06/11/2018

[Alinhavando] Má oi; tá ok ou não tá?!

E lá vou eu para outro episódio da série "Se uma agente do futuro tivesse me dito que logo mais eu estaria fazendo X, eu teria mandado um - haha, tá louca, amiga?". O X da vez é escrever sobre política. Inicialmente, a perspectiva de aprontar tamanho despautério me deixou bem apoquentada, porém os ânimos foram apaziguados pelas sábias e certeiras palavras da grande filósofa Leslie Knope (ilustradas acima):
"Política, né?
Fazer o quê?"
                                                                                            - Leslie Knope

Considerando-se que este espaço é um reles diarinho temático pessoal, o que registrarei aqui será um inocente desabafo entremeado de livros, de tal modo que as análises políticas acertadas permanecerão reservadas àqueles devidamente capacitados.

No começo destes trabalhos, apelo (sem muita originalidade) para Radiohead - "2+2=5":

Parece que é isso? Agora, dançaremos a coreografia idealizada pelo capiroto e não adianta espernear? Bom, pelo menos a trupe está dizendo que "é melhor já ir se acostumando", então acho que é isso, sim. Mas, sei lá, esse slogan que o Mestre bolou para nos dar as boas-vindas à nova era soa tão acolhedor e carinhoso, não?  Aquece tanto meu coração, que talvez a gente até se divirta, não? É, pode ser. Será?

De qualquer jeito, a previsão cantada por Thom de que o ritmo da dança mudaria porque eu não estava prestando atenção é definitivamente precisa, portanto meu presente desabafo será caracterizado exatamente pela descrição das tresloucadas fases transcorridas até a queda da ficha.

Bora lá.

[fase da negação]
Quando a referida candidatura do novo coreógrafo despontou de forma consolidada, eu a encarei como uma completa piada - de mau gosto, mas ainda assim uma piada - e estava absolutamente convicta de que todos estavam nessa mesma sintonia. Ou seja, até alguns meses atrás, eu tinha certeza de que nenhum eleitor em sã consciência sequer cogitava tascar um confirma ao lado da foto daquele candidato. Contudo ~certo~ dia, eis que descubro que uma ~certa~ pessoa, de um ~certo~ meio por onde circulo (forçada etc), não apenas votaria naquele candidato, como estava engajada ativamente naquela campanha. De início, chacoalhei a cabeça tentando espantar a confusão promovida pela inesperada descoberta, depois parti para uma tentativa de ponderação racional. Efetivamente, pensei coisas do tipo "nah, tá tudo bem, é só o ponto fora da curva"; "ah, mas dessa pessoa, talvez eu nem devesse ter esperado algo diferente. tá beleza, tudo normal."


[fase da raiva]
O procedimento de negação foi tão eficiente que, por alguns instantes, fiquei ansiosa para compartilhar com os demais colegas a hilária anedota de que tínhamos entre nós uma "maluca" eleitora daquele coreógrafo. Deus deve ter tido compaixão da minha pessoa (às vezes, ele tem dessas), porque antes mesmo que tal vexame ocorresse, fui exposta à autêntica realidade: TO-DOS daquele lugar votariam efusivamente naquela candidatura. Acho que o choque foi tão desconcertante que, durante alguns minutos, embarquei em uma discussão ligeiramente acalorada. Ora, dado que usualmente eu mal falo com aquele povo (todos adoráveis, só que não), minha reação foi um tanto surpreendente.

Dentre treze candidatos, como diabos (ai) aquele poderia ser quem a galera julgava menos pior melhor preparado??!! Será que prestaram atenção nas propostas coreográficas do moço?! Opa, retifico: será que prestaram atenção, por trás da espessa cortina de fumaça moral, na ausência de propostas referentes às questões verdadeiramente primordiais no momento? Nem a própria figura sabe a dança que irá propor, caso assuma o posto, caramba!! E o diálogo? E as discussões, negociações? Ler a Constituição, que é bom, nem parece ter rolado. Ah, e a estratégia à la "O Senhor das Moscas" (William Golding) - alimentar a crença na existência do Bicho (-Papão) para lacrar seguidores obedientes a um líder - ainda cola?!?!
O passo "salvador da pátria milagreiro" ainda não foi superado pelos caros colegas bailarinos?                Depois  da  bizarrice  "Lindo, roubou meu coração",  pessoal  adota  com  gosto o meme de tratamento "Mito!👉👉"?! Trocar João de Panônia, por Aureliano? Mas, mas... WTF??!!


[fase da barganha]
O estágio seguinte correspondeu à radical montanha-russa de devaneios introspectivos nos quais me afoguei. Pelejei para processar toda a novidade e, como tentativa de auxílio, a memória catapultou, à minha reflexiva consciência, alguns livros previamente lidos.

Acontecimentos na Irrealidade Imediata, escrito pelo romeno Max Blecher, aflorou no início das divagações - falei dele no alinhavo anterior, inclusive. Especificamente, resgatei a cena em que a protagonista do livro faz "uma descoberta assombrosa": o quadro familiar que supostamente representava um rei e uma rainha com traços finos e seguros era, na verdade, um amontoado de letrinhas visíveis apenas mediante auxílio de uma lupa. Segue o trecho em que ela expõe sua consternação com a experiência:

Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Cosac Naify, Tradutor: Fernando Klabin

Percebi que a proximidade do dia da eleição operou pra mim tal qual uma lupa: não havia votos do tipo "qualquer candidato, exceto aquele". A pintura que me espreitava consistia em um único traço: "o voto é naquele candidato".

Também me lembrei prontamente da personagem Cassandra; do instante em que ela questiona suas próprias convicções proféticas quanto à queda de Troia e a guerra descabida. Na narrativa do mito grego concebida pela autora alemã Christa Wolf, foi isto que eu havia lido:
Christa Wolf; Cassandra
Estação Liberdade; Tradução: Marijane Vieira Lisboa

Do mesmo modo que Cassandra, eu estava rodeada por opiniões emitidas de maneira tão enérgica, que facilmente titubeei e conjecturei se eu seria a única doida daquela história. Até porque sequer possuo poderes proféticos infalíveis, veja bem. Eu já tinha pleno conhecimento de ser - isto, sim - uma total destrambelhada (minha psiquiatra e terapeuta nem me deixariam mentir), no entanto não tinha ciência de que a dimensão de minha loucura atingia níveis tão estratosféricos. Minha percepção da realidade estaria assim tão desregulada?? Tentei pôr em funcionamento as sinapses que pudessem me fazer perceber a realidade tal qual ela se apresentava ao meu grupo, porém falhei miseravelmente. Não, por mais que me empenhasse, o meu real persistia representado pela asseveração de que aquele candidato era completamente incompetente e inadmissível do ponto de vista moral.

Logicamente, o terror marcou o passo seguinte. O medo de estar isolada em uma ilha e, pior, incapaz de discernir se eu estava na ilha da ignorância ou da clareza, passou a me dominar. Conforme questiona Cassandra: o que significa ter razão?! Essas palavras podem soar exageradas, contudo me senti de fato tomada pelo pavor de ser a lunática solitária que não entende patavina do que ocorre ao seu redor. Esse foi o ponto em que Sanna, a jovem narradora protagonista do livro After Midnight (Nacht Mitternatcht; 1937), escrito pela alemã Irmgard Keun, retornou aos meus pensamentos. Esse livro é muito interessante, pois retrata a rotina, os sentimentos, a realidade (olha aí) dos alemães comuns, digamos, nos anos iniciais (Pré-Segunda Guerra) após a vitória eleitoral de Hitler pelo Partido Nacional Socialista. Imersa na máquina nazista que rapidamente começava a ditar as novas regras de conduta sócio-politicas, Sanna sucumbe algumas vezes ao desespero por simplesmente não compreender aquele horror. Incluo passagens:

Irmgard Keun; After Midnight
Mellville House; Tradutora: Anthea Bell

Sei que seria ridículo comparar o que vivo hoje ao que os alemães viveram naquele período, é evidente, entretanto foco aqui na natureza do sentimento que acredito compartilhar com Sanna, destacando-se em especial que minha percepção da realidade atual teima em denunciar alguns elementos muito similares àqueles que a narradora descreve em After Midnight.

Por fim, subitamente me dei conta de que minha estante contava com um novo livro do Alberto Manguel que incluía um capítulo - o primeiro - cujo título é "Cassandra". E o título do livro, ademais, é "A Cidade das Palavras". Durante uma eleição em que a proliferação de notícias falsas desempenhava aparente papel determinante, um livro cujo título inclui "Palavras" parecia promissor. Através da palavra, Deus criou o mundo; o homem, por sua vez... decidiu eleições?

Logo na largada da leitura daquele capítulo, Manguel me deixou muito feliz, uma vez que ele praticamente ratificou a estratégia reflexa adotada pelo meu cérebro: "deu tilt na decodificação da realidade? voltemos aos livros para tentar recalibrar o processador."

Alberto Manguel, A Cidade das Palavras
Companhia das Letras, Tradutor: Samuel Titan Jr.

Simultaneamente, porém, o autor justificou uma de minhas inquietações pessoais. Manguel explica que a linguagem surgiu há cerca de 50 mil anos "como um instrumento baseado numa representação convencional do mundo capaz de garantir a um grupo de homens e mulheres a convicção, por incerta que fosse, de que seus pontos de referência eram os mesmos e de que suas expressões traduziam uma realidade percebida de modo semelhante." Pois muito bem, a pergunta que me aporrinha os pacová, hoje, é a seguinte: se os indivíduos de uma sociedade permanecem inundados por um lamaçal de notícias deliberadamente manipuladas e falseadas segundo interesses, é possível evitar a formação de amplos abismos entre as diferentes percepções da realidade? A sociedade restaria, assim, fadada a extremismos? Assusta constatar que os próprios elementos que nos permitem construir a realidade estão corrompidos ou, de outra maneira, que muitas vezes sequer somos capazes de identificar o que está ou não corrompido. Na dúvida, galerinha está decidindo esse impasse por conta própria, seguindo o juízo e a conveniência pessoais. Tudo é verdadeiro e falso, simultaneamente, a depender do avaliador. Para piorar, Manguel ainda repete aquela lei do Padeiro, na Caça ao Snark de Lewis Carroll: “Tudo que eu disser três vezes é verdade”. Tudo que é replicado centenas e centenas de vezes em uma rede social, então, vira o quê? Uma ultra-mega-power verdade insuscetível à desconstrução?  <engolindo seco>

Para acalmar meus próprios ânimos, acredito que Manguel sugeriu uma saída: literatura! O argentino recorda que escritores e poetas iluminam a realidade e sempre forçam-nos a reavaliar crenças, arejar definições e questionar respostas. "(...) a linguagem da poesia e das histórias, que reconhece a impossibilidade de nomear o mundo de modo preciso e terminante, nos reúne sob a égide de uma humanidade fluida e compartilhada, ao mesmo tempo que nos confere identidades transparentes." Isso me trouxe um pouco de paz, pois demonstrou que talvez eu não esteja tão biruta quanto imaginava. Meu mundo sempre foi dominado por incertezas, dúvidas, perguntas (e todo o temor que isso provoca, claro); e verificar-me envolta de tanta gritaria incisiva e autoritária não deve necessariamente ser motivo para tamanha inquietação. (- Obrigada, Manguel.)
Alberto Manguel, A Cidade das Palavras
Companhia das Letras, Tradutor: Samuel Titan Jr.

[fase da depressão (*mais)]
Para a depressão, foi um pulo.

A meu ver, a melancolia que me assomou nem era provocada exatamente pela perspectiva de vitória de um coreógrafo que desaprovo por completo. Não; o que mais me angustiava era ter evidenciado, em um piscar de olhos, que me encontrava rodeada por pessoas com as quais eu não conseguia estabelecer qualquer tipo de íntima conexão. Digo, eu não conseguia pensar como os demais, vibrar em suas frequências. Sim, admito que sempre tive dificuldades para me enturmar (Forever Alone Club – Lifetime Member), contudo este fenômeno prodigiosamente piorava as coisas. Drama queen? Pode ser. Afinal, já disse que não sei de mais nada.

Max Blecher; Acontecimentos na Irrealidade Imediata
Cosac Naify, Tradutor: Fernando Klabin

[fase da aceitação]
No fim das contas, tratei de embarcar na onda do bordão vencedor = fui me acostumando (ou quase). Democracia é o que tem para hoje (e para amanhã, e depois, e depois... **espero**), sendo forçoso dançar a coreografia democraticamente eleita, porém sempre recorrendo contra passinhos de dança capengas, através dos meios previstos na regra dos ensaios e apresentações. No mais, torcer, sim? Torcer para que a apresentação transcorra da melhor forma possível, já que estamos em muito maus lençóis. Suspeito, né, sei lá; quem sou eu na fila do pitaco político?


Nessa fase final de resignação, pensei muito no livro A cada um o seu  (título bacana para o momento, não?), escrito pelo italiano Leonardo Sciascia. Em sua obra, Sciascia retrata principalmente o papel da máfia e da igreja católica na política e sociedade italianas nas décadas de 60-80, demonstrando que os conceitos de direita/esquerda, fascista/comunista eram (e são?) fluidos feito água. Na política italiana, o alvo está no Poder. Resguardadas as devidas proporções, acho que há um match entre países, hein.  ¯\_(ツ)_/¯

Leonardo Sciascia; A cada um o seu
Alfaguara; Tradutor: Nilson Moulin

Bom, A cada um o seu é protagonizado pelo professor Laurana, um homem que, basicamente:

"- Era um imbecil." 
                             
                                                   - Leonardo Sciascia; A cada um o seu

Mas calma que a piada ainda não chegou. Quando li o livro, ri desavergonhadamente do pobre Laurana, um homem dos livros (rá! lógico) que, por viver de olhos fechados e sem tempo para ver certas coisas, se meteu desprecavido nos meandros mafiosos da política italiana. Tal como Meursault de Camus, Laurana tocou a ordenação do sistema e foi exposto à luz crua das leis (p.67), ou seja, acabou com a boca cheia de formiga sob um pesado monte de escórias, numa mina de enxofre abandonada. Pronto, agora sim vem a piada: e quem é que está com a boca cheia de formiga agora? Sim, euzinha. Massa. Achei que sacava as coisas melhor que Laurana, entretanto as últimas eleições cruelmente provaram que sou mais tapada do que o tímido professor da Sicília. Porca miseria!


Leonardo Sciascia; A cada um o seu
Alfaguara; Tradutor: Nilson Moulin


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