01/01/2019

Diário Cinematográfico 2018.2

Plano: para fins de recordação, tento incluir aqui breves registros do que me marcou/chamou atenção em alguns filmes vistos. Vale qualquer coisa: imagem, gif, diálogo, frase, pensamento, reflexão, música...

Disclaimer: total sentimentalidade nas estrelinhas e zero análise técnica, como sempre. ¯\_(ツ)_/¯
 Não gostei. ⭐⭐ Ok. ⭐⭐⭐ Gostei. ⭐⭐⭐⭐ Gostei muito. ⭐⭐⭐⭐⭐ AAAH! INCRÍVEL.

🎬
🎥 Roma (2018 - Alfonso Cuarón) ⭐⭐1/2
1.Hoje, saindo de casa para o trabalho, avistei um avião no céu e tive a certeza de que Roma estará para sempre associado a essa imagem. 
2.Dentre tantas cenas lindas, é difícil escolher só uma, contudo acho que esta foi mesma minha sequência favorita, em termos estéticos: 


** Dúvida: enxergo cabelo em casca de ovo, ou a aparição deste casal de patos transando é realmente intencional e efetivamente simbólica?? ↷ Caramba, espie a dinâmica entre fêmea e macho. Meio tenso, hein.


🎥 The Night is Short, Walk on Girl (2017 - Masaaki Yuasa) ⭐⭐1/2
"I am the god of old-book markets. I bring divine justice to those who block the flow by putting high prices on books and have the duty of returning those books to this ocean. Which is why I want your help."

Deus das Feiras de Livros Antigos! 💜  ➤ Cuidado, sebistas da Estante Virtual!

Essa animação (espécie de comédia romântica surreal; on-drugs, but not quite) é completa e deliciosamente maluca, baseada na obra de Tomihiko Morimi. Quase abandonei no começo (não estava captando bulhufas!) e fico feliz por ter persistido, pois fui muitíssimo bem recompensada. Preciso beber a água que os japoneses bebem. 


🎥 Narciso Negro (Black Narcissus) (1947 - Michael Powell, Emeric Pressburger) ⭐⭐1/2
- Mas também, olha só como o moço me aparece pra visitar as feirinhas, gente:
Gif: eu que fiz®

Pô, eu mesma acabei ouvindo até o Barry White cantando os cinquenta segundos iniciais de My First My Last My Everything, toda vez que esse moço surgia na tela ~sensualizando~. Play! ↷
              

No mais, esta cena aí ↷, né? Puxa Vida.


🎥 Viver (Ikiru) (1952 - Akira Kurosawa⭐⭐
Assistir a esse filme foi como travar uma luta de braço com Kurosawa; durante a qual, quando eu achava que estava ganhando, o diretor contra-atacava com sucesso. A sequência da experiência foi mais ou menos esta:

(1) Quando, após a revelação do diagnóstico de câncer, o protagonista começa a encher a cara e a curtir a vida adoidado com festas, saquê e prostitutas:

Eu: Ah, tá, porque "viver a vida" é isso aí, né?
Kurosawa: Hey, mas esse é exatamente meu ponto; viver não é isso! Pô, espera um pouquinho
                   aí, Daniela.


       ↳ Um pouquinho depois:

(2) Quando a moça revela a Watanabe que havia percebido, após 1 ano de trabalho, que era hora de pedir demissão do serviço público burocrático que a matava um pouquinho a cada dia:

Eu: Ah, tá. Pois quando eu tentei fazer a mesma coisa, me colocaram (metaforicamente) numa camisa 
        de força, e "tive de fazer" visitinhas ao psiquiatra.
Kurosawa: Ow, mas eu não estou necessariamente criticando as pessoas que intervieram, nem  
                    dizendo que essa é a única saída, mocinha. De novo: espera um pouquinho, que                                       ainda tem mais filme.

      ↳ Um pouquinho depois: o cara vai lá e encontra sentido para a vida no próprio trabalho,                                                                   desdobrando-se em mil para vencer a burocracia do governo e                                                                      construir  um parque.
                                                      

(3) Quando Watanabe morre:

Eu: Ah, tá, acabou; agora vem o melodrama final. 
Kurosawa: <cof, cof> Na verdade, ainda resta meia hora de filme. Espia só o que eu aprontarei                                    agora. Voltaremos ao buraco público.

    ↳ Um pouquinho depois: surge uma série de discussões e reações interessantíssimas dos                                                                 colegas "sobreviventes", com diálogos e cenas totalmente excelentes
                                               sobre a vida, relação com trabalho e o escambau. Heavy shit.

(4) Quando termina o filme:

Eu: Senhor Kurosawa, se o senhor está achando que construirei (metaforicamente) um parque                       naquela gruta que chamam de trabalho, a fim de injetar o mínimo de vida na minha porcaria de        existência...; aaaahhh, mas o senhor está redondamente enganado.
Kurosawa: Sei, Daniela. Então, tá.

    ↳ Um pouquinho depois:
---

O filme me lembrou isto que Yalom afirma no livro The Gift of Therapy (tradução minha):
"Embora a concretude da morte nos destrua; a ideia da morte pode nos salvar. (...) Ouvi muitos pacientes lamentarem "Mas que pena que tivemos de esperar até agora, até que nossos corpos estejam definhando pelo câncer, para aprender a viver." 
Afinal, como responder a pergunta "o que é uma vida vivida?"  Bem ou mal, A resposta surge finalmente para Watanabe após o diagnóstico de câncer terminal.

Bom, play! na bela [cena + música] chave do filme:

          (~A vida é breve, galera, tá pensando o quê? Bora agilizar as paradinhas aí, senão... É.~)


🎥 The Day I Became a Woman (Roozi ke zan shodam) (2000 - Marzieh Makhmalbaf⭐⭐
Que ótimo filme! Ele traz três breves narrativas independentes; protagonizadas, cada uma, por mulheres de distintas gerações, que vivem hoje no Irã.

História 1 - Cinderela Iraniana (Hava)
Ao meio-dia, quando o graveto fincado na terra não mais projetar uma sombra, a garotinha de nove anos virará mulher = terá de usar véu, não poderá brincar com garotos, não poderá subir no telhado, não poderá, terá que, não poderá, terá que...

Gif: eu que fiz®

História 2: Corrida-Maluca Iraniana (Ahoo)
Moça (própria diretora) participa de uma espécie de competição de bicicleta à beira-mar, enquanto é perseguida pelos homens de sua família, montados à cavalo - marido, pai, avô, irmãos.

Gif: eu que fiz®

História 3: Howl's Moving Castle Hoora's Floating Home (Hoora)
Senhorinha zarpa com todas as tranqueiras domésticas que finalmente pôde comprar. O paralelismo com a cena inicial, associado ao encontro das três gerações, encerra circularmente o filme.

Gif: eu que fiz®

Acho que é o primeiro filme iraniano a que assisto cuja locação exibe o litoral do país, permitindo que o mar apareça como um dos elementos que compõem o simbolismo marcante do filme. Gostei muito disso, e todas as cenas são realmente lindas.

Resgatando o título do filme, é aquela coisa: "Ah, a garotinha tornou-se mulher no Irã? Massa! Pois aqui está seu presente: uma listinha compulsória - válida até sua morte - de todas as coisas que você não pode fazer e as que você tem de fazer. Assinada por um homem, obviamente."  Digo, o filme praticamente provoca a reflexão relacionada à pergunta que registrei enquanto lia Ifigênia, da venezuelana Teresa de la Parra: "Liberdade é coisa só pra homem, ou tem pra mulher também?"
No Irã, parece que não tem muita pra mulher, não.


🎥 Horas de Verão (L'heure d'été) (2008 - Olivier Assayas
Filme tão bonito sobre família, memória, arte... Dentre os vários momentos lindos e que renderam bons devaneios embaixo do chuveiro, escolho guardar este aqui:

                                                               

Reparou, daí produziu um terceiro objeto, e destruiu memórias... Ou elas continuarão no novo objeto reparado, apenas invisíveis a olhos não treinados? E então uma obra de arte quebrada pode ter tanto ou mais valor do que quando intacta (original)? Valores de naturezas distintas, mas ainda um valor? Se panz, aquela obra triturada do Banksy atravessou uma jornada similar...? Devaneios, devaneios.

🎥 Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman) (2018 - Spike Lee1/2
(1)

(2) 

(3) Eu pesquei aquela sequência, hein, Sr. Lee. É aquela coisa: temos american country music - bacaninha e tals - e temos também isto aí ↷ - cool as fuck. Tem espaço pra todo mundo, ok; mas né? É. Play!

                                    


🎥 The Romanoffs - House of Special Purpose (2018 - Matthew Weiner
(*Ah, é praticamente um filme, né? Incluirei aqui.)

Seguinte, uma amiga pediu que eu usasse este seguro espaço para perguntar se é ~ok~ achar o Raspútin do filme um tantinho, digamos assim, sexy. E aí? Sei lá, eu disse que é arrojado demais.
Devo me preocupar com minha amiga?
Gif: eu que fiz®

E que grande ideia: no meio da D.R. sobre traição, posar de doido/doida no musical cantando
Suspicious Mind. Curti. Mande a real, Elvis!
                                             


🎥 Frankenstein (1931 - James Whale
Nope, não consegui separar as coisas. Achei mesmo lamentável que esse filme tenha deturpado tanto o livro da Mary Shelley.  No mais, tá certinho: ↷

🎥 A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar) (1966 - Robert Bresson
Balthazar, estou cheia de dúvidas e acho que não entendi bulhufas desse seu filme. Pode me ajudar?
Perguntas:
- Por que os atores atuam feito robôs, todos aplicando a sequência "olho pro chão → olho pra cima de soslaio e falo → volto a olhar pro chão"?? Meu deus, que aflição e vontade de dar um murro, chacoalhar todo mundo.  Li aí que isso é intencional e que purifica, engrandece um estilo emocional, mas, ó, discordo totalmente. Qual seu ponto de vista, Balthazar? Sua atuação, se duvidar, é a melhor do filme. 
- De onde veio aquele Arnold? Quem ele matou?
- Identifiquei corretamente este inception ↴?


- Por que você fica pulando de mão em mão? Você foi uma aquisição comunitária do vilarejo?
- Esse seu nome - e consequente jornada - funciona como alusão direta ao Santo Balthazar? Confere, ou nem?
- Aquele Gerard; qual é a dele, hein? Ele tem alguma motivação ou só é ruim de nascença mesmo? Por que ele usava você para entregar pão, se ele tinha uma bicicleta elétrica?
- Em uma cena, Marie parece ser estuprada; na seguinte, ela aparece suspirando e choramingando pelo estuprador? É isso? Como assim?
- Você funciona como uma espécie de daemon da Marie? Há um paralelo ali, sim? Nada a ver; são entidades diferentes?
- Resumindo, Balthazar, sua parte eu acho que entendi: você nasceu feliz bebendo leite quentinho da mamãe → entrou em contato com humanos e passou a comer o pão que o diabo amassou; obrigado a fazer todo tipo de trabalho → morreu -, ok (c'est la vie, n'est-ce pas?); mas e todo o resto? Por favor, me explique através de uma narrativa lógica e clara a sequência dos eventos e as motivações de cada uma das personagens dessa história. Pode ser?

*E com essa reação (Bresson!), regredi 7 casas na minha jornada rumo à cinefilia gold standard. Droga.*

🎥 Náufrago da Lua (Castaway on the Moon) (2009 - Lee Hae-jun⭐⭐
Daí que o moço Lee Hae-jun dirigiu um filme que aproxima um suicida a uma agoráfoba (essa palavra existe?), cujo resultado é triste, melancólico, engraçado, surreal, fantástico, tosco, brega e tocante, tudo junto mesmo. Melhor: funciona!

Destaco duas passagens memoráveis:
1. Esse filme me apresentou a um suicida que, na ilha do rio tietê coreano Bam do rio Han, conseguiu cultivar milho a partir das sementes presentes na bosta de pombos. E não é só isso! Com o produto colhido no milharal, o ilhado preparou - do zero - um prato de macarrão com feijão preto. Nem me venha perguntar como essa proeza deu certo, porque eu mesma não saberia explicar a contento. Mas está lá no filme; e é hilário.

2. Quero guardar também a cena do pobre entregador do ifood que sofre em um pedalinho no rio tietê coreano para levar um prato de noodles até o ilhado. Como já fiz a burrada de me "divertir" em um desses pedalinhos, sei bem a canseira que é. Chorei de rir.




🎥 As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle (4 Aventures de Reinette et Mirabelle) (1987 - by Éric Rohmer⭐⭐ 1/2
Essa recomendação veio do Tumblr. Como não veria esse filme, depois de deparar-me com estas imagens cruzando meu dashboard? ↴
Pensando com meus botões, fiquei conjecturando que "hum, é quase uma série de TV dividida em quatro episódios". Daí, vou até o Letterboxd e o que encontro? Isto aqui: "It's a bit like Rohmer directing Seinfeld plots." EXATAMENTE! Batendo palmas de pé pra galera do Letterboxd. Uma única ressalva: não seriam episódios sobre "nada", mas sobre, digamos, pequenas questões morais principalmente.

Minha ordem de preferência das histórias:
(4) la vente du tableau > (2) le garçon de cafe > (1) l'heure bleue > (3) le mendiant, la kleptomane et l'arnaqueuse.


🎥 Ponette (1996 - by Jacques Doillon⭐⭐ 
É muito injusto que uma criança de ~ 05 anos seja obrigada a encarar estas questões metafisicas complicadas de "nascer-viver-morrer". Preciso me esforçar pra não sair esbravejando que isso é a prova de que deus, de fato, não existe. → [Hum... se apenas fosse assim tão simples**.]
(**Joseph Campbell anda mexendo com minha cachola até nessa, me convencendo argutamente de que o sofrimento é inerente à vida e, pasmem, que isso é maravilhoso. Merda.)

Acredito que a imagem abaixo é minha favorita. Gosto muito da sugestiva alegoria poética: a criança, tão pequena e inocente, conscientemente percebendo sua insignificância e impotência diante do mundo tão genioso e poderoso.
Daqui, cortemos para o arremate:
(Palavras que a mãe morta (alma?) disse à filha.)
Aprender a ficar contente... Puta merda, esse filme.


🎥 Os Amantes Crucificados (Chikamatsu monogatari) (1954 - by Kenji Mizoguchi) ⭐⭐
Engraçado que, mesmo sendo a besta romântica que ainda acredita facilmente no amor, a pergunta que segue martelando na minha cabeça é esta: eram amantes mútuos ou amantes da ideia, da fantasia de que se amavam? Faz diferença em termos práticos? Talvez a culpa dessa minha dúvida algo cínica seja a frase que salvei no último diário (filme All that jazz): "Não acredito no amor, entretanto acredito no ato de dizer "eu te amo".


🎥 Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch(1942 - by René Clair) ⭐⭐
Que besteirada deliciosa!! Veja bem, é um filme com duas fumacinhas falantes voando sobre uma vassoura:

Pelo amor de deus, do que mais o espectador precisa?? Minha resposta particular categórica: de mais nada. Não sei se foi porque o assisti depois de um dia de merda no trabalho, contudo a real é que as piadinhas bobas me fizeram gargalhar várias vezes. Só posso agradecer.


🎥Ex Machina (2014 - by Alex Garland)  1/2
Esse filme recebeu tremendo alarde positivo, no entanto, na minha opinião etc®, é outra besteirada, porém daquele tipo que se leva a sério demais e, logo, nada divertida. Não rolou comigo. (Ou foi simplesmente mais um dia de azedume pessoal; o que é sempre uma possibilidade real.)

Ele me fez suspeitar de que possivelmente preciso incluir mais um tema na minha lista negra: "inteligência artificial". Talvez o "problema" nem seja o tema, mas a maneira com que ele é explorado. Minha impressão é que ele costuma render tanto clichê, tanto lugar-comum, tanta mesmice, tanto filme que se esforça pra ser inteligentão e que só derrapa no sabão, tanto... Já deu pra entender, né?

Acho que a única parte legal que salvo desse filme é <SPOILER:> quando Ava (Ava? Serião, amigos?) também deixa o louro paspalho* trancado lá na casa sem nem piscar duas vezes ou olhar pra trás. (*Como esse ator conseguiu dar certo em Hollywood, continua sendo um mistério pra mim, aliás. Desculpa.)

No geral, e especialmente por conta das cenas finais, o filme acabou me fazendo lembrar de uma passagem - uma pergunta de uma mulher, especificamente - que reli hoje mesmo em um livro: 
"- Vocês, homens, por que é que querem sempre ser tão magníficos?"  (Max Frisch, Stiller - 1911). Simplesmente viver já é tão extraordinário; entretanto nunca parece ser suficiente, né? Se uma IA consegue perceber isso, deve ser mesmo o fim da linha pra gente.

E não resistirei à canetada: Ex Machina é o Clube da Luta dos 2010's (na minha opinião etc®).

→ P.S.: esta ilustração do Scott C. (Campbell), por sua vez, ficou bem legal:
 Via Instagram: @scottlava

🎥Um Dia no Campo (Une Partie de Campagne) (1936 - by Jean Renoir) 1/2
Ora, ora; pois não é que o senhor Monteiro Lobato andou protagonizando uma adaptação cinematográfica de um conto do Maupassant, dirigida por Jean Renoir??!!!! Juro!! A prova está na mão, espie só:
George Darnoux, o Monteiro Lobato francês.
Sendo um filme inacabado do Renoir, é até (mais) injusto brincar de cravar estrelinhas pra ele. E não sei se essa também seria a razão, porém a verdade é que o corte abrupto para o final me deixou muito confusa. Não entendi a cara apaixonada da moça ao reencontrar o francês interiorano, dado que a forma com que a relação dos dois foi dirigida/encenada/gravada claramente me fez pensar que a câmera de Renoir sugeria uma cena de estupro. Pirei na batatinha (é sempre possível)? Mas, mas, então, pra que esse close final na cara da moça que tentava rejeitar as investidas insistentes do rapaz?
Não cortei a imagem; a cena na tela inteira aparece desse jeitinho.
Ah, junto com o do Rohmer, foi outro filme que falou um pouco sobre o silêncio da natureza. Curiosa e bonita coincidência. Adorei.


🎥12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men) (1957 - by Sidney Lumet) ⭐⭐
Uma vez que ando metida com a série O Poder do Mito, não há outro jeito, senão tomar emprestada uma expressão do Joseph Campbell, reconstruindo-a para sumarizar minha impressão geral:     
esse filme exibe as imagens de um ritual, pois trata-se da encenação de um mito; o Mito das Redes Sociais, também conhecido em outras culturas como o Mito da Caixa de Comentários. ¯\_(ツ)_/¯
Outro ponto que ficou reverberando na minha cabeça, ao final do filme, foi este: BASTA 01*. A coragem de uma única pessoa para remar contra a maré, na defesa daquilo que julga como a atitude certa, pode mudar (para continuar na simbologia que adotei:) o sentido do fluxo de uma corrente marítima. (= Sempre bom lembrar: "basta 1" pro "bem" ou pro "mal", correto?)


P.S.: tinha que ter uma patetada (confessa) nesse DC, né? Certo. Pois eis que eu estava "nossa, se a Jane Fonda fosse homem, ela seria a cara desse moço aí". Well, pois ele chama-se Henry Fonda, não é mesmo? Tipo, ele só é o pai da Jane Fonda; um detalhe, assim, sem nenhuma relevância realmente.
[hahahah... sério, que deus me ajude.]


🎥Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette) (1948 - by Vittorio de Sica) ⭐⭐⭐⭐⭐(💛)
Que paulada; Jesus, Maria e José.

Tão perto, tão longe; cruzar ou não cruzar a linha ética/moral? ↷ Fora as inúmeras bicicletas que cruzam o caminho desse pobre homem ao longo de todo o filme, quando apenas umazinha resolveria a encruzilhada de sua família de quatro pessoas.

Acho que morri um pouquinho a cada uma destas espiadas pra cima que Bruno manda para o pai. ↷ (Ou seja: sim, morri totalmente, e este diário está sendo psicografado.) 🌟BRUNO.🌟 Que grande personagem, e que atuação deste garotinho - Enzo Staiola. 
Vou ali beber uma água, para destravar a garganta antes do próximo filme.


🎥 O Show deve continuar (All that jazz) (1979 - by Bob Fosse) 
Uma vez que minhas expectativas estavam nas alturas, o tombo da decepção foi feio. Pra mim, não teve condições: muito, muito chato. (*confissão: cochilei durante uns 30 minutos, inclusive. = Menos 05 pontos no jogo da cinefilia.)

Juntando essa impressão à minha reação ao filme Opening Night/Noite de Estreia, elaboro a teoria de que eu simplesmente não aprecio/não tenho paciência para a temática da "Jornada do Artista /  Calvário do Artista / Alegrias e Tristezas da vida de um Artista."

Escolho separar esta fala aqui, pois é boa demais para ser desprezada:

e Jessica Lange, por motivos mais do que óbvios:


🎥 Bom Comportamento (Good Time(2017 - by Benny Safdie, Josh Safdie) 
Que filme totalmente excelente!! Antes de vê-lo, eu não dava nada, e fui maravilhosamente recompensada. Os irmãos Safdie aprontaram uma misturada bacaninha de vários gêneros e referências cinematográficas, da qual resultou algo novo e excitante de ver.

Arriscando uma tentativa de descrevê-lo, eu mandaria o seguinte: "Ratos e Homens, do Steinbeck, adaptado pelos irmãos Cohen para uma versão cinematográfica moderna e on drugs, só que com o volume do humor bem reduzido." Muito legal, de verdade. 

Também me chamou atenção o fato de que o rastro de pessoas "atropeladas" pelos branquelos tenha sido formado por personagens negras (a caixa do banco, o motorista do hospital, a mulher com o pai vindo do hospital + a filha dela, o segurança do parque, a vizinha do segurança que chama a polícia) que apenas tentavam ser generosas ou somente lidar com as intempéries de suas próprias vidas da melhor forma que conseguiam. Curti essa alfinetada.

E o final? Com aquele close formidável na cara atônita do Pattinson (ótima atuação, aliás) constatando para onde estava indo, após testemunhar o que o outro escolheu fazer para não seguir o mesmo destino? Porrada boa. Ah, e a trilha sonora só melhorou tudo. Play!




🎥A História de Adele H. (L'histoire d'Adèle H.(1975 - by François Truffaut) 
Aqui, ocorreu outra patetada minha: apenas na metade do filme percebi de onde vinha aquele "H" e quem era essa "tal" Adele. Et bien:

É a história da filha do Monsieur Hugo!!
Em linhas gerais, o filme concede mais um caso a ser discutido pela turma do conto do Raymond Carver  Molejão: era amor ou era cilada?

Ah, e proponho duas comparações relevantes para uma minuciosa análise acadêmica da cinefilia:
(1) Adele H. x Maria do Bairro:

(2) Adele H. x Tuxedo Mask:


🎥Gilda (1946 - by Charles Vidor) 1/2 
E finalmente posso associar uma personalidade a este famoso gif:


Considerando-se que Gilda não tem nadinha a ver com aquilo que eu supunha, a experiência de assistir a esse filme acabou sendo peculiar. Sei lá por quê, mas sempre imaginei que essa personagem da Hayworth seria mais uma daquelas tipicamente interpretadas pela Monroe: uma mulher ingênua, meio bobinha e meio sem gracinha, que só existe para seduzir homens bocós. (*nada contra a Monroe, veja bem; mas né? É.) Não diria que Gilda chega a ser uma tremenda personagem feminina, porém o pouquinho a mais concedido aqui (em relação àquilo que antecipei encontrar) já foi suficiente para me surpreender.

Visualmente, achei o filme muito bonito mesmo (de longe, é o melhor da obra); com interessantes cenas que brincam com luz e sombra - falo em especial daquelas em que a câmera revela somente a silhueta dos atores na penumbra; ou dos diálogos em que uma personagem está na luz, a outra, na sombra. No mais, confesso que esse me pareceu ser mais um daqueles filmes que aparentam ser complexos e profundos, mas que acabam revelando pontos rasos quando tentamos sair da superfície. As principais queixas que me vêem de pronto à cabeça são: motivações das personagens frouxamente construídas e alterações de conduta exageradamente súbitas.

Ah, e logicamente, eu não poderia deixar de registrar o óbvio ululante: o que é o figurino usado pela Hayworth em Gilda??!!!! Minhas escolhas:
Strike 1:
Strike 2:
Strike 3: 
Sonharei eternamente com esse casaco de paetês.
Xeque-Mate:
A cena com o vestido tomara que caia preto parece ser a mais famosa do filme, contudo, dentre aquelas em que Hayworth canta/dança, essa aí em Montevidéu é disparamente A grande cena. Na minha opinião etc®.


🎥 A Harmonia Werckmeister (Werckmeister Harmóniák ) (2000 - by Béla Tarr, Ágnes Hranitzky
Uau, muita calma nessa hora. Organizarei e registrarei as impressões e ideias rudimentares iniciais para, posteriormente, avaliar se cabe cruzá-las com o que pretendo pesquisar sobre esse filme.

Em tópicos, anoto o seguinte:
1. Câmera/olhar do cineasta: super paciente, não acelera os acontecimentos para satisfazer a ansiedade do espectador. Esse olhar do Tarr me encantou profundamente, a ponto de considerá-lo... Bruxaria? O cara me aparece enquadrando durante segundos e segundos uma mesma paisagem e, mesmo assim, concedo-o prazerosamente toda a minha atenção. É um olhar que praticamente confere vida àquilo que observa; o inanimado torna-se animado diante de sua contemplação etc. Sim, acho que é bruxaria realmente. (Ok, eu sei que é técnica, no entanto essa resposta não tem graça.)

2.  Identificação com o protagonista János: enquanto a humanidade se entrega aos apelos dos grupos da (falsa) construção e da destruição, eu permaneço indiferente, na medida em que todo meu entusiasmo e fascínio são dedicados ao deslumbramento diante de um ser tão belo e incrivelmente misterioso como a baleia. Ah, e o final reservado para gente assim ficou apropriadamente explícito e... certeiro?

**ATUALIZAÇÃO EM 02/05/18**
E agorinha mesmo, uma atual leitura entregou uma definição de Heidegger que suponho relacionar-se com essa minha proposta de separação dos grupos da cidade - János x Demais. Registro pra mim:
"Heidegger spoke of two modes of existence:
The Everyday Mode - filled with wonderment about how things are in the world.
The Ontological Mode - filled with wonderment that things are in the world."
János e eu, avalio, estaríamos mais voltados para esse Modo Ontológico. Será? Confere ou me catapultei em direção ao espaço? Bom, deixo aí o complemento do devaneio.
**FIM DA ATUALIZAÇÃO**

Recordo-me que a poeta polonesa Wislawa Szymborska tem um verso e uma frase que denunciam o sentimento similar, ainda que ela tenha usado animais distintos:
2.1. (Contexto: ela fala daquilo que ela só é capaz de fazer quando habita seus próprios sonhos:)

       Elogio dos Sonhos

       Nos sonhos
       eu pinto como Vermeer van Delft

       (...)

       vi dois sóis.

       E anteontem um pinguim.
       Com toda a clareza. 

De que maneira ver e compreender o que é um pinguim, senão em sonho??
.
2.2. Quando Szymborska escreve sobre suas impressões de leitura do livro A Book of Mysteries, de Thomas de Jean, ela destaca que ela mesma prescinde de uma coletânea de mistérios mega cabeludos e anomalias tremendamente bizarras como aquela, pois: (tradução livre minha)
"Um sapo na grama está bom pra mim". ("A frog on the grass is fine with me.")
- Wislawa Szymborska, Nonrequired Reading, traduzido para o inglês por Clare Cavanagh.
Ou seja, um simples sapo de boas no jardim (ou uma baleia?) já representa o mistério que impõe desafio suficiente à plena compreensão. Concordo, e a única diferença é que eu, particularmente, sempre recorro a um único animal para descrever esse tipo de destrambelhamento: tartarugas marinhas.
...

O problema é que, pelo que li, parece que apontam a Baleia do filme como símbolo do capitalismo/totalitarismo?! Ah, e que ela representaria extensamente a própria sociedade Húngara  - aqui, sem surpresas. Eita, então minha percepção seguiu um caminho totalmente oposto, hein? Pra mim, ela refletiria aquilo que foi desvirtuado pelo homem, pelo Príncipe. Hum...

Pior que, pesquisando a simbologia da baleia, observei que ela é, sim, recorrentemente associada a aspectos, digamos, negativos. Em Moby Dick mesmo - que não li -, descobri que ela assume papel de um símbolo que permite múltiplas conexões: God, Satan, innocence, nature, death, the id, the super-ego, America, the ideal, or nothingness. Oh well.

(grifo meu:)
Whale: Symbolic of the world, the body and the grave, and also regarded
as an essential symbol of containing (and concealing). Rabanus Maurus (Operum,
III, Allegoriae in Sacram Scripturam) lays particular stress on this aspect.
Nowadays, however, the whale seems to have acquired more independence as a
symbolic equivalent of the mystic mandorla, or the area of intersection of the
circles of heaven and earth, comprising and embracing the opposites of existence
- J. C. Cirlot, Dictionary of Symbols


3. A cena inicial em que o sistema solar é encenado pelos frequentadores do bar provocou-me uma epifania meio evidente: o universo é uma dança!!


Mas é claro!!!!! Aliás, nem bem o filme começa e ele já me obriga a segurar o choro, por conta daquele papo a respeito do desnorteamento que a escuridão súbita, durante o eclipse solar, provoca nos seres vivos. A delicadeza do discurso surge quando a fala de János ressalta: a escuridão é transitória. Acho uma metáfora bonita e, por que não, útil.

4. Ah, e desejo registrar a reflexão do estudioso, a fim de lê-la mais cuidadosamente:
(infelizmente, a legenda que obtive não contém o nome do tradutor, para que eu conceda os créditos.)
Tenho que esclarecer isto para que não fique dúvida; que não é um problema técnico, senão uma questão filosófica. De modo que o tom do sistema em questão, por investigação, nos conduziu inevitavelmente a uma prova de fé na qual perguntamos: o que é que nos faz crer que esta harmonia, a base de cada obra mestra referindo-se a sua própria  irrevogabilidade, realmente existe ou não? 
Disto segue que devemos falar de não investigação na música, se deve falar de uma realização única de não-música, algo que durante séculos nos foi ocultado. Um escândalo terrível que devemos revelar. Daí a situação vergonhosa de que todos os intervalos nas obras mestras de muitos séculos são falsos. O que quer dizer que aquela música e sua harmonia e eco, seu encanto paralisante está completamente baseado em um fundamento falso. Sim, temos que falar de um engano inquestionável. Ainda aqueles que não estão muito seguros, os pequenos moderatos, devem comprometer-se. 
Mas que tipo de compromisso, se para a maioria a tonalidade musical pura é uma simples ilusão e os intervalos musicais verdadeiramente puros não existem? Aqui temos que reconhecer o feito que aqueles tempos eram mais afortunados que os nossos, aqueles de Pitágoras e Aristófanes, quando nossos antepassados se satisfaziam com o feito de que seus instrumentos puramente afinados só podiam ser tocados em alguns tons, já que não lhes inquietavam as dúvidas, para eles as harmonias celestiais eram provenientes dos deuses. Mais tarde, como se isto não fosse o bastante, uma arrogância desencontrada decidiu tomar posse de todas essas harmonias dos deuses. O fizeram a sua maneira. Deram cargo aos Técnicos com a busca da solução, Praetorius, Salinas, e finalmente Andreas Werckmeister, quem resolveu a dificuldade dividindo a oitava da harmonia dos deuses, os doze tons médios, em doze partes iguais. De dois semitons, ele falsificou um. Em vez de dez teclas pretas, cinco foram usadas e assim concluiu. 
Temos que dar as costas a este desenvolvimento dos instrumentos, ao chamado Temperamento igual e a sua triste história, devemos trazer de volta a afinação natural dos instrumentos. Cuidadosamente, temos que corrigir os erros de Werckmeister. Temos que no referir a estas sete notas da escala, mas não desde a oitava, e, sim, como sete qualidades distintas e independentes. Como sete estrelas fraternais no céu. O que nós temos que fazer agora, se somos conscientes. Essa afinação natural tem seus limites, e é um limite algo inquietante que exclui definitivamente o uso de certas cimas demasiadamente elevadas.

🎥 Um Dia Muito Especial (Una giornata particolare) (1977 - by Ettore Scola(💛)
Que filme LINDOOOOO!!! Como diria um moço aí do You Tube: perfeito, perfeito. Atuações incríveis da Loren e do Mastroianni (tão encantadores juntos), ritmo e diálogos afiados, com uma trama doce e delicada, tudo em plena visita do traste do Führer. Gostei bastante também das cores desbotadas - bege, verde musgo, marrom, terracota -; uma espécie de bandeira italiana meio apagada/enlameada; não sei.

Fiz gifs de algumas cenas favoritas, para guardar aqui no diarinho:





🎥 Os Amores de uma Loira (Loves of a Blonde) (1965 - by Milos Forman) 
Se eu tivesse de dar estrelinhas exclusivamente pelos 20 minutos finais desse filme, com certeza eu daria cinco e um coraçãozinho. Pra mim, foi realmente uma cena estupenda, daquelas que fazem com que toda a sequência inicial de um filme cresça e ganhe ainda mais força, provocando a vontade de rever a coisa toda. Foram mesmo atuações e diálogos brilhantes entre os pais e o filho pianista bocó, mais a coitada da Andula. Sem sombra de dúvidas, a imagem preliminar dos velhacos soldados casados e à caça de mocinhas (de modo praticamente literal) logrou a proeza de parecer ainda mais patética e abominável após a maravilhosa (mas triiiiiste toda vida) cena que arremata a obra.

E o filme possui uma trilha sonora bem delicinha:




Essa sequência final, com essa música... Socorro. Mas é isso, né? A vida?

🎥 Um Anjo em minha Mesa (An Angel at my Table) (1990 - by Jane Campion 1/2 (💛)
Filme recomendado pela queridíssima Agnès Varda não tinha como dar errado, tinha? Certo; a real é que até tinha, porém esse deu super certo, felizmente. Amei demais, demais.

Tonta do jeito que sou, registro a patetada: foi só por volta da metade do filme que constatei tratar-se da autobriografia da escritora neozelandesa Janet Frame! Que burra, dá zero pra mim, Professor Girafales. (* Nota pessoal: preciso ler um livro da Frame o quanto antes.)

Escolho dois registros para fazer.

(1) Este admirável diálogo entre a Frame e o psiquiatra inglês:
        



(2) e esta belíssima cena:

Gif: eu que fiz®
Veja bem, essa não é uma cena qualquer. É a imagem de uma mulher linda, livre, nua; à vontade em sua própria pele e com sua sexualidade, após oito anos trancafiada em um sanatório, onde fora submetida à eletroconvulsoterapia em decorrência de um diagnóstico equivocado de esquizofrenia. Espetacular.

Ah, e tenho quase certeza de que ela foi inspirada em uma pintura famosa (aliás, muitas cenas do filme remetem a pinturas), mas comi bola na hora de identificar o quadro exato. O ponto mais próximo a que consegui chegar foi este quadro do espanhol (a cena ocorre na Espanha!) Joaquín Sorolla:
Swimmers - Joaquín Sorolla
Posteriormente, lembrei também deste quadro lindo, lindo do Kupka:
L'eau - Frantisek Kupka
🎥 Noite de Estreia (Opening Night) (1977 - by John Cassavetes) ⭐⭐
Poxa, e com essas míseras duas estrelas para esse filme, acabei voltando cinco casas no meu jogo rumo à cinefilia pseudointelectual. Que merda. 

Assim, Gena Rowlands está excelente tal e coisa, mas achei chato demais da conta, gente. 
Ah, e uma dúvida: será que a Madonna se inspirou nesse filme para o clipe de What it feels like for a girl???!!  A centelha me ocorreu por conta destas cenas (Gif's: eu que fiz®):

   

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