29/11/2018

[DROPS - Estilando & Cine] Um fantasminha camarada


No estilo da última madrugada aterrorizante, finalmente arrisquei reproduzir em desenho uma das minhas cenas favoritas do filme A Ghost Story (2017), de David Lowery [⭐(💛)].

Aliás, esse filme é largamente inspirado em um excelente microconto de Virginia Woolf. Transcrevo aqui o parágrafo final lindo de morrer (ops!) de A Haunted House; o qual dialoga diretamente - e bem (na minha opinião etc®) - com o roteiro de Lowery. (grifos meus:)
“Safe, safe, safe,” the heart of the house beats proudly. “Long years—” he sighs. “Again you found me.” “Here,” she murmurs, “sleeping; in the garden reading; laughing, rolling apples in the loft. Here we left our treasure—” Stooping, their light lifts the lids upon my eyes. “Safe! safe! safe!” the pulse of the house beats wildly. Waking, I cry “Oh, is this your buried treasure? The light in the heart.”
                                                                                                      - Virginia Woolf; A Haunted House

(**Não manjo nada, hein; isto é uma mera atividade recreativa terapêutica. 😉**)

24/11/2018

[Alinhavando] To ring or not to ring, that is the question


Eu, Daniela, uma lazarenta spinster balzaquiana sem muita vergonha na cara, faço parte da tripulação de um ship de série de TV. Shippo, não nego, paro quando puder. Se inicio esse alinhavo com tão embaraçosa confissão, é porque tomei uns cruzados de direita, cravados por leituras recentes, justamente porque o ship me fez baixar a guarda. Explico.

Em companhia dos colegas tripulantes do ship, aturei muitas idas e vindas rocambolescas e estapafúrdias de meu glorioso One True Pairing - OTP; todas porcamente arquitetadas por incompetentes roteiristas sem coração. A despeito dessas amargas intempéries, toda a tripulação permaneceu firme e, após longos anos repletos de raiva e dor, obtivemos finalmente a sonhada recompensa: nosso casal foi reconhecido canon e o casamento oficial aconteceu. Pronto; agora é o momento da segunda revelação constrangedora: cada vez que o OTP aparece em cena e a câmera enquadra graciosamente as alianças nos dedinhos dos dois, eu banco a tonta assim: 💖😍💖 (Estou velha demais pra posar de fangirl adolescente; mas é que eles estão super bonitiiiiiiinhos.) Embora eu não estabeleça um diálogo próximo com outros tripulantes do ship, pude perceber, mediante comentários em sites diversos, que essa reação parece ser compartilhada por muitos. Em rápido levantamento retrospectivo, consegui localizar este exemplo:
Enfim, esse lero-lero introdutório serve para demonstrar que, nos últimos meses, meu lado romântico está embriagado pela imagem da aliança matrimonial. Nesse estado deplorável, acabei servindo de presa fácil para uns textos que ~meio que~ descem o sarrafo na marmota aliança de casamento. Hum, seria mesmo uma marmota? Cenas dos próximos pontos do alinhavo.
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O primeiro peteleco partiu de um trecho do livrinho ali ↰. Atualmente escalo (a sofridos passos de tartaruga) essa tal Montanha Mágica concebida por Thomas Mann e, em certo ponto da subida, apareceu um papo a respeito de alianças que, claro, imediatamente despertou minha atenção. 

O lance começa com moço Hans Castorp, o protagonista paspalhão que está lá todo suspirando por Mme Clávdia Chauchat, paciente russa do Sanatório Internacional Berghof. Aproveitando a pasmaceira que reina no lugar, Hans puxa conversa fiada com a professora Engelhart, vizinha de mesa dele, a fim de obter informações sobre o crush.

Dentre as curiosidades que Hans deseja apaziguar, consta a preliminar necessidade de confirmar se Cládvia é casada. Como o bobalhão não avista aliança no dedo da moça, ele desconfia do relato prévio de que o crush é uma senhora oficialmente comprometida. Já que quem pergunta o que quer, ouve o que não quer; ao externar tais questionamentos, ele acaba tendo de escutar um textão lacrador da senhora Engelhart. Aliás, ele e eu. Acho? Bom, para a senhora Engelhart, essa coisa de aliança é prosaica e negativa; mero símbolo de servidão que confere às mulheres um quê de freira, um quê de florzinhas não-me-toques. Visto que a professora sabe por fontes seguras que Mme Chauchat é, sim, casada; Engelhart conjectura que a russinha, sendo tão jovem e moderna, simplesmente não deve ter vontade, nem ver motivos para mostrar seus laços conjugais a todo cavalheiro que lhe aperta a mão. Engelhart supõe que Cládvia julga o uso de aliança um costume burguês (😀 eita), afirmando mesmo que "andar assim com uma argola lisa no dedo - só falta o molho de chaves num cestinho..." E aí; que tal o discurso da professora? Minha deusa interior feminista interior, até então inebriada pelo suposto gaslighting (?) promovido pelo ship casado, reagiu deste jeito (imagens reais):

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E não parou aí, pois em seguida acabei vítima de outra bordoada desferida por - ninguém mais,
ninguém menos que - Angela Carter. Especificamente, o golpe partiu do conto The Bloody Chamber, versão da autora inglesa para o conto de fadas O Barba Azul, escrito originalmente por Charles Perrault. A narrativa de Carter atira símbolos para todos os lados e, evidentemente, a aliança surge majestosa no meio do tiroteio.

A protagonista do conto é uma humilde mocinha virgem de apenas dezessete anos que se casa com um rico marquês que já tinha despachado para o caixão três esposas. Quem conhece o conto de fadas que serviu de inspiração sabe o destino final que aquelas pobres mulheres efetivamente tiveram. No contexto dessa obra, a aliança - precisamente, uma solitária opala:

(1) É símbolo da longa sucessão de mulheres que padeceram nas mãos de homens violentos e opressores. A linhagem de dedos femininos ornados pela opala, antigo presente de Catherine de Medici (!), remonta à avó do marquês e inclui todas as esposas que repousavam eternamente na câmara sangrenta do marido algoz. E, se dependesse das intenções do Barba Azul de Carter, a continuidade da genealogia conjugal estaria garantida através do anel que ele faz questão de exigir de volta.
"Give it me back, whore." 
The fires in the opal had all died down. I gladly slipped it from my finger and, even in that dolorous place, my heart was lighter for the lack of it. My husband took it lovingly and lodged it on the tip of his finger; it would go no further. 
"It will serve me for a dozen more fiancees," he said. "
(2) Integra toda a parafernália que representa o exílio doméstico da heroína. A visão do brilho da opala obriga a protagonista a reconhecer que, por conta de sua ingenuidade e inexperiência, ela havia se deixado seduzir pelas riquezas do marquês.
"My first thought, when I saw the ring for which I had sold myself to this fate, was, how to escape it."
(3) Simboliza a relação de poder; a posse do marido que, sem maiores surpresas, exige que a esposa exiba a opala inclusive por cima da luva. A imagem da aliança sinaliza aos demais que aquela mulher era um objeto que tinha dono. 
"My husband liked me to wear my opal over my kid glove, a showy, theatrical trick -- but the moment the ironic chauffeur glimpsed its simmering flash he smiled, as though it was proof positive I was his master's wife".
(4) (de arrepiar os cabelos:) Representa o marido onipresente; a opala, os olhos do esposo que tudo vê.
" The light caught the fire opal on my hand so that it flashed, once, with a baleful light, as if to tell me the eye of God -- his eye -- was upon me."
Obviamente, a vozinha da feminista interior veio me aporrinhar de novo os pacovás:

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Posteriormente, dei asas às minhas tendências mexeriqueiras ("shame on me" número 3) para investigar se, conforme eu tinha passado a suspeitar, o símbolo da aliança surge em algum verso de Sylvia Plath com conotação similar àquelas encontradas nas recentes leituras. Dado o que conhecemos da biografia de Plath, notadamente do casamento dela com Ted Hughes, a bisbilhotice espontaneamente surgiu. (Perdão?) Bom, dei de cara com isto (grifos meus):

The Couriers

The word of a snail on the plate of a leaf?
It is not mine. Do not accept it.

Acetic acid in a sealed tin?
Do not accept it. It is not genuine.

A ring of gold with the sun in it?
Lies. Lies and a grief.


Frost on a leaf, the immaculate
Cauldron, talking and crackling

All to itself on the top of each
Of nine black Alps,

A disturbance in mirrors,
The sea shattering its grey one——

 Love, love, my season.

E isto:

The Rabbit Catcher (* incluí apenas a estrofe final:)

(...)

And we, too, had a relationship——
Tight wires between us,
Pegs too deep to uproot, and a mind like a ring
Sliding shut on some quick thing,
The constriction killing me also.


Continuei alimentando minhas tendências conspiratórias, dessa vez com Ana Cristina César e, por coincidência (?), a metáfora da aliança como espécie de objeto constritor que sufoca, que tolhe a liberdade feminina (algo próximo ao poema de Plath...?) também aparenta estar presente:
(Por favor, focar no "aparenta", porque 1. não manjo de poemas, 2. desconheço detalhes da biografia de ACC)


Sábado de aleluia (* incluí apenas alguns versos:)

(...)

Eram brincos caídos
e um anel de jade que selasse numa dura castidade
minha fúria de batalha
que viaja e volta.


                                                                                        ---

Considerando-se que a toca do coelho já se encontrava aos meus pés, decidi me atirar; porém sem me aprofundar, admito. Realizei somente uma googlada fajuta que pudesse confirmar resumidamente a história básica: quando e como, afinal de contas, começou a tradição da troca de alianças em casamentos? Rá!; “troca”?! A primeira questão crucial que esqueci de notar refere-se exatamente à inexistência de uma troca nos primórdios dessa prática. O uso compartilhado do ornamento por casais é agora tão popular e dominante, que de fato meus devaneios não atinaram que homens casados só começaram a ornar seus dedinhos com um anel a partir da segunda metade do século XX (!). Essa mudança, pelo que apurei, teria sido preliminarmente patrocinada pelos combatentes da 2a. Guerra Mundial, para quem o objeto simbolizava uma lembrança afetuosa das esposas e famílias que eles tinham sido obrigados a deixar para trás. Movimentos feministas daquele século também parecem ter exercido algum papel na mudança do padrão. 

A dinâmica social relacionada à histórica presença da aliança em casamentos realmente aproxima-se mais àquela explorada por Carter e defendida por Engelhart, visto que só era usada pelas esposas e usualmente sinalizava que a mulher tinha dono, era propriedade de um marido. E, nesse sentido, meu instinto fangirl sentimental não foi acalentado pela recordação de que as cerimônias de celebração dos contratos feudais frequentemente usavam anéis para simbolizar a investidura e os laços de fidelidade firmados entre suserano e vassalo durante a idade média. (Holy shit)

O uso compartilhado do adorno é hoje muito mais prevalente; certo, contudo minha superficial pesquisa revelou uma anedota curiosa que eu desconhecia: o príncipe William esnobou a aliança. Sim, o Duque de Cambridge, segundo matéria que li, alegou ser avesso a joias de todo e qualquer tipo, razão pela qual ele teria optado manter os dedos desnudos. Embora eu considere que o sentido da coisa resta amplamente perdido quando apenas um lado usa a peça; julguei ~tudo tranquilo~ - se os dois estão de acordo, quem sou eu para dar pitaco, confere? Igualmente não embarco na onda "hum, ele quer deixar o terreno livre hahaha", pois a lorota de usar aliança para coibir galanteios de terceiros - uma espécie de sinal vermelho - é por demais tola e disparatada. O legal dessa brincadeira reflexiva, entretanto, correspondeu à indagação provocadora feita pelo jornalista do artigo: e se o único repudiador da aliança tivesse sido a esposa, Duquesa Kate Middleton, hein? Será que a galera estaria de boas se a Duquesa fosse o cônjuge a desfilar por aí sem um anel* no dedo? Ora, ora; veja só. (*Anel que, a propósito, pertencera à falecida sogra traída pelo respectivo marido, o senhor Charles. Oh boy.)

Para arrematar o alinhavo, resgato a pergunta que deixei suspensa na introdução: aliança de casamento é uma marmota? Bem, a despeito do ponto de vista encontrado nas últimas leituras e dos achados da superficial pesquisa, lamento reportar que, após sérias ponderações embaixo do chuveiro, o lado romântico bobinho persistiu levando a melhor em cima da feminista interior. Placar final: sem objeções ao uso *compartilhado* do anel (quem quiser, usa; quem não quiser, não usa); caráter não marmotoso. O resultado foi apertado, é verdade, porém acredito que é o que tenho para hoje


Em minhas toscas divagações, confabulei que gastar energia problematizando um anel significaria desvirtuar-se da real questão: estruturas sociais patriarcais e concretas dinâmicas matrimoniais perniciosas. Pode ser, ou nem? Naquele próprio conto da Angela Carter, por exemplo, a heroína casa-se novamente com um homem capaz de construir uma relação de respeito e companheirismo recíprocos com uma mulher. Conforme também afirma Rosemary Moore, a protagonista "substitui uma relação marcada pelo poder e submissão por outra de afeto e igualdade mútuos." A narrativa de Carter não diz se houve uma nova aliança na parada, mas ousarei lançar a hipótese no mundo ficcional: e se a narradora tivesse afirmado que sim? Essa segunda aliança presumida, naquela nova realidade conjugal, teria valor simbólico equivalente ao da opala reluzente do marquês? Deveria ser igualmente condenada? Sei lá, estou humildemente assumindo que minha ingenuidade lírica teima em não abrir mão do objeto que, para os egípcios, encarnava a vena amoris = a veia do amor que parte do coração até o quarto dedo da mão esquerda. Enquanto dois seres humanos forem capazes de estabelecer entre si um genuíno e recíproco laço afetivo (são? aqui, é meu lado cínico que manifesta uma duríssima contestação), acredito que resistirei à tentação de demonizar em absoluto todo e qualquer objeto trocado para simbolizar, celebrar e reforçar a existência do elo. Aliás, encerro a postagem deliberadamente com a palavra "objeto", em vez de anel/aliança, porque considero imprescindível ressaltar que 1. a ideia à qual me apego aqui não exige necessariamente um anel, 2. nem refere-se necessariamente a uma relação de amor romântico; 3. ah, e tampouco restringe-se a casais héteros, é lógico. Lanço dois caros exemplos ficcionais que representam bem (acho) o teor da defesa que porcamente tentei apresentar. São eles:

 → Anel "BFF - Melhores Amigos Para Sempre", dos amigos Bob Esponja e Patrick:


→ Os colares de caveira usados pelo lindo e apaixonado casal vampiresco do filme Only Lovers Left Alive (💛):

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Ok; hoje, fico de fato com esse posicionamento e escolho continuar a bordo do ship, conservando a empolgação pueril diante das cenas protagonizadas pelas alianças do OTP.  Amanhã? Sequer sei se estarei viva amanhã, portanto: ¯\_(ツ)_/¯

07/11/2018

[Alinhavando & Estilando] Amar um passarinho é coisa louca

🐦 E os passarinhos continuam me fazendo companhia; dessa vez, no estilo da madrugada.

Pontos do alinhavo feitos com: Carel Fabritius, Anna Akhmátova, Jane Bowles, Maya Angelou,
                                                   Donna Tartt, Carlos Drummond de Andrade.

(**Ah, não manjo nada, hein; isto é uma mera atividade recreativa terapêutica. 😉**) 
                 

06/11/2018

[Alinhavando] Má oi; tá ok ou não tá?!

E lá vou eu para outro episódio da série "Se uma agente do futuro tivesse me dito que logo mais eu estaria fazendo X, eu teria mandado um - haha, tá louca, amiga?". O X da vez é escrever sobre política. Inicialmente, a perspectiva de aprontar tamanho despautério me deixou bem apoquentada, porém os ânimos foram apaziguados pelas sábias e certeiras palavras da grande filósofa Leslie Knope (ilustradas acima):
"Política, né?
Fazer o quê?"
                                                                                            - Leslie Knope

Considerando-se que este espaço é um reles diarinho temático pessoal, o que registrarei aqui será um inocente desabafo entremeado de livros, de tal modo que as análises políticas acertadas permanecerão reservadas àqueles devidamente capacitados.

No começo destes trabalhos, apelo (sem muita originalidade) para Radiohead - "2+2=5":

Parece que é isso? Agora, dançaremos a coreografia idealizada pelo capiroto e não adianta espernear? Bom, pelo menos a trupe está dizendo que "é melhor já ir se acostumando", então acho que é isso, sim. Mas, sei lá, esse slogan que o Mestre bolou para nos dar as boas-vindas à nova era soa tão acolhedor e carinhoso, não?  Aquece tanto meu coração, que talvez a gente até se divirta, não? É, pode ser. Será?

De qualquer jeito, a previsão cantada por Thom de que o ritmo da dança mudaria porque eu não estava prestando atenção é definitivamente precisa, portanto meu presente desabafo será caracterizado exatamente pela descrição das tresloucadas fases transcorridas até a queda da ficha.

Bora lá.

[fase da negação]
Quando a referida candidatura do novo coreógrafo despontou de forma consolidada, eu a encarei como uma completa piada - de mau gosto, mas ainda assim uma piada - e estava absolutamente convicta de que todos estavam nessa mesma sintonia. Ou seja, até alguns meses atrás, eu tinha certeza de que nenhum eleitor em sã consciência sequer cogitava tascar um confirma ao lado da foto daquele candidato. Contudo ~certo~ dia, eis que descubro que uma ~certa~ pessoa, de um ~certo~ meio por onde circulo (forçada etc), não apenas votaria naquele candidato, como estava engajada ativamente naquela campanha. De início, chacoalhei a cabeça tentando espantar a confusão promovida pela inesperada descoberta, depois parti para uma tentativa de ponderação racional. Efetivamente, pensei coisas do tipo "nah, tá tudo bem, é só o ponto fora da curva"; "ah, mas dessa pessoa, talvez eu nem devesse ter esperado algo diferente. tá beleza, tudo normal."


[fase da raiva]
O procedimento de negação foi tão eficiente que, por alguns instantes, fiquei ansiosa para compartilhar com os demais colegas a hilária anedota de que tínhamos entre nós uma "maluca" eleitora daquele coreógrafo. Deus deve ter tido compaixão da minha pessoa (às vezes, ele tem dessas), porque antes mesmo que tal vexame ocorresse, fui exposta à autêntica realidade: TO-DOS daquele lugar votariam efusivamente naquela candidatura. Acho que o choque foi tão desconcertante que, durante alguns minutos, embarquei em uma discussão ligeiramente acalorada. Ora, dado que usualmente eu mal falo com aquele povo (todos adoráveis, só que não), minha reação foi um tanto surpreendente.

Dentre treze candidatos, como diabos (ai) aquele poderia ser quem a galera julgava menos pior melhor preparado??!! Será que prestaram atenção nas propostas coreográficas do moço?! Opa, retifico: será que prestaram atenção, por trás da espessa cortina de fumaça moral, na ausência de propostas referentes às questões verdadeiramente primordiais no momento? Nem a própria figura sabe a dança que irá propor, caso assuma o posto, caramba!! E o diálogo? E as discussões, negociações? Ler a Constituição, que é bom, nem parece ter rolado. Ah, e a estratégia à la "O Senhor das Moscas" (William Golding) - alimentar a crença na existência do Bicho (-Papão) para lacrar seguidores obedientes a um líder - ainda cola?!?!
O passo "salvador da pátria milagreiro" ainda não foi superado pelos caros colegas bailarinos?                Depois  da  bizarrice  "Lindo, roubou meu coração",  pessoal  adota  com  gosto o meme de tratamento "Mito!👉👉"?! Trocar João de Panônia, por Aureliano? Mas, mas... WTF??!!


[fase da barganha]
O estágio seguinte correspondeu à radical montanha-russa de devaneios introspectivos nos quais me afoguei. Pelejei para processar toda a novidade e, como tentativa de auxílio, a memória catapultou, à minha reflexiva consciência, alguns livros previamente lidos.

Acontecimentos na Irrealidade Imediata, escrito pelo romeno Max Blecher, aflorou no início das divagações - falei dele no alinhavo anterior, inclusive. Especificamente, resgatei a cena em que a protagonista do livro faz "uma descoberta assombrosa": o quadro familiar que supostamente representava um rei e uma rainha com traços finos e seguros era, na verdade, um amontoado de letrinhas visíveis apenas mediante auxílio de uma lupa. Segue o trecho em que ela expõe sua consternação com a experiência:

Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Cosac Naify, Tradutor: Fernando Klabin

Percebi que a proximidade do dia da eleição operou pra mim tal qual uma lupa: não havia votos do tipo "qualquer candidato, exceto aquele". A pintura que me espreitava consistia em um único traço: "o voto é naquele candidato".

Também me lembrei prontamente da personagem Cassandra; do instante em que ela questiona suas próprias convicções proféticas quanto à queda de Troia e a guerra descabida. Na narrativa do mito grego concebida pela autora alemã Christa Wolf, foi isto que eu havia lido:
Christa Wolf; Cassandra
Estação Liberdade; Tradução: Marijane Vieira Lisboa

Do mesmo modo que Cassandra, eu estava rodeada por opiniões emitidas de maneira tão enérgica, que facilmente titubeei e conjecturei se eu seria a única doida daquela história. Até porque sequer possuo poderes proféticos infalíveis, veja bem. Eu já tinha pleno conhecimento de ser - isto, sim - uma total destrambelhada (minha psiquiatra e terapeuta nem me deixariam mentir), no entanto não tinha ciência de que a dimensão de minha loucura atingia níveis tão estratosféricos. Minha percepção da realidade estaria assim tão desregulada?? Tentei pôr em funcionamento as sinapses que pudessem me fazer perceber a realidade tal qual ela se apresentava ao meu grupo, porém falhei miseravelmente. Não, por mais que me empenhasse, o meu real persistia representado pela asseveração de que aquele candidato era completamente incompetente e inadmissível do ponto de vista moral.

Logicamente, o terror marcou o passo seguinte. O medo de estar isolada em uma ilha e, pior, incapaz de discernir se eu estava na ilha da ignorância ou da clareza, passou a me dominar. Conforme questiona Cassandra: o que significa ter razão?! Essas palavras podem soar exageradas, contudo me senti de fato tomada pelo pavor de ser a lunática solitária que não entende patavina do que ocorre ao seu redor. Esse foi o ponto em que Sanna, a jovem narradora protagonista do livro After Midnight (Nacht Mitternatcht; 1937), escrito pela alemã Irmgard Keun, retornou aos meus pensamentos. Esse livro é muito interessante, pois retrata a rotina, os sentimentos, a realidade (olha aí) dos alemães comuns, digamos, nos anos iniciais (Pré-Segunda Guerra) após a vitória eleitoral de Hitler pelo Partido Nacional Socialista. Imersa na máquina nazista que rapidamente começava a ditar as novas regras de conduta sócio-politicas, Sanna sucumbe algumas vezes ao desespero por simplesmente não compreender aquele horror. Incluo passagens:

Irmgard Keun; After Midnight
Mellville House; Tradutora: Anthea Bell

Sei que seria ridículo comparar o que vivo hoje ao que os alemães viveram naquele período, é evidente, entretanto foco aqui na natureza do sentimento que acredito compartilhar com Sanna, destacando-se em especial que minha percepção da realidade atual teima em denunciar alguns elementos muito similares àqueles que a narradora descreve em After Midnight.

Por fim, subitamente me dei conta de que minha estante contava com um novo livro do Alberto Manguel que incluía um capítulo - o primeiro - cujo título é "Cassandra". E o título do livro, ademais, é "A Cidade das Palavras". Durante uma eleição em que a proliferação de notícias falsas desempenhava aparente papel determinante, um livro cujo título inclui "Palavras" parecia promissor. Através da palavra, Deus criou o mundo; o homem, por sua vez... decidiu eleições?

Logo na largada da leitura daquele capítulo, Manguel me deixou muito feliz, uma vez que ele praticamente ratificou a estratégia reflexa adotada pelo meu cérebro: "deu tilt na decodificação da realidade? voltemos aos livros para tentar recalibrar o processador."

Alberto Manguel, A Cidade das Palavras
Companhia das Letras, Tradutor: Samuel Titan Jr.

Simultaneamente, porém, o autor justificou uma de minhas inquietações pessoais. Manguel explica que a linguagem surgiu há cerca de 50 mil anos "como um instrumento baseado numa representação convencional do mundo capaz de garantir a um grupo de homens e mulheres a convicção, por incerta que fosse, de que seus pontos de referência eram os mesmos e de que suas expressões traduziam uma realidade percebida de modo semelhante." Pois muito bem, a pergunta que me aporrinha os pacová, hoje, é a seguinte: se os indivíduos de uma sociedade permanecem inundados por um lamaçal de notícias deliberadamente manipuladas e falseadas segundo interesses, é possível evitar a formação de amplos abismos entre as diferentes percepções da realidade? A sociedade restaria, assim, fadada a extremismos? Assusta constatar que os próprios elementos que nos permitem construir a realidade estão corrompidos ou, de outra maneira, que muitas vezes sequer somos capazes de identificar o que está ou não corrompido. Na dúvida, galerinha está decidindo esse impasse por conta própria, seguindo o juízo e a conveniência pessoais. Tudo é verdadeiro e falso, simultaneamente, a depender do avaliador. Para piorar, Manguel ainda repete aquela lei do Padeiro, na Caça ao Snark de Lewis Carroll: “Tudo que eu disser três vezes é verdade”. Tudo que é replicado centenas e centenas de vezes em uma rede social, então, vira o quê? Uma ultra-mega-power verdade insuscetível à desconstrução?  <engolindo seco>

Para acalmar meus próprios ânimos, acredito que Manguel sugeriu uma saída: literatura! O argentino recorda que escritores e poetas iluminam a realidade e sempre forçam-nos a reavaliar crenças, arejar definições e questionar respostas. "(...) a linguagem da poesia e das histórias, que reconhece a impossibilidade de nomear o mundo de modo preciso e terminante, nos reúne sob a égide de uma humanidade fluida e compartilhada, ao mesmo tempo que nos confere identidades transparentes." Isso me trouxe um pouco de paz, pois demonstrou que talvez eu não esteja tão biruta quanto imaginava. Meu mundo sempre foi dominado por incertezas, dúvidas, perguntas (e todo o temor que isso provoca, claro); e verificar-me envolta de tanta gritaria incisiva e autoritária não deve necessariamente ser motivo para tamanha inquietação. (- Obrigada, Manguel.)
Alberto Manguel, A Cidade das Palavras
Companhia das Letras, Tradutor: Samuel Titan Jr.

[fase da depressão (*mais)]
Para a depressão, foi um pulo.

A meu ver, a melancolia que me assomou nem era provocada exatamente pela perspectiva de vitória de um coreógrafo que desaprovo por completo. Não; o que mais me angustiava era ter evidenciado, em um piscar de olhos, que me encontrava rodeada por pessoas com as quais eu não conseguia estabelecer qualquer tipo de íntima conexão. Digo, eu não conseguia pensar como os demais, vibrar em suas frequências. Sim, admito que sempre tive dificuldades para me enturmar (Forever Alone Club – Lifetime Member), contudo este fenômeno prodigiosamente piorava as coisas. Drama queen? Pode ser. Afinal, já disse que não sei de mais nada.

Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Cosac Naify, Tradutor: Fernando Klabin

[fase da aceitação]
No fim das contas, tratei de embarcar na onda do bordão vencedor = fui me acostumando (ou quase). Democracia é o que tem para hoje (e para amanhã, e depois, e depois... **espero**), sendo forçoso dançar a coreografia democraticamente eleita, porém sempre recorrendo contra passinhos de dança capengas, através dos meios previstos na regra dos ensaios e apresentações. No mais, torcer, sim? Torcer para que a apresentação transcorra da melhor forma possível, já que estamos em muito maus lençóis. Suspeito, né, sei lá; quem sou eu na fila do pitaco político?


Nessa fase final de resignação, pensei muito no livro A cada um o seu  (título bacana para o momento, não?), escrito pelo italiano Leonardo Sciascia. Em sua obra, Sciascia retrata principalmente o papel da máfia e da igreja católica na política e sociedade italianas nas décadas de 60-80, demonstrando que os conceitos de direita/esquerda, fascista/comunista eram (e são?) fluidos feito água. Na política italiana, o alvo está no Poder. Resguardadas as devidas proporções, acho que há um match entre países, hein.  ¯\_(ツ)_/¯

Leonardo Sciascia; A cada um o seu
Alfaguara; Tradutor: Nilson Moulin

Bom, A cada um o seu é protagonizado pelo professor Laurana, um homem que, basicamente:

"- Era um imbecil." 
                             
                                                   - Leonardo Sciascia; A cada um o seu

Mas calma que a piada ainda não chegou. Quando li o livro, ri desavergonhadamente do pobre Laurana, um homem dos livros (rá! lógico) que, por viver de olhos fechados e sem tempo para ver certas coisas, se meteu desprecavido nos meandros mafiosos da política italiana. Tal como Meursault de Camus, Laurana tocou a ordenação do sistema e foi exposto à luz crua das leis (p.67), ou seja, acabou com a boca cheia de formiga sob um pesado monte de escórias, numa mina de enxofre abandonada. Pronto, agora sim vem a piada: e quem é que está com a boca cheia de formiga agora? Sim, euzinha. Massa. Achei que sacava as coisas melhor que Laurana, entretanto as últimas eleições cruelmente provaram que sou mais tapada do que o tímido professor da Sicília. Porca miseria!


Leonardo Sciascia; A cada um o seu
Alfaguara; Tradutor: Nilson Moulin