06/05/2018

[DL #02] Ifigênia - Teresa de la Parra


Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)
Postagens Anteriores: DL#01, Anexo#01.

PARTE 2
A Varanda de Julieta


Embora "A Varanda de Julieta"  tenha aparecido intitulando explicitamente um poeminha escrito por Eugênia para seu amado (sim, agora contamos com um "amado"; o abordarei logo, logo), a verdade é que esse título consegue alcançar implicações amplas, visto que ele denota super bem o clima inteiro deste segmento específico do livro. Explico. Eugenia, mais entediada do que nunca em sua solitária clausura, toma a paisagem bucólica de Caracas (com destaque aqui para as laranjeiras, acácias, rios, jardins de quintais) como alimento para seu espírito contemplativo, a partir de onde efervesce sua veia filósofa. Daí, são justamente as pequenas pílulas filosóficas espalhadas pela narrativa o que mantém o ânimo acesso pra todo mundo, personagem e leitor, uma vez que praticamente nada (em termos de trama) acontece ao longo dessa parte de Ifigênia. A leitura não chega a invadir o território da chatice, porém embarca, com toda certeza, em um ritmo mais lânguido, imerso na introspecção solitária da protagonista. Em outras palavras: o tédio de Eugênia ricocheteia pelas bandas do leitor.

Outra distinção percebida aqui refere-se à própria forma: sai a carta, entra o diário. A pobre Eugenia sente-se tão enfastiada após o envio daquela correspondência para Cristina, que não vislumbra outra saída, senão dedicar-se à manutenção de um diarinho, hábito que ela considera ridículo e cafona, por sinal (*- Indireta recebida, Eugenia). Essa mudança da narrativa me pareceu ótima, posto que o diário permite que a personalidade peculiar (para dizer o mínimo) da protagonista aflore sem qualquer tipo de subterfúgio. Considerando-se que a personagem afirma isto
"Escrevo tudo o que me dá na telha, porque o papel, este branco e luminoso papel, guarda com amor tudo o que lhe digo e nunca, jamais, se escandaliza, nem me repreende, (...)"
aquilo que Eugenia expressa praticamente não desperta qualquer desconfiança, pois ela realmente não dá sinais de estar fazendo joguinhos com o leitor. Aliás, a figura de um leitor sequer existe pra ela nesse contexto. Adentrando no campo da especulação, seria possível, no máximo, questionar se a protagonista poderia estar jogando consigo mesma; de maneira inconsciente. Ou seja, com o diário, me pareceu surgir uma narradora em primeira pessoa até que bastante confiável.

Em decorrência desses dois aspectos particulares da segunda parte, consolidou-se melhor na minha mente a impressão de que Ifigênia incorpora conjuntamente características de Romance de Costumes e de Romance de Formação. As discussões e ponderações sociais nas quais as personagens embarcam de modo recorrente revelam bastantes elementos a respeito da sociedade de Caracas no começo do século XX. De outro lado, o maior contato com a personalidade de Eugenia através do diário nos obriga a constatar o quanto ela é imatura e ingênua, enfrentando sugestivamente uma fase de transição em seu amadurecimento. Trata-se de uma moça de dezoito anos que manifesta sem dó uma cômica vaidade pueril sustentada, em contrapartida, por fascinantes momentos de raciocínio consistente; tudo isso entremeado pela demonstração recorrente de uma inocência embaraçosa no traquejo social e amoroso. Em tom de suposta epifania, eu diria que esta fala da avó resume corretamente os conflitos que habitam a neta protagonista:
"- Maria Eugênia, minha filha, você precisa aprender a se controlar! Sua independência me deixa um tanto alarmada. Você tem ideias independentes e comportamento independente. Mas suas ideias sobre tudo são um verdadeiro caos; você não digeriu todas as suas leituras, e eu me pergunto (...) o que vai ser de você com essa bagunça toda que tem dentro da sua cabeça e que só aumenta a cada dia."
Sinto-me obrigada a reforçar a pergunta final da avó: o que será de Eugenia?! Sim, pois, além da evidente imaturidade da personagem que antecipa um malogro de proporções homéricas, já apareceram espalhadas pelo livro várias pistas de que o tombo dela será verdadeiramente feio. Dentre os vários momentos premonitórios à la "Mercúcio x Romeu", cito esta aparente "praga" lançada pela tia Clara:
"(...) e tudo porque está supervaidosa, María Eugenia! Você se acha "um gênio"! (...) Olhe que Deus castiga o orgulho!... E o castiga neste mundo mesmo!..."
Por falar em tia Clara, reforço a suspeita de que ela pode incorporar o futuro ao qual se destina Eugenia. Gregoria revela que Clara teria virado essa vela cuja luz nunca ilumina ninguém (palavras de Eugenia) exatamente depois de ter tomado um pé na bunda do grande amor e de ter sido trocada por outra "mais jovem e bonita". Certo, ocorre que o "amado" lá de Eugênia, aquele mesmo que mencionei logo no começo deste post, parece estar aprontando a mesmíssima coisa com nossa heroína. Falemos então finalmente dele; ninguém mais, ninguém menos do que aquele antecipado balzaquiano Gabriel Olmedo. A maneira com que Eugenia o descreve rendeu um efeito engraçado. A obra entrega os seguintes dados referentes ao sujeito:

- olhos e os cabelos pretos como o carvão;
- pernas são compridas demais para o busto;
- usa sapatos de formato muito estreito;
- tem tornozelos mais para grossos do que finos;
- o achei um tanto pretensioso;
- uma postura de rei coroado e solteirão convicto;
- é terrivelmente ambicioso, muito inteligente;
- fama de ser meio libertino;
- um libre-penseur sem convicções religiosas.

Bom, considerando-se que ando completamente obcecada pelo Adam Driver, não teve jeito: com essa descrição aí, minha cabeça transformou Gabriel Olmedo em:

KYLO REN!!

A avó, a propósito, bem que já avisou que o cara é um traste. Vamos acompanhar. Ah, e preciso dizer que Eugenia, por sua vez, virou a Rey? Não, né? Ok.

A paixonite de Eugenia por Gabriel desabrocha seguindo mais ou menos o manjadíssimo - mas sempre delicinha - trope da Tensão Sexual Beligerante, especialmente segundo a perspectiva de Eugenia. De início, a figura de Gabriel desperta na heroína o mais puro desprezo que; na presença dos primeiros sinais de interesse amoroso manifestados pelo rapaz, transfigura-se subitamente em um amor platônico do qual dependeria a verdadeira felicidade de Eugenia. Com efeito, foi um dos pontos em que não mais foi possível negar o quanto a protagonista ainda é tremendamente bobinha.

Sem maiores surpresas para qualquer leitor, a primeira decepção "amorosa" surge rapidamente para Eugenia: no final dessa segunda parte, ela descobre que Olmedo ficara noivo de Maria Monasterios, a filha de um ricaço dos negócios petroleiros da Venezuela. É, mas isso foi suficiente para que Eugenia desistisse do rapaz? Nope, de jeito nenhum. Através do milagre puríssimo de seu corpo tão lindo, ela percebe que triunfará no torneio do amor de Olmedo. Agora me diga se uma pessoa como essa não vai se dar muito mal na vida? "Pior" é que a terceira parte do livro desponta com o título Em Direção ao Porto de Áulis. Eugenia partirá para seu sacrifício??!! Bem, resta-me apenas acompanhar o desenrolar das próximas cenas. Por ora, acompanhemos o que o amor (??) despertou no coração filósofo da venezuelana:
"Ah! O amor... o amor!... Por que perguntar isso ao me balançar na rede?... Ora, se eu já o senti na pele... É essa tragédia subterrânea e silenciosa sobre a qual todos passam com indiferença, tal como passamos sobre o suplício macabro daquele que enterraram vivo... Sim, sim... Por que me enganar?... Eu já o conheço!... É essa brasa sempre reluzente e acesa, é essa dolorosa e ardente, que me faz sentir a dor terrível da carne e me põe a pensar com ânsia e com infinita nostalgia sobre o doce silêncio do nada!..."
* Detalhe relevante para melhor interpretar essas palavras da entediada apaixonada: até agora, entre ela e Gabriel, não rolou absolutamente NA-DA além de um breve flerte besta sem maiores consequências e, mesmo assim, já rendeu toda essa eloquência devaneante. Só posso concluir que ela foi vítima da inexperiência adolescente (ou do tédio, né?), e que o rumo das coisas não vai prestar.


 Conforme escrevi no inicio do post, as várias reflexões sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais é aquilo que mais se destaca nessa parte do livro de Parra. Há diversos tópicos envolventes como: a moral, verdades x mentiras, convicções humanas, dinheiro x felicidade x amor, fé, antipatias, hábito... Para não deixar o post muito longo comentando todos os minutos de filosofia dessa segunda parte, opto pelo registro de apenas dois que reverberaram por bastante tempo na minha cabeça.

1. LIBERDADE É COISA SÓ PRA HOMEM, OU TEM PRA MULHER TAMBÉM?
Essa discussão desponta, na minha opinião, como um dos ápices da narrativa. Por acidente, Eugenia pôde entreouvir Gabriel expressar o seguinte para o tio:
"Eu não sacrificaria minha liberdade, Pancho, nem sequer em prol dos lindos pés dessa boneca que é a sua sobrinha."
É interessante acompanhar o vendaval que essas palavras levam aos pensamentos de María Eugenia. Como reação imediata, ela capta ali a enorme pretensão de Gabriel, contudo deduções consequentes não demoram a aparecer de forma obsessiva para a protagonista. Esboço a linha sequencial dos tipos de reflexões que passaram pela cabeça de Eugenia: a possibilidade de um relacionamento representaria uma ameaça apenas à liberdade de Olmedo? → Mas e quanto a Eugenia? Ela também não teria uma liberdade da qual abrir mão? Melhor: relacionamentos implicam na perda de liberdade? E se o implicam, a perda de liberdade para a mulher ocorre da mesma forma como para os homens? → Hum, e as mulheres possuem, por acaso, uma liberdade da qual possam renunciar, tal qual a possuem os homens?

Ainda que inconscientemente, Eugenia viu-se forçada a concluir em seu íntimo que a liberdade que ela supunha possuir era um mito que somente existia em seus sonhos. Como mulher solteira e pobre, a reclusão que lhe era imposta desde a chegada a Caracas já tinha deixado esse fato mais do que evidente. Naquele meio, nem de longe uma mulher solteira goza da mesma liberdade que o homem para fazer o que bem desejar. Ora, se quiserem, os homens podem até riscar casamentos de suas vidas! Vale lembrar que a personagem Ifigênia, na peça de Goethe (Anexo #01) chega à mesmíssima conclusão. Não à toa, Eugenia dorme naquele noite com a sensação de que a casa da avó ficara ainda maior, mais silenciosa e entediante do que nunca.
"(...) no fim das contas eu entendo que certos homens não queiram se casar! Se eu fosse homem, também não me casaria! Ah, imagine a delícia, a maravilha que deve ser andar livremente pelo mundo, vivendo aventuras e gastando milhões (...)"
Ademais, logo na primeira parte da obra havia ficado óbvio como a liberdade adquire configurações distintas para homens e mulheres também após o casamento. Naquela sociedade caraqueña, afinal, as esposas deviam total obediência aos respectivos esposos, sempre permanecendo atentas à preservação de uma conduta moral exemplar que preservasse a honra do chefe da casa ( e lembro: é válido também na peça de Eurípides, hein). Nessa segunda parte, a história de Mercedes Galindo acrescenta mais uma camada a essa concepção da liberdade da mulher durante o casamento. Embora  infeliz por estar casada com um grosseiro imprestável que arruinara todas suas finanças, Mercedes não consegue desvencilhar-se do marido Alberto, sem nem entender bem por que persiste ao lado de um homem que a faz tanto mal. Na sua fala, Mercedes teoriza:
"Há homens que, para o horrível tormento das mulheres, depois de impor a elas todos os martírios e sofrimentos, as amarram a eles com essa cadeia de compaixão que não se pode romper com nada, nada, porque é muito semelhante à escravidão com que as mães são amarradas atrás dos filhos!..."
É, pelo jeito a resposta à pergunta desse tópico seria: não, liberdade só tem pra homem. Às mulheres, é prisão antes, durante e depois. ¯\_(ツ)_/¯

2. MULHER, AFASTA DE TI ESSA INOCÊNCIA.
Na minha singela opinião, Eugenia deu um show nessa parte e fiquei de boca aberta com a tese da moça. Ela postula que a inocência é a mais negativa, a mais perigosa e a mais tola de todas as condições humanas. A exigência da sociedade para que as mulheres preservem uma postura angelical representa um dos maiores abusos que os fortes já cometeram contra os fracos!

Conforme a tese de Eugenia, a inocência semeia uma vida com mistérios, assumindo o papel da venda que cobre os olhos daquelas que, assim tão terrivelmente desorientadas, teriam suas vidas mais facilmente organizadas conforme os desejos e caprichos dos outros. A imposição da inocência faz com que as mulheres ignorem em teoria tudo aquilo que as outras pessoas conhecem ou conheceram na prática.
"A inocência é uma cega, surda e paralítica a quem a imbecilidade humana coroou de rosas. É o emblema humilhante da submissão e da escravidão em que (...) costumam viver quase todas as mulheres honradas depois de se casarem."
Ou seja, essa pressão para que as mulheres preservem a imagem de Santinhas Inocentes instrumentaliza o processo de tolhimento da liberdade feminina; afinal, uma anjinha pura não pode sair por aí fazendo tudo o que quer, pode? Na visão de Eugenia, portanto, a cobrança de uma postura inocente é propriamente o que restringe as mulheres à vida ordinária e cotidiana. 

Nossa heroína mostra-se resoluta a derrubar todas as paredes:
"(...) a parede espessa do misterioso e do proibido! (...) Acha possível viver sempre assim, como uma pária, à margem do movimento e da vida? Ah, não, mil vezes não!... Felizmente, já derrubei todas essas paredes. Saí a plena luz (...)"

*Só que*: como mencionei, a querida Eugenia, a despeito de seus esforços/leituras/etc, persiste carregando muita inocência em sua pobre alma e, pelo jeito, seu espírito afoito garantirá que ela se livre, na prática, de boa parte desse peso. Será isso mesmo? Vamos acompanhar. 


⤳ Tio Pancho retorna  com novas informações e comentários curiosos a respeito da sociedade caraqueña e da Venezuela de modo geral; dessa vez acompanhado de Olmedo, Galindo e Alberto. 
(= notar o vício das fontes.)

Novamente as personagens enfatizam algo que consideram determinante para a situação delicada do país: a Venezuela atravessava um período de gestação sociológica e de fusão de raças, cuja principal característica era a anarquia. Imagino que, naquela época, esta tenha sido uma corrente teórica popular na área das ciências sociais e antropológicas; entretanto já superada? Será? Poderia a miscigenação, de fato, ser a responsável por uma suposta tendência ao caos ineficiente de um Estado?! Existiria alguma lógica nisso, ou é mero racismo realmente? De qualquer jeito, na visão das personagens pertencentes ao topo, digamos, da pirâmide social da Venezuela, essa era a crença. Aliás, um peso grande de responsabilidade também é atribuído às características do processo de independência daquele país. Segundo Olmedo, um tal "espírito caudilhista" é o preço que pagam por terem promovido a independência na América Latina. Lendo esse livro em pleno século XXI, ciente da situação política da Venezuela nas últimas décadas, não há como conter um assombro jocoso diante desse comentário e de frases como esta:
 "(...) nosso espírito caudilhista nasceu nas gloriosas sementes da Independência, (...) é uma erva daninha que precisamos cortar..."
Ah, e para conceder uma boa contextualização dessa frase, é mandatório destacar que ela é citada por Gabriel Olmedo, um rapaz de trinta anos que pretende ficar rico através da política e da exploração do petróleo venezuelano, iniciada com a ditadura de Juan Vicente Gómez. É tudo tragicômico demais. E bastante ~familiar~, vale ressaltar. 

Pancho mais uma vez expõe sua convicção de que a presença do sangue negro na construção social venezuelana responde pelo amor da nação ao carnaval, pela prodigalidade e exuberância populares. Aqui, de novo o processo de Independência entra como responsável pela mistura de raças na Venezuela, porque, ainda segundo tio Pancho, as mulheres "se divertiram muitíssimo" em meio àquela bagunça toda e: deu no que deu.
"(...) tradição desde a guerra de Troia (...): enquanto os homens realizam façanhas, (...) as mulheres, que no fundo são mais moderadas e ostentam bem menos, reclusas na sombra, cobrem-se em silêncio com a glória do amor e dos beijos."
Essa questão racial chama recorrentemente a atenção, em especial quando algumas personagens - destaque para María Antonia -, preocupam-se tanto em afirmar que descendem de uma genealogia "branquíssima", tendendo a refutar qualquer acusação de mulatismo. Achei intrigante, principalmente porque eu não conhecia esse aspecto da sociedade venezuelana.

⤳ Para finalizar, incluo a música tocada ao piano por Eugenia, a mesma que fez o canastrão Olmedo perder a cabeça e declarar-se "apaixonadamente" a nossa querida heroína. Play!

♫・* "Ah-a-a-ah! Cie-li-to-lin-do!" ♫・*

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