23/10/2019

[alinhavando autoficções] Here comes the sun, little darling

01
Em entrevista concedida a Stephen Colbert no começo deste mês, Thom Yorke falou algo (valendo-me das palavras de @livrisa:) que me trouxe reticências*. Comentando o título de seu novo disco solo - ANIMA -, ele expressou gostar da ideia de que todos nós temos pequenos animas que são enviados por aí, através de nossos black mirrors (celulares), para firmar comunicação. Só que, ainda conforme o querido músico, todos interpretam equivocadamente o que recebem, de modo que o pequeno anima retorna desfigurado e irreconhecível, feito bumerangue, direto na fuça do remetente (a metáfora é por minha conta). Na opinião de Yorke, é como se estivéssemos vivendo sob um estado de sonho bizarro, enquanto a realidade afasta-se em direção oposta. Provavelmente eu conseguiria vomitar um monte de trivialidades inspiradas nesse discurso, contudo pinçarei somente o ponto de partida do raciocínio dele, aquele relacionado ao ato de espalhar pela internet pequenos animas (sentido não estritamente junguiano, mas também "yorkiano" rs) de nós mesmos e de como eles são capazes de afetar o anima de alguém completamente desconhecido. [*: dentre os símbolos que adoto em minha marginália, constam justamente as reticências (uso bastante!); razão por que curti a expressão da Isabella Tramontina.]

Em abril deste ano, Luiza Pinheiro, autora da excelente newsletter Doses de Tiquira, enviou a cartinha #56, na qual ela narra o feriado de semana santa que desfrutara na praia de Campeche, em Florianópolis. O texto é lindo, super bem escrito, e me tocou profundamente, em especial os trechos em que ela reflete a respeito da experiência de ser uma mulher viajando sozinha pra praia, sem grandes planejamentos, apenas a fim de curtir um pouco de sol, mar e sossego. Embora me considere expert na arte de fazer coisas sozinha, ir só à praia, sobretudo a uma praia não urbana, continuava representando uma fronteira a ser ultrapassada, e sinto que a cartinha da Luiza Pinheiro me ofertou a dose de anima que me faltava. Em outubro deste ano, após seis anos em que períodos de férias foram gastos trancada sozinha em um apartamento, arrumei mala e cuia para passar pouco mais de uma semana na praia. Foram dias muito, muito felizes em que revi o mar e durante os quais - para resgatar meu último alinhavo - diversos animais concederam-me o privilégio de poder observá-los: tartarugas marinhas (nadei com elas!♥), tubarões (adulto e filhote!♥), golfinhos, aves marinhas, polvos, arraias, peixinhos multicoloridos, siris, moreia, lagartixas... Por volta do terceiro dia, admito que bateu uma desolação quando me olhei no espelho e constatei que as sardas se multiplicavam e os melasmas se expandiam por conta de toda aquela danação sob o sol. Esse sentimento, entretanto, morreu quando minha piegas poeta interior me informou que cada novo pigmento de melanina representava um segundo da alegria que eu estava sentindo naquelas férias. Em meu rosto, desenhava-se um mapa de instantes pessoais de felicidade. #poetei💩

Agradeço à Luiza Pinheiro (pessoa que sequer conheço, com quem sequer me comunico diretamente) o tantinho de anima recebido que permitiu eliminar de minha visão a barreira "proibido viajar sozinha para praias". Foi uma experiência que reforçou a intenção de lançar nesse blog-diarinho pedacinhos de meu anima que, com alguma sorte, possam afetar positivamente o anima de alguém. Não; mais fácil melhor: simplesmente manter o bumerangue no ar; relançando, na forma de relatos de gratidão, os pequenos e generosos animas que chegam até mim.

02
O autoficções #03 incluiu entradas em que devaneei sobre o medo despertado pelo mar, alinhavando Claire Denis, Don Delillo e Hugo Von Hofmannsthal. Pois dia desses decidi finalmente travar contato com a escrita do David Foster Wallace e é claro que escolhi começar pelo famosão ensaio sobre cruzeiros (*por sinal, ganhou uma nova dimensão depois da série Succession. Quem viu, sabe a que me refiro). Nessa leitura, me admirei quando Foster Wallace revela sentir real pavor do mar. Ele retoma os argumentos que eu já tinha citado com a ajuda daqueles artistas (em destaque: o mar nos faz confrontar nossa mortalidade e insignificância), porém acrescenta outro estupendo: a relação entre o efeito corrosivo do mar (pela maresia, salinidade etc) e nosso envelhecimento; nosso próprio processo de corrosão progressiva, digamos, rumo à morte. E Wallace completa a reflexão com a fascinante contribuição da obra Moby-Dick, do Melville (ainda não li; fuén). Insiro a passagem (grifos meus; tradução: Daniel Galera e Daniel Pellizzari):
"(...) eu senti desespero. (...) uma mistura simples — um estranho anseio pela morte combinado com um sentimento esmagador da minha pequenez e da minha futilidade, que se apresenta como um medo da morte. Talvez seja algo próximo daquilo que as pessoas chamam de pavor ou angústia. Mas é bem outra coisa. É como desejar morrer para escapar da sensação insuportável de compreender que sou pequeno e fraco e egoísta e que sem a menor dúvida vou morrer. É querer se atirar do navio. (...) Eu, que antes desse cruzeiro nunca estivera no oceano, sempre associei o oceano com pavor e morte. (...) Na escola, acabei escrevendo três trabalhos diferentes sobre o trecho “O Náufrago” de Moby Dick, o capítulo em que o grumete Pip cai no mar e enlouquece por conta da imensidão vazia onde se vê flutuando. (...) E o próprio oceano (que descobri ser salgado como o inferno, salgado como gargarejo para aliviar dores de garganta, com borrifos tão corrosivos que a armação dos meus óculos provavelmente terá de ser trocada) é em essência um enorme mecanismo de decomposição. (...) Mas num Cruzeiro de Luxo 7nc somos envolvidos com destreza na construção de fantasias variadas de triunfo sobre essa morte e essa decomposição."
                           - David Foster Wallace, Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer.

Persisto no papo sobre o medo do mar não apenas pelas novas reverberações obtidas com David Foster Wallace, mas principalmente porque descobri, nessas férias, que eu mesma tenho mais medo do mar do que supunha. Sério; logo que lá cheguei, me caguei de medo de entrar na água. - E se uma corrente me arrastar? E se um tubarão me morder? Uma moreia?! E se eu pisar numa arraia? E se eu encostar numa água-viva? E SE EU MORRER? O que me ajudou a dominar o pânico foi o anima de um mergulhador chamado - que rufem os tambores - Matrix! O mergulho guiado (de snorkel) equivaleu a tomar a pílula vermelha (ou seria a azul?). Continuei medrosa, entretanto com um medo apenas respeitoso (bem sabemos que o mar exige respeito) e menos infantil, diria. Muito obrigada, Matrix. Daqui, devolvo novamente bons animas pra você.

P.S.: depois de tanto pensar no mar nas últimas autoficções, percebi que é hora de sacar da estante a coletânea de poemas da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. O Coral e outros poemas saiu do plástico e, no momento, repousa sobre a cabeceira, ou seja, o mar seguirá molhando os posts do bloguinho. 🌊 (*E como é triste pensar nas últimas notícias do que ocorre na costa do Nordeste.)

03
Acho engraçada a parte em que, naquela newsletter, Luiza ressalta que a decisão de ir sozinha à praia não envolveu algum grande propósito, a resolução de alguma questão ou a necessidade de repensar algum aspecto da vida; pois receio que meu caso teve, sim, um tantinho desses clichês. Conforme adiantei no autoficções #01, em agosto me submeti novamente ao bisturi do cirurgião (sem intercorrências, pós-operatório tranquilo), de maneira que, se o pó me lançou ao mundo com "x" órgãos, ele terá de se contentar em me ter de volta com "x-2". Parcelei meu retorno, e ~é estranho~.

A primeira versão do post continha maiores detalhes (melodramáticos), porém a cafonice e o #TMI me fizeram apagá-la. É hora de substituir o anima de novela mexicana pelo anima da grande filósofa Mary J. Blige:

Let's get it crunk upon
Have fun upon up in this dancery

(...)
'Cause we celebrating 
No More Drama in our life

No mais, ousaria confessar que, durante a viagem, rolou a sensação de protagonizar um daqueles contos "praianos" da Lucia Berlin (coletânea Manual da Faxineira, tradução: Sonia Moreira), nos quais mulheres solitárias e infelizes recorrem a um tempo na praia para uma espécie de... recalibragem? reconfiguração? cicatrização? luto? Não sei. No entanto sei que, em Toda Luna, todoaño e Dor, a autora americana conseguiu fazer o clichê "retiro na praia para repensar a vida" funcionar. De volta ao lar, reli os dois contos e me encantei ainda mais com o uso do mergulho como experiência catártica para as protagonistas de Berlin. Não, não transei embaixo d'água com um mergulhador gostosão (ah, como a ficção é mais legal do que a vida real, hein? rs), porém agora sei exatamente do que a Berlin fala, quando ela fala de mergulho no mar*: (grifos meus):
"O peso desapareceu. Não só o peso do tanque, mas também do seu próprio corpo. Ela estava invisível. Batia os pés, usando pés de pato pela primeira vez, planando pela água. Por causa do bocal, ela não podia rir nem gritar. (...) Ela continuou voando,
(...)
Sem peso, você perde a si mesmo como ponto de referência, perde seu lugar no tempo. (...)
No mar alto, duas tartarugas verde-escuras acasalavam, flutuando nas ondas. (...)
O que ela ia fazer quando voltasse para casa?"
                                                                                               - Lucia Berlin, Toda Luna, todoaño 

*E olha que só mergulhei de máscara + snorkel, viu? (Infelizmente, me dei conta de que meu histórico clínico contraindica o mergulho de cilindro.) O objetivo da ressalva é anima(r) um mergulho, caso surja qualquer tipo de oportunidade, ok? 

04
Durante essas férias, o livro Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero (Tradução: Joca Reiners Terron) me fez companhia, e me surpreendeu encontrar nele a tangente abordagem da temática "viagens". Logo no início, o narrador de Levrero diz algo curioso relacionado aos sentimentos pré-viagem:
"(...) essa angústia habitual (...) mistura de temor ao desconhecido com uma nostalgia antecipada pelas coisas e espaços de minha casa."
                                                                                                  - Mario Levrero, Deixa Comigo.

Eu me identifiquei com essa mistura doida de sentimentos, e costumeiramente é uma luta árdua impedir que a referida angústia leve a melhor e me mantenha presa à teia de aranha. A propósito, foi por um bem-vindo acaso que, dias depois de ler a prosa de Levrero sobre as teias de aranha, a @casatorquato (delicado perfil do instagram + youtube, uma @ distribuidora de bons animas) me mostrou essa foto linda de teias na natureza. A família Torquato, Levrero e eu estamos com os animas sincronizados. 🕷🕸

05
Nesse livro do Levrero, o mencionado fotógrafo capaz de captar a beleza das teias de aranha é encarado, pelas pessoas da cidade em que morava, como uma figura excêntrica. Quanto a ele, um morador comenta (grifos meus):
"(...) um tipo estranho, mais ou menos da tua idade, que sempre anda sozinho por aí, sentado na praça, às vezes o vejo agachado olhando uma plantinha, não sei, essas coisas. Às vezes inclusive tira fotos, mas não de paisagem nem de gente, e sim de paredes descascadas, coisas assim, entende? Não sei se alguma vez escreveu algo, mas tem o tipo, percebe?"
                                                                                                - Mario Levrero, Deixa Comigo.

Matutei que talvez esse seja o motivo por que morro de vergonha de sacar o celular da bolsa, no meio da rua, para tirar fotos de coisas que me sensibilizam. Caramba, foi durante essas férias na praia que, pela primeira vez, arrisquei tirar selfie em público. Na realidade, há pouco fui empurrada por outro ótimo distribuidor de animas inspiradores. Em um post de setembro, Austin Kleon compartilhou fotos em que ele captura a imagem da lua naquelas primeiras horas da manhã, e fiquei mega empolgada dado que, por sair bem cedo pra trabalhar, eu própria estava avistando a lua toda bonitona nas manhãzinhas, porém sem coragem de tirar foto. Com o anima do Kleon, superei o constrangimento e agora tenho a lua comigo:

06
Tirei boas sonecas embalada pelo barulhinho gostoso do mar - ASMR da natureza! -, mas a água da chuva também canta um sonzinho melodioso. Leituras recentes me mostraram que Florbela Espanca e Roberto Arlt percebem o chamado à dança feito pela chuva (pelo mar). Cartier-Bresson, recordei, já congelou em imagem o som e a dança pluviais.

🌧☔Florbela Espanca x Roberto Arlt (O Brinquedo raivoso) x Cartier-Bresson x A Melodia da chuva:

07
No meu álbum anexado no topo deste post, incluí uma frase do Larry David na série Curb Your Enthusiasm: "Não se pode nem sair de casa". Cabe, aqui, explicar o cômico contexto (para que eu, no futuro, não esqueça). Naquele episódio, Larry sai pra jantar com sua esposa Cheryl e, no restaurante, encontra ao acaso um amigo. Ele se empolga, troca conversa fiada com desenvoltura etc. No entanto, quando Larry volta para sentar-se à própria mesa, Cheryl o repreende por ele não ter cumprimentado a esposa do amigo. Larry papeou com o coleguinha como se a respectiva esposa não estivesse ali, ignorando-a completamente. A câmera aproveita a deixa para alternar closes da cara da desdenhada, que ri ironicamente, ao mesmo tempo que fuzila Larry com olhares oblíquos. Larry sente-se péssimo (afinal, além da bola fora social cometida por um babaca, Larry é o George Constanza, o que significa dizer que, todo mundo tem que gostar dele), o jantar resta arruinado e ele solta o aforismo máximo: Não se pode nem sair de casa. A reação bebe um pouco da fonte sartriana "o inferno são os outros", né? É embaraçoso confessar, porém simpatizo com o bobalhão (intersocial) Larry nessa. Tivesse ocorrido comigo, sei que ruminaria o faux pas social durante um mês, pelo menos. Para evitar esse tipo de coisa, o que a gente faz? Fica em casa. Fica preso na teia de aranha. Não tira foto. Spoiler: fica no subsolo? ↷

Puxarei a filosofia do Larry David para alinhavar dois livros lidos recentemente: Normal People, da Sally Rooney e Memórias do Subsolo, do Dostoiévski.
Calma, calma. Ok, em princípio são obras díspares, contudo há ao menos uma coisinha que as une. Acho. É o seguinte: o personagem narrador do Dostô e o protagonista da Rooney não conseguem livrar-se do sentimento "o inferno são os outros". Tal qual Larry David/George Constanza, o irlandês do século XXI e o russo do século XIX vivem presos à crença de que, sim, todo mundo precisa gostar deles; caso contrário, é melhor ficar no subsolo, é melhor nem sair de casa, é melhor não revelar publicamente o namoro, é melhor desistir das ambições acadêmicas, é melhor... Apesar da identificação vexatória, a leitura ofereceu o precioso ensejo para pensar o "problema" (?) mediante saudável distanciamento - quando leio, o problema não está comigo, está com a personagem; o que torna as coisas relativamente simples e nítidas. Enquanto estive enforcada nesse nó de marinheiro russo-irlandês, uma imagem ficou persistentemente piscando na minha mente, digo, outra fala de personagem de série de TV. Refiro-me a esta aqui, dita por Don Draper em Mad Men:
Na cena, um ex-funcionário da agência diz na lata uns impropérios sobre o Don, soltando tudo o que pensa a respeito do grande publicitário que, de seu lado, replica com a frase icônica: eu sequer penso em você. Pois quanto mais eu me apoquentava com o sofrimento das personagens da Rooney e do Dostoiévski, mais sentia vontade de chacoalhá-las: "Parem com isso, rapazes; essa aflição neurótica não vale a pena. A verdade é que os outros estão se lixando pra vocês. Sigam o exemplo de Don Draper, seus tontos!" A própria narrativa da Rooney contém uma evidência: SPOILER!!!! > posteriormente, o moço descobre que toda a escola já sabia do namoro que ele julgava esconder e - adivinhe só? - ninguém.se.importava. Até o conto da Lucia Berlin flerta com o mesmíssimo tema:
"Eu me sinto tão nua. Tenho a impressão de que todo mundo está vendo as minhas cicatrizes."
"Sabe uma coisa que eu aprendi? A maioria das pessoas não repara em absolutamente nada ou, se repara, não dá a mínima."
"Você é tão cínica."
                                                                                                    - Lucia Berlin; Dor.

Saí dos desvarios propostos pelas duas leituras com a conclusão (óbvia, reconheço) de que é ilógico estressar-se com a opinião de um outro que, na real, nem está pensando em você; ou, quando o faz, é frequentemente mal, não importa o que você faça. Talvez o ideal seja alcançar o meio termo entre as filosofias Larry David-Don Draper?! (*Pausa*: juntando os miolinhos do chão, depois que minha mente explodiu imaginando um combo entre os dois sujeitos.) Julgarão esquisito que eu esteja viajando sozinha pra praia? Tirando foto da lua pela manhã? É justo. Eu, do lado de cá, me esforçarei para não pensar nisso. Voilà. Por que eu deveria me alimentar de anima negativo? (Falar x Fazer... etc etc.)

08
Outro alinhavo divertido que andei estabelecendo é entre Dostoiévski e Machado de Assis:
Quanto mais minha leitura de Memórias do Subsolo avançava, mais impressionada eu ficava com os elementos que a obra compartilha com Memórias Póstumas de Brás Cubas. A dada altura a coisa estava tão gritante, que apostei como certa a existência de artigos acadêmicos abordando os paralelos; o que de fato procede. Dentre os trabalhos localizados no google, destaco o artigo escrito por Elis Regina Basso, publicado em 2015 na revista Travessias (link aqui), pois ela faz um estudo bem estruturado,  listando cada um dos pontos em comum.

Decidi acrescentar esse alinhavo neste post porque, a despeito das diversas semelhanças entre os dois livros, identifiquei uma hilária diferença entre o personagem russo e o brasileiro, a qual dialoga bem com minha entrada anterior número 07 ⤴. Assim como o "homem-rato" (termo adotado por Nabokov) de Dostoiévski, Brás Cubas tem consciência de ser uma pessoa tosca e insignificante, no entanto isso não é suficiente para que ele recolha a dita insignificância ao subsolo. Por deus, nem depois de morto ele aceita o subsolo (!), pois tá lá insistindo em encher nossos pacovás com seu memento de puro papo furado. Em termos chulos: Brás Cubas está cagando. Brás Cubas sairá de casa sim, tirará foto da lua sim e não pensará em ninguém. Presumo que o estudo comparativo dessas duas personagens possa desvendar um pouco do que significa ser brasileiro. Será? Sei lá, mas fica o registro da hipótese.

09
Na praia, consegui também começar a leitura do livro As pequenas virtudes, escrito por Natalia Ginzburg (Tradução: Maurício Santana Dias). Por enquanto, li apenas o ensaio O meu ofício, no qual a italiana discorre a respeito de sua relação com a escrita. Visto que eu já tinha comentado no blog que me interesso demais em entender o que atrai as pessoas à escrita, é compreensível que eu tenha sido prontamente fisgada pelo atrativo título da italiana. Além do mais, uma vez que muitos animas chegam até mim através de textos, julguei por bem alinhavar esse ensaio na presente postagem.

Embora O meu ofício permita devanear sobre uma porção de coisas, quero me ater, por enquanto, ao recorrente sentimento de felicidade que a autora diz acometê-la quando escreve.
"Tinha escrito meu conto (...) e me sentira feliz como jamais acontecera em minha vida, repleta de pensamentos e de palavras." 
                                                                                         - Natalia Ginzburg; O meu ofício.
Ginzburg menciona que, ao escrever, tudo se distancia e some, e ela está só com sua página; nenhuma felicidade pode subsistir se não estiver estritamente ligada a essa página. Isso me fez lembrar de algo correlato (e singelo) dito por Drauzio Varella em uma antiga entrevista cedida ao Publishnews (link aqui). Ali, o autor comenta sobre a sensação de felicidade que ele obtém sozinho naquele momento mágico em que escreve e sente que o troço ficou bom. Colo a transcrição:
No dia do escritor, a editora Martin Claret publicou no Instagram esta frase da Virginia Woolf: "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial." Tal assertiva despertou a crítica de uma seguidora que defendia a importância de ser lido, pois do contrário bastaria falar, e hoje acredito que o ensaio de Ginzburg e a resposta de Varella dissipariam a ligeira confusão que se estabeleceu na troca daqueles animas. Ora, se eu mesma, uma tonta que só escreve tonterías em um blog lido por ninguém, experimento um puro contentamento ao terminar um post, imagine então o que se passa no íntimo dos grandes escritores quando escrevem. A própria Ginzburg diz não saber nada do valor daquilo que escreve, entretanto isso não sobrepuja a felicidade advinda de seu ofício. 

Elaborei a teoria (estapafúrdia?) de que talvez um pouquinho dessa felicidade surgida no momento em que um texto é escrito seja transmitida, sob a forma de anima, para o leitor. Se bobear, é a chave do enigma das divergentes respostas provocadas por um único livro: se apaixonam pela obra aqueles que são tomados pela felicidade originada no instante de sua criação. #Poetei de novo?💩

10
Na despedida, a dona do albergue desejou que eu retornasse e que, da próxima vez, eu vá com amigas. Também espero o mesmo. Entretanto, caso companhias não sejam possíveis, não deixarei que isso impeça meu retorno; afinal não há anima mais vigoroso do que aquele que a natureza nos presenteia, certo?

19/10/2019

[DROPS] Não sai da minha cabeça: Succession (HBO) - S01 & S02

[*Inspirado na série de artigos do site The Cut - Link aqui.] 

Top 5 de bobeiras que não saem da minha cabeça a respeito das duas primeiras temporadas de Succession, série de TV da HBO. Bora pra listinha:

💰
Acho massa que o pôster principal de Succession inclua a turmitcha sentada à mesa para uma refeição ~em família~; e creio ter encontrado no texto de John Berger The eaters and the eaten (ainda que escrito em 1976!) argumentos delicinhas que dialogam excepcionalmente bem com a genial onipresença da comida no roteiro de Succession. Seguem trechos pinçados do ensaio:
(*tradução e grifos são meus):
"Para a burguesia, o drama de comer, longe de ser repousante, é um estímulo. O convite teatral da cena frequentemente provoca dramas familiares nos momentos das refeições. O espaço do típico drama edipiano não é, por mais lógico que possa ser, o quarto; mas a mesa de jantar. A sala de jantar é o espaço de reunião onde a família burguesa aparece para si mesma em disfarce público, e onde os interesses conflitantes e as lutas pelo poder são perseguidos de maneira altamente formal. (...) A burguesia come em excesso. Especialmente carne. (...) Se a escala da refeição for espetacular, todos compartilham a conquista, e o tédio é menos provável. A conquista partilhada não é, fundamentalmente, a da culinária. A conquista é a da riqueza. (...) A variedade, a quantidade e o desperdício de comida comprovam a naturalidade da fortuna. (...) O jeito burguês de comer é centrado na fantasia, no ritual e no espetáculo: é centrífugo e cultural. (...) nunca está completo e dá espaço para um apetite que, essencialmente, é insaciável."
                                                                         - John Berger, The eaters and the eaten (1976)

💰💰
Foi a primeira vez que ouvi a expressão "a man with two assholes" e - que me perdoem os caros tradutores - estou convicta de que qualquer tentativa de tradução que implique na eliminação do potente sentido imagético acoplado a ela estará fadada ao fracasso. (Se bem que o nosso "cuzão" chega super perto, não? Hum.)
(...)
É; essa cena e essa pergunta não saem da minha cabeça... Como será a sensação, né? Ser casada com um tonto que tem dois c*s? (hahahadlauragdshkadsjkdhiewr *help*)

Na moral, a performance do Mr. Darcy Matthew Macfadyen está tão fabulosa, que basta uma batida de olho na figura, para que se possa dizer com tranquilidade: Esse aí, esse aí é um cuzão. 













💰💰💰
Livros não têm o mesmo protagonismo da comida, porém são igualmente bem aproveitados pelos roteiristas da série. Três pérolas:
 
   ➽Por falar em cuzões:

   ➽ O pernalonga de batom® da esquerda tá na área:

    ➽ A turma está sendo acusada de crimes gravíssimos, e o que o double asshole man® tem a dizer               a respeito do denunciante? Voilà:


💰💰💰💰
Ainda sobre livros: não sai da minha cabeça a possibilidade de estabelecer um paralelo entre Succession e a Tetralogia Napolitana da Elena Ferrante. A escritora italiana aborda na série (dentre outras coisas, é lógico) a forma como a pobreza é capaz de embrutecer as pessoas e as relações humanas (familiares, sobretudo), contudo Succession aparece pra ressaltar que o excesso de dinheiro também pode produzir efeito correlato, embora manifeste-se de maneira diversa.


💰💰💰💰💰
Pera, pera; quer dizer que vivemos numa era em que até o tamanho do guarda-chuva faz parte da competição entre os caras? Essa atualização levará um tempinho para ser processada.
(...)
[Falando com um tantinho de seriedade (não é meu forte, porém tento):] Pode parecer um detalhe bobo, mas, poxa, é uma imagem que traduz de modo sutil, perspicaz e cômico a filosofia da pirâmide social capitalista: com esse tamanho descabido de guarda-chuva, no espaço público por onde passariam seis pessoas, agora só passam dois ~folgados~.

**Bônus Outra imagem simples, que aparece rapidinho como quem não quer nada no S02E10, entretanto com ideia similar e que, além do mais, retoma a discussão sobre a comida que chega à mesa daquela galera:

04/10/2019

[Alinhavando] "What do guinea pigs do?!"

Como o mundo está cheio de sinais e maravilhas que vêm e vão,
 se você tiver sorte, talvez os veja.
- Helen Macdonald
Fotógrafo: Pentti Sammallahti
Com o breve Opening a Gate (2001), John Berger me apresentou ao fotógrafo finlandês
Pentti Sammallahti, cuja obra é marcada por uma bela peculiaridade: onipresentes cachorros, em parceria com a peculiar luz captada pelas lentes do artista, aparentam oferecer ao observador a chave que abre o portal de acesso a um lugar fora e além. Nossa rotina é feita de trocas diárias com aquilo que nos cerca, de modo que o que vemos nos confirma, porém Berger assegura que a ordem costumeiramente captada por nossos olhos não é única; ela coexiste com outras ordens invisíveis à visão humana. Ainda na opinião dele, os cães - com suas patas bem adaptadas à corrida, o faro aguçado e a boa memória para sons - são experts das fronteiras naturais dos interstícios e, se prestarmos atenção, é possível reparar nos olhos deles não apenas uma sintonia com a ordem humana, mas também com outras ordens visíveis no mundo. Nesse contexto, Berger confabula que foi provavelmente um cachorro que atraiu Sammallahti para o local e instante de captura de suas imagens, nas quais a ordem humana parece desvanecer da posição central, enquanto os interstícios se abrem. Ao googlar as fotos do finlandês, descobri que outros animais aparecem como via de acesso às ordens que escapam do nosso alcance sensorial. Contudo, de fato o crítico já tinha admitido em suas divagações que talvez a parte do visível não destinada a nossos olhos esteja reservada aos pássaros noturnos, alces, furões, baleias... Escolho outras duas fotos do Sammallahti para ilustrar:
Pentti Sammallahti
🐶

Durante a leitura de uma coletânea de poemas do Rainer Maria Rilke, esbarrei com a Oitava Elegia (integra o Elegias Duinenses), que é praticamente a versão versificada daquele texto escrito por Berger. Colo aqui a foto de uma parte do poema, traduzido por José Paulo Paes (Companhia das Letras):

Então o "lugar fora e além" mencionado por Berger, cujo acesso é guardado pelos animais, transforma-se, no idioleto Rilkiano, em "o Aberto". Percebe-se que Rilke concorda com Berger quanto à possibilidade de captar, nos olhos do animal, uma sintonia com ordens múltiplas, não restritas àquela tipicamente humana:

"pelo semblante do animal; desde pequenina,
obrigamos a criança a voltar-se e ver, atrás,
só o Aparente, não o Aberto, que 
na cara do animal é tão profundo. Isento de morte."

Felizmente não passarei vergonha expondo minha interpretação do poema, pois José Paulo Paes oferece no livro uma concisa, porém excelente, análise. Ele diz que, na Oitava Elegia, Rilke contrasta o modo humano de ser do homem com o modo animal. Como seres conscientes nos quais sujeito e objeto estão separados, estamos sempre "de frente" para o mundo e não mais dentro dele. Nossa consciência da mortalidade cria a chatinha (o adjetivo é por minha conta) concepção de tempo, o que nos afasta da vida na imediatez. Os animais, por sua vez, não se distinguem do mundo em que estão imersos, vivendo na plenitude do presente = na eternidade. O curioso é que, para Rilke, só vislumbramos o Aberto (a "totalidade  intemporal") quando nos aproximamos da morte, ou enquanto amantes (← essa eu curti). Ótimo, no entanto o que questiono é: não seria igualmente possível ao menos triscar o Aberto mediante a observação de animais? Não me refiro a vê-los displicentemente como meras atrações de um circo, zoológico ou documentário; mas sim à observação, digamos, neutra, despida da tentativa de humanizá-los, possivelmente até reverenciosa (dado que partiria de uma assumida ignorância). A ideia que me vem à mente, inclusive, é arriscar uma quase fusão com o animal, visando efetivamente apreender outras ordens. 
🐒

Encontrei confirmação de parte de meus devaneios no livro da Helen Macdonald chamado F de Falcão (Tradução: Maria Carmelita Dias), ao qual recorri deliberadamente em busca de apoio, quiçá mais perguntas. A obra tem uma interessante forma híbrida (boa mistureba de ensaio, memórias, crítica literária, biografia, elaboração do luto...), porém, para este post, o que me interessa é o que a autora, experiente praticante de falcoaria, compartilha a respeito da relação que estabelece com o açor que treinava.                                                                                                                                                                                      Minha vacilante proposta de um tipo especial de observação, aquilo que arrisquei nomear como uma quase  "fusão" momentânea com o animal, aparentemente se sustenta com o relato de Macdonald. Aprendi com a inglesa que, para treinar um falcão, deve-se observá-lo como um falcão, de tal modo que o bom falcoeiro gradativamente não mais precisará interpretar a linguagem corporal do animal, posto que logo sentirá o que o animal sente, notará o que o animal nota, ou seja, a apreensão do falcão será a dele. Ela emenda dizendo que a falcoaria permite exercitar a qualidade camaleônica definida por Keats, a habilidade de "tolerar uma perda de si mesmo e uma perda de racionalidade por confiar na capacidade de se recriar em outro personagem ou outro ambiente." Macdonald chega mesmo a usar uma expressão preciosa para minhas reflexões (grifo meu): "Eu me colocara na mente selvagem do açor, (...) minha humanidade se desintegrava." O ser humano, egocêntrico e vaidoso que só ele, usualmente não está disposto a perder uma parte de si, muito menos tem coragem de abrir mão da única ordem "confortável" com a qual está familiarizado, do que resulta a dificuldade de pôr em prática o tipo de observação sobre a qual reflito neste post. Embora árdua, sinto-me tentada a arriscar, principalmente por me agradar demais a chance de desintegrar minha humanidade

Em concordância com a Oitava Elegia, o açor de Macdonald vive na totalidade intemporal: "Não podia haver arrependimento nem luto em Mabel. Nem passado nem futuro. Ela vivia somente o presente, e esse era meu refúgio." Sim, acho que essa noção de refúgio, essa promessa de viver uma ordem diferente da minha é o que tanto está me atraindo ao tema. Aliás, no filme Kes (Ken Loach, 1969), ao qual assisti recentemente, um falcão também aparece como o refúgio de alguém, especificamente de um garoto pobre pertencente à classe operária inglesa. Macdonald usava seu açor para fugir dos dolorosos sentimentos relacionados à morte do pai; Billy, por sua vez, recorria a um falcão para fugir da família desestruturada, da escola opressora e do sistema econômico que pretendia empregá-lo, ainda criança, em trabalhos insalubres. 
Na cena ilustrada acima, o diálogo entre o garoto e o professor é fascinante. Eles comentam que os falcões nos fazem sentir estranhos; quando voam, tudo fica quieto, somos invadidos por um súbito silêncio ("It's as if they're flying in a pocket of silence. / É como se voassem em um bolso de silêncio").    O professor repara que, sem perceber, os dois estavam ali falando mais baixinho, quase sussurrando tal qual ocorre quando, em uma missa, receamos elevar o tom da voz. Ele atribui tal reação ao respeito instintivo do homem perante a imagem do animal. Billy concorda e reconhece que o falcão o faz um favor ao permitir que o observe. (Ok, naquela condição de cativeiro, o bicho meio que não tem escolha, né?, entretanto pulemos a problematização pertinente, para que a matilha prossiga, beleza? rs, jizuis...)

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Por falar em filme, uma linda animação croata em stop motion intitulada Imbued Life (Ivana Bosnjak, Thomas Johnson - 2019) também ampliou esses ecos que reverberavam em minha mente. Antes de tentar elaborar, através da escrita, um resumo tosco da história, colarei o print de quatro cenas que guardei no lado esquerdo do peito na minha pastinha virtual:


Para facilitar a proposta de uma interpretação para o curta, associarei às imagens uma estrofe extraída de um poema (They are the last - 2001) do Berger que, puxa vida, além de um comunistão da p* (😁), ainda era poeta. Nem sabia. Enfim, seguem os versos:

Now that they have gone
it is their endurance we miss
Unlike the tree
the river or the cloud
the animals had eyes
and in their glance
was permanence.
            - John Berger 

Na Oitava Elegia, Rilke havia dito que é apenas pelo semblante do animal que sabemos o que há fora; o que Berger chama aí de permanência identificada no olhar. Quando os animais morrem, perdemos o elo com o Aberto. Pois a animação de Bosnjak propõe um arrebatador exercício de imaginação: e se pudéssemos coletar, a partir dos cérebros de animais mortos (por causas naturais, é lógico), filmes fotográficos contendo o registro visual da realidade capturada, em vida, pelos olhos deles? Como seria afinal conseguir enxergar o que os animais enxergam? Efetivamente ver através dos olhos dos animais? Bem, a taxidermista de Imbued Life realiza precisamente isso. Ouso dizer que o final do curta trabalha com a possibilidade daquela tal fusão que venho martelando; talvez até extrapolando-a, uma vez que a narrativa me parece sugerir o restabelecimento de uma plena conexão humana à natureza. Em idioleto rilkiano, equivale dizer que a taxidermista sai da frente do mundo, para finalmente entrar nele.

🐳

Retornou-me à memória aquela música do Damon Albarn chamada Mr. Tembo, a qual narra a história do elefantinho órfão Mr. Tembo, um dos moradores de um parque nacional da Tanzânia. Antes de prosseguir, um play rapidinho: (*com a participação da Pentecostal CityMission Church Choir - Leytonstone, Londres)


Uma vez tomada pelos pensamentos que ora compartilho, estes versos passaram a me inquietar:
Mr. Tembo is on his way up the hill                /    Sr. Tembo está a caminho do topo da montanha
With only this song to tell you how he feels    /   Tendo apenas esta canção para expressar o que sente

E aí? Será mesmo que o senhor Tembo é incapaz de expressar seus sentimentos sem a ajuda do Damon Albarn? Sem essa música, o elefante não comunica nadinha aos seres humanos? Um tanto pretensioso, não? Falta-lhe o domínio da linguagem humana, de nossa língua falada (ou cantada, que seja), contudo será mesmo que qualquer tentativa de captar o que o animal (certamente?) comunica está fadada ao fracasso? É, por certo, uma empreitada complexa (despir-se de parte de nossa humanidade para recriar-se como um elefante?! por onde começar?! como perceber o que não se vê?), ok; mas aí já é outra história. A deficiência deve ser nossa, visto que permanecemos reféns da palavra, em cuja onipotência somos crentes fervorosos. Aproveitarei para jogar um poema da Orides Fontela que, a meu ver, expressa muito melhor a complicação que identifico no produto "palavra  x  animais":

Cisne
Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?

Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
                                 e sangue.

                                 E
                                 resta
não o cisne: a
                                 palavra

- a palavra mesmo
                                cisne.

                          - Orides Fontela

Para não correr o risco de sugerir amargura por uma música tão singela, digo estar de total acordo e disposta a ajudar Mr. Tembo, com muito carinho, com o que ele porventura necessite. No mais, claro, cabe recordar que comecei esse post com uma fotografia. Depois parti para um poema, e depois para um livro, daí filme e agora uma música. ARTE! Obviamente Berger entra em cena (The White Bird, 1985) para assinalar que a arte não imita a natureza; ela imita a criação, às vezes para propor um mundo alternativo, noutras vezes para amplificar, confirmar, tornar social a breve esperança oferecida pela natureza. Ainda que eu tenha encasquetado com aqueles versinhos do Albarn, sua música, enquanto arte, oferece uma resposta organizada àquilo que a natureza apenas ocasionalmente nos permite vislumbrar. Ele certamente conseguiu ver algo especial no senhor Tembo, e essa música foi a resposta.

🐘

Também me peguei fazendo novas ruminações a respeito de uma notável prévia leitura. Trata-se do livro Turtle Diary, uma pequena preciosidade escrita em 1975 por Russell Hoban (e já transformada em filme). 

Na ocasião em que o li, fiquei atordoada com o efeito especular produzido, uma vez que ele me colocou diante de duas personagens solitárias e infelizes que nutriam um fascínio mal explicado por tartarugas marinhas. Como era possível?! A obra de Hoban me fez crer que a Biblioteca de Babel tem ao menos um livro escrito especialmente para cada um de nós, inspirado em nossas experiências neste mundo. Com sorte, o encontramos enquanto vivos.

Meu resgate da obra decorre de marcantes lembranças acerca das reflexões que as personagens embarcam enquanto, no aquário* da cidade, observam tartarugas marinhas. Aqui, contudo, há uma observação unidirecional, digo, as personagens não conseguem quebrar a estranheza evocada pelo animal, provavelmente porque o observam segundo a ordem humana visível. Quer dizer, caem na armadilha da humanização. No livro de Hoban, a observação das tartarugas marinhas aproxima-se mais de um exercício de autoconhecimento, de processamento de confusos sentimentos pessoais. É como se, através do olhar direcionado às tartarugas, as personagens buscassem encontrar sentido para as próprias vidas, uma resposta. Enquanto as observam, os dois protagonistas sentem-se desnorteados por conta da incapacidade de compreender como, a despeito de todos os desafios, aqueles animais mantêm-se firmes e resolutos no longo nado que os leva de volta à praia em que nasceram, a fim de procriar. Por que as tartarugas marinhas não desistem? A presença dos tubarões não causa-lhes medo? Elas pensam nos tubarões? O que as motiva? Elas precisam de motivação? No meio do percurso, elas cogitam desistir? Na realidade em que vivia, o casal sentia-se incapaz de achar razão para “prosseguir nadando”. Sim, é o "endurance" daqueles animais - PAUSA: Como traduzir "endurance" para o português? Não achei nenhuma palavra que pareça "boa o suficiente". Penso no combo resiliência + resistência + persistência - VOLTANDO: Sim, é o "endurance" daqueles animais, conforme dito por Berger, o que desconcerta as protagonistas do livro. De qualquer forma, tais questionamentos fazem-nas crer numa realidade, numa ordem melhor do que aquela habitualmente enxergada. Se isso não representar um alento, o que mais representaria?
"The mistery of turtles and their secret navigation is a magical reality, juice of life in a world gone dry. When I think of the turtles going into the ocean I think of it happening in that place that so badly needs a new reality."
                                                                                                 - Russell Hoban, Turtle Diary. 

Para possivelmente comprovar que meus devaneios fogem daquela simplória observação objetificadora e humanizante que tipicamente transcorre em zoológicos, vale registrar que as personagens de Turtle Diary se unem exatamente para libertar as tartarugas dos limites do vidro e devolvê-las ao mar. Noutro texto (Why Look at Animals? - 1977), Berger me ajudou a entender por que resisto em aceitar zoológicos como locais nos quais eu poderia conduzir o tipo de observação que almejo. O crítico defende que, em tais espaços, a visão surge sempre errada, como uma imagem fora de foco. A imposição do isolamento e dependência condiciona a resposta do animal a ponto de fazê-los julgar qualquer evento como marginal. Quando olhamos para o animal do zoológico, estamos sozinhos, pois o bicho marginalizado é incapaz de nos olhar de volta, de retribuir nossa mirada repleta de incompreensão.

A propósito, por fim encontrei em outro textinho do Berger (The White Bird - 1985) uma descrição satisfatória dos sentimentos que me invadem quando meus olhos avistam uma tartaruga marinha nadando em alto-mar: "For an instant, the energy of one's perception becomes inseparable from the energy of the creation." Aquele silêncio provocado pela presença de um animal, aludido pelo professor do Billy, deve resultar disso, do contato com a energia criadora. Aquela metáfora com a missa ficou ainda mais curiosa. 
🐢

Nesta postagem, subverti a premissa de que “o começo” é o ponto de partida de uma história, então retrocederei a fim de contar que todos esses desvarios começaram com a leitura do livro The Wall (1968), escrito pela austríaca Marlen Haushofer (tradução para o inglês: Shaun Whiteside). Até certo ponto, é possível alegar que a história de Haushofer integra o conjunto das narrativas robinsonianas*: da noite pro dia (literalmente), uma mulher que passava um fim de semana numa cabana localizada nas montanhas austríacas (The Alm) vê-se isolada por um muro “transparente”, visível apenas ao toque.     Do lado de lá do muro, a protagonista narradora só enxerga eventuais corpos humanos paralisados sem qualquer sinal de vida; enquanto do lado de cá, resta apenas ela, um cachorro, um gato e uma vaca. (*é esse o termo usado pela Academia?!)

A obra de Haushofer, no entanto, me proporcionou algo que nenhuma prévia narrativa robinsoniana alcançou: a experiência sensorial de encostar noutras ordens. A essa altura do meu campeonato, a frase “há outras realidades possíveis...” é chavão dito da boca pra fora, posto que, na prática, enfrento imensas dificuldades de perceber essas outras realidades. Desejo fervorosamente enxergá-las, entretanto isso não é suficiente. Embora sinta-me incapaz de sair da frente do mundo, a vertigem que senti lendo The Wall prova que, por breves instantes, o portal do interstício se abriu pra mim e, como não sou boba, entrei. E não me arrependi. Comparativamente às demais narrativas robinsonianas, teorizei que esse “êxito” do livro decorreu sobretudo das recorrentes e estimulantes reflexões que a protagonista narradora conduz a partir da observação dos animais com quem convivia. Não falo de qualquer observação, mas daquela experiência camaleônica descrita por Keats, conforme aprendi com a Macdonald. Quero dizer, nesse livro, a personagem se recria no ambiente (com o provável empurrão da experiência distópica). Partindo-se dessa hipótese, me joguei em divagações e, quando soterrada nelas, um livro providencial do John Berger materializou-se durante minhas navegações na internet: Why Look at Animals?** Era o acaso me informando que eu estava no caminho correto. (**Todos os textos do Berger previamente citados neste post fazem parte desse livro.)


Para não estender ainda mais meu lenga-lenga, apenas pontuarei alguns elementos da narrativa de Haushofer que considero mais significativos e que podem complementar/confirmar o que discuti até aqui. (Mas esse livro bem mereceria um post inteirinho dedicado a ele.)

     🐄  Retornando à musica do Damon Albarn (- não é pessoal, Albarn; juro que gosto de você e da música) a protagonista narradora de The Wall me chamou atenção para o fato de que minha pirraça precisava dar um passo pra trás: não basta perguntar se Tembo precisa do Albarn; cabe questionar se Albarn genuinamente conhece os íntimos sentimentos do elefantinho. Quem me garante que ele está certo? A personagem de Haushofer é mais humilde (?), pois confessa não ter como saber (não com certeza) o que se passava no mundo interior de seus companheiros.
(Falando de Bella, a vaquinha:) "I know nothing of how she feels. (...) I'm warm and alive, and she senses that I mean her well. We will never know anything about each other." 
Berger comenta que o olhar recíproco dos bichos é simultaneamente familiar e distinto, não se confundindo com o do homem que, observado de volta pelo animal, não se sente reconhecido (positiva ou negativamente). Esse olhar ocorre através de um abismo de incompreensão que não pode ser superado pela ponte de uma linguagem comum. 

       🐜 Também aqui repete-se a estranheza despertada notadamente pelo "endurance" percebido nos animais que vivem na eternidade. Insisto nesse tema sobretudo por conta das boas ramificações que ele gera, tal como reflexões sobre como nós lidamos com a morte e com a noção de liberdade. Pressinto haver nesse caminho a promessa de um relacionamento mais sereno com a árdua tarefa de estar viva no mundo. (Tradução minha, do inglês:)
"Eu estava simplesmente seguindo um instinto que tinha sido implantado em mim e contra o qual eu não poderia lutar, caso não quisesse me destruir. (…) Liberdade exterior talvez nunca tenha existido, (…) eu não sei o que pode haver de desonroso em suportar e persistir, tal como fazem todos os animais.
(…)
Talvez animais passem toda a vida em um mundo de terror e deleite. Eles não podem escapar e precisam suportar a realidade que lhes é apresentada, até que deixem de existir. Mesmo a morte deles é desprovida de consolo e esperança, uma morte real.”

O trecho em que ela fala das formigas é engraçado. Diante da determinação daqueles robôzinhos destemidos que nunca se distraem do trabalho, ela refere sentir uma mistura de admiração, medo e pena. Entretanto ela logo emenda sabiamente: "Só porque as observo com um olhar humano, é claro." Envolta nesses pensamentos, a "náufraga" percebe que a existência dos seres humanos é definida por um fardo singular:
"A única criatura da floresta que pode fazer o certo ou o errado sou eu. Sou a única capaz de mostrar misericórdia. Às vezes desejo que o peso da decisão não tivesse sido colocado sobre mim. Mas sou humana e só posso agir e pensar como ser humana.” 
É aquilo que bem sabemos: a consciência é simultaneamente nossa desgraça e fortuna.

Para fechar esse tema, quero incluir um trecho que muito me impressionou; é aquele em que a personagem fala de um "bizarro" corvo branco que era condenado ao ostracismo pelo bando de "normais" corvos negros. Trata-se de uma observação que a faz ponderar que nem os animais estariam livres de sensações de estranhamento. Com isso, atentei que os animais não são capazes de enxergar todas as ordens visíveis do mundo. É como se a natureza conferisse a cada animal (inclusive a nós, humanos?) o arsenal necessário para a percepção de uma única ordem (um punhado?), de modo que qualquer ameaça de ruptura nela é instintivamente rejeitada. Não sei.

         🐈 Por fim, há uma linda passagem no livro que, na minha opinião, é quase uma tradução das citadas cenas finais da animação Imbued Life. (Tradução e grifo meus:)
"Mas a floresta lida bem com a minha confusão. (...) Mesmo que eu destrua a urtiga cem vezes, ainda assim ela sobreviverá. Ela têm muito mais tempo que eu. Um dia eu deixarei de existir, (...) e a floresta avançará para além do muro e retomará o que o homem lhe roubou. Às vezes meus pensamentos se confundem, e é como se a floresta tivesse se enraizado em mim, pensando seus antigos e eternos pensamentos através de meu cérebro. E a floresta não quer que os seres humanos retornem."

Ah..., tinha tantas coisas mais pra falar... Porém chega, né? 

🐍

Puxa, dessa vez minhas bobajadas me permitiram contemplar uma conclusão: o Hot Priest e o Sérgio Chapelin são pessoas que fazem as perguntas que devem ser feitas. Para a turma da internet que fica aí tirando sarro dos dois (sim, tô no bolo), recordo que, nas peças do Shakespeare, o bobo da corte costuma ser o sábio detentor da razão. #micdrop 🎤