13/05/2018

Com Borges - Alberto Manguel

(Sobre o livro: info sinopse etc - clicar aqui. / Editora Âyiné - Tradução: Priscila Catão)
Afirmo que fui vítima de uma vil coação. Sob a mira da sinopse “lá lá lá, um encantador escritor apaixonado por literatura reconta os anos da adolescência em que lera livros para O outro grande escritor apaixonado por literatura, lá lá lá”, não tive outra saída, senão adquirir um exemplar de Com Borges pra mim. Nunca antes na história de meus anos como consumidora, eu havia sofrido um golpe assim tão baixo.
***

Admirei com ternura a honestidade contida na forma poética com que Manguel escolhe concluir esse pequenino livro:
(...) não são memórias; são memórias das memórias das memórias, e os acontecimentos que as inspiraram desapareceram, deixando apenas algumas imagens, algumas palavras, e não consigo ter certeza nem de que elas mesmas se passaram como lembro.”
                                                                                                             - Alberto Manguel, Com Borges.

Aliás, há realmente tanta poesia nessa frase inicial de Manguel, que até a escritora americana Nicole Krauss já utilizou uma frase praticamente idêntica para intitular um de seus livros: A Memória de Nossas Memórias. (* Não lido. Encarei essa sincronia como um conselho do universo (!) para que eu cogite com mais seriedade essa leitura, pois aí está outra excelente escritora.)

Bom, ainda que Manguel tivesse arriscado alguma artimanha para encobrir o fato que ele escolhe confessar no trecho destacado, ela teria falhado miseravelmente, pois a leitura do livro denuncia de maneira bastante clara que, daqueles anos de convívio com Borges, bem pouco permaneceu nos labirintos memoriais do autor. Os relatos da obra não revelam informações privilegiadas ou especiais que só pudessem ser contadas por quem teve o prazer de conviver com o grande autor argentino. A impressão que tive é que grande parcela dos relatos de Manguel pode ser apreendida, com moderada facilidade, através das várias entrevistas concedidas por Borges e disponibilizadas em fontes diversas. Reforço isso principalmente porque, no momento, estou lendo uma breve coletânea de entrevistas que Borges concedera a Osvaldo Ferrari, e pude identificar considerável superposição de elementos entre ambas leituras.

Refletindo sobre o que sabemos a respeito da construção da memória, avalio que nem poderia ter sido diferente, visto que Manguel também admite, logo no início, que seu eu adolescente encarava aquele contato borgiano com uma indiferença de quem não tinha a menor noção do privilégio. Se aquela experiência não despertava nenhuma grande emoção extraordinária no coração do jovem escritor, como poderia ter formado raízes profundas na mente dele? Com efeito, a sensação que a leitura provoca é a do contato com uma memória concebida mediante revisitação do passado com um novo olhar sentimental já “contaminado” por memórias e eventos posteriores.

Caso pareça que estou invalidando totalmente esse livro, é imperioso assegurar: de jeito nenhum! Pra mim, os mistérios inesgotáveis de Borges geram fascínio suficiente para sustentar praticamente qualquer coisa que diga-lhe respeito. Além disso, como a isca da sinopse indica, o livro efetivamente entrega ao leitor um papo informal delicioso sobre literatura, sobre o amor aos livros e, por que não, à própria vida.

Registrarei um pequeno apanhado de passagens marcantes pra mim. Segue a breve listinha.

1. Entonces el Sr. Borges era un llorón?!

Ele não era indiferente aos melodramas. Chorava em faroestes e filmes de gângsters. Soluçou ao fim de “Anjos de Cara Suja”, (…) Parado à beira dos pampas, (…) uma lágrima escorria pelo seu rosto e ele murmurava: “Caralho, a pátria!” (…) Um certo parágrafo do esquecido escritor argentino Manuel Peyrou o fazia chorar porque mencionava calle Nicaragua, uma rua perto de onde nasceu. Gostava de recitar quatro versos de Rubén Darío (…) o ritmo o fazia lacrimejar. Ele confessou muitas vezes ser descaradamente sentimental.”
                                                                                                              - Alberto Manguel, Com Borges.

Esse dado foi novidade pra mim, e o recebi com enorme gratidão, pois calculo que me ajudará a fazer as pazes com o traço de minha personalidade que, veja só, compartilho com Borges. Por exemplo, hoje mesmo, na data em que escrevo este post, exibi olhos lacrimejantes em pleno chá de fraldas organizado para uma colega de trabalho que conheço há menos de 01 ano (o vexame é real). Ora, por que ir tão longe, se dia desses incluí neste diarinho que chorei ao ouvir uma música antiga da Madonna? Meu deus. Relaciono-me com esse meu lado chorona nível hardcore com grande aborrecimento e exaustão. Até à minha terapeuta, solicitei ajuda para cortar pela raiz essa barata sentimentalidade da minha psique, mas ela não parece ter se compadecido a contento.

- Tô chorando, ok; mas pelo menos Borges me entenderia e não me julgaria. > Pronto; de agora em diante, essa será minha expressão indulgente.


2. [ALINHAVANDO] Borges x Szymborska
Hum, não sei se exagero (é bastante possível), porém creio que o argentino e a polonesa compartilhavam ideias de uma Utopia que dialogavam de maneira curiosamente próxima. Será que estou derrapando no sabão, ou nem? Vejamos, sim?

Aqui, o que pensava Borges (nas palavras de Manguel):
De vez em quando, ele cansa de ouvir as leituras, cansa dos livros, das conversas literárias que repete com leves variações para cada visitante ocasional. É então que gosta de imaginar um universo em que revistas e livros não são necessários porque cada um teria em si toda revista e todo livro, toda história e todo verso. No seu universo (ele o descreveria finalmente com o título Utopia de Um Homem Cansado) todo homem é um artista e, portanto, a arte não é mais necessária (...)” 
                                                                                                  - Alberto Manguel, Com Borges.

Agora, a Utopia concebida por Wislawa Szymborska (tradução: Regina Przybycien):

Utopia


Ilha onde tudo se esclarece.

Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Não há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa
de galhos desenredados desde antanho.

A árvore do Entendimento, fascinantemente simples
junto à fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista
do Vale da Evidência.

Se há alguma dúvida, o vento a dispersa.

O eco toma a palavra sem ser chamado
e de bom grado desvenda os segredos dos mundos.

Do lado direito uma caverna onde mora o sentido.
Do lado esquerdo o lago da Convicção Profunda.
A verdade surge do fundo e suave vem à tona.

Domina o vale a Inabalável Certeza.
Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a ilha é deserta
e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias
se voltam sem exceção para o mar.

Como se daqui só se saísse
e sem voltar se submergisse nas profundezas.

Na vida imponderável.

                                               - Wislawa Szymborska.


Pois bem, minhas elucubrações voaram por estas paragens: se todos têm dentro de si toda revista e todo livro, toda história e todo verso; então (?) todos sempre chegam a todas as respostas, sempre entendem a essência do mundo e eliminam quaisquer incertezas. E aí? Essa proposição condicional é verdadeira ou falsa? Minha tendência inicial é refutá-la, contudo, quando a proposta de Borges conclui que nessa sua Utopia “arte não é mais necessária”, minhas dúvidas se dissipam e sinto-me mais confortável para afirmar que aquela proposição está, sim, correta. Por quê? Porque o único mundo que prescinde de arte que consigo conceber é aquele em que todos já são agraciados* por inexoráveis convicções a respeito de tudo, sendo imunes a dúvidas.

* = Hum, se entendi direito o poema de Szymborska, versos finais especialmente, essa Utopia seria incompatível com a vida humana, certo? Sendo assim, o “agraciados” teria de ser substituído por “penalizados/amaldiçoados”? Confere?

Seja como for, fica aí o registro desse meu devaneio... hesitante! Indeterminado! → , claro que não tenho todos os livros dentre de mim e que não dispenso arte em minha vida. Infelizmente Felizmente.


3. Borges e Poemas
Por falar em “se entendi direito o poema”, Borges aparentemente negaria este famigerado argumento comumente usado por aqueles que tentam convencer leitores a ler mais poemas: ~”não precisa entender, basta sentir.”~

Manguel refere que Borges julgava que só seria capaz de dizer se um poeta era bom ou ruim, caso tivesse uma ideia do que ele/ela se propôs a fazer; o que, por sua vez, exigiria a plena compreensão de seus poemas.


4. ("Por falar em poema" no. 03:) - Susan Sontag, olha que legal isto aqui! Já sabia??
"Fazer listas é uma das atividades mais antigas do poeta."
                                                                                    - Jorge Luis Borges.

5. [Biblio Journal]



6. Alfinetada no Victor Hugo! Adoooooro
Manguel incluiu este comentário maroto sobre Victor Hugo dito, na verdade, por Macedonio Fernández:
Victor Hugo, ah, aquele gringo insuportável! O leitor já foi embora e ele continua falando." 
                                                                                                         - Macedonio Fernández.
(- Monsieur Hugo, esta deve ser, sei lá, a quarta vez que tenho de me desculpar com o senhor por rir de alguma piadinha envolvendo-o, mas a carne é fraca. Perdão mesmo. Saiba que gosto muito da sua prolixidade, ok?)

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