09/05/2018

[Alinhavando - Dance Edition] Childish Gambino x Alice Walker

(* Disclaimer: não vi este alinhavo antes pela internet. Caso já tenha sido feito em outro lugar, desconheço; o que explicaria uma cogitável ausência de crédito, ok?)


Aqueles que, como eu, ainda não conseguiram aderir por completo ao eremitismo, com certeza  tiveram o prazer de assistir ao último vídeo de Childish Gambino (= Donald Glover) lançado para sua nova música"This is America". Honestamente, perdi a conta de quantas vezes eu já apertei play neste clipe totalmente excelente, mas, hey, como ainda aguento mais, segue o repeteco para a devida apreciação:


As imagens protagonizadas por Glover e dirigidas por Hiro Murai geraram na internet uma espécie de competição para descobrir quem seria capaz de desvendar o maior número de símbolos presentes nesse grande feito audiovisual. Como sou uma pessoa muito afeiçoada e fiel às minhas obsessões, é claro que toda minha atenção voltou-se preponderantemente para somente um dos símbolos: 🕺A DANÇA! 💃 Antes de prosseguir, por favor, preciso dar os créditos: a maravilhosa coreografia do clipe de Gambino ficou a cargo da ruandesa Sherrie Silver. Anexo um vídeo da coreógrafa em ação, direto de Uganda, pois é espetacular demaaaaaaaais:


Confesso que, quando assisti ao vídeo pela primeira e segunda vez, meus olhos realmente não conseguiram prestar atenção em outra coisa, senão nos passos incríveis de Gambino e da turma de dançarinos que o acompanham - ressalvado o enorme choque proporcionado pelos assassinatos encenados, é claro. [- Carapuça serviu por aqui, Sr. Gambino. Lição aprendida. Espero. Apologetic High-five!] Superada a empolgação da incredulidade imediata, consegui então tentar explorar todos os demais detalhes.
*

Lendo artigos on-line, encontrei as seguintes teorias a respeito do que a dança poderia representar no clipe de Gambino:

1. [Via Forbes, artigo de Adrienne Gibbs:] Gibbs salienta que os bailarinos permanecem alheios a todo o violento conflito que transcorre no segundo plano. O que isso significaria?

- Eles não têm realmente a menor noção do que se passa em seus entornos e, por isso, conseguem seguir dançando no meio da zorra, sem demonstrar qualquer constrangimento?
- Estão cientes de tudo que ocorre, porém escolhem dançar, a fim de não se renderem ao pranto? Seria uma defesa?
- Estariam se apresentando conscientemente para a câmera, assumindo assim, de maneira deliberada, o papel de distração própria e para o espectador?
- Rezam, através da dança, para ignorar os confrontos?

Todas essas são possibilidades elencadas pela autora do texto. De todo jeito, Gibbs defende que, seja a dança tomada como uma ofensa ou uma forma de sobrevivência, o certo é que ela corresponde à estratégia para lidar com a morte.

Ah, e vale ainda registrar as informações técnicas a respeito da dança. Conforme a jornalista, Gambino faz referência a, pelo menos, dez danças bastante populares, tanto antigas quanto modernas. Uma delas é o Gwara Gwara, de origem sul-africana.

2. [Via Mashable; artigo de Martha Tesema:] Tesema alega que a metáfora da composição referencia o fato de que, enquanto artistas negros apresentam sua arte/dança recebendo acalorada ovação, a violência e injustiça raciais persistem sendo uma rotina na vida diária dos negros americanos.

Ela ainda lança outras possibilidades: seria uma referência aos políticos ineptos que, como costumamos dizer aqui no Brasil, simplesmente sambam em cima da desgraça dos cidadãos? Denunciaria que os americanos só querem saber das "dancinhas" dos negros, e dane-se o resto?

**

Acredito que ficou fácil perceber que as imagens do clipe admitem um gama bem variada de análises que, possivelmente, sequer se anulam mutuamente. Pois bem, confesso que foi apenas enquanto lia essas interpretações que a minha memória devolveu, quase feito uma pedra lançada com estilingue, o título formidável da coletânea de poemas da autora americana Alice Walker: Hard Times Require Furious Dancing / (tradução livre, +-:) Tempos Difíceis Exigem uma Dança Furiosa (2010). Ainda não li os poemas de Walker, porém, como sou a pessoa que 1. vira e mexe martela aqui no diarinho os bordões "Dançar os pensamentos desesperados" (- Nikos Kazantzakis) e "This dance is like a weapon of self defense against the present tense" (-Thom Yorke), e que 2. já pagou o vexame de exibir uns passinhos bobos para toda a Internet ver, é óbvio que minha memória armazenou em um lugar de destaque o poderoso título da poeta americana.

A fim de enriquecer este alinhavo, li o prefácio que Walker escreveu para sua coletânea, no qual contextualiza o título escolhido, mediante exposição de seu ponto de vista. Foi interessantíssimo perceber a relação que ela estabelece entre os negros e a dança, destacando sua possível origem e o efeito algo catártico e expiatório. A visão dela acomoda-se perfeitamente bem aos sentidos daqueles meus bordões citados, bem como às imagens construídas pelo vídeo de Gambino. Para registro, arrisco, a seguir, uma tradução amadora do texto de Alice Walker:

"Aprendendo a dançar 

Sou a mais nova dentre oito irmãos. Cinco de nós morreram. Compartilho perdas, preocupações com a saúde e outros desafios comuns à condição humana, especialmente nestes tempos de guerra, pobreza, degradação ambiental e ambição que superam a maior das imaginações criativas. Às vezes parece ser mais do que é possível suportar. Uma vez que sou uma pessoa que sofre de episódios regulares de grave depressão, traço familiar de transtorno mental que afetou cada um de meus irmãos de modo diferente, acabei amadurecendo para tornar-me alguém que jamais sonhei: uma otimista incorrigível que sempre enxerga o copo repleto de algo. Pode estar pela metade de água, preciosa por si só, mas na outra metade há um arco-íris que só poderia existir em um espaço vazio.

Aprendi a dançar.

Não que antes eu não soubesse dançar; todos da minha comunidade sabem dançar, mesmo aqueles com múltiplos pés esquerdos. Eu apenas não sabia como a dança é crucial na manutenção do equilíbrio. O fato de Africanos estarem sempre dançando (em seus rituais e cerimônias) demonstra consciência disso. Certo dia percebi, enquanto dançava, que os passos maravilhosos 
na pista de dança, pelos quais os afro-americanos são conhecidos, surgiram, especialmente em tempos pregressos, porque os dançarinos se contorciam para desfazer vários nós de estresse. Alguns dos movimentos envolvendo a região lombar que herdamos e que sugerem um mero caráter sensual, sem dúvida foram criados após um dia inteiro de trabalho sobre o arado ou enxada em uma plantação tocada por escravos.
Desejando honrar o papel da dança na cura das famílias, comunidades e nações, eu aluguei um salão e uma banda locais, convidei amigos e familiares, de perto e de longe, para uma confraternização no dia de Ação de Graças, a fim de dançarmos nossa tristeza até a sua exaustão ou, pelo menos, até que sua presença em nossas existências diárias se tornasse mais palatável. Quando em luto pela morte recente de uma mãe, minha cunhada, a geração seguinte de minha família, organizou uma espiritual dança de grupo em linha, o que me assegurou que, embora cada um de nós tenha sua parcela de sofrimento e problemas, ainda conseguimos sustentar e manter a linha da beleza, da forma e do ritmo - o que não é pouca coisa, em um mundo tão desafiador como este.

Tempos difíceis requerem uma dança furiosa. Cada um de nós é prova.

                                                              
- Alice Walker, Hard Times Requires Furious Dancing.

(- Opa, estou aí para engrossar esse grupo de provas testemunhais, senhora Walker.)

***
Transbordando de pensamentos desesperados após chegar do trabalho, é claro que parti para tentativa de aprender os passitos do Gambino, porém sigo bem triste por ainda não conseguir fazer direitinho  O PASSO MAIS LEGAL:
                               

Nenhum comentário:

Postar um comentário