24/08/2019

autoficções #03

01  
[Lendo o Crônicas Completas:] 
"E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar."  - Clarice Lispector

Em princípio, não parece haver lógica nenhuma aí, porém aprender a respeitar-se é, sim, um desafio e tanto. Eu acho. Pra mim, é. Digo com tranquilidade que não cheguei lá, contudo já enxergo a Aretha cantando Respect logo ali, na linha de chegada. Como ela está linda.

02
Enquanto isso, nos Stories da Florence Welch:

- Olha só, Liam Gallagher!, ao contrário do Noel, a Florence "can handle rock 'n roll"! 

03
O senhor que costuma fazer pequenos reparos aqui em casa tirou um belo sarro da minha cara (ou me elogiou, nem sei) por conta do jeito sisudão (?) com que escrevo no What's App. Ele disse que mostrou minhas mensagens para um amigo que, por sua vez, perguntou se eu era advogada, juíza ou coisa parecida. MÉU DÉUS. Minha escrita é empolada?! Escrevo em juridiquês no What's App?! NOOOOOOOOO! Que merda. Nhé, pelos menos a gente riu um bocado.

P.S.: minha teoria, depois de pensar um tantinho (=💩), é que tenho tanto pavor de soar como aqueles clientes que são escrotos com prestadores de serviço, que acabo pesando a mão e pisando em ovos.
Oh well.
P.S.2: outrossim, hacker aqui

04 
Situação: em uma ampla via com pesado tráfego de carros, um jovem da geração sem tempo, irmão arrisca atravessá-la enquanto o sinal encontra-se vermelho para pedestres. Simultaneamente, escuto o comentário de um senhor idoso à minha esquerda:

- A vida é tão boa; pra que arriscar? (com o sinal verde liberado:) Pronto, agora eu vou

05
Ideia para conto: fluxo de consciência/monólogo interior contemplando 24h na mente de um cachorro da raça Pinscher. Ritmo frenético, sem pontuações ou parágrafos, com muita paranoia e teorias da conspiração. E, nas entrelinhas, uma profunda angústia e melancolia. 

06
[Ainda lendo o livro Crônicas Completas:]
"Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não querem dizer."    - Clarice Lispector

Puxa, lembrei de uma das minhas músicas favoritas do White Stripes (saudades):
Truth Doesn't Make a Noise.

You try to tell her what to do
And all she does is stare at you
Her stare is louder than your voice
Because truth doesn't make a noise

[- Ah, Jack, o quanto essa música me ajudou a aproximar-me daquela linha de chegada. Nós dois acabamos seguindo por caminhos diferentes, contudo minha gratidão é eterna.]


07
Pera, pera, pera. Mas então... eu virei aquilo que abominava: a pessoa que lança na internet citações aleatórias de Clarice Lispector?! NOOOOOOOOOO no.2.

08
Como sou teimosa, fui lá ver ANIMA, o curta que Thom Yorke lançou em parceria com Paul Thomas Anderson. Gostei bem mais do que eu tinha antecipado e registro três breves reações:

- Nunca imaginei que veria, com esses olhos que a terra comerá, Thom protagonizando ceninhas fofas e românticas. (Ok, o clipe de Knives Out chegou perto, mas nem se compara.) Mentira, imaginei sim. No caso, imaginei em meus sonhos, nos quais, é claro, euzinha sou a protagonista, e não aquela turca lá. Humpf. (Brincadeira, desejo felicidades aos dois. Ou não.)
- Não adianta; eu escuto esses trabalhos solo do Yorke e sinto vontade de incorporar o panda irado no estúdio dele, destruindo toda a parafernália eletrônica. Melhor: bancar a Annie Wilkes, do livro Misery (King), sequestrando-o e mantendo-o em um cativeiro onde ele só teria um piano e um violão acústico para compor músicas. #paz
- E quanto mais ouço a onda solo do Yorke, mais valorizo a presença do Jonny no Radiohead.                  Louvado seja.

09
Durante a última (pseudo) reorganização de minha estante, estive prestes a jogar fora um livro já detonado (um daqueles mass market paperback americanos, publicado em 1968!), entretanto o nome do meu pai escrito à mão na folha de rosto me travou. Curiosamente, o nome dele aparece escrito várias vezes, como se ele estivesse aperfeiçoando a caligrafia até chegar naquela que hoje usa e que bem conheço. Acredito que o vídeo no qual Clare Fenby atribui uma sensação de proximidade com Sylvia Plath/Virginia Woolf (escritora favorita dela) à capacidade que detém de reconhecer a caligrafia da autora salvou meu velho livro da lixeira. É mesmo uma bela forma de intimidade. Em uma vida, quantas caligrafias uma pessoa é capaz de reconhecer apenas mediante uma batida de olhos? A resposta pode revelar bastante sobre a jornada de alguém. Acho.

Este é o vídeo, iniciando no ponto exato em que ela trata dessa temática:


10
Nas crônicas, Lispector recorrentemente aborda encontros com leitores (especialmente via cartas), e os relatos dela me fazem devanear uma porção de coisas. Por exemplo, ela tem reforçado minha teoria de que é impossível travar contato com um ídolo sem bancar a completa idiota. E a experiência de Lispector me faz crer que esses encontros sejam marcados por um certo embate:
- De um lado, o fã iludido pela certeza de já ter desvendado todo o mundo interior do ídolo artista. Graças à profunda conexão estabelecida com a obra da pessoa admirada, o fã se considera super íntimo, um quase amigo de infância. (a Clare Fenby, ali em cima, sustenta justamente o que digo.)
- Do outro, o artista ressabiado que não poupa esforços em ressaltar que o fã está completamente equivocado ao supor que o conhece; demonstrando um quase pânico diante da possibilidade de estar desnudo na própria obra.

Na prática, talvez a realidade corresponda a uma média ponderada desses dois lados. Vai saber.

11
[Continuando nos encontros da Lispector:] Ela convida leitores para tomar um café, dá livros autografados de presente, abre a porta de casa para aqueles que tocam sua campainha. É realmente admirável. Recordei de quem? Claro, daquele que nunca some dessas bandas: Thomas Mann. Ora, imagine só que uma Sontag de 13-14 anos, mais o amigo, liga para a casa do grande escritor alemão que não apenas atende o telefone, como também os convida para um chá da tarde em sua casa. Que me perdoem os contemporâneos, mas fica difícil não atentar que hoje, quando a gente recebe um singelo like de um escritor nas redes sociais, um unicórnio nasce na Nova Zelândia. Bom; cada tempo, um tempo. E o nosso é o tempo do sem tempo, irmão.

12
 Bora de mais Lispector? Deparei-me com isto aqui:
"(...) escrever sobre a vida e você mesmo, o que significaria a mesma coisa."

O monólogo interior no qual embarquei ao fim dessa frase foi este: Ok, faz sentido. Já que só posso falar sobre a vida a partir da minha própria experiência, falar de mim = falar da vida. E olhe, lá. Porém... Eu posso tentar me colocar na posição de um outro, o que significaria adentrar o campo da imaginação. Imaginar outras experiências. O universo da ficção. (...) Ficção ainda é a vida? Se a ficção que crio faz parte de quem sou (?), escrever ficção pura é sempre escrever sobre a vida. É?

Conclusão? Exato: bela groselha de platitudes. (#pleonasmei?)

13
A reflexão "literatura  x  vida" encontrada no diário do Piglia demonstra (?) que a Lispector não me fez devanear tanta abobrinha assim, hein. O argentino mandou esta:
"(...) é preciso ver de que lado se coloca o sinal positivo: ver a literatura a partir da vida é considerá-la um mundo fechado e sem ar; ao contrário, ver a vida a partir da literatura permite perceber o caos da experiência e a carência de uma forma e um sentido que permita suportar a vida."
                                                         - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi (tradutor: Sergio Molina) 

Isso me faz pensar que, para encerrar qualquer desvario, basta tacar um "é relativo" e pronto; imbróglio sanado.

14
Finalmente cedi a outro hype: Russian Doll. Curti demais os primeiros episódios (que escrita afiadinha!), mas o final... Sei lá; preferiria algo menos embrulhadinho pra presente, talvez. 

O lance dos espelhos x morte recuperou da memória um quadro discutido por Manguel no Lendo as Imagens. Este aqui, o Mosaico da Batalha de Isso:

Circulei toscamente a potente imagem que mais me interessa, acerca da qual Manguel escreve:
"É um soldado persa; (...) caiu entre as espadas  e lanças espalhadas; seu último gesto é levantar o escudo para ver, nessa superfície de espelho, a sua própria face. Esse soldado deseja saber quem é, antes de morrer.
Quando penso nesse tema associadamente ao período em que o quadro foi concebido, fico destrambelhada. É extraordinário.

15
Após ouvir o podcast Um Milkshake Chamado Wanda, fui lá desenterrar das cinzas minha evidência do #sóquemviveusabe: ⇣


Encontrar um CD dentro foi uma total surpresa! Do outro lado do oceano, Liam Gallagher deu conta de se vingar da minha zoeira com a cara dele, pois o Oasis tá lá no bolo, acompanhado de The Killers, Franz Ferdinand, Strokes, Wolf Parade... É, Gabi, só quem viveu sabe. Eu gostava tanto desse danado, que não consegui me desfazer dele.
(*E este é o II, pois o querido I foi literalmente destruído pelas ondas do mar)








16  
Acredito que logo mais terei de me despedir definitivamente do Godard, pois nossos santos não se bicam. Dessa vez fui de Masculin, Féminin e, bem, até gostei mais desse, porém... Ai, nem sei explicar direito porque a obra dele não desce. Tentarei só mais um e, se não rolar, será adeus. Se não consigo ser cool, paciência.

[- Eduardo, comer hambúrguer na lanchonete é muito mais legal do que ver um filme do Godard. A Mônica não sabe de nada.]


17

Por incrível que pareça, nunca vi ou li a história do Pinóquio. Quando criança, possivelmente assisti àquele clássico desenho da Disney, no entanto, se de fato vi, a memória tratou de deletar. Enfim; toco no assunto porque essa narrativa cruzou meu caminho por duas maneiras surpreendentes. No Narrativas, podcast da Carambaia, Renato Moricone compartilhou que seu filho parecia recorrer ao desenho do Pinóquio, especificamente ao momento em que o protagonista está dentro da baleia, para conseguir assimilar a concepção de que logo mais um irmãozinho sairia de dentro da barriga da mãe. Depois, na The Red Hand Files #51, newsletter de Nick Cave, um pai que perdera o filho pergunta se estaria fadado a permanecer dentro da baleia, agora que seu Pinóquio estava morto. Em um mesmo trecho de uma narrativa, espectadores/leitores identificam caminhos para assimilar tanto a vida, quanto a morte. É isso o que torna uma história grandiosa, não? Logicamente o livro foi pra minha pilha de leitura. 

18
Vagão do metrô. À minha direita, a moça lê A sutil arte de ligar o f*da-se. À esquerda, outra se entretém com o Seja Foda. No instagram, descubro o lançamento do Liberdade, Felicidade & F*da-se. Hum... É, talvez eu deva repensar meu branding; reposicionar minha marca tal.e.coisa. Será? Vejamos... F*dendo entre livros? Eita! Haha, não, calma. Entre livros fodas? F*da-se entre livros? Xi. Seja f*da entre livros? Nhé.

Posteriormente, na série Years and Years, meu queixo caiu com o nome do partido da personagem da Emma Thompson, a política que era contra tudo que estava ali: quatro estrelas ↦ **** = F*CK. Coincidência? Fica a questão.

(Náh, o bobo nome do bloguinho permanece como está; sim, senhora.)

19
Por falar em Years and Years: aparentemente, o capitalismo tardio ressignificou maleficamente as bicicletas? O que representava infância, liberdade, brincadeiras lúdicas e sustentabilidade, tornou-se o grande símbolo do trabalho precarizado. Poxa, dia desses me emocionei pateticamente ao contar para uma amiga o último episódio da S03 de High Maintenance, aquele em que dois amigos da época de escola se reencontram em condições tristes (o filhinho de um deles submetia-se a tratamento oncológico) e, para um breve respiro, os dois passeiam de bicicleta pelas ruas de NY. Depois, com Years & Years, vi a bicicleta do trabalhador matar pedestres na rua, ao mesmo tempo em que representava a salvação financeira do moço de classe média que perdeu, em um piscar de olhos, mais de um milhão de libras. Que maluquice. Se eu continuar me emocionando por aí com historinhas de bicicletas, serei acusada de privilegiada. Com razão? 

Pensando melhor, só agora me dei conta dos motivos pelos quais o filme Ladrões de Bicicleta é um tremendo clássico; mais atual do que eu jamais havia suposto até agora.

20
Correto, a pessoa que estava aí dizendo não ter nenhum apego à infância, foi lá brincar de montar mais uma tirinha de Geraldine + Edith. Temática: Origem da Lua x Steven Universe!
Fonte Nautilus: http://nautil.us/issue/13/symmetry/when-the-earth-had-two-moons
Fusion em Steven Universe: https://www.youtube.com/watch?v=v1dvzCkOZ1E
      
[As conotações lésbicas dessa tirinha estão fugindo do meu controle.😁]

21
Encontrei no filme O Medo Consome a Alma uma cena maravilhosa que reforça uma bobeira incluída no autoficções #02: roupas podem (e devem) ser usadas para construir/apresentar uma personagem.

No começo da obra de Fassbinder, quando Emmi entra no bar frequentado por imigrantes, ela está molhada pela chuva, tem cabelos grisalhos e veste um casaco monocolor escuro. Daí, quando o belo e jovem marroquino a convida pra dançar, e ela tira o caso, calcule o susto que eu e o moço tomamos quando demos de cara com isto:


Poxa, somente com esse jogo de roupas, o Fassbinder conseguiu nos apresentar um mundo inteiro a respeito de Emmi. Joinha para o diretor.












22 
Novamente falarei do mar, pois outras pontes marítimas foram construídas neste mês. A maré começou com o filme da Claire Denis, o 35 Doses de Rum. Especificamente, aqui:

Medo de um mar no qual, quando se grita, ninguém escuta. A fala da personagem de Denis catapultou de volta uma passagem do livro Ruído Branco, na qual a personagem de Don DeLillo argumenta que, quando morrem, os seres humanos gritam para que sejam percebidos, lembrados por um ou dois segundos. Ao somar Denis + DeLillo = o mar escancara nossa insignificância e mortalidade; o medo do mar reflete o medo da morte.

Lendo posteriormente o As palavras não são deste mundo, do Hugo Von Hofmannsthal, esbarrei justamente com essa ideia. Eis a versão mais articulada do senhor Hofmannsthal:
"Assim que vi o mar, compreendi ter envelhecido. (..) Quando (...) já pode ver o mar, (...) sente-se a si mesmo muito claramente, mas com um ar um tanto insólito e rarefeito. Perdem-se muitas coisas que se imaginava possuir: a gente fica mais leve e vazio, é inquietante. (...) diante do mar, tudo que é estático está atrás de nós, para ser deixado para trás, e diante dos olhos nada temos além da existência infinita, algo que não somos capazes de compreender totalmente."
                             -  Hugo Von Hofmannsthal; As palavras não são deste mundo. (Tradutor: Flávio Quintale)

Resgatarei o filme do Godard, ou melhor, a cena em que a personagem de Chantal Goya pergunta à personagem do Léaud o que ele considera o centro do mundo. Ele diz que é o amor, ela diz que é ela própria. Antes das respostas dos dois, respondi na lata "o mar". Na ocasião, ignorei o motivo da minha resposta; entretanto agora ganhei argumentos para, ao menos, balbuciar um arremedo de justificativa.

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Retornando à Claire Denis (por sinal, que cineasta fabulosa!), arrisco associá-la àquele alinhavo feito entre Lispector e White Stripes concernente ao tema a mudez não mente/a verdade não faz barulho. Só vi dois filmes dela (o outro foi o atualíssimo Beau Travail), e a presença do silêncio em ambos foi marcante. Agrada-me demais como Denis conduz sua narrativa, sustendo-a menos em diálogos, e mais nos pequenos gestos, olhares e na relação que as personagens estabelecem entre si e, principalmente, com o espaço/cenário/paisagem que ocupam. São filmes cujo silêncio reverbera longa e ruidosamente. Ah!, quase me esqueci do outro elemento crucial que me fisgou nos dois filmes dela que vi: a dança aparece como instante de ruptura para as personagens. Sabe das coisas, essa Denis.

23
Infelizmente não me apaixonei pelos poemas da Akhmátova (minhas expectativas eram super altas), porém faço uma colagem de alguns versos soltos que me marcaram bastante. O engraçado é que suponho que sejam os que menos refletem aquilo que acadêmicos consideram o ápice da obra da poeta russa.

(Tradutor: Lauro Machado Coelho)

24
Voltei à Netflix por culpa do Thom Yorke e, na busca por algo que me convencesse a permanecer por lá, dei de cara com Shtisel, uma espécie de novelinha "das seis" israelense, sobre judeus ortodoxos. O roteiro segue a linha "nada acontece" e, exatamente por isso, tudo acontece. A vida desenrola-se com suas complicações e delicadezas diárias (sobretudo quando fé/religião está envolvida). É linda. Ah, e o mais surpreendente: muito engraçada! <3

Como banner desse post, colocarei a imagem da Ruchami Weiss destruindo o teclado do computador obrigada a exercer o papel que o pai bunda mole não dá conta, com uma caneta na boca fazendo as vezes de cigarro. A garota curte Middlemarch (<3) e lê para os irmãozinhos, à noite, uma versão adaptada do Anna Karenina. Fazia tempo que não me apaixonava assim por uma personagem.
E parabenizo Shira Haas, atriz que a interpreta.















25
Frases icônicas (pra mim) de Shtisel (transcrição aproximada):
- (Quanto a lotéricas:) Aqui é praticamente uma filial do muro das lamentações.
- Quer fazer Deus rir? Conte-lhe seus planos.
- Quanto deu todo esse glutamato monossódico?

- Eu já comi.
- Eu também.
- Ótimo, vamos alugar a cozinha então.

- Fuma e come. [→ Essa pede contexto. Imagine ter sua identidade reduzida por um outro
                          simplesmente a estas duas palavras: fuma e come. Elevado potencial para fazer                                        alguém embarcar  em uma crise existencial. Pior que a minha descrição nem estaria                                  tão longe, pois seria o batido "come e dorme."]
- Sempre tem jornal. [→ a melhor de todas]

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Ainda rolou um diálogo que aborda aquele meu prévio devaneio acerca da relação "literatura (arte) & vida", instigado pela Lispector:

- É uma pintura, pai, não é vida real.
- Kive, quando vai entender? Tudo é vida! Tudo é vida, e o que fazemos com ela.

E mais outro com as reflexões desse mês relacionadas ao mar!↷
"Sempre a mesma água fedorenta com espuma"?! Os roteiristas de Shtisel estão corretíssimos: cautela ao lidar com uma pessoa que não vê graça no mar. 

26
Com a Pizarnik, pensei em personagens que pudessem ser companheiras de choro. Shtisel, a seguir, me fez pensar em quais personagens eu incluiria em minhas orações. Por quê? Porque a matriarca dos Shtisel reza pelas personagens da soup opera americana a qual assistia. Socorro.

Essa foi mais difícil. [Um século depois...] Certo, já que a série israelense me fez reviver Middlemarch, rezarei por Dorothea e Lydgate. E Ruchami, lógico.

27
Us, filme do Jordan Peele, restabeleceu minha fase de ouvir rap/hip-hop no repeat, e me impressiona como recorrentemente o sentimento "Jackie Brown sou eu" se apossa do meu ser enquanto escuto esse gênero musical. Só havia um equívoco nessa equação: nunca tinha assistido ao filme Jackie Brown. Usei o tempo pretérito, porque finalmente corrigi a patacoada, contudo o filme não sustentou muito bem a poderosa imagem de Jackie apontando uma arma pra minha cara.

Para registrar a fase musical, fica uma das favesHeadlines.
[Já sinto o bafo do Donald Glover no cangote, fazendo piada com a latina amarela de classe média que curte um hip-hop, toda metida a woke. What do I know? Shit; that's what. (~Pelo menos~ não farei nenhuma versão acústica no meu quarto para postar no You Tube. Conta?)]

28
Visto que já soltei bobagens quanto a formas alternativas/sutis de construir uma personagem, resgatarei a sequência inicial do filme Jackie Brown. ↷







Tendo a achar que ela funciona bem em termos estéticos, mas não exatamente narrativos. Se uma narrativa me informa que a personagem está no grupo daqueles que permanecem tranquilamente parados sobre a esteira rolante do aeroporto, contemplo duas possibilidades: ou trata-se de uma PcD, ou é uma pessoa zen cuja vida está sob pleno controle, alguém que não se deixa afetar por aporrinhações aeroportuárias e que nunca está atrasado; enfim, alguém "com tempo, irmão, pois não?" A cena espelho do filme The Graduate, por sua vez, me parece muito mais apropriada para a história de Mike Nichols, pois é natural (e perfeito!) que um jovem recém formado, retornando à casa dos pais para encarar a vida, não esteja assim tão apressado para sair do aeroporto. Jackie Brown certamente teve sangue frio para manejar a presepada em que se mete, porém resisto em enxergar concordância entre "cena  x  personagem  x  narrativa".

29
Estou lendo Oreo, livro que Fran Ross publicou na década de 70. Tenho me divertido descrevendo-o (mal) como uma singular mistura de Spike Lee + Irmãos Coen + Wes Anderson + Kurt Vonnegut. (Oh, yeah.) Trata-se de uma nova versão para o mito de Teseu, na qual nossa heroína tem a "manha" de ser filha de uma negra e de um judeu americanos. Calcule só.

[Voltando aos judeus:] Dentre as passagens curiosas do livro, consta a peculiar técnica que a mãe da heroína aplica para descobrir quem são os judeus residentes em uma cidade americana: basta checar, do local, quem assina a New York Review of Books, a Partisan Review e a Commentary. (Será que é errado achar isso engraçado? Ai, ai, jizuis - no pun intended) Na real, a impressão é que Ross tira sarro de tudo e de todos nesse livro, atirando pra todo lado sem dó.

Ah, e tem um moto em latim bem melhor do que aquele manjadão da Margaret Atwood: Nemo me impune lacessit. (+-: ninguém me                                                                  provoca impunemente.)

30
Depois de assistir ao adorável anime que aborda o complexo trabalho editorial envolvido na publicação de dicionários (The Great Passage), sonhei que vivia em um mundo no qual era preciso pagar para usar as palavras, cada uma com um valor. Fiquei encantada diante da revelação de como meu inconsciente foi profundamente afetado pela singela narrativa japonesa. 
"O dicionário é um navio que nos permite navegar no mar de palavras."

31
Putz, e só agora descobri o programa mais legal de todos os tempos:













Desde 2013, o canal Sky Arts organiza a escolha do pintor de retratos do ano. E não há picuinhas, não há manipulação na edição para criar uma narrativa e transformar os participantes em personagens. Não; é simplesmente sobre a pintura - profissionais e amadores. Genial. Essa, sim, é uma competição que mereço ver na televisão. Disponível lá na Tubaína. (*Alerta: altamente viciante.)

Para encerrar, o chiclete musical no dia em que faço esta postagem:
MorMor - Some Place Else.

12/07/2019

[Alinhavando] Alejandra Pizarnik; Diarios [#02]

Postagem anterior: #01 
 Texto sinalizado com [📔, em verde + itálico] entradas originais de Alejandra Pizarnik.


Cuaderno de Junio y Julio de 1955


📔 "Pienso que actualmente todo argumento sería autobiográfico. No tengo el menor deseo de crear seres felices, ni países que no he visto ni situaciones en que no intervine. Tal es mi egoísmo o lo que sea. Cierro los párpados y recorro mi vida. Sonrío. ¿Se la puede llamar intensa? Creo que sí. Inconscientemente intensa."

Nessa passagem, Pizarnik fala especificamente de sua obra literária em construção. Entretanto, me peguei brincando de extrapolar livremente esse pensamento da autora, e a concepção de uma hipotética literatura universalmente autobiográfica me soou meio fastidiosa. Por que fincar os pés no chão quando, nos livros, é possível voar? Partindo para outra brincadeira, aquela em que me flagro em contradições, reparei que minhas leituras atuais consistem em: dois diários, uma coletânea de crônicas, um livro de memórias e outro de correspondências. Honestamente? Até eu boiei. Talvez minhas presentes escolhas sejam o mero reflexo dos sentimentos que ora prevalecem no meu íntimo. Uma necessidade de contato com pessoas reais mediante aquilo que tenham escrito de modo sincero e sem tantos subterfúgios?... Por enquanto, essa é a resposta encontrada.

A autora finaliza a reflexão questionando se sua vida poderia ser considerada intensa, havendo aí o suposto subtexto de que apenas vidas intensas valeriam a pena ser narradas. (Por sinal: como definir uma "vida intensa"?) Thomas Mann e seu singelo Hans Castorp vieram-me à memória (vira e mexe eles voltam a me fazer companhia nesse blog, não?! mas já que o diarinho é meu, nem peço desculpas), pois dentre os aprendizados propiciados pela leitura de A Montanha Mágica, consta a compreensão de que todas as vidas podem - e devem? - ser narradas. Se Mann conseguiu transformar Castorp - aquela opaca massa amorfa - e sua jornada sem graça em algo tão belo e tocante, não tenho dúvidas de que todas as vidas podem originar obras-primas literárias (nas mãos de um bom escritor, é claro). Nas bem-humoradas palavras do Mann (grifos meus):
Queremos narrar a vida de Hans Castorp - não por ele - mas por amor a esta narrativa, que nos parece em alto grau digna de ser relatada. (...) Como se vê, empenhamo-nos em anotar tudo quanto possa prevenir o espírito do leitor a favor de Hans Castorp. Mas julgamo-lo sem exagero, e não o apresentamos nem melhor nem pior do que era. Hans Castorp não era nem um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos, para sua qualificação, o termo “medíocre”, reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência e quase nada com a sua singela personalidade; fazemo-lo devido ao respeito que temos pelo seu destino, ao qual nos sentimos inclinados a atribuir certa significação ultra-individual.
                                                              - Thomas Mann, A Montanha Mágina (Tradutor: Herbert Caro) 

[- Pizarnik, se o Mann me convenceu de que até minha vida (!) pode render um bom livro, imagine a sua.]


📔 "Me gustaría una novela autobiográfica, pero escrita en tercera persona. Por supuesto que comenzaría en mis diecisiete años. Lo anterior no tiene interés. (¿Y todas las escapatorias de tu ambiente? ¿Y tus sollozos en las escaleras? ¿Y el temor a los lazos?) Pero pienso que hay que escribir cuando se tiene qué decir. ¿Qué diría yo? ¡Mis angustias! ¡Mis anhelos! ¡Mis invisibilidades! Una descripción del Atelier. Los patios de la Facultad."

Em seus diários, Piglia fez um comentário curioso a respeito das maneiras de se escrever sobre si mesmo, traçando um paralelo entre ele e Kafka:
"Entrei na literatura quando consegui trocar o 'ele' pelo "eu'", Kafka. No meu caso, poderia dizer: entrei na minha autobiografia quando consegui viver em terceira pessoa."
                               - Ricardo Piglia, Os Diários de Emilio Renzi (Anos de Formação) (Tradutor: Sérgio Molina) 

Pizarnik, tal qual Piglia, escolhe falar de si mediante o conforto (?) da terceira pessoa. Lembro agora que a Duras, de certo modo, misturou esses dois focos narrativos para falar de si em O Amante.

O desprezo (para fins literários) pelo que ocorreu na vida dela antes dos dezessete anos também me chamou atenção, sobretudo porque três filmes recentes (+ diários do Piglia) me fizeram refletir a respeito de uma possível diferença com que homens e mulheres relacionam-se com suas respectivas infâncias. Insiro a entrada que montei no journal:
Bergman e Tarkovsky criaram personagens masculinas que mantêm intensos vínculos afetivos com suas infâncias, enquanto Varda afirma não sentir nenhum apego especial pelos anos de criança. Eu penso como Varda, e meu pai, bem sei, pensa como as personagens de Bergman e Tarkovsky. Minha mãe... Hum, taí, terei de perguntar, mas minha aposta é que ela pensa como eu e Varda. E agora, Pizarnik dá indícios de entrar no jogo juntando-se ao meu grupo. Ah, e posso trazer o Rainer Maria Rilke para a partida, dado que ele já aconselhava o jovem poeta a buscar refúgio na infância. Resumidamente, eis o que interrogo: homens permanecem mais fortemente ligados à infância do que mulheres?

Bom, é evidente que não terei parâmetros suficientes para uma conclusão, porém manterei arquivada aqui essa hipótese provocativa - e estrambólica? Se bem que a parte mais legal, suspeito, seria investigar os motivos (caso passíveis de identificação) responsáveis por essa teórica distinção, ainda mais depois que Piglia me informou que, segundo Merleau-Ponty, a conexão com a infância refletiria a intenção de resgatar uma sensação de imortalidade.

Além disso, creio que esses dois trechos destacados permitem inferir que a obra de Pizarnik estaria bastante ligada à necessidade da autora de escrever acerca de seu particular momento presente.


📔 "¡Soy Argentina! Argentum: plata. Mis ojos se aburren ante la evidencia. Pampa y caballito criollo. Literatura soporífera. Una se acerca a un libro argentino. ¿Qué ocurre? Viles imitaciones francesas, modismos en bastardilla, fotografías pesadas del campo. De pronto aparece un escrito rrrrealista. ¡Magnífico! Encuentro entonces palabras como «puta» escrita cincuenta veces o diez variaciones más made in Dock Sud: descripción de la viejita, del mate y de doña XX. O si no una bibliografía de los mejores libros clásicos o unos cuentos del tiempo de los valsecitos y las crinolinas, o un affaire in love en las montañas cordobesas llenas de cabritos y ¡de nuevo! mates amargos. ¡Siento que mi lugar no está acá! (ni en ninguna parte quisiera decir). Me encanta elucubrar por escrito. Quizá mi queja contra mi patria sea agresión nacida en base a alguna impotencia literaria." 

É, pelo visto a Argentina e sua literatura definitivamente não serviam de inspiração para a obra de Pizarnik. Acabei matutando sobre a suposta pressão (do mercado? da crítica? do público leitor?) para que escritores produzam uma literatura com traços, digamos, bastante regionalistas. Observando de fora, como reles leitora, não posso confirmar se é real, mas percebo sinais sugestivos. Mencionado por Piglia, o elo entre a literatura de Gabriel García Márques e Jorge Amado, dois latino-americanos que conseguiram aclamação internacional, coloca uma pulga atrás da orelha: "demasiado - profissionalmente - latino-americano: uma cor local festiva". Aliás, no mesmo diário e de novo tratando de literatura, Piglia inclui a expressão: "demagogia latino-americana dos assuntos próprios dessa região do mundo". Também posso acrescentar que, quando acompanho leitores que buscam autores de países fora do cânone ocidental – como naqueles projetos para ler 1 livro de cada país do mundo – noto que o prevalente critério de escolha é que o livro apresente o respectivo país àquele leitor. Nesses devaneios, revivi uma entrevista na qual um escritor (cujo nome não me recordo, infelizmente) queixava-se justamente disso: um autor só tem chance de entrar nos grandes mercados editoriais (= países anglófonos e europeus) caso escreva marcadamente sobre a realidade de seu país. O escritor como porta-voz da nação. Influenciada pelo discurso da Chimamanda Adichie, suspeito de que, quanto mais a história reproduza o estereótipo fabricado para a referida nação, maior a chance de sucesso do autor. Será? Não sei, e essa divagação não chega a conclusão nenhuma.

Mais adiante no diário, Pizarnik inclusive registra o anseio de desvencilhar-se de um lugar fixo, de reconfigurar sua origem para o indefinido (Tetralogia Napolitana/Lenu feelings):
📔 "Heredé de mis antepasados las ansias de huir. Dicen que mi sangre es europea. Yo siento que cada glóbulo procede de un punto distinto. De cada nación, de cada provincia, de cada isla, golfo, accidente, archipiélago, oasis. De cada trozo de tierra o de mar han usurpado algo y así me formaron, condenándome a la eterna búsqueda de un lugar de origen."


📔 "El Dr. R. dijo que un cuento es una novela frustrada."

O conto é um romance frustrado...? Será mesmo? Hoje, tendo a discordar. Ali Smith, no livro Artful, descreve a diferença entre essas duas formas de um jeito muito mais legal e interessante do que esse Dr. R. O cerne da questão para Smith? O Tempo! Arrisco uma tradução livre (grifos meus):
"A diferença entre o conto e o romance relaciona-se não ao tamanho, mas sim ao tempo. O conto sempre tratará de brevidade, “A brevidade da vida! A brevidade da vida!” (como uma das personagens de Mansfield, no conto At The Bay, não se contém em exclamar). Por conta disso, o conto é capaz de fazer o que quiser com as noções de tempo, o qual se move e opera no espaço independentemente da adesão à cronologia ou a tramas convencionais. É uma forma elástica que pode ser tão imaginativa e acronológica quanto deseje, sem que isso implique em perda da forma. Nesse sentido, o conto enfatiza a momentaneidade do momento. Simultaneamente aborda, sem se comprometer, a natureza puramente momentânea das coisas, (…) O romance, de outro lado, encontra-se ligado e impotentemente interessado na sociedade e na hierarquia social, palavras sociais; e a sociedade está sempre conectada, em dívida, construída e revelada pelas armadilhas do tempo.
                                                                                                 - Ali Smith, Artful (tradução minha). 

Contemplando os formatos segundo os termos estabelecidos por Smith, fica difícil encarar o conto como um romance frustrado. Se panz, é provável que seja o oposto.


📔 "Árboles castrados. Conmueven. Parecen tan humildes, tan inocentes. Su postura es la misma que antes, cuando cada brazo refulgía de verdes dorados. Árboles cortados. Erguidos a pesar de todo. Dulce espera de la primavera. Recuerdan las hojas caídas. Recuerdan las sombras gigantescas. Esperan y esperan. Nada se reemplaza. Ya vendrán grandes ramas que, a lo mejor, serán más bellas que las anteriores. ¿Por qué no podrá sucedernos Lomismo? Florecer. Un golpe de hacha. Desnudez impúdica y digna. Espera. Nuevos brotes. Otro florecimiento. Y luego lomismo y Lomismo. Es decir que anhelo un golpe de hacha que quiebre mis ramas actuales. Quedarme desnuda y esperar sonriente."

Curti essa passagem. Coincidentemente, consigo estabelecer outro diálogo bacana com o texto da Ali Smith em Artful, pois a escocesa também utilizou o inspirador ciclo das árvores como metáfora para explorar as temáticas do tempo, luto, narrativas - e do próprio conceito de metáfora/símile. Deixo trechos:
"Unlike flowers which die right down every year and have to start all over again, break the surface again, trees can keep going from where they left off.”
(...)
"'My heart is like a singing bird...My heart is like an apple-tree...Because my love is come to me'*. So simile maybe involved love too. Well, he or she was lucky, having a heart like an apple tree. Even a broken apple tree will know what to do, with a bit of help, to right itself and have its fruits again."
                                               - Ali Smith, Artful (*: versos do poema "A Birthday", de Christina Rossetti). 

🌳 #Throwback.memeas árvores somos nozes.🌳 Pois surrupiarei as palavras de Smith para fazer um desejo piegas, porém sincero: que nossos corações sejam como árvores. E com as de Pizarnik, dou uma reforçada na causa, só pra garantir: que nossa nudez após uma machadada seja o momento em que, serenos e sorridentes, nos preparamos para reflorescer. #Poetei?💩

 

📔 "Tocar a la muerte tan de cerca que una no desee entonces más que vivir."

Já toquei e afirmo que a ponderação de Pizarnik procede, sim. A pegadinha? O anseio é efêmero.


📔 (grifos meus:) "¿Sabéis en qué consiste la individualidad? En la voluntad consciente. En la consciencia de que uno posee una voluntad y que es capaz de actuar. Sí, esto es, dicho de un modo maravilloso. Diario de KATHERINE MANSFIELD 
(…)
Del diario de Baudelaire Yo no pretendo que la Alegría no pueda asociarse con la Belleza, pero digo que la Alegría es uno de sus adornos más vulgares, mientras que la Melancolía es, por decirlo así, su ilustre compañera, llegando hasta el extremo de no concebir (¿será mi cerebro un espejo embrujado?) un tipo de belleza donde no haya Dolor." 


Pizarnik também lia diários! Trazendo Borges para a conversa (ele ainda reverbera intensamente após o post recente): será que Pizarnik e eu constituímos um duplo?! Não, né? Náh. Contudo enxergo beleza no paralelo criado por nossas narrativas:
  - a poeta que lia diários de outros escritores como fonte de inspiração para sua obra;
            x
  - a leitora que lê os diários da poeta numa tentativa de aproximar-se da vida de onde nasceram os versos que a emocionam.

📔 "Ciertos seres son mis camaradas de llanto: Hamlet, Blanche Dubois, Vallejo, Palinuro, Baudelaire."

Companheiros de choro... Puxa vida, faz sentido. Quem são os meus? Hum... Andrei Bolkonsky (Tolstói), Pereira (Tabucchi), Clarissa & Septimus (Woolf), Julien Sorel (Stendhal), Adriana (Moravia)...


📔 "hay lugares que excitan terriblemente la angustia. Lugares y seres. Hoy, por ejemplo, subí al tranvía con L, riendo ambos feliz e infantilmente. El guarda que nos entrega los boletos, nos miró disgustado con esa expresión de animalidad ignorante y seguridad en su moralidad. Hombre trabajador y activo seguramente. Horario exacto, sueldo que asciende paulatinamente, aspiraciones a inspector y a ¡quién lo dice! Inspector jefe. Bigotes necesarios para tapar la boca y manos sucias. ¡Brrr! Hay millones como él. Pero él sólo bastó para amasar nuestra alegría en una grotesca farsa. Y lo peor (o lo mejor) es que no hay culpables. ¿O tal vez lo seas tú, pobre cuadernillo mío?"

Não, Pizarnik, a culpa não é de seu caderno, porém também não sei dizer se há culpados. De qualquer jeito, sim, tenho certeza de que existe esse lance de lugares e pessoas cuja mera presença, de alguma maneira (como o fazem, não sei dizer exatamente), são capazes de induzir angústia ou transformar nossa alegria em farsa. É tão fatual, que serviu de mote para que os roteiristas da série de TV What We Do in The Shadows bolassem um tipo muito especial de vampiro: the Psychic/Energy Vampires! São vampiros que não se alimentam de sangue, mas de energia humana, a qual é sugada quando eles entediam ou enfurecem pessoas. O campo de caçada deles? Escritórios de trabalho. Brilhante. ↷


📔 "Extraño. Estaba sentada en el colectivo. Ensimismada en no recuerdo qué ensueño. De pronto algo hizo sombra. Fue como en el cine, cuando un espectador rezagado se acerca y su imagen nos obstruye momentáneamente la visión. Sí. Era Raúl que me saludaba desde la acera. Maquinalmente mi mano le hizo un gesto y mis labios recordaron una sonrisa. Debo decir que reconocí que era Raúl al mismo tiempo que lo saludaba… Repito lo de extraño: ¿cómo es posible haberlo visto si yo no miraba? ¡Si mi mente estaba tan lejos…! Me asusta. Es como perder las posibilidades de apresar mi yo. ¡Al diablo! Es decir que mientras yo soñaba con XX, ¡una parte de mí husmeaba indiscreta lo que ocurría en la calle! Es decir, Mr. Dunn, que no están B espectador de A y C de B y D de E, etc., hasta el infinito. ¡No! Hoy sentí tres espectadores. A. que navegaba sonrosada en su ensueño. B que cuidaba de A. y E., ¡maldito sea!, para no aburrirse saludaba a Raúl."

Esse fenômeno é realmente intrigante. É como se estivéssemos cindidos em vários (o eu sob um prisma), e cada parte pudesse manejar com maestria e autonomamente (parece inconsciente) a execução de uma tarefa específica. Gostei porque é uma peculiar experiência cognitiva cuja dificuldade de compreensão se assemelha àquelas pessoais descritas no autoficções #02.


📔 Pero… (los hombres necesitan ser muchos para existir). Pero… junto al libro de Connolly no me siento sola. Luego me puedo decir que no temo la soledad. ¿La temo? (Por favor; no contestar aún. No has entrado siquiera en convalecencia.)

Livros como amigos que afastam a solidão; portos seguros que neutralizam o medo de encontrar-se terrivelmente só. (...) Recordei um antigo tweet escrito pelo senhor Hernán Letelier, ator e diretor de teatro chileno que, aos ~96 anos, descobriu que poderia interagir com o mundo através da internet e redes sociais. Consegui um print do tweet rememorado, cuja leitura me tocou profundamente naquela ocasião:

Quando o seguia no twitter, era sempre comovente sentir nas palavras do senhor Letelier a solidão que marcava sua vida, a qual ele amenizava através da leitura de livros (e da internet, do rádio). Quando ele escreveu os tweets do print, porém, a falta dos óculos impossibilitava o conforto literário, logo a solidão o corroía sem dó. Conclusão? Novamente nenhuma. Enfim.

03/07/2019

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #04 - história do guerreiro e da cativa

(Sinopse, info, etc: link / Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre história do guerreiro e da cativa: link 2
- Minhas postagens anteriores:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos.

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Durante a leitura do livro Os Diários de Emilio Renzi, escrito por Ricardo Piglia, esbarrei com este esclarecedor trecho a respeito dos contos de Borges:
"(...) Borges sempre foi um contista clássico, seus finais são fechados, explicam tudo com clareza; a sensação de estranhamento não está na forma - sempre clara e nítida - nem nos finais ordenados e precisos, mas na incrível densidade e heterogeneidade do material narrativo."
                      - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi - Anos de Formação (Tradutor: Sérgio Molina) 

Tomo emprestadas as palavras de Piglia para teorizar que história do guerreiro e da cativa tem um final fechado e preciso que explica tudo com clareza; ou, expresso de outro modo, um final que, tal qual a epígrafe de o imortal, entrega de bandeja a chave do conto. Ora, depois da suadeira que tive para desatar os nós de os teólogos, ficou fácil destrinchar o presente texto, especialmente quando seu arremate se dá através desta sentença:
"Talvez as histórias que contei sejam uma única história. O anverso e o reverso dessa moeda são, para Deus, iguais." 
Ou seja, em termos de temática, história do guerreiro e da cativa consiste em uma narrativa que condensa a teoria dos monótonos, referente à circularidade da história, e a cosmologia dos histriões baseada em imagens especulares (duplos). Focando-se na narrativa das personagens do guerreiro e da cativa, é possível antecipar uma repetição circular do movimento entre mundos bárbaros ↔ civilizados, o qual é realizado por indivíduos que simbolizam as faces de uma mesma moeda e que, por conseguinte, constituem uma só unidade. Isso permite inferir, a propósito, que não há juízo de valor entre aqueles pólos do deslocamento, dado que, conforme escrito pelo próprio autor, eles são, para Deus, iguais. Curiosamente, recordei que, em janeiro de 2019, a revista Época noticiou uma narrativa real transcorrida no Brasil que sustenta a teoria de circularidade especular das histórias do guerreiro e da cativa. Organizando a sequência, fica:


- no século VI/VIII (?), o bárbaro lombardo Droctulft abandona os seus para juntar-se à civilização de Ravena;

- no século XIX, a loira inglesa emigrada de Yorkshire, após ser levada à força por índios na Argentina, acaba por integrar-se definitivamente à vida na tribo indígena;

- em 2004, a índia Lulu Kamayurá, por intermédio da atual ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, parte de sua tribo no Xingu para viver em uma grande capital do país.


Por sinal, é divertido constatar que este conto acaba assumindo, ele mesmo, o papel da imagem especular do conto anterior, que agora novamente retornaria, portanto, na forma de um duplo. Isto é (parafraseando Borges:), os teólogoshistória do guerreiro e da cativa seriam uma única história, o anverso e o reverso.
*

Estou ciente de que, no meu post para os teólogos, já extrapolei a cota de sandices relativas à unicidade formada pelas teorias da circularidade e dos duplos, logo não adicionarei desvarios correlatos. Haverá, contudo, uma diminuta emenda que nasceu a partir da releitura que fiz de minhas próprias postagens anteriores.

No post sobre o imortal, eu tinha incluído um breve comentário relacionado ao filósofo italiano Giambatistta Vico (citado por Borges naquele conto) e sua teoria de uma história cíclica. Admito que, a esta altura da empreitada, eu já tinha me esquecido por completo "desse tal" Vico; porém, quando reli o que eu havia escrito naquela ocasião, imediatamente baixou-me um espírito detetivesco e conjecturei que talvez valesse a pena investigar melhor o camarada. Ok; textinho lido aqui, textinho lido acolá, prontinho: garanto estar uns 89,7% convencida de que as ideias desse filósofo italiano do século XVIII têm tudo a ver com história do guerreiro e da cativa. Embora nem de longe minha superficial pesquisa tenha me tornado expert na filosofia viquiana, ousarei destacar dois pontos das ideias do filósofo que ~aparentemente~ conectam-se com a narrativa deste conto borgiano.

Vico, ao intermediar a lendária treta que existia entre naturalistas (Grócio) e céticos (Carnéades), contribuiu com ideias que defendem a convergência entre a sociabilidade natural do homem e a artificialidade do mundo civil. Aliás, é engraçado que, ao fazer isso, Vico denuncia o duplo constituído por céticos e naturalistas - um retorno circular dos monótonos e histriões?! -; e por Carnéades e Grócio - o retorno circular de Aureliano e João de Panônia?! Que preciosidade! Bom, minha hipótese é que essa premissa de Vico corrobora a concepção do duplo estabelecido pelo guerreiro e pela cativa, o anverso e reverso do humano. Na tentativa de demonstrar essa hipótese, sintetizarei mal e porcamente essa parte da teoria do filósofo.

A compatibilidade entre as noções de estado selvagem e sociabilidade natural se apresenta quando Vico afirma, por um lado, que o ser humano é por natureza sociável e, por outro, que ele recaiu e pode sempre recair na anosmia provocada pela completa dissolução das instituições sociais. O italiano formula uma concepção histórica da natureza humana na qual existiria um estado selvagem resultante do isolamento voluntário de alguns indivíduos. Dessa forma, Vico quer demonstrar o caráter social da natureza humana por meio de uma via negativa: a natureza humana não subsiste sem instituições (→ no conto, elas estariam representadas na emblemática descrição da cidade de Ravena); o homem isolado é incapaz de conservar as propriedades que o distinguem dos animais (→ lembrar da passagem em que a índia loira bebe o sangue da ovelha degolada).

A filosofia viquiana igualmente me parece fundamentar a circularidade presente em história do guerreiro e da cativa, notadamente em referência à movimentação barbaridade ↔ civilidade. As instituições estabelecidas, conservadas, transformadas pelos seres humanos e das quais depende a sociabilidade humana variam no decorrer do curso histórico que as nações percorrem, o que implica no surgimento de novas propriedades na natureza humana. O esquema histórico defendido por Vico concebe três idades sucessivas, definidas segundo a teoria da forma de governo:

a idade dos deuses: governo patriarcal pré-político
a idade dos heróis: a república aristocrática
a idade dos homens: a república popular e a monarquia

A história da natureza humana trata-se de um processo pelo qual a natureza selvagem é modificada sucessivamente por distintos tipos de instituições. Nesse contexto, as vontades humanas e a autoridade das leis, a qual também depende do reconhecimento dos homens, são o único fundamento sobre o qual se assentam as instituições (→ recordar que guerreiro e cativeira escolhem, por vontade própria, seus destinos finais). A derrocada das instituições racionais da idade humana voltaria a instalar a natureza humana nas condições da barbárie primitiva, começando um novo ciclo histórico. Dessa maneira, Vico defende uma História que evolui mediante uma circularidade marcada pela alternância entre ascensão e queda de nações, as quais eternamente avançam e recuam através desse ciclo, passando por cada uma daquelas três idades diversas vezes.

Por tudo isso, enfim, realmente creio que Borges praticamente pegou um significativo substrato da tese de Vico e o transformou num de seus contos. Voilà?

[P.S.: quando li que Vico associa a barbárie à derrocada das instituições e a um estágio em que o egoísmo dos cidadãos impede a confiança mínima indispensável para que a sociedade propriamente humana se conserve, passei a questionar seriamente se nossa atual realidade social corresponde à fase histórica da transição para a barbárie, a fim de iniciarmos futuramente um novo ciclo. Será? Xi.]

[Principais fontes: 1. Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico; Edufu, 2018 2. Internet Encyclopedia of Philosophy: Giambattista Vico.]

**

Quanto à forma, suponho ser possível dividir este conto em duas partes: na primeira, o autor desenvolve algo que se aproxima de um artigo técnico redigido por um historiador; enquanto a segunda se aproxima da estrutura que eu mesma recorrentemente utilizo ao comentar minhas leituras no blog. Borges blogueirinho?! EITA! Calma, não ria, porque o papo é sério. Acompanhe meu raciocínio finíssimo. Borges inicia história do guerreiro e da cativa contextualizando técnica e historicamente sua leitura (informa autoria, datas, sinopse etc) e, em seguida, passa a narrar as memórias pessoais que foram-lhe evocadas a partir daquele respectivo livro, conferindo à segunda parte um tom confessional de memorialista. Inclusive, pensando desse jeito, é possível dizer que reaparece um dos temas de o imortal referente à concepção de imortalidade relacionada a livros. Um livro (o do historiador Paulo) puxou outro (o livro de Croce), que puxou outro (o conto de Borges), que puxou este post de blog, que puxou... Uma matriosca literária!

Outro marcante aspecto narrativo corresponde ao fato de que Borges parte de fatos reais - Droctulft realmente existiu, como também são verídicos o livro de Croce e os textos do historiador Paulo - para criar uma obra dita ficcional. Ainda que a narrativa seja inventada, ela é construída de modo que pareça tão verdadeira quanto os elementos apropriados a partir do "mundo real". Dia desses mesmo, li um trecho em que novamente Piglia discute esse exato método narrativo:
"O curioso desse aparente verismo é que ele justifica, com os fatos "verdadeiros", uma narração imaginária. (...) tornar verdadeiro um mundo real e me apoiar em fatos que aconteceram para construir um romance no qual tudo é imaginário, exceto os lugares, alguns eventos e o nome dos protagonistas. (...) 
O romance como indagação da realidade. (...) uma vez que a história já está no real, e é necessário poder reconstruí-la e narrá-la, como se não fosse inventada."
                     - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi - Anos de Formação (Tradutor: Sérgio Molina) 

Nem é preciso esforço para notar essa engrenagem, pois Borges a revela no texto mediante um convite explícito (ah, e reencontro a figura do narrador que não tem certeza do que narra):
"Não sei sequer em que época aconteceu (...). Imaginemos (este não é um trabalho histórico) (...) 
Muitas conjecturas podem ser aplicadas ao ato de Droctulft; a minha é a mais econômica; se não for verdadeira como fato, será como símbolo."
Imaginar! é o grande lema da literatura, e Nabokov defende justamente isso no texto Bons leitores e bons escritores, lido recentemente:
"Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto tanto à arte quanto à verdade. Todo grande escritor é um grande impostor, mas assim também é a natureza, essa trapaceira contumaz."
        - Vladimir Nabokov; Bons leitores e bons escritores (Lições de Literatura). (Tradutor: Jorio Dauster)

***

Desde o primeiro conto, Aimée ressalta a recorrente contestação da personalidade que se faz presente na obra de Borges. Certo, pois assimilada a dica, avalio que essa questão é abordada neste conto. A concepção do duplo guerreiro/cativa refuta a noção de personalidade, substituindo-a pela noção de equivalência entre os homens. Além do mais, enquanto vivo, Droctulft logrou a artimanha de ser tanto herói, como traidor. Ora, em determinados instantes de sua vida e a depender do ponto de vista (italianos / lombardos), ele foi simultaneamente herói e traidor! 

Esta bela passagem, por exemplo, propõe uma outra perspectiva para essa reflexão:
"Imaginemos Droctulft, sub especie aeternitatis*, não o indivíduo Droctulft, que sem dúvida foi único e insondável (todos os indivíduos o são), mas, como ele e outros, o tipo genérico criado pela tradição, que é obra do esquecimento e da memória. "
 * = sob a forma de eternidade

Nela, Borges parece cindir a identidade humana em duas partes coexistentes (duplo de novo?): uma singular, repleta de pormenores; outra universal, que se estabelece via narrativas/arquétipos/símbolos que se repetem circularmente ao longo da história da humanidade. 

****

E não é que, uma vez mais, associarei um conto de Borges às narrativas de super-heróis? #audaciosa Como já previamente compartilhado neste diarinho, não entendo nadica do universo de super-heróis, no entanto, durante o eventual contato com tais narrativas, comumente algo bastante específico me inquieta: de onde vem o apego quase doentio dessa galera por suas respectivas cidades?! Fico intrigada pelos discursos que se concentram na importância de defender não uma pessoa(s) ou sociedade, mas sim a cidade. Daí, Borges insere em história do guerreiro e da cativa uma descrição tão bela do fascínio que teria acometido Droctulft em relação à cidade de Ravena, que acredito que o enigma que me consome na relação super-heróis x cidades aproximou-se de uma resposta: 
"(...) vê uma cidade, um organismo feito de estátuas, de templos, de jardins, de quartos, de arquibancadas, (...) de espaços regulares e abertos. Nenhuma dessas construções (bem sei) o impressiona pela beleza, tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo objetivo ignorássemos mas em cujo desenho se adivinhasse uma inteligencia imortal. (...) Bruscamente o cega e o renova aquela revelação, a Cidade. (...) não começará sequer a entendê-la, mas sabe também que ela vale mais que seus deuses e sua fé (...)"
*****

Agora uma confabulação extrapoladora bastante particular. Nos stories do instagram, Tatianne Dantas havia compartilhado um comentário peculiar que um leitor homem (supostamente) lhe escrevera no seu vídeo resenha para o livro Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy: "Eu não sou sexista mas honestamente este romance não é nada para as mulheres". Por que não seria para mulheres? O moço não se deu o trabalho de justificar, então parti para suposições: ou ele acha que mulheres são incapazes de compreender a prosa de McCarthy e/ou ele acredita que a história do autor americano não diz respeito/interessa a mulheres que, estando restritas ao meio doméstico, sequer viram passar o bonde da sangrenta história expansionista dos EUA, permanecendo ilesas a tudo. E o que isso teria a ver com história do guerreiro e da cativa? Bem, até certo ponto, ambas narrativas de Borges e McCarthy exploram movimentos históricos de expansão territorial marcados por violência extrema entre brancos e índios. Nessa onda, eis que desponta Borges narrando como duas mulheres se viram metidas no olho do furacão expansionista na Argentina. Que essas histórias pertencem a homens e mulheres (infelizmente), não me resta dúvida. Após a leitura deste conto de Borges, portanto, inevitavelmente acabei revivendo a amolação promovida pela confusa assertiva daquele leitor.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]
Puxa, e não é que um duplo me passou batido?! No vídeo, Aimée diz que o próprio Borges (enquanto narrador do conto) e o diácono Paulo também são o anverso e reverso da moeda. Ela explica que Paulo, em seu trabalho como historiador, dedicou-se (dentre outras coisas) a escrever a história dos lombardos. Borges, por sua vez, ao assumir-se como narrador da história, se converte a historiador no momento em que decide contar as histórias de sua avó, as quais simbolizam a história de formação da América. Creio que não identifiquei esse duplo porque encaro a segunda parte do conto, aquela em que Borges surge explicitamente como narrador, como detentora de um aspecto formal mais próximo de um texto de memórias, do que exatamente histórico. Entretanto, isso serviu para que eu relembrasse algo super importante: são as histórias pessoais que compõem, conjunta e simbolicamente, a grande História. Boa.

Entrando na paranoia de procurar duplo em todos os lados, comecei a achar que talvez eu e Aimée estejamos compondo um duplo. Duas leitoras de Borges, separadas no tempo e no espaço, em diferentes estágios de intimidade com a obra do autor argentino. Rola? Náh, passei do ponto, né? Beleza; então é hora de encerrar o post. ;)

01/07/2019

autoficções #02

01
Pelo visto, este formato de postagem não morreu. (Ainda) ¯\_(ツ)_/¯
Agora, em roupagem bem mais malevolente. (= mesma bobajada de sempre.)

02
A caminho do trabalho, enquanto me dirigia às escadas do metrô, vi uma mulher andando em sentido contrário completamente pelada. De início tomei um baita susto, no entanto logo minha mente se perdeu em um labirinto de conjecturas:

- Devo perguntar se ela precisa de ajuda? ↷
- E se ela tiver sido roubada? Estuprada?!! ↷
- Mas ela está tão tranquila, não chora, até demonstra feições que sugerem certo aborrecimento com os olhares... ↷
- Parece até ter saído do banho! Quê? ↷
- Mas e se for uma senhora em situação de rua, necessitando de ajuda? ↷
- E se ela apenas deseja/prefere andar pelada, por uma curta distância, sem ser importunada? Qual o problema em andar pelada por aí? Tem problema mesmo andar nua no meio da multidão? Vou me meter na vida dela porquê? ↷
- Isso é realmente da minha conta? (…) Se ela estiver precisando de ajuda, talvez seja, sim. ↷
- Nah, ela está andando super resoluta. (...) Mas o enfado causado pelos olhares sugere desconforto... ↷
- Ai, estou tão atrasada, que não poderei fazer coisa alguma.

E todo esse percurso, que me levou a lugar nenhum, deve ter durado seis segundos. Rende um conto?

03
Adrianne Lenker falando da música que, no momento, não larga meu ouvido:
"Everything is fleeting and passing and impermanent in life. Relationships, people, our finite physical forms… so we’re in this process of letting go of our own attachments to our physical forms and to the people we love, and… basically everything. Life is like this one big process of letting go. That’s what makes it so sweet, is that it is finite, that it is passing, so you can just really come into the present.”

Escuto a canção só esperando estes versos:
Just like a bad dream
You'll disappear
Another map turns blue
Mirror on mirror
And I imagine you
Taking me outta here
To deepen our love
It isn't even a fraction


Ei-la, pois:



04
A Kathryn VanArendonk, jornalista do site Vulture, escreveu um artigo contando sua jornada de compra do macacão que Phoebe Waller-Bridge veste no primeiro episódio da segunda temporada de Fleabag. E com direito a foto vestindo a peça e tudo. Como esse texto me trouxe alegria.
Logicamente eu sabia que não era a única a ter ficado hipnotizada com a imagem da Waller-Bridge naquele decotão (quando meu olhos bateram no all-star/vans vermelho que a personagem escolhe usar junto, fui rendida de vez), mas não tinha atinado para o quão fácil é trazer um exemplar da vestimenta para o guarda-roupa de alguém. No meu caso, a dificuldade para efetivamente vesti-lo, porém, segue intransponível, visto que 1. não tenho corpo longilíneo, 2. não tenho seio pequeno o suficiente e 3. odeio usar decote. Em se tratando de desejar peças de roupa vistas em série de TV, creio que minha cabecinha ainda opera segundo aquela da daniela dos 2000's que, padecendo numa cidade onde só há uma estação do ano = inferno, teve de se contentar em apenas sonhar que corre em slow-motion vestindo o casaco verde da Buffy.

E “logicamente” n°2: não é “apenas” uma peça de roupa. VanArendonk faz uma boa análise simbólica do papel que o macacão assume na construção narrativa da personagem em Fleabag.

Clothes are also everything, Anthony!

Trago o ótimo resumo final dela:
"It sends exactly the message Fleabag wanted it to send: It looks like I made an effort, and I look great, but also I mostly already was great, thank you very much. You can tell, because I had the good sense to buy this very reasonably priced and alluring jumpsuit."

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Pera, que a ficha só caiu agora. Primeiro eu defendi o direito de se andar pelado por aí, depois eu parafraseei uma piadinha de série de TV para afirmar que roupa é tudo. Caí em contradição ou valem as duas coisas? Que atrapalhação!

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Propositalmente, mantive a Emilia Clarke no print, porque acho que a imagem prova que o meme está corretíssimo:
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Simplesmente não consigo parar de assistir a Fleabag. Há alguns dias, toda noite antes de dormir, tenho revisto minhas cenas favoritas da segunda temporada. Help me, Father. Help.me.

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Como já pisei na jaca, decidi enfiar o pé de vez e fui lá ver Smithereens, o segundo episódio da quinta temporada de Black Mirror (série que detesto) por motivos de: Andrew Scott. ¯\_(ツ)_/¯ Esgotei os vídeos de entrevista com ele no You Tube (- Aliás, suspeito de que seríamos bons amigos, Andy. Partiu para um chocolatinho quente?), daí não tive outra saída, senão encarar Black Mirror. Bom, o Scott está legal, mas a história é meio simplória.
O episódio trouxe nova confirmação de que, após a morte, padecerei nas trevas: quando a personagem disse, chorando desesperadamente, que matou a mulher em um acidente de carro porque se distraiu dando like em foto de cachorro fofo no twitter, o que foi que eu fiz? Eu ri. Eu ri, e não foi pouco, não. (*Fiquei um tantinho mal depois, porque suspeito de que deve haver casos reais similares. Paciência; agora já ri.)

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Ezra Koenig (Vampire Weekend) e Thomas Mann estão separados no tempo e no espaço pelo pico de uma montanha coberta de neve. Aproximo-os com muito prazer.

10
~ manifestão ~
Achei que a atual ~conjuntura nacional~ pedia a leitura do A Utilidade do Inútil, escrito por Nuccio Ordine, porém que bela porcaria (na minha opinião etc®) a obra se revelou. Trata-se da mera colagem de uma porção de lugares-comuns sobre o tema, com muitas citações de autores diversos. Só há praticamente um argumento: affe, 'ceis acham inútil só porque não dá dinheiro. fim ao capitalismo! A gota d'água é quando o cara me manda esta (logo no começo, felizmente):
"(...) a literatura. (...) por ser imune a qualquer aspiração a lucros, (...) Sua própria existência, de fato, chama a atenção para a gratuidade e para o desinteresse. (...) inútil, portanto, porque não pode ser monetizado."
                                                    - Nuccio Ordine, A Utilidade do Inútil (tradutor: Luiz Carlos Bombassaro) 

Literatura não pode ser monetizada? Meu amigo, vivemos em uma época em que existem leitores que recebem uma graninha só pra falar de um livro na internet (#publi, anyone?), então: menos, ok?  Inocência só é legal em doses homeopáticas – e olhe lá. (É possível que eu tenha levado a coisa muito ao pé da letra, mas infelizmente meu cinismo capitalista não colaborou com concessões.)

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Depois do aborrecimento com o livro do italiano que acredita em uma literatura imune ao capitalismo, caí de paraquedas em um musical indiano que é o puro suco do dinheiro x literatura. Arriscarei um resumo tosco.

Pyaasa narra a história de um poeta (é lógico) cujo sucesso só vem depois que ele supostamente morre. Enquanto vivo, o moço não tem o que comer, nem onde dormir; e os irmãos chegam a vender todos os papeis nos quais seus poemas estão escritos para servirem de embrulho na feira. Que dó. Ninguém dava a mínima, exceto uma prostituta que, por acaso, lê os versos escritos no papel da feira e fica encantada.

Daí, o mesmo editor que tinha mandado o poeta à merda, decide finalmente publicar seus poemas em troca de dinheiro pago pela prostituta (ela queria homenagear o "morto"). Resultado? O cara vira um tremendo sucesso de vendas, e logo seus irmãozinhos, os mesmos que antes o relegaram, batem à porta do editor para exigir parte nos lucros. Ao escapar do hospital psiquiátrico, o poeta fica enojado com o que a obra dele havia se tornado: uma máquina de gerar lucro adorada pelo público em simulacros de cultos messiânicos. E o editor ainda tenta pagar para que os irmãos do poeta não o reconheçam quando ele reaparece, a fim de preservar a lucrativa aura do poeta defunto. Lembrei da Lygia Fagundes Telles que, em uma antiga entrevista no Roda-Viva, afirma que se pratica no Brasil a necrofilia ("Vontade de exaltar o morto. Acho que é porque o morto não está mais competindo. Só pode ser isso."), pois os escritores (ela inclui Lispector nessa) só valem alguma coisa depois de mortos. Quem ousa dizer que ela está errada? Link aqui: X (formidável entrevista).

Pior é que o filme funciona, mais ou menos, como uma espécie de desabafo autobiográfico do próprio diretor (Guru Dutt, que inclusive interpreta o poeta), então cansado do público e dos estúdios que só se interessavam, respectivamente, por batidos filmes de entretenimento e pelo que representava lucro garantido.

Achei massa como esta cena lembra ligeiramente aquela no observatório do filme La La Land:

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Hoje pela manhã estive caminhando aqui pelo bairro, por umas ruas pelas quais não costumo passar - sempre as vejo somente de longe, através da janela do vagão do metrô - , e, durante uma fração de segundos, fui tomada pela perfeita sensação de estar viajando em uma cidade misteriosa. Acredito que isso ocorreu em decorrência da combinação relacionada a experiências que só costumam acontecer durante viagens: caminhada por espaços desconhecidos + cedo pela manhã + em pleno dia útil da semana. Talvez eu deva tentar fazer isso outras vezes.

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E esta porcaria de música me fazendo chorar no meio da rua, rasgando toda minha garganta?
É linda, esta merda. (Ludovico Einaudi, Golden Butterflies)

Trata-se de um criativo projeto do Einaudi: discos com músicas feitas especialmente para caminhadas. Um disco para cada dia de uma semana completa. Pronto, a trilha sonora para sair caminhando por aí está garantida.

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Juntando minha galera querida.

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Outro fenômeno similar: quando bato o olho em alguém que, no vagão do metrô, está assistindo a alguma série de TV na tela do celular, sinto a real sensação, durante brevíssimo instante, de estar dentro de um avião. Super curioso. Creio que minha mente persiste vinculando mini-telas em espaços públicos, fechados e em movimento somente a aviões. Deve ser coisa da idade.

* Começar a dizer “deve ser coisa da idade” = é coisa da idade. Já era.

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Curto bastante o som da banda Jungle, especialmente porque é perfeitinho pros meus passitchos (tem melodia e não é puro loop de bate-estaca) e os clips deles têm coreografias mega legais, contudo nunca havia batido a curiosidade de vê-los tocando ao vivo, de descobrir quem eram as pessoas atrás da música etc. Pois eles fizeram uma nova apresentação no canal KEXP (You Tube) e: o.susto.que.eu.tive. É toda uma aura hétero topster®. Méu Déus. (Reavaliando todas minhas preferências musicais.)
P.S.: dane-se, continuo gostando, sim. (menos, porém ainda gostando muito, pois a carne da dançarina é fraca.)

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(Persistindo com o Jungle:) Por outro lado, os caras me proporcionaram uma instigante epifania literária. Na música Cherry, eles mandam estes versinhos:
You never gonna change me
I was already changin'


Os quais trouxeram de volta à memória os belos versos da Ana Martins Marques sobre o mar:
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre

Então... Jungle + Ana Martins Marques = há um mar dentro de cada um de nós?!
Olha aí, talvez a banda não seja assim tão hétero topster®, vai?

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Hum, e não é que uma eleitora daquele que prefiro não nomear está dando sinais de que gradativamente percebe ter cometido uma cagada? Não deu o braço a torcer explicitamente, contudo pequenos deslizes transparecem com frequência cada vez maior. Curiosa é a aparente motivação: pessoas públicas que ela curte e admira (em podcasts principalmente) detestam a respectiva figura eleita. Pitoresco.

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E durante os exames pré-operatórios, ainda me aparece um nódulo na tireoide. Haja resiliência.
Esta passagem escrita por Piglia sobre a relação que estabelecemos com nossos corpos está em plena harmonia com os sentimentos atuais:
"(...) meu corpo hostil: está aqui, sou eu (quem?), mas me é estranho e tem leis próprias, impõe-se, inexoravelmente, e marca a passagem do tempo de um modo que sempre vi nos outros (eles envelheciam por mim)."
                    - Ricardo Piglia, Os Diários de Emilio Renzi (Anos de Formação) (tradutor: Sérgio Molina)

20
Recordei que Thomas Mann, no livro A Montanha Mágica, também aborda o tema eu x meu corpo. Fui lá revisitar os trechos lindos e trago este:
Eu queria somente dizer que é uma coisa sinistra e penosa ver o corpo levar uma existência própria, independente da alma, e dar-se ares de importância, como no caso dessas palpitações sem motivo. E a gente se esforça por encontrar um sentido nessa coisa; procura-se a emoção indispensável, um sentimento de alegria ou de medo, que as justifique de certo modo - pelo menos eu faço isso, pois só posso falar de mim.
                                                                 - Thomas Mann; A Montanha Mágica (Tradutor: Herbert Caro) 
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Se é pra me lambuzar nessa temática, acho que vale reviver as melodias de My body is a cage, do Arcade Fire. O lance é aferrar-me à mente, pois é ela quem detém a chave para minha liberdade. (O problema é que até a mente curte uma vida independente de vez em quando, fugindo do meu próprio controle. Oh well)

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key


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Hoje foi dia de brincar de aquarela. Ficou uma bosta, mas o que vale é a paz de espírito durante e após umas horinhas pintando. Minha cena favorita do belo filme da Varda + JR.

23
Há algumas semanas, comecei a ouvir um barulho inusitado vindo do apartamento acima do meu: patinhas de um cachorro (poderia ser um gato?!) que caminha pra lá e pra cá. O intrigante é que não escuto nenhum outro ruído proveniente do teto. O bichinho mora só? Trabalha e paga as contas? Já comecei a viajar na ideia para um conto.

Qualquer dia desses, me apresentarei ao meu novo vizinho. 

24
Tendo em mente que foi escrito pela Waller-Bridge, decidi me render ao hype de Killing Eve. Foi legal, me diverti, entretanto acho que estou bastante satisfeita apenas com uma temporada, obrigada. Não é que eu a tenha achado um lixo completo; é que aquilo exige doses de suspensão de descrença que ultrapassam minha capacidade, ainda mais para uma série que se sustenta em um único foco de conflito/tensão que não tem como se estender assim indefinidamente. Acredito que se ela se levasse menos a sério e efetivamente vestisse a camisa do exagero surreal, as coisas ficariam melhores (na minha opinião etc®).

O que me chamou muita atenção foi, claro, a grande personagem da série: o cabelo da Sandra Oh. Aquele cabelo merece de fato todas as homenagens possíveis. É lindo. Inclusive, me fez voltar aos 11-12 anos quando, de frente ao espelho e com sangue nos olhos, eu escovava as madeixas maldizendo cada um daqueles fios que, na época, muito se pareciam aos da Oh. Que coisa triste. Fico feliz que as coisas tenham mudado um pouco para as garotas. Apesar de que, na minha época (quando um pouco mais velha), bem que eu tive uma musa capilar para chamar de minha: (♪ô ê ô... ô ê ô ô...)



 


- Hair is everything, Anthony!


25
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Car***o!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Great state I’m in, in all states I’m in
I might final form in my melanin


26
No livro do Piglia (Diários E. Renzi) esbarrei com:
↦ a citação de uma frase dita por Sade que talvez case bem com o filme Us, do Jordan Peele:
"A compaixão (...) é uma qualidade dos privilegiados."

↦ um trecho sobre a vida de pindaíba do escritor. Talvez seja a isso que Ordine se refira com o papo de uma literatura desvinculada do capitalismo:
"A chave para o artista é, digamos, refletir sobre a necessidade. Não necessitar de mais do que se tem para viver. Para esquecer "as necessidades", deve-se aprender a viver no presente."
Katherine Anne Porter, a primeira autora mulher citada no livro - no meio de aproximadamente 50 autores homens diferentes mencionados -, após 322 páginas (de 377). Significa que, em dez anos, o cara só teria lido uma escritora. Desconcertante. (*Providenciarei a leitura da obra dela.)

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Aniversário do meu amado irmão. Parabéns! 

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Lendo a newsletter do Noticing, descobri que 2019 é o ano em que comemoramos* o vigésimo aniversário do nascimento da palavra “blog”, cujo pai, aprendi, chama-se Peter Merholz. A letter linkou para um post de Merholz escrito em 2002, no qual ele comenta como cunhou a palavra, e o click me rendeu uma grata surpresa: o visual do site dele consegue ser mais tosqueira old-school do que a do meu! [* será que há mesmo alguém celebrando, além desta que ora escreve? (que ora escreve...que ora escreve...que ora escreve...)]

Naquela postagem, o pai da palavra faz um comentário fenomenal sobre sua filha:
I like that it's roughly onomatopoeic of vomiting. / 
Gosto como soa quase como uma onomatopeia para vômito.

Pois pronto: por enquanto, seguiremos vomitando na internet. Blóóóóóóóóóóóóóóóógggg

P.S.: ainda há espaço na internet pra foto de ipê rosa? Como a fotógrafa é ruim, nem dá pra ver que é rosa, então arriscarei:

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E o Liam Gallagher respondendo perguntas do Google em um vídeo do You Tube:
- Why did Liam Gallagher leave?
- I didn't leave Oasis. Noel Gallagher left Oasis because he couldn't handle the rock 'n roll. Now he's going all cosmic pop. He couldn't handle it. 

Não faço a mais remota ideia do motivo que me faz ouvir, em 2019, o que o Liam Gallagher tem a dizer, mas fico contente por ter apertado play.

[P.S.: alguém ainda dá conta de rock 'n roll, senhor? é fascinante demais. virou uma caricatura de si próprio. *laughing in Damon Albarn language*]

30
Joguei a toalha no ringue e fui lá ver John Wick 2. "Mas tem história, sim!" foi o que me disseram. Sei.

O John Wick, cara, ele pode tudo. Ele é capaz de pular em um trampolim, pousar na lua e impedir que um meteoro atinja um poodle que passeia faceiro em uma calçada na Terra. Na falta de palavras, fico com as do próprio astro dessa obra-prima, Mr. Keanu Reeves: "But it's John Wick!" Então tá, Keanu.

Venho por meio deste blog reclamar que as locações brasileiras estão sendo injustamente esnobadas. Algumas ideias brilhantes que tive no rápido brainstorming comigo mesma:

1.  Rodoviária de Brasília > Onde está John Wick?↷
Já pensou, uma perseguição de busões? Poetic Cinema.
2. Na Pororoca, que sequer existe mais; porém dane-se: It's John Wick!
3. 25 de Março, véspera de Natal - Onde está John Wick?↷
Pô, iria diretaço pro catálogo da Criterion Collection.
4. No Cristo Redentor, homenageando Didi Mocó.
Uma perseguição em escalada, com o Rio ao fundo. Sublime.