03/07/2019

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #04 - história do guerreiro e da cativa

(Sinopse, info, etc: link / Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre história do guerreiro e da cativa: link 2
- Minhas postagens anteriores:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos.

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Durante a leitura do livro Os Diários de Emilio Renzi, escrito por Ricardo Piglia, esbarrei com este esclarecedor trecho a respeito dos contos de Borges:
"(...) Borges sempre foi um contista clássico, seus finais são fechados, explicam tudo com clareza; a sensação de estranhamento não está na forma - sempre clara e nítida - nem nos finais ordenados e precisos, mas na incrível densidade e heterogeneidade do material narrativo."
                      - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi - Anos de Formação (Tradutor: Sérgio Molina) 

Tomo emprestadas as palavras de Piglia para teorizar que história do guerreiro e da cativa tem um final fechado e preciso que explica tudo com clareza; ou, expresso de outro modo, um final que, tal qual a epígrafe de o imortal, entrega de bandeja a chave do conto. Ora, depois da suadeira que tive para desatar os nós de os teólogos, ficou fácil destrinchar o presente texto, especialmente quando seu arremate se dá através desta sentença:
"Talvez as histórias que contei sejam uma única história. O anverso e o reverso dessa moeda são, para Deus, iguais." 
Ou seja, em termos de temática, história do guerreiro e da cativa consiste em uma narrativa que condensa a teoria dos monótonos (referente à circularidade da história) e a cosmologia dos histriões (baseada em imagens especulares/duplos). Focando-se na narrativa das personagens do guerreiro e da cativa, é possível antecipar uma repetição circular do movimento entre mundos bárbaros ↔ civilizados, o qual é realizado por indivíduos que simbolizam as faces de uma mesma moeda e que, por conseguinte, constituem uma unidade. Isso permite inferir, a propósito, que não há juízo de valor entre aqueles pólos do deslocamento: um não é superior ao outro, e não cabe falar em termos de evolução/involução, progresso/declínio. Conforme escrito pelo próprio autor, eles são, para Deus, iguais. Curiosamente, recordei que, em janeiro de 2019, a revista Época noticiou uma narrativa real transcorrida no Brasil que sustenta a teoria de circularidade especular das histórias do guerreiro e da cativa. Organizando a sequência, fica:


- no século VI/VIII (?), o bárbaro lombardo Droctulft abandona os seus para juntar-se à civilização de Ravena;

- no século XIX, a loira inglesa emigrada de Yorkshire, após ser levada à força por índios na Argentina, acaba por integrar-se definitivamente à vida na tribo indígena;

- em 2004, a índia Lulu Kamayurá, por intermédio da atual ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, parte de sua tribo no Xingu para viver em uma grande capital do país.


Por sinal, é divertido constatar que este conto acaba assumindo, ele mesmo, o papel da imagem especular do conto anterior, que agora novamente retornaria, portanto, na forma de um duplo. Isto é (parafraseando Borges:), os teólogoshistória do guerreiro e da cativa seriam uma única história, o anverso e o reverso.
*

Estou ciente de que, no meu post para os teólogos, já extrapolei a cota de sandices relativas à unicidade formada pelas teorias da circularidade e dos duplos, logo não adicionarei desvarios correlatos. Haverá, contudo, uma diminuta emenda que nasceu a partir da releitura que fiz de minhas próprias postagens anteriores.

No post sobre o imortal, eu tinha incluído um breve comentário relacionado ao filósofo italiano Giambatistta Vico (citado por Borges naquele conto) e sua teoria de uma história cíclica. Admito que, a esta altura da empreitada, eu já tinha me esquecido por completo "desse tal" Vico; porém, quando reli o que eu havia escrito naquela ocasião, imediatamente baixou-me um espírito detetivesco e conjecturei que talvez valesse a pena investigar melhor o camarada. Ok; textinho lido aqui, textinho lido acolá, prontinho: garanto estar uns 89,7% convencida de que as ideias desse filósofo italiano do século XVIII têm tudo a ver com história do guerreiro e da cativa. Embora nem de longe minha superficial pesquisa tenha me tornado expert na filosofia viquiana, ousarei destacar dois pontos das ideias do filósofo que ~aparentemente~ conectam-se com a narrativa deste conto borgiano.

Vico, ao intermediar a lendária treta que existia entre naturalistas (Grócio) e céticos (Carnéades), contribuiu com ideias que defendem a convergência entre a sociabilidade natural do homem e a artificialidade do mundo civil. Aliás, é engraçado que, ao fazer isso, Vico denuncia o duplo constituído por céticos e naturalistas (um retorno circular dos monótonos e histriões?!); e por Carnéades e Grócio (o retorno circular de Aureliano e João de Panônia?!) Que preciosidade! Bom, minha hipótese é que essa premissa de Vico corrobora a concepção do duplo estabelecido pelo guerreiro e pela cativa, o anverso e reverso do humano. Na tentativa de demonstrar essa hipótese, sintetizarei mal e porcamente essa parte da teoria do filósofo.

A compatibilidade entre as noções de estado selvagem e sociabilidade natural se apresenta quando Vico afirma, por um lado, que o ser humano é por natureza sociável e, por outro, que ele recaiu e pode sempre recair na anosmia provocada pela completa dissolução das instituições sociais. O italiano formula uma concepção histórica da natureza humana na qual existiria um estado selvagem resultante do isolamento voluntário de alguns indivíduos. Dessa forma, Vico quer demonstrar o caráter social da natureza humana por meio de uma via negativa: a natureza humana não subsiste sem instituições (→ no conto, elas estariam representadas na emblemática descrição da cidade de Ravena); o homem isolado é incapaz de conservar as propriedades que o distinguem dos animais (→ lembrar da passagem em que a índia loira bebe o sangue da ovelha degolada).

A filosofia viquiana igualmente me parece fundamentar a circularidade presente em história do guerreiro e da cativa, notadamente em referência à movimentação barbaridade ↔ civilidade. As instituições estabelecidas, conservadas, transformadas pelos seres humanos e das quais depende a sociabilidade humana variam no decorrer do curso histórico que as nações percorrem, o que implica no surgimento de novas propriedades na natureza humana. O esquema histórico defendido por Vico concebe três idades sucessivas, definidas segundo a teoria da forma de governo:

a idade dos deuses: governo patriarcal pré-político
a idade dos heróis: a república aristocrática
a idade dos homens: a república popular e a monarquia

A história da natureza humana trata-se de um processo pelo qual a natureza selvagem é modificada sucessivamente por distintos tipos de instituições. Nesse contexto, as vontades humanas e a autoridade das leis, a qual também depende do reconhecimento dos homens, são o único fundamento sobre o qual se assentam as instituições (→ recordar que guerreiro e cativeira escolhem, por vontade própria, seus destinos finais). A derrocada das instituições racionais da idade humana voltaria a instalar a natureza humana nas condições da barbárie primitiva, começando um novo ciclo histórico. Dessa maneira, Vico defende uma História que evolui mediante uma circularidade marcada pela alternância entre ascensão e queda de nações, as quais eternamente avançam e recuam através desse ciclo, passando por cada uma daquelas três idades diversas vezes.

Por tudo isso, enfim, creio que Borges praticamente pegou um significativo substrato da tese de Vico e o transformou num de seus contos. Derrapei no sabão?

[P.S.: quando li que Vico associa a barbárie à derrocada das instituições e a um estágio em que o egoísmo dos cidadãos impede a confiança mínima indispensável para que a sociedade propriamente humana se conserve, passei a questionar seriamente se nossa atual realidade social corresponde à fase histórica da transição para a barbárie, a fim de iniciarmos futuramente um novo ciclo. Será? Xi.]

[Principais fontes: 1. Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico; Edufu, 2018 2. Internet Encyclopedia of Philosophy: Giambattista Vico.]

**

Quanto à forma, suponho ser possível dividir este conto em duas partes: na primeira, o autor desenvolve algo que se aproxima de um artigo técnico redigido por um historiador; enquanto a segunda se aproxima da estrutura que eu mesma recorrentemente utilizo ao comentar minhas leituras no blog. Borges blogueirinho?! EITA! Calma, não ria, porque o papo é sério. Acompanhe meu raciocínio finíssimo. Borges inicia história do guerreiro e da cativa contextualizando técnica e historicamente sua leitura (informa autoria, datas, sinopse etc) e, em seguida, passa a narrar as memórias pessoais que foram-lhe evocadas a partir daquele respectivo livro, conferindo à segunda parte um tom confessional de memorialista. Inclusive, pensando desse jeito, é possível dizer que reaparece um dos temas de o imortal referente à concepção de imortalidade relacionada a livros. Um livro (o do historiador Paulo) puxou outro (o livro de Croce), que puxou outro (o conto de Borges), que puxou este post de blog, que puxou... Uma matriosca literária!

Outro marcante aspecto narrativo corresponde ao fato de que Borges parte de fatos reais - Droctulft realmente existiu, como também são verídicos o livro de Croce e os textos do historiador Paulo - para criar uma obra dita ficcional. Ainda que a narrativa seja inventada, ela é construída de modo que pareça tão verdadeira quanto os elementos apropriados a partir do "mundo real". Dia desses mesmo, li um trecho em que novamente Piglia discute esse exato método narrativo:
"O curioso desse aparente verismo é que ele justifica, com os fatos "verdadeiros", uma narração imaginária. (...) tornar verdadeiro um mundo real e me apoiar em fatos que aconteceram para construir um romance no qual tudo é imaginário, exceto os lugares, alguns eventos e o nome dos protagonistas. (...) 
O romance como indagação da realidade. (...) uma vez que a história já está no real, e é necessário poder reconstruí-la e narrá-la, como se não fosse inventada."
                     - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi - Anos de Formação (Tradutor: Sérgio Molina) 

Nem é preciso esforço para notar essa engrenagem, pois Borges a revela no texto mediante um convite explícito (ah, e reencontro a figura do narrador que não tem certeza do que narra):
"Não sei sequer em que época aconteceu (...). Imaginemos (este não é um trabalho histórico) (...) 
Muitas conjecturas podem ser aplicadas ao ato de Droctulft; a minha é a mais econômica; se não for verdadeira como fato, será como símbolo."
Imaginar! é o grande lema da literatura, e Nabokov defende justamente isso no texto Bons leitores e bons escritores, lido recentemente:
"Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto tanto à arte quanto à verdade. Todo grande escritor é um grande impostor, mas assim também é a natureza, essa trapaceira contumaz."
        - Vladimir Nabokov; Bons leitores e bons escritores (Lições de Literatura). (Tradutor: Jorio Dauster)

***

Desde o primeiro conto, Aimée ressalta a recorrente contestação da personalidade que se faz presente na obra de Borges. Certo, pois assimilada a dica, avalio que essa questão é abordada neste conto. A concepção do duplo guerreiro/cativa refuta a noção de personalidade, substituindo-a pela noção de equivalência entre os homens. Além do mais, enquanto vivo, Droctulft logrou a artimanha de ser tanto herói, como traidor. Ora, em determinados instantes de sua vida e a depender do ponto de vista (italianos / lombardos), ele foi simultaneamente herói e traidor! 

Esta bela passagem, por exemplo, propõe uma outra perspectiva para essa reflexão:
"Imaginemos Droctulft, sub especie aeternitatis*, não o indivíduo Droctulft, que sem dúvida foi único e insondável (todos os indivíduos o são), mas, como ele e outros, o tipo genérico criado pela tradição, que é obra do esquecimento e da memória. "
 * = sob a forma de eternidade

Nela, Borges parece cindir a identidade humana em duas partes coexistentes (duplo de novo?): uma singular, repleta de pormenores; outra universal, que se estabelece via narrativas/arquétipos/símbolos que se repetem circularmente ao longo da história da humanidade. 

****

E não é que, uma vez mais, associarei um conto de Borges às narrativas de super-heróis? #audaciosa Como já previamente compartilhado neste diarinho, não entendo nadica do universo de super-heróis, no entanto, durante o eventual contato com tais narrativas, comumente algo bastante específico me inquieta: de onde vem o apego quase doentio dessa galera por suas respectivas cidades?! Fico intrigada pelos discursos que se concentram na importância de defender não uma pessoa(s) ou sociedade, mas sim a cidade. Daí, Borges insere em história do guerreiro e da cativa uma descrição tão bela do fascínio que teria acometido Droctulft em relação à cidade de Ravena, que acredito que o enigma que me consome na relação super-heróis x cidades aproximou-se de uma resposta: 
"(...) vê uma cidade, um organismo feito de estátuas, de templos, de jardins, de quartos, de arquibancadas, (...) de espaços regulares e abertos. Nenhuma dessas construções (bem sei) o impressiona pela beleza, tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo objetivo ignorássemos mas em cujo desenho se adivinhasse uma inteligencia imortal. (...) Bruscamente o cega e o renova aquela revelação, a Cidade. (...) não começará sequer a entendê-la, mas sabe também que ela vale mais que seus deuses e sua fé (...)"
*****

Agora uma confabulação extrapoladora bastante particular. Nos stories do instagram, Tatianne Dantas havia compartilhado um comentário peculiar que um leitor homem (supostamente) lhe escrevera no seu vídeo resenha para o livro Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy: "Eu não sou sexista mas honestamente este romance não é nada para as mulheres". Por que não seria para mulheres? O moço não se deu o trabalho de justificar, então parti para suposições: ou ele acha que mulheres são incapazes de compreender a prosa de McCarthy e/ou ele acredita que a história do autor americano não diz respeito/interessa a mulheres que, estando restritas ao meio doméstico, sequer viram passar o bonde da sangrenta história expansionista dos EUA, permanecendo ilesas a tudo. E o que isso teria a ver com história do guerreiro e da cativa? Bem, até certo ponto, ambas narrativas de Borges e McCarthy exploram movimentos históricos de expansão territorial marcados por violência extrema entre brancos e índios. Nessa onda, eis que desponta Borges narrando como duas mulheres se viram metidas no olho do furacão expansionista na Argentina. Que essas histórias pertencem a homens e mulheres (infelizmente), não me resta dúvida. Após a leitura deste conto de Borges, portanto, inevitavelmente acabei revivendo a amolação promovida pela confusa assertiva daquele leitor.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]
Puxa, e não é que um duplo me passou batido?! No vídeo, Aimée diz que o próprio Borges (enquanto narrador do conto) e o diácono Paulo também são o anverso e reverso da moeda. Ela explica que Paulo, em seu trabalho como historiador, dedicou-se (dentre outras coisas) a escrever a história dos lombardos. Borges, por sua vez, ao assumir-se como narrador da história, se converte a historiador no momento em que decide contar as histórias de sua avó, as quais simbolizam a história de formação da América. Creio que não identifiquei esse duplo porque encaro a segunda parte do conto, aquela em que Borges surge explicitamente como narrador, como detentora de um aspecto formal mais próximo de um texto de memórias, do que exatamente histórico. Entretanto, isso serviu para que eu relembrasse algo super importante: são as histórias pessoais que compõem, conjunta e simbolicamente, a grande História. Boa.

Entrando na paranoia de procurar duplo em todos os lados, comecei a achar que talvez eu e Aimée estejamos compondo um duplo. Duas leitoras de Borges, separadas no tempo e no espaço, em diferentes estágios de intimidade com a obra do autor argentino. Rola? Náh, passei do ponto, né? Beleza; então é hora de encerrar o post. ;)

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