequer existe pra ela nesse contexto. Adentrando no campo da especulação, seria possível, no máximo, questionar se a protagonista poderia estar jogando consigo mesma; de maneira inconsciente. Ou seja, com o diário, me pareceu surgir uma narradora em primeira pessoa até que bastante confiável.

Em decorrência desses dois aspectos particulares da segunda parte, consolidou-se melhor na minha mente a impressão de que Ifigênia incorpora conjuntamente características de Romance de Costumes e de Romance de Formação. As discussões e ponderações sociais nas quais as personagens embarcam de modo recorrente revelam bastantes elementos a respeito da sociedade de Caracas no começo do século XX. De outro lado, o maior contato com a personalidade de Eugenia através do diário nos obriga a constatar o quanto ela é imatura e ingênua, enfrentando sugestivamente uma fase de transição em seu amadurecimento. Trata-se de uma moça de dezoito anos que manifesta sem dó uma cômica vaidade pueril sustentada, em contrapartida, por fascinantes momentos de raciocínio consistente; tudo isso entremeado pela demonstração recorrente de uma inocência embaraçosa no traquejo social e amoroso. Em tom de suposta epifania, eu diria que esta fala da avó resume corretamente os conflitos que habitam a neta protagonista:
"- Maria Eugênia, minha filha, você precisa aprender a se controlar! Sua independência me deixa um tanto alarmada. Você tem ideias independentes e comportamento independente. Mas suas ideias sobre tudo são um verdadeiro caos; você não digeriu todas as suas leituras, e eu me pergunto (...) o que vai ser de você com essa bagunça toda que tem dentro da sua cabeça e que só aumenta a cada dia."
Sinto-me obrigada a reforçar a pergunta final da avó: o que será de Eugenia?! Sim, pois, além da evidente imaturidade da personagem que antecipa um malogro de proporções homéricas, já apareceram espalhadas pelo livro várias pistas de que o tombo dela será verdadeiramente feio. Dentre os vários momentos premonitórios à la "Mercúcio x Romeu", cito esta aparente "praga" lançada pela tia Clara:
"(...) e tudo porque está supervaidosa, María Eugenia! Você se acha "um gênio"! (...) Olhe que Deus castiga o orgulho!... E o castiga neste mundo mesmo!..."
Por falar em tia Clara, reforço a suspeita de que ela pode incorporar o futuro ao qual se destina Eugenia. Gregoria revela que Clara teria virado essa vela cuja luz nunca ilumina ninguém (palavras de Eugenia) exatamente depois de ter tomado um pé na bunda do grande amor e de ter sido trocada por outra "mais jovem e bonita". Certo, ocorre que o "amado" lá de Eugênia, aquele mesmo que mencionei logo no começo deste post, parece estar aprontando a mesmíssima coisa com nossa heroína. Falemos então finalmente dele; ninguém mais, ninguém menos do que aquele antecipado balzaquiano Gabriel Olmedo. A maneira com que Eugenia o descreve rendeu um efeito engraçado. A obra entrega os seguintes dados referentes ao sujeito:

- olhos e os cabelos pretos como o carvão;
- pernas são compridas demais para o busto;
- usa sapatos de formato muito estreito;
- tem tornozelos mais para grossos do que finos;
- o achei um tanto pretensioso;
- uma postura de rei coroado e solteirão convicto;
- é terrivelmente ambicioso, muito inteligente;
- fama de ser meio libertino;
- um libre-penseur sem convicções religiosas.

Bom, considerando-se que ando completamente obcecada pelo Adam Driver, não teve jeito: com essa descrição aí, minha cabeça transformou Gabriel Olmedo em:

KYLO REN!!

A avó, a propósito, bem que já avisou que o cara é um traste. Vamos acompanhar. Ah, e preciso dizer que Eugenia, por sua vez, virou a Rey? Não, né? Ok.

A paixonite de Eugenia por Gabriel desabrocha seguindo mais ou menos o manjadíssimo - mas sempre delicinha - trope da Tensão Sexual Beligerante, especialmente segundo a perspectiva de Eugenia. De início, a figura de Gabriel desperta na heroína o mais puro desprezo que; na presença dos primeiros sinais de interesse amoroso manifestados pelo rapaz, transfigura-se subitamente em um amor platônico do qual dependeria a verdadeira felicidade de Eugenia. Com efeito, foi um dos pontos em que não mais foi possível negar o quanto a protagonista ainda é tremendamente bobinha.

Sem maiores surpresas para qualquer leitor, a primeira decepção "amorosa" surge rapidamente para Eugenia: no final dessa segunda parte, ela descobre que Olmedo ficara noivo de Maria Monasterios, a filha de um ricaço dos negócios petroleiros da Venezuela. É, mas isso foi suficiente para que Eugenia desistisse do rapaz? Nope, de jeito nenhum. Através do milagre puríssimo de seu corpo tão lindo, ela percebe que triunfará no torneio do amor de Olmedo. Agora me diga se uma pessoa como essa não vai se dar muito mal na vida? "Pior" é que a terceira parte do livro desponta com o título Em Direção ao Porto de Áulis. Eugenia partirá para seu sacrifício??!! Bem, resta-me apenas acompanhar o desenrolar das próximas cenas. Por ora, acompanhemos o que o amor (??) despertou no coração filósofo da venezuelana:
"Ah! O amor... o amor!... Por que perguntar isso ao me balançar na rede?... Ora, se eu já o senti na pele... É essa tragédia subterrânea e silenciosa sobre a qual todos passam com indiferença, tal como passamos sobre o suplício macabro daquele que enterraram vivo... Sim, sim... Por que me enganar?... Eu já o conheço!... É essa brasa sempre reluzente e acesa, é essa dolorosa e ardente, que me faz sentir a dor terrível da carne e me põe a pensar com ânsia e com infinita nostalgia sobre o doce silêncio do nada!..."
* Detalhe relevante para melhor interpretar essas palavras da entediada apaixonada: até agora, entre ela e Gabriel, não rolou absolutamente NA-DA além de um breve flerte besta sem maiores consequências e, mesmo assim, já rendeu toda essa eloquência devaneante. Só posso concluir que ela foi vítima da inexperiência adolescente (ou do tédio, né?), e que o rumo das coisas não vai prestar.


 Conforme escrevi no inicio do post, as várias reflexões sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais é aquilo que mais se destaca nessa parte do livro de Parra. Há diversos tópicos envolventes como: a moral, verdades x mentiras, convicções humanas, dinheiro x felicidade x amor, fé, antipatias, hábito... Para não deixar o post muito longo comentando todos os minutos de filosofia dessa segunda parte, opto pelo registro de apenas dois que reverberaram por bastante tempo na minha cabeça.

1. LIBERDADE É COISA SÓ PRA HOMEM, OU TEM PRA MULHER TAMBÉM?
Essa discussão desponta, na minha opinião, como um dos ápices da narrativa. Por acidente, Eugenia pôde entreouvir Gabriel expressar o seguinte para o tio:
"Eu não sacrificaria minha liberdade, Pancho, nem sequer em prol dos lindos pés dessa boneca que é a sua sobrinha."
É interessante acompanhar o vendaval que essas palavras levam aos pensamentos de María Eugenia. Como reação imediata, ela capta ali a enorme pretensão de Gabriel, contudo deduções consequentes não demoram a aparecer de forma obsessiva para a protagonista. Esboço a linha sequencial dos tipos de reflexões que passaram pela cabeça de Eugenia: a possibilidade de um relacionamento representaria uma ameaça apenas à liberdade de Olmedo? → Mas e quanto a Eugenia? Ela também não teria uma liberdade da qual abrir mão? Melhor: relacionamentos implicam na perda de liberdade? E se o implicam, a perda de liberdade para a mulher ocorre da mesma forma como para os homens? → Hum, e as mulheres possuem, por acaso, uma liberdade da qual possam renunciar, tal qual a possuem os homens?

Ainda que inconscientemente, Eugenia viu-se forçada a concluir em seu íntimo que a liberdade que ela supunha possuir era um mito que somente existia em seus sonhos. Como mulher solteira e pobre, a reclusão que lhe era imposta desde a chegada a Caracas já tinha deixado esse fato mais do que evidente. Naquele meio, nem de longe uma mulher solteira goza da mesma liberdade que o homem para fazer o que bem desejar. Ora, se quiserem, os homens podem até riscar casamentos de suas vidas! Vale lembrar que a personagem Ifigênia, na peça de Goethe (Anexo #01) chega à mesmíssima conclusão. Não à toa, Eugenia dorme naquele noite com a sensação de que a casa da avó ficara ainda maior, mais silenciosa e entediante do que nunca.
"(...) no fim das contas eu entendo que certos homens não queiram se casar! Se eu fosse homem, também não me casaria! Ah, imagine a delícia, a maravilha que deve ser andar livremente pelo mundo, vivendo aventuras e gastando milhões (...)"
Ademais, logo na primeira parte da obra havia ficado óbvio como a liberdade adquire configurações distintas para homens e mulheres também após o casamento. Naquela sociedade caraqueña, afinal, as esposas deviam total obediência aos respectivos esposos, sempre permanecendo atentas à preservação de uma conduta moral exemplar que preservasse a honra do chefe da casa ( e lembro: é válido também na peça de Eurípides, hein). Nessa segunda parte, a história de Mercedes Galindo acrescenta mais uma camada a essa concepção da liberdade da mulher durante o casamento. Embora  infeliz por estar casada com um grosseiro imprestável que arruinara todas suas finanças, Mercedes não consegue desvencilhar-se do marido Alberto, sem nem entender bem por que persiste ao lado de um homem que a faz tanto mal. Na sua fala, Mercedes teoriza:
"Há homens que, para o horrível tormento das mulheres, depois de impor a elas todos os martírios e sofrimentos, as amarram a eles com essa cadeia de compaixão que não se pode romper com nada, nada, porque é muito semelhante à escravidão com que as mães são amarradas atrás dos filhos!..."
É, pelo jeito a resposta à pergunta desse tópico seria: não, liberdade só tem pra homem. Às mulheres, é prisão antes, durante e depois. ¯\_(ツ)_/¯

2. MULHER, AFASTA DE TI ESSA INOCÊNCIA.
Na minha singela opinião, Eugenia deu um show nessa parte e fiquei de boca aberta com a tese da moça. Ela postula que a inocência é a mais negativa, a mais perigosa e a mais tola de todas as condições humanas. A exigência da sociedade para que as mulheres preservem uma postura angelical representa um dos maiores abusos que os fortes já cometeram contra os fracos!

Conforme a tese de Eugenia, a inocência semeia uma vida com mistérios, assumindo o papel da venda que cobre os olhos daquelas que, assim tão terrivelmente desorientadas, teriam suas vidas mais facilmente organizadas conforme os desejos e caprichos dos outros. A imposição da inocência faz com que as mulheres ignorem em teoria tudo aquilo que as outras pessoas conhecem ou conheceram na prática.
"A inocência é uma cega, surda e paralítica a quem a imbecilidade humana coroou de rosas. É o emblema humilhante da submissão e da escravidão em que (...) costumam viver quase todas as mulheres honradas depois de se casarem."
Ou seja, essa pressão para que as mulheres preservem a imagem de Santinhas Inocentes instrumentaliza o processo de tolhimento da liberdade feminina; afinal, uma anjinha pura não pode sair por aí fazendo tudo o que quer, pode? Na visão de Eugenia, portanto, a cobrança de uma postura inocente é propriamente o que restringe as mulheres à vida ordinária e cotidiana. 

Nossa heroína mostra-se resoluta a derrubar todas as paredes:
"(...) a parede espessa do misterioso e do proibido! (...) Acha possível viver sempre assim, como uma pária, à margem do movimento e da vida? Ah, não, mil vezes não!... Felizmente, já derrubei todas essas paredes. Saí a plena luz (...)"

*Só que*: como mencionei, a querida Eugenia, a despeito de seus esforços/leituras/etc, persiste carregando muita inocência em sua pobre alma e, pelo jeito, seu espírito afoito garantirá que ela se livre, na prática, de boa parte desse peso. Será isso mesmo? Vamos acompanhar. 


⤳ Tio Pancho retorna  com novas informações e comentários curiosos a respeito da sociedade caraqueña e da Venezuela de modo geral; dessa vez acompanhado de Olmedo, Galindo e Alberto. 
(= notar o vício das fontes.)

Novamente as personagens enfatizam algo que consideram determinante para a situação delicada do país: a Venezuela atravessava um período de gestação sociológica e de fusão de raças, cuja principal característica era a anarquia. Imagino que, naquela época, esta tenha sido uma corrente teórica popular na área das ciências sociais e antropológicas; entretanto já superada? Será? Poderia a miscigenação, de fato, ser a responsável por uma suposta tendência ao caos ineficiente de um Estado?! Existiria alguma lógica nisso, ou é mero racismo realmente? De qualquer jeito, na visão das personagens pertencentes ao topo, digamos, da pirâmide social da Venezuela, essa era a crença. Aliás, um peso grande de responsabilidade também é atribuído às características do processo de independência daquele país. Segundo Olmedo, um tal "espírito caudilhista" é o preço que pagam por terem promovido a independência na América Latina. Lendo esse livro em pleno século XXI, ciente da situação política da Venezuela nas últimas décadas, não há como conter um assombro jocoso diante desse comentário e de frases como esta:
 "(...) nosso espírito caudilhista nasceu nas gloriosas sementes da Independência, (...) é uma erva daninha que precisamos cortar..."
Ah, e para conceder uma boa contextualização dessa frase, é mandatório destacar que ela é citada por Gabriel Olmedo, um rapaz de trinta anos que pretende ficar rico através da política e da exploração do petróleo venezuelano, iniciada com a ditadura de Juan Vicente Gómez. É tudo tragicômico demais. E bastante ~familiar~, vale ressaltar. 

Pancho mais uma vez expõe sua convicção de que a presença do sangue negro na construção social venezuelana responde pelo amor da nação ao carnaval, pela prodigalidade e exuberância populares. Aqui, de novo o processo de Independência entra como responsável pela mistura de raças na Venezuela, porque, ainda segundo tio Pancho, as mulheres "se divertiram muitíssimo" em meio àquela bagunça toda e: deu no que deu.
"(...) tradição desde a guerra de Troia (...): enquanto os homens realizam façanhas, (...) as mulheres, que no fundo são mais moderadas e ostentam bem menos, reclusas na sombra, cobrem-se em silêncio com a glória do amor e dos beijos."
Essa questão racial chama recorrentemente a atenção, em especial quando algumas personagens - destaque para María Antonia -, preocupam-se tanto em afirmar que descendem de uma genealogia "branquíssima", tendendo a refutar qualquer acusação de mulatismo. Achei intrigante, principalmente porque eu não conhecia esse aspecto da sociedade venezuelana.

⤳ Para finalizar, incluo a música tocada ao piano por Eugenia, a mesma que fez o canastrão Olmedo perder a cabeça e declarar-se "apaixonadamente" a nossa querida heroína. Play!

♫・* "Ah-a-a-ah! Cie-li-to-lin-do!" ♫・*