23/05/2018

[DL #04] Ifigênia - Teresa de la Parra



Em 2018, inicio a leitura de Ifigênia pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das quatro partes que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço praticamente tudo sobre ele. 

Livro: Ifigênia - Diário de uma moça que escreveu porque estava entediada.
Autora: Teresa de la Parra
Edição adotada:  Editora Carambaia, 1a. edição (2016*), 550 páginas. / Tradutora: Tamara Sender.
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1)clique aqui (2) (* Livro originalmente publicado em 1928)
Postagens Anteriores: DL#01Anexo#01DL#02, DL#03.

PARTE 4
Ifigênia

Nem de longe previ o soco desferido pelo arremate final de Ifigênia. Calma, não quero dizer que a autora caiu no famigerado trope do “ass-pull” (= “tirou do c*”). Não; é justamente o contrário: nesta parte final, Parra resgata vários elementos inseridos anteriormente na narrativa, a fim de criar uma conclusão coesa e extremamente engenhosa para seu livro. O soco a que me refiro ocorreu por conta das características do desenlace em que a vida a autora coloca sua protagonista. Claro, dado que o título do livro é Ifigênia e que revisei essa mitologia durante este mesmo diário (Anexo 01), meu abalo pode soar desarrazoado, entretanto os derradeiros caminhos que Parra faz Eugenia percorrer não me permitiram outra reação.

⤳ Segundo DL's prévios, eu já havia percebido em Ifigênia elementos de romance de formação, romance de costumes e distopia surreal (sendo algo irônica). Certo. Pois, nesta quarta parte, pesquei elementos de romance romântico (lembrou bastante o tom melodramático do Balzac) e de romance psicológico (passagens super favoritas). Para tentar orientar meu emaranhado de elucubrações, farei um resuminho esquemático bem mequetrefe dos últimos acontecimentos da trama:

Tio Pancho adoece → Gabriel Olmedo (formado em medicina, é bom lembrar) ressurge “do nada” para auxiliar nos cuidados paliativos do moribundo → Olmedo cerca apaixonada e obcecadamente Eugenia, declarando-lhe que nunca a esquecera e que está disposto a largar tudo para ficar com ela → e daqui desponta o grande momento de angústia para Eugenia, o auge da quarta parte:


Casar-se, conforme planejado,                        OU                                                            Largar o noivo
com César Leal?                                                                                                      e fugir com Olmedo?
 =
Resignar-se às convenções sociais                OU               Fugir com o amado, lançando-se cegamente
e à expectativa da família, casando-se                                                à total dependência de um homem
com um homem que não ama, mas que                       aparentemente apaixonado (só por sua beleza?),  “garantirá um futuro mais seguro”?                               mas que, afinal de contas, largava pra trás uma
                                                                                       esposa (que ele mesmo reconhece que era uma
                                                                                         boa pessoa, isenta de qualquer culpa), sem dó                                                                                                    nem piedade? (= quem garante que não
                                                                                                                                   fará isso de novo?!)
                                                                                                                          
=

Tornar-se um corpo sem alma?                      OU                                  Tornar-se uma alma sem corpo?


Estas questões nada simples tiveram de ser resolvidas por Eugenia no prazo de uma mísera noite. E, a esse tempo exíguo, somou-se ainda uma outra dificuldade: em meio à confusão noturna envolvida na tentativa de formação de um juízo, Eugenia é assombrada pela inesperada presença de sua tia Clara, aquela que, conforme antecipei acertadamente em DL's anteriores, personifica  o espectro premonitório do tipo de desgraça que recairia sobre Eugenia, caso ela fizesse a escolha errada. No entanto, a grande questão que resta ser respondida é: algumas daquelas duas opções realmente manteria a luz da heroína acessa? Havia caminho acertado? Sendo explicita: será que Eugenia já não estava lascada de qualquer jeito, independente de sua escolha? Minha conclusão no DL#02, aquela sobre a liberdade da mulher caraqueña, inevitavelmente volta a ressoar na cabeça: "Às mulheres, é prisão antes, durante e depois (do casamento)." 
“(...) o único objeto da fé é a esperança! E é tão necessária, sobretudo para nós, pobres mulheres, que andamos pela vida sempre, sempre, com a resignação pesando em nossas costas... o senhor vê; resignação para nos entediar, resignação para esquecer os ideais que não podem existir, resignação para nos calar e para que em nós tudo se cale sempre... ah! tanta, tanta resignação (...)"
⤳ Após publicado o DL#03, me questionei se, talvez, eu havia enxergado cabelo em casca de ovo ao lançar uma luz tão intensa sobre o tema do “matrimônio”, contudo a encruzilhada de Eugenia e o destaque para o símbolo do vestido de noiva demonstraram que não acertei tão longe do alvo.

Aqui, a narrativa intensificou ainda mais suas duras críticas ao deus milenar de sete cabeças que chamam de sociedade, família, honra, religião, moral, dever, convenções e princípios; aquela divindade que exige que as pessoas renunciem a todos os seus sonhos e desejos mais íntimos, em nome da sujeição plena às convenções, leis e códigos morais por ela definidos. E é sobre a mulher, especialmente em um meio patriarcal e machista como o de Caracas do começo do século XX, que o domínio desse deus dá-se de modo mais cruel e sem chance de escapatória – demonstrado pela sina de Eugenia.

Naquela sociedade caraqueña, o que o deus de sete cabeças predefinia para toda e qualquer mulher é um casamento marcado pela subordinação obediente e jubilosa ao marido (= risco de tornar-se um corpo sem alma). A mulher poderia até livrar-se das garras desse seu plano, porém cairia no limbo simbolizado, nessa narrativa, pela personagem de tia Clara, que é:
a vela votiva cujo fogo idealista vai consumindo pouco a pouco a própria vida; e sua vida é a luz mística e perseverante que, esquecida de todos, arde na sombra, (…). 
No projeto “divino” estabelecido para aquela Caracas, a mulher entra completamente desamparada, digo, ela não recebe quaisquer ferramentas que lhe permitam lutar por uma vida independente e livre dos desígnios preestabelecidos. Para não dizer que não recebe nada, reconhece-se que o referido deus concede-lhe apenas a beleza (aqui entram os caprichos da divindade: umas ganham; outras, não), arma fugaz com a qual ela deve fisgar um marido, caso ela queira sobreviver. Expirada a beleza, já era!; a moça perde o jogo. O prêmio de consolação é seguir, como dito, os passos da tia Clara, a quem sobra canalizar a torrente de vida na tediosa beatitude solitária.
"(..) vislumbrei nitidamente a catástrofe quase certa de minha vida se eu perdesse agora essa oportunidade de me casar. Se vovó morresse, haveria anos de luto, e depois do luto... ah!... depois do luto, no caso de que houvesse morrido também o imenso poder de minha beleza, minha única razão de ser, só me restaria como projeto de vida a mesma existência de tia Clara, eternamente humilhada e reclusa junto a tia Eduardo e sua família..."
Trazendo o nó deliberativo de Eugenia para esse raciocínio: quando ela não fosse mais uma beldade, o suporte de Olmedo continuaria realmente assegurado? Será?
"(...) Gabriel , que está vivo, e é forte, e é jovem, e é rico, e me ama loucamente e me fará feliz, e me amará para sempre... sim!... me amará para sempre!... me amará para sempre!... Ah!... Me amará para sempre?"
Se ele a abandonasse, o que ela poderia fazer? Tendo em mente o universo de onde ela veio e o contexto em que sua única posse era a beleza, não seria justo julgá-la precipitadamente de medrosa ou coisa parecida por conta dessa dúvida paralisante.

Creio que, novamente, vale destacar uma ressalva anotada no DL#03: Ifigênia não pretende, me parece, execrar o casamento e provar que ele deve ser totalmente excluído da trajetória de toda e qualquer mulher. A meu ver, a história apenas demonstra que essa instituição não pode simplesmente ser imposta às mulheres na forma de única opção "viável", principalmente em decorrência dos pormenores com que ela tipicamente funciona nas sociedades patriarcais e machistas. Às mulheres, é preciso que sejam conferidas/conquistadas, isto sim, condições para o exercício da plena liberdade de escolhas, a partir de possibilidades de direções diversas e reais.

⤳ Esses devaneios acabaram me fazendo recordar uma recente campanha organizada pelo governo de meu estado para celebrar o 08 de Março. Na entrada do metrô, montou-se uma galeria com inúmeras fotos posadas e muito bem produzidas de mulheres, acompanhadas por frases que nos encorajavam a nos sentirmos sempre belas. Confesso que, por mais que eu pensasse na alegria daquelas que ilustravam as imagens, o tom daquilo tudo me trouxe um desconforto e, por que não, um aborrecimento difícil de ignorar. Não sei se distorço o texto de Parra - é possível - porém noto que ele me ajudou a entender a razão da minha torcida de nariz para a campanha aparentemente bem intencionada do governo.

Considerando-se que a beleza, quando desponta como arma única da mulher, não a liberta, mas somente reforça os grilhões colocados nos tornozelos femininos por aquele deus de sete cabeças, quais benefícios seriam obtidos através de uma campanha daquela? Pra que reforçar a já enorme exigência, apego e valorização que as mulheres depositam em suas belezas físicas; algo que, por sua efemeridade (ainda mais por sujeitar-se às variações das regras ditadas pela mídia e padrões sociais correntes), não garante munição para lutar contra aquela maldita hidra social? Não dá. O caminho da liberdade feminina não passa pelo reforço dessa ferramenta pífia - ~beleza~-, mas, sim, pela conscientização de que outras, de desempenho muito mais eficiente, precisam ser conquistadas.

⤳ De outro lado, em mais uma dessas felizes sincronicidades que vira e mexe me apanham, eis que, assistindo dia desses ao episódio quatro da antiga série O Poder do Mito (1988)*, Joseph Campbell me aparece para acrescentar mais uma intrigante camada à relação que Parra estabelece entre casamento e sacrifício:
"O casamento é um relacionamento. Quando você se sacrifica no casamento, você não o faz pelo outro, mas pelo relacionamento. Isso é simbolizado, por exemplo, na imagem chinesa do tai-chi; o Tao, com a parte escura e a parte clara interagindo - um símbolo bem conhecido -, é a relação de yang e yin, macho e fêmea, que é o próprio casamento. No casamento, você não é mais você; você é o relacionamento. Assim, eu diria que o casamento não é um caso de amor, mas sim uma provação. E a provação é o sacrifício do ego em benefício do relacionamento, através do qual uma dualidade se torna unidade não apenas biológica, mas essencialmente espiritual."
- Joseph Campbell, The Power of Myth - Episode 04 Sacrifice and Bliss.

[* = aliás, a série foi uma recomendação da @leticiaplease. - Obrigada, Leticia!

⤳ (Para finalizar:) Não sei se extrapolo - "é possível" No. 02 -, contudo acredito mesmo que a prosa de Parra surpreendentemente concede espaço para um breve flerte com o feminismo negro. Através das falas da personagem Gregória, a autora venezuelana reconhece explicitamente que as coisas funcionam de modo bem diferente para as mulheres negras; assim, exigindo medidas/armas igualmente distintas.
(fala da própria Gregória:)
"Sim, bem negra, e bem feia, e tudo o que você quiser, mas nunca me faltou quem me dissesse algo, esta é a mais pura verdade!... E se não me casei foi porque eu não quis entrar em questões de casamento, porque sempre acreditei que o casamento só foi feito para gente fina...! Sim, sim, as negras casadas ficam pretensiosas e sofrem muito com a questão da cor e além disso têm de aguentar insultos, e até pauladas, do marido, e calar a boca, e ir aonde eles mandam, e sofrer um bocado para sustentar a respeitabilidade..."
*** 

- Eugenia, agora minha Imaginação assume o mesmo papel que Goethe exerceu sobre o destino de Ifigênia: ela a resgata e a joga uma vez mais no mundo; momento, então, em que ela a abandona, para que você seja efetivamente livre para viver a vida segundo suas próprias escolhas. Esse, sim, é o ponto em que nos despedimos. Adeus, querida María Eugenia. 

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