16/05/2018

[DL #03] Ifigênia - Teresa de la Parra


Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)
Postagens Anteriores: DL#01, Anexo#01, DL#02.

PARTE 3
Em Direção ao Porto de Áulis


Na entrada anterior deste meu diário, compartilhei minha noção de que Ifigênia combina elementos de romance de formação e romance de costumes. Certo; pois complemento que Parra escolhe também explorar o universo das distopias! Nesta terceira parte do livro, surreais cenas de horror jamais antecipadas por mim são protagonizadas por uma Eugênia quase irreconhecível. Continuo bem abilolada por conta do que ocorreu à querida personagem, porém farei um esforço para tentar organizar alguma ideia.

⤳ Há um intervalo de dois anos entre os eventos narrados na segunda e terceira partes de Ifigênia, e o comecinho desta é marcado pela exposição da justificativa da retomada de escrita do diário. A Eugenia "do presente" relê os escritos da Eugenia "do passado" e documenta (brevemente) as impressões que suas palavras pretéritas lhe despertam. Assim, a estrutura narrativa deste trecho  oferece uma fascinante contrapartida ao que eu mesma escrevi na entrada anterior deste diário. No DL#02, registrei meus pitacos concebidos a partir da leitura daquilo que a protagonista escreveu, e agora a própria protagonista repete esse exato processo. No geral, me pareceu que nossas visões sobre a Eugenia "do passado" se harmonizam bem.

Como também mantenho um diário (ainda que virtual, público e temático), obviamente me chamaram atenção as considerações que a protagonista faz a respeito da experiência de reler, após transcorrido certo tempo, aquilo que escrevemos. Trata-se de uma espécie de viagem temporal rumo ao encontro com um outro "eu" que, na maioria das vezes, se apresenta como uma figura completamente estranha a nós mesmos. Considerando-se, portanto, que essa releitura revela-lhe o valor psicológico de tais textos, material rico para um processo de auto-análise, Eugenia acaba reconhecendo seu equívoco cometido no momento em que chamara de ridículo o hábito da escrita de diários. (Não disse que Eugenia está mudada??!)


⤳ Quanto à trama especificamente, nossa heroína não tarda em revelar a grande novidade da sua vida: habemus sponsae! - temos um noivo! Que nem é Gabriel Olmedo!! Não, o camarada é um tal César Leal, Doutor em Leis, Senador da República e atual Diretor do Ministério do Fomento. E é aqui, no imbróglio desse noivado, que as cenas distópicas com uma Eugenia (meio que) transfigurada são descritas, para desconsolo do leitor. Esse pamonha chamado César – nem a pau o chamarei pelo sobrenome, como ele impõe à própria noiva -, em resumo, encarna todo o machismo, misoginia e pedantismo pseudointelectual DO MUNDO!! Eu exagero, reconheço, entretanto não consigo expor de outro modo, tamanha é minha estupefação. <PAUSA> Será que exagerei de fato? Segue uma breve curadoria de comentários (de/sobre) e ordens do moço César:
"(...) desenvolveu suas sensatas e bem fundamentadas teorias sobre a moral, cujos pilares se assentam na absoluta pureza e severidade dos costumes femininos." 
"(...) na vida o homem sempre deve se portar como homem, e a mulher como mulher!" 
"(...) meu noivo fica indignado diante da mera ideia de que eu possa estar maquiada, (...)" 
"- Espero que os vestidos não sejam decotados, porque senão você vai perdê-los. Eu nunca, nunca, permitirei que minha mulher use decote!" 
"- Que papel uma mulher casada pode desempenhar nos bailes? E, principalmente, que papel fará um marido que deixa sua mulher dançar em público?" 
"(...) ele não gosta nem um pouco que eu tome qualquer iniciativa que não seja sugerida por ele, (...) lhe desagrada profundamente que eu possa proporcionar a mim mesma um prazer - por mais insignificante que seja - que não venha de suas mãos." 
"(...) ele odiava (...) as mulheres como eu, que pretendiam ser sábias e intelectuais; que, em sua opinião, a cabeça de uma mulher era um objeto mais ou menos decorativo, completamente vazio por dentro, feito para alegrar os olhos dos homens." 

O mais louco é que Eugenia, no plano consciente pelo menos, exibe enorme satisfação com essa união, feliz por ter “encontrado o amor” e conseguido mudar “para melhor”, ou seja, virar finalmente a perfeita imagem da futura esposa exemplar, comportada, subordinada e obediente ao seu marido.
"Sim, por fim, o amor, esta maravilhosa e transparente libélula, eu a seguro (...) não importa o que tio Pancho diga, meu noivo e eu concordamos em tudo, nos entendemos muito bem e estou certa de que seremos felicíssimos."
Nas palavras dela, sua pessoa submeteu-se a um "progresso moral e material"; eu, no entanto, diria que ela aparenta ter se transformado naquele "zero à esquerda" que energicamente denunciava e rejeitava na primeira parte do livro. Bem, no plano inconsciente, contudo, não tenho tanta certeza se Eugenia realmente está assim tão satisfeita com o rumo das coisas.

Aliás, a passagem em que Eugenia escuta escondida a reunião em que a família delibera se o pretendente potencial deveria ou não ser aceito, antes mesmo de lançar a questão à principal interessada, remete demais às discussões em que a galera, na peça de Eurípides,  se debruça sobre o impasse "Sacrificar ou não sacrificar Ifigênia, eis a questão.” Não pode ser sinal de bom agouro.


⤳ Em meio à confusão, consegui cogitar algumas teorias que pudessem explicar essa inesperada doideira. Na segunda parte do livro, Eugenia recebe uma carta resposta da amiga Cristina de Iturbe, aproveitando esse mote para descrever, em uma longa passagem, o histórico daquela amizade. Em face desse noivado estapafúrdio, só agora me dou conta de que aquelas informações tinham alguma razão de ser, que não apenas encher linguiça e distraí-la do tédio.

As divagações de Eugenia na segunda parte denunciam ao leitor a enorme influência que Cristina exercera na construção da personalidade de nossa heroína. Foi Cristina, por exemplo, quem despertou-lhe o espírito curioso, a veia estudiosa e leitora. A moça praticamente resgatou Eugenia de uma pasmaceira inerte diante da vida. Pelo tom das palavras da protagonista, supus que Cristina ocupa a posição do Mito a ser conquistado e/ou copiado. Ora, por que não dizer: Cristina estava para Eugenia, assim como Lila estava para Lenu (personagens da Tetralogia Napolitana – Elena Ferrante). Então, minha teoria para explicar a mudança de curso na trama passou a ser esta: já que Cristina estava transbordando de felicidade por conta de um casamento iminente anunciado na carta resposta, à Eugenia não restaria outra saída, senão também casar-se, ainda que com o primeiro palerma que cruzasse seu caminho, e ainda que neutralizando sua verdadeira essência.

Como não concluí a leitura, acrescento outra teoria na forma de pergunta: com essa reviravolta, Teresa de la Parra igualmente tenta demonstrar que, naquela sociedade patriarcal corroída pelo machismo e misoginia (sustentada em grande parte por muitas mulheres, hein), uma moça nas condições de Eugenia, por mais perspicaz e inteligente que fosse, não tinha chances de escapar ao destino fatídico que o meio social reservava às mulheres? Seria isso? A ver.


⤳ Ao lembrar do trecho do livro que destaquei apenas na seção Biblio Journal deste diarinho, fico ainda mais perdida em como encarar a aparente metamorfose de Eugenia. A passagem a que me refiro é esta, uma divagação de Mercedes Galindo:


É um trecho interessante, pois ele desmonta ou, no mínimo, lança fortes dúvidas à possível interpretação intempestiva de que este livro apresentaria uma mensagem de total oposição ao casamento, à entrega da mulher à instituição do matrimônio. A questão a ser criticada pela obra poderia voltar-se muito mais para a maneira com que a dinâmica frequentemente se estabelece: relação de posse associada à subordinação absoluta e ao total aniquilamento da natureza das mulheres promovido pelos homens. Será? Sei lá. Meros devaneios, de verdade.

Estou ansiosa para descobrir de que modo ocorrerá o desfecho na quarta parte. Como a terceira encerra com uma Eugenia lentamente acordando para a percepção consciente das mudanças horríveis que aquele noivado provocava nela, tenho esperança de que a história possa mudar de direção novamente. Para melhor, é claro.

P.S.: ah, e aproveito pare me redimir perante Tio Pancho e Mercedes. Imaginei que os dois passariam a perna em Eugenia; entretanto, até este ponto, eles parecem oferecer os melhores conselhos e intenções para a vida da protagonista. Poxa, Panchito foi o único da família a remar – com um humor corrosivo, é verdade - contra a maré de César.

- Tio Pancho e Mercedes: perdão, aí, pessoal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário