19/10/2018

[Alinhavando] Birds flying high, you know how I feel


Justamente quando a vontade de resgatar este bloguinho das cinzas (tal qual uma Fênix majestosa) veio apoquentar meu juízo, eis que pássaros começaram a sorrateiramente se apossar de meus pensamentos. Esse tipo de sincronicidade sempre me encanta, ainda que me assuste um tantinho. Presumo que seja medo de falhar na decodificação de uma suposta mensagem enviada pelo... Cosmos? Pelo Desconhecido todo-poderoso? De qualquer modo, alinhavarei aqui os sinais que me foram apresentados na tentativa de revelar algum tipo de sentido.

A sequência sincrônica se inicia a partir das minhas saídas do trabalho (sempre esse maldito/bendito). Após registrar no ponto o fim de mais uma jornada, saio para a rua e ponho-me na calçada a esperar o transporte oferecido pelo empregador. O peso do elefante que senta sobre meu peito nessa ocasião invariavelmente faz com que eu levante a cabeça para o céu em busca de ar. Não raro, essa é a hora em que avisto um urubu solitário voando alto, muito alto. A visão desse animal planando sozinho tão placidamente a uma incrível altura que aterroriza os anais da acrofobia e assusta os mais suscetíveis a sinais de mau agouro - afinal, é um urubu! - na verdade me concede o alívio de suspender o elefante. É uma imagem que injeta o fôlego potente que insufla meus pulmões e todo meu corpo, tornando-me leve o suficiente para voar junto daquele incrível pássaro. São preciosos segundos durante os quais sou socorrida da asfixia para ser inundada de uma generosa paz. Como o céu costuma estar bastante claro e com nuvens espaçadas, acabo me lembrando frequentemente da G.H. concebida por Clarice Lispector; do desejo dela de juntar-se à massa branca. Quando meus olhos avistam o urubu flutuando tão livre em tamanha altitude, acredito observar a imagem que efetivamente representa um significado razoável para a ideia de juntar-se à massa branca. A personagem Lila, de Ferrante, também aproxima-se de mim durante esses transes. Eu, G.H. e Lila, portanto, nos reunimos ansiosas para apagar as margens que nos impedem de se dissolver com o mundo.
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Curiosa, catei o livro de Cirlot sobre símbolos em busca do que a figura do “pássaro” representa. Nas primeiras linhas, uma informação e tanto:
"Every winged being is symbolic of spiritualization. The bird, according to Jung, is a beneficent animal representing spirits or angels, supernatural aid, thoughts and flights of fancy. / (Tradução livre:) Todo ser alado é símbolo de espiritualização. O pássaro, segundo Jung, é um animal beneficente que representa espíritos e anjos; ajuda sobrenatural, pensamentos e imaginação.”
J.C. Cirlot; Dictionary of Symbols.
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O próximo ponto deste alinhavo faz-se então com uma querida música que me foi devolvida por uma playlist do Spotify. Certo dia, quando voava alto em um daqueles transes, esta foi a canção que saiu dos fones:


Naquele instante, ative-me somente à coincidência de ter os devaneios invadidos por mais um pássaro, entretanto a constante necessidade de retornar àquela canção começou a me alarmar. Por que eu insistia em voltar para aqueles versos, para aquela melodia?
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Thom Yorke (sempre ele) surgiu para me apontar a direção do próximo ponto desta costura. Em um vídeo ensaio sobre a presença das músicas do Radiohead no cinema (link aqui), fui confrontada com este comentário de Yorke:


Em tradução livre, ele disse: "Música é basicamente como matemática. Nós tentamos criar padrões que nos permitem entender o que está a nossa volta. Padrões que nos ajudam a encarar mais um dia." Ao ouvi-lo, subitamente fez-se o estalo: One Dove apareceu para me ajudar a entender porque o voo do urubu está me hipnotizando com tanta frequência; me amparando (um urubu!).

A melodia de One Dove, por si só, me proporciona um enorme acalento, quase como se minha alma abandonasse a prisão do corpo. Mas e a letra? As palavras que Anohni canta tão lindamente estariam expressando meus próprios sentimentos? Pois quais são elas? Vejamos:

One dove                                                                                                                               
You're the one I've been waiting for                                                               
Through the dark fall                                                                                 
The nightmares, the lonely nights                                                              


One dove                                                                                                                                   
To bring me some peace                                                                                    
In starlight you came from the other side                                                            
to offer me mercy, mercy, mercy                                               

Eyes open, shut your eyes                                                                               
Eyes open, shut your eyes                                                                               
Eyes open up                                                                                                                           


Sim, Thom, o padrão matemático dessa canção tornou meus sentimentos bem mais claros. Largar o peso da angústia, descolar-me da calçada para voar nas alturas com o urubu = Interromper a queda na escuridão e fechar os olhos em direção à misericórdia. Há um outro significado muito mais profundo e palpável que manterei nas entrelinhas da música e comigo mesma. *~Entendedores entenderam~.
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A seguir, tratei de desvendar uma certeza íntima de já ter me deparado com certo poema que expressa exatamente o que Thom havia dito a respeito de músicas. Poemas - como obras de arte em geral, sim? - existem para nos ajudar a compreender aquilo que nos cerca, aquilo em que estamos imersos. Nossa realidade, enfim.

Inicialmente, acreditei que pudesse ter sido com a Pizarnik e, ao folhear a respectiva coletânea da poeta argentina (Editora Relicário, Tradução: Davis Diniz), foi isto que saltou-me aos olhos:
     
   
     Poema

     Tu eleges o lugar da ferida
     onde falamos nosso silêncio.
     Tu fazes de minha vida
     esta cerimônia demasiado pura.

                        - Alejandra Pizarnik


Se trocarmos "poema" por "música", a revelação se mantém, concorda? Muito bem; só que eu continuava inquieta devido à sensação de que ainda não era isso que eu buscava. Saquei então a coletânea de Orides Fontela (Poesia Completa, Editora Hedra) que, no momento, sigo lendo lentamente e, ao folhear displicentemente as páginas, dei de cara com isto:

 
    Dispersão

    As aves se dispersaram
    em céus mais infinitos

    criaram distâncias exatas
    linhas puras de ser no tempo

    fugiram em palpitações
    de nitidez absoluta

    além da aparência perderam-se
    intactas, na existência.
                                                                                         
                               - Orides Fontela

É engraçado pensar que esse poema, que agora adquire tamanha dimensão particular, sequer estava dentre aqueles lidos que eu havia destacado separadamente por ter me tocado de modo especial. E é fabuloso notar que os versos finais de Fontela [ = "perderam-se intactas, na existência."] parecem ratificar exatamente a associação que estabeleci entre meu transe com o voo do urubu e a massa branca de G.H., as margens dissolvidas de Lila. Espero que você aí do outro lado, Passarinho (vc está aí, né?), também esteja arrepiado com a doideira desta sintonia.
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Max Blecher surge, agora, para cravar o ponto final neste alinhavo
extraordinariamente sincronizado. As atuais discussões políticas (ou falta de, convenhamos) em que me vejo rodeada atualmente no Brasil me fizeram pensar demais no livro Acontecimentos na Irrealidade Imediata, tendo em vista que as coisas absurdas, grotescas e aterrorizantes que ando lendo/vendo/ouvindo têm me despertado sentimentos similares àqueles do protagonista da obra do romeno Blecher. Desconectado de uma realidade cuja compreensão escapa-lhe por completo, aquela personagem anseia desesperadamente por tentar construir alguma forma de realidade alternativa e, simultaneamente, reconstruir-se.

Ok. Daí, a inspeção aleatória dos meus prévios grifos no livro me devolveu esta passagem:
Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Traduzido do romeno por Fernando Klabin
Cosac Naify 2013
E a verdadeira mágica é que os grifos da imagem já estavam no meu livro - lido em 2015 - desse exato jeitinho. Sou forçada a novamente afirmar: é isto. Sim, Blecher, é o que quero: tirar o elefante do peito, tornar-me uma mulher-pássaro vaporosa capaz de dissipar suas margens para juntar-se à massa branca e perder-se na existência.

Ora, pois não é que Antony and The Johnsons também já elaboraram (em 2005) os padrões matemáticos que expressam exatamente esse meu desejo íntimo? Falo da canção Bird Gerhl (= A Garota Pássaro).
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly




Pera, pera, pera... Eita, será que o Cosmos está se valendo de toda essa sincronia pseudo-poética tosca para que eu perceba e admita que, no fundo, quero ser... A MOMO??!! Mas que merda, hein?

Epa, e se eu já for a Momo? 
**The X-Files theme song plays in the background**